quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O Evangelho dominical - 01.09.2019


SEM EXCLUIR NINGUÉM!

Jesus participa num banquete convidado por um dos principais fariseus da região. É uma refeição especial de sábado, preparada desde a véspera com todo cuidado. Como de costume, os convidados são amigos do anfitrião, fariseus de grande prestígio, doutores da lei, modelos de vida religiosa para todo o povo.
Aparentemente, Jesus não se sente à vontade. Sente a falta dos seus amigos, os pobres, daquelas pessoas que encontra mendigando nas estradas, os que nunca são convidados por ninguém, os que não contam: excluídos da convivência, esquecidos pela religião, desprezados por quase todos.
Antes de se despedir, Jesus dirige-se ao que o convidou. Não para agradecer o banquete, mas para sacudir a sua consciência e convidá-lo a viver com um estilo de vida menos convencional e mais humano: «Não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, porque eles corresponderão convidando-te. Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; feliz tu porque não te podem pagar; pagarão quando ressuscitem os justos».
Mais uma vez, Jesus esforça-se para humanizar a vida, quebrando, se necessário, esquemas e critérios de atuação que nos podem parecer muito respeitáveis, mas, que no fundo, mostram a nossa resistência em construir esse mundo mais humano e fraterno, querido por Deus.
Normalmente, vivemos instalados num círculo de relações familiares, sociais, políticas ou religiosas com as quais ajudamo-nos mutuamente a cuidar dos nossos interesses, deixando de fora aqueles que não nos podem dar nada. Convidamos aqueles que, por sua vez, nos podem convidar.
Somos escravos de relações interesseiras, e não somos conscientes de que o nosso bem-estar só é sustentado pela exclusão daqueles que mais precisam da nossa solidariedade gratuita para poder viver. Temos de escutar os gritos evangélicos do papa Francisco na pequena ilha de Lampedusa: «A cultura do bem-estar torna-nos insensíveis aos gritos dos outros». «Caímos na globalização da indiferença». «Perdemos o sentido de responsabilidade».
Como seguidores de Jesus temos de recordar que abrir caminhos para o reino de Deus não consiste em construir uma sociedade mais religiosa ou promover um sistema político alternativo a outros, mas, acima de tudo, em desenvolver relações mais humanas que tornem possível condições de vida dignas para todos, começando pelos últimos.
José Antônio Pagola.
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-SEGUNDO DOMINGO | 01.09.2019


