quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial de Oração pelas Missões – 20.10.2009


Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo

Queridos irmãos e irmãs!
Pedi a toda a Igreja que vivesse um tempo extraordinário de missionariedade no mês de outubro de 2019, para comemorar o centenário da promulgação da Carta apostólica Maximum illud, do Papa Bento XV (30 de novembro de 1919). A clarividência profética da sua proposta apostólica confirmou-me como é importante, ainda hoje, renovar o compromisso missionário da Igreja, potenciar evangelicamente a sua missão de anunciar e levar ao mundo a salvação de Jesus Cristo, morto e ressuscitado.
O título desta mensagem – «batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo» – é o mesmo do Mês Missionário. A celebração deste mês ajudar-nos-á, em primeiro lugar, a reencontrar o sentido missionário da nossa adesão de fé a Jesus Cristo, fé recebida como dom gratuito no Batismo. O ato, pelo qual somos feitos filhos de Deus, sempre é eclesial, nunca individual: da comunhão com Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, nasce uma vida nova partilhada com muitos outros irmãos e irmãs. E esta vida divina não é um produto para vender, mas uma riqueza para dar, comunicar, anunciar: eis o sentido da missão. Recebemos gratuitamente este dom, e gratuitamente o partilhamos (cf. Mt 10, 8), sem excluir ninguém. Deus quer que todos os homens sejam salvos, chegando ao conhecimento da verdade e à experiência da sua misericórdia por meio da Igreja, sacramento universal da salvação (cf. 1 Tm 2, 4; 3, 15; Lumen gentium, 48).
A Igreja está em missão no mundo: a fé em Jesus Cristo dá-nos a justa dimensão de todas as coisas, fazendo-nos ver o mundo com os olhos e o coração de Deus; a esperança abre-nos aos horizontes eternos da vida divina, de que verdadeiramente participamos; a caridade, que antegozamos nos sacramentos e no amor fraterno, impele-nos até aos confins da terra (cf. Miq 5, 3; Mt 28, 19; At 1, 8; Rm 10, 18). Uma Igreja em saída até aos extremos confins requer constante e permanente conversão missionária. Quantos santos, quantas mulheres e homens de fé nos dão testemunho, mostrando como possível e praticável esta abertura ilimitada, esta saída misericordiosa ditada pelo impulso urgente do amor e da sua lógica intrínseca de dom, sacrifício e gratuidade (cf. 2 Cor 5, 14-21)!
Sê homem de Deus, que anuncia Deus: este mandato toca-nos de perto. Eu sou sempre uma missão; tu és sempre uma missão; cada batizada e batizado é uma missão. Quem ama, põe-se em movimento, sente-se impelido para fora de si mesmo: é atraído e atrai; dá-se ao outro e tece relações que geram vida. Para o amor de Deus, ninguém é inútil nem insignificante. Cada um de nós é uma missão no mundo, porque é fruto do amor de Deus. Ainda que meu pai e minha mãe traíssem o amor com a mentira, o ódio e a infidelidade, Deus nunca Se subtrai ao dom da vida e, desde sempre, deu como destino a cada um dos seus filhos a própria vida divina e eterna (cf. Ef 1, 3-6).
Esta vida é-nos comunicada no Batismo, que nos dá a fé em Jesus Cristo, vencedor do pecado e da morte, regenera à imagem e semelhança de Deus e insere no Corpo de Cristo, que é a Igreja. Por conseguinte, neste sentido, o Batismo é verdadeiramente necessário para a salvação, pois garante-nos que somos filhos e filhas, sempre e em toda parte: jamais seremos órfãos, estrangeiros ou escravos na casa do Pai. Aquilo que, no cristão, é realidade sacramental – com a sua plenitude na Eucaristia –, permanece vocação e destino para todo o homem e mulher à espera de conversão e salvação. Com efeito, o Batismo é promessa realizada do dom divino, que torna o ser humano filho no Filho. Somos filhos dos nossos pais naturais, mas, no Batismo, é-nos dada a paternidade primordial e a verdadeira maternidade: não pode ter Deus como Pai quem não tem a Igreja como mãe.
Assim, a nossa missão radica-se na paternidade de Deus e na maternidade da Igreja, porque é inerente ao Batismo o envio expresso por Jesus no mandato pascal: como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós, cheios de Espírito Santo para a reconciliação do mundo (cf. Jo 20, 19-23; Mt 28, 16-20). Este envio incumbe ao cristão, para que a ninguém falte o anúncio da sua vocação a filho adotivo, a certeza da sua dignidade pessoal e do valor intrínseco de cada vida humana desde a concepção até à sua morte natural. O secularismo difuso, quando se torna rejeição positiva e cultural da paternidade ativa de Deus na nossa história, impede toda e qualquer fraternidade universal autêntica, que se manifesta no respeito mútuo pela vida de cada um. Sem o Deus de Jesus Cristo, toda a diferença fica reduzida a ameaça infernal, tornando impossível qualquer aceitação fraterna e unidade fecunda do género humano.
O destino universal da salvação, oferecida por Deus em Jesus Cristo, levou Bento XV a exigir a superação de todo o fechamento nacionalista e etnocêntrico, de toda a mistura do anúncio do Evangelho com os interesses económicos e militares das potências coloniais. Na sua Carta apostólica Maximum illud, o Papa lembrava que a universalidade divina da missão da Igreja exige o abandono duma pertença exclusivista à própria pátria e à própria etnia. A abertura da cultura e da comunidade à novidade salvífica de Jesus Cristo requer a superação de toda a indevida introversão étnica e eclesial.
Também hoje, a Igreja continua a necessitar de homens e mulheres que, em virtude do seu Batismo, respondam generosamente à chamada para sair da sua própria casa, da sua família, da sua pátria, da sua própria língua, da sua Igreja local. São enviados aos gentios, ao mundo ainda não transfigurado pelos sacramentos de Jesus Cristo e da sua Igreja santa. Anunciando a Palavra de Deus, testemunhando o Evangelho e celebrando a vida do Espírito, chamam à conversão, batizam e oferecem a salvação cristã no respeito pela liberdade pessoal de cada um, em diálogo com as culturas e as religiões dos povos a quem são enviados. Assim missio ad gentes, sempre necessária na Igreja, contribui de maneira fundamental para o processo permanente de conversão de todos os cristãos. A fé na Páscoa de Jesus, o envio eclesial batismal, a saída geográfica e cultural de si mesmo e da sua própria casa, a necessidade de salvação do pecado e a libertação do mal pessoal e social exigem a missão até aos últimos confins da terra.
A coincidência providencial do Mês Missionário Extraordinário com a celebração do Sínodo Especial sobre as Igrejas na Amazônia leva-me a assinalar como a missão, que nos foi confiada por Jesus com o dom do seu Espírito, ainda seja atual e necessária também para aquelas terras e seus habitantes. Um renovado Pentecostes abra de par em par as portas da Igreja, a fim de que nenhuma cultura permaneça fechada em si mesma e nenhum povo fique isolado, mas se abra à comunhão universal da fé. Que ninguém fique fechado em si mesmo, na autorreferencialidade da sua própria pertença étnica e religiosa. A Páscoa de Jesus rompe os limites estreitos de mundos, religiões e culturas, chamando-os a crescer no respeito pela dignidade do homem e da mulher, rumo a uma conversão cada vez mais plena à Verdade do Senhor Ressuscitado, que dá a verdadeira vida a todos.
A este respeito, recordo as palavras do Papa Bento XVI no início do nosso encontro de Bispos Latino-Americanos na Aparecida, Brasil, em 2007, palavras que desejo transcrever aqui e subscrevê-las: «O que significou a aceitação da fé cristã para os povos da América Latina e do Caribe? Para eles, significou conhecer e acolher Cristo, o Deus desconhecido que os seus antepassados, sem o saber, buscavam nas suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que esperavam silenciosamente. Significou também ter recebido, com as águas do Batismo, a vida divina que fez deles filhos de Deus por adoção; ter recebido, outrossim, o Espírito Santo que veio fecundar as suas culturas, purificando-as e desenvolvendo os numerosos germes e sementes que o Verbo encarnado tinha lançado nelas, orientando-as assim pelos caminhos do Evangelho. O Verbo de Deus, fazendo-Se carne em Jesus Cristo, fez-Se também história e cultura. A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando-as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, mas uma regressão. Na realidade, seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado».
A Maria, nossa Mãe, confiamos a missão da Igreja. Unida ao seu Filho, desde a encarnação, a Virgem colocou-se em movimento, deixando-se envolver-se totalmente pela missão de Jesus; missão que, ao pé da cruz, havia de se tornar também a sua missão: colaborar como Mãe da Igreja para gerar, no Espírito e na fé, novos filhos e filhas de Deus.
Gostaria de concluir com uma breve palavra sobre as Pontifícias Obras Missionárias, que a Carta apostólica Maximum illud já apresentava como instrumentos missionários. De fato, como uma rede global que apoia o Papa no seu compromisso missionário, prestam o seu serviço à universalidade eclesial mediante a oração, alma da missão, e a caridade dos cristãos espalhados pelo mundo inteiro. A oferta deles ajuda o Papa na evangelização das Igrejas particulares (Obra da Propagação da Fé), na formação do clero local (Obra de São Pedro Apóstolo), na educação duma consciência missionária das crianças de todo o mundo (Obra da Santa Infância) e na formação missionária da fé dos cristãos (Pontifícia União Missionária). Ao renovar o meu apoio a estas Obras, espero que o Mês Missionário Extraordinário de outubro de 2019 contribua para a renovação do seu serviço missionário ao meu ministério.
Aos missionários e às missionárias e a todos aqueles que de algum modo participam, em virtude do seu Batismo, na missão da Igreja, de coração envio a minha bênção.
Vaticano, 9 de junho – Solenidade de Pentecostes – de 2019.

O Evangelho dominical (Pagola) - 20.10.2019


CONTINUAMOS A ACREDITAR NA JUSTIÇA?

Lucas narra uma breve parábola indicando-nos que Jesus a contou para explicar aos seus discípulos que é preciso orar sempre e sem desanimar. Este tema é muito querido para o evangelista que, em várias ocasiões, repete a mesma ideia. Como é natural, a parábola foi lida, quase sempre, como um convite para cuidar da perseverança da nossa oração a Deus.
No entanto, se observarmos o conteúdo do relato e a conclusão do próprio Jesus, vemos que a chave da parábola é a sede de justiça. Até quatro vezes se repete a expressão “fazer justiça”. Mais do que um modelo de oração, a viúva do relato é exemplo admirável de luta pela justiça no meio de uma sociedade corrupta que abusa dos mais fracos.
O primeiro personagem da parábola é um juiz que “nem teme a Deus nem se importa com as pessoas”. É a encarnação exata da corrupção que denunciam repetidamente os profetas: os poderosos não temem a justiça de Deus e não respeitam a dignidade nem os direitos dos pobres. Eles não são casos isolados. Os profetas denunciam a corrupção do sistema judicial em Israel e a estrutura machista daquela sociedade patriarcal.
O segundo personagem é uma viúva indefesa no meio de uma sociedade injusta. Por um lado, vive sofrendo os abusos de um adversário mais poderoso que ela. Por outro lado, é vítima de um juiz que não se importa em absoluto com a sua pessoa nem o seu sofrimento. Assim vivem milhões de mulheres de todos os tempos na maioria das terras.
Na conclusão da parábola, Jesus não fala de oração. Primeiro de tudo, pede confiança na justiça de Deus: “Deus não fará justiça aos seus eleitos que Lhe clamam dia e noite?” Esses eleitos não são os membros da Igreja, mas os pobres de todos os povos que clamam pedindo justiça. Deles é o reino de Deus.
Então, Jesus faz uma pergunta que é um desafio para os Seus discípulos: “Quando vier o Filho do Homem, encontrará esta fé na terra?” Não está pensando na fé como adesão doutrinal, mas na fé que alenta a atuação da viúva, modelo de indignação, resistência ativa e coragem para reclamar justiça aos corruptos.
É esta fé e a oração de cristãos satisfeitos das sociedades de bem-estar? Seguramente, tem razão o teólogo alemão João Batista Metz quando denuncia que na espiritualidade cristã há demasiados cânticos e poucos gritos de indignação, demasiada complacência e pouco anseio de um mundo mais humano, demasiado conforto e pouca fome de justiça.
José Antônio Pagola.
Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez.

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-NONO DOMINGO | 20.10.2019


A oração é um apostolado que sustenta a missão da Igreja!
No evangelho de hoje, Jesus fala sobre a oração.  Mas não insiste propriamente sobre a quantidade da oração, mas sobre a perseverança na oração, sobre a confiança em Deus. Ou seja: para Jesus não se trata apenas de ‘rezar sempre’, mas de ‘nunca desistir’ de rezar. O próprio Jesus não foi uma espécie de monge dedicado exclusivamente à oração, e os discípulos que deram prosseguimento à sua missão, conjugaram equilibradamente o anúncio do Evangelho com muitas iniciativas em favor das pessoas da comunidade ou de fora dela, a prática da caridade e a oração.
Para entender a parábola proposta por Jesus no evangelho deste domingo precisamos dar um passo atrás e situa-la no seu contexto literário. Assim, percebemos que vários versículos são dedicados à questão da vinda do Reino de Deus (cf. Lc 17,20-37). Misturando a linguagem direta com a linguagem apocalíptica, Jesus ensina que o Reino de Deus não aparece de forma ostensiva e espetacular, mas é uma surpresa que se esconde em todas as ações e movimentos de solidariedade. E a súplica da viúva da parábola tem seu foco implícito na expectativa da manifestação da justiça do Reino de Deus.
É importante lembrar também que, na Bíblia, a viúva é o protótipo da pessoa pobre e abandonada, do sujeito que está no limite da sobrevivência e não tem com quem contar. A tais pessoas pertence o direito de clamar a Deus. Quem clama são os oprimidos e os pobres; os poderosos e ricos apenas declamam ou reclamam. E Deus jamais se mostrou indiferente ao clamor de quem, dia e noite, suplica diante dele. A passagem paradigmática continua sendo aquela do livro do Êxodo: “Os israelitas continuavam gemendo e clamando sob dura escravidão. E os gritos de socorro devidos à escravidão subiram até Deus” (Ex 2,23).
Por isso, podemos afirmar que Jesus não quer propriamente chamar a atenção para a questão da oração contínua, e nem apenas para o seu conteúdo. A parábola está focalizada na eficácia do clamor dos pobres e injustiçados, daqueles que pedem perseverantemente a intervenção de Deus. Fazendo referência ao juiz que, mesmo não tendo fé, atende ao clamor da viúva, Jesus nos interroga: “E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar?” O próprio Jesus responde à pergunta: “Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa.”
Jesus é pessoalmente a mediação da socorro de Deus, mas não é o único. Todas as pessoas que creem em Deus são mediadoras da sua resposta aos clamores pela vinda do seu Reino. Mesmo que, muitas vezes, nós mesmos estejamos entre aqueles que clamam quase desesperadamente, à medida em que aderimos a Jesus Cristo somos responsáveis também pela resposta de Deus aos clamores dos outros. Continuamos a pedir “venha o teu Reino”, mas não podemos enterrar os talentos que recebemos. Jamais podemos esquecer o exemplo do samaritano da conhecida parábola (cf. Lc 10,25-37): “Vai e faze tu a mesma coisa.”
A oração cristã é sempre um exercício de ruptura com o fechamento e a confiança absoluta em nós mesmos e de progressiva abertura à vontade de Deus, que é, ao mesmo tempo, surpreendente e libertadora. A oração é um exercício humano e espiritual que tenta aproximar a nossa vontade da vontade de Deus, que procura deslocar o centro em torno do qual gira a nossa vida de nós mesmos para o advento Reino de Deus, para a vida plena ou do bem viver para todos.
A eficácia da oração se mostra claramente não apenas no atendimento automático desse ou daquele pedido, mas no alargamento e no aprofundamento da nossa consciência, do nosso modo de ver as coisas. A oração nos ajuda a tomar consciência da ação de Deus que está em curso na história e das possibilidades escondidas nela e em nós mesmos. Mas também nos eleva ao alto da cruz para que, assumindo uma perspectiva cristã, sintonizemos com todas as criaturas que clamam por uma libertação que ainda não se realizou.
Dai-nos, Jesus, missionário do Pai, a confiança e a perseverança daquela viúva que não tinha com quem contar. Torna tua Igreja cada vez mais radicalmente missionária, uma Igreja que sai de si e vai ao encontro dos irmãos e irmãs empurrados para as periferias, para testemunhar a eles a tua misericórdia. Ajuda-nos e pedir, sem cansar, que venha o teu Reino. Envia irmãos e irmãs que sustentem nossos braços cansados. Leva-nos até o alto da tua cruz para que, sintonizados com todos os clamores, desçamos aos caminhos da história para iluminá-los com o nosso testemunho. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf

Êxodo 17,8-13 | Salmo 120 (121)
Segunda Carta de Paulo A Timóteo 3,14-4,2 | Evangelho de São Lucas 18,1-8

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

O Evangelho dominical - 13.10.2019


ACREDITAR SEM AGRADECER?

O relato começa narrando a cura de um grupo de dez leprosos nas proximidades de Samaria. Mas, desta vez, Lucas não se detém nos detalhes da cura, mas na reação de um dos leprosos ao ser curado. O evangelista descreve cuidadosamente todos os seus passos, porque ele quer sacudir a fé rotineira de muitos cristãos.
Jesus pediu aos leprosos que se apresentassem aos sacerdotes para obter a autorização que lhes permita integrar-se na sociedade. Mas um deles, de origem samaritana, quando vê que está curado, em vez de ir aos sacerdotes, volta para procurar Jesus. Sente que para ele começa uma nova vida. A partir daí, tudo será diferente: poderá viver de forma mais digna e feliz. Sabe a quem o deve. Necessita encontrar-se com Jesus.
Volta «louvando a Deus com grandes gritos». Sabe que a força salvadora de Jesus só pode ter a sua origem em Deus. Agora sente algo novo por esse Pai Bom, de que fala Jesus. Não o esquecerá nunca. De agora em diante viverá dando graças a Deus. Louvará, gritando com todas as suas forças. Todos devem saber que se sente amado por Ele.
Ao se encontrar com Jesus, «cai a seus pés dando graças». Os seus companheiros seguiram caminho para encontrarem-se com os sacerdotes, mas ele sabe que Jesus é o seu único Salvador. Por isso está aqui junto a Ele dando-lhe graças. Em Jesus, encontrou o melhor presente de Deus.
Ao concluir o relato, Jesus toma a palavra e faz três perguntas expressando a sua surpresa e tristeza pelo que aconteceu. Não são dirigidas ao samaritano que tem a Seus pés. Recolhem a mensagem que Lucas quer que se escute nas comunidades cristãs.
«Não ficaram limpos os dez?». Não se curaram todos? Por que não reconhecem o que receberam de Jesus? «Os outros nove, onde estão?». Por que não estão ali? Por que há tantos cristãos que vivem sem dar graças a Deus, quase nunca? Por que você não sentem um agradecimento especial a Jesus? Não o conhecem? Não significa nada novo para eles?
«Só voltou este estrangeiro para dar glória a Deus?». Por que há pessoas afastadas da prática religiosa que sentem verdadeira admiração e agradecimento a Jesus, enquanto alguns cristãos não sentem nada de especial por Ele? Bento XVI advertia há alguns anos que um agnóstico em busca pode estar mais perto de Deus do que um cristão de rotina que é apenas por tradição ou herança. Uma fé que não gera nos crentes alegria e gratidão é uma fé doente.
José Antônio Pagola.
Tradutor: Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-OITAVO DOMINGO | 13.10.2019


Regenerados pela compaixão divina, somos enviados em missão!
A travessia que Jesus e seus discípulos estão realizando não é apenas geográfica. É uma caminhada consciente, e tem um rumo preciso: Jesus se dirige a Jerusalém, onde enfrentará os poderes religiosos e políticos e revelará a compaixão de Deus pelos excluídos. E faz essa passagem com um objetivo muito claro: desloca-se da periferia social ao centro político, transforma os últimos em primeiros, aprecia quem é desprezado, revela a presença de Deus na contramão da história e da religião. E, de tabela, potencializa a força emancipadora mais ou menos adormecida em cada ser humano.
Na Samaria, um grupo de leprosos deixa o fechado círculo de um pequeno povoado e se aproxima de Jesus. Parece que a ideologia estreita e fechada da cidade fazia mal a eles, pois costuma considerar culpáveis e proscritos os pobres, os doentes, os rebeldes, os diferentes. Mas, em vez de cumprir as prescrições e anunciar claramente a própria impureza, permanecendo assim longe das pessoas consideradas puras, estes leprosos reconhecem Jesus como mestre e gritam: “Tem compaixão de nós!” Há algo muito especial que faz com que este grupo de marginalizados saia da cidade em busca de uma mudança...
Este pedido brota da dor por serem excluídos. Por trás da súplica, está a situação dramática que vivem todos aqueles que são infectados pela lepra e pela ideologia estreita e escravizadora do judaísmo daquele tempo. Mas o grito quase desesperado, implorando compaixão, também é revelador de uma embrionária consciência de que Deus não vira o rosto nem fecha o coração diante do drama que vivem os doentes, discriminados e excluídos. Mesmo sem conseguir reconhecer claramente a identidade de Jesus, eles apelam a algo que é essencial em Deus: sua compaixão em favor dos marginalizados.
A resposta de Jesus ao pedido desesperado dos leprosos é, inicialmente, o cumprimento de uma norma legal: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Como poderiam eles ir ao templo, se era exatamente a lei por ele regulada que os mantinha distantes e separados? Eles ainda não estavam curados, e entrar no templo seria um sacrilégio imperdoável! Entretanto, é no caminho, e não no templo, que eles são curados. É da ruptura com a cosmovisão estreita e dominadora do templo, da adesão crescente a Jesus e à sua Palavra que vem a força que restaura a dignidade e liberta das exclusões.
Entre os dez leprosos havia um samaritano. Os demais provavelmente eram galileus. Percebendo-se curados, os nove galileus continuam firmes a marcha em direção ao templo, e são por ele novamente assimilados. Apenas o samaritano volta para agradecer a Jesus e glorificar a Deus, evitando assim as malhas e amarras do templo. É possível que os nove leprosos que continuam indo ao templo representem os discípulos que resistem à novidade exigente e libertadora de Jesus, os cristãos que continuam acreditando nos privilégios das minorias e na supremacia das leis e instituições.
Por sua vez, o leproso samaritano representa todos os excluídos e marginalizados que acolhem o Evangelho e se tornam discípulos de Jesus. “Tua fé te salvou.” A reconquista da plena cidadania e do respeito é fruto maduro e saboroso de uma fé dinâmica e consequente, que provoca rupturas e sustenta buscas. A declaração solene de Jesus ao samaritano purificado é semelhante a outras que fez à mulher vista como pecadora que beijara seus pés (cf. Lc 7,50), à mulher que sofria de hemorragia e era tratada como impura (cf. Lc 8,48), ao cego e mendigo de Jericó (cf. Lc 18,42).
Em todas estas cenas vemos o mesmo drama humano e a mesma delicadeza de um Deus que nada reivindica para si mesmo: “Tua fé te salvou!” A experiência de ser acolhido por Jesus Cristo leva à decisão de segui-lo e culmina na aceitação de uma missão. O samaritano curado não é remetido ao templo e suas leis incapazes de libertar, mas recebe uma nova missão. Não é dito o que ele deve fazer, nem onde deve ir. Jesus simplesmente diz “Levanta-te e vai...” Pois a missão é isso: descobrir-se radicalmente enviado por Outro a outros; sentir-se convocado a descobrir sempre de novo onde e a quem servir.
Jesus de Nazaré, missionário do Pai: nós te louvamos pela nuvem de testemunhas que nos antecederam ou que hoje caminham ao nosso lado. Com Paulo aprendemos que, se já morremos contigo, contigo também viveremos e faremos viver. Ensina-nos a levantar e partir em missão, movidos pela compaixão que vem de ti, mas cujo dinamismo não se esgota em nós. E ajuda-nos a romper com tudo o que escraviza e diminui a vida, tomando crítica distância das instituições e estruturas que ameaçam e intimidam. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Segundo livro dos Reis 5,14-17 | Salmo 97 (98)
Segunda Carta de Paulo A Timóteo 2,8-13| Evangelho de São Lucas 17,11-19

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

O Evangelho dominical (Pagola) - 06.10.2019


SOMOS CRENTES?
Jesus repetiu-lhes em diversas ocasiões: «Que pequena é a vossa fé!». Os discípulos não protestam. Sabem que ele tem razão. Levam bastante tempo junto Dele. Vêm-No entregue totalmente ao Projeto de Deus: só pensa em fazer o bem; só vive para tornar a vida de todos mais digna e mais humana. Poderão segui-Lo até o fim?
Segundo Lucas, num determinado momento, os discípulos dizem a Jesus: «Aumenta a nossa fé». Sentem que a sua fé é pequena e fraca. Necessitam confiar mais em Deus e acreditar mais em Jesus. Não o entendem muito bem, mas não o discutem. Fazem, justamente, o mais importante: pedir-Lhe ajuda para que faça crescer a sua fé.
Nós falamos de crentes e não-crentes, como se fossem dois grupos bem definidos: uns têm fé, outros não. Na verdade, não é assim. Quase sempre, no coração humano, existe, ao mesmo tempo, um crente e um não crente. Por essa razão, também aqueles de nós que nos chamamos de «cristãos», devemos perguntar: somos realmente crentes? Quem é Deus para nós? Será que O amamos? É ele quem dirige a nossa vida?
A fé pode enfraquecer em nós sem nunca termos tido dúvidas. Se não a cuidamos, pode diluir-se pouco a pouco no nosso interior para ficar reduzido simplesmente a um hábito que não nos atrevemos a abandonar. Distraídos por mil coisas, já não conseguimos comunicarmo-nos com Deus. Vivemos praticamente sem ele.
O que podemos fazer? Na verdade, não é necessário fazer grandes coisas. É inútil tomar resoluções extraordinárias, porque certamente não as vamos cumprir. O primeiro passo é rezar como aquele desconhecido que um dia se aproximou de Jesus e disse: «Creio, Senhor, mas vem em auxílio da minha incredulidade». É bom repeti-lo com um coração simples. Deus entende-nos. Ele despertará a nossa fé.
Não devemos falar com Deus como se ele estivesse fora de nós. Está dentro. O melhor é fechar os olhos e ficar em silêncio para sentir e acolher a Sua Presença. Tampouco nos devemos distrair pensando nele, como se ele estivesse apenas na nossa cabeça. Está no íntimo do nosso ser. Temos que procurá-Lo no nosso coração.
O importante é insistir até ter uma primeira experiência, mesmo que seja pobre, mesmo que só dure alguns instantes. Se um dia percebermos que não estamos sós na vida, se percebermos que somos amados por Deus sem merecê-lo, tudo mudará. Não importa que tenhamos vivido esquecidos Dele. Acreditar em Deus é, antes de tudo, confiar no amor que Ele nos tem.
José Antônio Pagola
Tradutor: Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-SEXTO DOMINGO | 06.10.2019


A fé nos leva a ver e agir no mundo do jeito de Deus.
Depois da parábola do rico e de Lazaro, os apóstolos pedem que Jesus os faça crescer na fé. Por trás desse pedido e da resposta de Jesus estão alguns problemas bem concretos: o abismo que separa os ricos e indiferentes dos pobres e carentes; o escândalo que isso provoca nas comunidades cristãs; a orientação exigente e concreta da Palavra de Deus; a recusa, por parte de Jesus, em mudar o mundo mediante milagres; o imperativo do perdão incondicionado aos irmãos e irmãs (cf. Lc 16,19-17,4). É diante disso que os apóstolos reagem assustados e preocupados, e suplicam a Jesus: “Aumenta a nossa fé!”
Qual é o problema dos apóstolos, daqueles escolhidos por Jesus e de todos os que vieram depois? Sentimo-nos incapazes de romper com alguns valores profundamente arraigados e tidos como essenciais pela cultura religiosa: a necessidade de punir as pessoas consideradas pecadoras ou impuras; a sedução por uma religião que prioriza ações espetaculares; a valorização absoluta da riqueza e do próprio bem-estar, como se fosse sinal inequívoco da benção de Deus, mesmo quando conseguida às custas da indiferença; e assim por diante.
Os apóstolos percebem vivamente que necessitam da luz e da força da fé para superar esta floresta de amoreiras que impedem a vida e a compaixão. Eles sabem que a fé não é estéril, mas parecem ignorar que seus frutos não são necessariamente espetaculares. Trata-se da irresistível atração pelas coisas grandiosas e que ainda hoje leva tantos irmãos e irmãs a lerem a metáfora usada por Jesus de forma literal. É triste assistir à multiplicação de pretensos milagres em templos, estádios e praças, com transmissão ao vivo...
O que chama a atenção na resposta de Jesus não é o apelo a uma fé prodigiosa e espetacular, mas a necessidade de uma fé mínima. “Se tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda...” O próprio Jesus sempre evitou recorrer a ações miraculosas para ser fazer ouvido e aceito. Ele tinha consciência de que a fé não procede do milagre, mas o precede. É a fé que nos leva a ver maravilhas, e não as ações maravilhosas que despertam a fé. As ações de Jesus que chamamos de milagres são respostas compassivas do socorro de Deus em favor de quem não tem com quem contar.
O fruto da fé se mostra substancialmente na descoberta da própria dignidade socialmente negada e no olhar que reconhece os seres humanos e todas criaturas como parceiras e irmãs. O Vaticano II diz que a fé tem força crítica e dinamismo libertador, pois “ilumina com sua luz tudo que existe e manifesta o propósito divino a respeito da plena vocação humana, orientando assim o espírito para as verdadeiras soluções” (GS 11). Ou, como diz o Papa Francisco, “a fé nos dá a justa dimensão de todas as coisas, fazendo-nos ver o mundo com os olhos e o coração de Deus”. Mesmo parecendo pequena, desprezível e frágil como semente de mostarda, ela tem força para jogar no fundo do mar as estruturas poderosas e opressoras simbolizadas pela amoreira.
Mas para que isso aconteça, é preciso ser capaz de romper com a lógica do poder. Nesta perspectiva, Paulo lembra a Timóteo a fé sincera que recebeu da sua avó Loide e da sua mãe Eunice, e pede-lhe que conserve esse dom sempre vivo e ativo. A fé gosta de vir acompanhada pela fortaleza, pelo amor e pela sobriedade. Como Paulo e Timóteo, os verdadeiros missionários não conhecem a vergonha, nem diante de Jesus Cristo, nem diante da perseguição ou do escárnio que sofrem aqueles que levam adiante seu projeto. Como o caso daqueles que, desavergonhadamente, se opõem ao Sínodo da Amazônia.
A ação missionária da Igreja é sempre frutuosa, mas ao modo do grão de mostarda. O trabalho generoso dos missionários, quando brota do ventre da compaixão e da misericórdia, jamais será estéril. Aqueles que agem como filhos de Deus. Talvez seja exatamente isso o que os missionários têm a oferecer ao mundo em nome dos cristãos: uma fé capaz de romper com todos os dinamismos de isolamento e de dominação; um amor capaz de reestabelecer a dignidade de quem a tem negada; uma ação que articula a fé com a defesa da integridade da criação, que considera que tudo está interligado.
É a ti que nos dirigimos, Deus Pai e Mãe, neste primeiro domingo do Mês Missionário Extraordinário. Dá-nos uma fé capaz de construir pontes com os demais homens e mulheres e de impedir a tentação do isolamento. Faz com que o encontro com o teu Filho e nosso Irmão nos torne autênticos discípulos, destemidos apóstolos e eloquentes testemunhas no serviço solidário e gratuito aos mais pobres. Vem em nosso auxilio para que nossa fé, mesmo sendo pequena como semente de mostarda, seja ativa, remova as amoreiras da injustiça social e da depredação das natureza, e dinamize a presença dos cristãos no mundo. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Profecia de Habacuc 1,2-3.2,2-4 | Salmo 94 (95)
2ª Carta de Paulo A Timóteo 1,6-8 | Evangelho de São Lucas 17,5-10

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

O Evangelho dominical (Pagola) - 29.09.2019


QUEBRAR A INDIFERENÇA

Segundo Lucas, quando Jesus gritou que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, alguns fariseus que o ouviam e eram amigos do dinheiro riram-se dele. Mas Jesus não recua, e conta uma parábola comovente para que aqueles que vivem escravos da riqueza possam abrir os olhos.
Jesus descreve em poucas palavras uma situação dramática. Um homem rico e um mendigo pobre, que vivem perto um do outro, estão separados pelo abismo que há entre a vida de opulência insultante do rico e a miséria extrema do pobre.
A história descreve os dois personagens enfatizando fortemente o contraste entre os dois. O homem rico está vestido de púrpura e linho fino, o corpo do pobre está coberto de feridas. O rico banqueteia-se esplendidamente, não apenas nos dias de festa, mas diariamente; o pobre está deitado na sua porta, incapaz de levar à boca o que cai da mesa do homem rico. Apenas os cachorros que procuram algo no lixo lambem suas feridas.
Não se fala em nenhum momento que o homem rico tenha explorado o pobre ou que o tenha maltratado ou desprezado. Poderíamos dizer que não fez nada de mal. No entanto, toda a sua vida é desumana, pois só vive para o seu próprio bem-estar. O seu coração é de pedra. Ignora totalmente o pobre. Tem-no à sua frente, mas ele não o vê. Está ali mesmo, doente, faminto e abandonado, mas não consegue atravessar a porta para tomar conta dele.
Não nos enganemos. Jesus não está a denunciar apenas a situação da Galileia dos anos trinta. Está tentando mexer com a consciência daqueles que se acostumaram a viver na abundância, tendo junto ao seu portal, apenas a algumas horas de voo, a povos inteiros vivendo na miséria mais absoluta.
É desumano fechar-nos na nossa sociedade do bem-estar ignorando totalmente essa outra sociedade do mal estar. É cruel continuar a alimentar essa secreta ilusão de inocência que nos permite viver com a consciência tranquila, pensando que a culpa é de todos e de ninguém.
A nossa primeira tarefa é quebrar a indiferença. Resistir a desfrutar de um bem-estar vazio de compaixão. Não continuar a isolar-nos mentalmente para deslocar a miséria e a fome que há no mundo em direção a uma afastamento abstrato, para poder assim viver sem ouvir nenhum clamor, gemido ou choro.
O Evangelho pode nos ajudar a viver vigilantes, sem tornarmo-nos cada vez mais insensíveis aos sofrimentos dos abandonados, sem perder o sentido da responsabilidade fraterna e sem permanecermos passivos e omissos.
José Antônio Pagola.
Tradutor: Antônio Manuel Álvarez Perez.

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-SEXTO DOMINGO | 29.09.2019


A Palavra de Deus nos mostra o caminho e pede conversão!
Caminhando decididamente para Jerusalém, arena do confronto definitivo com os poderes que discriminam, excluem e matam, inclusive em nome de Deus, Jesus continua alertando e formando seus discípulos em relação à tentação da aparência, do dinheiro e do poder. Ele polemiza com os fariseus, mas sua atenção está voltada aos discípulos. A fé na sua Palavra e a adesão aos seus ensinamentos deve qualificar a relação dos seus discípulos com os bens e com os pobres. Uma fé vivida unicamente como remédio para nossos males individuais ou como combustível para uma carreira de sucesso tem pouco a ver com ele.
Tanto no tempo do Jesus como hoje, há um abismo tão real quanto ignorado e encoberto que separa as pessoas que frequentam a mesma comunidade, os cidadãos de um mesmo pais, os habitantes do único planeta. É isso que aparece na parábola de hoje: há um rico que se veste elegantemente e dá esplêndidas festas todos os dias; e há um pobre coberto de feridas, devorado pela fome, rodeado de cães e sentado na calçada, em frente à porta da casa do rico, absolutamente invisível a irrelevante para ele. Profetas como Amós já levantavam sua voz e denunciavam o insulto dos banquetes dos ricos frente à miséria dos pobres.
No centro da vida cristã está a compaixão pelos pobres, e não há lugar para a indiferença e a busca do próprio bem-estar individual a qualquer custo. O caminho entre a porta e a mesa deve ser amplo e aberto! Jesus não aceita a indiferença dos ricos frente aos sofrimentos dos pobres. Sua Palavra é clara e contundente: “Ai de vós, os ricos, porque já tendes vossa consolação!” (Lc 6,24). Ele insiste que os pobres e os sofredores devem ocupar os primeiros lugares na lista de convidados para as festas e celebrações (cf. Lc 14,13). Mas, o Brasil naturaliza casas-grandes e senzalas e não permite que Lázaro vá além da porta dos ricos.
Por isso, é estranho, para não dizer cínico, o grito do rico, depois da morte, pedindo que Lazaro tenha compaixão dele. O rico sem nome continua achando que os pobres devem estar a seu serviço: bem que eles poderiam aliviar a sede ou avisar seus parentes e livrá-los a tempo dos males que os esperam. Não pode não ser cinismo este apelo para que os pobres tenham compaixão dos ricos que sempre se vestiram de indiferença e prepotência. O caminho para o céu é nossa vida na terra, e a indiferença corta a comunicação, destrói as pontes, cava abismos e fere de morte a solidariedade entre as pessoas.
Jesus se demora na descrição das tentativas infrutíferas do homem rico para reverter uma situação irreversível, sem tomar consciência do abismo que ele mesmo cavou, pedindo que lhe tragam água para amenizar a sede e enviem um morto ressuscitado para convencer seus parentes da necessidade de mudar de atitude. Mas, na verdade, não há sinal poderoso ou milagre esplendoroso capaz de tocar o coração e a mente de quem se fechou em si mesmo e faz da indiferença uma couraça protetora. Nada pode curar aqueles que se fecharam à Palavra e dos profetas, dos apóstolos e do próprio Jesus.
É lamentável que ainda hoje muitos pregadores apresentem esta parábola simplesmente como uma espécie fotografia da inversão que a morte provocaria na vida real. Jesus não está falando da felicidade que espera os sofredores no paraíso futuro, ou do sofrimento destinado aos ricos depois da morte! O que ele enfatiza é o caráter decisivo e irreversível das opções que fazemos e das práticas que desenvolvemos no tempo presente! O caminho da vida cristã é pavimentado pela escuta da Palavra de Deus e pela conversão. E nela não há lugar para privilégios, nem para milagres fáceis e encomendados, pagos e golpes de dízimo.
Na carta a Timóteo, Paulo pede: “Tu que és um homem de Deus, foge das coisas perversas, procura a justiça e a piedade, a fé, a caridade, a constância, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual fostes chamado.” Ele nos pede para juntar a piedade à prática da justiça, unir a solidariedade à fé, casar a mansidão com a perseverança no seguimento de Jesus Cristo, único e soberano líder que pode nos guiar a um mundo justo, fraterno e liberto.
“Fala, Senhor! Fala da Vida! Só tu tens palavras eternas, e nós queremos ouvir. São tantos os apelos que vêm dos oprimidos. Tu és quem liberta, o Deus dos esquecidos.” Ajuda-nos a vencer a indiferença que cava abismos entre pessoas que nasceram para ser irmãos e irmãs. Ensina-nos a acolher, compreender aquilo que nos dizes através dos profetas e santos de ontem e de hoje. Sustenta a coragem daqueles que denunciam golpes midiáticos e sequestros de direitos. E que tua Palavra seja sempre a luz dos nossos passos. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Profecia de Amós 6,4-7 | Salmo 145 (146)
Carta de Paulo A Timóteo 6,11-16 | Evangelho de São Lucas 16,19-31

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O Evangelho dominical - 22.09.2019


A CRISE NÃO É SOMENTE ECONÔMICA!

«Não podeis servir a Deus e ao dinheiro». Estas palavras de Jesus não podem ser esquecidas por aqueles que se sentem seus seguidores, pois contêm a advertência mais grave que Jesus deixou à humanidade. O dinheiro, convertido em ídolo absoluto, é o grande inimigo para construir esse mundo mais justo e fraterno, amado por Deus.
Desgraçadamente, a riqueza converteu-se, neste nosso mundo globalizado, num ídolo de imenso poder que, para subsistir, exige cada vez mais vítimas e desumaniza e empobrece cada vez mais a história humana. Neste momento encontramo-nos apanhados por uma crise gerada em grande parte pelo desejo de acumular.
Praticamente tudo se organiza, se move e dinamiza a partir dessa lógica: procurar mais produtividade, mais consumo, mais bem-estar, mais energia, mais poder sobre os outros. Essa lógica é imperialista. Se não a pararmos, podemos colocar em perigo o ser humano e o próprio Planeta.
Talvez a primeira coisa a fazer seja tomar consciência do que está acontecendo. Esta não é apenas uma crise econômica. É uma crise social e humana. Já temos dados suficientes à nossa volta e no horizonte do mundo para perceber o drama humano em que vivemos imersos.
É cada vez mais óbvio que um sistema que conduz uma minoria de ricos a acumular cada vez mais poder, deixando em fome e miséria a milhões de seres humanos é uma loucura insuportável. É inútil fazer de conta que não vemos.
Já nem as sociedades mais progressistas são capazes de assegurar um trabalho digno a milhões de cidadãos. Que progresso é este que, lançando-nos a todos para o bem-estar, deixa tantas famílias sem recursos para viver com dignidade?
A crise está arruinando o sistema democrático. Pressionados pelas exigências do Dinheiro, os governantes não podem atender às verdadeiras necessidades dos seus povos. O que é a política se já não está ao serviço do bem comum?
A diminuição dos gastos sociais em diversos campos e a privatização interesseira e indigna de serviços públicos, como a saúde, continuarão a bater nos mais indefesos, gerando cada vez mais exclusão, desigualdade vergonhosa e fratura social.
Os seguidores de Jesus, não podemos viver encerrados numa religião isolada deste drama humano. As comunidades cristãs devem ser um espaço de consciencialização, discernimento e compromisso. Devemos nos ajudar a viver com lucidez e responsabilidade. A crise há de tornar-nos mais humanos e mais cristãos.
José Antônio Pagola.
Tradutor: Antônio Manuel Álvarez Perez