quinta-feira, 12 de julho de 2018

O Evangelho dominical - 15.07.2018


NOVA ETAPA EVANGELIZADORA

O papa Francisco está a chamar-nos para uma «nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus. Em que pode consistir? Onde pode estar a sua novidade? Que temos de mudar? Qual foi realmente a intenção de Jesus ao enviar os seus discípulos a prolongar a Sua tarefa evangelizadora?
O relato de Marcos deixa claro que só Jesus é a fonte, o inspirador e o modelo da ação evangelizadora dos Seus seguidores. Não farão nada em nome próprio. São «enviados» de Jesus. Não pregarão sobre si mesmos: anunciarão o Seu Evangelho. Não terão outros interesses: só se dedicarão a abrir caminhos para o reino de Deus.
A única maneira de impulsionar uma «nova etapa evangelizadora marcada pela alegria de Jesus» é purificar e intensificar esta vinculação com Jesus. Não haverá nova evangelização se não há novos evangelizadores, e não haverá novos evangelizadores se não há um contato mais vivo, lúcido e apaixonado com Jesus. Sem Ele faremos tudo menos introduzir o Seu Espírito no mundo.
Ao enviá-los, Jesus não deixa os Seus discípulos abandonados às suas próprias forças. Dá-lhes o Seu «poder», que não é um poder para controlar, governar ou dominar os outros, mas a Sua força para «expulsar espíritos imundos», libertando as pessoas do que as escraviza, oprime e desumaniza.
Os discípulos sabem muito bem de que Jesus os encarrega. Nunca o viram a governar ninguém. Sempre o conheceram curando feridas, aliviando o sofrimento, regenerando vidas, libertando de medos, contagiando confiança em Deus. Curar e libertar são tarefas prioritárias na atuação de Jesus. Dariam um rosto radicalmente diferente à nossa evangelização.
Jesus envia-os apenas com o necessário para caminhar. Segundo Marcos, só levarão bastão, sandálias e uma túnica. Não necessitam de mais para ser testemunhas do essencial. Jesus quer vê-los livres e sem estarem atados; sempre disponíveis, sem instalar-se no bem-estar; confiando na força do Evangelho.
Sem recuperar este estilo evangélico não há nova etapa evangelizadora. O importante não é colocar em marcha novas atividades e estratégias, mas desprendermo-nos de costumes, estruturas e subordinações que nos estão a impedir de ser livres para contagiar o essencial do Evangelho com verdade e simplicidade.
Na Igreja temos perdido esse estilo itinerante que sugere Jesus. Nosso caminhar é lento e pesado. Não sabemos acompanhar a humanidade. Não temos agilidade para passar de uma cultura já do passado para a cultura atual. Agarramo-nos ao poder que tivemos. Enredamo-nos em interesses que não coincidem com o reino de Deus. Necessitamos conversão.
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 11 de julho de 2018

ANO B – DÉCIMO-QUINTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 15.07.2018


É fiel a Jesus a Igreja que vive em ritmo de missão!
Ainda está viva na nossa memória a recepção pouco positiva que a comunidade de Nazaré dispensou a Jesus, narrada no evangelho do domingo passado. Por causa da sua origem humilde, impacto provocado pela sua sabedoria logo se transformou em escândalo. A encarnação humilde e solidária, porém, não é mero acidente de percurso, mas o método missionário de Jesus! Ele envia os discípulos recomendando despojamento e humildade, pedindo que tomem parte na sua missão. A comunidade cristã é uma assembleia de pessoas chamadas e enviadas, e Paulo diz que Deus nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos e sem ambiguidades no amor. O amor é a dinâmica e o coração da missão.
A palavra Igreja significa etimologicamente assembleia ou reunião. A Igreja é uma autêntica assembleia de Deus, convocada e reunida por ele e em nome dele. Esta assembleia representa Jesus no mundo. A razão de ser da Igreja é deixar-se enviar, colocar-se a caminho, assumir uma missão, continuar a própria missão iniciada por Jesus Cristo. Ela é uma assembleia de pessoas enviadas, uma comunidade em missão. Isso significa que a Igreja não é uma sociedade voltada para si mesma, autorreferencial, como fala o Papa Francisco. A Igreja é uma espécie de movimento para fora, uma comunidade ex-cêntrica.
Preparar-se e capacitar-se para a missão recebida é sinal de responsabilidade pessoal e de apreço pelos destinatários do serviço que realizamos. No caso da missão que Jesus Cristo confia à comunidade cristã, a preocupação exagerada com os meios e com os recursos não deve travar as iniciativas nem adiar o enfrentamento das urgências. O que é indispensável é o mergulho pessoal no Evangelho de Jesus Cristo e a disposição de partilhar gratuitamente a liberdade e a dignidade que de graça recebemos. Como Jesus, seus discípulos não devemos nos preocupar demais com meios poderosos e técnicas especiais.
Com isso não quero dizer que a preparação espiritual e intelectual não sejam necessárias, mas apenas ressaltar que não devemos colocar aquilo que é secundário no lugar do que é essencial. Sem a experiência de fé e da liberdade que despoja e simplifica, não há curso ou instrumento multimídia que possa ajudar na missão. Sem a atitude de irmão e companheiro não existe missão frutuosa. A vocação missionária não é uma profissão que traz benefícios ou prosperidade individual, mas uma força desestabilizadora e profética, o que a faz nem sempre aceita e aplaudida.
Anunciar “Jesus te ama e te salva!” é bonito e verdadeiro, mas é pouco e insuficiente. É uma pena que haja missionários que imaginam que é necessário defender Jesus diante de um mundo indiferente ou resistente à religião, pois é o povo de Deus, e não Jesus, que precisa de defensores! E há pregadores que esquecem que a missão tem uma dimensão ativa, transformadora, libertadora: expulsar demônios, curar doentes, etc. Isso não significa virar exorcista ou curandeiro, mas criar condições para que as pessoas arrebentadas por dentro e por fora, menosprezadas e oprimidas, recuperem plenas condições de vida.
Em cada situação missionária, precisamos identificar quem são as pessoas e grupos aos quais são negadas as possibilidades de uma vida plena e agir em favor delas, levando em conta que, por mais que as ações espetaculares de expulsar os demônios e curar os doentes impressionem, a dimensão transformadora da missão cristã se mostra melhor noutras iniciativas que dão menos ibope, como na corajosa ação da CPT, no delicado e respeitoso trabalho do CIMI, na frutuosa atividade da Pastoral da Criança, no ingrato trabalho da Pastoral Carcerária, na anônima dedicação da Pastoral da Saúde...
É uma verdade central da nossa fé que, em Cristo, Deus nos abençoou abundantemente e nos escolheu ainda antes de criar o mundo para sermos pessoas maduras e íntegras no amor. Ele também abriu nossa mente à compreensão do mistério de sua santa vontade, nos adotou como filhos e filhas e nos introduziu na lista dos seus herdeiros. E isso não é pouco, nem coisa abstrata ou para um futuro incerto. O que não podemos é pensar que isso seja mérito ou privilégio. Somos filhos e filhas, e herdeiros, porque ele é bom, nos ama e nos acolhe sem levar em conta nossas ambiguidades e limites.
Jesus Cristo, profeta de Nazaré e missionário do Pai! Tu nos ensinas que a vontade mais genuína do teu e nosso Pai é que o amor e a fidelidade se encontrem, a justiça e a paz se abracem, a fidelidade brote da terra e a justiça se incline do céu. É isso que tu pedes que anunciemos e realizemos enquanto Igreja discípula e missionária. Por isso, confiantes, te pedimos pelos servidores e servidoras da Palavra, por aqueles cuja missão é, na medida do possível, atrair as pessoas a ti: abençoa o trabalho deles, de modo que realizando-o possam também eles ser atraídos a ti e confirmados na alegria. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profecia de Amós 7,12-15 * Salmo 84 (85) * Carta aos Efésios 1,3-14 * Evangelho de São Marcos 6,7-13)

terça-feira, 10 de julho de 2018

18 anos de presença MSF no Alto Juruá (5)


Uma prece que vale por um projeto de vida
Em abril de 2007, ao concluir uma viagem de visita às Comunidades ribeirinhas, brotou do coração missionário do Ir. Lauri (hoje, conselheiro e ecônomo provincial) uma bela prece que vale por um projeto de vida. Esta poderia ser a prece matutina ou vespertina de todos os missionários e missionárias, na Amazônia ou na África, na Ásia ou na Europa, nas periferias urbanas ou nas comunidades perdidas nas selvas. Deixemos que nosso ser se expresse por inteiro nestas palavras carregadas de espírito e renovemos nosso ânimo missionário.
“Que eu saiba sempre compreender cada irmão e irmã.
Que eu nunca os avalie conforme o meu jeito de pensar.
Que eu nunca os julgue pelo que aparentam aos meus olhos.
Que eu saiba sempre compreendê-los com o coração e com a fé.
Que eu não veja como normalidade o sofrimento dos pequenos e indefesos.
Que o amor ao próximo seja sempre a bússola do meu caminhar e do meu agir.
Que minha busca fundamental seja sempre o Reino de Deus e sua Justiça.
Que o reino de Deus seja o tesouro no qual se alegra e descansa meu coração.
Que Cristo me dê forças e seja a poronga que ilumine minha vocação e minha vida.
Que o Senhor seja a seiva do mate que busco cada manhã.
Que eu nunca me canse, nem desanime diante das incompreensões e dificuldades.
Que eu sempre veja o rosto de Deus no rosto dos pequenos e fracos.
Que o amor seja sempre minha resposta e minha atitude.
Que a minha esperança seja renovada a cada dia pela Tua Palavra.
Que sejas tu meu vínculo de comunão com estes irmãos e irmãs. Amém.”
Itacir Brassiani msf

sábado, 7 de julho de 2018

18 anos de presença MSF no Alto Juruá (4)


Desafios e horizontes da missão
Hoje, ao completar 18 anos de missão, nossa comunidade missionária identifica os seguintes desafios em Carauari e Itamarati:
(a)    A animação pastoral das comunidades ribeirinhas e a presença nas aldeias indígenas (em parceria e diálogo com o CIMI, com a Pastoral da Juventude e com a Pastoral da Criança);
(b)    O acompanhamento das comunidades eclesiais urbanas, especialmente no fortalecimento dos vínculos fraternos e na formação de lideranças cristãs maduras;
(c)     O acompanhamento das famílias, considerando suas diversas configurações, assim como a instabilidade dos vínculos e a precocidade do matrimônio;
(d)    A valorização pastoral e a presença dos missionários nos novenários urbanos e ribeirinhos, inclusive como estratégia para promover avanços no sentido eclesial e missionário;
(e)    O planejamento, a execução e a avaliação comunitária (comunidade religiosa) dos diversos trabalhos, valorizando as habilidades de cada um e evitando tanto a fragmentação como a centralização;
(f)       A visualização de caminhos e estratégias para trabalhar com as juventudes, ajudando-as a visualizar possibilidades e alternativas de vida;
(g)    Os altos custos das visitas às comunidades ribeirinhas, da pastoral em geral, da infraestrutura e da manutenção da comunidade missionária;
(h)    A superação da impressão de que o envio dos coirmãos enviados à missão na Amazônia é uma espécie de punição ou castigo.
Nesse contexto, antes de estabelecer tarefas prioritárias, consideramos imprescindível definir claramente os princípios que dão o rumo e a substância à nossa ação missionária nessa região:
(a)    Viver e anunciar comunitariamente a alegria do Evangelho, ajudando a construir uma Igreja que seja mais semelhante a um hospital de campanha que a uma alfândega;
(b)    Assumir a missão como um processo de saída de nós mesmos, nossa visão e nossa cultura, e de conversão ao evangelho do outro;
(c)     Testemunhar a fraternidade e a comunhão, vivendo e trabalhando sempre a partir da comunidade religiosa e de vida, superando a tentação da divisão rígida e hierarquizada de trabalhos (pároco, vigários, ajudantes, etc.);
(d)    Desenvolver ações orgânicas, planejadas e avaliadas comunitariamente, valorizando as competências de cada coirmão e evitando iniciativas paralelas ou isoladas;
(e)    Encarnar-se na Igreja local e empenhar-se no fortalecimento das comunidades eclesiais, no horizonte dos projetos e prioridades da Prelazia e da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica);
(f)      Respeitar, apoiar e promover as lideranças leigas, especialmente mediante os Conselhos comunitários e paroquiais, e as pastorais de caráter solidário e popular;
(g)    Exercitar o diálogo aberto e respeitoso com as tradições culturais e religiosas do povo amazônico;
(h)    Colocar-se solidariamente a serviço dos pobres, apoiando suas lutas e fortalecendo suas organizações. (continua)
Itacir Brassiani msf

quarta-feira, 4 de julho de 2018

ANO B – DÉCIMO-QUARTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 08.07.2018


Em Jesus, Deus assume radicalmente a condição humana.
A grandeza, a fama e o poder sempre nos fascinam. Evitamos, como podemos, a fraqueza, pequenez e a humildade. A luta das seleções e torcidas pelo primeiro lugar na Copa ilustra muito isso muito bem. Os ídolos nos parecem modelos dignos de serem imitados, mesmo quando escondem suas origens humildes, enganam o fisco ou desabam ruidosamente. Mas o caminho da humanização não passa por estas veredas. Jesus de Nazaré define para sempre seu caminho de Deus: o ser humano comum, sem nenhum outro título ou honra, é seu sacramento, seu interlocutor e seu embaixador no mundo.
Existem pessoas que são desprezadas simplesmente por causa do gênero ou orientação sexual: mulheres constantemente humilhadas por uma arcaica e violenta cultura machista e pessoas homo afetivas caçadas como feras perigosas ou abjetas. Existem também grupos humanos que são desprezados por questões étnicas e raciais: negros que carregam as marcas da escravidão como se dela fossem culpados, vistos sempre com suspeita e considerados inferiores; povos indígenas catalogados como seres primitivos ou selvagens, exemplares exóticos de um tempo que não existe mais ou entraves para o excludente e predatório desenvolvimento branco; imigrantes enxotados como lixo imundo...
Apesar dos títulos e imagens de poder que a história associou a ele, Jesus de Nazaré partilhou a sorte das pessoas desprezadas e marginalizadas. Ele não fez coro com os soberbos e satisfeitos, nem se mostrou indiferente ao destino das pessoas humilhadas. Nasceu numa estrebaria, habitou numa cidade insignificante e numa região desprezada, foi trabalhador braçal, aproximou-se e misturou-se aos grupos sociais suspeitos, foi preso e executado entre ladrões. Em Nazaré, sua cidade Natal, Jesus era conhecido como um carpinteiro, e seus familiares eram pessoas muito humildes, gente muito comum.
O evangelho desse domingo mostra a admiração e a inquietação dos conterrâneos de Jesus sobre a origem do seu carisma. Como conheciam Jesus desde pequeno, perguntavam-se: “Onde foi que arranjou tanta sabedoria? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” Do ponto de vista da origem, Jesus não poderia ser o que dava a impressão de ser. Para seus conterrâneos, sabedoria não poderia vir de pessoas comuns e humildes como eles. Por mais que o ensinamento e as ações de Jesus impressionassem, sua pertença a um povoado marginal era para eles como uma pedra de escândalo.
Jesus fica impressionado com a visão estreita dos seus conterrâneos, com a influência que a ideologia da superioridade das pessoas cultas e poderosas exerce sobre os humildes habitantes da sua aldeia. Por trás dessa influência maléfica está a ideia da inferioridade e impotência dos pobres, da sua radical e eterna dependência de benfeitores poderosos. Como tantos outros, aquele povo simples havia interiorizado e assimilado sua própria insignificância. Mas, o que mais surpreende, é que parece que esse escândalo atinge os próprios familiares e parentes de Jesus.
É isso que deduzimos do provérbio citado por Jesus: “Um profeta só não é estimado na sua pátria, entre seus parentes e familiares...” Aqueles que conheciam suas raízes camponesas e suas mãos calejadas pelo trabalho na carpintaria não conseguiam reconhecer em Jesus os traços do Profeta ou do Messias esperado. Mas, para Jesus, o escândalo dos habitantes de Nazaré diante da sua origem humilde é falta de fé, pois a fé é a abertura essencial que permite reconhecer a presença de Deus nas pessoas simples, acolher as surpresas e a ação inusitada de Deus que se manifesta onde e quando menos se espera.
Chamando a atenção dos cristãos de Corinto, Paulo afirma que prefere orgulhar-se de suas fraquezas e não de seus méritos. “Eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades, perseguições e angústias por causa de Cristo.” Paulo tem a convicção de que a força de Deus se revela na humana fraqueza, e, por isso, não corre atrás de revelações e dons extraordinários. Todos aqueles que realmente acreditam em Jesus Cristo seguem o caminho do amor que serve, do amor a fundo perdido, sem se importar com o sucesso e o retorno. Os cristãos sabemos que seguimos um servo, e não um patrão!
Jesus de Nazaré, carpinteiro numa aldeia insignificante, escândalo para os próprios conterrâneos e familiares... Ensina-nos a apreciar a fraqueza em vez do poder, a humildade em vez da soberba. Ajuda-nos a manter nossos olhos fixos em ti, nosso Senhor e Servo. Como tu, queremos confiar na liberdade e na força que nos vem do Espírito do Pai e da tua Palavra, e não em nosso próprio poder de convencimento e de pressão ou nas ações espetaculares. E não nos deixes esquecer que tu compartilhas nossas origens e não te envergonhas de nos chamar de irmãos e irmãs. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profecia de Ezequiel 2,2-5 * Salmo 122 (123) * 2ª Carta aos Coríntios 12,7-10 * Evangelho de São Marcos 6,1-6)

O Evangelho dominical - 08.07.2018


REJEITADO ENTRE OS SEUS

Jesus não é um sacerdote do Templo, ocupado em cuidar e promover a religião. Tampouco se confunde com um Mestre da Lei, dedicado a defender a Torá de Moisés. Os camponeses da Galileia vêm nos Seus gestos curadores e nas Suas palavras de fogo a atuação de um profeta movido pelo Espírito de Deus.
Jesus sabe que lhe espera uma vida difícil e conflituosa. Os dirigentes religiosos irão enfrenta-Lo. É o destino de todo o profeta. Não suspeita todavia que será rejeitado precisamente entre os seus, os que melhor o conhecem desde criança.
Ao que parece, a rejeição de Jesus no Seu povo de Nazaré era muito comentada entre os primeiros cristãos. Três evangelistas recolhem o episódio com todo o detalhe. Segundo Marcos, Jesus chega a Nazaré acompanhado de discípulos e com fama de profeta curador. Os Seus vizinhos não sabem o que pensar.
Ao chegar ao sábado, Jesus entra na pequena sinagoga da povoação e «começa a ensinar». Os Seus vizinhos e familiares apenas o escutam. Entre eles nasce todo o tipo de preguntas. Conhecem Jesus desde criança: é um vizinho entre outros. Onde aprendeu essa mensagem surpreendente do reino de Deus? De quem recebeu essa força para curar? Marcos diz que Jesus «deixava-os desconcertados». Porquê?
Aqueles camponeses acreditam que sabem tudo de Jesus. Fizeram uma ideia Dele desde criança. Em lugar de o acolher tal como se apresenta ante eles, ficam bloqueados pela imagem que têm Dele. Essa imagem os impede de se abrir ao mistério que se encerra em Jesus. Resistem a descobrir Nele a proximidade salvadora de Deus.
Mas há algo mais. Acolhê-Lo como profeta significa estar dispostos a escutar a mensagem que lhes dirige em nome de Deus. E isso pode trazer-lhes problemas. Eles têm a sua sinagoga, os seus livros sagrados e as suas tradições. Vivem com paz a sua religião. A presença profética de Jesus pode romper a tranquilidade da aldeia.
Os cristãos, temos imagens bastante diferentes de Jesus. Nem todas coincidem com a que tinham os que o conheceram de perto e o seguiram. Cada um de nós faz a sua ideia ele. Esta imagem condiciona a nossa forma de viver a fé. Se a nossa imagem de Jesus é pobre, parcial ou destorcida, a nossa fé será pobre, parcial ou alterada.
Porque nos esforçamos tão pouco em conhecer Jesus? Porque nos escandaliza recordar os Seus traços humanos? Porque nos resistimos a confessar que Deus se encarnou num profeta? Intuímos talvez que a Sua vida profética nos obrigaria a transformar profundamente as nossas comunidades e a nossa vida?
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

18 anos de presença MSF no Alto Juruá (3)


Uma nova iniciativa missionária na região Amazônica

A terceira iniciativa pastoral dos Missionários da Sagrada Família na Amazônia foi também uma iniciativa da Província do Brasil Meridional e debutou há 18 anos (julho de 2000), na prelazia de Tefé, situada na Amazônia Ocidental, no estado do Amazonas. O território abrange uma área de 266.269 km2 e população é formada principalmente por descendentes de índios. São os chamados “caboclos”, resultado da mistura dos índios com os nordestinos que lá chegaram no período forte da expansão da borracha (início século XX).

A Prelazia de Tefé nos confiou a área compreendida pelas paróquias de Carauari e Itamarati, ao longo do rio Juruá, afluente esquerdo do rio Solimões-Amazonas. A região do rio Juruá é uma área tradicional de extrativismo, desde os indígenas pré-colombianos, mas principalmente a partir do século XVI. No período das grandes secas do Nordeste, os extrativistas de borracha se instalaram nas margens do Juruá, expulsando e perseguindo os nativos. Por muitos anos a borracha foi o produto principal da região, mas no fim dos anos 70 os seringais entraram em franca decadência. No momento da chegada dos MSF, a população da área geográfica das duas paróquias passava de 32.000 pessoas.
O objetivo explicitamente estabelecido e assumido tanto pela Província como pelo primeiro grupo de missionários deste projeto foi “dinamizar o elã missionário da Província Brasil Meridional fazendo-se o próximo do povo da Amazônia, dando testemunho de fraternidade, hospitalidade, solidariedade e serviço aos mais pobres, a fim de fortalecer a caminhada da Igreja local e a consciência de cidadania.”

A nova missão articulou-se inicialmente em torno de cinco eixos: a) Fraternidade e convivência comunitária, visando desenvolver a missão sem perder a identidade e o sonho de vida fraterna; b) Atitude de discípulo, para manter a consciência de que precisamos cultivar uma relação viva e pessoal com Jesus Cristo, junto com os demais cristãos; c) Serviço solidário aos últimos, dedicando uma atenção especial e prioritária àqueles que são considerados e tratados como últimos na sociedade; d) Construção da Igreja local,  para ajudar a consolidar a caminhada de uma Igreja enraizada na Amazônia; e) Comunhão com a Província, cultivando a consciência de que os missionários são enviados pela Província e a representam.

Com este projeto na mente e no coração, os padres Matias Schaefer e Euclides Paulus e o Fr. Vanderlei Souza da Silva partiram para a Amazônia nos primeiros meses do ano 2000. Depois de alguns meses de experiência em diferentes realidades, chegaram a Carauari para assumir as Paróquias desta cidade e de Itamarati, fato que ocorreu no dia 11 de julho de 2000. No ano seguinte o Ir. Moacir Filipin se incorporaria ao grupo.

Aos confrades pioneiros chegaram outros, para substituir os que retornavam ou juntar-se aos que ficavam: padres Inácio Dalla Nora, Mauro Primo Vieira, Virgílio Moro, Pedro Léo Eckert, Pedro Almeida da Silva, Pe. Marcelo Junior Klein. Depois, passaram pela missão os padres Celso Both, Moisés Furmann, Firmino Santana e Neiri Segala. Também foram presença marcante os Irmãos Adelir Bisolo, Lauri de Césare e Wanderson Nogueira, Atualmente, a missão conta com a generosa presença dos coirmãos padres Francisco Ary Carnaúba, Aniceto Francisco dos Santos, Irineu Paulo Paetzold e Valmir José Majolo.  
Mas a missão às margens do rio Juruá não é exclusividade dos Missionários da Sagrada Família. Dela participaram ativamente (desde 2009) uma comunidade de Irmãs Catequistas Franciscanas, uma comunidade de Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, dois postulantes MSF (André Freitas e Gleison França) e uma comunidade de três leigos (um jovem e um casal), estes últimos preparados, enviados e sustentados pela Província MSF do Brasil Meridional.
A população de Carauari é de aproximadamente 25.800 habitantes, para uma área de 25.767 km2, enquanto que Itamarati tem 6.300 habitantes, distribuídos numa área de 25.275 km2. (A soma da área geográfica das duas paróquias é maior que o território da Suíça!) Além de animar os trabalhos normais das duas sedes paroquiais, nossos missionários visitam 67 comunidades eclesiais ribeirinhas e acompanham 6 comunidades eclesiais urbanas. Além destas comunidades, 9 povos indígenas vivem na área geográfica da paróquia.

As viagens são muito demoradas. São necessárias 48 horas de navegação para subir de Carauari e Itamarati, e 90 horas para subir de Tefé (sede da Prelazia) a Carauari. As visitas pastorais às comunidades ribeirinhas de cada paróquia, realizadas duas ou três vezes por ano, costumam durar aproximadamente um mês, com um altíssimo custo em termos de combustível e de manutenção. (continua)

Itacir Brassiani msf

terça-feira, 3 de julho de 2018

Páscoa do Pe. Ceolin: 5 anos


Celebrando a memória de uma vida consagrada

O dia 3 de julho marca a passagem de 5 anos de falecimento do saudoso coirmão Pe. Rodolpho Ceolin msf. Cultivar a memória desse missionário não é uma homenagem que prestamos a ele, mas uma forma de, recordando sua trajetória e seu perfil humano e espiritual, acolher os estímulos de crescimento.
Nos últimos dias de vida, o Pe. Ceolin rabiscou algumas notas telegráficas para uma possível e desejada autobiografia. Ele agrupo estas notas em quatro momentos: episódios marcantes da infância; vida no Seminário de Santo Ângelo; do noviciado à primeira missa; vida ministerial. (Não abordaremos aqui este último momento).
Em relação à infância
Nestas anotações o Pe. Ceolin registra que nasceu no oitavo mês de gestação, fato que ele imaginava estar na origem da sua alta sensibilidade ao barulho e daquilo que ele chama, sem oferecer detalhes, de “medo da morte”. Depois, faz menção ao acidente do pai com a explosão de um dinamite, fato que, sabemos por ele, interferiu decisivamente no futuro da família, e que o Rodolpho tinha certa dificuldade em aceitar e perdoar.
Nesta fase, há uma referência também a um acidente que ele mesmo teve com um embornal. Seu irmão Ermindo me contou que, quando menino ainda bem pequeno, metido como sempre seria, o Rodolpho estava brincando no galpão, enfiou a cabeça num bornal de arame e, com dificuldades de se desvencilhar e assustado, acabou com um profundo corte no pescoço...
Nestas linhas manuscritas, o nosso saudoso coirmão registra também que era muito travesso, e isso tanto em casa como na escola e na catequese. Mas essas travessuras não impediam que ele fosse avaliado positivamente pelos vizinhos e pela comunidade, que o aceitou como coroinha ainda em tenra idade. Ele mesmo lembra que o pai atuou decisivamente para livra-lo dos maus companheiros, sem entrar em maiores detalhes a respeito.
Sinais precoces da vocação à vida consagrada?
Aos 83 anos, o Pe. Ceolin se interrogava se teriam existido, na sua infância, sinais autênticos de vocação à vida religiosa e ministerial. E registra entre aspas e com emoção, palavras que parecem ter sido ditas por sua mãe, dona Carolina: “Você não me pertence. Você é mais filho de Deus que meu!” Sábias, generosas e profundas palavras de uma mãe que se revelaria boa catequista e iluminada orientadora vocacional...
Entre os pontos que, nas notas que nos ocupam, ele destacou como merecedores de um desenvolvimento maior, está uma referência a “luzes e sombras, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas”. Sobre isso, ele não diz nada mais. Sabemos, porém, daquilo que significou sua expulsão do Seminário, conforme relata noutro texto.
Formação no Seminário
Mas para este período, ele escreveu, como primeiro ponto: “Carlito, o amigo verdadeiro”. Trata-se de Carlito Meelz, seu amigo de infância, o qual, desde seu ingresso no Seminário jamais passou um dia sem rezar pela vocação do Pe. Rodolpho. Na celebração dos 50 anos de ministério presbiteral do Ceolin, lá estava o Carlito, na primeira fila, fisicamente debilitado, mas espiritualmente intacto.
Mas há também, para este período, uma anotação muito interessante sobre aquilo que ele denomina de “características emergentes na minha personalidade”, e que ele descreve em cinco pontos: amor ao trabalho humilde; vida modesta e pobre; prontidão e gratuidade para fazer aquilo que lhe solicitam; solidão do coração; pouco exigente com a alimentação. Quem o conheceu pode testemunhar o quanto estes traços emergentes se consolidaram na sua vida adulta, inclusive aquilo que ele denomina “solidão de coração”.
Noviço e presbítero
Nas referidas anotações, o Pe. Ceolin destaca um terceiro período da sua vida, que vai do noviciado à primeira missa. E um primeiro registro que chama a atenção, e que ele faz questão de partilhar, é sua boa convivência com os colegas e seu empenho no estudo, no trabalho e no esporte. Não menos importante é o distanciamento em relação aos colegas que eram lentos ou resistentes aos trabalhos extras, aos que buscavam sempre o que era mais fácil e prazeroso, aos que se aventuravam em experiências contra os votos, aos que mostravam um caráter exageradamente crítico e briguento. Finalmente, há uma nota sobre suas aptidões para o canto, a música e as artes cênicas, dons e gostos que conservou, embora sem desenvolve-los significativamente, até o final da vida.
Há também referências ao que ele chama de limites e feridas deste período. O Pe. Ceolin registra os dois limites que lhe pareciam mais relevantes. O primeiro, ele chama de “dúvidas incertezas vocacionais”, algo que o acompanhará nos primeiros anos de ministério e no período em que foi Superior provincial, e até muito mais tarde. Trata-se de uma questão com a qual ele se debateu a vida inteira!

O segundo limite é uma espécie de ferida, à qual ele chama de “provação” e se referia seguidamente: foi obrigado a ficar sete anos sem visitar sua família. E isso se fez ainda mais doloroso pela impossibilidade da sua mãe fazer-se presente na sua ordenação presbiteral, celebrada no dia 25 de novembro de 1956, em Tapejara (RS).
Itacir Brassiani msf

segunda-feira, 2 de julho de 2018

18 anos de presença MSF no Alto Juruá (2)


Primeiras experiências dos MSF na região Amazônica
Mesmo sem sequer imaginar a importância que a Amazônia teria nas décadas seguintes, a presença dos Missionários da sagrada Família na região remonta aos inícios do século passado. Um grupo de sete missionários (Pe. João Paulsen; Pe. Alexandre Mertens; Pe.José Lauth; Pe. Ludovico Bechold; Pe. Germano Elsing; Ir. Boaventura Hammacher; Ir. Francisco Ramm) partiu da Holanda em dezembro de 1910 e, depois de uma parada em Recife para aprender os rudimentos da língua nativa, chegou, já desfalcado de dois membros, a Mazagão, na região da foz do rio Amazonas, no dia 15 de agosto de 1911. Era a primeira iniciativa missionária da Congregação.
Segundo um historiador Eduardo Hoornaert, o que caracteriza substancialmente a primeira evangelização oficial na Amazônia como um todo é o abandono das populações em termos religiosos, assim como o autoritarismo e o elitismo: "Fomos evangelizados de cima para baixo e de fora para dentro. Tanto o cristianismo dos engenhos como o dos aldeamentos eram baseados numa inversão de valores que camuflava o especificamente cristão. O colonialista estava no altar e o pobre na porta, o dinheiro abria as portas da Igreja e os pobres ficavam por fora, assim como quem quer que seja que falasse a favor deles.” (A Igreja no Brasil" em: Enrique Dussel [Org.] Historia Liberationis, São Paulo: Paulinas/CEHILA, 1992, p. 316)
A população da região onde atuaram os recém-chegados missionários era formada quase que totalmente por negros, mulatos e caboclos. Habituados aos trabalhos pesados, este povo ficara à margem da sociedade. As mulheres eram diminuídas e subjugadas pelos maridos. As igrejas estavam quase sempre fechadas ou abandonadas. E eram apenas 13 padres para dar conta de uma prelazia de dimensões continentais.

Nossos missionários se depararam com as dificuldades enfrentadas pelo povo e o trabalho era insano e desalentador. "De um lado a pobreza extrema de uma grande parte do povo, tecida de tradições e costumes africanos; de outro lado, a ignorância religiosa generalizada, aliada ao analfabetismo, à licenciosidade dos costumes, a famílias mal constituídas. Era o pano de fundo daquela impressionante realidade” (Demerval Alves Botelho, Uma história de amor e sacrifício, vol. I, 1988, p. 73). Por várias razões, os Missionários da Sagrada Família deixaram a região em 1948, depois de 37 anos de trabalho.
No ano de 1994 um grupo de missionários da Província do Brasil Meridional deu vida a uma nova presença dos MSF na região amazônica, desta vez na periferia de Palmas, capital do recém criado estado de Tocontins. Naquele momento a cidade contava com mais de 60.000 habitantes, composta por uma maioria absoluta de migrantes, e com apenas um padre para atendê-la. A comunidade missionária viveu de modo simples e despojado, próxima do povo mais pobre e trabalhando para o próprio sustento. Atuou decidamente na organização da luta pela moradia, além dos trabalhos de organização das comunidades eclesiais.
No período de sete anos em que vigorou esta missão, vários coirmãos deram o melhor de si: Pe. Júlio César Werlang; Ir. Irio Luiz Conti; Pe. Pedro Léo Eckert; Pe. Inácio Dalla Nora; Fr. Moisés Furmann; Fr. Romeu Feix; e Fr. Onivaldo e alguns postulantes.  Esta comunidade foi fechada no ano 2000, considerando especialmente o progressivo conservadorismo da Igreja local, o aumento do número de padres e religiosos, a grande distância que separava a pequena comunidade dos demais confrades e o projeto de uma nova missão na prelazia de Tefé. (Continua)
Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 29 de junho de 2018

18 anos de presença MSF no Alto Juruá (1)

O mundo volta sua atenção à Amazônia

Logo mais, no dia 11 de julho, o calendário marca 18 anos da presença dos Missionários da Sagrada Família na Prelazia de Tefé, mais precisamente, às margens do Rio Juruá, municípios de Carauari e Itamarati.  Esta pequena comunidade – nunca fomos mais que cinco! – é a forma que encontramos de “dar da nossa pobreza”, atendendo ao apelo que nos chega da Igreja amazônica.
A V Conferência Geral do Espiscopado Latino-Americano e do Caribe (Aparecida, Brasil, 2007) afirma: “A fé se fortalece quando é transmitida e é preciso que em nosso continente entremos em uma nova primavera da missão ad gentes. Somos Igrejas pobres, mas devemos dar de nossa pobreza e a partir da alegria de nossa fé, e isso sem descarregar sobre alguns poucos enviados o compromisso que é de toda a comunidade cristã” (Documento de Aparecida, 379).
E o grupo de bispos, padres, religiosos e agentes leigos da região Pan-Amazônica, reunidos no III Encontro Regional sobre a Amazônia (outubro/2009) escreveu: “É necessário reconhecer a Amazônia como um dom de Deus em sua criação. Este dom tem como particular característica a diversidade múltipla, tanto de climas, biomas, rios e recursos naturais como de tradições históricas, culturais, lingüísticas e territoriais dos povos aborígenes que a habitam. Esta característica inerente permite pensar a região como um verdadeiro arquipélago amazônico mais que uma só região uniforme.” 
De fato, a área chamada Pan-Amazônia abrange aproximadamente 7,5 milhões de km2, se estende por oito países sul-americanos e representa 43% da área da América do Sul. Nesta área quase continental predomina altaneiro o rio Amazonas, com seus mais de 1.100 afluentes, que tecem a rede fluvial mais extensa do mundo, com mais de 25.000 km navegáveis. A região amazônica concentra 20% da água doce não congelada do planeta; abriga 34% das florestas primárias e 30% da fauna e 50% da flora do mundo. Eis algumas das razões que fizeram com que esta região passasse a ser olhada como uma praça central do planeta e deixasse de ser considerada um quintal desprezível.
Mas a Amazônia não é feita somente de florestas e rios. Nela vivem mais de 40 milhões de pessoas. Deste contingente, 3 milhões são indígenas, distribuídos em mais de 400 povos que falam 250 diferentes línguas (agrupadas em 49 famílias linguísticas). Além disso, a Pan-Amazônia é habitada por milhares de comunidades afro-americanas e uma infinidade de comunidades ribeirinhas compostas de mestiços, caboclos, migrantes, agricultores e habitantes de cidades médias e grandes. As pesquisas arqueológicas comprovaram que a presença humana na região remonta a mais de 11.000 anos.
Mais que um descobrimento, a chegada dos europeus no século XVI representou uma espécie de encobrimento desta rica realidade e uma negação da dignidade dos povos aborígenes. Alguns historiadores afirmam que a invasão européia deu início a um dramático processo de esgotamento dos recursos naturais e de escravidão e extermínio dos povos povos nativos, provocando uma das maiores catástrofes demográficas da história recente: os cinco milhões de indígenas pertencentes a 900 grupos étnicos que existiam no ano 1500 se reduziram às poucas centenas de milhares de hoje. Infelizmente, a depredação dos recursos da Amazônia e a violência contra os povos indígenas e tradicionais continuam hoje com os novos ciclos extrativistas e, sobretudo, com os grandes projetos de desenvolvimento que estão sendo implantados em toda a região. (continua)
Itacir Brassiani msf