Prioridade absoluta para os pequenos, pobres e vulneráveis!
Jesus não desperdiça nenhuma ocasião para ensinar aqueles que o seguem. Como sabemos, ele, Palavra viva e atuante de Deus, propõe uma inversão radical na escala dos valores da sociedade e da religião, e não se cala nem mesmo na casa de uma autoridade, em pleno jantar para o qual havia sido convidado. Ele desenvolve a corajosa lição do evangelho de hoje num solene dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus, logo depois de afirmar que as necessidades de qualquer pessoa estão acima das leis. No mês dedicado à Sagrada Escritura, fixemos os olhos em Jesus, a Palavra que ressoa como Boa Notícia.
Como modelo de evangelizador, Jesus evita ficar na periferia ou na superfície das questões essenciais. Seu ensino de hoje não é sobre as regras de boas maneiras numa refeição solene, mas sobre um princípio fundamental da vida cristã: quem é o maior ou o primeiro, o mais importante ou notável na vida cristã? Jesus começa pela crítica ao orgulho e aos privilégios e passa à questão dos beneficiários da nossa atenção. Ele conhece o costume quase universal de privilegiar, tanto nas festas quanto nas decisões e projetos políticos e econômicos, os familiares, parentes, amigos e vizinhos. Para Jesus, este é um círculo muito estreito.
Inicialmente, Jesus fala aos hóspedes que estão com ele à mesa, afirmando que “todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. Depois, dirige-se ao próprio anfitrião que o acolhe festivamente, questionando sua expectativa de retribuição. E deixa muito claro que orgulho e a busca de retribuição são posturas sem base no Evangelho. O cristão pode ceder a honras e vaidades, mas buscar decididamente o lugar reservado aos servidores. Da mesma forma a Igreja: ela precisa superar a velha prática de servir, apoiar e defender prioritariamente as pessoas e instituições que podem favorece-la.
Prosseguindo, Jesus propõe a inversão da lista de grupos e pessoas que costumam aparecer no topo das nossas listas de honoráveis, presenças infalíveis entre os convidados das nossas festas e solenidades: os pobres, aleijados, coxos e cegos devem ser os primeiros! É claro que aqui Jesus não quer estragar nossa festa, mas questionar a estreiteza das fronteiras que traçamos entre ‘nós’ e ‘eles’, entre os ‘nossos’ e os ‘outros’. Jesus coloca em questão a busca de compensações que rege nossas pequenas e grandes ações. A verdadeira felicidade consiste em dar generosamente, sem cobrar dividendos, na terra ou no céu.
O saudoso Dom Helder Câmara nos ensina que o maior perigo que ameaça os cristãos e a hierarquia religiosa é o desejo de sempre vencer e jamais fracassar, de sentir-se sempre querido e nunca sobrar. E chegou a advertir um colega no episcopado: “Mais grave do que ser apanhado pela engrenagem do dinheiro, é ser apanhado pela engrenagem do prestígio”. Na verdade, a busca de privilégios e compensações é tão desgastante quanto infantilizadora: o caminho que dá acesso a eles geralmente passa pela subserviência, e é acompanhado pelo medo do anonimato e pelo apego doentio aos bens e a toda sorte de títulos.
Para quem segue o caminho de Jesus, a recompensa é prometida para ressurreição dos justos. Em outras palavras: a felicidade que ninguém pode roubar é aquela que conquistamos entrando pela estreita porta da humildade, da generosidade e da solidariedade. É a alegria profunda que experimentamos quando ouvimos da boca dos porta-vozes da vida o convite: “Amigo, vem para um lugar melhor!” E, enquanto caminhamos nesta direção, não há honra e alegria maiores que servir, compartilhar sonhos e lutas com aqueles que normalmente são ejetados para os últimos lugares. Eis o que nos testemunha a Palavra!
A Carta aos Hebreus nos diz que, em Jesus e na comunidade que o segue torna-se visível a assembleia dos primogênitos, o verdadeiro povo de Deus, constituído de homens e mulheres que descobriram a grande honra de amar e servir. Esta é a verdadeira cidade de Deus, a manifestação e a morada de Deus no mundo. Fogo, tempestade, trevas, sons de trovões e trombetas são nada diante do sinal grandioso de homens e mulheres mansos e corajosos, humildes e generosos, ternos e fortes, humanos e compassivos.
Jesus de Nazaré, servidor humilde, queremos seguir teu caminho, acolher tua Boa Notícia e participar da tua ação libertadora. Que, neste mês dedicado à tua Palavra, ela ocupe um lugar importante em nossa vida, ilumine nossa percepção e guie nossas decisões. Hoje Tu nos pedes que reservemos os primeiros lugares aos que são vistos e tratados como últimos. Envia-nos teu Espírito, para que ele nos ajude a assimilar este mandamento dá-nos escutar teu convite: “Vem para um lugar melhor!” Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf

Livro do Eclesiástico 3,19-21.30-31 | Salmo 67 (68)
Carta de Paulo aos Hebreus 12,18-24 | Evangelho de São Lucas 14,7-14

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

O Evangelho dominical - 25.08.2019


CONFIANÇA SIM, FRIVOLIDADE NÃO!

A sociedade moderna vai impondo cada vez mais força, um estilo de vida marcado pelo pragmatismo do imediato. Pouco interessam as grandes questões da existência. Já não temos certezas firmes ou convicções profundas. Pouco a pouco, estamos a converter-nos em seres triviais, carregados de tópicos, sem consistência interior nem ideais que alentem o nosso viver diário, para além do bem-estar e da segurança do momento.
É muito significativo observar a atitude generalizada de muitos cristãos diante da questão da salvação eterna que tanto preocupava há não muitos anos: muitos a apagaram sem mais, da sua consciência; alguns, não se sabe bem porquê, sentem-se com direito a um final feliz; outros já não pensam nem em prêmios ou castigos.
Segundo o relato de Lucas, um desconhecido faz a Jesus, uma pergunta frequente naquela sociedade religiosa: «Serão poucos os que se salvam?». Jesus não responde diretamente à sua pergunta. Não lhe interessa especular sobre esse tipo de questões, tão queridas por alguns mestres da época. Vai diretamente ao essencial e decisivo: como devemos agir para não sermos excluídos da salvação que Deus oferece a todos?
«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita». Estas são as suas primeiras palavras. Deus abre-nos a todos a porta da vida eterna, mas devemos esforçar-nos e trabalhar para entrar por ela. Esta é a atitude saudável. Confiança em Deus, sim; frivolidade, despreocupação e falsas seguranças, não.
Jesus insiste, acima de tudo, que não nos enganemos com falsas seguranças. Não é suficiente pertencer ao povo de Israel; não é suficiente ter conhecido pessoalmente Jesus nos caminhos da Galileia. O decisivo é entrar desde agora no reino de Deus e da Sua justiça. De fato, aqueles que são deixados de fora do banquete final são, literalmente, «aqueles que praticam a injustiça».
Jesus convida à confiança e à responsabilidade. No banquete final do reino de Deus, não se sentarão somente os patriarcas e profetas de Israel. Estarão também pagãos vindos de todos os cantos do mundo. Estar dentro ou estar fora depende de como cada um responde à salvação que Deus oferece a todos.
Jesus termina com um provérbio que resume sua mensagem. Em relação ao reino de Deus, «há últimos que serão os primeiros e primeiros que serão os últimos». A Sua advertência é clara. Alguns que se sentem seguros de serem admitidos podem ficar de fora. Outros que parecem excluídos de antemão podem ficar dentro.
José Antônio Pagola.
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-PRIMEIRO DOMINGO | 25.08.2019


Os leigos são perfume de cristo, o fermento do Reino e a glória do Evangelho!
O evangelho deste domingo conta que, durante o ensino de Jesus caminho para Jerusalém, uma pessoa anônima o questiona sobre o número das pessoas que se salvam. Parece que não está interessada no caminho que leva à salvação, mas no número dos que seriam beneficiados por ela. Jesus desloca a questão do número dos que se salvam para o caminho da salvação. Na sua resposta, sublinha que a salvação, que coincide com a plena realização da pessoa humana, não dispensa o esforço pessoal contínuo. O caminho da salvação passa pela exigente conversão de uma postura estreita e exclusiva a uma visão aberta e inclusiva.
Além de enfatizar a necessidade de empenho pessoal no processo de amadurecimento e libertação, Jesus sublinha que este engajamento é tarefa para o tempo presente, e não pode ser adiado indefinidamente. Comparando o processo de salvação com uma porta estreita, ressalta que chegará o tempo em que o dono da casa fechará a porta e não será mais possível entrar. Portanto, é preciso desfrutar responsavelmente das possibilidades de crescimento que cada momento nos oferece. O tempo propício da salvação é agora, e aqui é o lugar onde precisamos semear Reino de Deus e ajuda-lo a florescer.
Há gente que pensa que somente a religião nos salva, que as pessoas maduras, realizadas, plenamente humanas ou santas seriam aquelas que rezam bastante, que observam as prescrições religiosas, que regem a vida por uma moralidade estrita, que vivem neste mundo suspirando pelo outro. Mas a religião não pode se divorciar da ética, inclusive da ética social, nem do mundo, inclusive das coisas materiais. A religião propõe uma forma específica de viver no mundo e se relacionar com as pessoas e coisas. Àqueles que reduzem a religião a um conjunto de prescrições a serviço da indiferença, Jesus adverte: “Não sei de onde sois...”
Respondendo à pergunta sobre o número dos que se salvam, Jesus diz que “virão muitos do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do Reino de Deus”. Em outras palavras: alguns daqueles que as religiões e instituições descartam ou colocam em último lugar, aos olhos de Deus são os mais importantes e ocupam os primeiros lugares. Todos os homens e mulheres são chamados à salvação e, de um modo que só o Espírito de Deus sabe, participam do mistério pascal de Jesus Cristo. E, mais ainda: “Há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”!
A Igreja é a congregação de todos os homens e mulheres apaixonados pelo sonho de uma humanidade radicalmente libertada. Os membros do povo de Deus – esta imensa caravana de homens e mulheres salvos e humanamente maduros – não trazem necessariamente este título estampado no rosto ou nos documentos. No caminho da salvação não funcionam as recomendações, os privilégios acumulados, os estados de vida. A salvação de Deus não conhece fronteiras políticas, religiosas ou culturais. Gente não religiosa e de outros povos, do oriente e do ocidente tomam parte na mesa do Reino, são gente nova, irmãs e irmãos nossos!
Escutando algumas pregações ou lendo certos escritos teológicos e espirituais, às vezes tenho a impressão de que algumas pessoas ainda pensam que os leigos e leigas são gente sem vocação alguma, uma maioria que é paradoxalmente um resto que não foi chamado para nada e, por isso, deve apenas escutar e obedecer. Para tais pessoas, os leigos e leigas viveriam nos mares deste mundo, e não lhes caberia buscar outros mares. Deveriam esperar uma salvação que só lhes pode vir da oração das pessoas consagradas e dos ministros ordenados. Nada contariam na missão de salvar e de libertar. Como se diz: “São leigos no assunto...”
Será que os leigos e leigas não são os mais importantes do ponto de vista do Reino de Deus? Será que, imersos no mundo sem renunciar ao fermento do Evangelho, eles não revelam uma liberdade mais consequente e uma maturidade humana mais que surpreendente? Eles recordam, mais com a vida que com discursos, que a encarnação no mundo e a sua transformação é uma dimensão irrenunciável da vida cristã. Como dizem os bispos do Brasil, os leigos e leigas são o perfume de cristo, o fermento do Reino e a glória do Evangelho (cf. CNBB, Doc. 105, nº 35).
Jesus de Nazaré, porta aberta pela qual passamos da escravidão à liberdade, do estreito mundo do nosso eu ao fraterno e solidário mundo dos outros: ajuda-nos a reconhecer que a vocação dos leigos e leigas é essencial à Igreja. Eles que abrem a complexa realidade social à solidariedade e à justiça, e testemunham com a vida um outro mundo possível. Que eles possam passar por ti, porta do discipulado missionário, deixem na praia o barco da comodidade e dos privilégios e se lancem heroicamente noutros mares. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Profecia de Isaías 66,18-21 | Salmo 116 (117)
Carta de Paulo aos Hebreus 12,5-13 | Evangelho de São Lucas 13,22-30

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHHORA | 18.08.2019


Maria mulher, discípula, ministra e profeta é elevada aos céus!
A Assunção de Nossa Senhora é uma festa mariana que fez história e lançou profundas raízes na religiosidade popular. Mas aquilo que cremos sobre Maria se refere, de alguma forma, à comunidade eclesial e a todos os homens e mulheres. A glorificação de Nossa Senhora, sua acolhida e realização plena em Deus, é uma vocação e uma promessa de Deus a toda a humanidade. Em Maria, a pessoa humana em sua integridade – em corpo e alma! – é assumida e realizada plenamente em Deus. Eis uma belíssima realização da nossa esperança e uma proclamação clara e inequívoca da dignidade do corpo.
No cântico mariano do Magnificat, Maria emerge como uma pessoa humilde e humilhada. No seu evangelho, Lucas nos apresenta Maria de Nazaré como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e está sempre pronta a dar o melhor de si para que essa Palavra se realize na história. Da boca de Isabel ficamos sabendo que ela é alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade do Deus misericordioso que a pronuncia. Por isso, no vulto cristão de Maria o que se destaca é a humildade, a escuta e a fé, marcas fundamentais da sua personalidade e da sua estatura teológica intrinsecamente relacionadas.
A Deus foi possível realizar grandes coisas em Maria e através de Maria porque encontrou nela a indispensável base humana já preparada. Para fazer-se humano, o Filho de Deus precisou de uma pessoa profundamente humana, e não de uma criatura angelical! Humildade, escuta da Palavra e fé na ação libertadora de Deus é também o que possibilita uma vida humana e feliz. O segredo da felicidade que todos buscamos não está na posse ou no consumo desmedido de bens, nem na fama, no sucesso ou no poder de atração que exercemos, mas na abertura humilde e profunda aos outros, ao futuro e a Deus.
Depois do diálogo engajado e até questionador com Deus representado pelo anjo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes e sua aliança com os pobres. Ela havia dado sua palavra Àquele que é capaz de fazer grandes coisas em favor do seu povo, mas, para ela, nem tudo estava claro. Então, a discípula se faz serva, a serva se torna peregrina e a peregrina procura hospitalidade na casa de Isabel. Juntas, na intimidade aberta de uma casa da periferia, Isabel e Maria louvam a Deus e profetizam. E então, a discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida.
Contemplando sua própria história e a epopeia do seu povo, Maria percebe e proclama corajosamente a intervenção libertadora de Deus: ele dispersa os soberbos, derruba os poderosos, exalta os humildes e oprimidos, socorre seu povo e estende sua misericórdia a todas as gerações. Então, esta mulher, assumida por Deus no céu, não é mais apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma discreta pessoa que acredita, a ‘doce e recatada’ esposa de José. Deus assume em corpo e alma, e eleva à glória do céu aquela que rompe com a cultura que menospreza a mulher, aquela que diz uma palavra profética na arena pública.
Finalmente, Maria é discípula de Jesus, membro vivo e peregrino da Igreja, sinal e símbolo do povo de Deus, que não veste apenas rosa ou azul. Sua assunção por Deus é um sinal da ressurreição que todos esperamos. Como aquela mulher radiante do Apocalipse, a humanidade está em trabalho de parto e, mesmo ameaçada por todos os lados, vai dando à luz um Homem Novo e construindo um Mundo Novo. Maria simboliza a humanidade e a Igreja em seus traços femininos. Nela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas.
Causa-me tristeza e preocupação o estreitamento da mente de alguns setores da Igreja católica que se perfilam em deploráveis cruzadas para salvar a ortodoxia de ideias pouco ortodoxas e de imagens não mais que engessadas de Maria. E enquanto se ocupam disso, desertam de compromissos verdadeiramente evangélicos com as vítimas e os pobres, gente pela qual bate intensamente o coração de Maria e em defesa de quem se levanta seu canto. Preferem estátuas mortas aos filhos e filhas de Deus, feridos de morte.
Ave Maria, cheia de graça! O senhor está contigo! És bendita entre todas as mulheres, e é bendito o fruto do teu ventre!  Maria santa, mãe de Deus e dos filhos e filhas de Deus, intercede por nós neste complexo tempo que o Brasil vive. Ajuda tua Igreja a ser uma comunidade de iguais. Ensina às pessoas consagradas anunciar com a vida e com a palavra que nada pode ser colocado acima do amor a Jesus e aos pobres nos quais ele vive. E conduz a vida consagrada aos desertos, às periferias e às fronteiras. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Apocalipse de São João 12,1-10 | Salmo 44 (45)
1ª Carta de Paulo aos Coríntios 15,20-17 | Evangelho de São Lucas 1,39-56

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

O Evangelho dominical - 11.08.2019

VIVER NA CONDIÇÃO DE MINORIA

Lucas compilou no seu evangelho umas palavras cheias de afeto e carinho, dirigidas por Jesus aos seus seguidores e seguidoras. Com frequência passam despercebidas. No entanto, lidas hoje com atenção nas nossas paróquias e comunidades cristãs, ganham uma surpreendente atualidade. É o que precisamos ouvir de Jesus nestes tempos não fáceis para a fé.
«O Meu pequeno rebanho». Jesus olha com imensa ternura para o seu pequeno grupo de seguidores. São poucos. Têm vocação de minoria. Não hão de pensar em grandeza. É assim que Jesus sempre os imagina: como um pequeno fermento escondido na massa, uma pequena luz no meio da escuridão, um punhado de sal para dar sabor à vida.
Depois de séculos de imperialismo cristão, os discípulos de Jesus devem aprender a viver em minoria. É um erro desejar uma Igreja poderosa e forte. É um engano procurar o poder mundano ou pretender dominar a sociedade. O evangelho não se impõem pela força. É testemunhado por aqueles que vivem ao estilo de Jesus tornando a vida mais humana.
«Não tenhais medo». É a grande preocupação de Jesus. Não quer ver os seus seguidores paralisados pelo medo nem afundados no desânimo. Não devem preocupar-se. Também hoje somos um pequeno rebanho, mas podemos permanecer muito unidos a Jesus, o Pastor que nos guia e nos defende. Ele pode-nos fazer viver estes tempos com paz.
«O Vosso Pai quis dar-vos o reino». Jesus lembra-lhes uma vez mais. Não devem sentir-se órfãos. Têm a Deus como Pai. Confiou-lhes o Seu projeto do reino. É o Seu grande presente. O melhor que temos em nossas comunidades: a tarefa de fazer a vida mais humana e a esperança de encaminhar a história para sua salvação definitiva.
«Vendam os vossos bens e deem esmolas». Os seguidores de Jesus são um pequeno rebanho, mas nunca hão de ser uma seita fechada nos Seus próprios interesses. Não viverão de costas às necessidades de ninguém. Serão comunidades de portas abertas. Compartirão os seus bens com os que necessitam de ajuda e solidariedade. Darão esmola, isto é, «misericórdia». Este é o significado do termo grego.
Nós, cristãos, necessitaremos ainda de algum tempo para aprender a viver como minoria no meio de uma sociedade secular e plural. Mas há algo que podemos e devemos fazer sem esperar por nada; transformar o clima que se vive nas nossas comunidades e torná-las mais evangélicas. O papa Francisco assinala-nos o caminho com os seus gestos e o seu modo de vida.
José Antônio Pagola.
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | DÉCIMO-NONO DOMINGO | 1.08.2019


Que as malas estejam prontas, e as lâmpadas acesas...
Podemos dizer que o cristianismo é hoje um pequeno rebanho? Os fiéis espalhados pelo mundo e vinculados às diferentes confissões cristãs são mais de um bilhão, e isso faz do cristianismo o maior movimento religioso da atualidade. Do ponto de vista estatístico, não somos um pequeno rebanho, mas uma grande multidão! Mesmo sendo verdade que estamos diminuindo na Europa, o crescimento nos continentes africano e asiático continua alimentando nosso sentimento de superioridade. Contudo, essa hegemonia numérica pode não significar muito do ponto de vista da fidelidade ao Evangelho de Jesus.
Segundo o evangelho deste domingo, o próprio Jesus não se deixa impressionar com as pequenas multidões que o seguem, despertadas pelos sinais que realiza. Os discípulos e discípulas que entendem o que significa crer em Jesus e seguir seus passos são poucos, e mesmo esta minoria acaba abandonando-o quando é acusado, preso, torturado e crucificado. Tudo recomeça a partir de um pequeno rebanho fiel e corajoso e nele encontra sua força. Quem crê em Jesus Cristo e segue seus passos tem um tesouro pelo qual está disposto a relativizar tudo o mais: o Reino de Deus.
Jesus continua pedindo que busquemos ‘bolsas antifurto’, pois onde está nosso tesouro também está nosso coração. Para seus discípulos, não há riqueza mais preciosa que o Reino de Deus. Mesmo que o Reino de Deus seja um sonho que só será pleno no futuro, a atitude cristã fundamental é a espera ativa. É isso que Jesus nos ensina hoje, lançando mão de três pequenas parábolas: os empregados que esperam a volta do patrão; o dono da casa que toma precauções contra os ladrões; os administradores que um proprietário encarrega de tomar conta da casa durante sua ausência.
Diante da resistência das estruturas injustas e da força dos hábitos arraigados, somos rondados pela tentação da passividade e da fuga espiritualista. Como não sabemos se o Senhor da história chegará antes da meia-noite ou se o Reino de Deus só se fará ver na madrugada distante e incerta, entregamo-nos ao sono da passividade, da indiferença ou da deserção. ‘Já que o Reino é de Deus, que ele mesmo abra a porta quando resolver voltar... Já fazemos muito entregando-nos à oração...’ Assim pensam alguns, para aliviar a consciência e justificar a própria inércia...
Estamos no mundo à espera de Alguém que está para voltar. Temos que estar acordados para abrir a porta quando ele chegar e bater. Precisamos esperar o Reino de Deus colocando-nos a serviço do povo de Deus. “Ficai de prontidão, em traje de serviço, e com as lâmpadas acesas.” Os que apostamos no caminho alternativo proposto por Jesus somos sim um pequeno rebanho, mas existimos para ajudar no parto da nova humanidade. Não podemos dormir sobre os efêmeros louros de um passado numericamente glorioso. A Igreja é um depósito de sementes que devem ser jogadas na terra.
É triste quando a Igreja esquece sua razão de ser e se preocupa unicamente com seus direitos, poderes e tradições. Missão do povo de Deus é empenhar-se para que a humanidade receba seu trigo na hora certa, seja atendida em seus direitos fundamentais. Festejar com os grandes do mundo, embriagar-se com as falsas liturgias do poder, bater com a vara da excomunhão os próprios irmãos é coisa que nos iguala às figuras mais execráveis da história. E nos faz merecer chicotadas sem número.
Estamos neste mundo como administradores aos quais se confia o cuidado da casa, a quem se pede vigilância e serviço aos irmãos e irmãs. Temos o direito de festejar e celebrar os inúmeros pequenos avanços do Reino de Deus, mas sem deixarmo-nos embriagar pelas ideologias do poder e do sucesso. Vivemos na história como errantes que ainda buscam uma pátria definitiva, mas que, todos os dias, abrem as mãos no serviço aos irmãos e irmãs. Com Abraão e outras grandes testemunhas da fé, sabemos que não temos aqui morada definitiva, mas apenas tendas leves e provisórias, que podem ser armadas e desarmadas facilmente.
Jesus de Nazaré, peregrino no santuário das dores e sonhos humanos: tu nos enriqueces com tua pobreza e tua paixão pelo Reino de Deus. Te agradecemos por Clara de Assis, Edith Stein, Domingos de Gusmão, Frei Tito, Margarida Alves e Pe. Alfredinho, discípulos que seduziste, irmãos e irmãs que nos destes. Eles fizeram bolsas que não se estragam e adquiriram tesouros que ninguém pode roubar. A precariedade e o medo não os impediu de lutar, mesmo que só tenham saudado de longe a utopia que os orientou. Com estas luzes, ilumina e sustenta os pais na sua bela missão nas comunidades, na família e no mundo. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf

Livro da Sabedoria 18,6-9 | Salmo 32 (33)
Carta de Paulo aos Hebreus 11,1-12 | Evangelho de São Lucas 12,32-48

domingo, 4 de agosto de 2019

Rosas, de todas as cores e lutas...

Rosas
Não amanheci com o cheiro de rosas Hoje penso em rosas, falo de rosas e não falo de rosas. Estou falando de rosas-mulheres. Rosa Parks, primeira mulher negra que se sentou em um banco de um ônibus, reservado para brancos, nos E.U.A. Rosa Luxemburgo, polaca, que por ter idéias revolucionárias, lutar por um bem maior, foi assassinada. Peitou Lenin e Trotzky, pois não concordava com o assassinato de contra-revolucionários. Rosa Bianchi, minha nona, que, jovenzinha, veio da Itália no porão de um navio para o Brasil. Roubaram-lhe tudo. Chegou no porto de Santos sem documentos e sem seu baú de roupas.
Penso em rosas-bombas, tão lindamente cantadas e choradas por Ney Matogrosso, a Rosa de Hiroshima, que descarnou milhares de japoneses e fez da cidade um túmulo. As rosas-ladras que roubam o perfume da mulher amada, na mais linda canção do Brasil, na voz de Cartola.
Shakespeare disse que uma rosa, a flor, sempre será uma rosa, mesmo que tenha outro nome e quem já não repetiu de Gertrude Stein, "uma rosa, é uma rosa, uma rosa" Mas, para darem rosas, as roseiras têm que ser podadas. Enquanto esperam, seus troncos respiram. Mas, temem as podas, pois uma má poda pode matá-las. Galhos podres têm que ser cortados, os galhos podres têm que ser podados.
Hoje sou roseira de um país cheio de galhos podres. Não consigo respirar. Meu tronco, sem rosas, a flor, espera a chuva dos tempos para respirar, para renascer. E, como sói acontecer, renascerá.
(Sílvia Lúcia Bigonjal Braggio)

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O Evangelho dominical - 04.08.2019


CONTRA A INSENSATEZ

Conhecemos cada vez melhor a situação social e econômica que Jesus viveu na Galileia dos anos 30. Enquanto nas cidades crescia a riqueza, nas aldeias da Galileia aumentava a fome e a miséria. Enquanto os camponeses ficavam sem terras, os latifundiários construíram silos e celeiros cada vez maiores.
Numa pequena história, conservada e transmitida por Lucas, Jesus revela o que pensa dessa situação tão contrária ao projeto desejado por Deus, que é um mundo mais humano para todos. Jesus não conta essa parábola apenas para denunciar os abusos e atropelos cometidos pelos latifundiários, mas para desmascarar a insensatez em que vivem.
Um rico proprietário de terras é surpreendido por uma grande colheita. Não sabe como administrar tanta abundância. “Que farei?” O Seu monólogo revela-nos a lógica tola dos poderosos que só vivem para acumular riqueza e bem-estar, excluindo os necessitados do seu horizonte.
O homem rico da parábola planeja a sua vida e toma decisões. Destruirá os antigos celeiros e construirá outros maiores. Armazenará ali toda a sua colheita. Pode acumular bens para muitos anos. De agora em diante, viverá só para desfrutar: “Deita-te, come, bebe e tem uma boa vida”. De forma inesperada, Deus interrompe os seus projetos: “Insensato, esta mesma noite, vão exigir a tua vida. O que acumulaste de quem será?!”
Este homem rico reduz sua existência a desfrutar da abundância dos seus bens. No centro da sua vida, está apenas e seu bem-estar. Deus está ausente. Os trabalhadores que trabalham as suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam. O julgamento de Deus é retumbante: esta vida é apenas tolice e insensatez.
Neste momento, em todo o mundo aumenta de forma alarmante a desigualdade. Este é o fato mais sombrio e inumano: “Os ricos, especialmente os mais ricos, estão se tornando muito mais ricos, enquanto os pobres, especialmente os mais pobres, estão se tornando muito mais pobres”.
Este acontecimento não é normal. É a última consequência da insensatez mais grave que os humanos estão cometendo: substituir a cooperação amistosa, a solidariedade e a busca do bem comum de toda a Humanidade pela competição, rivalidade e a acumulação de bens nas mãos dos homens mais poderosos do planeta.
Desde a Igreja de Jesus, presente em toda a Terra, deveria escutar-se o clamor dos seus seguidores contra tanta insensatez, e a reação contra o modelo que guia hoje a história humana.
José Antônio Pagola.
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez.