domingo, 31 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (305)

305 | Ano B | Oitava da Páscoa | Segunda | Mateus 28,8-15

01/04/2024

Crer na ressurreição de Jesus Cristo é mais uma tarefa que um ato de submissão ou concessão intelectual. Crer é caminhar, e crer em Jesus crucificado e ressuscitado significa percorrer com ele os caminhos do Reino de Deus, fazendo-se semente que não teme desfazer-se no ventre da terra, em gestos e sinais sempre frágeis mais infinitamente potentes e eloquentes.

Maria Madalena e “as outras marias” viram um anjo rolando a pedra que lacrava a sepultura de Jesus, em meio a um terremoto que derrubou os guardas, souberem que a sepultura não reteve Jesus e que ele caminhava à frente delas para a Galileia.  Mas já antes de fazerem o percurso de volta de onde haviam vindo seguindo Jesus, ele se manifesta e confere a elas um mandato apostólico: “Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão”.

Em clara oposição a esta alvissareira notícia e percurso do centro à periferia, os guardas vão à chefia do templo. E lá selam a mentira que acompanhou todo o processo movido contra Jesus: a elite subornou os guardas para que divulgassem a falsa notícia segundo a qual Jesus continuava morto, mas seu corpo havia sido roubado pelos discípulos. Na verdade, a memória viva de Jesus havia “tomado corpo” na missão e no testemunho corajoso dos/as discípulos/as.

Aquelas duas mulheres madrugadoras haviam intuído os dois pilares fundamentais da fé em Jesus Cristo: ele não faz parte do clube dos mortos, eliminados e anulados pelos poderosos; ele se deixa encontrar nas periferias e nas fronteiras, onde a dominação assume mil formas e os sinais do Reino de Deus avançam discreta e irreversivelmente. Os/as discípulos/as de Jesus não se deixam intimidar e menos ainda derrotar pela execução patrocinada pelos poderes estabelecidos, enquanto estes tremem, mentem e subornam para não aceitar a reviravolta.

Mas contra tudo e contra todos, estas mulheres, sustentadas pelos sutis fios da esperança, confiam plenamente naquilo que ouvem, e se tornam alegres testemunhas, reúnem os discípulos e “refundam” a Igreja.

 Meditação:

·        Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena protagonizada pelas discípulas

·        Por que elas, os fios mais frágeis que tecem a rede social e eclesial, são as primeiras a saber, a ver e a anunciar a ressurreição?

·        Terá o corpo masculino da Igreja caído sob a influência dos “podres poderes”, esquecido a força criadora e desconfiado delas?

·        Como podemos resgatar hoje o papel essencial das mulheres no testemunho da ressurreição e na reconstrução da Igreja?

·        O que significa hoje afirmar que Jesus “vai à nossa frente” e poderemos vê-lo na Galileia, onde iniciara sua missão?


sábado, 30 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (304)

304 | Ano B | Páscoa do Senhor | João 20,1-9

31/03/2024

A cena da paixão e morte de Jesus que meditamos ontem terminou laconicamente: ele morre abandonado pelos discípulos, e acompanhado somente por dois outros executados com ele; José de Arimatéia, numa ação ambígua compra um lençol, enrola nele e corpo sem vida de Jesus, deposita-o num túmulo e fecha o túmulo com uma grande pedra, como que dizendo que tudo estava terminado; mas duas observam tudo à distância.

Na cena de hoje, Maria Madalena e duas outras mulheres fazem exatamente o contrário de José de Arimatéia: compram perfumes para ungir dignamente o corpo de Jesus; saem de casa de madrugada e vão ao túmulo, preocupadas unicamente com a dificuldade de rolar a enorme pedra. Caminhando com essa preocupação, acabam dando-se conta com surpresa que a pedra fora rolada e que a sepultura estava aberta; entram na sepultura e encontram um jovem vivo, sentado à direita, vestido com uma túnica branca.

Assustadas com o que veem (túmulo vazio, roupas que vestem um mártir, vida em vez de morte), recebem a notícia boa e inesperada: Jesus Nazareno, o Crucificado, não está ali, como fora a vontade de José de Arimatéia e da elite religiosa de Jerusalém. E recebem uma missão: ir sem demora avisar os discípulos e Pedro, que haviam abandonado Jesus e tudo o mais, que Jesus vai na frente deles para a Galileia, onde será encontrado.

Suspendendo aqui sua narrativa, o evangelista nos convida a fazer parte desta cena como protagonistas e dar a ela um final. Voltaremos nós, com Pedro e os demais discípulos/as à Galileia para recomeçar a utopia do Reino de Deus e reunir a comunidade estraçalhada pela cruz, compartilhando a compaixão solidária do Crucificado? Continuaremos iludidos, esperando uma vitória espetacular do Reino de Deus e da Igreja? Ou lamentaremos a falência e o fracasso de Jesus e do reino de Deus, como parece entender Arimatéia?

Está em nossas mãos traçar e testemunhar o final dessa história. É certo que o nosso mundo não gosta de hospedar sonhadores/as; prefere-os na cruz, na sepultura ou nos livros. Mas, como sonhadores invencíveis que somos, uma certeza: Jesus nos precede vivo nas periferias e nas fronteiras.

 

Meditação:

·      Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena inusitada e com final aberto

·      Por que as mulheres, ao invés de se animarem, ficam amedrontadas? Estariam convencidas que tudo terminara em tragédia irremediável?

·      Marcos nos convoca a escrever o final dessa história: voltaremos, com Pedro e os demais discípulos/as, à periferia para recomeçar nossa adesão a Jesus Cristo, com a disposição de compartilhar seu destino?

O Evangelho dominical (Pagola) - Domingo de Páscoa - 31.03.2024

ONDE PROCURAR AQUELE QUE VIVE?

A fé em Jesus, ressuscitado pelo Pai, não brotou de forma natural e espontânea no coração dos discípulos. Antes de encontrar-se com Ele, cheio de vida, os evangelistas falam da confusão deles, da busca em torno do sepulcro, das interrogações e incertezas.

Maria Madalena é o melhor exemplo do que acontece provavelmente com todos. Segundo o relato de João, Madalena procura o Crucificado no meio das trevas, «enquanto ainda estava escuro». Como é natural, procura-o no sepulcro. Não sabe ainda que a morte foi vencida. Por isso o vazio do sepulcro deixa-a perplexa. Sem Jesus sente-se perdida.

Os outros evangelistas recolhem outra tradição que descreve a busca de todo o grupo de mulheres. Não podem esquecer o Mestre que as acolheu como discípulas: o seu amor leva-as até ao sepulcro. Não encontram Jesus ali, mas escutam a mensagem que lhes indica para onde devem orientar a sua procura: «Por que procurais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui. Ressuscitou».

A fé em Cristo ressuscitado não nasce tampouco hoje em nós, de forma espontânea, só porque o ouvimos desde crianças as catequistas e pregadores. Para nos abrirmos à fé na ressurreição de Jesus temos que fazer o nosso próprio caminho. É decisivo não esquecer Jesus, amá-lo com paixão e procurá-lo com todas as nossas forças, mas não no mundo dos mortos. Ao que vive há que procurá-lo onde há vida.

Se queremos nos encontrar com Cristo ressuscitado, cheio de vida e de força criadora, devemos procurá-lo não numa religião morta, reduzida ao cumprimento e à observância externa de leis e normas, mas ali onde se vive segundo o Espírito de Jesus, acolhido com fé, com amor e com responsabilidade pelos seus seguidores.

Devemos procurá-lo não entre cristãos divididos e confrontados em lutas estéreis, vazias de amor a Jesus e de paixão pelo Evangelho, mas ali onde vamos construindo comunidades que colocam Cristo no seu centro, porque sabem que “onde estão reunidos dois ou três em seu nome dele, ali está Ele”.

Ao que vive não o encontraremos numa fé estagnada e rotineira, desgastada por todo o tipo de clichês e fórmulas vazias de experiência, mas procurando uma nova qualidade na nossa relação com Ele e na nossa identificação com o Seu projeto. Um Jesus apagado e inerte, que não apaixona nem seduz, que não toca os corações nem contagia a sua liberdade, é um Jesus morto. Não é o Cristo vivo, ressuscitado pelo Pai. Não é ele quem vive e faz viver.

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 29 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida - Vigília pascal (303)

303 | Ano B | Vigília Pascal | Marcos 16,1-7

30/03/2024

A cena da paixão e morte de Jesus que meditamos ontem terminou laconicamente: ele morre abandonado pelos discípulos, e acompanhado somente por dois outros executados com ele; José de Arimatéia, numa ação ambígua compra um lençol, enrola nele e corpo sem vida de Jesus, deposita-o num túmulo e fecha o túmulo com uma grande pedra, como que dizendo que tudo estava terminado; mas duas observam tudo à distância.

Na cena de hoje, Maria Madalena e duas outras mulheres fazem exatamente o contrário de José de Arimatéia: compram perfumes para ungir dignamente o corpo de Jesus; saem de casa de madrugada e vão ao túmulo, preocupadas unicamente com a dificuldade de rolar a enorme pedra. Caminhando com essa preocupação, acabam dando-se conta com surpresa que a pedra fora rolada e que a sepultura estava aberta; entram na sepultura e encontram um jovem vivo, sentado à direita, vestido com uma túnica branca.

Assustadas com o que veem (túmulo vazio, roupas que vestem um mártir, vida em vez de morte), recebem a notícia boa e inesperada: Jesus Nazareno, o Crucificado, não está ali, como fora a vontade de José de Arimatéia e da elite religiosa de Jerusalém. E recebem uma missão: ir sem demora avisar os discípulos e Pedro, que haviam abandonado Jesus e tudo o mais, que Jesus vai na frente deles para a Galileia, onde será encontrado.

Suspendendo aqui sua narrativa, o evangelista nos convida a fazer parte desta cena como protagonistas e dar a ela um final. Voltaremos nós, com Pedro e os demais discípulos/as à Galileia para recomeçar a utopia do Reino de Deus e reunir a comunidade estraçalhada pela cruz, compartilhando a compaixão solidária do Crucificado? Continuaremos iludidos, esperando uma vitória espetacular do Reino de Deus e da Igreja? Ou lamentaremos a falência e o fracasso de Jesus e do reino de Deus, como parece entender Arimatéia?

Está em nossas mãos traçar e testemunhar o final dessa história. É certo que o nosso mundo não gosta de hospedar sonhadores/as; prefere-os na cruz, na sepultura ou nos livros. Mas, como sonhadores invencíveis que somos, uma certeza: Jesus nos precede vivo nas periferias e nas fronteiras.

 

Meditação:

·      Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena inusitada e com final aberto

·      Por que as mulheres, ao invés de se animarem, ficam amedrontadas? Estariam convencidas que tudo terminara em tragédia irremediável?

·      Marcos nos convoca a escrever o final dessa história: voltaremos, com Pedro e os demais discípulos/as, à periferia para recomeçar nossa adesão a Jesus Cristo, com a disposição de compartilhar seu destino?

quinta-feira, 28 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida - Paixão e morte de Jesus (302)

302 | Ano B | Semana Santa | Sexta | João 18,1-19,42

29/03/2024

Conhecemos bem as tramas e traições que levaram à prisão e condenação de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério da iniquidade e sua força nas pessoas e nas estruturas sociais, políticas e religiosas. É um processo que assume feições de cinismo, como quando as autoridades religiosas, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio para não se tornarem impuras.

Jesus não faz nada para se defender. Ele tem consciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar digno de crédito o amor fiel de Deus pelas pessoas negadas em sua dignidade. Fixemos o olhar neste personagem que realiza em grau pleno a vocação de todo ser humano. Nele descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida, quando se faz solidário com todos os humanos.

O ser humano maduro e liberto não é o ‘amigo de César’, nem a autoridade religiosa indiferente ao sofrimento das pessoas, mas Aquele que transcende os interesses individuais e se põe a serviço de Deus e do seu projeto. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que, no seu corpo feito dom, a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado”. Nele Deus se supera no esvaziamento. Nele o ser humano se faz dom e semente fecunda nas mãos de Deus.

Em Jesus crucificado por amor buscamos forças para caminhar na fé e seguir o amigo e servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe” Aos pés da cruz nasce uma nova família, não mais limitada aos laços de sangue ou de interesses mesquinhos, mas servidora de todos os humanos seres.

É por isso que nesta santa sexta-feira a nossa oração se abre numa universalidade que deveria estar presente em toda celebração autenticamente cristã. Diante de Jesus crucificado, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido e virarão ruínas. Pertencemos à humanidade, temos um destino comum.

 

Meditação:

§  Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, o caminho da cruz percorrido por Jesus

§  Não ceda à tentação de ficar refém da compaixão por Jesus ou na revolta contra seus acusadores e torturadores

§  Observe as dificuldades dos discípulos em reconhecer Jesus e permanecer com ele, especialmente Pedro e Judas

§  Siga com atenção a atitude do Discípulo Amado e de um pequeno grupo de discípulas, que permanecem fielmente próximos de Jesus

§  Procure visualizar em Jesus o rosto de todas as pessoas que sofrem, que são excluídas

quarta-feira, 27 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida - Celebração da Última Ceia (301)

301 | Ano B | Semana Santa | Quinta | João 13,1-15

28/03/2024

Com o lava-pés iniciamos a segunda parte do evangelho de João, que põe em cena o mistério da paixão de Jesus, e é introduzida pela última ceia, cuja narração se estende por três capítulos, recheados de diálogos entre Jesus e seus discípulos sobre questões absolutamente centrais. 

Estamos próximos da festa da páscoa, e Jesus sabe que sua hora chegou. Então, ele se reúne com seus amigos numa refeição cálida e amistosa que, no costume judaico, precede a ceia pascal, marcada pela plena consciência em relação ao que está para acontecer. Ele não é como um profeta ou um mestre surpreendido por acontecimentos inesperados, mas caminha soberano, consciente e livre para a entrega da própria vida.

Com o aparecimento de um novo personagem, o diabo, que atua em Judas, o amor incondicional de Jesus pela humanidade se torna combate. É neste momento que ele se despoja do manto da divindade e se reveste do linho da humanidade para conduzi-la e mantê-la na sua amizade.  O despojamento da encarnação se radicaliza na ceia e na cruz. Abaixando-se para lavar os pés dos discípulos, Jesus faz o movimento da paixão. Jesus se despoja de sua condição divina para nos acolher, e retoma sua gloria na manhã da ressurreição.

Lavando os pés dos discípulos, Jesus repete o gesto de acolhida que Maria de Betânia havia feito a ele. Lavar os pés era um ofício degradante, um trabalho reservado aos escravos pagãos. Jesus lava nossos pés para que participemos da sua vida e missão de servo excluído. Assim, entende-se a resistência insistente de Pedro, mas, diante da insistência de Jesus, consente, inclusive pedindo com excesso. Mas o faz por obediência a um chefe, não por consciência.

Fazendo isso, Jesus não quer simplesmente demonstrar humildade. O que ele faz é rejeitar de forma contundente toda forma de superioridade e hierarquia, que não valorize a dignidade de cada pessoa e perpetua a desigualdade. O amor e o serviço fraterno, especialmente aos mais vulneráveis, ritualizado no lava-pés, é o ensaio geral da vida cristã, a “prova dos nove” do amor a Deus.

 

Meditação:

§  Leia atentamente, com o coração, com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, verbo por verbo, esta bela cena

§  Acompanhe o gesto de Jesus, permita que ele lave seus pés, e, principalmente, entenda o que ele quer transmitir com isso

§  Por que Pedro resiste ao gesto de Jesus? Será que ele não quer defender a própria superioridade?

§  Por que nos custa tanto reconhecer a dignidade e os direitos humanos, a absoluta igualdade de todos os seres humanos?

§  O que a dignidade inviolável da pessoa humana, a igualdade de todos e o amor fraterno tem a ver com a Eucaristia?

terça-feira, 26 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (300)

300 | Ano B | Semana Santa | Quarta | Mateus 26,14-25

27/03/2024

No evangelho segundo Mateus, do qual é extraída a cena que nos é proposta hoje, a ceia de despedida de Jesus é precedida pelo anúncio da traição de Judas. O fato é também narrado por João, mas com nuances bastante diferentes, e depois da ceia. Em todos os casos, ao celebrar a ceia pascal e assinar com ela seu testamento, Jesus se mostra bem consciente das “traíras e traições” que o cercavam.

É importante notar que Jesus pede que a ceia pascal seja celebrada numa casa, no ambiente “profano” e íntimo das pessoas que compartilham o sangue e o destino. É neste ambiente de intimidade e memória do evento fundador do povo de Deus, neste acontecimento da aliança nova e eterna de Deus com a humanidade, que a traição se desenvolve. Por isso, a ação de Judas é também uma traição do espírito da comunidade e da ceia eucarística.

Mateus nos relata um fato estranho: é Judas, um dos Doze, que procura a elite religiosa para entregar-lhes Jesus. Ela não precisava dessa ajuda, pois sabia muito bem quem era ele e por onde ele andava. A ação de Judas contrasta com a atitude de gratidão de uma mulher na casa do leproso que fora curado por Jesus, um pouco antes: enquanto Judas entrega Jesus, a mulher o acolhe.

Judas acerta com os sacerdotes, pelo seu “serviço sujo”, o equivalente a um mês de trabalho de um pastor, ou à indenização por um escravo ferido por um boi. Na verdade, a iniciativa estranha de Judas revela uma tendência geral de desistência, negação, traição e ruptura com Jesus. Mas isso não muda a decisão de Jesus, e ele se mostra consciente daquilo que estava ocorrendo.

Jesus fala que um dos Doze haveria de traí-lo, todos ficam aflitos e perguntam se casualmente seriam eles, mas esperando uma resposta negativa. Então o foco da cena faz convergir a nossa atenção para a figura de Judas, que faz a mesma pergunta e também espera uma resposta negativa, como que para encobrir ou disfarçar aquilo que o aproximava dos hipócritas que controlavam a religião e o templo. E ele não chama Jesus de Senhor, mas de mestre, desobedecendo a proibição explícita de Jesus.

 

Meditação:

§  Leia atentamente a narração de Mateus, e perceba o clima de tensão e as contradições que envolvem todos os discípulos

§  É possível perceber, por traz da traição, a ruptura de Judas com Jesus e sua proposta de comunhão do reino de Deus?

§  Será que a tentação de resistir, desistir, amaciar ou desviar do evangelho do diálogo e da acolhida não está nos rondando?

§  O que significa lembrar que a traição acontece na mesa da eucaristia e envolve os mais próximos de Jesus?

segunda-feira, 25 de março de 2024

A luz do Evangelho em nossa vida (299)

299 | Ano B | Semana Santa | Terça | João 13,21-38

26/03/2024

A cena que se desenvolve em plena ceia de despedida de Jesus, depois do gesto simbólico do lava-pés. Entretanto, na caminhada da semana santa, o episódio vem antes da ceia do Senhor, e está focalizada na possibilidade da traição e da negação que nos ronda a todos. Jesus estremece ao manifestar a certeza de que está sendo traído por um dos seus seguidores mais próximos. E fala isso ainda à mesa, onde dissera que daria a vida pelos seus.

O contexto desta cena, como de todo o episódio da ceia de Jesus, está marcado por um clima de suspeita, medo, negação e traição. Jesus fala aos seus discípulos enfatizando: “Um de vós me entregará”. Como eles não sabiam a quem Jesus se referia, todos se olhavam com suspeita. Somente o discípulo confidente e amigo de Jesus soube quem era, mas Jesus não o anunciou publicamente, preservando, o quanto possível, o nome a honra do traidor.

Não há como saber qual foi a tragédia maior: se a tragédia que desabou sobre Jesus ou a se o caminho tenebroso de Judas. Sendo um dos apóstolos, Judas recebe das mãos de Jesus um “pedaço da sua vida” e a leva aos inimigos de Jesus. Tomou a decisão de repudiar e entregar Jesus, não comeu do pão e não bebeu do vinho, embora tenha permitido que lavasse seus pés. Assim, Judas fez sua opção definitiva contra Jesus (é o que significa dizer que Satanás entrou nele). Por isso, não poderia mais ficar com Jesus e se perdeu na escuridão da noite. Quem acompanhará Jesus até o fim?

Outro personagem que recebe destaque é Pedro. Ele não é leviano, mas ainda não tinha aceitado Jesus e seu Evangelho de encarnação, serviço e despojamento. Pedro mostra-se arrogante e obstinado, tentando esconder sua fraqueza e sua decepção. Trata Jesus como líder, e diz estar disposto a dar a vida por ele, separando-o dos demais seres humanos. Mas Jesus não ensina a dar a vida por ele, mas com ele, pelo ser humano fragilizado. Por isso, ironiza a declaração afoita e arrogante de Pedro. Quando Pedro negar Jesus, o canto do galo na escuridão da noite expressa o canto de vitória do diabo, aquele que divide os discípulos e se alegra com essa divisão.

 

Meditação:

§  Participamos, sempre que possível, da mesa eucarística, mas o aceitamos plenamente, e ao seu caminho de serviço solidário?

§  Como Pedro, prometemos emalto e bom tom seguir Jesus por onde quer que ele vá, mas isso é pra valer?

§  O que nos custa mais, ou até consideramos inadmissível, no caminho que Jesus propõe a quem deseja segui-lo?

§  Até que ponto temos consciência das fraquezas, negações e traições ao caminho de vida percorrido e proposto por Jesus?

domingo, 24 de março de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (298)

298 | Ano B | Semana Santa | Segunda | João 12,1-11

25/03/2024

Seis dias antes da páscoa, Jesus chega a Betânia, à casa de Marta, Maria e Lázaro. A casa está tomada pela emoção, e eles oferecem a Jesus uma agradecida refeição. É neste contexto que Maria realiza um gesto surpreendente, como se quisesse anunciar a passagem de Jesus deste mundo ao Pai. Ela busca um frasco de perfume caríssimo (10 meses de salário!), unge os pés de Jesus e os enxuga com os cabelos.

O efeito é inesperado: o perfume enche a casa! Jesus acolhe este gesto de Maria, mas Judas reage contrariado. Nele ressoa a tentação da Igreja diante da novidade desmedida do amor. Jesus toma a Palavra e confirma que o gesto de Maria é correto e justo: ela antecipa o embalsamamento do corpo de Jesus e, com isso, aceita a paixão de Jesus e a prenuncia.

É como se houvesse em Deus uma pobreza, uma necessidade de amor maduro por parte da humanidade. Deus busca adoradores em Espírito e verdade, e o cego de nascimento e Maria de Betânia são capazes de tal amor. A sede de amar os homens e mulheres e de ser por eles/as amado atravessa o evangelho de João e encontrara seu ponto alto na cruz. “Tenho sede”!

O gesto de Maria é um gesto de amor por aquele que ela reconhece como enviado do Pai. É gesto de esperança à luz do mistério da paixão que se aproxima. É gesto de fé, dessa fé que deve se espalhar como bom perfume de Cristo. Somos chamados/as a prolongar o gesto de fé de Maria, a derramar sobre o corpo de Jesus o perfume do nosso amor.

Podemos honrar o corpo de Jesus nas Escrituras, pois a vida cristã é colocar-se à escuta da Palavra, acolhê-la e entendê-la. Podemos também honrar o corpo de Jesus na eucaristia, para que ele se transforma em nós, e nós nos transformemos nele. Podemos honrar o corpo de Cristo no corpo eclesial, constituído por aqueles/as que vivem do Espírito de Cristo. E há o corpo de Cristo que espera nosso serviço no corpo dos pobres, interlocutores da missão. E, também o corpo da família das criaturas, nossa casa comum.

 

Meditação:

·    O que o gesto aparentemente exagerado de Maria diz para a nossa espiritualidade de homens e mulheres adultos e maduros?

·    Como entender o argumento falso de Judas e a resposta de Jesus?

·    O gesto de Maria de Betânia é o movimento no qual somos chamados/as a entrar para honrar o corpo de Cristo

·    Acolhemos realmente o caminho de Jesus como ele nos apresenta: esvaziamento solidário, serviço gratuito, profecia destemida?

·    Como manifestamos concretamente nosso cuidado agradecido e reverente ao “corpo de Jesus” hoje?

sábado, 23 de março de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (297)

297 | Ano B | Domingo de Ramos da Paixão | Marcos 11,1-10

24/03/2024

A entrada de Jesus em Jerusalém não tem nada de triunfal. Vindo da Galileia, Jesus entra na capital montado numa jumenta. Nada de cortejos de honra, de generais cobertos de medalhas e de discursos de acolhida. Ele chega em Jerusalém caminhando à frente de um pequeno grupo de discípulos/as.

O povo da capital não o conhece e tem medo dele. Mas o pessoal que o acompanha desde a Galileia ou que vive na periferia da capital o acolhe como o Messias esperado. “Bendito o que vem em nome do Senhor”! Como o velho Simeão, essa gente reconhece naquele homem o Enviado de Deus.

A pequena multidão de pobres e estropiados aclama o despontar do Reino messiânico inspirado em Davi e a chegada do líder enviado por Deus. Mas Jesus não realiza as ações potentes que esta ideologia apregoava. Ele se apresenta como o Servo paciente e ouvinte atento da Palavra. A Palavra de Jesus será apenas o dom solidário de si mesmo na cruz.

Mas estes mesmos discípulos/as que agora o acolhem como o Messias esperado, logo mais tarde eles voltam atrás e o abandonam. Os gritos de ‘hosana’ darão lugar ao insolente e violento pedido ‘crucifica-o’, fruto da frustração das expectativas e da manipulação interesseira das autoridades políticas e religiosas de Jerusalém.

Mas isso não tem força para fazer Jesus mudar seu rumo. Mesmo enfrentando um discernimento difícil, e pedindo aos discípulos que vigassem com ele. Mas acabou preso, abandonado pelos próprios discípulos, condenado e pregado na cruz. Para os discípulos/as, sua condenação e morte na cruz foi a pedra que irrompeu no meio do caminho.

As autoridades desafiam Jesus a salvar a própria pele, e ele mesmo parece mergulhar num turbilhão escuro: “Desde o meio-dia até as três horas da tarde houve escuridão sobre toda a terra”. Mas acaba experimentando a consolação na radicalização do dom de si mesmo. E é da boca de um pagão se ouve a palavra que faz brilhar uma pequena luz na escuridão. “Ele era mesmo Filho de Deus”!

 

Meditação:

§  Depois de 40 dias de escuta atenta do Evangelho, podemos nos sentir preparados para acompanhar Jesus nos seus últimos dias?

§  Pouco antes de chegar a Jerusalém, o evangelista nos apresenta a figura de um cego que deseja unicamente ver as coisas como são

§  Será que continuamos a ver Jesus como alguém feito à nossa imagem e semelhança, desligado das dores e angústias do povo, afeito a milagres...?

§  O que nos diz seu modo de entrar em Jerusalém, sem batedores nem cortejos, sem carreatas e palanques, sem discursos elogiosos?

O Evangelho dominical (Pagola) - Domingo de Ramos - 24.03.2024

O GESTO SUPREMO 

Jesus conta com a possibilidade de um fim violento. Não é ingênuo. Sabe ao que se expõe se continua a insistir no projeto do reino de Deus. É impossível procurar com tanta radicalidade uma vida digna para os «pobres» e «pecadores» sem provocar a reação daqueles que não estão interessados em nenhuma mudança. 

Certamente, Jesus não é um suicida. Não procura a crucificação. Nunca quis o sofrimento para os outros nem para si mesmo. Toda a sua vida foi dedicada a combatê-lo onde quer que o encontrasse: na doença, nas injustiças, no pecado ou no desespero. Por isso não corre agora atrás da morte, mas também recua. 

Continuará a acolher os pecadores e os excluídos, mesmo que as suas ações irritem no templo. Se acabarem por condená-lo, morrerá também como um criminoso e excluído, mas a sua morte confirmará o que foi toda a sua vida: confiança total num Deus que não exclui ninguém do seu perdão. 

Continuará a anunciar o amor de Deus aos últimos, identificando-se com os mais pobres e desprezados do império, por muito que incomode os que estão próximos do governador romano. Se um dia o executam no suplicio da cruz, reservada aos escravos, morrerá também como um desprezível escravo, mas a sua morte selará para sempre a sua fidelidade ao Deus defensor das vítimas. 

Cheio do amor de Deus, continuará oferecendo a «salvação» a quem sofre o mal e a doença: dará «acolhimento» a quem são excluídos pela sociedade e pela religião; oferecerá o «perdão» gratuito de Deus a pecadores e a pessoas perdidas, incapazes de voltar à sua amizade. Esta atitude salvífica, que inspira toda a sua vida, inspirará também a sua morte. 

Por isso, aos cristãos, nos atrai tanto a cruz. Beijamos o rosto do Crucificado, levantamos os olhos para ele, escutamos as suas últimas palavras... porque na sua crucificação vemos o serviço último de Jesus ao projeto do Pai, e o gesto supremo de Deus entregando o seu Filho por amor a toda a humanidade. 

Para os seguidores de Jesus, celebrar a paixão e a morte do Senhor é um agradecimento emocionado, adoração alegre ao amor «incrível» de Deus e chamada a viver como Jesus, solidarizando-nos com os crucificados. 

José Antonio Pagola 

Tradutor: Antonio Manuel Álvarez Perez