quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (274)

274 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Sexta | Lucas 21,33-46

01/03/2024

Voltamos ao enfrentamento entre Jesus e a elite religiosa, no templo. O trecho de hoje explicita a tensão inconciliável entre esta elite e a pessoa e o ensino de Jesus. Também neste caso, a parábola é clara, e dispensa uma nova narração. No final, com sua habilidade, Jesus leva seus adversários a pronunciar a própria autocondenação.

Com esta parábola, Jesus sublinha as consequências fatais da indiferença ou da rejeição do Reino de Deus e de sua pessoa e missão, visceralmente ligadas ao Reino. A identidade e a missão de Jesus estão na linha dos grandes profetas enviados por Deus para defender seus direitos estabelecidos na aliança, que são os direitos dos mais pobres e vulneráveis diante dos prepotentes. Com isso, acabam atraindo sobre si a ira e a violência.

Os chefes dos sacerdotes e outras lideranças políticas e religiosas de Israel agem como se fossem senhores da vida e da morte do povo, e como se fossem os únicos mediadores e intérpretes autorizados da vontade de Deus. Eles receberam uma responsabilidade ou uma missão, mas agem em causa própria, torcem a vontade de Deus, legitimam as violências perpetradas contra os pobres e indefesos, e eliminam quem ousa criticá-los.

Jesus denuncia e deslegitima os “vinhateiros” e “doutores” que se apossaram da vinha e se assentaram na cátedra de Moisés. Rejeitando Jesus e interpondo dificuldades à vida dos pobres, eles descartam o próprio Deus e sacralizam o que lhes assegura vantagens. E a advertência de Jesus é clara: Deus não se deixa enganar por uma adesão simplesmente externa, e, menos ainda, por uma pretensa “supremacia” étnica.

São os próprios líderes criticados que se qualificam como “canalhas” e “perversos”, e afirmam não serem dignos de confiança. Jesus insiste numa fé que produza frutos de misericórdia e justiça. A fé não consiste na estética (gestos e palavras bonitas e corretas) e não é étnica (pertencer a um povo específico ou a uma “raça superior”), mas essencialmente ética: produzir frutos de diálogo, de misericórdia e de acolhida.

 

Meditação:

§  Leia atentamente essa parábola, com atenção aos vários enviados pelo dono e às ações típicas e perversas dos vinhateiros

§  Observe o julgamento que os próprios líderes religiosos fazem sobre os vinhateiros, sem darem-se conta de que se autocondenam

§  Qual é a sentença de Jesus sobre eles? Que sentido tem o que Jesus diz? Que sentença você daria a eles?

§  Qual é a base que sustenta e legitima sua fé em Jesus? Uma pertença apenas exterior e por tradição? Que frutos você produz?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus Cristo em nossa vida (273)

273 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Quinta | Lucas 16,19-31

29/02/2024

No capítulo 15 do evangelho, Lucas nos apresenta o elogio de Jesus a uma mulher que “desperdiça” tempo procurando uma moeda, um pastor que “esbanja” cuidado com uma ovelha e deixa as outras noventa e nove de lado, e um pai que “gasta” seus bens para festejar o retorno do filho que o renegara. O próprio Jesus é uma espécie de “filho pródigo” que abre a festa do Reino a todos/as.

No início do capítulo 16, no qual se encontra a parábola de hoje, Jesus elogia um administrador que usa o dinheiro do seu patrão para criar vínculos de amizade e fraternidade, e, ao mesmo tempo, critica os fariseus, porque preferiam ser “amigos do dinheiro”. A parábola do rico e do pobre Lázaro está neste contexto de busca e acolhida solidária dos marginalizados e do uso correto dos bens materiais.

A parábola é bem conhecida, o que torna desnecessário descrevê-la. Ela apresenta dois personagens que não estabelecem nenhuma relação um com o outro: estão próximos, Lázaro está à porta do rico, mas não têm nada em comum. Na verdade, a indiferença do rico cavou um abismo – ou levantou um muro – que os separa, apesar da proximidade física. Apenas a experiência da morte os atinge por igual.

O foco da parábola é a urgência da conversão, e a atenção ao presente. A polêmica não se dirige apenas contra os ricos, mas ressoa como alerta àqueles que o seguem. Chama a atenção para o lugar que a posse e o uso bens ocupa no Reino de Deus. Não é sabedoria desfrutar dos bens de forma egoísta. Não é prudente esperar um milagre  para dar uma reviravolta na vida. Não é cristão viver de qualquer jeito, “de olho” na vida eterna.

E não há como ignorar o papel que a Palavra de Deus ocupa na orientação da nossa vida e do processo de conversão. Quando muitos deliram com milagres ostentados como espetáculo ao vivo e a cores, ou “esperam desesperadamente” um grande sinal, Jesus diz que nos basta a Escritura. Mas não há milagre capaz de mudar a vida de quem não se abre à Palavra de Deus, não exercita o diálogo e se recusa a acolher o/a outro/a como irmã/o.

Meditação:

§ Leia atentamente as duas cenas dessa parábola, percebendo as características de cada um dos dois personagens

§ Evite resvalar para a tentação de interpretar essa parábola como uma ilustração de como será a vida depois da morte

§ Como você se comporta em relação aos pobres e necessitados, especialmente aos que se organizam e lutam por seus direitos?

§ Por que os cristãos de hoje, mesmo tendo as escrituras e o testemunho de Jesus, não levamos a sério a solidariedade?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus na vida de cada dia (272)

272 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Quarta | Mateus 20,17-28

28/02/2024

Estamos vivendo o tempo de Quaresma. Como discípulos/as de Jesus, nesse tempo especial e em todas as fases da nossa caminhada cristã e missionária, devemos tomar distância da sede de aparecer que devora os fariseus. Todos somos irmã/os e servidores/as uns dos/as outros/as, iguais em dignidade, filhos/as do Pai, guiados por Jesus. A igualdade, a fraternidade e o serviço mútuo e a compaixão com os pobres configuram nossa identidade de discípulos/as missionários/as de Jesus.

Essa foi a lição que aprendemos ontem. Cronologicamente, a cena do evangelho de hoje ocorre antes daquela de ontem: está situada no meio do caminho de Jesus e seus discípulos a Jerusalém. Estamos diante de um “diálogo pedagógico” cheio de tensões. A família de Tiago e João age dentro dos interesses de uma família patriarcal, tentando assegurar precedência e privilégios, mas Jesus propõe uma família alternativa, contracorrente.

Enquanto os filhos de Zebedeu fazem lobby para assegurar um lugar de honra no seu reinado, Jesus se coloca na base e percorre o caminho da margem: será zombado e açoitado, como se costumava fazer com os escravos. Enfatizando o caminho da cruz, Jesus põe por terra os mitos do poder e da glória, e é por isso que os demais discípulos se irritam. Como Pedro na montanha da transfiguração, eles não sabem o que estão pedindo.

Jesus insinua que os grandes e poderosos não realizam a vontade de Deus, pois mandam e oprimem. Ele sim, o Filho do Homem, faz a vontade do Pai, pois assume a condição do servidor, do menor, do último. A lógica de Deus é inversa à lógica do poder e da honra. O Reino de Deus segue um dinamismo contrário à lógica das instituições e dos reinos deste mundo.

A passagem existencial e espiritual da atitude de chefe à postura de irmão, de primeiro a último, é a prova de fogo do discipulado de Jesus. O reino de Deus não tem nem senhores nem chefes, tem apenas irmãos, iguais e servidores. Tornar-se discípulo/a é percorrer um caminho marginal, é ensaiar uma família unida na diversidade, dialogante e acolhedora.

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, a pretensão de Tiago e João, o questionamento e o ensino de Jesus

§ Observe a ordem que Jesus dá aos discípulos: “Entre vocês não deve ser assim... Quem quiser ser grande, deve ser o servidor!”

§ Em que tipo de líderes e autoridades podemos ver hoje um exemplo de quem realmente é maior, na ótica de Jesus?

§ Podemos afirmar com sinceridade que não corremos a mesma tentação dos discípulos João e Tiago?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (271)

271 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Terça | Mateus 23,1-12

27/02/2024

Esta página do ensino de Jesus a partir da observação crítica da atitude dos fariseus e doutores da lei, ocorre em Jerusalém, no templo, alguns dias antes da sua prisão e condenação à morte. E nós a lemos na perspetiva da conversão ao Evangelho, que é o apelo especial e predominante desse tempo.

Do ponto de vista literário, o episódio vem antes dos sete “ais” dirigidos aos fariseus, e antecipa cinco exemplos do esforço deles para impressionar o povo. Por fim, a partir do contra-exemplo dos fariseus, cuja imitação os discípulos devem evitar, Jesus anuncia três mandamentos.

É preciso considerar que o objetivo desta cena, apesar da linguagem polêmica e do recurso aos clichês, não é propriamente acusar os fariseus e escribas, mas instruir e prevenir aqueles que seguem a Jesus. Os interlocutores de Jesus são membros da comunidade, e Jesus quer que eles façam uma autocrítica madura e responsável.

Jesus pede que seus discípulos escutem o que os escribas leem e proclamam (leis e profetas), mas não deem crédito à interpretação que fazem e ensinam, e não imitem suas atitudes. A fé em Deus e a conversão ao Reino de Deus implica na coerência entre ler, falar e agir. E é nisso que, segundo Jesus, os escribas e fariseus pecam, e seus discípulos devem evitar.

A crítica de Jesus aos fariseus se concentra em três atitudes: eles fazem tudo para serem vistos e causar boa impressão sobre o povo; eles multiplicam preceitos e proibições sem levar em conta o peso que representam para o povo; eles se recusam a mexer um dedo para ajudar o povo. Por isso, buscam os primeiros lugares e querem ser chamados e tratados como mestres, líderes e pais.

Isso não pode ser imitado, de modo nenhum, pelos/as discípulos/as de Jesus! Todos somos irmã/os e servidores/as uns dos outros, iguais em dignidade, filhos do Pai, guiados e instruídos por Jesus. A igualdade, a fraternidade, a coerência e o serviço configuram nossa identidade como discípulos/as missionários/as de Jesus.

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, a crítica de Jesus aos escribas e fariseus, assim como o que ele pede dos/as discípulos/as

§ O que Jesus critica nos fariseus e escribas? Que exemplos de ambiguidade deles Jesus apresenta?

§ Será que nós, individualmente e comunitariamente, não caímos na mesma incoerência e tentação na qual caíram os fariseus?

§ O que Jesus manda e pede aos seus discípulos? Como vivemos hoje este tríplice mandamento?

domingo, 25 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus Cristo em nossa vida (270)

270 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Segunda | Lucas 6,36-38

26/02/2024

No evangelho de ontem, a voz que ressoou a partir de dentro da nuvem que envolveu os discípulos amedrontados, dizia: “Este é meu filho amado; escutem o que ele diz!” E hoje ele nos manda (cf. Lc 6,36): “Sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso”. Ou então, ser e viver como ele mesmo viveu, um amor solidário e sem fronteiras.

O Papa Francisco diz que a misericórdia é a palavra-chave que a Bíblia usa para falar do agir de Deus. E os sinais que Jesus realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, estão marcadas pela misericórdia e dela são expressão. Em Jesus, tudo fala de misericórdia, e nele não há nada que seja desprovido de compaixão.

Recordemos, a título de exemplo, o episódio relatado em João 8,1-11. Jesus estava na praça do templo, e o clima era de tensão com as autoridades. Um grupo de doutores da lei e de fariseus chegou trazendo uma mulher, acusando-a de adultério e pedindo que Jesus tome uma posição. Entre a lei de Moisés e a dignidade daquela pobre mulher, Jesus faz uma escolha surpreendente: chama os acusadores a reverem sua própria conduta, e trata a mulher com misericórdia. Ele quer misericórdia, e não legalismo frio!

E, para o/a discípulo/a de Jesus, a misericórdia não é apenas um princípio entre vários outros, mas o dinamismo fundamental, aquele que dá concretude e sentido a todas as leis e proibições. Nas palavras de Francisco, a misericórdia é a arquitrave (viga-mestra) que sustenta a vida e a atividade da Igreja. “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.

O que Jesus ensina nos demais versículos são exemplos concretos: não julgar nem condenar ninguém, perdoar e ajudar todos/as. Essa ordem não se refere apenas ao campo das relações interpessoais, mas também na dimensão social: acolher, e não julgar e criminalizar as pessoas e grupos diferentes; afirmar a igual dignidade de homens e mulheres, brancos e negros, cristãos e ateus...

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, o mandamento de Jesus e os exemplos mais concretos que ele oferece

§ O que é que nos move naquilo que fazemos pelos outros como cristãos e como Igreja?

§ Que medida nós usamos nas ações solidárias com os mais vulneráveis, e como avaliamos e julgamos as pessoas?

§ Como seria a nossa Igreja todas as suas decisões e ações passasse pela estrada do amor misericordioso e compassivo?

sábado, 24 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (269)

269 | Ano B | 2ª Semana da Quaresma | Domingo | Marcos 9,2-10

25/02/2024

Jesus está no alto da montanha, acompanhado de Pedro, Tiago e João. Envolvido pelo brilho de Jesus, Pedro parece vencer o medo que envolve a todos. Moisés e Elias dão credibilidade ao caminho e ao ensino de Jesus. O evangelho da cruz, novo êxodo e proposta de amor que estabelece a paz e muda a divisão em comunhão, continua valendo, mais do que nunca. Mas é exatamente isso que mete medo nos três discípulos.

Nesta experiência densa, os discípulos são envolvidos pela luz, e, posteriormente, pela escuridão. E é de dentro da nuvem que eles ouvem a voz de Deus: “Este é o meu Filho amado. Escutem o que ele diz”. Eles devem levar a sério o que Jesus Cristo diz e faz, a proposta de servir solidariamente, de desaparecer como o fermento na massa. Aderir a Jesus sem praticar o diálogo como compromisso de amor em vista de uma humanidade reconciliada.

Escutar o que Jesus Cristo diz significa, por um lado, não fugir diante do chamado a encontrar a vida gastando-a pelos outros; não crer nos mitos que nos dizem que somos superiores aos outros; não fingir que a intolerância e as divisões não nos importam. Por outro lado, escutar Jesus implica em anunciar que somos todos irmãos e irmãs e sermos criativos e efetivos na luta pela superação das divisões que ferem a humanidade.

O desejo expresso por Pedro é ambíguo: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro fala para espantar o medo. As roupas brancas de Jesus falam claramente de martírio, mas Pedro quer evitar a todo custo esse caminho. Para a transformação do mundo, Pedro prefere o caminho do culto e da adoração, e descarta a proposta do amor que se faz dom e enfrenta o próprio martírio.

Sabendo que os discípulos entendem mal ou pouco o que veem, Jesus os proíbe severamente de falar daquilo que viram. Esta mesma proibição aparece depois da reabilitação da filha de Jairo (cf. Mc 5,43) e da libertação do surdo-mudo (cf. Mc 7,36). Para Jesus, a publicidade escancarada não são caminhos adequados para resgatar a humanidade perdida.

Meditação:

ü Leia atentamente, palavra por palavra, e contemple o lugar, os personagens, os sinais, os gestos presentes nesta cena

ü Em que consiste sua relação com Jesus: Admiração? Pedidos? Confiança? Medo? Adesão e seguimento?

ü Quais são as experiências de tranquilidade e distanciamento que você gostaria de perpetuar para não enfrentar as lutas?

ü Você acha que tem levado suficientemente o que Jesus diz, especialmente na sua paixão, morte e ressurreição?

O Evangelho dominical (Pagola) - 25.02.2024

ESCUTAR JESUS

Cada vez temos menos tempo para escutar. Não sabemos aproximar-nos com calma e sem preconceitos do coração do outro. Não aceitamos acolher a mensagem que todo ser humano nos pode comunicar. Presos nos nossos próprios problemas, passamos pelas pessoas, sem pararmos para escutar realmente a ninguém. Estamos a esquecer a arte de ouvir.

Por isso tampouco É tão estranho que aos cristãos que tenhamos esquecido em grande parte que ser crente é viver escutando Jesus. Contudo, só desta escuta nasce a verdadeira fé cristã.

Segundo o evangelista Marcos, quando no monte da transfiguração os discípulos se assustam ao sentirem-se envolvidos pelas sombras de uma nuvem, apenas escutam estas palavras: «Este é o meu Filho amado: escutai-o!»

A experiência de escutar Jesus profundamente pode ser dolorosa, mas é apaixonante. Não é o que nós tínhamos imaginado a partir dos nossos esquemas e tópicos. O seu mistério escapa-nos. Quase sem nos darmos conta, vai nos arrancando das seguranças que nos são muito caras, para nos atrair para uma vida mais autêntica.

Encontramo-nos, por fim, com alguém que diz a verdade última. Alguém que sabe para que viver e porque morrer. Algo nos diz interiormente que tem razão. Na sua vida e na sua mensagem há verdade.

Se perseverarmos numa escuta paciente e sincera, a nossa vida começará a iluminar-se com luz nova. Começamos a ver tudo com mais claridade. Vamos descobrindo qual é a forma mais humana de enfrentar os problemas da vida e o mistério da morte. Percebemos os grandes erros que podem cometer os humanos e as grandes infidelidades dos cristãos.

Devemos cuidar mais nas nossas comunidades cristãs a escuta fiel a Jesus. Escutá-lo pode curar-nos de cegueiras seculares, pode libertar-nos de desalentos e covardias quase inevitáveis, pode infundir novo vigor na nossa fé.

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus em nossa vida (268)

268 | Ano B | 1ª Semana da Quaresma | Sábado | Mateus  5,43-48

24/02/2024

Na escuta do evangelho de ontem, fomos provocados a viver uma justiça maior do que a justiça dos fariseus. “Não matar” não é a medida máxima, mas a medida mínima do amor. Porque nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente, relacionar-se fraternalmente com ele jamais será um peso, mas é sempre uma grande alegria. E o caminho para isso é a disposição permanente à reconciliação.

No trecho do evangelho que estamos meditando hoje, Jesus nos oferece um segundo exemplo de uma justiça maior que a dos fariseus: não basta amar o próximo (aqueles que são iguais, pertencem ao mesmo sangue, à mesma religião, à mesma ideologia, ao mesmo grupo de interesses) e cultivar uma olímpica indiferença ou uma belicosa agressividade com os inimigos (os outros, os diferentes, os adversários, os que não pertencem aos nossos círculos de relacionamento).

A reciprocidade entre amigos e próximos pode ser sinal de egoísmo de grupo, de boas maneiras, sem ter nada de Evangelho ou de cristão. “Os pagãos e os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?”, provoca Jesus. O amor não é espontaneidade, gentileza acomodada que evita a realidade e os conflitos, é nem algo facultativo, que depende da ocasião ou do estado de espírito. Para os cristãos, o amor é mandamento e decisão. E a experiência demonstra que é mais fácil odiar os inimigos que amar o próximo.

Para Jesus, e para quem segue seu caminho, a medida do amor é o próprio Deus, que envia o sol e a chuva para maus e bons. Ele é pai que dá vida de forma indiscriminada e incondicional, por mais que não gostemos disso. Deus é perfeito no seu amor, e o amor perfeito deve ser pleno e inclusivo, e não dividido ou condicional. E os/as filhos/as devem imitar o Pai, como os discípulos/as devem imitar o Mestre. O amor aos inimigos, aos que se opõem a nós ou nos perseguem, é o mandamento mais exigente de Jesus.

Amar concreto e em bitola universal é um desafio que pede profecia e um estilo de vida contracultural e alternativo, que não ignora nem protege relações iníquas e distorcidas.

Meditação:

ü Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente amar os próximos, é preciso amar os inimigos?

ü Como entender hoje a contraposição que Jesus faz entre o amor aos iguais (reciprocidade) e o amor aos inimigos (gratuidade)?

ü Como você, sua família e sua comunidade podem concretizar este ensinamento de Jesus de amar e respeitar os “diferentes”?

ü Quem são as pessoas que hoje você vê como ameaça ou inimigo?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O Evangelho de Jesus Cristo em nossa vida (267)

267 | Ano B | 1ª Semana da Quaresma | Sexta | Mateus  5,20-26

23/02/2024

Depois de propor o caminho da felicidade plena e duradoura, Jesus sublinha que ele requer a vivência de uma justiça maior que aquela demonstrada pelos escribas e fariseus. E dá uma série de exemplos, dos quais o texto de hoje nos apresenta o primeiro. Jesus parte das Escrituras Sagradas, mas não se detém na lei fria. Para ele, a Escritura tem por fim assegurar a proteção social dos vulneráveis e a comunhão e a harmonia no interior da comunidade.

Nesta perspectiva, Jesus reinterpreta o 5º mandamento da lei de Moisés, ciente de que o homicídio começa bem antes do ato concreto que o realiza, e tem suas raízes na falta de respeito à dignidade de quem é diferente de nós, configurada na raiva e no insulto. Não matar não é o teto da justiça, mas seu mínimo, ou seu ponto de partida. A fraternidade sem fronteiras e a reconciliação sempre renovada são exigências incontornáveis do Evangelho do Reino, e os/as discípulos/as não podem ignorar isso.

A justiça maior que aquela ostentada pelos fariseus se expressa na vivência da fraternidade e da reconciliação, ou seja: permitindo e agindo para que o diferente viva dignamente. Isso é tão importante e decisivo que Jesus ensina que a nossa comunhão com Deus depende da reconciliação com as pessoas e grupos que divergem de nós e até nos perseguem. A atitude de pacificação e reconciliação é mais importante que a doutrina ortodoxa e o culto divino!

É claro que Jesus não recomenda fazer um momento de parada durante a celebração ou durante a apresentação das oferendas. Ele usa esta imagem forte para reforçar a absoluta importância de cultivar, manter e reatar os vínculos que, tanto do ponto de vista humano como religioso, nos une ao próximo. E não se trata apenas de constatar que ofendemos alguém e isso nos pesa na consciência, mas de verificar se nós mesmos agimos mal e provocamos dano e ressentimento nos outros.

O nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente. Relacionar-se fraternalmente com ele não pode jamais ser um peso, mas sempre uma grande alegria.

                                                                      

Meditação:

ü  Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente não matar, é preciso evitar a raiva e o insulto?

ü  Quais são as consequências do conselho de interromper o culto e as ofertas para primeiro se reconciliar com quem prejudicamos?

ü  Como você, sua família e sua comunidade podem exercitar este ensinamento de Jesus?

ü  Com quem você precisa se reconciliar hoje? Quem são as pessoas que poderiam ter uma queixa contra você?