sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dia Mundial das Missões 2017 - Mensagem do Papa Francisco

A missão está no coração da fé cristã!
Mensagem do Papa Francisco para
Dia Mundial de Oração pelas Missões (22.10.2017)

Queridos irmãos e irmãs!
O Dia Mundial das Missões concentra-nos, também este ano, na pessoa de Jesus, «o primeiro e maior evangelizador» (Paulo VI), que incessantemente nos envia a anunciar o Evangelho do amor de Deus Pai, com a força do Espírito Santo. Este Dia convida-nos a refletir novamente sobre a missão no coração da fé cristã. De fato a Igreja é, por sua natureza, missionária; se assim não for, deixa de ser a Igreja de Cristo, não passando duma associação entre muitas outras, que rapidamente veria exaurir-se a sua finalidade e desapareceria.
Por isso, somos convidados a interrogar-nos sobre algumas questões que tocam a própria identidade cristã e as nossas responsabilidades de crentes, num mundo embaralhado com tantas quimeras, ferido por grandes frustrações e dilacerado por numerosas guerras fratricidas, que injustamente atingem sobretudo os inocentes. Qual é o fundamento da missão? Qual é o coração da missão? Quais são as atitudes vitais da missão?
A missão e o poder transformador do Evangelho de Cristo
A missão da Igreja, destinada a todos os homens de boa vontade, funda-se sobre o poder transformador do Evangelho. Este é uma Boa Nova portadora duma alegria contagiante, porque contém e oferece uma vida nova: a vida de Cristo ressuscitado, o qual, comunicando o seu Espírito vivificador, torna-Se para nós Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14, 6). É Caminho que nos convida a segui-Lo com confiança e coragem. E, seguindo Jesus como nosso Caminho, fazemos experiência da sua Verdade e recebemos a sua Vida, que é plena comunhão com Deus Pai na força do Espírito Santo, liberta-nos de toda a forma de egoísmo e torna-se fonte de criatividade no amor.
Deus Pai quer esta transformação existencial dos seus filhos e filhas; uma transformação que se expressa como culto em espírito e verdade (cf. Jo 4, 23-24), ou seja, numa vida animada pelo Espírito Santo à imitação do Filho Jesus para glória de Deus Pai. «A glória de Deus é o homem vivo» (S. Irineu). Assim, o anúncio do Evangelho torna-se palavra viva e eficaz que realiza o que proclama (cf. Is 55, 10-11), isto é, Jesus Cristo, que incessantemente Se faz carne em cada situação humana (cf. Jo 1, 14).
A missão e o kairós de Cristo
Por conseguinte, a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime. No mundo, há muitos movimentos capazes de apresentar ideais elevados ou expressões éticas notáveis. Diversamente, através da missão da Igreja, é Jesus Cristo que continua a evangelizar e agir; e, por isso, a missão da Igreja representa o kairós, o tempo propício da salvação na história. Por meio da proclamação do Evangelho, Jesus torna-Se sem cessar nosso contemporâneo, consentindo à pessoa que O acolhe com fé e amor experimentar a força transformadora do seu Espírito de Ressuscitado que fecunda o ser humano e a criação, como faz a chuva com a terra. A sua ressurreição não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual.
Lembremo-nos sempre de que, no início da vida cristã não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (Bento XVI). O Evangelho é uma Pessoa, que continuamente Se oferece e, a quem A acolhe com fé humilde e operosa, continuamente convida a partilhar a sua vida através duma participação efetiva no seu mistério pascal de morte e ressurreição. Assim, por meio do Batismo, o Evangelho torna-se fonte de vida nova, liberta do domínio do pecado, iluminada e transformada pelo Espírito Santo; através da Confirmação, torna-se unção fortalecedora que, graças ao mesmo Espírito, indica caminhos e estratégias novas de testemunho e proximidade; e, mediante a Eucaristia, torna-se alimento do homem novo, «remédio de imortalidade» (S. Inácio de Antioquia).
O mundo tem uma necessidade essencial do Evangelho de Jesus Cristo. Ele, através da Igreja, continua a sua missão de Bom Samaritano, curando as feridas sanguinolentas da humanidade, e a sua missão de Bom Pastor, buscando sem descanso quem se extraviou por veredas enviesadas e sem saída. E, graças a Deus, não faltam experiências significativas que testemunham a força transformadora do Evangelho. Penso no gesto daquele estudante «dinka» que, à custa da própria vida, protegeu um estudante da tribo «nuer» que ia ser assassinado. Penso naquela Celebração Eucarística em Kitgum, Uganda, quando um missionário levou as pessoas a repetirem as palavras de Jesus na cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mc 15, 34. Aquela Celebração foi fonte de grande consolação e de muita coragem para as pessoas. E podemos pensar em tantos testemunhos – testemunhos sem conta – de como o Evangelho ajuda a superar os fechamentos, os conflitos, o racismo, o tribalismo, promovendo por todo o lado a reconciliação, a fraternidade e a partilha entre todos.
A missão inspira uma espiritualidade de peregrinação contínua
A missão da Igreja é animada por uma espiritualidade de êxodo contínuo. Trata-se de sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho. A missão da Igreja encoraja a uma atitude de peregrinação contínua através dos vários desertos da vida, através das várias experiências de fome e sede de verdade e justiça. A missão da Igreja inspira uma experiência de exílio contínuo, para fazer sentir ao homem sedento de infinito a sua condição de exilado a caminho da pátria definitiva, entre o «já» e o «ainda não» do Reino dos Céus.
A missão adverte a Igreja de que não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino. Uma Igreja auto referencial, que se compraza dos sucessos terrenos, não é a Igreja de Cristo, seu corpo crucificado e glorioso. Por isso mesmo, é preferível uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças.
Os jovens, esperança da missão
Os jovens são a esperança da missão. A pessoa de Jesus e a Boa Nova proclamada por Ele continuam a fascinar muitos jovens. Estes buscam percursos onde possam concretizar a coragem e os ímpetos do coração ao serviço da humanidade. São muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a várias formas de militância e voluntariado. Como é bom que os jovens sejam “caminheiros da fé”, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra! A próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que terá lugar em 2018, sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», revela-se uma ocasião providencial para envolver os jovens na responsabilidade missionária comum, que precisa da sua rica imaginação e criatividade.
Fazer missão com Maria, Mãe da evangelização
Queridos irmãos e irmãs, façamos missão inspirando-nos em Maria, Mãe da evangelização. Movida pelo Espírito, Ela acolheu o Verbo da vida na profundidade da sua fé humilde. Que a Virgem nos ajude a dizer o nosso «sim» à urgência de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus no nosso tempo; nos obtenha um novo ardor de ressuscitados para levar, a todos, o Evangelho da vida que vence a morte; interceda por nós, a fim de podermos ter uma santa ousadia de procurar novos caminhos para que chegue a todos o dom da salvação.
Vaticano, 4 de junho – Solenidade de Pentecostes – de 2017.
FRANCISCO

O Evangelho dominical - 15.10.2017

CONVITE

Jesus conhecia muito bem como os camponeses da Galileia apreciavam as festas de casamento que se celebravam nas aldeias. Sem dúvida, Ele mesmo tomou parte em mais de uma. Que experiência podia ser mais alegre para aquelas pessoas que ser convidadas para um casamento e poder sentar-se com os vizinhos a partilhar juntos um banquete de festa?
Esta recordação vivida desde criança ajudou Jesus mais tarde a comunicar a Sua experiência de Deus de uma forma nova e surpreendente. Segundo Ele, Deus está a preparar um banquete final para todos os Seus filhos, pois a todos os quer ver sentados junto a Ele, desfrutando para sempre de uma vida plenamente ditosa.
Podemos dizer que Jesus entende a Sua vida inteira como o oferecimento de um grande convite, em nome de Deus, para essa festa final. Por isso Jesus não impõe nada à força, não pressiona ninguém. Anuncia a Boa Nova de Deus, desperta a confiança no Pai, acende nos corações a esperança. A todos lhes chegará o Seu convite.
Que acontece com esse convite de Deus? Quem o anuncia? Quem o escuta? Onde se fala na Igreja desta festa final? Satisfeitos com o nosso bem-estar, surdos ao que não sejam os nossos interesses imediatos, já não necessitamos de Deus? Estamos a acostumar-nos pouco a pouco a viver sem necessidade de alimentar uma esperança última?
Jesus é realista. Sabe que o convite de Deus pode ser rejeitado. Na parábola «dos convidados ao casamento» fala-se de diversas reações dos convidados. Uns rejeitam o convite de forma consciente e rotunda: «Não quiseram vir». Outros respondem com absoluta indiferença: «Não fizeram caso». Importam-lhes mais as suas terras e negócios.
Mas, segundo a parábola, Deus não desanima. Acima de tudo, haverá uma festa final. O desejo de Deus é que a sala do banquete se encha de convidados. Por isso há que ir «às encruzilhadas dos caminhos», por onde caminham tantas pessoas errantes, que vivem sem esperança e sem futuro. A Igreja há de continuar anunciando com fé e alegria o convite de Deus proclamado no Evangelho de Jesus.
O Papa Francisco está preocupado com uma pregação obcecada «por uma transmissão desarticulada de uma gama de doutrinas que tentam impor-se à força de insistência». O maior perigo está, segundo ele, em que já «não será propriamente o Evangelho o que se anuncia, mas alguns acentos doutrinais ou morais que procedem de determinadas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder a seu frescor e deixará de ter o odor a Evangelho».
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ANO A – VIGÉSIMO-OITAVO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 15.10.2017

A missão leva a sair da comodidade e alcançar as periferias!
O sonho de Deus é que a vida do seu povo seja uma festa. Mas será que esta festa tem convidados prioritários? Uma leitura desatenta da parábola do evangelho de hoje poderia nos levar a concluir que sim. Mas, para entende-la corretamente, não podemos esquecer que ela faz parte do mesmo conjunto literário das duas parábolas anteriores (Mt 21,18-32; 21,33-46). E o foco deste conjunto literário é a rejeição da proposta de Jesus por parte da elite religiosa do judaísmo, de modo que as parábolas em questão têm esta elite como destinatária.
Jesus gosta de comparar o Reino de Deus com uma festa. Mas, olhando para o que acontece ao seu redor, ele constata que nem todas as pessoas e grupos aceitam este convite. E percebe que, às vezes, quando aceitam, o fazem da boca para fora, por pura formalidade e conveniência. Assim acontece com a liderança religiosa do seu tempo: não lhes agrada a aliança de Deus com a humanidade e, por isso, não dão a menor atenção ao convite que lhes é dirigido por Jesus. Eles preferem ficar com as leis e ritos que dividem e classificam as pessoas em boas ou más, judias e pagãs, filhos e cães...
Comer e beber juntos na mesma festa significa comungar os propósitos de Deus, e é isso que eles não aceitam. E de nada serve um segundo convite. Os líderes religiosos não conseguem ver sentido nestas festas que não impõem barreiras, que são abertas a todas as pessoas. Até que participariam de uma festa, desde que eles fossem os convidados de honra, e com o objetivo de celebrar o poder e o privilégio de alguns. Mas o convite à festa do Reino é universal: todos os povos, todas as classes sociais, todas as pessoas.  No pensamento de Deus, o mundo é inclusivo, há lugar para todos na festa da vida.
Eis o dinamismo da missão que é também hoje confiada à Igreja: anunciar que a festa da vida é desejada e está preparada, e fazer este convite chegar a todas as pessoas, povos e classes. Por isso, não é sem sentido o mandato de ir “para as encruzilhadas dos caminhos”. Encruzilhadas são lugares onde os pobres se reúnem para mendigar, pois a vergonha e a pressão social os empurram para as margens. Mas o convite de Deus para a festa da vida precisa chegar até eles. É prosseguindo nesta direção que a missão da Igreja encontra sua originalidade e sua autenticidade.
Mesmo que o convite não comporte nenhuma forma de exclusão, na festa da vida não se pode entrar de qualquer jeito. Aqueles que fazem o convite não discriminam ninguém: convidam bons e maus, judeus e pagãos, homens e mulheres, escravos ou senhores, negros ou brancos, europeus ou africanos... Esta é a tarefa confiada aos mensageiros de Deus, aos missionários. Mas as pessoas que aceitam o convite e comparecem à festa precisam se perguntar se, por suas atitudes, opções e práticas, honram o anfitrião; precisam demonstrar com a vida o que são; precisam usar a roupa adequada, a prática da justiça.
Os missionários e evangelizadores não dispõem de meios potentes e infalíveis, e precisam contar com algo mais importante que suas próprias forças e estratégias. Eles sabem que são pessoas como todas as outras, com as mesmas fragilidades e pecados; apenas não se conformam com a passividade e a indiferença, e acham que vale a pena fazer o convite de Deus chegar a todos os destinatários. E isso mesmo que, às vezes, aqueles que aceitam o convite e comparecem à festa litúrgica, acabem encontrando leis, barreiras e arbitrariedades criadas pela própria Igreja...
Como diz Paulo, os missionários precisam aprender viver na penúria e na abundância, confiando que Deus, segundo sua generosidade, em Cristo Jesus, proverá magnificamente a todas as suas necessidades. “Tudo posso naquele que me dá força”, diz o apóstolo. E isso significa que o missionário é alguém que não pode contar apenas com os recursos do próprio saber, das técnicas de comunicação e das estruturas eclesiais. A força e a lucidez indispensáveis para construir o Reino vêm de Deus, da Palavra, dos sacramentos. E, não menos, do próprio povo ao qual ele anuncia a Boa Notícia do Reino de Deus. O Papa nos diz que a missão está no coração da fé cristã e nos coloca em contínua saída.
Deus, pai e mãe, desde sempre preparas a festa da vida e esperas que todos os povos convidados tomem um lugar à tua mesa. Continua e enviar mensageiros e missionários, a fim de que este convite chegue aos destinatários, especialmente aos porões, quintais e encruzilhadas do mundo, onde aqueles que são tratados como últimos estão à espera.  Guia os teus enviados e restaura as forças deles. Abre a mente e o coração das pessoas convidadas, e faz com que tua Igreja mantenha abertas suas portas e janelas a todos os povos, culturas e classes sociais, sem levantar barreiras nem impor condições.  Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaias 25,6-10 * Salmo 22 (23) * Carta de Paulo aos Filipenses 4,12-20 * Evangelho de S. Mateus 22,1-14) 

domingo, 8 de outubro de 2017

Romaria da Aparecida em Passo Fundo

Nossa Senhora Aparecida reúne uma multidão: qual é o segredo?

Eu fui apenas mais um entre as mais de 100 mil pessoas que, desde o início da manhã, iam e vinham, depois de permanecer algum tempo no espaço do Santuário. Que mistério ou que força é essa que atrai, ano após ano, uma multidão ao pequeno Santuário de Nossa Senhora Aparecida, em Passo Fundo? E o que essa gente encontra naquele lugar?

Talvez essa gente não encontre nada, e o segredo esteja na profética experiência de caminhar, de sair de casa, de descobrir-se mais que um simples fragmento perdido na cidade, de experimentar a alegria e a força de ser parte de um povo, de um povo que caminha, não obstante as forças nefastas que poderiam levar à fuga, ao fechamento, ao isolamento.

Talvez o segredo esteja naquela imagem pequenina, quase invisível, menor que quase tudo, encontrada em pedaços, posteriormente feita em migalhas, profeticamente negra como um povo escravizado no passado e discriminado no presente; imagem pequena e intencionalmente simples, acolhida e compreendida por gente simples, em cuja cabeça não cabem coroas, pois ela não vem dos palácios, mas das senzalas.

Talvez a força que move essa multidão não esteja nas palavras articuladas, nos sermões proclamados e nem mesmo nas canções cuidadosamente escolhidas, mas nas palavras silentes e eloquentes das lagrimas e soluções daquele homem anônimo que, ao meu lado, dizia tudo sem que eu entendesse nada: diante da memória da mãe negra e no meio de uma multidão que ele intui que seja sua família, derramou suas dores e obteve o consolo que não recebeu antes em lugar algum e de quem quer que fosse.

A força que atrai e seduz talvez esteja implícita e inarticulada no arquétipo de um Deus terno e materno, que gosta de se manifestar sem falar, cuidando e reunindo, chamando e acompanhando; de um Deus que não se sente bem nas alturas inacessíveis, mas vibra de alegria descendo às estrebarias, compartilhando refeições, caminhando pressuroso ao encontro da ovelha amada, descendo aos infernos, compartilhando o desespero, surpreendendo caminheiros que antecipam a Aurora.

A multidão com a qual eu caminhei e celebrei era majoritariamente branca, muito branca. Índios e escravos poucos sobreviveram às duras penas impostas pelos colonizadores nessas pampas. E estes poucos talvez ainda não consigam se ver em nossas comunidades e devoções. Vi gente de pele negra, sim, muitos negros recentemente desembarcados da África moderna e ainda violentada. Eles trabalhavam vendendo comida e badulaques, como aqueles de 300 anos atrás, ao mesmo tempo parte da caravana e excluídos dela. Terão a alegre surpresa de encontrar hoje em suas redes a Mãe, machucada e quebrada como eles, e nela encontrar um pouco de divino consolo?

Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Evangelho dominical - 08.10.2017

CRISE RELIGIOSA

A parábola dos «vinhateiros homicidas» é um relato em que Jesus vai descobrindo com traços alegóricos a história de Deus com o Seu povo eleito. É uma história triste. Deus tinha cuidado desde o início com todo o Seu carinho. Era o Seu «vinhedo preferido». Esperava fazer deles um povo exemplar pela sua justiça e a sua fidelidade. Seria uma «grande luz» para todos os povos.
No entanto, aquele povo foi rejeitando e matando um após outro os profetas que Deus lhes ia enviando para recolher os frutos de uma vida mais justa. Por último, num gesto incrível de amor, enviou-lhes o Seu próprio Filho. Mas os dirigentes daquele povo terminaram com Ele. Que pode fazer Deus com um povo que defrauda de forma tão cega e obstinada as suas expectativas?
Os dirigentes religiosos que escutam atentamente o relato de Jesus respondem espontaneamente nos mesmos termos da parábola: o senhor do vinhedo não pode fazer outra coisa senão matar aqueles lavradores e colocar o Seu vinhedo nas mãos de outros. Jesus apresenta rapidamente uma conclusão que eles não esperavam: «Por isso Eu vos digo que vos será retirado o reino de Deus e será entregue a um povo que produza frutos».
Comentadores e predicadores interpretaram com frequência a parábola de Jesus como a reafirmação da Igreja cristã como o «novo Israel» depois do povo judeu, que, com a destruição de Jerusalém no ano 70, se dispersou pelo mundo.
No entanto, a parábola fala também de nós. Uma leitura honesta do texto obriga-nos a fazermos graves preguntas: estamos produzindo em nosso tempo «os frutos» que Deus espera do Seu povo: justiça para os excluídos, solidariedade, compaixão para com os que sofrem, perdão...?
Deus não tem porque abençoar um cristão estéril de quem não recebe os frutos que espera. Não tem porque identificar-se com a nossa mediocridade, nossas incoerências, desvios e pouca fidelidade. Se não respondemos às Suas expectativas, Deus seguirá abrindo caminhos novos ao Seu projeto de salvação com outras pessoas que produzam frutos de justiça.
Nós falamos de «crise religiosa», «descristianização», «abandono da prática religiosa»... Não estará Deus preparando o caminho que torne possível o nascimento de uma Igreja menos poderosa, mas mais evangélica; menos numerosa, mas mais dedicada a fazer um mundo mais humano? Não virão novas gerações mais fiéis a Deus que nós?
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ANO A – VIGÉSIMO-SÉTIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 08.10.2017

Não deixemos que nos roubem a alegria da missão!
A Igreja católica tomou consciência de que a missão faz parte do seu código genético, e proclama que esta não é apenas mais uma entre as suas múltiplas tarefas, nem uma responsabilidade de apenas algumas pessoas. Em 2007, na Conferência de Aparecida, os bispos da América Latina e do Caribe colocaram a questão da missão no centro das preocupações da Igreja na América Latina e convocaram todos os seus membros a serem discípulos e missionários de Jesus Cristo. Na mensagem para a jornada mundial das missões do ano em curso, o papa Francisco insiste: a missão está no coração da nossa fé!
Na perspectiva do evangelho do 27° domingo, a missão não consiste propriamente em semear a mensagem do Reino de Deus onde o cristianismo ainda não lançou raízes, mas em ir aos “arrendatários da vinha do Senhor” para recolher os frutos esperados. Como missionários, somos enviados àqueles que foram investidos de autoridade ou ocupam posições de liderança política, social e religiosa para verificar se realmente se dedicam ao povo e defendem sua dignidade. A missão é ir àqueles que se apropriaram indevidamente da vinha do Senhor. Uma missão com uma clara dimensão crítica e profética!
Esta missão é tão urgente quanto difícil e conflituosa. A parábola de Jesus menciona as agressões e espancamentos sofridos pelas pessoas enviadas. Quando os missionários não se limitam a propor doutrinas e celebrar ritos, correm o risco de serem pessoas indesejáveis e sofrerem violências nas mãos dos ‘malvadamente maus’ ou dos ‘canalhas’, como diz o evangelista. A história remota e recente também registra as calúnias e torturas, as prisões e o martírio sofridos pelos profetas e testemunhas. Em alguns países da África e do Oriente Médio, mas não só, isso continua terrivelmente atual...
Digamos uma vez mais, para que fique claro: a missão, como a entendemos hoje, não consiste em colher frutos para a instituição eclesial ou multiplicar suas agências, mas em cobrar o estabelecimento do direito de Deus no mundo: a implantação da justiça para os pobres, o reconhecimento da dignidade dos desprezados, a primazia dos últimos, o cuidado e a bondade gratuita para com todas as criaturas. Se estes frutos não forem encontrados, o Reino de Deus deve ser subtraído às elites e autoridades constituídas e entregue a pessoas, grupos e movimentos que produzam esses frutos.
Jesus é o missionário enviado pelo Pai, modelo e o caminho de todos os missionários e missionarias. Ele não se negou a pagar o preço que a missão lhe exigiu: foi caluniado, desprezado, descartado e crucificado. Foi tratado como uma pedra que os pedreiros descartam porque consideram sem valor, inadequada e problemática no seu projeto de dominação e exclusão. Mas, para ele, isso não se configurou numa tragédia. Pelo contrário, a rejeição acabou revelando sua opção pessoal e o princípio norteador da sua vida. Ou seja: “a missão da Igreja encoraja a uma atitude de peregrinação contínua através dos vários desertos da vida, através das várias experiências de fome e sede de verdade e justiça.”
O princípio cardeal da missão de Jesus e dos seus discípulos é sair solidariamente ao encontro dos rejeitados e excluídos para estabelecer, em nome do Pai que os envia, uma primazia e uma dignidade que jamais prescreve: os grupos humanos e sociais aparentemente problemáticos e disfuncionais são a pedra-de-toque do Reino de Deus. Sem o anúncio de uma Boa Notícia aos pobres e sem a reversão social que coloca os últimos em primeiro lugar, não há Igreja nem missão fiel a Jesus. É daqui que brota a alegria cristã, alegria inerente ao Evangelho, como vem sublinhando insistentemente o papa Francisco.
E esta é a perspectiva de todo trabalho autenticamente missionário: subverter os esquemas, inverter as prioridades, afirmar os excluídos como indispensáveis no projeto de um mundo que deseje ser humano. É nisso que a Igreja precisa empenhar de forma contínua todos os seus membros, todos os seus esforços e os melhores meios de que dispõe. A missão segue seu caminho de baixo para cima, da periferia para o centro, dos últimos para os primeiros. A parábola da pedra rejeitada pelos grandes e recolocada por Deus no centro, é a parábola da missão. Não deixemos que nos roubem essa genuína alegria!
Deus pai e mãe, cuidador e amante apaixonado da tua vinha: continua a suscitar homens e mulheres conscientes da própria fragilidade e da força do teu amor e envia-os para cuidar do teu povo. Que eles não desanimem quando forem tratados como pedras inúteis na construção dos muros. Que eles sintam a companhia inspiradora de Teresinha, André, Ambrósio, Mateus, Francisco e tantos outros. E que esta comunidade que nasce do lado aberto do teu filho empenhe seus melhores membros e meios na missão de testemunhar a comunhão fraterna e de anunciar a boa notícia aos pobres. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaias 5,1-7 * Salmo 79 (80) * Carta de Paulo aos Filipenses 4,6-9 * Evangelho de São Mateus 21,33-43) 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O Evangelho dominical - 01.10.2017

À NOSSA FRENTE

Um dia, Jesus pronunciou estas duras palavras contra os dirigentes religiosos do Seu povo: «Asseguro-vos que os publicanos e as prostitutas entrarão antes que vós no reino de Deus». Há uns anos pude comprovar que a afirmação de Jesus não é um exagero.
Um grupo de prostitutas de diferentes países, acompanhadas por algumas Irmãs Oblatas, refletiram sobre Jesus com a ajuda do meu livro Jesus. Aproximação histórica. Ainda me comove a força e o atrativo que tem Jesus para estas mulheres de alma simples e coração bom. Recupero alguns dos seus testemunhos.
«Sentia-me suja, vazia e pouca coisa, todos me usavam. Agora sinto-me com vontade de continuar a viver, porque Deus sabe muito do meu sofrimento [...] Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Deus está dentro de mim. Este Jesus entende-me...!»
«Agora, quando chego a casa depois do trabalho, lavo-me com água muito quente para arrancar da minha pele a sujidade e depois rezo a este Jesus porque Ele sim entende-me e sabe muito do meu sofrimento [...] Jesus, quero mudar de vida, guia-me, porque só Tu conheces o meu futuro».
«Eu peço a Jesus todo o dia que me afaste deste modo de vida. Sempre que me acontece algo, eu chamo-O e Ele ajuda-me. Ele está próximo de mim, é maravilhoso [...] Ele leva-me nas Suas mãos, Ele carrega o fardo comigo, sinto a Sua presença».
«De madrugada é quando mais falo com Ele. Ele escuta-me melhor, porque neste horário as pessoas dormem. Ele está aqui, não dorme. Ele sempre está aqui. A porta fechada, ajoelho-me e peço-Lhe que mereça a Sua ajuda, que me perdoe, que eu lutarei por Ele».
«Um dia, eu estava sentada na praça e disse: “Oh, Deus meu, será que eu só sirvo para isto? Só para a prostituição?” [...] Então foi o momento em que mais senti Deus a carregar comigo, entendes?, transformando-me. Foi naquele momento. Tanto que eu não me esqueço. Entendeste?».
«Eu agora falo com Jesus e digo-lhe: aqui estou, acompanha-me. Tu viste o que sucedeu à minha companheira [refere-se a uma companheira assassinada num hotel]. Rogo-Te por ela e peço que nada de mal suceda às minhas companheiras. Eu não falo, mas peço por elas, pois elas são pessoas como eu».
«Estou furiosa, triste, dolorida, rejeitada, ninguém me quer, não sei a quem culpar, ou seria melhor odiar as pessoas e a mim, ou ao mundo. Olha, desde que era criança eu acreditava em Ti e permitiste que isto acontece-se. Dou-Te outra oportunidade para proteger-me agora. Bem, eu perdoo-Te, mas, por favor, não me deixes de novo».
Que mistério se encerra em Jesus para ter esse poder no coração das pessoas? Como mudaria a vida de muitos se o conhecessem melhor...
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ANO A – VIGÉSIMO-SEXTO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 01.10.2017

A missão nasce do encontro com Jesus e do “sim” a ele!
Estamos iniciando o mês de outubro, que a Igreja dedica, há várias décadas, à renovação do ardor e das iniciativas missionarias, em todo o mundo. Na sua mensagem para o dia das missões de 2017, o Papa Francisco lembra que o Evangelho nos traz uma alegria contagiante, porque contém e oferece uma vida nova: a própria vida de Jesus Cristo. No encontro com Ele e assumindo-o como Caminho, fazemos experiência da sua Verdade e recebemos a sua Vida. A comunhão com Ele nos liberta de todas as formas de egoísmo e se transforma em fonte de amor, de generosidade e de criatividade missionaria.
Isso porque Jesus Cristo, a Palavra de Deus feita carne e história, é sempre convite e apelo que traz a força daquele que a pronuncia. Este convite tem autoridade e mobiliza porque vem de Alguém que se faz um de nós, se torna igual a nós em tudo, assume e pronuncia a palavra do simples ser humano, com seus sonhos e necessidades. “Vai trabalhar hoje na minha vinha...” Jesus é palavra que nos convoca a à responsabilidade pela nossa própria emancipação, mas também a assumir nossa missão no mundo e na história. E ele espera uma resposta que não seja apenas aparente e formal.
A crítica de Jesus aos fariseus, sacerdotes e doutores da lei é paradigmática, e nos coloca de sobreaviso. Aqueles que se sentem orgulhosamente os primeiros ouvintes e os exemplares praticantes da Palavra de Deus na verdade são como filhos que dizem sim à ordem do pai mas se recusam a fazer o que ele pede. Todos corremos o risco de ficar na superfície, na aparência deslumbrante e cômoda, e de esquecer que temos uma missão. Não faltam homens e mulheres de igreja que estudam a Palavra de Deus, celebram como minuciosa atenção a liturgia, mas não conseguem levar o Evangelho para fora do templo...
E há outros que dizem não à Jesus Cristo e ao Reino de Deus, mas só aparentemente: não frequentam muito assiduamente as celebrações; se opõem abertamente à Igreja e às religiões; amargam experiências de pobreza, marginalização e exclusão... Mas tantos deles se empenham de corpo e alma na tarefa de humanizar o que lhes sobra de vida e de evitar que a sociedade se corrompa ainda mais. Começam pelo círculo de pessoas que se congregam na família e militam em associações, movimentos, sindicatos e organizações solidárias. O não inicial e público deles se revela um sim prático e anônimo.
E há outras tantas pessoas que sequer conseguem crer em si mesmas. Não se consideram merecedoras de nada e parecem uma negação absoluta de tudo o que possa ser bom e desejável. São como as prostitutas e os publicanos do tempo de Jesus. A estas pessoas, o próprio Deus que diz um sim claro e retumbante: sim à sua dignidade, sim à sua inclusão, sim ao seu desejo de uma vida mínima. Jesus Cristo é o sim de Deus às aspirações profundas da humanidade, especialmente das diversas categorias de oprimidos! Essas pessoas são acolhidas na primeira classe do Reino!
Em Jesus de Nazaré, Deus se faz avalista dos sonhos de dignidade, igualdade e liberdade que nos habitam. Mas ele é também um sim ao Pai, e isso se expressa, como ensina Paulo. no esvaziamento de toda superioridade prepotente, na eliminação de todo “distanciamento prudente”, no movimento de fazer-se próximo e ocupar um lugar ao lado dos últimos.  Este esvaziamento não é uma ascese vazia que despreza a vida, mas um movimento de aproximação de tudo o que é humano, de amor ativo e solidário, de verdadeira humanização. Somos convidados a assumir esta postura, este sentimento de Jesus...
Na mensagem referida acima, o Papa pede que assumamos e levemos adiante nossa missão inspirando-nos em Maria, a Mãe da evangelização. “Movida pelo Espírito, Ela acolheu o Verbo da vida na profundidade da sua fé humilde. Que a Virgem nos ajude a dizer o nosso «sim» à urgência de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus no nosso tempo; nos obtenha um novo ardor de ressuscitados para levar, a todos, o Evangelho da vida que vence a morte; interceda por nós, a fim de podermos ter uma santa ousadia de procurar novos caminhos para que chegue a todos o dom da salvação.” Inspirados em Maria de todos os nomes e de todas as horas, nosso “sim” seja um “sim” responsável e missionário.
Deus pai e mãe, através do teu filho e nosso irmão Jesus continuas dirigindo-nos tua palavra-convocação. Às vezes esta palavra nos desconcerta e inquieta. Teu filho parece exagerar quando afirma que as pessoas tratadas como pecadoras precedem as ‘pessoas de bem’ no teu Reino. Isso às vezes não nos parece justo. Que Ezequiel nos ensine que errados estamos nós, e não tu. Que os santos e santas, e a nuvem de testemunhas de ontem e de hoje, nos convençam de que a Justiça do Reino é um caminho possível, pois eles o percorreram. Que eles intercedam por nós e por toda a Igreja. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
 (Profecia de Ezequiel 18,25-28 * Salmo 24 (25) * Carta de Paulo aos Filipenses 2,1-11 * Evangelho de S. Mateus 21,28-32)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Paixão & Missão

Um medalhista de ouro na maratona sacramental!

O Pe. Vanderlei Souza da Silva msf permaneceu menos de dois anos na missão em Moçambique. Mas sua breve passagem por Mecubúri (diocese de Nampula, em Moçambique) deixou, como anteriormente em outros lugares, sua marca registrada: a dedicação ao atletismo, especialmente à maratona. Além de participar de maratonas nacionais e internacionais, por onde passou ele implantou pistas de atletismo, organizou e treinou crianças e adolescentes interessados no atletismo e programou corridas.
Ao encontro do povo: viagens de 3 a 4 horas para "ir onde o povo está"...
O Pe. Pedro Léo Eckert msf, cuja característica mais marcante não é o atletismo, chegou em Mecubúri no início de 2011. Desde então, como os coirmãos que estiveram lá antes dele ou chegaram depois, faz mais do que pode em favor de um povo sofrido e crente que, por longos anos, não pode contar com a presença e o serviço pastoral de nenhum padre. De fato, a missão assumida pelos Missionários da Sagrada Família na região de Nampula abrange 2 paroquias e uma área pastoral, num total de aproximadamente 300 comunidades.
Mas é o Pe. Pedro Léo o protagonista de uma espécie de “maratona sacramental” ocorrida no dia 10 de setembro de 2011, na Zona Pastoral de Milhana: a realização de 588 batizados, vários casamentos e centenas de primeiras eucaristias numa única celebração! Não julguemos isso de forma apressada e superficial, como se fosse sinal de superficialidade espiritual ou pouco zelo pela liturgia. Imaginemos a situação de um povo longe de tudo e esquecido por todos, que há mais de uma década contou com uma escassa e quase nula presença de padres...
Eis o registro feito pelo próprio Pe. Pedro: “Iniciamos a missa às 10:00 h da manhã, e o “amém” final foi dado às 8:00 da noite. Iniciamos com a luz do sol rachando nos cajueiros, e terminamos com a lua-cheia por testemunho. Foi uma experiência muito diferente e, para mim, muito rica de significados, sinal da vitalidade da fé.” Feliz o missionário que, incansável na tarefa de saciar a sede do povo – todas as sedes! – não perde a capacidade de reconhecer e se admirar com a fé que ele manifesta de modo tão simples como é a perseverança numa fé rudimentar e a valorização dos sacramentos que gritam insistentemente sua pertença à Igreja!
É claro que, especialmente depois do Concilio Vaticano II, a missão não consiste unicamente e nem principalmente na celebração dos sacramentos. No caminho aberto pela missão de Jesus, a missão dos seus discípulos consiste hoje fundamentalmente em ajudar as pessoas a reencontrar a dignidade que perderam ou foi-lhes negada, a descobrir sua pertença a uma humanidade única e indivisa, à família do Pai, da qual um dos sacramentos é a Igreja. Como negar ou dificultar a um povo secularmente excluído os sinais da misericórdia de Deus e da pertença ao seu povo amado?
Fé, musica e cultura, desde muito cedo...
Nossos admiráveis missionários em Moçambique desenvolvem suas diversas atividades pastorais orientados pelo objetivo de ajudar no amadurecimento e fortalecimento da Igreja local. E isso significa, entre outras coisas, criar espaços e oferecer meios para que os leigos e leigas levem adiante e com qualidade seu ministério pastoral. É a eles que a Igreja deve a manutenção da vida eclesial e da fé em Jesus Cristo, especialmente nos duros anos da luta pela independência e da fratricida guerra civil que se seguiu à independência.
No momento em que nos é dado celebrar os 10 anos dessa presença missionaria, louvamos a Deus pelos diversos coirmãos que nela marcaram presença (Pe. Neiri Segala, Pe. Firmino Santana, Pe. Valdecir Rossa, Ir. Edilson Frey, Pe. Elmar Sauer e Pe. Vanderlei Souza da Silva) e daqueles que a levam adiante hoje (Pe. Pedro Léo Eckert e Pe. Celso Both). Mas é preciso sublinhar a importância da Edina Lima (há 4 anos) e do Raphael Alves (chegado recentemente), leigos que vivem e reavivam com alegria o dom missionário que receberam e, com este testemunho, interpelam àqueles que nos consagramos a Deus numa congregação missionaria.

Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Evangelho dominical - 24.09.2017

NÃO DESVIRTUAR A BONDADE DE DEUS

Ao longo da Sua trajetória profética, Jesus insistiu uma e outra vez em comunicar a Sua experiência de Deus como «um mistério de bondade insondável» que quebra todos os nossos cálculos. A Sua mensagem é tão revolucionaria que, depois de vinte séculos, há todavia cristãos que não se atrevem a leva-la a sério.
Para contagiar a todos com a Sua experiência desse Deus bom, Jesus compara a Sua atuação com a conduta surpreendente do senhor de um vinhedo. Até cinco vezes sai ele mesmo em pessoa a contratar trabalhadores para o Seu vinhedo. Não parece preocupá-lo muito o seu rendimento no trabalho. O que não quer é que nenhum trabalhador fique um dia mais sem trabalho.
Por isso mesmo, no final da jornada, não lhes paga ajustando-se ao trabalho realizado por cada grupo. Embora o seu trabalho tenha sido muito desigual, a todos lhes dá «um denário»: simplesmente, o que necessitava cada dia uma família camponesa da Galileia para poder sobreviver.
Quando o porta-voz do primeiro grupo protesta porque tratou os últimos, igual que a eles, que trabalharam mais do que ninguém, o senhor da vinhedo respondeu-lhes com estas palavras admiráveis: «Vão ter inveja porque eu sou bom?» Vais impedir-me com os teus cálculos mesquinhos de ser bom com quem necessita de pão para comer?
Que está a sugerir Jesus? Deus não atua com os critérios de justiça e igualdade que nós manejamos? Será verdade que Deus, mais do que estar a medir os méritos das pessoas, como faríamos nós, procura sempre responder a partir da Sua bondade insondável à nossa necessidade radical de salvação?
Confesso que sinto uma pena imensa quando me encontro com pessoas boas que imaginam a Deus dedicado a anotar cuidadosamente os pecados e os méritos dos humanos, para retribuir um dia exatamente a cada um segundo o Seu merecimento. É possível imaginar um ser mais inumano que alguém entregue a este trabalho por toda a eternidade?
Acreditar num Deus Amigo incondicional pode ser a experiência mais libertadora que se poda imaginar, a força mais vigorosa para viver e para morrer. Pelo contrário, viver ante um Deus justiceiro e ameaçador pode converter-se na neurose mais perigosa e destruidora da pessoa.
Temos de aprender a não confundir Deus com os nossos esquemas limitados e mesquinhos. Não temos de desvirtuar a Sua bondade insondável misturando os traços autênticos que proveem de Jesus com os traços de um Deus justiceiro tomados daqui e dali. Ante o Deus bom revelado em Jesus, o único que resta é a confiança.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez