quarta-feira, 31 de maio de 2023

O Evangelho de cada dia (05) 01.06.2023

VIII Semana do Tempo Comum | Quinta-feira | Marcos 10,46-52

(01/06/2023)

Jesus está na última etapa do seu caminho de “subida” da Galileia a Jerusalém. Jericó fica a poucos quilômetros da capital cantada e idealizada, está situada num vale, praticamente na área suburbana de Jerusalém. Os mendigos, dependentes das intensas e constantes peregrinações populares, aparecem cada vez mais frequentemente. Por outro lado, os discípulos continuam cegos e fechados à proposta de Jesus, e os ricos desertam desanimados com as exigências. É uma parábola do discipulado missionário em todos os tempos.

O cego e mendigo Bartimeu, cujo nome significa literalmente “filho da impureza”, “sujo” ou “impuro”. Enquanto os discípulos, que pensam enxergar bem e acompanham Jesus pelo caminho, o cego e mendigo está fixo à terra e depende da boa vontade dos peregrinos. Enquanto os discípulos imaginam esperam que Jesus seja um messias poderoso e vitorioso, o mendigo o invoca no horizonte de um messianismo popular, identificado com a causa dos pobres (“filho de Davi”).

Jesus faz ao cego a mesma pergunta que fizera aos filhos de Zebedeu, mas, enquanto Tiago, João e, provavelmente, todos os outros discípulos do grupo dos Doze, desejam e pedem privilégios, o mendigo e cego deseja e pede unicamente que seus olhos se abram. O homem rico não foi capaz de distribuir seus bens para seguir Jesus, enquanto que Bartimeu abandona o manto, o único bem que possui, e põe-se a caminho. Os ricos e nobres acabam sendo os últimos, enquanto os pobres e “sujos” e pobres são os primeiros a seguir Jesus. É uma inversão impressionante e difícil de ser assimilada.

Bastimeu é um personagem oposto ao jovem rico, e é o absoluto protagonista nesta cena: grita, torna a gritar, não obedece quando querem que ele se cale, faz Jesus parar, desfaz-se do manto, dá um pulo, põe-se de pé, dialoga, pede e caminha. Por isso, ele é uma metáfora de toda pessoa habitada pelo desejo de ver e conhecer, um modelo ideal ou paradigma de discípulo de Jesus. E, de tabela, é também um “teólogo popular”, pois, mesmo cego, reconhece em Jesus o herdeiro de Davi, e invoca a compaixão daquele que representa o líder popular que sabe o que significa ser suspeito, excluído e marginalizado, inclusive pelo pai e pelos irmãos maiores.

 

Meditação:

·    Observe bem o papel de protagonista de Bartimeu, enumere as ações que ele realiza (os verbos que as descrevem)

·    Você percebe a diferença radical entre aquilo que Tiago e João pedem e aquilo que o mendigo cego pede a Jesus?

·    Bartimeu é o primeiro personagem a chamar Jesus de “filho de Davi”; as palavras que você usa para se dirigir a Jesus falam de que?

·    Qual é seu desejo mais profundo, que queima suas entranhas, e pelo qual você seria capaz de deixar tudo o mais?

terça-feira, 30 de maio de 2023

O Evangelho de cada dia (04)

VIII Semana do Tempo Comum | Visitação de Maria | Lucas 1,39-56


Este texto de Lucas é escolhido para iluminar a festa de da Visitação de Maria, com a qual a tradição católica conclui todo um mês dedicado a Maria de Nazaré, mãe e discípula de Jesus. Literariamente, a narrativa está localizada logo após o anúncio do Anjo a Maria, a antes da cena do nascimento de Jesus, em Belém, na região da Judeia. Faz dos “evangelhos da infância de Jesus”.

O episódio traduz de modo plástico a presença libertadora de Deus na história e a serena alegria que isso desperta na vida, na esperança e no cântico dos pobres. Não se trata de um sonho utópico, mas de uma esperança segura, que se fundamenta na fidelidade do Deus dos pobres, já revelada e confirmada ao longo da história do povo de Israel e das comunidades cristãs.

Inicialmente, a cena apresenta uma ampliação do episódio da anunciação e uma confirmação dos sinais indicados pelo anjo a Maria.  Estimulada pelo anjo Gabriel, ela busca apressadamente estes sinais e sai ao encontro da sua parenta. Ao acolher Maria, Isabel proclama e saúda a presença do esperado Messias no seio dela com a mesma surpresa e alegria com as quais Davi e o povo de Israel saúdam a presença fiel e libertadora de Deus na Arca da Aliança.

O próprio João Batista, desde o ventre de Isabel, participa dessa alegria messiânica, e, com a mãe, reconhece a presença de Deus no meio do povo. Maria é aclamada por Isabel como bem-aventurada e feliz porque acreditou na verdade e na força da Palavra de Deus. A seu modo, Isabel nos ajuda a desvendar o significado profundo da maternidade de Maria.

Na sequência, Maria intervém com um cântico no qual, com a ajuda da literatura orante do seu povo, celebra a intervenção de Deus no passado e assegura a fidelidade da sua misericórdia para o futuro. Ela, serva e humilhada, representa todos os pobres agraciados por Deus que visualizam um mundo novo, que vence e supera forças as estruturas que dominam e excluem.

A cena da visita de Maria a Isabel e a celebração feminina da ação libertadora de Deus na história ressalta ao menos três aspectos: nosso Deus é o Deus dos humildes; Maria vem nos visitar e nos ajudar em nossas necessidades; Maria nos convida a sair ao encontro e serviço de quem precisa de nós. Acolhamos também nós, com serena alegria, a visita de Deus, que se estende até o fim do mundo.

 

Meditação:

·    Deixe-se envolver pela alegria messiânica que ilumina e comove Maria, Isabel e João por ocasião do encontro entre essas duas mulheres abençoadas

·    Repita, com Isabel, a saudação mística e profética com a qual recebe e celebra a visita de Deus ao seu povo

·    Acolha a visita de Maria na sua casa, e participe da sua alegria e profecia, aceite o convite e saia com ela a levar o Evangelho

segunda-feira, 29 de maio de 2023

O Evangelho de cada dia (03) - 30.05.2023

VIII Semana do Tempo Comum | Terça-feira | Marcos 10,28-31


Continuamos com o evangelho segundo Marcos. Aos versículos de hoje estão situados após a cena da deserção do homem rico diante das exigências de Jesus para ser seu discípulo. Nos versos anteriores. Ele sente-se bom e irrepreensível, um ‘homem de bem’ como se diz hoje, e volta atrás desiludido. E Jesus desabafa: que um rico aceite seu caminho é tão raro como que um camelo passe pelo buraco de uma agulha!

Os discípulos reagiram à comparação de Jesus, pois pensavam que se os ricos não estão mais perto de Deus, o que dizer então dos doentes, dos pobres e dos estrangeiros, que eles tratam como ‘sujeitos suspeitos’? Mas, aquilo que para muitos parece impossível, para Deus é absolutamente normal: a riqueza dos ricos não é bênção de Deus, e a prosperidade não é sinal de fidelidade; no reino de Deus e no coração do Deus do Reino, os pobres estão no centro!

É neste contexto que Pedro toma a Palavra e apresenta a Jesus um fato: aquilo que o jovem rico e sua classe não quisera fazer, os discípulos o fizeram, livremente ou em consequência das perseguições. Eles deixaram os bens e seguiram Jesus, em busca de um bem maior, do único bem: do reino de Deus. Pedro apenas constata, mas parece “cobrar a conta”, pois ele e seus companheiros ainda não haviam provado a vida eterna, apenas incompreensões.

Jesus responde solenemente, sublinhando que o retorno prometido estava assegurado, mas em dois tempos: agora, durante esta vida; no mundo futuro. Agora, quem relativizou tudo pelo absoluto do Reino de Deus no caminho de Jesus, já recebe 100 vezes mais em termos de hospitalidade, ajuda, companheiros e apoiadores mediante a fraternidade e a partilha comunitária. Mas isso sempre em meio às perseguições, próprias do/a discípulo/a no mundo.

No mundo futuro, que é o Reino de Deus plenamente realizado, que começa aqui mas aqui não chega ao seu termo, está assegurada uma vida densa e intensa em termos de dinamismo e de sentido, uma vida que desborda a história e avança para a eternidade. Com o olhar fixo no “mundo futuro”, o/a discípulo é convidado/a e ver já “agora” os frutos da sua entrega: os benefícios da vida em comum.

 

Meditação:

·        Recomponha a cena, relendo os versos 15 a 27, que relatam o encontro de Jesus com as criancinhas e, depois, com o jovem rico

·        Observe a reação dos discípulos, especialmente do homem que se apresentou como candidato a discípulo

·        Será que não corremos o risco de nos apresentar diante de Deus ostentando nossos méritos, em consciência daquilo que nos falta?

·        Conseguimos perceber que tudo aquilo do que abrimos mão nos havia sido dado, e que tudo o que temos pertence a todos?

domingo, 28 de maio de 2023

O Evangelho de cada dia (02)

VIII Semana do Tempo Comum | Maria, Mãe da Igreja | João 19,25-34


Com a solenidade de Pentecostes havíamos concluído nosso caminho com o Evangelho de João. Mas hoje, em vista da memória litúrgica de “Maria, mãe da Igreja”, continuamos mais um dia com ele. A memória dessa festa mariana parte da informação bíblica, reforçada pela tradição, de que Maria estava presente no evento de pentecostes. E nos sugere também uma interpretação mariana dessa cena localizada no relato da paixão e morte de Jesus.

Segundo João, no momento da paixão de Jesus no Calvário, a mãe de Jesus, Maria Madalena e o discípulo amado estão de pé, diante da cruz de Jesus. Jesus vê os três e faz uma dupla declaração, que é também um duplo pedido: “Mulher, este é teu filho!” “Esta é tua mãe!” No alto do calvário, diante da expressão máxima do amor de Deus por nós, Jesus nos entrega Maria como mãe dos/as que creem, mãe da Igreja. E nos convida a levá-la conosco, como a discípula primeira e fiel. Nasce aqui uma Nova Família, semente de uma Nova Humanidade.

É interessante notar que o texto original não fala da “mãe de Jesus”. O evangelista a apresenta apenas como “mãe”. Ela representa o antigo Povo de Deus, do qual procedem Jesus e a primeira comunidade de discípulos/as. Ela é convidada a fazer a passagem, reconhecendo e aceitando o Novo Povo de Deus nascido da nova aliança. E o discípulo amado, que representa o discipulado fiel e perseverante, é convidado a reconhecer suas raízes judaicas e a protegê-las.

Na sequência, Jesus diz que tem sede. É um novo pedido de acolhida no nível básico da humanidade que ele compartilha. Os representantes do judaísmo não têm água, nem vinho (amor, acolhida), mas somente vinagre (ódio). Aceitando, sem revidar mais este gesto de fechamento, Jesus pode dizer que consumou a demonstração do amor do Pai pelo mundo e, em si mesmo, arrematou ou deu o toque final à criação do Homem e da Mulher Novos, iniciada no Gênesis.

Do corte que o soldado faz no corpo de Jesus com sua espada escorre sangue (o amor generoso e fecundo) e água (o Espírito que gera a Igreja). Isso não nos vem de Maria, mas do Filho que ela entrega a nós como Mãe. Neste sentido, ela é mãe da comunidade dos/as discípulos/as, mãe dos/as crentes. É isso se revela na sua presença no cenáculo, no dia de pentecostes. Ela é mãe da Igreja na medida em que é discípula fiel, capaz de assimilar o dinamismo da cruz do seu filho amado. Ela é grande mais por ser discípula do próprio filho que por ser mãe.

 

Meditação:

·    Situe-se no Calvário, aos pés da cruz, com Jesus, sua mãe, Maria Madalena e o discípulo amigo e fiel

·    Permita que ressoem em você as densas e ternas palavras de Jesus: “Este é teu filho! Esta é tua mãe! Tenho sede! Tudo está consumado!”

·    Acolha Maria como a mãe querida que Jesus partilha conosco e pede que levemos para nossa casa e peça a ela a graça de seguir Jesus até onde ele for

sábado, 27 de maio de 2023

O Evangelho dominical (Pagola) - Pentecostes - 28.05.2023

NOVO COMEÇO

Aterrorizados com a execução de Jesus, os discípulos refugiam-se numa casa conhecida. De novo estão reunidos, mas Jesus já não está com eles. Na comunidade há um vazio que ninguém pode preencher, Falta-lhes Jesus. Não podem ouvir as suas palavras cheias de fogo. Não podem vê-lo abençoando com ternura os miseráveis. A quem seguirão agora?

Está anoitecendo em Jerusalém e também no coração deles. Ninguém os pode consolar da sua tristeza. Pouco a pouco, o medo vai-se apoderando de todos, mas não têm Jesus para fortalecer o ânimo. O único que lhes dá alguma segurança é «fechar as portas». Já ninguém pensa em sair pelos caminhos para anunciar o reino de Deus e curar a vida. Sem Jesus, como vão espalhar a sua Boa Nova?

O Evangelista João descreve de forma insuperável a transformação que se produz nos discípulos quando Jesus, cheio de vida, se faz presente no meio deles. O Ressuscitado está de novo no centro da sua comunidade. Assim há de ser para sempre. Com ele tudo é possível: libertarmo-nos do medo, abrir as portas e pôr em marcha a evangelização.

Segundo o relato, o primeiro ato de Jesus infunde na sua comunidade é dar-lhe sua paz. Nenhuma censura por tê-lo abandonado, nenhuma queixa nem reprovação. Só paz e alegria. Os discípulos sentem o seu alento criador. Tudo começa de novo. Impelidos pelo seu Espírito, continuarão a colaborar ao longo dos séculos no mesmo projeto salvador que o Pai confiou a Jesus.

O que a Igreja precisa hoje não são apenas reformas religiosas e apelos à comunhão. Precisamos experimentar nas nossas comunidades um «novo começo» a partir da presença viva de Jesus entre nós. Só ele deve ocupar o centro da Igreja. Só ele pode impulsionar a comunhão. Só ele pode renovar os nossos corações.

Não bastam os nossos esforços e trabalhos. É Jesus quem pode desencadear a mudança de horizonte, a libertação do medo e dos receios, o clima novo de paz e serenidade de que tanto necessitamos para abrir as portas e ser capazes de partilhar o evangelho com os homens e mulheres do nosso tempo.

Mas temos de aprender a acolher com fé a sua presença entre nós. Quando Jesus volta a apresentar-se aos oito dias, o narrador diz-nos que as portas continuam fechadas. Não é só Tomé que deve aprender a acreditar com confiança no Ressuscitado. Também os outros discípulos devem ir superando a pouco e pouco as dúvidas e os medos que ainda os fazem viver com as portas fechadas à evangelização.

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

O evangelho de cada dia (01)

 Ano A | Solenidade de Pentecostes | João 20,19-23

(28/05/2023)

Estamos habituados a situar o acontecimento de pentecostes cristão cinquenta dias após a ressurreição de Jesus. Segundo o evangelho de João, este evento que mudou radicalmente a atitude dos discípulos teria acontecido já na noite que se seguiu à ressurreição. A liturgia cristã une estas duas perspectivas, entendendo a páscoa como um acontecimento processual que inicia na manhã da ressurreição de Jesus e culmina 50 dias depois, com o envio do Espírito Santo.

O trecho do evangelho de hoje está situado exatamente no início desse movimento progressivo. Quando tudo parecia definitivamente sepultado, acabado e imutável (fechado), Jesus irrompe em meio aos discípulos aterrados de medo e devolve-lhes a paz. É este encontro e esta palavra, e não apenas o sepulcro vazio, que provoca nos discípulos/as a mudança que todos/as conhecemos. Jesus não está fora, acima ou indiferente a eles, mas no meio deles.

A harmonia plena e o bem-estar total que Jesus deseja e transparece na saudação (shalom) não é algo vazio, nem uma ordem penosa: é um dinamismo que toma conta dos/as discípulos/as mediante o sopro de Jesus. Trata-se do mesmo sopro do Criador ao moldar o ser humano do pó da terra. Sem esse sopro, o ser humano e o/a discípulo/a não passam de pó indefinido e de barro informe.

Para não eixar dúvidas e não induzir à confusão, soprando, Jesus fala e explicita o significado do seu gesto. Trata-se do dom do Espírito Santo, do dom da fortaleza e fidelidade missionária: “Como o pai me enviou, também vos envio”. Jesus não institui um ministério ou sacramento, nem constituiu um colegiado de autoridades, mas convoca e envia em missão. Com a força do Espírito, a paz experimentada no cenáculo não retém ninguém e impulsiona todos/as à missão.

A quem, e a fazer o quê, são enviados os/as discípulos/as? Como Jesus, são enviados/as aos pecadores/as, às ovelhas perdidas, às vítimas das relações violentas e agressivas, para abrir-lhes as portas da graça, para acolhê-los/as como irmã/os e filhos/as amados/as do Pai. É isso que significa “tirar (ou carregar) o pecado do mundo”. O Espírito não nos torna simples confessores/as, mas pessoas novas e solidárias, prontas a erradicar o mal do mundo.

 

Meditação:

·    Situe-se no cenáculo fechado, entre os discípulos medrosos e envergonhados pela deserção diante da prisão de Jesus

·    Perceba com os discípulos a presença inesperada, misteriosa e pacificadora de Jesus crucificado e ressuscitado

·    Acolha e deixe ressoar as palavras de Jesus, deixe que o Sopro de Deus insufle vida em sua vida, missão em sua acomodação, unidade na diversidade

·    Acolha confiante e agradecido/a o mandato missionário de Jesus: “Assim como o Pai me enviou, eu envio você!”

sexta-feira, 26 de maio de 2023

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE CRISTÃ (5)

Rever a história e superar as ideologias tóxicas

O racismo divide o corpo de Cristo, porque é uma ideologia tóxica, assim como é toxica a ideia da supremacia branca e a “doutrina da descoberta das Américas”, legitimada por uma bula papal de 1493. Esta bula papal justificou a apropriação de terras de povos indígenas, dizendo, erroneamente, que os colonialistas tinham descoberto terras não habitadas. Até hoje, os países que formam as Américas do Sul, Central e do Norte vivem as consequências do colonialismo europeu. Como pessoas cristãs, cabe-nos a revisão desta história.

Nossa fé foi capturada pelo colonialismo a fim de legitimar crimes racistas. O profeta Isaías, ao nos conclamar a “aprender a fazer o bem, procurar a justiça, chamar à razão o espoliador, fazer justiça ao órfão, defender a viúva” (Is 1,17), está nos convocando a libertar a fé cristã do sentimento de hegemonia e superioridade, pois tanto a ideia hegemonia, quanto a de superioridade, fazem com que sigamos perpetuando o racismo.

O período em que o grupo de Minnesota preparou o texto para a Semana de Oração pela Unidade Cristã foi marcado pela maldade, pela devastação e pela opressão em diferentes partes do mundo. Esse sofrimento foi amplificado, especialmente no Sul Global, pela pandemia de Covid-19. Esta pandemia e a ausência de políticas públicas de amparo às pessoas economicamente vulneráveis deixaram milhares de pessoas sem o mínimo para a subsistência básica. O autor do Eclesiastes parece estar falando de uma experiência assim: “Vi, ainda, todas as opressões praticadas sob o sol. Eis: as lágrimas dos oprimidos, e não há para eles consolador; a força, do lado dos opressores, e não há para eles consolador” (Ecl 4,1).

O racismo e suas consequências são nocivos para a humanidade inteira. Ao orarmos pela unidade cristã, precisamos abrir os olhos, os ouvidos, as mentes e os corações para as opressões geradas pelo racismo, comprometendo-nos com o antirracismo. Ser antirracista é uma resposta concreta ao amor de Deus por nós. A exortação do profeta Isaías “lavai-vos, purificai-vos” porque “vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1,15.16) também é dirigida para nós.

 

Socorrer os oprimidos

A Bíblia nos diz que não podemos separar nosso relacionamento com Cristo da nossa atitude em relação ao nosso semelhante, particularmente, os que são considerados “os mais pequeninos” (Mt 25,40). O nosso compromisso de uns com os outros requer um envolvimento com a ‘mishpat’, que é a palavra hebraica para justiça restaurativa.

Praticar a justiça restaurativa significa defender aquelas pessoas cujas vozes são silenciadas ou abafadas, desmantelando estruturas que criam e alimentam iniquidades. A justiça restaurativa contribui para a construção de estruturas capazes de promover e garantir que todas as pessoas recebam tratamento igual e tenham seus direitos respeitados. A justiça restaurativa precisa se estender além de nossos amigos, família e congregações, abrangendo o conjunto da humanidade.

A fé em Jesus Cristo exige que saiamos de nossas zonas de conforto para que o grito das pessoas que sofrem os impactos das políticas e práticas racistas nos desacomode. Para isso, é fundamental termos a consciência de que a estrutura social racista é uma consequência da ambição, de poder e lucro, de uma elite branca.

O reverendo Martin Luther King frequentemente declarou que “uma revolta é a linguagem dos que não são ouvidos”. Quando protestos e movimentos civis se erguem, é frequentemente porque a voz dos que protestam não está sendo ouvida.

Se as Igrejas unirem suas vozes às vozes das pessoas oprimidas, o grito por justiça e libertação das pessoas excluídas será amplificado. É nosso dever de fé servir e amar a Deus, e a pessoa próxima, tornando-nos antirracistas. Defender o órfão, zelar pela viúva. As viúvas, as crianças órfãs e pessoas estrangeiras ocupam um lugar especial na Bíblia hebraica. Estes são os grupos que representam as pessoas em vulnerabilidade nos tempos bíblicos.

 

1)  Olhando ao nosso redor, quem são, onde estão e como vivem as pessoas vulnerabilizadas?

2) Que vozes não estão sendo ouvidas em nossas comunidades? Quem não está sentado à mesa? Por quê?

3) Que igrejas, comunidades e religiões estão fora de nossos diálogos, de nossa ação comum e de nossa oração pela unidade?

4) O que gostaríamos de fazer a respeito dessas presenças ausentes?

quinta-feira, 25 de maio de 2023

SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE CRISTÃ (4)

Aprendei a fazer o bem

No texto da Escritura escolhido para a Semana de Oração pela Unidade Cristã de 2023, o profeta Isaías nos desafia a enfrentar o mal produzido pelo racismo. Aprender a fazer o que é certo requer a decisão de entrar num processo de autorreflexão. A Semana de Oração, que acontece no período de Pentecostes, é o momento perfeito para que pessoas cristãs reconheçam que as nossas Igrejas e confissões não podem perpetuar as relações racistas.

A história da Igreja contada em Atos dos Apóstolos nos mostra que a igreja nasceu plural. O Espírito Santo não nos dividiu pela cor da pele. Esta divisão é realizada meramente pela ambição humana por poder. A ideia de raça superior fere a Imagem de Deus.

A história nos mostra inúmeros extermínios de povos por causa da compreensão de uma suposta superioridade racial e religiosa. O profeta Miquéias mostra o que Deus nos disse que é bom e o que Ele espera de nós: “respeitar o direito, amar a fidelidade e caminhar humildemente com seu Deus” (Mq 6,8). Para agir com justiça, temos que respeitar e amar todas as pessoas.

A justiça exige oportunidades e relações humanas verdadeiramente igualitárias. Para isso, são necessárias políticas públicas de memória, justiça e reparação para corrigir as desvantagens históricas que impediram que pessoas indígenas e negras tivessem as mesmas oportunidades das pessoas brancas para sonhar com o seu futuro, acessar a educação, a saúde, a moradia digna. Caminhar humildemente com Deus requer arrependimento, reparações e, finalmente, reconciliação.

Deus espera que nos unamos numa responsabilidade partilhada pela igualdade de todos os seus filhos e suas filhas. A unidade cristã só se torna plena se enfrentamos o mal do racismo. O racismo enfraquece os sinais da unidade sonhada por Deus. Não é possível testemunhar a unidade enquanto seguirmos acreditando que a vida das pessoas brancas vale mais que a vida de pessoas indígenas e negras.

 

Procurai a justiça

Isaías aconselha Judá a buscar a justiça (Is 1,17). Ao dar este conselho, o profeta reconhece que há injustiças entre o povo de Judá. Ele pede que o povo de Judá tome medidas concretas para transformar tudo o que divide a sociedade. O profeta é direto: não há justiça possível se a elite econômica, social e religiosa não renunciar a seu conforto e seus privilégios para diminuir as desigualdades e corrigir a ausência de equidade. O mal, para o profeta Isaías, se revela onde se materializa a compreensão de que algumas pessoas são melhores que as outras.

O primeiro passo para alcançar a justiça é desconstruir a ideologia que estrutura as relações sociais entre os que têm mais direitos e os que têm menos direitos. O racismo é esta ideologia presente em mentes e corações. O racismo naturaliza o fato de pessoas indígenas e negras serem constantemente alvo de violências. Falar sobre todas as formas de racismo não é uma tarefa fácil e, algumas vezes, gera conflitos.

No entanto, não há como alcançar a justiça sem mexer com privilégios. Daí a necessidade das políticas públicas de promoção da igualdade racial, da lei de cotas, da introdução nos currículos escolares da história e das culturas indígenas e africanas, da recente lei que torna crime a injúria racial. Para uma parcela da população brasileira, estas leis são bem-vindas e desnecessárias. Mas, infelizmente, isso não é uma unanimidade. Algumas pessoas ainda criticam esse tipo de iniciativa. Igrejas de várias regiões do mundo, e em diferentes momentos da história, silenciaram e baixaram suas cabeças diante de políticas racistas. Com isso, muitas vezes, tornaram-se cúmplices.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Semana de Oração pela Unidade Cristã (3)

O racismo que estrutura as sociedades

É muito importante compreender que o racismo está presente nos relacionamentos individuais, mas, antes disso, o racismo estrutura as sociedades, o que pode ser percebido na forma como Igrejas, majoritariamente brancas, foram historicamente beneficiadas com a garantia de culto e a liberdade religiosa, enquanto as tradições religiosas de matriz africana e as espiritualidades indígenas, ainda hoje, precisam reivindicar o seu direito de rezar em paz.

Assim como nos tempos do profeta Isaías existiam grupos privilegiados que rechaçavam os pobres e se valiam da religião para justificar as desigualdades, também hoje é possível identificar pessoas cristãs cúmplices do racismo. A história mostra que, em vez de reconhecer a dignidade de todo ser humano criado à imagem e semelhança de Deus, cristãos e cristãs frequentemente têm se envolvido em estruturas de pecado, como a escravização, o colonialismo e a segregação em nome de uma certa superioridade racial.

Infelizmente, as igrejas ainda são muito tímidas para desconstruir teologias e hermenêuticas bíblicas racistas. A perpetuação da linguagem religiosa racista faz com que o próprio racismo se atualize. Mas a fé em Jesus Cristo exige que sejamos igrejas antirracista. Para isso, é necessário desenvolver uma “alfabetização” racial, aprofundar o conhecimento, abrir-se ao diálogo inter-religioso, apoiar a causa antirracista e reconhecer a permanência de práticas racistas em nossas igrejas.

a) Letramento ou alfabetização racial: O letramento racial ajuda conhecer quais são os termos corretos relacionados à pauta racial, contribuindo para a aquisição de uma maior consciência das desigualdades e da estrutura racista da sociedade. O letramento racial é o primeiro passo para sermos igrejas antirracistas.

b) Aprofundar o conhecimento: Isso significa incluir nas nossas leituras, livros de pessoas negras e indígenas que falem sobre a temática racial e/ou de suas culturas de origem. Também é importante pesquisar sobre como o Brasil Império se valeu da imigração europeia para implementar no Brasil a política racista do branqueamento das raças, e fomentou a ideia de que descendentes de europeus são mais trabalhadores do que pessoas indígenas e pessoas negras.

c) Abrir-se para o diálogo inter-religioso: Este é um dos caminhos possíveis para o enfrentamento do racismo religioso, que é um conjunto de práticas violentas que expressam a discriminação e o ódio pelas religiões de matriz africana e seus adeptos, assim como pelos territórios sagrados, tradições e culturas afro-brasileiras.

d) Apoiar a causa antirracista: Lembremo-nos que no Brasil a pobreza e a falta de oportunidades têm cor e raça. Portanto, ser antirracista envolve destinar recursos e promover a circulação de renda entre pessoas negras e indígenas. Para apoiar a promoção da igualdade racial, invista em ações afirmativas nos seus projetos diaconais e pastorais, destine coletas para projetos voltados ao combate do racismo. Além disso, garanta que as pessoas negras de sua igreja ocupem funções de liderança. Comprometa-se a falar sobre as consequências do racismo na vida das pessoas e a buscar hermenêuticas bíblicas antirracistas. Jesus não era racista, portanto, não é possível valer-se da fé em Jesus Cristo para justificar a segregação racial. Dizer ‘Sim’ à Igualdade Racial significa que, para sermos comunidades de iguais, todas e todos precisam assumir a pauta antirracista como compromisso de fé. Como igrejas, temos de reconhecer que estamos falhando no reconhecimento da dignidade de todas as pessoas batizadas e, muitas vezes, depreciamos a dignidade de irmãos e irmãs em Cristo baseando-nos na falsa ideia da supremacia branca. 

e) Reconhecer a existência de práticas racistas em nossas Igrejas: Martin Luther King Jr., ao falar sobre as consequências do racismo e da segregação racial em seu país, disse: “É uma das tragédias de nossa nação, uma das vergonhosas tragédias, que o horário de onze da manhã de domingo seja uma das horas mais segregadoras, ou a mais segregadora hora na América cristã”. Com essa declaração, Luther King Jr. denunciou o racismo como causa da falta de unidade entre as igrejas. Ele denunciou o fato de o racismo estar acima da fé em Jesus Cristo. Isso porque brancos não aceitavam que pessoas negras participassem dos cultos. Para poder celebrar, o povo afro-americano precisou criar suas próprias igrejas.

O racismo é, portanto, um contratestemunho da unidade cristã. Todas as divisões têm sua raiz no pecado, isto é, em atitudes e ações que vão contra a unidade que Deus deseja para o conjunto de sua Criação. O racismo é pecado porque nos divide como humanidade, como igrejas e religiões.

Infelizmente, não ocorreram mudanças significativas desde o tempo do pastor Martin Luther King até hoje. Nos Estados Unidos, o horário dominical das onze horas, quando ocorrem as celebrações, é caracterizado pela divisão racista entre igrejas, pois as denominações seguem divididas por marcadores raciais e sociais. Ou seja, pessoas brancas e pessoas negras reúnem-se cada uma em sua igreja. Como Isaías proclamou, essa hipocrisia no meio do povo de fé é uma ofensa diante de Deus: “podeis multiplicar as orações, não as escuto: vossas mãos estão cheias de sangue” (Is 1.15).

 

terça-feira, 23 de maio de 2023

Semana de Oração pela Unidade Cristã (2)

 As nossas contradições verde-amarelas

Quando lemos o profeta Isaías, aprendemos que Deus exige que nossas ações não se orientem por compreensões de justiça excludentes. Atualizando as palavras do profeta Isaías, poderíamos dizer que de nada vale seguir todos os preceitos cristãos, ler a bíblia todos os dias, se continuamos sendo racistas e rechaçando as pessoas pobres.  Não é possível falar em justiça quando um pequeno grupo de pessoas é muito rico e um número grande de pessoas é muito pobre. Da mesma forma, não é possível falar em justiça quando pessoas detêm privilégios por causa da cor de sua pele.

Não há justiça quando pessoas indígenas e negras são impedidas de acessar territórios, de viver sua espiritualidade originária ou de frequentar escolas e universidades. Neste exato momento, acompanhamos o crime praticado contra o povo Yanomani no Estado de Roraima. Se nosso país fosse justo, crianças, adultos e pessoas idosas não estariam morrendo de fome por causa da ganância de poucos e da ausência do Estado em garantir o direito a território para os povos originários. Nós vivemos as contradições denunciadas pelo profeta Isaías.

Justiça, retidão e unidade têm sua origem no profundo amor de Deus por nós. A justiça, a retidão e a unidade estão no coração do que Deus é e o que Deus espera que sejamos uns para os outros. A concretização da promessa de Deus, de uma nova humanidade em que “todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9) vivam em paz exige que aprendamos a fazer o bem, procuremos a justiça, chamemos à razão o espoliador, façamos justiça ao órfão, defendamos a viúva” (Is 1,17).

A crítica do profeta à religiosidade de seu tempo é direta e forte. Ele diz: “Cessai de trazer oferendas vãs: à fumaça (incenso) tenho horror… Quando estendeis as mãos cubro os olhos” (Is 1. 13-15). Ao analisar e criticar a sociedade de seu tempo, o profeta propõe alternativas para que a justiça seja, de fato, praticada. Ele orienta as pessoas dizendo: “lavai-vos, purificai-vos. Tirai do alcance do meu olhar vossas más ações; cessai de fazer o mal” (Is 1.16).

 

A segregação fere gravemente o povo brasileiro

A mesma segregação denunciada pelo profeta Isaías está presente entre nós. Podemos vê-la em todos os contextos em que um grupo ou classe têm acesso a privilégios e outros não. O pecado do racismo é a expressão maior da arquitetura do mal, porque ele compreende que uma determinada “raça” é melhor do que a outra, organizando a sociedade a partir deste princípio. O Brasil é um exemplo de uma arquitetura social racista.  A população brasileira é formada por 55% de pessoas negras e pardas. No entanto, quando olhamos onde estão as pessoas negras e pardas, vemos que a maioria está nas favelas.

Assim como em Minnesota (onde foi preparado o tema da Semana de Oração pela Unidade), também aqui, as pessoas negras são os alvos preferenciais da polícia. Tanto os povos indígenas quanto as pessoas negras são impactadas por políticas racistas que negam o acesso ao território e o seu direito de viver conforme seus costumes e tradições. As experiências de democracia que tivemos no Brasil não foram suficientes para desestruturar o racismo que sustenta a desigualdade.

 

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Semana de Oração pela Unidade Cristã (1)

 

“Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça” (cf. Is 1,17)

Semana de Oração pela Unidade Cristã (22-28/05/2023)

Foi em um contexto profundamente marcado pela rejeição às pessoas pobres que o profeta Isaías procurou despertar a consciência das pessoas ricas de Judá. Ele chamava a atenção para a profunda contradição entre o cumprimento de todos os preceitos religiosos e a marginalização das pessoas pobres. Ensinava que de nada vale ser um fiel cumpridor de ritos e sacrifícios religiosos se, no entorno do Templo, há pessoas que não têm onde morar e o que comer.

O profeta Isaías compreendia a desigualdade econômica, social e a discriminação religiosa como uma ferida infecciosa e um sacrilégio diante de Deus. Injustiça e desigualdade levam à fragmentação social e religiosa. Suas profecias denunciam as estruturas políticas, sociais, religiosas e a hipocrisia de oferecer sacrifícios enquanto as pessoas pobres são violentadas.

Isaías denuncia vigorosamente a estrutura de poder formada pelo Templo e pelo Palácio, porque este tipo de organização política, econômica e religiosa, legitima as desigualdades, discriminações e as violências, além de desvirtuar a sacralidade da justiça. Ao criticar o sistema de seu tempo, o profeta Isaías adverte: “Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, chamai à razão o espoliador, fazei justiça ao órfão, tomai a defesa da viúva” (Is 1,17).

sábado, 13 de maio de 2023

O Evangelho dominical (Pagola) - 14.05.2023

TEMOS UM DEFENSOR

A verdade é que nós seres humanos somos bastante complexos. Cada indivíduo é um mundo de desejos e frustrações, ambições e medos, dúvidas e interrogações. Com frequência não sabemos quem somos nem o que queremos. Desconhecemos para onde se está movendo a nossa vida. Quem pode nos ensinar a viver de forma correta?

Aqui não servem as abordagens abstratas nem as teorias. Não basta esclarecer as coisas de forma racional. É insuficiente ter diante dos nossos olhos normas e diretrizes corretas. O decisivo é a arte de atuar dia após dia de forma positiva, sã e criativa.

Para um cristão, Jesus é sempre o seu grande mestre de vida, mas já não o temos ao nosso lado. É por isso tem tanta importância estas palavras do Evangelho: «Pedirei ao Pai que vos dê outro Defensor que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade».

Necessitamos que alguém nos recorde a verdade de Jesus. Se a esquecermos, não saberemos quem somos nem o que estamos chamados a ser. Desviar-nos-emos do evangelho uma e outra vez. Defenderemos em seu nome causas e interesses que pouco têm a ver ele. Acreditaremos estar na posse da verdade ao mesmo tempo que a vamos desfigurando.

Necessitamos que o Espírito Santo ative em nós a memória de Jesus, a sua presença viva, a sua imaginação criativa. Não se trata de despertar uma memória do passado: sublime, comovente, cativante, mas memória. O que o Espírito do Ressuscitado faz conosco é abrir o nosso coração ao encontro pessoal com Jesus como alguém vivo. Só esta relação afetiva e cordial com Jesus Cristo é capaz de nos transformar e gerar em nós uma nova forma de ser e de viver.

O Espírito é chamado no quarto evangelho «defensor» ou «paráclito» porque nos defende do que nos pode destruir. Há muitas coisas na vida de que não nos sabemos defender por nós próprios. Necessitamos luz, fortaleza, alento sustentado. Por isso que invocamos o Espírito. É a melhor maneira de nos pormos em contato com Jesus e viver defendidos de quanto nos pode desviar dele.

José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Horizontes de uma caminhada: prioridades da VRC no Brasil

“Conhecer as manhas e as manhãs”: o horizonte e as prioridades da vida religiosa consagrada do Brasil

 No processo participativo que culminou na Assembleia Geral de 2022, as consagradas e consagrados do Brasil definiram o horizonte que os iluminará, atrairá e guiará no triênio 2022-2025: “Nós, consagradas e consagrados no Brasil, na busca de ressignificar a Vida Religiosa Consagrada no discipulado de Jesus Cristo, em sinodalidade, missionariedade e contínua conversão, à luz da Palavra de Deus, somos convocadas e convocados a permanecer no Seu amor, escutar e responder, com esperança, os gritos e os clamores de nosso tempo, para tornar visível o Reino de Deus”.

Na verdade, a prática cotidiana nos ensina que o horizonte não é resultado da nossa definição, mas é em relação a ele que compreendemos a nós mesmos e discernimos os caminhos que nos levam a ele. De certa forma, é ele que nos define. Nossa tarefa histórica é, nas palavras do poeta, “conhecer as manhas e as manhãs”, a luz que se divisa no horizonte e as manhas para não perder o rumo e o ritmo, pois cumprir a tarefa de viver humanamente requer “conhecer a marcha e ir tocando em frente”.

Nestas linhas despretensiosas queremos propor uma reflexão explicativa e sincrônica do horizonte que a Conferência dos Religiosos do Brasil traçou para o triênio 2022-2025. Nossa interpretação parte do texto em si mesmo e estabelece relações com algumas passagens bíblicas às quais faz referência implícita e que podem ajudar a compreendê-lo. Nosso objetivo é mais a animação da caminhada que a discussão teórica.

 

O que o Senhor está pedindo hoje à vida religiosa consagrada do Brasil?

É importante começar perguntando qual é o apelo de Deus captado e acolhido pela vida consagrada no Brasil. E a resposta é “permanecer no Seu amor” e “escutar e responder, com esperança, os gritos e os clamores de nosso tempo”. A conjugação desses dois chamados, que ressoam com igual intensidade aos ouvidos dos consagrados e consagradas e são por eles acolhidos com semelhante urgência evita deslizes à direita ou à esquerda, e, ao mesmo tempo, contorna a tentação do refúgio numa espiritualidade desencarnada e superficial ou da diluição num ativismo social vazio e estéril.

Quando o contexto no qual emerge a experiência da insegurança nos convida a evitar o caminho do dom pleno e generoso de si, do pão da vida repartido sem regateio, do lava-pés e da cruz, a vida religiosa consagrada do Brasil percebe que o Senhor a chama a permanecer com ele, a fazer o que ele fez e ir até onde ele foi. Isso fica claro na referência indireta ao texto de João 15,1-17, situado no tenso e intenso diálogo exortativo de Jesus com seus discípulos desconcertados pelo gesto da ceia e do lava-pés e pelo anúncio da paixão e morte de Jesus.

Permanecer no Senhor significa pôr em prática o mandamento de amar como ele amou, de deslegitimar toda e qualquer desigualdade ou superioridade em termos de valor e de dignidade, e de mostrar o alcance do nosso amor entregando livre e generosamente a vida por quem amamos. Não se trata de salvar a própria vida, mas de dar a vida pelas vidas, pois todas as vidas interessam a Jesus e devem interessar também aos cristãos, mais ainda aos que se consagram a ele.

Por trás do apelo do Senhor a “escutar e responder, com esperança, os gritos e os clamores de nosso tempo”, ressoa a experiência paradigmática de Moisés, narrada no livro do Êxodo 3,1-17. Diante da quase incurável surdez de Moisés, que o medo fizera desertar e buscar refúgio e segurança na casa do sogro, Deus irrompe de modo inesperado e quase violento na sua vida cômoda e estreita.

Dizendo que ouviu os clamores e viu os sofrimentos dos hebreus escravizados no Egito, o Senhor interpela Moisés a não dar as costas, a não fechar os olhos e os ouvidos e a não passar ao largo daquilo que fere seus irmãos e irmãs. E não apenas isso! Dizendo que desceu para fazer o povo subir, Javé envia Moisés para conduzir esse movimento de libertação, para dar uma resposta em nome de Deus, para colocar em prática a resposta do próprio Deus. É como se dissesse, como Jesus dirá mais tarde: “Vá tu e faz o mesmo! Dá-lhes tu mesmo de comer!” (cf. Lc 10,37; Mt 14,15)

É claro que, diante das vozes contrastantes que ressoam em nossas redes, telas e praças, da complexidade da situação dos nossos povos e da dificuldade de dar respostas inovadoras, somos atraídos pela doce sedução de buscar refúgio nos ritos e fórmulas tão vazias quanto inócuas, e de permanecer na aparente segurança das nossas casas e cargos, longe do fogo que arde e da Palavra que abrasa. Para sobreviver, parece-nos mais lógico e oportuno esfriar o coração e estacionar em terrenos seguros.

Mas a santa Palavra nos adverte e guia. Não há como corromper a Deus com os belos presentes dos nossos ritos. A oração e o culto de quem se faz indiferente aos clamores dos vulneráveis não chega aos ouvidos de Deus. “Quem tapa os ouvidos ao clamor do fraco também não terá resposta quando clamar” (Pr 21,13). As dores dos pobres e desamparados são as dores de Deus. “Ele não despreza a súplica do órfão, nem da viúva que apresenta suas queixas. Será que as lágrimas da viúva não descem pela sua face, e se clamor não se levanta contra quem a faz chorar?”  (Eclo 35,14-15).

 

O que busca a vida religiosa consagrada no Brasil?

No encontro de Jesus com os primeiros discípulos, que haviam tomado distância de João Batista por orientação dele mesmo, Jesus pergunta: “O que vocês estão buscando?” (cf. Jo 1,39). Essa pergunta é dirigida, sempre de novo, a cada geração de discípulos e discípulas, a cada instituto religioso, e à vida consagrada como um todo. A seu modo, o processo de reflexão e celebração definiu qual é seu desejo, sua busca ou sua necessidade mais contundente. E a expressou da seguinte forma: “Ressignificar a Vida Religiosa Consagrada no discipulado de Jesus Cristo, para que ela torne visível o Reino de Deus”.

A vida religiosa consagrada do Brasil intuiu que este horizonte se deixa alcançar por um caminho muito particular, que é “permanecer no Senhor” e “escutar e responder, com esperança, os gritos e os clamores de nosso tempo”. Por mais que pareça, não é seguro escolher atalhos não evangélicos para dar brilho, sentido, sabor de originalidade e de novidade à velha vida religiosa consagrada. E não há realidade inclusiva, duradoura e benfeitora da humanidade que não passe pela escuta e pela resposta aos clamores das vítimas, que a sociedade teima em tornar insignificantes e invisíveis.

O novo significado que queremos dar às nossas vidas consagradas não pode vir senão da permanência no seguimento dos passos de Jesus Cristo, da assimilação e vivência do seu Evangelho. Se às pessoas que estiveram no início das nossas instituições nós as chamamos de fundadores/as é porque eles/as colocam diante dos nossos olhos o fundamento de uma vida prenhe de significado sempre renovado: o seguimento dos passos de Jesus de Nazaré, no despojamento, na irmandade e no serviço generoso e solidário aos “últimos” da escala social. Fazer-se discípulo/a de Jesus de Nazaré é reconhecer-se sempre iniciante, sempre aprendiz, sempre necessitado/a de desaprender para aprender melhor o que significa ser humano e ser cristão, o que significa ser próximo e ser irmão ou irmã.

Porém, o novo significado que queremos dar às nossas vidas consagradas não termina na autocontemplação de nós mesmos/as e da relevância das instituições às quais, nem na recordação de eventuais glórias do passado. O seguimento de Jesus nos leva a focalizar tudo em uma única causa, a causa de todas as causas e todos os humanos seres: o reino de Deus, nome que os evangelhos dão à realidade inclusiva e benfeitora da humanidade, à vida plena, comunicativa e abundante de todas as criaturas. O que os consagrados e consagradas queremos, ressignificando nossa consagração a Deus, é tornar visível e palpável o Reino de Deus, os novos céus e a nova terra, a nova sociedade, a renovação de todas as coisas, relações e instituições na comunhão solidária.

 

Como podemos conhecer o caminho?

Saber para onde devemos e queremos ir é um passo importante para discernir os caminhos. Mas, é um passo insuficiente. Para caminhar, não basta ter os dois pés no chão da realidade e ter um objetivo definido teoricamente, por mais correto e relevante que seja. Precisamos discernir ou identificar o modo mais adequado e eficaz de caminhar do chão que pisamos em direção ao horizonte que nos chama. Mesmo sem fazer-se esta pergunta explicitamente, a vida religiosa consagrada do Brasil verbalizou uma resposta: “em sinodalidade, missionariedade e contínua conversão, à luz da Palavra de Deus”.

Caminhar juntos

Primeiro, a sinodalidade. Caminhar juntos como diferentes institutos de vida consagrada que somos. Caminhar junto com os diversos organismos, movimentos, ministérios, serviços, carismas e iniciativas da Igreja. Caminhar juntos com os organismos, movimentos e iniciativas sociais, culturais e políticas que atuam guiadas pelo sonho de um mundo tecido de fraternidade, igualdade, justiça e respeito às diferenças. Caminhar juntos, com um mesmo objetivo em nossas fraternidades e projetos comunitários de missão. Caminhar juntos porque somos iguais na fragilidade e comungamos da mesma origem, do mesmo sonho e do mesmo destino. Caminhar juntos porque sozinhos/as não somos capazes de ir muito longe.

Aqui podemos lembrar a prática sinodal da Igreja apostólica, que atravessa praticamente de ponta a ponta a narrativa dos Atos dos Apóstolos: nas diferenças, nas divergências e nas emergências, os apóstolos se reuniam e tomavam decisões compartilhadas, procurando conservar tanto a unidade substancial como a pluralidade vital. É interessante lembrar também da pregação de Paulo: ele sublinha que o trabalho e a perspectiva de diferentes grupos contribui na única obra do Senhor (cf. 1Cor 3,5-17); e compara os diferentes serviços e ministérios aos diferentes membros que compõem um corpo bem articulado e único (cf. 12,12-31).

Um caminho de saída missionária em direção às periferias

Depois a missionariedade, aquela que brota da Igreja dos apóstolos, que se organiza e reinventa em ritmo de missão, estabelecendo estruturas leves e funcionais à missão de “anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo”, como dirá o Papa Francisco (EG, 23). E isso porque a intimidade com Jesus é uma caminhada, uma intimidade itinerante, uma força que nos chama a sair para fora, porque a comunhão é sempre e essencialmente uma comunhão missionária.

Quando falamos de missão, o paradigma de Filipe (cf. At 8,26-40)  é sempre algo instigante: ele descobre-se chamado ao meio-dia, sai de Jerusalém pelo caminho que leva ao deserto, vai ao encontro de um estrangeiro eunuco (violentado e duplamente marginalizado), aproxima-se como companheiro, aceita o convite a sentar-se ao lado dele, anuncia-lhe o Evangelho a partir das suas perguntas, acolhe o eunuco na comunidade conferindo-lhe o batismo, não o retém junto a si e permite que ele prossiga seu caminho cheio de alegria.

Caminhar juntos, em ritmo missionário, convertendo-nos ao Evangelho

Por fim, a contínua conversão. Na verdade, a conversão vem começo, é um dinamismo permanente na aventura da consagração, e também a meta do seguimento de Jesus. Discipulado é sempre um caminho de conversão: conversão pessoal, comunitária e institucional ao Evangelho do despojamento, da pequenez, dos pequenos passos possíveis, da consciência de guardar nos vasos de barro das pessoas consagradas, das suas comunidades e instituições, um precioso tesouro que não lhe pertence, que pertence a todos: o Evangelho da alegria, o Evangelho do Reino de Deus, que está vivo e ativo no mundo como semente, como fermento, como sal e luz. Conversão porque ainda acreditamos nas grandes estruturas, na imponência das obras, no poder do saber e do capital, na aliança com os setores que detém o poder, nas nossas estratégias e projetos.

Mencionamos aqui o anúncio fundamental de Jesus, ao iniciar e prosseguir no seu ministério na Galileia: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1,14-15; cf. Mt 4,17; Lc 4,14-21). A novidade alvissareira da Boa Notícia do Reino de Deus é de magnitude tal que, para acolhê-la e assimilar seu dinamismo é preciso uma mudança radical de mentalidade. O discipulado, a vida cristã como um todo, é um permanente caminho de conversão. Este é também o anúncio pentecostal de Pedro e dos apóstolos (cf. At 2,37-41). E não esquecemos um dado fundamental: o movimento da vida consagrada, em seus melhores momentos, que são as fases mais carismáticas e menos institucionais, se definiu como caminho penitencial, como convocação à conversão ao Evangelho do Reino de Deus.

 

Quem meterá as mãos na massa e percorrerá esse caminho?

O sujeito que capta o horizonte é a primeira pessoa do plural: “nós”. A dizer nós, estamos nos referindo a todas as pessoas consagradas, a todas as Comunidades religiosas, a todas os Institutos e suas direções, a todas as instituições criadas e administradas pelos Institutos, às direções nacional e regionais da CRB, às Equipes, Comissões e Assessorias nacionais e regionais da CRB, a todos os núcleos diocesanos de religiosos e religiosas.

Mesmo sendo verdade que a Conferência dos Religiosos do Brasil não tem poder de impor suas diretrizes e prioridades, também é fato que o discernimento do horizonte e das prioridades do triênio foi feito em espírito sinodal e participativo. Da mesma forma, para que tudo isso não se torne discurso bonito, mas inócuo, é absolutamente indispensável o compromisso proporcional e corresponsável de todas as pessoas consagradas, suas instituições e instâncias.

Itacir Brassiani msf

Passo Fundo/RS