No caminho que nos leva ao encontro do Senhor que vem, acolhemos hoje a
companhia de São Francisco Xavier, o maior missionário católico da era moderna.
Mais que muitos, ele descobriu que nos tornamos humanos e cristãos vivendo
cotidianamente o Evangelho que nos põe em rota de saída e nos leva ao encontro
dos irmãos para servi-los, e não repetindo mantras, invocações e expressões
como “Senhor! Senhor!” No seu tempo, Francisco Xavier percebeu vivamente que os
muros fortificados das cidades espanholas e da Igreja da Europa não podiam reter
o Evangelho nem se fechar à entrada de “um povo justo, cumpridor da Palavra,
firme em seu propósito” (cf. Is 21,2-3). Era necessário abrir as portas a este
povo até então desconhecido de caminhar humilde, não necessariamente religioso
e cristão, através do qual Deus derruba aqueles que vivem nas alturas e humilha
as cidades orgulhosas. Que a França de hoje, assim como as cidades-fortalezas ou
cidades-mercado norte-americanas, respondam de que adianta cercar-se de muros
legais, de barreiras econômicas, de muros culturais... Acolhendo a companhia e
o exemplo de Francisco Xavier, caminhemos a passos firmes e solidários em
direção à periferia de Belém, e descubramos a companhia de Maria e José, que
também percorrem esta estrada: a estrada das pessoas prudentes e sensatas, que
ouvem a Palavra de Jesus e a encarnam em mil pequenas e grandes ações e gestos.
A essa gente,uma caravana imensa, mesmo que pouco visível, nem a chuva de
mercadorias supérfluas, nem o terremoto dos “impedimentos” decretados segundo a
conveniência política e a necessidade de defender o indefensável, nem as
avalanches de barragens plenas de dejetos minerais, podem abalar. (Itacir
Brassiani msf)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
A Boa noticia, dia-a-dia: 2, quarta
Belém é, literalmente, a casa do pão. E
o pão de cada dia é para nós expressão do alimento básico que possibilita e mantém
a vida. A Palavra de Deus hoje nos lembra que, no desejo de Deus, não está
apenas o acesso ao alimento mínimo ao seu povo, mas “um banquete de ricas
iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos
vinhos”. No horizonte do sonho de Deus não estão apenas indivíduos isolados que
recebem uma cesta básica, mas um povo vivo e articulado, livre das teias que
aprisionam, sem as lágrimas de injustiçados e esquecidos. Jesus de Nazaré é o
lugar onde isso acontece. Na montanha, ele ocupa o espaço do templo, incapaz de
realizar este desejo de Deus. Jesus é a porta do céu da abundância, e os coxos,
os aleijados, os cegos, os mudos e os doentes são os protagonistas que ocupam o
lugar dos sacerdotes e mestres da lei. Em Jesus, a compaixão de Deus se faz
patente e potente, e a vida vem de roldão, para todos, começando pelos últimos.
Mas, tudo começa com o envolvimento ativo e compassivo daqueles que foram
seduzidos por ele, e com sua interpelação, ademais muito clara: “Onde vamos
buscar, neste deserto, tantos pães para saciar tamnha multidão?...” “Quantos
pães tendes?” Caminhemos, juntos, à casa do pão, onde Deus se faz alimento. E
enquanto caminhamos, inventariemos os pães que levamos nas sacolas, ofereçamo-los
a Jesus para que chegue a todos, e cantemos: “Vem, Senhor Jesus! O mundo
precisa de ti!” Ou, noutra versão: “Pão em todas as mesas!... E a festa haverá,
e o povo a cantar: Aleluia!”
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
A boa noticia, dia-a-dia: 1, terça
A vida cristã é uma espécie de ponte que
nos leva da saudade à esperança, da memória à utopia. Recordamos o nascimento
de Cristo para esperar mais responsavelmente sua vinda. Relembramos o êxodo
para esperar o advento. Celebramos a história para acender a utopia. Com
realismo utópico, cremos que dos tocos secos nascerão brotos, que crianças
brincarão com serpentes, que lobos e cordeiros brincarão juntos na relva. Mais
ainda, cremos na convivência pacífica e fraterna da família de todas as
criaturas: “Não haverá danos nem mortes por todo o meu santo monte: a terra
estará tão repleta do saber do Senhor quanto as águas que cobrem o mar... A
justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho...” (Is 11,9; Sl 71).
Eis porque exultamos e cantamos mesmo que ainda seja noite... Nossos olhos, os
discretos e argutos olhos da fé, são capazes de ver aquilo que ainda não
existe, mas está em gestação e virá à luz. Quem avalisa estes sonhos
desvairados é o próprio Jesus de Nazaré, o profeta da periferia: “Felizes os
olhos que veem o que vos vedes!” (Itacir Brassiani msf)
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
A Boa noticia, dia-a-dia: 30, segunda
O Advento é mais espera que caminho.
Aliás, é um caminho que o próprio Deus percorre, deixando o céu inacessível
para vir ao nosso encontro, assumir nossa carne e nossas buscas. Por isso, mais
que que a sair e caminhar, o advento nos convida a acolher Aquele que vem. E
quem nos ajuda hoje é André, o discípulo e apóstolo conhecido como irmão de
Pedro, o menor, aquele que localizou o menino com cinco pães e dois peixes,
aquele que apresentou Jesus ao próprio irmão. Com Pedro, Tiago e João, companheiros
de espera e de pesca, ele abre as portas da vida ao jovem galileu, e sua vida
nunca mais será a mesma. Com Jesus, ele descobriu que não importam as diferenças
e precedências: judeus e gregos, homens e mulheres, escravos e livres, brancos
e negros, todos compartilham a mesma dignidade, percorrem um só e mesmo caminho,
experimentam a mesma generosidade de um Deus que arma sua tenda entre nós. Por
isso, aquele que mais tarde será crucificado em forma de X, está convicto de
que o testemunho e o anúncio é o X da vida cristã. Através daqueles que crêem e
aderem a Jesus, a Palavra da da vida se espalha sem ruídos e alcança os confins
da terra. E vai armando tendas que se transformam em morada. E vai semeando
vida que se torna eterna. E vai abrindo portas que possibilitam a fraterna
convivência. E vai derrubando muros e edificando pontes. (Itacir Brassiani msf)
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Evangelho dominical
ESTEJAM SEMPRE DESPERTOS
Os discursos apocalípticos recolhidos nos evangelhos refletem
os medos e a incerteza daquelas primeiras comunidades cristãs, frágeis e
vulneráveis, que viviam no meio do vasto Império romano, entre conflitos e
perseguições, com um futuro incerto, sem saber quando chegaria Jesus, o Seu
amado Senhor.
Também as exortações desses discursos representam, em boa
parte, as exortações que faziam uns aos outros aqueles cristãos recordando a
mensagem de Jesus. Essa chamada a viver despertos cuidando da oração e da confiança
são um traço original e característico do Seu Evangelho e da Sua oração.
Por isso, as palavras que escutamos hoje, depois de muitos
séculos, não estão dirigidas a outros destinatários. São chamadas que temos de
escutar os que vivemos agora na Igreja de Jesus no meio das dificuldades e
incertezas destes tempos.
A Igreja atual marcha por vezes como uma anciã «curvada» pelo
peso dos séculos, as lutas e trabalhos do passado. «Com a cabeça baixa»,
consciente dos seus erros e pecados, sem poder mostrar com orgulho a glória e o
poder de outros tempos.
Este é o momento de escutar a chamada que Jesus nos faz a
todos. «Levantai-vos», animai-vos uns aos outros. «Erguei a cabeça» com confiança. Não olheis o
futuro apenas a partir dos vossos cálculos e previsões. «Aproxima-se a vossa libertação». Um dia já não
vivereis encurvados, oprimidos nem tentados pelo desalento. Jesus Cristo é o
vosso Libertador.
Mas há formas de viver que impedem a muitos caminhar com a
cabeça levantada confiando nessa libertação definitiva. Por isso, «tende cuidado de que não se entorpeça a mente». Não
vos acostumeis a viver com um coração insensível e endurecido, procurando levar
a vossa vida de bem-estar e prazer, de costas ao Pai do Céu e aos Seus filhos
que sofrem na terra. Esse estilo de vida vos fará cada vez menos humanos.
«Estai
sempre despertos». Despertai a fé nas vossas comunidades. Estai mais atentos ao
Meu Evangelho. Cuidai melhor da Minha presença no meio de vós. Não sejais
comunidades adormecidas. Vivei «pedindo força».
Como seguiremos os passos de Jesus se o Pai não nos sustem? Como poderemos «manter-nos em pé ante o Filho do Homem»?
José Antonio Pagola
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (ANO C – 29.11.2015)
Acolhamos e façamos germinar a semente da Justiça!
O Advento
é um tempo marcado pela abertura, pela esperança e pela vigilância. É um itinerário
pastoral e espiritual que nos coloca diante do núcleo central da esperança cristã.
Serão quatro semanas que nos ajudam a reviver os milênios de expectativa
messiânica do povo hebreu e os nove meses de espera ativa da Família de Nazaré.
Centremos nossa mente e nosso coração no reconhecimento e na acolhida daquele
que vem na fragilidade humana e nas brechas da história. Sejam estas semanas
marcadas pela esperança inquieta e quase delirante no advento de uma humanidade
livre e solidária. Não será desiludido quem espera no Senhor e caminha ao
encontro dele.
Depois de
aludir a um contexto que provoca medo e angústia, Jesus nos adverte: “Tomem
cuidado para que os corações de vocês não fiquem insensíveis por causa da gula,
da embriaguez e das preocupações da vida...” Diante da constatação de que hoje uma
família de classe média sente necessidade de possuir ou consumir mais ou menos
10.000 objetos, somos lembrados de que verdadeira preparação para o Natal não
se faz adquirindo mais coisas e acrescentando novas atividades, mas
despojando-nos do supérfluo, simplificando a vida, reconhecendo e priorizando o essencial.
Sol, lua,
estrelas e mar representam os poderes que pretendem ser divinos e inquiestionáveis.
E quando tais poderes sentem-se abalados, como aconteceu recentemente em Paris,
muitas pessoas são assaltadas pela ansiedade e pelo pavor, e a reação do Estado
é a contra-violência. Mas Jesus nos
convida e viver com serenidade, a agir com confiança e a esperar com lucidez.
“Quando estas coisas começarem a acontecer, levantem-se e ergam a cabeça,
porque a libertação de vocês está próxima.” Há uma novidade alvissareira escondida
no ventre da história, apesar das suas ambiguidades.
Nas
pessoas e movimentos que se esvaziam dos entulhos culturais e religiosos
impostos, estão sendo gerados novo Homem e a nova Mulher. A Humanidade nova vai
nascendo dos escombros de um mundo desigual e do vazio fecundo criado pela
diminuição do consumo. “Então eles verão o filho do homem vindo sobre uma
nuvem, com poder e grande glória.” Trata-se de um nascimento pouco evidente,
que não se impõe à percepção. É como um broto no meio de grandes árvores. A
vigilância é necessária, porque Deus nos visita em fraldas. Para reconhecê-lo, é
preciso purificar e ajustar o olhar!
Olhar
amplo e vigilância são atitudes necessárias para que esse misterioso Dia não nos surpreenda correndo atrás de
comidas e de bebidas, de perus e de espumantes! Este tempo vai sendo Hoje, e o lugar está nas promissoras utopias
cotidianas. O Dia é cada dia, e o
lugar é um pouco por todo lado. Não esperemos nada de imponente e ostensivo. Vivamos
o Advento e suas ousadas promessas esquecendo o calendário fixo, abandonando a
ansiedade de comprar presentes e mais presentes, e até de multiplicar novenas e
pedidos. Precisamos de muito pouco para viver com sabor e sentido!
Paulo nos
convida a rezar “a todo momento”, a encontrar meios para manter e cultivar esta vital abertura ao Deus
que veio, que vem e que virá. Sem esta abertura radical e confiante, acabamos
enclausurados em nós mesmos, avessos a qualquer esperança e refratários a toda
mudança. Sem esta janela para o amanhã, acabaremos cegos às novidades
emergentes e reféns do ontem, daquilo que já era, membros inertes de um corpo
morto. Enquanto abertura e confiança em Deus, a oração nos mantém em pé diante
do Filho do Homem que vem, envolto na fragilidade dos brotos e bebês.
Paulo também
nos pede que continuemos crescendo em humanidade, no amor recíproco e no
serviço solidário a todas as pessoas. É assim que agradaremos a Deus e permaneceremos
firmes e irrepreensíveis. O que agrada a Deus não é consumo, mas o crescimento
no serviço fraterno e solidário. Este é o caminho que Deus ensina aos pobres e
mostra aos justos, respondendo à súplica do salmista. A verdadeira preparação
para o Natal consiste em simplificar a vida e dar prioridade ao que é
essencial, em criar espaços vazios para acolher o que está para nascer ou para
chegar.
Deus amável, pai e mãe de todas as
misericórdias: iniciamos nossa caminhada do Advento pedindo que purifiques e
dirijas nosso olhar, para que possamor ver os múltiplos sinais da tua visita e
da tua presença. Ensina-nos a amar desde agora aquilo que ainda está por vir, a
caminhar entre aquilo que passa com os olhos fixos naquilo que é duradouro. Que
teu Espírito nos guie na verdade e nos faça crescer na santidade e na justiça,
livrando-nos da tentação de jogar a culpa de todos os males sobre aqueles que
crêem diversamente de nós e que, possivelmente, são mais vítimas que culpados. Assim
seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Jeremias 33,14-16 * Salmo 24 (25) * 1ª Carta aos Tessalonicenses
3,12-4,2 * Evang. Lucas 21,25-28.34-36)
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Vivendo a Palavra em ritmo de espera
Está próxima a vossa libertação (Lc 21,25-28.34-36)
Faz uma
semana, no último domingo do ano litúrgico, que celebramos a festa de Cristo
rei. Jesus é o nosso rei. Ele conduz nossas vidas pelo caminho do Reino de
Deus. Como seus discípulos e suas discípulas, buscamos testemunhar as relações
desse Reino. Relações que são de amor e de verdade. Com a força de Jesus
ressuscitado, lutamos contra outro reinado, isto é, as forças do ídolo riqueza,
que nos seduz cotidianamente.
Neste final de
semana, com o primeiro domingo do Advento, iniciamos um novo ano litúrgico. E,
mais uma vez, em todas as comunidades, anunciamos a chegada de Jesus. No
domingo passado, celebramos Jesus como rei cuja montaria humilde é um jumento
(João 12,12-19), cujo cinto é a toalha do serviço (João 13,1-17), cujo trono é
a fidelidade até a cruz (João 19,19) e cuja injusta coroa é de espinhos (João
19,2.5).
Hoje,
celebramos a presença de Jesus como nosso rei na fragilidade e na ternura de
uma criança. Definitivamente, as relações com base na ternura, na humildade e
no serviço, na fidelidade e na justiça são próprias do Reino de Deus. Não,
porém, dos reinos deste mundo. Estes alimentam o ódio, a ganância, o
individualismo, a posse sobre bens e pessoas como sentido de vida.
Nas narrativas
do capítulo 21 de Lucas, quando o evangelho foi escrito pelos anos 90, as
comunidades olham para trás e fazem uma releitura da tomada de Jerusalém pelos
romanos. A destruição do templo foi no ano 70. Assim, elas querem compreender
melhor, em seu tempo, como viver a missão na fidelidade ao projeto de Jesus,
que é tornar realidade a libertação plena. E o evangelho de hoje é parte deste
capítulo.
Erguei-vos
e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação (vv. 25-28)
Em Lucas
21,25-28 Jesus está em Jerusalém, continuando sua missão profética na cidade
que era o centro econômico, político e religioso daquela região.
Como profeta,
denuncia a exploração das pessoas mais vulneráveis, que os controladores do
templo realizavam (21,1-4), e anuncia o fim daquele sistema de morte (21,5-6).
Com imagens da apocalíptica judaica, descreve a tomada de Jerusalém pelos
romanos (21,7-26). A referência ao sol, à lua e às estrelas (v. 25) é uma forma
de falar da presença de Deus que age em favor de quem assume seu projeto. Quer,
portanto, animar a esperança.
Os vv. 25-26
também descrevem os horrores da guerra. Há angústia e perplexidade. Há
desfalecimentos, medos e ameaças. Pode ser paz para o império. Porém, é
violência e morte para os povos conquistados.
As comunidades
cristãs leram esses acontecimentos como julgamento de Deus. É o fim de uma era,
o tempo da antiga aliança. Inicia-se uma nova era, o tempo na nova aliança.
Desde as
origens das comunidades cristãs, já antes da destruição do templo, a execução
de um inocente na cruz, por sua fidelidade ao projeto do Reino do Pai, foi
compreendida como julgamento de Deus na história. De um lado, condenando os
responsáveis pelas estruturas de morte. De outro, salvando as vítimas desse
sistema, os pobres, os que têm fome, os que choram e as pessoas agredidas pelo
ódio, pela mentira e pela calúnia, na linguagem de Lucas 6,20-23.
No entanto,
convém ter presente que as comunidades originárias viviam, tal como o próprio
Jesus, em um ambiente carregado por uma espiritualidade apocalíptica. É uma
mística de denúncia profética em tempos de grandes perseguições e de muita
violência e quer animar as comunidades para resistir nesses tempos difíceis. A
linguagem apocalíptica se refere ao presente, não a um futuro remoto. Com essa
mentalidade, as comunidades compreendiam o final dos tempos como já inaugurado
por Jesus na cruz. Portanto, já viviam provisoriamente o Reino e alimentavam a
expectativa, para breve, da chegada ou presença de Jesus glorioso, a fim de
instaurar, aqui na terra, definitivamente um Reino sem violência e de paz (cf.
1 Tessalonicenses 4,13-5,3). Chamavam essa vinda de Jesus de Parusia, que, em
grego, significa vinda, chegada, presença. Com a entrada do latim na Igreja,
substituiu-se Parusia por Advento.
A partir dessa
teologia apocalíptica, as comunidades interpretaram a destruição de Jerusalém
como o início da instauração definitiva do Reino, mas que já começara com a
ressurreição de Jesus. Viram esta guerra como profecia realizada em Jesus, o
filho humano, tal como anunciara o profeta Daniel (Daniel 7,13-14). Porém, o
Reino não se realizou plenamente naquele momento histórico, como esperavam.
Então, compreenderam que era preciso continuar sua concretização através da
prática continuada de novas relações nas comunidades como fermento que
transforma as estruturas deste mundo. A vinda de Jesus, o humano, já é presença
no testemunho dos cristãos. A libertação é um processo, seja ele dentro ou fora
de nós. Daí o convite de engajamento nesse processo libertador que Jesus continua
a nos fazer ainda hoje: “Erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a
vossa libertação” (Lucas 21,28).
Vigiai
e orai para terdes a força de ficar de pé (vv. 34-36)
A segunda
parte de nosso evangelho é um convite para o discernimento entre duas propostas.
É o projeto de Deus de um lado, e, de outro, o projeto do ídolo riqueza. É um
convite para resistir contra este e aderir àquele. Não se pode servir a dois
senhores, a Deus e à riqueza, alertava Jesus (cf. Lucas 16,13).
Coração é o
lugar da consciência, o centro das decisões. Por isso, a comunidade de Lucas
nos convida a discernirmos quais são as atitudes condizentes com esse projeto
do ídolo riqueza e que tornam pesados os nossos corações. São as posturas que
nos escravizam diante do Deus Mamon (qualquer riqueza idolatrada, grande ou
pequena). E cita algumas: orgia ou libertinagem, embriaguez e preocupações
mundanas. Entre essas preocupações terrenas, poderíamos lembrar o
individualismo, a ganância para acumular, a ambição pelo poder e pelo prestígio,
etc., etc.
Em vez de ter
um coração pesado, Lucas nos convida a ter um coração leve. E ter um coração
leve quer dizer viver de acordo com os valores do Reino, a partilha, a
misericórdia, a compaixão, a solidariedade. Somente é capaz de viver esses
valores quem tem um coração generoso, um coração valente. Vivendo assim, a
qualquer hora, estaremos preparados para o dia do julgamento. O dia do
julgamento não é o fim do mundo, mas a transformação permanente das estruturas
de morte. Cada vez que a justiça supera a injustiça, o julgamento de Deus se
realiza. Cada vez que a mentira e a farsa são desmascaradas, o julgamento do
Reino se torna realidade.
Para ter
coração leve, Lucas nos convida à atenção, à vigilância permanente para não
cair nas armadilhas, nos laços do ídolo riqueza. Ao mesmo tempo, indica a
atitude orante como caminho que conduz à fonte onde buscar forças para escapar
dos laços que escravizam e ficar de pé diante de Jesus, o humano, no dia de
libertação. Ficará de pé quem tiver perseverado na justiça, na verdade e na
transparência, pois será considerado justo, portanto, inocente.
Iniciamos o
Advento, tempo de presença, de chegada da boa nova de Deus na ternura de uma
criança. É um Advento que não termina, pois Jesus já é presença permanente
entre nós. Basta buscá-lo e querer encontrá-lo. Que vigiemos em permanente
atitude de oração na busca de forças para ter coração leve e ficar de pé diante
da avalanche de ódio e de mentira que este mundo nos quer impor a cada dia,
tornando pesados os nossos corações. Que a luz de Jesus menino nos ilumine para
nos manter firmes no respeito ao diferente, no perdão a quem nos calunia e no
caminho da justiça para muitos, “pois está próxima a vossa libertação”. Amém.
Ildo Bohn Gass
http://cebi.org.br/noticias.php?secaoId=21¬iciaId=6131sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Evangelho dominical
EXAME
PERANTE O TESTEMUNHO DA VERDADE
Dentro do processo em que
se vai decidir a execução de Jesus, o evangelho de João oferece um
surpreendente diálogo privado entre Pilatos, representante do império mais
poderoso da Terra, e Jesus, um réu maniatado que se apresenta como testemunha
da verdade.
Precisamente, Pilatos quer,
ao que parece, saber a verdade que se encerra naquele estranho personagem que
tem ante o seu trono: «És Tu o Rei dos judeus?». Jesus vai
responder expondo a Sua verdade nas afirmações fundamentais, muito queridas ao
evangelista João.
«O Meu
reino não é deste mundo». Jesus não é rei ao estilo que Pilatos pode imaginar. Não pretende
ocupar o trono de Israel nem disputar a Tibério o seu poder imperial. Jesus não
pertence a esse sistema em que se move o prefeito de Roma, sustentado pela
injustiça e a mentira. Não se apoia nas forças das armas. Tem um fundamento
completamente diferente. A Sua realeza provem do amor de Deus ao mundo.
Mas acrescenta algo muito
importante: «Sou rei e vim ao mundo para ser testemunha da verdade». É neste mundo
onde quer exercer a Sua realeza, mas de una forma surpreendente. Não vem
governar como Tibério mas ser «testemunha da verdade», introduzindo o amor e a
justiça de Deus na história humana.
Esta
verdade que Jesus trás consigo não é uma doutrina teórica. É uma chamada que
pode transformar a vida dos personagens. Tinha dito Jesus: «Se vos
mantendes fiéis à Minha Palavra... conhecereis a verdade e a verdade vos fará
livres». Ser fiéis ao Evangelho de Jesus é uma experiência única
pois leva a conhecer uma verdade libertadora, capaz de fazer a nossa vida mais
humana.
Jesus
Cristo é a única verdade para a vivência dos cristãos. Não
necessitaremos na Igreja de Jesus de fazer um exame de consciência coletivo
ante o «Testemunho da Verdade»? Atrever-nos a discernir com humildade o que há
de verdade e o que há de mentira no nosso seguir a Jesus? Onde há verdade
libertadora e onde há mentira que nos escraviza? Não necessitaremos dar passos
para maiores níveis da verdade humana e evangélica em nossas vidas, nossas
comunidades e nossas instituições?
José Antonio Pagola
Dandara, Zumbi e a Consciencia Negra
De Dandara à Davis, a resistência do
20 de novembro
O 20 de novembro para mim é mais do que um dia de feriado,
mais do que um final de semana prolongado. Minha vida em diáspora hoje para o
senso comum tem dupla validade. Não quero ser repetitiva, sei a importância do
dia de hoje para nós negros, vanguarda de luta e para nossos aliados.
Hoje é mais do que o afronto a farsa do dia 13 de maio. Mais
do que lembrar a importância da luta de Dandara e Zumbi para a emancipação do
nosso povo, hoje é dia de lembrar nossa resistência à sociedade que insiste em
relutar a consciência negra enquanto parte da história brasileira, e insiste na
“consciência humana” enquanto nos outros 364 dias ninguém se lembra que aquele
moleque metralhado pela PM e jogado numa vala era um ser humano, que aquele
assaltante na fome do crack, sem comida, sem esperança era um ser humano, que
não tem 1% da maldade de quem lucra com câncer, HIV e fetos mal formados.
Não se lembram da importância da parcela da população humana
que tem sua história desrespeitada enquanto disseminação e conscientização,
mesmo que isso seja sancionada como diz a lei 10.639/03: “Art. 26-A. Nos estabelecimentos de
ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o
ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.”
Para eles é só um dia. Para nós é ancestralidade, é dia de
levar aos meios despolitizados a importância do nosso protagonismo frente a
nossa opressão enquanto mulheres e homens que tiveram sua ancestralidade, sua
herança genealógica roubadas; do quanto ainda somos escravizados nos moldes
capitalistas; do quanto temos nossas propriedade filosófica e intelectual
roubadas; do quanto ainda precisamos provar que somos bons o bastante para eles
(que para nós é ser duas vezes melhor), ou quanto nosso direito de sermos bons
o bastante nos foi retirado; do quanto temos nosso valor é subestimado no
mercado de trabalho, nas escolas, universidades, nos relacionamentos, na vida.
Para nós, a consciência negra deve ser trabalhada e debatida
todos os dias. “Só vamos deixar o corredor da morte anunciada quando nosso
tempo não for usado pra limpar nota manchada, quando odiarmos o regime que faz
nossas mulheres tirar saliva podre das talheres. Comemore a Consciência Negra
todos os dias, exija direito à vida com ou sem data fixa” (Eduardo Taddeo)
Gleide Fraga, 23 anos
SOLENIDADE DE CRISTO, REI DO UNIVERSO (ANO B – 22.11.2015)
Mais que rei, Jesus é
Pastor, Profeta e Testemunha!
Muitos
nos perguntamos sobre sentido da festa de hoje. Há mais de 100 anos, algumas
comunidades católicas imaginaram a celebração de Cristo Rei como forma de
propagar a dignidade de Jesus Cristo, afirmar os direitos da Igreja frente à
sociedade liberal e destacar a importância da doutrina cristã na formulação das
leis civis. Esta festa foi instituída há 60 anos atrás, mas hoje temos
consciência de que é preciso evitar toda forma de triunfalismo e destacar o
mistério essencial de Jesus Cristo: ele é testemunha da verdade e profeta um
Novo Tempo de paz, solidariedade e partilha.
Penso que
a identificação de Jesus de Nazaré com a figura do rei é um erro e um delírio
bem ao estilo dos amantes do poder. Jesus não foi nem sacerdote e nem rei! Como
profeta e reformador, irmão dos pobres e dos pecadores e servidor dos
oprimidos, ele revelou o melhor que pode haver no ser humano e fez brilhar no
mundo a glória de Deus. A única razão aceitável para aproximar Jesus Cristo da
figura do rei seria a de contrastar e relativizar todos os demais poderes,
inclusive as autoridades eclesiásticas. Quando celebraremos solenemente a festa
de Cristo Servo de todas as criaturas? Quando os cristãos renunciaremos de
verdade aos mantos da nobreza e vestiremos o avental do serviço?
É verdade
que o Apocalipse de São João atribui repetidamente a Jesus o poder, a riqueza,
a honra, a glória, a sabedoria, a força e louvor e tudo o mais (cf. Ap
5,12-13). Mas não podemos esquecer que tudo isso se diz daquele que é a pedra
rejeitada, a vítima do próprio poder estabelecido, e que Jesus é “a testemunha
fiel, o primeiro a ressuscitar dos mortos”. Nessa condição de testemunha e
vítima da pena de morte, ele é “chefe dos reis da terra”. Partilhando por amor
a sorte dos condenados, Jesus perdoou nossas dívidas e nos constituiu como povo
novo e soberano, do qual é guia e líder inconteste.
A cena de
Jesus diante de Pilatos é, no mínimo, paradoxal. Um preso despojado de tudo,
acusado pelos seus próprios compatriotas, sem direito à defesa, está cara-a-cara
com uma autoridade plenipotenciária e a serviço de um poder invasor. Um homem
habituado às estradas é colocado diante de um senhor habitante de palácios. A
cena insinua um confronto radical, e a pergunta de Pilatos é clara: “Tu és o
rei dos judeus?” Pilatos não pergunta se ele é um rei, mas se é o rei; e
não o refere a Israel (povo escolhido
por Deus) mas aos judeus (um povo ou
uma raça em meio a tantas).
Astuto,
Pilatos se interessa mais pela ação que pelos títulos. Por isso, pergunta que
tipo de liderança Jesus desenvolve: “O que fizeste?” Jesus responde chamando a
atenção para a diferença e a originalidade libertadora da sua ação. Respondendo
a Pilatos, diz que seu reino “não é deste mundo”, pois sua ação se distancia da
força e do poder, tem outro dinamismo e se rege por outra finalidade. Ele age
solidariamente para responder às necessidades do seu povo, recusa assumir o
poder (cf. Jo 6,15) e se opõe duramente aos príncipes do mundo (cf. Jo 12,32;
16,11).
Parece
que Jesus aceita a qualificação de rei, mas recusa a redução da sua missão ao
povo judeu. “Você está dizendo que eu sou rei.” Ele não é o único rei, nem apenas rei dos
judeus. Jesus preside e dirige o amplo movimento do reino de Deus, que
reúne todos os homens e mulheres de boa vontade, promove a liberdade e a vida
de todos, e não usa da força para defender os privilégios das elites. “Se o meu
reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue
às autoridades dos judeus.” Ele é rei exatamente e apenas na medida em que dá
sua vida por todos.
Jesus diz
que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Sua prioridade é ser
testemunha da verdade, ou seja, do amor incondicional de Deus por todas as
criaturas, especialmente pelos oprimidos e, diante disso, sua própria
sobrevivência é secundária. A verdade é que Deus ama a ponto de dar a própria
vida, e isso não expressa a fraqueza mas a invencível força de Deus. Por isso,
é na cruz que se revela e realiza a realeza de Jesus Cristo e do ser humano.
Nada mais paradoxal que esta figura de rei! Nada mais distante da imagem de rei
do que a figura de um escravo ou um executado...
Jesus de Nazaré, profeta e pastor, servo e
testemunha: reunidos em torno da tua mesa, queremos acolher teu gesto
testamentário e teu chamado a sermos dom e semente. Grava em nosso corpo os
sinais da tua realeza: o amor fraterno e o serviço solidário. Ajuda-nos a
superar toda busca de poder dominador e de nobreza vazia de humanidade. Que tua
Igreja não se deixe guiar nem pela indiferença, nem pela prepotência. E que à
tua palavra-oferta “isto é meu corpo que é dado por vós”, respondamos com
liberdade e verdade: “Faremos a mesma coisa em memória de ti.” Assim seja!
Amém!
Itacir
Brassiani msf
(Profeta Daniel 7,13-14
* Salmo 92 (93) * Apocalipse de S. João 1,5-8 * Evangelho de São João 18,33-37)
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