quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Evangelho dominical - 17.12.2017

ABRIR-NOS

A fé converteu-se para muitos numa experiência problemática. Não sabem exatamente o que lhes aconteceu estes anos, mas uma coisa está clara: já não voltarão a acreditar no que acreditavam quando eram crianças. De tudo aquilo restam apenas algumas crenças de perfil bastante confuso. Cada um foi construindo o seu próprio mundo interior, sem poder evitar muitas vezes graves incertezas e interrogações
A maioria destas pessoas faz o seu «percurso religioso» de forma solitária e quase secreta. Com quem falarão destas coisas? Não há guias nem pontos de referência. Cada um atua como pode nestas questões que afetam o mais profundo do ser humano. Muitos não sabem se o que lhes acontece é normal ou inquietante.
Os estudos do professor de Atlanta James Fowler sobre o desenvolvimento da fé podem ajudar a não poucos a entender melhor o seu próprio percurso. Ao mesmo tempo lançam luz sobre as etapas que a pessoa há de seguir para estruturar o seu «universo de sentido».
Nos primeiros estágios da vida, a criança vai assumindo sem refletir as crenças e valores que se lhe propõem. A sua fé não é todavia uma decisão pessoal. A criança vai estabelecendo o que é verdadeiro ou falso, bom ou mau, a partir do que lhe ensinam desde fora.
Mais adiante, o indivíduo aceita as crenças, práticas e doutrinas de forma mais refletida, mas sempre tal como estão definidas pelo grupo, a tradição ou as autoridades religiosas. Não se lhe ocorre duvidar seriamente de nada. Tudo é digno de fé, tudo é seguro.
A crise chega mais tarde. O indivíduo toma consciência de que a fé há de ser livre e pessoal. Já não se sente obrigado a acreditar de modo tão incondicional no que ensina a Igreja. Pouco a pouco começa a relativizar certas coisas e a selecionar outras. O seu mundo religioso modifica-se e até se quebra. Nem tudo responde a um desejo de autenticidade maior.
Tudo pode ficar nisso­. Mas o indivíduo pode também continuar a aprofundar o seu universo interior. Se se abre sinceramente a Deus e, o procura no mais profundo do seu ser, pode brotar uma fé nova. O amor de Deus, acreditado e acolhido com humildade, dá um sentido mais profundo a tudo. A pessoa conhece uma coerência interior mais harmoniosa. As dúvidas não são um obstáculo. O indivíduo intui agora o valor ultimo que contém símbolos e práticas antes criticados. Desperta de novo a comunicação com Deus. A pessoa vive em comunicação com todo o bom que há no mundo e sente-se chamada a amar e a proteger a vida.
O decisivo é sempre garantir em nos um lugar real para a experiência de Deus. Daí a importância de escutar a chamada do profeta: “Preparai o caminho do Senhor”. Este caminho, temos de o abrir no íntimo do nosso coração.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Ãlvarez Perez

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

ANO B – TEMPO DE ADVENTO – 3° DOMINGO – 17.12.2017

Nossa alegria é saber que Ele já está no meio de nós!
Começamos a caminhada do Advento com uma ordem clara e forte: “Vigiem!” Depois, fomos convidados a abrir estradas a partir da periferia e do deserto. E hoje somos convidados à alegria. “Estai sempre alegres”, ordena Paulo. “Transbordo de alegria em Javé”, proclama Isaías. Maria canta: “Meu espírito está em festa pelo meu Deus”. E João mostra o motivo dessa alegria: “Entre vós está alguém que não conheceis...” Que seja assim na liturgia e na vida: celebremos confiantes a visita e a permanência de Deus entre nós, ao lado dos pobres, abrindo caminhos de vida, caminhando ao nosso lado e à nossa frente.
Esperando ardentemente o retorno próximo de Jesus Cristo, os cristãos das primeiras comunidades sentiam-se chamados a levar a sério as profecias, a não apagar o Espírito, a se afastarem de toda espécie de maldade, a dar graças a Deus em todas as circunstâncias, a examinar tudo e ficar com o que era bom. E isso não por causa de uma moral abstrata ou de uma ascese rígida, mas porque acreditavam que Aquele que os chamara seria fiel e realizaria suas promessas. Por isso, também rezavam sem cessar e se mostravam sempre alegres, mesmo em meio às perseguições e durezas da vida.
Vejamos como isso se mostra também em Maria de Nazaré. Chegando à casa de Isabel e sendo por ela acolhida, Maria levanta a cabeça e solta a voz num louvor que atravessa os séculos e, ainda hoje, ressoa como canto libertário. Sua alegria não tem nada de ingenuidade, muito menos de auto complacência: olhando para o seio crescido de Isabel e para seu próprio corpo, Maria se alegra com o que Deus está realizando através dos seus filhos e filhas mais humildes. Seu olhar se volta à história do seu povo, na qual Maria percebe Deus rebaixando os poderosos, elevando os humildes e socorrendo os pobres.
João Batista, interrogado sobre sua identidade e sua missão, se apresenta como testemunha Luz, como sinal de algo que está chegando para vencer as trevas e os obstáculos interpostos pelas elites religiosas e políticas, como arauto de novos caminhos. “Eu sou a voz de quem grita no deserto. Endireitai o caminho do Senhor!” Ele é voz que vem do deserto, da periferia, da margem. Com seu batismo, João inquieta as autoridades, pois o batismo na água era um rito cívico-religioso que expressava uma passagem de estado e uma mudança de senhor. E isso relativizava decididamente os poderes religiosos e políticos.
João Batista anuncia que no meio de nós já está presente Alguém que não conhecemos, que vem antes dele e o supera e ultrapassa. Esse Alguém é penhor e início daquela mudança anunciada pelos profetas antigos e simbolizada no batismo cristão. Diante do Messias esperado, sua pregação e seu batismo se mostram relativos e insuficientes. Mesmo sendo o maior entre os profetas, diante de Jesus João não se atreve a desatar as correias das suas sandálias, gesto que simbolizava o protesto de uma viúva diante de um cunhado que se recusasse a desposá-la e dar-lhe descendência, como mandava a tradição.
Jesus não despreza a nossa pobre humanidade. Ele nos ama profundamente e sela conosco uma aliança duradoura “na justiça e no direito, no amor e na ternura” (cf. Os 2,16-25). Ninguém desamarra a correia das suas sandálias! O Messias que esperamos é o Esposo amado e esperado há séculos, que nos gera como família e como povo. A celebração do Natal é uma espécie de bodas de Deus conosco, e todos sabemos que a preparação de uma festa de casamento, por mais trabalhosa que seja, é sempre marcada pela esperança e pela alegria, e não pela tristeza ou pela penitência. Eis a razão da alegria do Advento!
Será que Maria e José tinham consciência deste mistério que a envolvia e fecundava? Certamente sim, embora tivesse que caminhar na penumbra da fé, e só aos poucos os contornos do desenho deste mistério fossem se clareando. O tumultuado tempo da gravidez de Maria e a paradoxal noite do Natal foram apenas o começo. Maria viu a falta de vinho e acreditou no vinho novo que selou a nova aliança de Deus com seu povo. Jesus descobriu progressivamente sua identidade de Noivo e Esposo da humanidade. Mas, de qualquer modo, não podem ser tristes os rostos de quem prepara o Natal! “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O senhor está perto.” (Fil 4,4-5)
Deus, pai e mãe, luz que brilha na fragilidade humana e revela nas criaturas a semente de uma alegria inocente e quase teimosa: Cobre-nos com o manto da justiça que só pode vir de ti, e enfeita nossos trapos com as joias de uma fé que dá as mãos à esperança e ao amor. Faze que nossas comunidades anunciem com a vida a boa notícia que tens desde sempre para os últimos e pobres, os que carecem de autonomia e de alegria. E ajuda-nos a abrir caminhos de solidariedade em meio às montanhas de lixo comercial que abarrota nossos mercados, e a permanecer firmes na escola de Nazaré. Amém! Assim seja!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 61,1-11 * Lucas 1,46-56 * 1ª. Carta aos Tessalonicenses 5,16-24 * Evangelho de São João 1,6-8.19-28)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Evangelho dominical - 10.12.2017

COM JESUS COMEÇA ALGO BOM

Ao longo deste novo ano litúrgico, iremos lendo aos domingos o evangelho de Marcos. O Seu pequeno escrito começa com este título: «Início da Boa Nova de Jesus, o Messias, Filho de Deus». Estas palavras permitem-nos evocar algo do que encontraremos no seu relato.
Com Jesus «começa algo de novo». É o que em primeiro lugar quer deixar claro Marcos. Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de algo novo e inconfundível. No relato, Jesus dirá que «o tempo cumpriu-se». Com Ele chega a boa nova de Deus.
Isto é o que experimentam os primeiros cristãos. Quem se encontra vitalmente com Jesus e penetra um pouco no Seu Mistério sabe que com Ele começa uma vida nova, algo que nunca se tinha experimentado anteriormente.
O que encontram em Jesus é uma «Boa Nova». Algo novo e bom. A palavra «evangelho» que utiliza Marcos é muito frequente entre os primeiros seguidores de Jesus e expressa o que sentem ao encontrar-se com Ele. Uma sensação de libertação, alegria, segurança e eliminação de medos. Em Jesus encontram-se com «a salvação de Deus».
Quando alguém descobre em Jesus o Deus amigo do ser humano, o Pai de todos os povos, o defensor dos últimos, a esperança dos perdidos, sabe que não encontrará uma notícia melhor. Quando conhece o projeto de Jesus de trabalhar por um mundo mais humano, digno e feliz, sabe que não poderá dedicar-se a nada maior.
Esta Boa Nova é Jesus mesmo, o protagonista do relato que vai escrever Marcos. Por isso a sua intenção primeira não é oferecer-nos doutrina sobre Jesus nem contribuir com informação biográfica sobre Ele, mas sim seduzir-nos para que nos abramos à Boa Nova que só poderíamos encontrar Nele.
Marcos atribui a Jesus dois títulos: um, tipicamente judeu; o outro, mais universal. No entanto, reserva aos leitores, algumas surpresas. Jesus é o «Messias» a quem os judeus esperavam como libertador do Seu povo. Mas um Messias muito diferente do líder guerreiro que muitos desejavam para destruir os romanos. No seu relato, Jesus é descrito como enviado por Deus para humanizar a vida e encaminhar a história para a sua salvação definitiva. É a primeira surpresa.
Jesus é «Filho de Deus», mas não dotado do poder e a glória que alguns poderiam ter imaginado. Um Filho de Deus profundamente humano, tão humano que só Deus pode ser assim. Só quando termine a Sua vida de serviço a todos, executado numa cruz, um centurião romano confessará: «Verdadeiramente este homem era Filho de Deus». É a segunda surpresa.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

ANO B – TEMPO DE ADVENTO – 2° DOMINGO – 10.12.2017

Mudar mentalidades, derrubar muros, abrir estradas!
Vivemos a primeira semana do Advento sob o signo da vigilância e do porteiro: alegre e inteligente expectativa de que algo de bom está sendo gerado; olhos abertos e coração desperto para perceber os sinais daquele que está sempre vindo e daquilo que está nascendo. A segunda semana se abre solicitando-nos conversão e engajamento: ações que tragam consolação aos desolados; abertura de estradas onde a vida é difícil; perseverança quando os novos céus e a nova terra demoram a aparecer; ternura, como a do pastor que carrega no colo os cordeirinhos e guia mansamente as ovelhas que amamentam.
Os caminhos da justiça e da paz ainda são tortuosos e esburacados, especialmente para os países e as pessoas pobres. O obstáculo não está apenas no terrorismo, mas também no cassino da Wall Street, onde se compra, vende e especula a vida e a morte dos povos, e na Praça dos Três Poderes, onde o poder não emana do povo mas é exercido à revelia do povo e contra o povo. O evangelista Marcos diz que o povo que vivia no ‘centro do mundo’ (Jerusalém) se deslocou à periferia (deserto) para escutar o profeta João. E este é o rumo que precisamos seguir se quisermos que a humanidade tenha futuro. As soluções impostas de cima e dos centros costumam ignorar ou aumentar o nada dos já sem-nada.
A Palavra de Deus teima em afirmar que é do deserto e da periferia que vêm as notícias alegres (Boas Novas), aquelas que anunciam que o Humano está nascendo e que um Outro Mundo está sendo gerado. Mas isso pede inversão de perspectivas e conversão de mentalidades. A novidade que vem do deserto é peregrina e vulnerável, não se realiza nas ações potentes, nem chama a atenção. O agente de Deus (Messias) nasce migrante e se hospeda na estrebaria... Seus pés não conhecem o ruído de botas de soldados, mas somente a ágil simplicidade das sandálias. O amor só tem a força do dom e do martírio.
João Batista tem consciência de que ele é apenas o precursor, de que o chamado à conversão será seguido pelo anúncio de uma boa notícia, e que o retiro no deserto será substituído pela estrada que leva aos povoados. “Depois de mim vai chegar alguém mais forte que eu. Eu não sou digno sequer de me abaixar para desamarrar as suas sandálias...” Sandálias lembram caminho, e caminho sugere discipulado. A estrada a ser aberta no deserto é a estrada do seguimento de Jesus na pobreza, no dom de si e na solidariedade. É a estrada que leva a Belém e a Nazaré, e desemboca no calvário.
Que ninguém queira substituir as sandálias do carpinteiro pelas botas dos soldados arrogantes ou do gordo papai-noel! Seguimento de Jesus não rima com guerra nem com shopping. Conservar as sandálias e abrir caminhos é preciso! Mas, até quando conseguiremos manter viva essa convicção e essa esperança? A realidade parece desmentir o que acreditamos, e a história parece não considerar nossas utopias. Que São Pedro nos encoraje! “Para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos é como um dia”. Deus é paciente, mas nossa espera precisa ser conjugada com o incansável empenho.
O discípulo não encontra segurança senão na voz do Mestre, e o missionário só pode contar com o poder da Palavra. É com isso que queremos realmente trabalhar? É essa a estrada que nos dispomos a abrir e trilhar? Recorrendo à linguagem apocalíptica, Pedro chama a atenção para a provisoriedade do tempo e para a precariedade das instituições: tudo o que parece sólido e definitivo se transformará em ruínas e cinzas. Em meio a isso, os cristãos se mantêm firmes na esperança de novos céus e nova terra nova, nos quais habite a Justiça. Mas precisam antecipar esta esperança em suas ações cotidianas...
Ou seja, precisamos mantermo-nos firmes e ativos na esperança. Jesus, Maria e José também viveram pacientemente a aparente demora da manifestação de Deus. A espera se converteu em preparação e discernimento para acolher a ‘Hora’ de Deus. Enquanto esperavam, lançaram raízes na periferia, mergulharam fundo na Palavra de Deus, exercitaram generosamente o cuidado com os cordeiros fracos e com as ovelhas gestantes. E fabricaram sandálias, muitas sandálias: para pés masculinos, femininos, infantis e jovens, adultos e idosos, brancos e negros, católicos ou não...
Deus pai e mãe, pastor terno e dedicado! Fecunda nossos ouvidos com tua Palavra criadora e abre nossos lábios para que proclamemos, sem medo, que estás vindo à casa nossa e tua, e que trazes nos braços teus filhos e filhas mais queridos. Converte nosso coração e abre nossos olhos, para que sejamos capazes de contemplar a delicada coreografia cósmica que acompanha tua chegada aos desertos e periferias: a verdade brotando da terra e a justiça se inclinando do céu; a misericórdia e a fidelidade dançando e a justiça e a paz se abraçando. E põe em nossos pés as sandálias dos peregrinos! Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 40,1-11 * Salmo 84 (85) * 1ª. Carta de São Pedro 3,8-14 * Evangelho de São Marcos 1,1-18)

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O Evangelho dominical - 03.12.2017

UMA IGREJA DESPERTA

Jesus está em Jerusalém, sentado no monte das Oliveiras, olhando para o Templo e conversando confidencialmente com quatro discípulos: Pedro, Santiago, João e André. Vê eles preocupados por quererem saber quando chegará o fim dos tempos. Ele, pelo contrário, se preocupa sobre como viverão os Seus seguidores quando já não O tenham entre eles.
Por isso, uma vez mais, mostra-lhes a Sua inquietude: «Olhai, vivei despertos». Depois, deixando de lado a linguagem terrificante dos visionários apocalípticos, conta-lhes uma pequena parábola que passou quase inadvertida entre os cristãos.
«Um senhor foi de viagem e deixou a sua casa». Mas, antes de ausentar-se, «confiou a cada um dos seus criados a sua tarefa». Ao despedir-se apenas lhes insistiu numa coisa: «Vigiai, pois não sabeis quando virá o dono da casa». Que, quando venha, não vos encontre dormindo.
O relato sugere que os seguidores de Jesus formarão uma família. A Igreja será «a casa de Jesus» que substituirá «a casa de Israel». Nela, todos são servidores. Não há senhores. Todos viverão esperando o único Senhor da casa: Jesus, o Cristo. Nunca o deverão esquecer jamais.
Na casa de Jesus ninguém deverá permanecer passivo. Ninguém se há de sentir excluído, sem qualquer responsabilidade. Todos somos necessários. Todos temos alguma missão confiada por Ele. Todos estamos chamados a contribuir para a grande tarefa de viver como Jesus. Ele viveu sempre dedicado a servir o reino de Deus.
Os anos irão passando. Manter-se-á vivo o espírito de Jesus entre os Seus? Continuarão a recordar o Seu estilo ao serviço dos mais necessitados e desamparados? Irão segui-Lo pelo caminho aberto por Ele? A Sua grande preocupação é que a Sua Igreja possa adormecer. Por isso insiste, até três vezes: «Vivei despertos». Não é uma recomendação aos quatro discípulos que o escutam, mas um mandato aos crentes de todos os tempos: «O que vos digo a vós digo-o a todos: velai».
O traço mais generalizado dos cristãos que não abandonaram a Igreja é seguramente a passividade. Durante séculos temos educado os fiéis para a submissão e a obediência. Na casa de Jesus, só uma minoria se sente hoje com alguma responsabilidade eclesial.
Chegou o momento de reagir. Não podemos continuar a aumentar ainda mais a distância entre «os que mandam» e «os que obedecem». É pecado promover o descontentamento, a mútua exclusão ou a passividade. Jesus queria ver-nos a todos despertos, ativos, colaborando com lucidez e responsabilidade no Seu projeto do reino de Deus.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

terça-feira, 28 de novembro de 2017

ANO B – TEMPO DE ADVENTO – 1° DOMINGO – 03.12.2017

A segunda metade da noite já é o começo da aurora!
Estamos iniciando um novo tempo litúrgico, tempo marcado pela expectativa e pela vigilância. Para sublinhar essa atitude, Jesus nos apresenta uma parábola na qual, entre os diversos personagens, nos chama a atenção para a figura do porteiro. O porteiro atua no limite entre a área interior e exterior da casa; pertence ao pessoal da casa, mas precisa estar atento aos que estão para chegar; conhece os segredos da casa, mas deve saber reconhecer e acolher as visitas que estão sendo esperadas. O porteiro não é propriamente um vigia, e, mais que proteger o patrimônio, deve acolher as pessoas que chegam.
Jesus nos convida a viver vigilantes, pois algo novo está para chegar, uma grande mudança está para se realizar. Para falar disso, Ele usa uma linguagem apocalíptica, dizendo que as estrelas caem, os poderes são abalados e as estruturas basilares da ordem social e política sofrem um eclipse. Como as folhas novas da figueira indicam a chegada próxima dos frutos, esses sinais cósmicos e históricos anunciam que uma nova ordem social, que uma nova humanidade está sendo gerada, um novo mundo está sendo feito. Tudo o que é histórico é transitório, só a Palavra viva de Deus permanece. Como o porteiro, precisamos identificar e dar passagem a aos sinais dessa novidade que está batendo à nossa porta.
Para os discípulos de Jesus no tempo do evangelista Marcos, a questão crucial era como chegaria e se consolidaria o novo ser humano e a Justiça esperada. Jesus ressalta que o Reino de Deus e o ser humano renovado vêm de baixo, lançam raízes na família humana, que experimenta a noite escura da fragilidade e da injustiça. Ou, dizendo de outro modo, a nova humanidade vem de cima, do alto da cruz, da doação generosa e solidária de nós mesmos e de tudo o que possuímos em favor da vida dos últimos. A Palavra que não passa é aquela que Jesus pronunciou silenciosamente no alto da cruz!
“O que eu digo a vocês, digo a todos: fiquem vigiando!” Dizendo isso, Jesus antecipa o que dirá pouco mais adiante, pouco antes de ser preso: “Minha alma está numa tristeza de morte. Fiquem aqui e vigiem” (Mc 14,34). Essa vigília deveria se estender pelos quatro momentos seguintes: a prisão, a negação, a espera e o amanhecer. Mas os discípulos não conseguiram vigiar nem uma hora, e dormiram. Eles não conseguiram assimilar a fragilidade e a vulnerabilidade de Deus, que se revela na cruz. A vigilância se fez difícil porque os discípulos não sabiam o momento e como se manifestaria o reino de Deus.
O problema se agrava porque hoje muitos cristãos não alimentam mais nenhuma espécie de esperança. Não esperam o advento de uma nova humanidade. Não creem na possibilidade de um mundo mais justo. Não querem ser perturbados no seu sono tranquilo e indiferente à sorte dos irmãos. E há cristãos que mantêm uma certa esperança, mas continuam confiando nos meios potentes. Não conseguem conceber uma Igreja dos pobres e para os pobres. Preocupam-se mais com rubricas litúrgicas que com a justiça e a misericórdia. Preferem dormir sob a proteção dos impérios que transformá-los com a força da fé.
Por isso, precisamos permanecer vigilantes, e não só no tempo de Advento! A vigilância é hoje escassa e urgente. E deve ser permanente. Somos convocados a uma “insônia histórica”, a manter os olhos abertos e a inteligência lúcida para discernir os pequenos sinais de um grande e bom acontecimento. Precisamos cultivar a generosidade que gera o Homem Novo e a Nova Sociedade, permanecer dóceis a Deus e confiantes, como o barro nas mãos do oleiro, permitindo que ele nos dê forma, a sua forma. Esperar que Deus se revele ao mundo e no mundo, que nasça uma Nova Ordem humana e social.
Paulo nos lembra que o próprio Deus é avalista desta esperança, que Aquele que nos chamou é fiel. Sua graça é experiência já no presente. Em Jesus fomos enriquecidos na Palavra e no conhecimento. Nele recebemos tudo, e nada de essencial nos falta. Nele já recebemos todas as riquezas que poderíamos desejar. Ele nos fortalecerá até o fim. É claro que é preciso acolher essa riqueza como herança, fazê-la frutificar. Mas temos motivos para confiar, sem nos inquietar, pois “é ele também que nos dará perseverança em nosso procedimento irrepreensível, até o dia de Nosso Senhor, Jesus Cristo”.
Deus pai e mãe, ventre e pátria de todas as criaturas, sonho e promessa dos inconformados e inquietos! Tu sempre vens, e teu movimento é de descida e aproximação. Ouvido algum escutou, olho nenhum viu um Deus igual a ti! Vens ao encontro de quem pratica a Justiça, e pouco te interessam ritos, cânticos e incensos. Em Jesus, vens a nós como agricultor e videira, como pastor e cordeiro, como salvador e irmão, como paz e justiça. Caminha conosco e guia-nos nas estradas do serviço solidário! Desperta nossa fé anestesiada por práticas que pouco têm a ver contigo. E ajuda-nos na missão de porteiros vigilantes! Amém! Assim seja!


Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 63,16-19.64,2-7 * Salmo 78 (80) * 1ª. Carta aos Corintios 1,3-9 * Evangelho de São Marcos 13,33-37)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O Evangelho dominical - 26.11.2017

O DECISIVO

O relato não é propriamente uma parábola, mas uma evocação do juízo final de todos os povos. Toda a cena se concentra num diálogo longo entre o juiz, que não é outro que Jesus ressuscitado, e dois grupos de pessoas: os que aliviaram o sofrimento dos mais necessitados e os que viveram negando-lhes a sua ajuda.
Ao longo dos séculos, os cristãos viram neste diálogo fascinante «a melhor recapitulação do Evangelho», «o elogio absoluto do amor solidário» ou «a advertência mais grave a quem vive refugiado falsamente na religião». Vamos assinalar as afirmações básicas.
Todos os homens e mulheres, sem exceção, serão julgados pelo mesmo critério. O que dá um valor imperecível à vida não é a condição social, o talento pessoal ou o êxito realizado ao longo dos anos. O decisivo é o amor prático e solidário aos necessitados de ajuda.
Este amor traduz-se em atos muito concretos. Por exemplo, «dar de comer», «dar de beber», «acolher o imigrante», «vestir os nus», «visitar os doentes ou os presos». O decisivo ante Deus não são as ações religiosas, mas estes gestos humanos de ajuda aos necessitados. Podem brotar de uma pessoa crente ou do coração de um agnóstico que pensa nos que sofrem.
O grupo dos que ajudaram os necessitados que foram encontrando no seu caminho não o fez por motivos religiosos. Não pensou em Deus nem em Jesus Cristo. Simplesmente procurou aliviar um pouco o sofrimento que há no mundo. Agora, convidados por Jesus, entram no reino de Deus como «benditos do Pai».
Porque é tão decisivo ajudar os necessitados e tão condenável negar-lhes a ajuda? Porque, segundo revela o juiz, o que se faz ou se deixa de fazer a eles está-se a fazer ao mesmo Deus encarnado em Cristo. Quando abandonamos um necessitado estamos abandonando Deus. Quando aliviamos o seu sofrimento estamos a fazer com Deus.
Esta surpreendente mensagem coloca-nos a todos olhando para os que sofrem. Não há religião verdadeira, não há política progressista, não há proclamação responsável dos direitos humanos se não é defendendo os mais necessitados, aliviando o seu sofrimento e restaurando a sua dignidade.
Em cada pessoa que sofre, Jesus sai ao nosso encontro, olha-nos, interroga-nos e interpela-nos. Nada nos aproxima mais Dele que aprender a olhar demoradamente o rosto dos que sofrem com compaixão. Em nenhum lugar poderemos reconhecer com mais verdade o rosto de Jesus.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ANO A – SOLENIDADE DE CRISTO, REI DO UNIVERSO – 26.11.2017

O Rei do Universo é um solidário servidor dos necessitados!
O ano litúrgico católico termina com a solenidade de Cristo, Rei do Universo. Essa festa foi instituída oficialmente em 1955, pelo Papa Pio XII, e hoje temos consciência de que é preciso evitar toda forma de triunfalismo e, ao mesmo tempo, destacar o mistério de Jesus Cristo que, com sua paixão pelo povo e sua vida empenhada em favor dos marginalizados, venceu a opressão e a morte e inaugurou um Novo Tempo, regido pela paz, pela solidariedade e pela partilha. Nesta solenidade, o que deve sobressair não são nossos indiscretos desejos de superioridade e poder, mas a utopia do bom rei que, como o bom pastor, vela sobre seu povo e o governa na justiça e na paz.
Na primeira carta aos Coríntios, Paulo começa sublinhando que Jesus Cristo experimentou a morte solidária com todos os seres humanos para abrir a todos o caminho da ressurreição. Ele é o primeiro, como as primícias da colheita oferecidas no culto de gratidão a Deus. Nele todos viveremos! Sua verdadeira realeza consiste em destruir os poderes que oprimem a humanidade, os inimigos dos seres humanos, entre os quais o último e mais potente é a morte. Não apenas a morte que vem no final da vida, mas também a morte imposta como ameaça e como fato pelas instituições que oprimem. Esta vitória escatológica que realiza a realeza de Jesus Cristo tem como meta possibilitar que o amor e a vida que vem de Deus seja tudo em todos.
O parábola proclamada na solenidade de Cristo Rei faz parte dos ‘discursos escatológicos’ de Jesus. Esse gênero literário é um modo de falar não propriamente daquilo que deve acontecer no fim do mundo, mas de apresentar aquilo que realmente vale enquanto dura nossa vida no mundo. Esse discurso de Jesus nos leva imaginariamente ao fim dos tempos para destacar o que realmente tem valor no percurso da história. É claro que, dizendo que o Filho do Homem virá ‘na sua glória’ e se sentará em seu ‘trono glorioso’, Lucas está comparando Jesus a um rei. A expressão ‘Senhor’ também tem o mesmo sentido, pois esse era o apelativo com o qual o povo se dirigia aos chefes, reis e imperadores.
Esta parábola também aproxima Jesus da imagem do juiz, e isso é compreensível numa cultura que atribuía ao rei as funções legislativas, executivas e judiciárias. “Todos os povos serão reunidos diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.” Julgar significa aqui discernir o verdadeiro valor das ações concretas das pessoas, separadas em dois grupos, a partir daquilo que fizeram, e não a partir dos títulos honoríficos ou das meras intenções. Mas é interessante perceber que, mesmo no papel de juiz, Jesus age como pastor.  Por isso, a solenidade de Cristo Rei vai de mãos dadas com a imagem do Bom Pastor, de Jesus servidor da humanidade.
Não podemos esquecer que os evangelhos nos mostram que Jesus decidiu sentar-se à mesa como conviva dos pecadores, e não como juiz na mesa de um tribunal. Sua vida comprova que ele foi ao encontro dos marginalizados e assumiu a causa deles. Não os esperou sentado na cadeira pretensamente neutra dos juízes! E, além de se apresentar como pastor, juiz e filho do homem, Jesus se identifica com o servo. João Batista o anuncia como ‘cordeiro de Deus’, como aquele que dá a vida em resgate por muitos. E no confronto com as autoridades do seu tempo e com as ambições de poder dos próprios discípulos, o próprio Jesus declara: “Eu estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lc 22,27).
O mais importante, porém, está um pouco escondido nessa instigante parábola. Diante da pergunta sobre a forma concreta do nosso serviço a Jesus e quando o servimos, ele responde: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram...” Jesus é filho da humanidade, irmão dos homens e mulheres mais necessitados, mais concretamente: irmão daqueles que passam fome e sede, dos migrantes e doentes, dos pobres e presidiários. Um culto que queira ser agradável serviço a Deus não pode prescindir do amor solidário e libertador aos pobres, não pode passar ao largo das necessidades do próximo, pois estaria deixando de lado o próprio Cristo.
Deus pai e mãe, pastor do rebanho e protetor dos pequenos! Neste dia em que celebramos meio sem jeito teu Filho como Rei do Universo, te pedimos: purifica nossa liturgia e nossa mente e a das autoridades da Igreja de todo desejo de honra e de poder. Confirma-nos no lugar do servo, lugar que teu Filho ocupou e que não lhe será tirado. Fortalece os leigos e leigas que, de mil e uma maneiras, tornam efetivo o reinado de Jesus Cristo, transformam o mundo e renovam a Igreja. E concede a todos nós a graça de reconhecer, amar e servir teu amado Filho, atenta e delicadamente, nos nossos irmãos e irmãs. Amém! Assim seja!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Ezequiel 34,11-17 * Salmo 22 (23) * 1ª Carta de Paulo aos Coríntios 15,20-28 * Evangelho de de Sao Mateus 25,31-46)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O Evangelho dominical - 19.11.2017

BUSCA CRIATIVA

Apesar da sua aparente inocência, a parábola dos talentos encerra uma carga explosiva. É surpreendente ver que o terceiro empregado é condenado sem ter cometido nenhuma ação má. O seu único erro consiste em não fazer nada: não arrisca o seu talento, não o faz frutificar, conserva-o intacto num lugar seguro.
A mensagem de Jesus é clara. Não ao conservadorismo, sim à criatividade! Não a uma vida estéril, sim à resposta ativa a Deus. Não à obsessão pela segurança, sim ao esforço arriscado por transformar o mundo. Não à fé enterrada debaixo do conformismo, sim ao trabalho comprometido em abrir caminhos ao reino de Deus.
O grande pecado dos seguidores de Jesus pode ser sempre o não arriscarmos a segui-lo de forma criativa. É significativo observar a linguagem que se utilizou entre os cristãos ao longo dos anos para ver em que temos centrado com frequência a atenção: conservar o depósito da fé; conservar a tradição; conservar os bons hábitos; conservar a graça; conservar a vocação...
Esta tentação de conservadorismo é mais forte em tempos de crise religiosa. É fácil então evocar a necessidade de controlar a ortodoxia, reforçar a disciplina e a normativa, assegurar a pertença à Igreja... Tudo pode ser explicável, mas, não é com frequência uma forma de desvirtuar o Evangelho e congelar a criatividade do Espírito?
Para os dirigentes religiosos e os responsáveis das comunidades cristãs pode ser mais cômodo «repetir» de forma monótona os caminhos herdados do passado, ignorando as interrogações, as contradições e as abordagens do homem moderno, mas, de que serve tudo isto se não somos capazes de transmitir luz e esperança aos problemas e sofrimentos que sacodem os homens e mulheres dos nossos dias?
As atitudes que temos de cuidar hoje no interior da Igreja não se chamam «prudência», «fidelidade ao passado», «resignação»... Levam mais bem outro nome: «busca criativa», «audácia», «capacidade de correr riscos», «escuta do Espírito», que faz tudo novo.
O mais grave pode ser que, à semelhança do terceiro criado da parábola, também nós acreditemos que estamos respondendo fielmente a Deus com a nossa atitude conservadora, quando na realidade estamos defraudando as Suas expectativas. O principal trabalho da Igreja hoje não pode ser conservar o passado, mas sim aprender a comunicar a Boa Nova de Jesus numa sociedade sacudida por mudanças socioculturais sem precedentes.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ANO A – TRIGÉSIMO-TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 19.11.2017

“Não amemos os pobres apenas com palavras, mas com obras!”
Esperando e preparando a vinda do Cristo Salvador, os cristãos somos chamados a aproveitar as possibilidades que cada momento histórico nos oferece e, assim, contribuir para que o reinado de Deus avance. Ao definir o penúltimo domingo do tempo comum como Dia Mundial dos Pobres, o Papa Francisco está a nos dizer que a espera do Reino de Deus implica no compromisso para eliminar a indiferença frente às vítimas da exploração e para sair decididamente ao encontro dos pobres, engajando-nos para que lhes seja feita justiça e os sofrimentos que lhes são infligidos sejam amenizados. Segundo o Papa, precisamos amar os pobres com ações, e não apenas com palavras ou orações.
Mesmo que algumas vozes se levantem e gritem diversamente, Deus confia plenamente na pessoa humana. E o testemunho mais claro e indiscutível dessa confiança é a encarnação do Filho seu, a assunção plena da nossa condição humana, com todas as suas tensões e possibilidades. Deus confia a nós não apenas uma doutrina a ser defendida e ensinada, ou uma mensagem a ser transmitida. Ele coloca em nossas mãos a tarefa de dirigir o curso da história e nela realizar seu Projeto. Jesus ilustra isso com a parábola dos talentos (ou tarefas), proposta à nossa reflexão neste domingo.
É o próprio Deus que chama seus administradores, entrega a eles seus bens e espera que cada um corresponda a esta confiança de acordo com suas próprias possibilidades. “A um ele deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um.” A cada qual de acordo com a respectiva capacidade. A confiança do patrão é tão absoluta que ele viaja sem nenhuma preocupação. Deus sabe em quem coloca sua confiança! Mas é importante perguntar: o que ele espera daqueles que nele acreditam? Seria a simples multiplicação de horas de adoração, de doutrinas abstratas, de leis pesadas e morais estreitas?
Não! Eis o que ele pede e espera: “Vão e façam discípulos meus em todos os povos! Assim como o Pai enviou a mim, eu envio vocês!” Trata-se de anunciar e dinamizar o Reino de Deus acolhendo os pobres, consolidando a justiça, amando sem distinção. Deus espera que a confiança depositada em nós dê frutos! É por isso que Jesus coloca nos lábios do homem anônimo o elogio que o próprio Deus pronuncia diante dos fiéis que agem responsavelmente: “Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais! Venha participar da minha alegria!”
Confiança com confiança se paga! Mas a confiança responsável se mostra na capacidade de correr riscos, de sujar as mãos e encarnar-se na história, pois é nela que se esconde e se expande o Reino de Deus. O que Deus nos confia é um fermento, e o fermento cumpre seu destino somente quando se mistura à farinha e a faz a massa crescer. O que Deus nos confia é o dinamismo do seu amor, e o amor morre quando não é transformado em ação. É verdade que o que se espera de nos é uma responsabilidade serena e sóbria, mas isso não significa que podemos ser impunemente passivos!
Infelizmente, alguns mal-entendidos levam muitos cristãos a atitudes irresponsáveis. Em nome da defesa da fé, concebem, dão à luz e fazem crescer uma Igreja separada do mundo, centrada nas doutrinas e leis, seduzida por uma vaga ideia de alma, enamorada dos poderes elitistas e excludentes, obcecada por templos suntuosos e ricos ornamentos. E mais: gastam todas as suas limitadas forças no resgate de ritos e línguas de um tempo que não existe mais. Esta atitude é bem representada pelo sujeito que, mesmo tendo recebido sua parte de responsabilidade, age guiado pelo medo e enterra seus talentos.
Por quê esse sujeito faz isso? “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso fiquei com medo escondi o meu talento no chão.” Ele diz que age por medo e respeito, mas isso não passa de medo e preguiça! É um servo mau e preguiçoso... Nossa fé nos leva a enfrentar desafios: a encarnar a fé e da esperança no coração do mundo; a envidar esforços para que os pobres não tenham apenas um dia, mas sejam  prioridade em todos os projetos; a fazer isso sem soberba, como quem dialoga e colabora.
“Ajuda a Igreja de Cristo a reencontrar os perdidos caminhos da Pobreza. Ajuda-a na abertura de portas: que nenhuma seja fechada por ela, mas se abram todos os diálogos e irrompa hora nova e única para os teólogos, encarregados não só de aprofundar o Vaticano II, mas de preparar o Vaticano III... Ajuda-nos no esforço de levar à prática as decisões conciliares, sopro renovador da face da terra. Ajuda-nos a ajudar a humanidade no acerto do desencontro que a muitos pode parecer mania: o diálogo entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido...” Amém! Assim seja! (Dom Helder Camara)
Itacir Brassiani msf
(Livro dos Provérbios 31,10-31 * Salmo 127 (128) * 1ª. Carta aos Tessalonicenses 5,1-6 * Evangelho de Mateus 25,14-30)