sexta-feira, 24 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (360)

360 | Ano B | 7ª Semana Comum| Sábado | Marcos 10,13-16

25/05/2024

No texto que refletimos ontem, Jesus criticava a interpretação machista e patriarcal do vínculo matrimonial e, num horizonte mais amplo, a leitura ideológica e interesseira das escrituras. Seguindo no mesmo contexto semântico, no texto de hoje Jesus passa das relações entre marido e mulher à relação com as crianças.

Quando uma relação matrimonial fracassa, torna-se pesada e tensa e desemboca numa separação, geralmente as primeiras vítimas são os filhos e filhas. Mas, no evangelho de Marcos, as crianças, além de personagens reais, são figuras simbólicas, e representam todas as pessoas e grupos vulneráveis, tratadas como menores.

O texto deixa entrever que as comunidades cristãs enfrentavam dificuldades para reorganizar as relações de poder nas comunidades e no interior das famílias. Enquanto Jesus sublinha as atitudes de acolhida e inclusão, seus discípulos/as, como vimos nos últimos dias, cedem à tentação da superioridade, da rejeição e da exclusividade.

Este pequeno texto conclui a longa seção literária na qual o evangelista trata da correta relação entre os primeiros e os últimos. Jesus inverte esta relação, e coloca as crianças (que eram tratadas como últimas ou deixadas na periferia) no centro. Este caso das crianças é, na verdade, uma parábola da lógica do Reino de Deus.

Naquele tempo, e até poucos séculos atrás, as crianças não tinham lugar num ambiente social no qual predominavam os adultos. Mas até hoje, muitos “pequeninos” – como os negros, os indígenas, os pobres, os migrantes, os toxicodependentes, os idosos, os analfabetos, etc. – não são bem vistos em alguns círculos sociais.

A prática e o ensino de Jesus são claros: na família cristã, iluminada pelo Evangelho, assim como nas comunidades eclesiais, as crianças têm seu lugar e são bem colhidas. Mas não apenas elas, que hoje tendem a ser socialmente tratadas como “majestade” e a sempre impor suas infantis vontades. Todas as pessoas e grupos sociais fragilizados e vulneráveis devem ser acolhidos e tratados como cidadãos plenos, portadores de dignidade e sujeitos de direito.

 

Meditação:

·        Releia o texto e contemple a cena, procurando dar atenção a cada gesto e a cada palavra, tanto as de Jesus como dos discípulos

·        Como sua família e sua comunidade costumam tratar as pessoas e grupos sociais mais vulneráveis e fragilizados?

·        Por que tantos cristãos “de bem” ainda têm tanta dificuldade quando se trata de defender a dignidade dos marginalizados?

quinta-feira, 23 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (359)

359 | Ano B | 7ª Semana Comum| Sexta-feira | Marcos 10,1-12

24/05/2024

Ontem víamos que Jesus chama seus discípulos à abertura e à colaboração ecumênica. Quem tem um coração grande, um olhar abrangente e uma fé confiante não imagina ter concorrentes por todo lado. Só uma mente imatura pode se mostrar incapaz de reconhecer o bem que outros fazem e alimentar o desejo de que todos peçam sua aprovação para qualquer iniciativa benemérita.

No texto de hoje, Jesus começa radicalizando o ensino do episódio de ontem: qualquer gesto de hospitalidade, por menor que seja e mesmo que seja proveniente de alguém de fora da comunidade cristã é benemérito e nobre. Para Jesus, todos os que agem com solidariedade são bem-vindos, são cidadãos do Reino de Deus. O que vale é a prática, e não o rótulo religioso.

Para jesus, os cristãos devem atuar sem preconceitos contra ninguém e sem pretensões de exclusividade. Não há fronteiras rígidas que nos separam daqueles que não rezam pela nossa cartilha. O bem pode estar tanto dentro como fora da comunidade, e o mal pode vir tanto de fora quanto de dentro dela.

Este é o alerta que Jesus nos dá quando recorre à metáfora dos membros do corpo. Para as comunidades apostólicas, o corpo era uma imagem da diversidade dos membros, serviços e funções das comunidades cristãs. E, na mentalidade judaica, os pés, as mãos e os olhos eram considerados o lugar dos atos agressivos ou descontrolados.

Na verdade, a comunidade de Marcos vivia a triste e dura experiência da deserção, da traição e da apostasia de parte dos seus membros frente às violentas e reiteradas perseguições. E se perguntava como reagir a esta pedra de tropeço que acabava derrubando os mais fracos. Uma leitura atenta do texto evidencia que a solução não é a condenação à morte (como era comum na tradição oriental), nem a exclusão pura e simples da comunidade.

A metáfora do sal aponta para o trabalho paciente e firme em vista da solução do conflito e da recuperação da paz e da harmonia. Na tradição judaica, o sal é símbolo da Aliança. Assim, Jesus pede que todos tenhamos este sal e vivamos a paz com os demais, inclusive com os traidores.

 

Meditação:

·        Releia o texto e contemple a cena, procurando dar atenção a cada gesto e a cada palavra, assim como aos símbolos usados por jesus

·        Você consegue valorizar os pequenos e grandes gestos de humanismo que ocorrem fora da sua Igreja?

·        Como costumamos tratar os membros da comunidade ou da família que “cometem besteira” e nos deixam envergonhados?

·        Que passos poderíamos dar para desenvolver uma educação e uma catequese capazes de evitar o preconceito e a exclusividade?

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (358)

358 | Ano B | 7ª Semana Comum| Quinta-feira | Marcos 9,41-50

23/05/2024

Ontem víamos que Jesus chama seus discípulos à abertura e à colaboração ecumênica. Quem tem um coração grande, um olhar abrangente e uma fé confiante não imagina ter concorrentes por todo lado. Só uma mente imatura pode se mostrar incapaz de reconhecer o bem que outros fazem e alimentar o desejo de que todos peçam sua aprovação para qualquer iniciativa benemérita.

No texto de hoje, Jesus começa radicalizando o ensino do episódio de ontem: qualquer gesto de hospitalidade, por menor que seja e mesmo que seja proveniente de alguém de fora da comunidade cristã é benemérito e nobre. Para Jesus, todos os que agem com solidariedade são bem-vindos, são cidadãos do Reino de Deus. O que vale é a prática, e não o rótulo religioso.

Para jesus, os cristãos devem atuar sem preconceitos contra ninguém e sem pretensões de exclusividade. Não há fronteiras rígidas que nos separam daqueles que não rezam pela nossa cartilha. O bem pode estar tanto dentro como fora da comunidade, e o mal pode vir tanto de fora quanto de dentro dela.

Este é o alerta que Jesus nos dá quando recorre à metáfora dos membros do corpo. Para as comunidades apostólicas, o corpo era uma imagem da diversidade dos membros, serviços e funções das comunidades cristãs. E, na mentalidade judaica, os pés, as mãos e os olhos eram considerados o lugar dos atos agressivos ou descontrolados.

Na verdade, a comunidade de Marcos vivia a triste e dura experiência da deserção, da traição e da apostasia de parte dos seus membros frente às violentas e reiteradas perseguições. E se perguntava como reagir a esta pedra de tropeço que acabava derrubando os mais fracos. Uma leitura atenta do texto evidencia que a solução não é a condenação à morte (como era comum na tradição oriental), nem a exclusão pura e simples da comunidade.

A metáfora do sal aponta para o trabalho paciente e firme em vista da solução do conflito e da recuperação da paz e da harmonia. Na tradição judaica, o sal é símbolo da Aliança. Assim, Jesus pede que todos tenhamos este sal e vivamos a paz com os demais, inclusive com os traidores.

 

Meditação:

·        Releia o texto e contemple a cena, procurando dar atenção a cada gesto e a cada palavra, assim como aos símbolos usados por jesus

·        Você consegue valorizar os pequenos e grandes gestos de humanismo que ocorrem fora da sua Igreja?

·        Como costumamos tratar os membros da comunidade ou da família que “cometem besteira” e nos deixam envergonhados?

·        Que passos poderíamos dar para desenvolver uma educação e uma catequese capazes de evitar o preconceito e a exclusividade?

terça-feira, 21 de maio de 2024

A Luz do Evangelho em nossa vida (357)

357 | Ano B | 7ª Semana Comum| Quarta-feira | Marcos 9,38-40

22/05/2024

É paradoxal que os mesmos discípulos que resistiam a seguir Jesus pelas vias da compaixão e não conseguiam expulsar um espírito mau que amordaçava um jovem (cf. Mc 9,14-29) queiram proibir que outros o façam. Parece que eles queriam manter o monopólio do exorcismo como status e privilégio.

A resposta de Jesus chama à abertura e à colaboração ecumênica: Quem tem um coração grande, um olhar abrangente e uma fé confiante não imagina ter concorrentes por todo lado. Só uma mente imatura e institucionalizada pode se mostrar incapaz de reconhecer o bem que outros fazem e alimentar o desejo de que todos peçam sua aprovação para qualquer iniciativa benemérita.

Por que esta incapacidade de muitos de nós em respeitar, valorizar e cooperar com as demais Igrejas cristãs? Será que aquilo que temos em comum não é mais importante que as picuinhas que nos diferenciam? Se eles estão a favor de Jesus Cristo, poderiam estar contra nós?

A mesma reflexão se aplica à nossa relação com os movimentos sociais e culturais. Passou o tempo de ver em tudo o gérmen da discórdia e do confronto. Projetos que nascem fora das sacristias e das bênçãos eclesiásticas trazem a secreta marca do Espírito de Deus e realizam um bem enorme à humanidade. E até mesmo o copo de água não passa sem reconhecimento aos olhos de Deus.

Sejamos sinceros e verdadeiros: o bem e a justiça podem vir de fora da Igreja, e a traição e o escândalo podem vir de dentro dela. Muitos dos problemas que nossa Igreja enfrenta hoje são gerados e alimentados no seu próprio ventre. A ruptura com o Evangelho e muitas práticas que o negam surgem e são toleradas em nossas comunidades eclesiais.

Jesus enfrenta corajosamente este problema. Sob a pressão da perseguição, havia quem abandonasse o Evangelho, e isso era uma pedra de tropeço para muitos ‘pequeninos’. O corpo eclesial tinha membros que escandalizavam. E a proposta de Jesus é radical: vigilância e firmeza. É melhor ser uma comunidade pequena e coerente que grande e cheia de contradições. Ela não pode limitar ou perder sua missão de ser sal, de fazer a diferença.

 

Meditação:

·        Releia o texto e contemple a cena, procurando dar atenção a cada gesto e a cada palavra, tanto as de Jesus como as de João

·        Será que João, o discípulo no qual vemos puro amor e delicadeza, não estaria mostrando a rigidez doutrinal que nos ronda a todos?

·        Será que os problemas de nossas comunidades (eclesiais ou religiosas) vem somente de fora, ou principalmente de dentro?

·        Como costumamos agir em relação aos membros da comunidade que caem no erro ou causam escândalos?

segunda-feira, 20 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (356)

356 | Ano B | 7ª Semana Comum| Terça-feira | Marcos 9,30-37

21/05/2024

Um pouco antes da cena de hoje, alguns discípulos haviam visto Jesus transfigurado e ouvido uma voz pedindo que escutassem o que ele lhes dizia. A multidão acorria a Jesus, impressionada pela cura de um menino mudo. É neste contexto que Jesus não quer que ninguém saiba para onde vai. Jesus fez isso “porque estava ensinando seus discípulos”.

A arte de formar discípulos ocupa Jesus inteiramente. Eles haviam fracassado na tentativa de curar um menino mudo. Faltava-lhes a confiança em Deus, cultivadas especialmente na oração. Eles corriam atrás de ações poderosas e lugares de honra, e não conseguiam admitir um Messias vulnerável, que não busca o sucesso e que, inclusive, padece a morte na mão dos líderes nacionais.

Por isso, Jesus repete o ensinamento apresentado anteriormente: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, quando estiver morto, depois de três dias ele ressuscitará”. O resultado não foi muito animador, pois “os discípulos não compreendiam o que Jesus estava dizendo e tinham medo de fazer perguntas”. É o medo de enfrentar a verdade, de descobrir as exigências do caminho que leva à vida plena.

O mais impressionante é que, além de não compreender os repetidos anúncios da rejeição e da humilhação e de demonstrar medo de perguntar, os discípulos se envolvem com outras questões complicadas. Jesus está atento às conversas de estrada, e quando chegam em casa, pergunta-lhes: “Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho?” Ninguém se atreve a dizer que discutiam sobre qual deles seria o maior.

Será que não é isso também o que muitos pais e mães sonham para seus filhos e filhas: sucesso, fama, prosperidade? Mas claramente não é essa a perspectiva proposta e trilhada por Jesus Cristo. Jesus desmascara as aspirações de poder, coloca fim às nossas discussões sobre quem é o maior. Insistindo que o seu caminho passa pela rejeição e recorrendo ao símbolo das crianças, Jesus aponta claramente para outra direção.

 

Meditação:

·    Retome, com todas nuances, a cena, a atitude dos discípulos, o gesto e as palavras de Jesus neste trecho do Evangelho

·    Quais são as posições sociais que almejamos e os modelos humanos que nos inspiram e que gostaríamos de imitar?

·    Será que a indiferença de alguns setores cristãos à leitura dos evangelhos não se deve ao medo de entender a proposta de Jesus?

·    Você, sua família e sua comunidade estão tirando as consequências e levando a sério a afirmação de Jesus: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo”?

domingo, 19 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (355)

355 | Ano B | Memória de Maria, Mãe da Igreja | João 19,25-34

20/05/2024

Com a solenidade de Pentecostes havíamos concluído nosso caminho com o Evangelho de João. Mas hoje, em vista da memória litúrgica de “Maria, mãe da Igreja”, continuamos com ele. Esta memória nos sugere duas coisas: que Maria estava presente no cenáculo, quando da vinda do Espírito Santo, e também é dinamizada por ele; precisamos fazer uma interpretação mariana dessa cena localizada no relato da paixão e morte de Jesus.

Segundo João, no momento da paixão no Calvário, a mãe de Jesus, Maria Madalena e o discípulo amado estão de pé, diante da cruz de Jesus. Jesus os vê, e faz uma dupla declaração, que é também um duplo pedido: “Mulher, este é teu filho!” “Esta é tua mãe!” No alto do calvário, diante da expressão máxima do amor de Deus por nós, Jesus nos entrega Maria como mãe dos/as que creem, mãe da Igreja. E nos convida a levá-la conosco, como a discípula primeira e fiel. Nasce aqui uma Nova Família, semente de uma Nova Humanidade.

É interessante notar que o texto original não fala da “mãe de Jesus”. O evangelista a apresenta apenas como “mulher” e “mãe”. Ela representa o antigo Povo de Deus, do qual procede Jesus e a primeira comunidade de discípulos/as. Ela é convidada a fazer a passagem, reconhecendo e aceitando o Novo Povo de Deus nascido da nova aliança. E o discípulo amado, que representa o discipulado fiel e perseverante, tijolo vivo na construção do templo de Deus, é convidado a reconhecer suas raízes e a protegê-las.

Na sequência, Jesus diz que tem sede. É um novo pedido de acolhida. Os representantes do judaísmo não têm água, nem vinho (amor, acolhida), mas somente vinagre (ódio). Aceitando, sem revidar, mais este gesto de fechamento e violência, Jesus pode dizer que consumou a demonstração do amor do Pai pelo mundo e, em si mesmo, arrematou ou deu o toque final à criação do Homem e da Mulher Novos, iniciada no Gênesis.

Do corte que o soldado faz no corpo de Jesus com sua espada escorre sangue (o amor generoso e fecundo) e água (o Espírito que gera a Igreja). Isso não nos vem de Maria, mas do Filho que ela entrega a nós como Mãe. Neste sentido, ela é mãe da comunidade dos/as discípulos/as, mãe dos/as crentes. É isso se revela na sua presença no cenáculo, no dia de pentecostes.

 

Meditação:

·    Situe-se no Calvário, aos pés da cruz, com Jesus, sua mãe, Maria Madalena e o discípulo amigo e fiel

·    Permita que ressoem em você as densas e ternas palavras de Jesus: “Este é teu filho! Esta é tua mãe! Tenho sede! Tudo está consumado!”

·    Acolha Maria como a mãe querida que Jesus partilha conosco e pede que levemos para nossa casa

sábado, 18 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (354)

354 | Ano B | Solenidade de Pentecostes | João 20,19-23

19/05/2024

Estamos habituados a situar o acontecimento de pentecostes cristão cinquenta dias após a ressurreição de Jesus. Segundo o evangelho de João, este evento que mudou radicalmente a atitude dos discípulos teria acontecido na noite que se seguiu à ressurreição. A liturgia cristã une estas duas perspectivas, entendendo a páscoa como um acontecimento processual que inicia na ressurreição de Jesus e culmina no envio do Espírito Santo.

O trecho do evangelho de hoje está situado exatamente no início desse movimento progressivo. Quando tudo parecia definitivamente sepultado, acabado e imutável (“fechado”), Jesus irrompe em meio aos discípulos aterrados de medo e instaura a paz. É este encontro e esta palavra, e não apenas o sepulcro vazio, que provoca a mudança que todos/as conhecemos. Jesus não está fora, acima ou indiferente a eles, mas no meio deles.

A harmonia plena e o bem-estar total que Jesus deseja e transparece na saudação não é uma palavra vazia, nem uma ordem penosa: é um dinamismo que toma conta dos discípulos mediante o sopro de Jesus. Trata-se do mesmo sopro do Criador, quando moldou o ser humano do pó da terra. Sem esse sopro, o ser humano e o discípulo não passa de pó indefinido e de barro informe.

Entretanto, para não eixar dúvidas e não induzir à confusão, soprando, Jesus fala, explicita o significado do seu gesto. Trata-se do dom do Espírito Santo, do dom da fortaleza e fidelidade missionária: “Como o pai me enviou, também vos envio”. Jesus não institui um ministério ou sacramento, nem constituiu um colegiado, mas convoca e envia em missão. Com a força do Espírito, a paz experimentada no cenáculo não pode reter ninguém.

A quem e a fazer o quê são enviados os discípulos? Como Jesus, são enviados aos pecadores/as, às ovelhas perdidas, às vítimas das relações violentas e agressivas, para abrir-lhes as portas da graça, para acolhê-los como irmãos e filhos/as amados/as do Pai. É isso que significa “tirar (ou carregar) o pecado do mundo”. O Espírito não nos torna simples confessores, mas pessoas novas e solidárias, capazes de clamar por socorre e de estender as mãos com amor.

 

Meditação:

·    Situe-se no cenáculo fechado, entre os discípulos medrosos e envergonhados pela deserção diante da prisão de Jesus

·    Acolha e deixe ressoar as palavras de Jesus, deixe que o Sopro de Deus insufle vida em sua vida, missão em sua acomodação, unidade na diversidade

·    Acolha confiante e agradecido/a o mandato missionário de Jesus: Assim como o Pai me enviou, eu envio você!

·    Perceba com eles a presença inesperada, misteriosa e pacificadora de Jesus crucificado e ressuscitado

O Evangelho dominical (Pagola) - Pentecostes (19.05.2024)

RESPIRO VITAL

Os hebreus tinham uma ideia muito bela e real do mistério da vida. Assim descreve a criação do homem, um velho relato, muitos séculos anteriores a Cristo: «O Senhor Deus moldou o homem, do barro da terra. Então soprou nas suas narinas, o sopro da vida. E assim o homem se tornou um ser vivente».

É o que diz a experiência. O ser humano é barro. Em qualquer momento pode desmoronar, desfazer-se. Como caminhar com pés de barro? Como olhar a vida com olhos de barro? Como amar com coração de barro? No entanto, este barro vive! No seu interior há um sopro que o faz viver. É o Sopro de Deus. Seu Espírito vivificador.

No final do seu evangelho, João descreveu uma cena grandiosa. É o momento culminante do Jesus ressuscitado. Segundo o seu relato, o nascimento da Igreja é uma «nova criação». Ao enviar os seus discípulos, Jesus «sopra o seu alento sobre eles e diz-lhes: Recebei o Espírito Santo».

Sem o Espírito de Jesus, a Igreja é barro sem vida: uma comunidade incapaz de introduzir esperança, conforto e vida no mundo. Pode pronunciar palavras sublimes sem comunicar o Sopro de Deus aos corações. Pode falar com confiança e firmeza sem afiançar a fé das pessoas. Onde irá conseguir Esperança se não for do Sopro de Jesus? Como irá defender-se da morte sem o Espírito do Ressuscitado?

Sem o Espírito criador de Jesus podemos acabar por viver numa Igreja que se fecha a toda a renovação: não se permite sonhar com grandes novidades; o mais seguro é uma religião estática e controlada, que mude o mínimo possível; o que recebemos de outros tempos é também o melhor para o nosso; as nossas gerações devem celebrar a sua fé vacilante com a linguagem e os rituais de muitos séculos atrás. Os caminhos já estão marcados e definidos. Não há nem que perguntar-se porquê.

Como não gritar bem alto: «Vem, Espírito Santo! Vem à tua Igreja. Vem libertar-nos do medo, da mediocridade e da falta de fé na tua força criadora?» Não devemos olhar para os outros. Temos de abrir, cada um, o seu próprio coração.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (353)

353 | Ano B | 7ª Semana da Páscoa | Sábado | João 21,20-25

18/05/2024

A bela e instigante cena de ontem terminou com o convite imperativo de Jesus a Pedro: “Segue-me!” Pedro volta-se finalmente para Jesus (movimento de conversão?) e vê que o discípulo amigo, que jamais duvidara ou abandonara Jesus, continuava seguindo-o. Pedro pergunta a Jesus o que será dele, qual será o itinerário desse discípulo amigo e fiel. Com essa inquietação, Pedro parece dar a entender que pretende segui-lo.

Jesus não responde à pergunta de Pedro, mas questiona seu desejo implícito, afirmando com ênfase: “O que você tem a ver com isso? Trate de me seguir!” Jesus sublinha que, para um discípulo/a missionário/a, essencial é seguir Jesus, e cada um/a o faz com um itinerário pessoal, sem afastar-se da comunidade e sem desertar da missão. Ninguém deve seguir ninguém, e todos/as devem seguir e testemunhar Jesus, de quem recebem o Espírito.

Jesus diz que o discípulo amigo e fiel poderá permanecer, enquanto ele mesmo continua vindo. Isso quer dizer que, tanto o amor de Jesus feito sacramento na eucaristia quanto a missão que ele nos confia, se prolongam no tempo, sem uma data prevista para terminar. Tornar-se discípulo/a de Jesus é uma aventura que nunca termina de começar. No finalzinho da sua vida, Pedro começa este caminho que se recusara a fazer antes, porque só acreditava num messias poderoso, e desejava o papel de protagonista.

Jesus se empenha em curar pela raiz esse mal que ameaça inclusive a nós, ajudando Pedro a renunciar à ambição de ser o primeiro, a aceitar ser amigo e não súdito, a reconhecer que nesse caminho ninguém é mais que ninguém, a se dispor a um amor generoso e incondicional que poderá levá-lo à morte.

No começo da cena (cf. 21,15), Pedro é tratado por Jesus como “Simão, filho de João”, sublinhando seu vínculo com aqueles que esperavam um messias nacionalista e poderoso. Ele termina sendo tratado por Pedro, o nome que Jesus lhe deu, incluindo-o entre os discípulos. Agora sim, chegando à maturidade, Pedro é pedra preciosa e firme, base da sólida construção da casa de Deus.

 

Meditação:

·    Situe-se junto de Jesus, Pedro e o discípulo fiel e procure compreender a inquietação de Pedro e a orientação clara de Jesus

·    Deixe que ressoem em você o diálogo de Jesus com Pedro, assim como o desconcerto de Pedro em iniciar o caminho que o outro discípulo já percorria a muito tempo

·    Que luzes e ressonâncias esta bela cena tem para nós, nossas famílias e nossas comunidades cristãs?

·    Como evitar a comparação marcada pela inveja ou pelo menosprezo do jeito de seguir jesus dos irmãos e irmãs de outras Igrejas?

quinta-feira, 16 de maio de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (352)

352 | Ano B | 7ª Semana da Páscoa | Sexta-feira | João 21,15-19

17/05/2024

Depois de aparecer aos discípulos no final de uma noite de pesca frustrante, e depois de partilhar com eles pão e peixe e de praticamente ignorar o gesto voluntarioso de Pedro, que se joga na água para ir ao seu encontro, Jesus interroga Pedro três vezes. O simples fato de que Jesus lhe dirija a palavra depois do seu “papelão” durante a paixão e morte, é para Pedro um bálsamo reconfortante, um grande sinal de delicadeza e misericórdia de Jesus.

Na cena de hoje, Pedro é tomado à parte e confirmado na sua missão de pastorear o rebanho. Induzindo Pedro a se comparar com os demais discípulos, Jesus o provoca a ser humilde, a reconhecer o fracasso e encontrar a própria verdade. Por isso, pergunta se Pedro o amo profundamente (agapan), se seu amor é total, se ele é capaz de uma doação sem reservas. E Pedro, mais modesto e consciente da fragilidade do seu amor, responde que lhe quer bem (philia). Jesus pergunta uma segunda vez, sem mudar o verbo, e Pedro responde da mesma maneira.

Na terceira vez, Jesus muda o verbo, e pergunta se Pedro lhe quer bem. Mudando a pergunta, Jesus se coloca no nível de Pedro, desce à sua fragilidade e pobreza, acolhe Pedro como ele é. Pedro fica triste, porque é confrontado com sua pobreza, com sua verdade, e não pode mais se iludir com sua ideia de força, e tem que confessar que não é capaz do amor que Jesus lhe pede. Então Pedro responde constatando que Jesus o conhece de verdade, que sabe que ele deseja ser seu amigo, e não pode ir além disso. E Jesus reafirma que a prova desse amor a Jesus é sempre do rebanho!

Jesus pergunta se Pedro é capaz de amá-lo até o fim, e Pedro responde que está disposto a ser seu amigo. Jesus o acolhe em sua fragilidade e aceita sua amizade. Mas acaba acrescentando que, mesmo não sendo capaz de um amor maduro e pleno por enquanto, um dia chegará a esse amor: outros o conduzirão para onde ele hoje não pode e não quer ir! Pedro ainda será um verdadeiro discípulo missionário, capaz de doar-se inteiramente e de servir e amar os irmãos como Jesus o fez e pediu.

 

Meditação:

·    Situe-se junto de Jesus e de Pedro, observe o mal-estar de Pedro e acolha as perguntas de Jesus como dirigidas a você

·    O que significa para você, sua família e sua comunidade, “apascentar as ovelhas” e “cuidar dos cordeiros” hoje?

·    Quais são as consequências missionárias e pastorais da “união indissolúvel” entre o amor a Jesus e o cuidado pelo seu rebanho?

·    Que passos devemos dar para passar de uma adesão adolescente (“quando eras jovem”) a uma responsabilidade adulta (“quando fores adulto”) a Jesus?