segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Evangelizar é preciso

Eis-me aqui, Senhor, pra fazer tua vontade!

831 | 09 de setembro de 2025 | Lucas 6,12-19

Hoje, 9 de setembro, recordamos os dois anos da primeira das duas enchentes que atingiram o povo do Rio Grande do Sul, e que aprendemos a chamar de “eventos climáticos extremos”. Ao mesmo tempo, o clima é de acirrada disputa política em torno do julgamento dos golpistas do final de 2022 e janeiro de 2023. Essa disputa acaba sendo amenizada, ao menos em parte, pela semana farroupilha, que celebra uma guerra perdida e louva costumes e tradições ambíguas e questionáveis.

Mesmo que alguns dos 12 discípulos escolhidos e enviados sejam pouco conhecidos, Jesus os “escolheu a dedo” e os chamou pelo nome. Antes de chama-los, passou uma noite em oração, para que não se enganasse na escolha, e para que eles fossem símbolo do novo povo de Deus, não obstante seus inúmeros e conhecidos limites. Ser Apóstolo significa ser enviado, ser porta-voz de Jesus e seu Evangelho, que, decididamente, não significa proclamar que “o Sul é meu país”, e que aqui simplesmente “tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor”.

Os Doze apóstolos participam da missão do próprio Jesus, fazem o que ele fez, desfrutam da sua dignidade, assumem sua meta e trilham seu caminho. Eles recebem a missão de manter a Palavra de Jesus sempre viva, atual e relevante. São convocados pela Palavra e consagrados a serviço dela. O fruto dessa missão é o despertar do desejo de encontrar Jesus e de acolher seu Evangelho como a boa terra acolhe a semente e cria as condições para que germine.

A convocação dos Doze e a missão que lhes é confiada emergem da oração de Jesus sobre a montanha. A comunidade eclesial nasce e se fortalece da comunhão de Jesus com o Pai, daquela obediência e daquele amor de quem não recua diante da morte, simbolizada na noite. A vocação dos Doze é também um chamado à comunhão, que é o objetivo e o método de todo apostolado. Ser Igreja é caminhar juntos.

Nossas comunidades e cada um de nós somos convocados a renovar nosso ardor missionário, a potencializar nosso testemunho, a dar nossa resposta concreta e engajada ao Senhor que nos chama através dos clamores e esperanças do nosso povo. Estamos respondendo com a vida “Eis-me aqui, envia-me”?

 

Sugestões para a meditação

§ Acompanhe passo a passo o retiro orante, a escolha nominal e o envio dos Doze Apóstolos, embaixadores do Reino de Deus

§ Deixe que ressoe também em você e hoje o chamado e a escolha de Jesus: “Eu te amo, te chamo, te formo e te envio!”

§ Desça da montanha com Jesus, e perceba a multidão que vem ao encontro dele, abandonada e ferida pelos falsos “messias”

§ Como a multidão, procure tocar Jesus, e deixar-se tocar pela Palavra e pela liberdade solidária e destemida que ele nos ensina

sábado, 6 de setembro de 2025

Deus X ídolos

ÍDOLOS PRIVADOS

Há algo que é escandaloso e insuportável para quem se aproxima de Jesus a partir do clima de autossuficiência que se vive na sociedade moderna. Jesus é radical na hora de pedir adesão à sua pessoa. O seu discípulo deve subordinar tudo ao seguimento incondicional do seu caminho.

Este não é um conselho evangélico para um grupo de cristãos seletos ou uma elite de esforçados seguidores. É a condição indispensável de todo discípulo. As palavras de Jesus são claras e rotundas. «O que não renuncia a todos os seus bens não pode ser meu discípulo».

Todos nós sentimos nas profundezas do nosso ser o anseio de liberdade. E, no entanto, há uma experiência que continua a impor-se geração após geração: o ser humano parece condenado a ser escravo dos ídolos. Incapazes de sermos autossuficientes, passamos a vida à procura de algo que responda às nossas aspirações e desejos mais fundamentais.

Cada um de nós procura um deus para viver, algo que inconscientemente convertemos no essencial da nossa vida, algo que nos domina e se apodera de nós. Procuramos ser livres e autônomos, mas, aparentemente, não podemos viver sem nos entregarmos a algum ídolo que determina toda a nossa vida.

Esses ídolos são muito diversos: dinheiro, sucesso, poder, prestígio, sexo, tranquilidade, felicidade a todo custo... Cada um conhece o nome do seu «deus privado», a quem entrega secretamente o seu ser. Por isso que, quando num gesto de liberdade ingênua, fazemos algo porque nos apetece, temos de nos perguntar o que é que nos domina naquele momento e a quem estamos realmente obedecendo.

O convite de Jesus é provocador. Só há um caminho para crescer em liberdade, e só o conhecem aqueles que ousam segui-lo incondicionalmente, colaborando com Ele no projeto do Pai: construir um mundo justo e digno para todos.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Decisões responsáveis

O seguimento de Jesus pede lucidez e renúncias

829 | 07 de setembro de 2025 | Lucas 14,25-33

A ligação desta cena com a anterior parece ser as desculpas da elite religiosa e econômica para não aceitar o convite à festa do Reino: “Acabei de casar e, por isso, não posso ir; comprei um campo, e preciso ir vê-lo; comprei cinco juntas de boi, e vou experimentá-las”. Os interesses individuais parecem ser álibi suficiente para não se engajar na obra de Deus e não participar daquilo que é bem comum.

Diante de uma relativa multidão que manifesta interesse por ele, Jesus volta a enfatizar a prioridade do Reino de Deus sobre vínculos familiares e interesses pessoais, pedindo que cada um avalie os riscos e as exigências da opção de segui-lo, a fim de “não fazer feio” e “cair fora” logo depois de ter iniciado com entusiasmo.

Para deixar isso bem claro para todos os seus ouvintes, Jesus recorre a duas parábolas: a primeira fala do planejamento para a construção de uma torre; a segunda se refere à preparação dos soldados para uma batalha. Em ambos os casos, o sujeito em questão deve analisar bem os recursos e forças que dispõe, fazer os cálculos e concluir se consegue ou não levar a obra ou a luta até o fim.

Jesus já havia advertido seus discípulos sobre o risco de sofrer uma morte violenta e ignominiosa, inclusive em nome da religião. É como se no episódio de hoje ele quisesse dizer aos candidatos a discípulo: segui-lo é uma decisão muito comprometedora. Usando um ditado popular, não se trata de entrar na omelete como entra a galinha (dando os ovos) mas como participa o porco (dando a carne).

É claro que, com essas parábolas, Jesus não pretende desencorajar os discípulos. O que ele quer é advertir-nos que não é possível aderir ao Reino de Deus pela metade, que não podemos iludir-nos com a possibilidade de servir a dois senhores, que a perseverança pressupõe uma decisão lúcida e consciente, que precisa sempre contar com as renúncias e riscos.

Lucas conhecia a inconstância e os sinais de retrocesso das comunidades diante das dificuldades que estavam enfrentando. O núcleo dos perigos era o apego às riquezas, das quais a família patriarcal era um dos elos importantes. Mas o questionamento de Jesus também nos faz refletir sobre um cristianismo vivido no oba-oba.

 

Sugestões para a meditação

§ A maioria de nós iniciou a caminhada da fé cristã sem reflexão e consciência sobre as exigências que ela comportaria

§ O que tínhamos presente era apenas um conjunto de obrigações e proibições de ordem moral, que não tocavam nos bens

§ Hoje, com a aguda consciência que temos, precisamos renovar essa opção avaliando bem os custos e as nossas possibilidades

§ O que é que está nos pressionando mais e tornando menor nossa adesão ao Evangelho, dificultando a nossa perseverança?

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

A lei e o estômago

O direito de comer está acima do direito de propriedade

828 | 06 de setembro de 2025 | Lucas 6,1-5

Na cena imediatamente anterior que meditamos ontem, Jesus afirma que seus discípulos devem viver a alegre e boa novidade do Reino de Deus, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos” rigorosos, que levam a formar guetos de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais. Hoje, Jesus volta à questão: a pessoa e suas necessidades estão acima de toda lei e do culto.

É sábado e, desta vez, Jesus não está na sinagoga, mas se deslocando com seus discípulos pelos campos. Sentindo fome, eles colhem e comem trigo de uma plantação que não lhes pertence. Os fariseus observam que eles caminham e colhem num dia que não é permitido fazê-lo. E, além disso, percebem que eles não respeitam o “sagrado direito” da propriedade privada. Não se trata simplesmente de costumes religiosos, mas de leis econômicas que causam insegurança alimentar.

Segundo a mentalidade dos fariseus, os discípulos de Jesus cometem dois pecados: não respeitam as proibições da lei que impõe repouso no sábado; roubam alimento da propriedade alheia. A segunda acusação não aparece claramente, mas é aludida no fato citado por Jesus para sua própria defesa: Davi e seus companheiros, estando com fome, se apossam e comem do pão reservado aos sacerdotes. A vida tem prioridade, inclusive, sobre a “sagrada” lei da propriedade privada!

Jesus responde à acusação dos fariseus com duas críticas à postura deles: embora se apresentem como defensores da tradição e da lei de Deus, eles desconhecem o sentido mais profundo das escrituras (“acaso vós não lestes?”); eles resistem a reconhecer Jesus como o enviado autorizado e Filho de Deus, que é o legislador e, por isso, está acima das leis (“o Filho do Homem é Senhor também do sábado”).

Algumas leis e costumes, por mais importantes que pareçam aos olhos de alguns, se contrapõem ao Evangelho, são como tecido velho irrecuperável ou como barril danificado. Neste momento da história do Brasil, com polarizações e mentiras que enganam e embrutecem, há quem insista que a lei do equilíbrio fiscal é intocável. Se, por causa disso, o povo não tem acesso à cultura, morre de fome ou por falta de atendimento médico, isso pouco importa a eles.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome a cena, inserindo-se na caminhada de Jesus com seus discípulos, sob o olhar crítico dos fariseus

§ Procure entender com exatidão a crítica que as lideranças religiosas (fariseus) fazem aos discípulos e a Jesus

§ Como você se sente diante da afirmação de Jesus, de que ele é senhor das leis e instituições, e está acima delas?

§ Você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades e a dignidade das pessoas?

Semana da Pátria

 Celebrar a independência defendendo a soberania

Estamos na semana da pátria, e o patriotismo tem se tornado um conceito disputado. Faz tempo que a comemoração da independência se tornou palanque para discursos e apelos desencontrados. Há décadas as manifestações têm sido pouco populares e muito militares. Será que o amor à pátria vigora puro apenas nas casernas? A fé cristã rima com paz, e não com desfiles que ostentam armas e glorificam guerras. Paulo nos pede que, por amor a Jesus Cristo, tratemos a todos, inclusive os escravos, como irmãos (cf. Fm 16).

Lembro sem saudades, e com um certo constrangimento, as celebrações eufóricas que marcaram os 150 anos da independência, em 1972. Ainda adolescente, e sem nenhuma consciência de que a “pátria mãe gentil” era governada pelo medo e muitos patriotas verdadeiros haviam sido mortos ou expulsos, eu cantava emocionado: “Potência de amor e paz, esse Brasil faz coisas que ninguém imagina que faz...” Eram os tempos da ordem de amar o Brasil ou deixá-lo (como se os exilados haviam deixado o Brasil por não amá-lo).

Posteriormente, com um pouco mais de consciência, eu ficava incomodado ao constatar que as escolas não sabiam celebrar essa data senão com eventos que imitavam os desfiles militares. Manifestações de defesa da soberania diante dos novos colonizadores e de crítica aos “podres poderes” de plantão, reivindicações de igualdade e justiça, expressões dos sonhos e utopias do povo eram mal vistas e, não poucas vezes, proibidas.

Hoje, em meio a novas tentativas de apropriação ideológica das cores e símbolos nacionais, urge libertá-los do sequestro que estão sofrendo. Se conseguimos, como cantamos no Hino, o penhor da igualdade entre as nações soberanas com braço forte, não é somente no seio da liberdade que precisamos estar prontos a desafiar a morte: também no seio e no sonho da igualdade e da justiça, precisamos desafiar e desmascarar aqueles que impõem a morte perpetuando a desigualdade e promovendo o entreguismo.  

Qual é o sonho intenso e o raio vívido de amor e de esperança que desce à terra? Não vejo outro melhor que aquele expresso na Constituição de 1988: “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Art. 3º).

Vejo que nossos bosques e florestas, cobiçados e destruídos, clamam por vida; nossos campos já não têm tantas flores, mas foram tomados por muita cana, soja, café, gado, e cercas que limitam nossa vontade de viver e de amar. Por isso, no seio dessa terra, nossa vida, a vida do nosso povo, tem mais dores que amores. Não é verdade que nosso passado é marcado por glórias. E, para que haja paz no futuro, é preciso fazer as contas com ele.

A semana da pátria é tempo apropriado também para levantar um grito retumbante a clava forte da fome de justiça e de igualdade, da defesa da democracia e da soberania, inclusive mediante um plebiscito popular. É dessa luta que um filho não foge. Não ama a “pátria, mãe gentil” quem se cala por medo e conveniência ou fala por ambição e ódio, temendo desagradar senhores e perder privilégios.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

A quem você serve?

ÍDOLOS PRIVADOS

Há algo que é escandaloso e insuportável para quem se aproxima de Jesus a partir do clima de autossuficiência que se vive na sociedade moderna. Jesus é radical na hora de pedir adesão à sua pessoa. O seu discípulo deve subordinar tudo ao seguimento incondicional do seu caminho.

Este não é um conselho evangélico para um grupo de cristãos seletos ou uma elite de esforçados seguidores. É a condição indispensável de todo discípulo. As palavras de Jesus são claras e rotundas. «O que não renuncia a todos os seus bens não pode ser meu discípulo».

Todos nós sentimos nas profundezas do nosso ser o anseio de liberdade. E, no entanto, há uma experiência que continua a impor-se geração após geração: o ser humano parece condenado a ser escravo dos ídolos. Incapazes de sermos autossuficientes, passamos a vida à procura de algo que responda às nossas aspirações e desejos mais fundamentais.

Cada um de nós procura um deus para viver, algo que inconscientemente convertemos no essencial da nossa vida, algo que nos domina e se apodera de nós. Procuramos ser livres e autônomos, mas, aparentemente, não podemos viver sem nos entregarmos a algum ídolo que determina toda a nossa vida.

Esses ídolos são muito diversos: dinheiro, sucesso, poder, prestígio, sexo, tranquilidade, felicidade a todo custo... Cada um conhece o nome do seu «deus privado», a quem entrega secretamente o seu ser. Por isso que, quando num gesto de liberdade ingênua, fazemos algo porque nos apetece, temos de nos perguntar o que é que nos domina naquele momento e a quem estamos realmente obedecendo.

O convite de Jesus é provocador. Só há um caminho para crescer em liberdade, e só o conhecem aqueles que ousam segui-lo incondicionalmente, colaborando com Ele no projeto do Pai: construir um mundo justo e digno para todos.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Roupa nova e vinho novo

É festa de casamento, e o vinho novo é o melhor!

827 | 05 de setembro de 2025 | Lucas 5,33-39

Depois da pesca frutuosa e do chamado de Pedro e seus companheiros de trabalho, nas cenas que a sequência litúrgica trata noutras oportunidades, Jesus cura um leproso (v. 12-16) e um paralítico (v. 17-26), chama o publicano Mateus a segui-lo e vai à casa dele se confraternizar com outros cobradores de impostos e pecadores (v. 27-32). Isso provoca desconforto nos fariseus, que começam a questionar as práticas religiosas de Jesus e o comportamento dos seus discípulos.

Ao interpelar Jesus a respeito do comportamento dos discípulos, os fariseus querem atingir o próprio Jesus. O ponto de discordância é o jejum praticado pelos fariseus e também por João Batista e seus seguidores. Jesus e seus discípulos fazem pouco caso do jejum e priorizam a festa e a confraternização. Levi se converte ao Evangelho de Jesus e, ao invés de fazer jejum, organiza uma festa, para a qual convidou outros cobradores de impostos. É quase uma provocação às tradições dos judeus.

Na sua resposta, Jesus não despreza o jejum, mas justifica a alegria e a esperança que nascem da chegada do Reino de Deus. E faz isso recorrendo a duas sentenças ou parábolas que contrapõem uma realidade velha e uma novidade. A palavra “novo” aparece quatro vezes nestes versículos, e se refere ao Reino de Deus, à nova Aliança assinada por Jesus. Nesta aliança-casamento, Jesus é o noivo da humanidade, e o vinho e o vestido apontam para a festa e a alegria.

Quem entra na lógica do Reino de Deus assume um estilo de vida divergente a alternativo àquele vivido como fachada e de um modo superficial: a purificação que agrada a Deus e faz bem às pessoas é interior, e não exterior. Para alguns judeus, mormente os mais piedosos, a abertura à novidade do Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus é difícil, e eles preferem remendos numa roupa velha ou o vinho velho, ao qual já se habituaram, mesmo que tenha perdido qualidade e sabor.

Os discípulos de Jesus são convidados e perceber e viver essa novidade, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos”, rigorosos e excludentes, que levam a formar guetos fechados de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais, e tratam as outras com desprezo, chegando até a atitudes e palavras violentas.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome pacientemente o episódio, começando pelo chamado de Levi e pela festa na casa dele (v. 27-32)

§ Perceba o escândalo e o desconcerto dos fariseus diante da troca da austeridade e do jejum pela confraternização à mesa

§ Deixe-se inspirar pelas imagens do Reino de Deus: o remendo novo em roupa velha, o vinho novo em pipas antigas e a festa da Aliança

§ Você percebe, em você e sua comunidade, sinais da tentação de usar o Evangelho para remendar práticas que nada tem a ver com eles?

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Avançar

Em Jesus, encontramos forças para recomeçar

826 | 04 de setembro de 2025 | Lucas 5,1-11

São João Paulo II buscou no episódio do evangelho de hoje a inspiração com a qual provocou os cristãos na entrada do terceiro milênio: “Avancem para águas mais profundas!” Com isso, quis exorcizar o medo que alguns grupos e setores espalhavam entre os cristãos e, ao mesmo tempo, convocar as comunidades a tornar sua fé e sua vida mais profundas e fecundas.

A aldeia de Nazaré havia rejeitado Jesus, e a cidade de Cafarnaum quis se apossar dele. Jesus sai para outros lugares, e o povo, cansado e abatido, procura Jesus afoito, porque encontra nele acolhida, compaixão e uma Palavra de esperança. Para eles, Jesus é um mestre e um guia confiável, em quem depositavam o que restava de esperança. Cercado de gente, Jesus se afasta da praia para poder falar a todos.

É Pedro quem acolhe Jesus em seu barco, cheio de frustrações depois de uma noite de trabalho infrutífero. Depois de ensinar ao povo a Boa Notícia do Reino de Deus de dentro do barco de Pedro, Jesus lhe dá ordens para que lance de novo as redes, deixando as águas superficiais e avançando para águas mais profundas. Mesmo contra a vontade e na contracorrente das evidências, Pedro recomeça o trabalho, em obediência e por causa da Palavra ou do mandato de Jesus. É a Palavra de Jesus que lhe abre novas possibilidades.

Com o resultado surpreendente e inesperado da pesca, inicia-se entre Pedro e Jesus um diálogo que antes parecia truncado. Pedro reage assustado, como acontece com alguém diante de uma manifestação divina. Reconhecendo-se pecador, passa de pescador sabido e autossuficiente a discípulo e aprendiz de Jesus. Pedro não entra sozinho neste processo, porque outros companheiros são chamados e o acompanham, movidos por uma experiência igualmente inesquecível.

O chamado e a missão não são acontecimentos individuais e interiores, mas acontecem no interior de um povo que se reúne para escutar a Palavra. Os discípulos de Jesus precisam superar a tentação da segurança e da rotina. Precisam ousar, inovar, ir mais fundo, superar a tentação da acomodação e da superficialidade. Precisam se tornar especialistas em capturar gente para a vida (‘pescar’). É a Palavra de Jesus, que garante a fecundidade da missão e a nossa realização como pessoas.

                       

Sugestões para a meditação

§ Retome pacientemente o episódio, com atenção à relação de Jesus com o povo, com Pedro e com os demais pescadores

§ Permita que Jesus entre no barco dos seus afazeres, quem sabe vazio de expectativas e cheio de decepções e falências

§ Escute o convite de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lança as redes para a pesca...” O que isto significa para você hoje?

§ Como está sua sede da Palavra de Deus? Ela é suficiente para levar você a começar de novo quando nada parece promissor?

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Jesus e a sogra

Deus se inclina sobre o ser humano e o coloca de pé

825 | 03 de setembro de 2025 | Lucas 4,38-44

Na cena que meditamos ontem, vimos que Jesus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Ao mesmo tempo, Jesus devolve a palavra e a autonomia às pessoas socialmente e psicologicamente anuladas. Hoje, Lucas nos mostra a continuação desse ministério da compaixão, um ministério que não reconhece os limites de lugar ou de destinatários. Jesus tem diante dos olhos a humanidade e o mundo todo, e desconhece nacionalismos e discriminações.

A cura da sogra de Pedro, que está acometida de forte febre, demonstra que Jesus não está preocupado com gestos espetaculares, mas com ações que possibilitam o resgate da vida das pessoas oprimidas e marginalizadas. Deus não se compraz nos espetáculos, mas na libertação e emancipação das vítimas! Jesus entra numa casa de pescadores e vai ao encontro de uma mulher. A missão de Jesus é superar o mal e suas raízes. Ele se recusa a ser um simples curador.

Na casa da sogra de Pedro ocorre a manifestação silenciosa de uma Palavra que cura. Inclinando-se sobre a sogra de Pedro, Jesus se inclina sobre a humanidade oprimida e ameaça as forças que a colocam de joelho. Através desse gesto restaurador, as pessoas não reconhecidas em sua dignidade passam a contar, e se tornam servidoras da vida. É isso que acontece com a sogra de Pedro, e conosco: quem experimenta a bondade de Deus em Jesus torna-se discípulo missionário.

Jesus não é um burocrata ou doutor da lei fixado na sinagoga, mas um profeta e um mestre itinerante. Ele é movido pela convicção de que o Reino de Deus não é monopólio de meia dúzia de pessoas. Curando e anunciando o Evangelho de Deus dia e noite e onde quer que seja necessário e oportuno, no final do episódio Jesus se retira e vai ao encontro de outras pessoas noutros lugares. É para isso que se sente enviado. Essa é a vontade do Pai a respeito dele.

Essa atitude de Jesus nos convoca a ser uma comunidade eclesial sempre “em saída”, rumo às periferias, ao encontro das pessoas e suas necessidades. Não podemos ficar na simples e fácil proclamação de que Jesus é o filho de Deus, pois isso até os demônios fazem, e Jesus os cala. Precisamos estar com Jesus, aprender dele e participar da sua missão, carregando também suspeitas que se voltam contra ele.

 

Sugestões para a meditação

§ Retome o episódio, acompanhando a presença de Jesus na casa de Pedro, sua ação incansável em favor do povo e sua saída para outros lugares para lá colocar sinais do Reino de Deus

§ Permita que Jesus se incline sobre você, cure suas enfermidades e faça de você um servidor da vida dos outros

§ Onde e a quem Jesus está pedindo que você sirva hoje? Que males que se hospedam em você ele ameaça e elimina com sua Palavra?

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Cale-se!

Jesus inaugura ares e horizontes de liberdade

824 | 02 de setembro de 2025 | Lucas 4,31-37

Depois da estreia aparentemente malsucedida em Nazaré, Jesus deixa sua terra natal e volta a Cafarnaum, onde já havia atuado e causara forte impressão. Como pregador itinerante, ele prioriza o ensino aos sábados, nas sinagogas, que são lugares de encontro do povo que vive nas aldeias e pequenas cidades. Na sinagoga ele crescera e aprendera, mas também testemunhara a hipocrisia dos líderes religiosos.

As sinagogas são o lugar da Palavra, um espaço controlado de modo quase absoluto pelos doutores da lei e pelos fariseus. E é ali, em dia de sábado, que Jesus realiza o primeiro sinal, ou milagre, narrado por Lucas. E é também ali, e por causa desse sinal, que Jesus começa a ser hostilizado pelos líderes religiosos, e onde ressoa pela primeira vez a pergunta: “Que palavra é essa? Quem é esse homem?”

O primeiro sinal miraculoso realizado por Jesus, que faz parte do seu ministério de emancipação e libertação das pessoas dominadas pelas forças que oprimem e escravizam, é a cura de uma pessoa dominada por um “espírito impuro”. Trata-se de uma pessoa despersonalizada, de alguém que perdeu sua identidade e é conduzida por poderes e forças misteriosas, exteriores a si mesma.

A cena narrada por Lucas deixa transparecer uma luta de mensagens ou uma disputa de espaços entre o Ungido pelo Espírito e os Doutores da Lei. No grito do homem doente não ecoa a sua alma; o que ressoa é a percepção e a voz dos doutores da lei: “Viestes para nos destruir?” A reação do povo é a admiração diante de uma palavra eficaz e libertadora, de uma palavra que tem autoridade.

O Evangelho da misericórdia e da compaixão de Deus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Jesus não vem insistir no cumprimento da lei e no pagamento das dívidas contraídas pelo pecado, mas anunciar e inaugurar um tempo de graça e compaixão. E é isso que incomoda a elite religiosa e impressiona e causa admiração e esperança no povo cansado e abatido.

Grande notícia e belo desafio para os discípulos missionários é este: experimentar, anunciar e testemunhar a boa e alentadora notícia. A resposta de fé suscitada pelo encontro com Jesus não se reduz ao culto e ao louvor, mas pede um engajamento cotidiano na tarefa de libertar os irmãos e irmãs e fazer este mundo melhor.

 

Sugestões para a meditação

§ Sua compreensão sobre o Evangelho do Reino é essa de Jesus: uma boa notícia libertadora para todos os tipos de vítima?

§ Qual é o lugar e a força de transformação que o Evangelho, a Boa Notícia de Jesus, tem na sua vida?

§ O que o Evangelho de Jesus provoca em você: admiração e entusiasmo ou medo e inquietação?