segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Mistica & profecia

Mística trinitária:  esvaziar-se para amar
Mais de 700 religiosas e religiosos do Rio Grande do Sul participaram, no último sábado (19.08.2017) de um evento celebrativo da passagem dos 60 anos de fundação da seccional gaúcha Conferencia dos Religiosos do Brasil. O evento aconteceu em Porto Alegre, no Colégio Bom Conselho, e contou com a presença e reflexão de Dom Joao Braz de Aviz, cardeal brasileiro responsável pela vida consagrada no mundo inteiro.
Esta celebração se desenvolve sob o signo dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Uma imagem pequena, encontrada, que veio ao encontro, quebrada e restaurada, que sai da rede e se torna rede que une pessoas, restaura dignidades, restaura cidadanias negadas, suscita dinamismos de encontro, sai ao encontro dos filhos mais sofridos e esquecidos: um ícone expressivo provocativo para a vida consagrada no Brasil.
Na sua reflexão, falando das raízes e horizontes místicos da vida consagrada, Dom Braz de Aviz lembrava que a etimologia da palavra mística é o Mistério, inapreensível e indestrutível, a presença envolvente e fiel da divindade. Trata-se de uma presença que não assusta, mas provoca deslumbramento e um sereno entusiasmo. Assim é a realidade maravilhosa do encontro com Deus, nossa fonte, que não provoca medo, mas confiança, serenidade, entrega, saída.
É desse encantamento que nasce a profecia. E, na vida consagrada, a profecia adquire forma e eloquência no testemunho da pobreza, da castidade e da obediência. Estes não são conceitos nem amuletos, fugas ou reservas, mas caminhos de liberdade, que fazem que sejamos dom. A mística que nasce do encontro vivo com Deus em Jesus Cristo e nos pobres que o representam deveria nos tornar naturalmente proféticos.
Mas há uma ameaça que nos ronda, permanentemente: quando queremos preservar as tradições a qualquer preço, experiências e iniciativas que até foram significativas num outro contexto, acabamos conservando o que é velho e perdendo a força renovadora do Evangelho e do Carisma. Por isso, como pessoas consagradas e instituições que pretendem servir a um carisma, precisamos nos perguntar, permanentemente: o que vivemos hoje é intrínseco ao carisma ou é o modo de vida que escolhemos, que está ligado à cultura e aos medos e interesses? O que precisamos conservar e o que precisamos deixar perder-se?
Por fim, o cardeal prefeito da secretaria destinada a acompanhar a vida consagrada no mundo todo lembrou que questão da mística nos leva necessariamente ao mistério da Trindade divina. A Santíssima Trindade é o coração da mística, do mistério de Deus, que é, em sua essência, misericórdia, amor que se compadece e sai de si. O retrato dinâmico desse amor humano-divino nos é oferecido no cântico da carta aos Filipenses 2,5-10: quem se encontra com o mistério de Deus se encontra com sua kenosis, o dinamismo de esvaziamento que leva à igualdade, à nulidade social, ao protesto radical contra qualquer privilegio ou hierarquia. Essa é a grandeza diante da qual todos precisamos cair de joelhos.
Itacir Brassiani msf

Vida Consagrada no Brasil

Sem coração ardente não há missão consequente!

Falando à Assembleia dos Superiores e Superioras do Rio Grande do Sul, no último 18 de agosto, a Ir. Maria Inês Ribeiro, presidente da Conferencia dos Religiosos e Religiosas do Brasil dizia, sublinhando a importância da mística da escuta da Palavra de Deus: “Se o coração não arde, os pés não andam!”
Isso é verdade! Sem o ardor que brota da escuta da Palavra e do encontro pessoal com Jesus de Nazaré, as mãos se fecham, a criatividade desaparece, e vida esmorece. Por isso, é indispensável e urgente conjugar mística e profecia. E um convite à mística é esse que nos vem da profecia de Isaias: “Eis que estou fazendo uma coisa nova! Vocês não estão vendo?” (Is 43,19)
Estimulada pelas falas e gestos do Papa Francisco, a vida consagrada do Brasil sente-se “convocada a sair”. E hoje precisamos fazer isso tecendo relações misericordiosas, priorizando os empobrecidos, a juventude e a ecologia integral, e sempre de olhos fixos na fidelidade ao projeto de Deus.
Desde o momento original da criação, e até a revelação final em Jesus Cristo, a Bíblia é uma história de saídas em busca da vida. A mística que constitui e alimenta a vida consagrada é uma mística exodal, um itinerário espiritual de saída. É uma mística de olhos abertos e ouvidos atentos às feridas que sangram na carne do povo, aos clamores abafados, silenciados ou engasgados.
Na base de toda experiência mística está o enamoramento e a paixão por Deus e sua verdade, sua vontade, que é, desde sempre, amor e fidelidade aos pequenos, às suas dores e esperanças.  E nisso mesmo é que consiste a profecia: levantar a voz e arriscar a vida na defesa dos “insignificantes” nos quais Deus faz morada.
Quem coloca Jesus Cristo no centro da sua vida, desloca-se, descentraliza-se, deixa de ser autorreferencial.  O centro da vida consagrada não são as obra da instituição ou os projetos individuais e localizados, mas Deus Vivo e seu reino. Se não for assim, Deus pode queimar nossa pele e iluminar nossos altares, mas não aquece nosso coração.
Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ANO A – VIGÉSIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 20.08.2017

Os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis, e para todos!
A tendência é acostumemo-nos com um mundo construído à base de barreiras e privilégios. Assistimos estupefatos e impotentes – indiferentes? – ao muro levantado por Israel para impedir o acesso e o contato com os palestinos; e, no lado ocidental do globo, o muro que os Estados Unidos da América construiu na fronteira com o México, para impedir o acesso dos migrantes latinos. Mas estes são apenas os muros mais visíveis e mais cínicos, detestáveis como todos os outros, mas não os únicos...
Todas as barreiras e muros são cimentados pelo medo e pela prepotência, e têm o objetivo de garantir benefícios e privilégios e excluir os mais fracos. Por isso, são incompatíveis com o Evangelho de Jesus Cristo. Ele mesmo teve que romper com os estreitos círculos étnicos, culturais e religiosos para que sua compaixão chegasse a todas as pessoas e povos, sem nenhuma exclusão. No evangelho de hoje, nos deparamos com uma mulher estrangeira e marginalizada atuando com insistência para que o próprio Jesus e seus discípulos se deem conta da estreiteza dos muros étnicos e religiosos do judaísmo.
Fixemos nossa atenção na bela e interpeladora cena descrita por Mateus. Depois de ter discutido duramente com os fariseus e de ter enfrentado criticamente a ideologia separatista e exclusivista que eles propagavam (Mt 15,1-28), Jesus sai e se afasta deste estreito círculo, como quem não quer mais conversa com eles. Ele é ícone de uma Igreja em saída! E eis que aparece em cena uma mulher cananéia, uma testemunha viva e dolorida de múltiplas formas de marginalização e da exclusão.
O anonimato desta mulher a faz símbolo de todas as pessoas que são jogadas fora dos muros que cercam e protegem privilégios. Ela pertence a um povo que foi desapropriado da sua terra em favor das tribos de Israel, de um povo que os judeus consideravam amaldiçoado por Deus e destinado a ser escravo dos demais povos (cf. Gn 9,25). Da boca do próprio Jesus ouvimos aquilo que os judeus pensavam dessa gente: eles não passam de cães raivosos, nojentos e detestáveis...
A atitude dessa mulher merece atenção, pois é a primeira palavra de uma mulher registrada por Mateus no seu evangelho. E esta palavra é basicamente um grito, um clamor desesperado: “Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim!” Aqui ressoa o grito de todas as mulheres e da própria humanidade golpeada mortalmente pelas barreiras que excluem, do patriarcalismo ao capitalismo. Esta mulher que vem da margem se recusa a aceitar as barreiras e privilégios que separam e excluem, intuindo que, diante de Deus, todos são filhos e filhas e todos têm lugar à mesa da vida e da misericórdia.
Frente à atitude inicial de Jesus, que parece demonstrar indiferença, e dos discípulos, que pedem que Jesus a mande embora, a mulher insiste no seu clamor em favor daqueles a quem tudo foi negado, e que esqueceram até o que são e o que podem. Ela lembra a Jesus a herança de Davi e o trata como “senhor”, como o fazem os discípulos. Ela crê no reinado anunciado e iniciado por ele e, por isso, insiste. Mesmo dando a entender que aceita o senhorio dos grandes e as migalhas que eles deixam aos excluídos, ela pede, e nome das mulheres e todos os marginalizados, um lugar à mesa, e não debaixo dela.
Esta mulher sem eira nem beira, sem passaporte e sem família, possivelmente discípula de Jesus, não se escandaliza dele, como parece ter ocorrido antes com os discípulos do sexo masculino. Por isso, ela encarna simbolicamente a abertura e acolhida que os marginalizados demonstram ao anúncio de Jesus. Argumentando que os cães têm direito às migalhas, ela também não aceita que os bens sejam dados a um pequeno grupo em detrimento de muitos: tanto os filhos como os cães têm direito à cidadania!
A reação final de Jesus é formidável: ele não apenas reconstrói a personalidade da filha da cananéia, mas também elogia muito impressionado a exemplaridade da sua fé. Esta é a única passagem no evangelho de Mateus onde a fé é qualificada como grande. “Mulher, grande é tua fé!” E esta fé se mostra concretamente no enfrentamento das barreiras étnicas, políticas, culturais, religiosas e de gênero, na persistência frente à indiferença do próprio Jesus e na confiança em sua ação libertadora.
Deus pai, raiz e fonte de todas as vocações, horizonte e caminho da educação da fé: hoje te pedimos pelas pessoas consagradas. Dá a elas a graça de serem um reflexo da tua compaixão sem fronteiras e da tua atenção aos mais fracos e aos últimos. Que teu Espírito as ajude a descobrir que sua missão se realiza na acolhida, na ternura e no serviço, e que elas experimentem a alegria impagável de serem servidoras da vida, mediadoras do teu amor libertador e testemunhas do Evangelho no mundo de hoje. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaias 56,1.6-7 * Salmo 66 (67) * Carta aos Romanos 11,13-15.29-32 * Evangelho de São Mateus 15,21-28)

O Evangelho dominical - 20.08.2017

JESUS É DE TODOS

Uma mulher pagã toma a iniciativa de se aproximar de Jesus, apesar de não pertencer ao povo judeu. É uma mãe angustiada que vive a sofrer com uma filha «maltratada por um demônio». Sai ao encontro de Jesus dando gritos: «Tem compaixão de mim, Senhor, Filho de Davi!»
A primeira reação de Jesus é inesperada. Nem sequer se detém para a escutar. Ainda não chegara a hora de levar a Boa Nova de Deus aos pagãos. Como a mulher insiste, Jesus justifica a sua atitude: «Deus enviou-Me apenas para as ovelhas perdidas do povo de Israel».
A mulher não recua. Superará todas as dificuldades e resistências. Num gesto audacioso, prostra-se ante Jesus, detém a Sua marcha e, de joelhos, com um coração humilde, mas firme, dirige-lhe um só grito: «Senhor, socorre-me!»
A resposta de Jesus é insólita. Apesar de nessa época os judeus chamarem com toda a naturalidade os pagãos  de «cães», as suas palavras resultam ofensivas aos nossos ouvidos: «Não está bem deitar aos cachorros o pão dos filhos». Retomando a Sua imagem de forma inteligente, a mulher atreve-se a partir do chão a corrigir Jesus: «Isso é certo, Senhor, mas também os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos amos».
A sua fé é admirável. Seguramente que na mesa do Pai todos podem se alimentar: os filhos de Israel e também os «cães» pagãos. Jesus parece pensar apenas nas «ovelhas perdidas» de Israel, mas também ela é uma «ovelha perdida». O Enviado de Deus não pode ser só dos judeus. Há de ser de todos e para todos.
Jesus rende-se ante a fé da mulher. A sua resposta revela-nos a sua humildade e a sua grandeza: «Mulher, que grande é a tua fé! Que se cumpra como desejas». Esta mulher mostra a Jesus que a misericórdia de Deus não exclui ninguém. O Pai bom está por cima das barreiras étnicas e religiosas que os humanos criam.
Jesus reconhece a mulher como crente, apesar de viver uma religião pagã. Inclusive encontra nela uma «fé grande», não a fé pequena dos Seus discípulos, a quem recrimina mais de uma vez como «homens de pouca fé».
Qualquer ser humano pode recorrer a Jesus com confiança. Ele sabe reconhecer a sua fé, apesar de viver fora da Igreja. Todos poderão encontrar Nele um Amigo e um Mestre de vida.
Os cristãos, temos de nos alegrar de que Jesus continue a atrair hoje a tantas pessoas que vivem fora da Igreja. Jesus é maior que todas as nossas instituições. Ele continua a fazer muito o bem, inclusive àqueles que se têm afastado das nossas comunidades cristãs.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

ANO A – SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – 20.08.2017

Maria simboliza a humanidade liberta e solidária.
A Assunção de Nossa Senhora é uma festa mariana que, para as comunidades católicas do Brasil, está ligada à semana dedicada à vocação à vida religiosa. Mas aquilo que cremos sobre Maria não tem a ver exclusivamente com os religiosos e religiosas: de alguma forma, se refere a todos os homens e mulheres, à comunidade eclesial, ao povo de Deus. A glorificação de Nossa Senhora, que é a plena realização de sua vida e sua vocação em Deus, é uma interpelação e uma promessa extensivas a toda a Igreja e a todos os homens e mulheres. E isso é preanunciado na imagem que João vê aparecendo no céu.
Lucas apresenta Maria como uma mulher que sabe ouvir a Palavra viva de Deus e que está pronta a dar o melhor de si para que esta Palavra se realize na história. É alguém que ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele que a pronuncia. Deus pôde realizar grandes coisas nela e através dela porque encontrou em Maria a base humana indispensável. Não fazemos bem quando a idealizamos e desumanizamos, tirando-a da história. Para fazer-se humano o Filho de Deus precisou de uma pessoa fundamentalmente humana, não de uma criatura angélica e desencarnada do mundo!
Depois da experiência de ser amada e de ser chamada a gerar e dar à luz aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca nesta família fiel um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes, sua aliança com os pobres e a veracidade de suas promessas. A discípula se faz serva, a serva se mostra peregrina e a peregrina experimenta a hospitalidade na casa de Isabel. Abraçadas no amor de um Deus que não esquece sua misericórdia, duas mulheres louvam a Deus e profetizam publicamente. A discípula, serva e peregrina se transforma em profetiza destemida. Maria contempla a história do seu povo e proclama a intervenção libertadora de Deus.
É importante não esquecer que Maria, esta mulher que foi elevada e assunta ao céu, não é apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma pessoa discreta que acredita em Deus, uma doce e recatada esposa de um carpinteiro. Deus assume em corpo e alma e eleva à glória do céu uma mulher que rompe com os costumes que menosprezam a mulher e a mantêm calada, que diz uma palavra profética na arena pública, que proclama uma revolucionária intervenção de Deus num mundo patriarcal e opressor. Ela já havia usurpado o título masculino de “Servo de Deus” e agora abre a boca e faz-se profetiza.
Por isso, Maria simboliza uma Igreja com traços femininos. Nela e com ela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas. Uma Igreja institucionalmente rígida, fechada, autoritária, legalista e doutrinária tem pouca relação com a figura feminina de Maria. Com Maria e suas companheiras mulheres é possível construir uma Igreja que vive intensamente a alegria do Evangelho, que deixa de ser alfândega e tribunal para ser lar e enfermaria que sai para acolher e cuidar, como quer o Papa.
Inspirada em Maria, a Igreja precisa criar espaços e condições favoráveis para o desenvolvimento de homens e mulheres maduros, livres, despojados, solidários e comprometidos com a salvação do mundo. Um corpo ou uma instituição que se impõe pelo medo e pela lei estaria condenado à esterilidade e nunca terá a graça de sentir os filhos e filhas saltarem de alegria no seu ventre. Seria um corpo incapaz de conhecer a felicidade, e permaneceria um túmulo de homens e mulheres que não chegam a nascer verdadeiramente. Deus nos livre de uma Igreja com nome feminino mas com estruturas masculinas!
Na origem da vocação à vida consagrada está a experiência de um Deus que olha nos olhos e, sorrindo, nos chama pelo nome. Ou uma experiência como aquela de Maria e de Isabel: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo!” E então, a partir disso, os pés percorrem caminhos e o corpo estremece de alegria por receber inesperadamente a visita de Deus na própria casa. A vocação à vida religiosa não é primariamente um caminho de purificação moral ou de desprezo do mundo, mas a experiência de plenitude de uma graça que não cobra méritos: dar de graça aquilo que de graça se recebeu.
Maria, profetiza corajosa, mãe amorosa e discípula fiel do teu Filho: intercede junto a ele para que as pessoas que se consagram a Deus sejam ouvintes da Palavra, cresçam no serviço aos pobres e amadureçam na profecia. Que sejam fiéis ao chamado de proclamar com a vida e com palavras que nada pode ser colocado acima do amor pessoal a Jesus Cristo e aos pobres nos quais ele vive. Assim, ajudarão Jesus a vencer a morte que ameaça seus irmãos, que não se reduz à luta contra a corrupção. E que se façam ativa e corajosamente presentes nos desertos, nas periferias e nas fronteiras. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Apocalipse 11,19; 12,1-6 * Salmo 44 (45) * 1ª Carta aos Corintios 15,20-27 * Evangelho de Lucas 1,39-56)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 13.08.2017

NO MEIO DA CRISE

Não é difícil ver na barca dos discípulos de Jesus, sacudida pelas ondas e a transbordar pelo forte vento contra, a figura da Igreja atual, ameaçada desde fora por todo o tipo de forças adversas e tentada desde dentro pelo medo e pela mediocridade. Como lermos este relato evangélico desde uma crise em que a Igreja parece hoje naufragar?
Segundo o evangelista, «Jesus aproxima-se da barca caminhando sobre as águas». Os discípulos não são capazes de reconhece-lo no meio da tormenta e da obscuridade da noite. Parece-lhes um fantasma. O medo aterroriza-os. A única coisa real para eles é aquela forte tempestade.
Este é o nosso primeiro problema. Estamos vivendo a crise da Igreja contagiando uns aos outros com desalento, medo e falta de fé. Não somos capazes de ver que Jesus está se aproximando precisamente desde o interior desta forte crise. Sentimo-nos mais sós e indefesos que nunca.
Jesus diz-lhes as três palavras que estão precisando escutar: «Animo! Sou Eu. Não temais!». Só Jesus lhes pode falar assim. Mas os ouvidos deles só ouvem o estrondo das ondas e a força do vento. Este é também o nosso erro. Se não escutamos o convite de Jesus a colocar Nele a nossa confiança incondicional, a quem acudiremos?
Pedro sente um impulso interior e, sustentado pelo chamado de Jesus, salta da barca e «dirige-se para Jesus andando sobre as águas». Assim temos de aprender hoje a caminhar até Jesus no meio da crise: apoiando-nos não no poder, no prestígio e nas seguranças do passado, mas no desejo de nos encontrarmos com Jesus no meio da obscuridade e das incertezas destes tempos.
Não é fácil. Também nós podemos vacilar e afundar-nos, como Pedro. Mas, como ele, podemos experimentar que Jesus estende a sua mão e nos salva enquanto nos diz: «Homens de pouca fé, porque duvidais?».
Porque duvidamos tanto? Porque não aprendemos nada de novo da crise? Porque seguimos procurando falsas seguranças para sobreviver dentro das nossas comunidades, sem aprender a caminhar com fé renovada até Jesus, mesmo no interior da sociedade secularizada dos nossos dias?
Esta crise não é o fim da fé cristã. É a purificação que necessitamos para nos liberarmos de interesses mundanos, triunfalismos enganosos e deformações que nos foram afastando de Jesus ao longo dos séculos. Ele está presente e ativo nesta crise. Ele está a conduzir-nos para uma Igreja mais evangélica. Reavivemos a nossa confiança em Jesus. Não tenhamos medo.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

ANO A – DÉCIMO-NONO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 13.08.2017

O Senhor é presença e companhia em todas as travessias!
A vida é uma travessia, e crer é caminhar. As travessias costumam ser arriscadas e causam medo. Há aqueles que preferem evitá-las sempre, convictos de que o risco não compensa. São pessoas que fecham os ouvidos a todo e qualquer chamado; padres que desempenham sua missão pastoral como uma atividade qualquer ou até como uma carreira; pais e famílias que se recusam a assumir sua missão de educar seus filhos para o amor; fiéis que preferem as velhas e potentes imagens de Deus ao desafio de descobri-lo na brisa leve da luta pela justiça...
Mas a revelação de Deus é experimentada mais claramente nos movimentos de passagem que na estabilidade dos templos e dos lugares-comuns: do Egito para a terra prometida; do centro para a periferia; do eu para o nós; da aparente segurança das cavernas para o descampado estimulante da montanha; do poder para o serviço; da autossuficiência para a entreajuda; do peso das estruturas eclesiásticas para a leveza e a criatividade do Espírito. Parece que Deus não gosta de se estabelecer! A Deus agrada mais o campo aberto e as estradas que os templos e palácios...
Como nos lembram sobejamente os evangelhos, os discípulos de Jesus imaginavam um Deus indiferente às necessidades dos famintos, ou suficientemente poderoso para resolver todas as dificuldades do povo. Esta é a imagem de Deus que predomina nas diversas religiões e em amplos setores do povo católico ainda hoje. Mas Jesus revela-se um Deus compassivo com os pobres, um Deus que tem necessidade da nossa colaboração – nem que seja apenas cinco pães e dois peixes! – na sua ação libertadora. E é ele que nos convida a superar o medo e confiar na sua presença em todas as travessias.
Infelizmente, apesar dos séculos de pregação, as imagens de um Deus poderoso e ameaçador, ou então nacionalista e ligado aos interesses de pequenos grupos, ainda não se apagaram da nossa memória. Ensinaram-nos que Deus se revela no poder destruidor dos terremotos, no fogo devorador das ideologias totalitárias, no mistério aterrador dos furacões, nos pesados decretos que condenam, na dura punição aos que erram. Segundo essa ideologia religiosa, Deus seria onipotente, onisciente e onipresente. Quanto mais poder ou saber alguém possui, mais se pareceria com Deus...
Diante de um Deus com estas características, caímos por terra ou gritamos de medo. E do ventre do medo não costuma nascer o amor que se faz dom, mas a agressividade da autodefesa ou da dominação. Um Deus com tais traços é um fantasma, uma fantasia que se abriga nas pessoas que não superaram o desejo infantil de onipotência. E esse fantasma, via de regra, está a serviço das diversas formas de dominação e de infantilização religiosa, econômica e política. Parecemo-nos com Pedro, que tenta caminhar sobre as águas, revelando seu desejo de participar da presumida onipotência de Deus...
É o medo dos ventos contrários, das diferenças e dos questionamentos que gera a dúvida e nos leva a afundar, tanto em termos humanos como espirituais. O medo não nasce da verdadeira experiência de Deus, mas de uma imagem parcial ou confusa de Deus. É isso que percebemos nos discípulos no episódio da travessia do mar: a força do vento e das ondas, que fustigam a barca como a tirania dos poderosos, somada à ideia de um Deus que caminha indiferente sobre as ondas, arranca-lhes gritos de pavor. É essa dúvida sobre a divindade de um Jesus frágil e compassivo leva Pedro a afundar apavorado!
Na carta aos Romanos, Paulo lamenta que seus irmãos de raça e sangue tenham se apegado às leis, à religião, às instituições e às promessas como se fossem um privilégio que os colocam acima dos demais seres humanos e povos e fora das peripécias e exigências da história. Talvez seja esse o maior obstáculo aos acordos de paz em vista da justiça, tão necessários na Síria como na Venezuela e no Brasil. Isso nos lembra que filiação é um dom e uma graça que carregamos como tesouro e em vasos de barro, e jamais um privilegio ou uma propriedade. Nem todos aqueles que ostentam o título de cristãos o são de fato...
Deus, pai e mãe, presença amorosa e encorajadora em todas as humanas travessias... Tu conheces a generosidade e a ambiguidade, a coragem e o medo de cada um de nós. A tentação continua levando-nos a te procurar no fogo, no terremoto, na ventania, nos acontecimentos que impressionam. Vem ao nosso encontro como vento calmo e benfazejo, como o calor sereno e acolhedor do colo dos melhores pais.  Socorre nossa pouca fé e cura as dúvidas do nosso coração e os desvios do nosso afeto. Ensina aos pais o cuidado dos filhos e filhas, colocando-te entre eles e guiando-os como modelos de vida, e não como patrões e senhores. E que nossas famílias sejam escolas de comunhão e generosidade. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(1° Livro dos Reis 19,9-13 * Salmo 84 (85) * Carta de Paulo aos Romanos 9,1-5 * Evangelho de São Mateus 14,22-33)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A Igreja e o projeto do Temer

Igreja católica E governo Temer
“Eu vi… e ouvi os clamores do meu povo” (Ex, 3,7)
Com essas palavras extraídas do Livro do Êxodo, a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da CNBB se pronuncia sobre a crise política em que está mergulhado o país. A mensagem, de 1º de agosto de 2017, é endereçada “aos bispos das Pastorais Sociais”. Estas últimas, por sua vez, representam verdadeiros “exércitos” de agentes pastorais que atuam na base, junto aos operários e desempregados; camponeses e trabalhadores sem terra; migrantes, itinerantes, refugiados e nômades; menores e crianças desnutridas; pescadores e marítimos; mulheres prostituidas e encarcerados... Entre outros representantes das Comunidades Eclesiais.
Vale a pena citar todo um parágrafo da nota que, remetendo-se simultaneamente ao texto bíblico citado, à Constituição Gaudium es Spes do Concícilo Vaticano II e aos documentos da Igreja na América Latina, diz literalmente: “Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social. O governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada”.
Palavras duras, claras, veementes e proféticas. Dedo em riste que aponta ao coração mesmo da política econômica do governo Temer. Governo que para pavimentar esse caminho de entreguismo usa de todas os mecanismos e artimanhas que tem ao seu alcance. Prova disso foi a vitória envergonhada na Câmara dos Deputados para engavetar as denúncias que há tempo pesam sobre a autoridade máxima da nação. Nunca se viu funcionar com tamanha eficácia a troca de titulares por suplentes e a pressão do executivo sobre o legislativo, bem como a prática do “balcão de negociatas” entre ambos os poderes. Ou, mais prosaicamente, a compra e venda de privilégios e benefícios. Resta perguntar se a mesma estratégia funcionará para as próximas denúncias já em andamento pelo Ministério Público.
Os bispos estão cheios de razão. De fato, a política atual, com uma onda de privatizações, com a liberação do mercado total e com reformas que penalizam os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, o governo caminha na contramão dos “clamores” que chegam das bases. Surdo e cego às vozes das ruas, segue seu programa que traz, ao mesmo tempo, concentração de riqueza e exclusão social. Resulta disso o “desemprego colossal”, a falta de apoio a pequenos e médios produtores, empreendedores ou comerciantes, a fuga de cérebros para o exterior, a precarização crescente dos serviços públicos. Estes últimos acabam reconvertidos em mercadorias a serem vendidas por empresas privadas, evidentemente a preço de mercado. Bens pagos duplamente: primeiro, com a carga de impostos e, agora, com a elevação dos preços.
Uma pergunta conclusiva: que impacto terá esse pronunciamento não somente sobre os participantes das pastorais sociais, mas também sobre os movimentos sociais, as organizações não governamentais e trabalho de base em geral – hoje aparentemente tão fragmentados? Como poderão ser sacudidos o descrédito, a apatia e o marasmo que parecem ter dominado não poucas forças vivas da nação? Ou melhor, como canalizá-las num projeto popular em vista do “Brasil que queremos”, como se dizia na segunda Semana Social Brasileira, em meados da década de 1990? Perguntas cuja resposta só poderá levantar-se do chão!

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma, 7 de agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

A CNBB e o governo golpista

MENSAGEM DOS BISPOS DAS PASTORAIS SOCIAIS
“Eu vi e ouvi o clamor do meu povo” (Ex 3,7)

Nós, Bispos da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora e Referenciais das Pastorais Sociais, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunidos em Brasília, na sede das Pontifícias Obras Missionárias, nos dias 31 de julho e 1º de agosto de 2017, procuramos luzes para a atuação da Igreja no Brasil frente aos novos desafios da nossa realidade, hoje.
Contando com a magnífica assessoria do Pe. José Oscar Beozzo, inspiramo-nos no Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), resgatando sua aplicação na América Latina e no Caribe, a partir da 2a. Conferência Episcopal deste Continente, em Medellín, cujo aniversário de 50 anos celebraremos em 2018, reavivando e atualizando suas intuições e compromissos fundamentais no contexto da atual transformação social.
Reconhecendo que não há realidade alguma, verdadeiramente humana, que não encontre eco no coração de Cristo (cf. Gaudium et Spes, nº 1), entendemos que a Igreja tem por missão pastoral atuar frente à globalidade da realidade, particularmente as situações que geram sofrimentos humanos, com a mesma compaixão de Jesus Cristo.
“Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja estar atenta a todo momento aos sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático” (Gaudium et Spes, nº 4).
Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social. O governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada.
Não seremos um país diferente sem superarmos a ingenuidade, a passividade e a indiferença. Urge-nos, portanto, como Igreja, realizar nossa missão pastoral em profunda comunhão, com coragem profética, promovendo e fortalecendo ações comuns com todos os setores democráticos deste país, em favor de novos rumos para a sociedade brasileira, fundados na dignidade humana de todos os cidadãos e cidadãs e no bem comum.
Interpelados pelo Espírito do Senhor, convidamos nossas comunidades eclesiais, os organismos do Povo de Deus e todas as pessoas de boa vontade a implementar ações que transformem em esperança as apatias e frustrações da sociedade brasileira, afinal, como diz o Papa Francisco, o coração de Deus é e continuará incandescente por amor a seu povo (cf. Audiência Geral, 26 de abril de 2017). Assim, também, estejam, hoje e sempre, os nossos corações!
Que Nossa Senhora Aparecida, a quem expressamos nosso louvor especial neste Ano Mariano, nos inspire a revelar o rosto misericordioso de Deus, defensor da justiça em favor dos empobrecidos, sendo sinais e instrumentos da ação libertadora e humanizadora de Cristo, frente às novas formas de escravidão dos tempos atuais.
Brasília, 1º de agosto de 2017.

Dom Guilherme Antonio Werlang, Msf
Bispo de Ipameri/GO
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O Evangelho dominical - 06.08.2017

O RISCO DE SE INSTALAR


Mais tarde ou mais cedo, todos corremos o risco de nos instalarmos na vida, procurando o refúgio cômodo que nos permita viver tranquilos, sem sobressaltos nem preocupações excessivas, renunciando a qualquer outra aspiração.
Conseguido já um certo êxito profissional, encaminhada a família e assegurado, de alguma forma, o futuro, é fácil deixar-se apanhar por um conformismo cômodo que nos permita continuar a caminhar pela vida da forma mais confortável.
É o momento de procurar uma atmosfera agradável e acolhedora. Viver descontraído num ambiente feliz. Fazer do lar um refúgio cativante, um canto para ler e escutar boa música. Saborear umas boas férias. Assegurar uns fins-de-semana agradáveis...
Mas, com frequência, é então quando a pessoa descobre, com mais clareza que nunca, que a felicidade não coincide com o bem-estar. Falta algo nessa vida. Algo que nos deixa vazios e insatisfeitos. Algo que não se pode comprar com dinheiro nem assegurar com uma vida confortável. Falta simplesmente a alegria própria de quem sabe vibrar com os problemas e necessidades dos demais, sentir-se solidário com os necessitados e viver, de alguma forma, mais próximo dos maltratados pela sociedade.
Mas há além disso um modo de «se instalar» que pode ser falsamente reforçado com «tons cristãos». É a eterna tentação de Pedro, que nos espreita sempre os crentes: «colocar tendas no alto da montanha». Quer dizer, procurar na religião o nosso bem-estar interior, esquecendo da nossa responsabilidade individual e coletiva de conseguir uma convivência mais humana.
E, no entanto, a mensagem de Jesus é clara. Uma experiência religiosa não é verdadeiramente cristã se nos isola dos irmãos, nos instala comodamente na vida e nos afasta do serviço aos mais necessitados.
Se escutamos Jesus, iremos sentir-nos convidados a sair do nosso conformismo, cortar com um estilo de vida egoísta em que estamos talvez confortavelmente instalados e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega dos mais desprotegidos da nossa sociedade.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez