sábado, 5 de abril de 2025

Linchar ou acolher?

O Senhor fez conosco maravilhas! Exultemos de alegria! | 674 | 06.04.2025 | João 8,1-11

No evangelho do último domingo meditamos sobre a parábola dos dois filhos e do pai misericordioso, essa belíssima página do Evangelho segundo Lucas. Neste quinto domingo da quaresma, o evangelista João nos leva à praça do grandioso templo de Jerusalém. Ali, em plena madrugada, homens que se consideravam piedosos e justos – com os mesmos traços do irmão mais velho do último domingo – acusam uma mulher de adultério e pedem que Jesus a julgue.

Jesus e os judeus celebravam o final da Festa das Tendas, que recordava o tempo em que viveram em tendas, na travessia do deserto, e o início do Yom Kippur, o tempo especial de perdão e remissão todas as dívidas. Os mestres da lei e os fariseus transgridem descaradamente o espírito dessas festas e não só tramam a prisão e morte de Jesus como também condenam tacitamente uma mulher ao apedrejamento, sem o mínimo sinal de misericórdia.

Como na parábola do último domingo, Jesus não encobre os erros do filho mais novo, nem passa “panos quentes” na vida supostamente desorientada da mulher. Mas ele chama à revisão de vida e à conversão aqueles que se consideram justos e se arrogam no direito de julgar e condenar os outros: o filho mais velho e aqueles que se apresentaram com pedras nas mãos. Quando a Jesus, trata os pecadores e errantes com misericórdia e oferece um espelho para que os justos se vejam bem.

Não deixa de chamar a atenção o gesto corporal de Jesus diante da mulher jogada no chão à sua frente. Jesus inclina-se diante dela, ignorando aqueles que a acusavam e o questionavam de pé. Coloca-se no nível da mulher, e a olha desde o nível em que ele se iguala a nós: o nível da humanidade nua, sem qualificativos. Ele se ergue apenas para pedir que os acusadores se olhem no espelho e reconheçam quem são. No final, ficam apenas a mulher e ele: a miséria humana diante da misericórdia divina. E a misericórdia jamais condena.

O Papa Francisco diz que a misericórdia é a palavra-chave que a Bíblia usa para falar da relação de Deus com o ser humano e com todas as demais suas criaturas. Tudo o que Jesus realiza, sobretudo em favor dos pecadores, dos pobres, dos marginalizados, doentes e atribulados, estão marcadas pela misericórdia e dela são expressão. Em Jesus, tudo fala de misericórdia, e nele não há nada que seja desprovido de compaixão. Diante dele, não há como não exultar de alegria.

E, para o discípulo de Jesus, a misericórdia não é apenas um princípio entre muitos outros, mas o dinamismo fundamental, aquele que dá concretude e sentido a todas as leis e proibições. A misericórdia é a arquitrave (viga-mestra) que sustenta a vida e a atividade da Igreja. “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.

 

Meditação:

§ Leia atentamente, palavra por palavra, o mandamento de Jesus e os exemplos mais concretos que ele oferece

§ O que é que nos move naquilo que fazemos pelos outros, seja como indivíduos cristãos, seja como Igreja?

§ Que medida usamos nas ações solidárias com os mais vulneráveis, e como avaliamos e julgamos as pessoas?

§ Como seria a nossa Igreja se todas as suas decisões e ações passasse pela estrada do amor misericordioso e compassivo?

Ecologia integral

Mudança de hábitos

“Mudança de Hábito” é o nome de uma comédia que foi grande sucesso de bilheteria. Lançado em 1992, o filme é estrelado por Whoopi Goldberg, competente atriz negra estadunidense. Mas não é sobre cinema que eu quero refletir nessa coluna semanal. A mudança de hábitos (no plural) à qual me refiro não é um artifício para esconder no seguro ambiente de um convento pessoas procuradas pela justiça, mas uma urgência que se impõe para que a humanidade e o planeta tenham futuro.

A Campanha da Fraternidade que acompanha a Quaresma de 2025 põe em pauta a incômoda questão da ecologia integral e da proteção da Casa Comum. Ela não pretende oferecer um kit de soluções fáceis. Uma ação consequente e duradoura só pode vir de “processos de discernimento espiritual, debate coletivo, planejamento comunitário e decisões conjuntas, e tais ações são da alçada de instâncias mais altas de participação e transformação social (cf. Texto-base, § 133).

A meta geral que nos permitirá um futuro como humanidade é a redução imediata das emissões de dióxido de carbono e de metano, através da substituição dos combustíveis fósseis. Movidos por uma esperança realista e responsável, cremos na reserva ética e no potencial de resistência que nos move a buscar e propor medidas efetivas para manter um mínimo de equilíbrio na nossa Casa Comum. Cremos na força que brota da união de esforços científicos com posturas proféticas.

Está claro que não podemos esperar soluções consistentes sem o empenho de todos, e isso passa pela mudança de hábitos individuais e sociais. Reduzir e tratar o lixo que produzimos, combater o desperdício de alimentos, valorizar os modelos alternativos de produção, enfrentar o consumismo doentio, são alguns passos firmes dessa mudança. Mas avançaremos pouco se não enfrentarmos o modelo econômico desenvolvimentista, inclusive aceitando um certo decréscimo no consumo.

É falsa a oposição entre proteção do meio ambiente e desenvolvimento social. Esta é uma desculpa para não mexer no modelo econômico consumista, violento e predador, que agride a natureza na mesma medida em que produz e aumenta a desigualdade social. O combate à desigualdade social passa pela taxação dos setores e países mais ricos e pelas políticas de compensação. O grito da terra e o grito dos pobres são o mesmo grito que ressoa em gargantas diferentes e convergentes.

Ouço vozes que se insurgem contra a inserção da pauta ambiental na caminhada quaresmal. Gritam que é mais urgente e eficaz salvar almas que proteger a natureza. Dizem isso porque estão enganados ou para nos enganar? A água não é mediação para o batismo, o óleo não é expressão do Espírito, o pão e o vinho não são sacramentos do corpo violentado e ressuscitado de Jesus? E o que Paulo quer dizer quando escreve “a criação até agora geme e sente as dores de parto” e “o mundo criado espera ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8,19.22)?

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo diocesano de Santa Cruz do a Sul

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Ninguém falou como ele

Ninguém jamais falou e agiu como Jesus de Nazaré! | 673 | 05.04.2025 | João 7,40-53

O contexto existencial e social no qual se situa o episódio de hoje é especialmente difícil e conflituoso para Jesus. Seus parentes querem que ele vá a Jerusalém para se tornar famoso, indiferentes e resistentes ao caminho de despojamento e solidariedade que ele estava propondo e vivendo. João diz que nem sua própria família acredita nele (cf. Jo 7,1-15).

Jesus vai a Jerusalém para a Festa das Tendas, que celebrava a difícil e longa travessia do povo pelo deserto, fugindo da escravidão de Egito e buscando uma terra livre e partilhada. Mas vai meio sozinho, discretamente. Mesmo assim, sua fala chama a atenção. “Ninguém jamais falou como este homem”, dizem os policiais do templo, para escândalo dos fariseus. Mas as opiniões se dividem e contrapõem.

A chefia do templo já havia decidido prender Jesus, mas até os guardas ficam impressionados ao ouvi-lo. E muita gente se pergunta se ele não seria o Profeta ou o Messias esperado. Mas o preconceito do povo da capital contra a gente da Galileia é uma catarata que os impede de ver. E esse preconceito se volta também contra os pobres e pouco letrados que se deixam atrair por Jesus. “Essa gente que não conhece a lei é maldita”, dizem os fariseus, ecoando o preconceito de todos.

Sobra críticas e ataques pouco fraternos até para Nicodemos, que desfruta de uma posição de liderança entre os fariseus. Quando ele lembra aos seus pares que a Lei que eles defendem e ensinam os proíbe julgar alguém antes de ouvi-lo, é taxado de analfabeto em relação às escrituras e acusado de fazer parte da massa presumivelmente iludida por Jesus. Faltou dizer, como repetem alguns “patriotas” pouco afeitos aos direitos humanos: “Você gosta dele? Vai com ele para Cuba ou Venezuela!”

O preconceito sempre distorce a visão de quem se julga melhor e superior. O medo faz que vejamos demônios e terror por todo lado. A intolerância nos fecha no estreito círculo da “nossa verdade”, que geralmente não tem sustentação na realidade, e impossibilita a fraternidade e a conversão ao Evangelho de Jesus. Precisamos levar Jesus realmente a sério, pois ele revela nossa verdade e nos conduz à autêntica liberdade.

 

Meditação:

·        Situe-se no coração deste debate sobre Jesus, na ausência dele; escute com atenção as opiniões divergentes que diferentes grupos têm sobre ele, e note a intolerância e o fechamento ao diálogo

·        Em que medida nossos preconceitos culturais e religiosos nos impedem de ver e reconhecer hoje a dignidade dos “diferentes” (migrantes, evangélicos, negros, indígenas, ateus, LGBTIQ+)?

·        Será que o medo, o fechamento e o preconceito não está levando alguns grupos religiosos a negar com suas práticas o Evangelho que anunciam com suas palavras?

Nenhum apedrejamento

AMIGO DA MULHER

É surpreendente ver Jesus rodeado de tantas mulheres: amigas queridas como Maria Madalena ou as irmãs Marta e Maria de Betânia; seguidoras fiéis como Salomé, mãe de uma família de pescadores; mulheres doentes, prostitutas da aldeia... De nenhum profeta se diz algo parecido.

O que encontravam nele as mulheres? Por que as atraiu tanto? A resposta que oferecem os relatos evangélicos é clara. Jesus olha as mulheres com olhos diferentes. Trata-as com uma ternura desconhecida. Defende a sua dignidade. Acolhe-as como discípulas. Ninguém as tinha tratado assim.

As pessoas de então viam as mulheres como uma fonte de impureza ritual. Quebrando tabus e preconceitos, Jesus aproxima-se delas sem qualquer receio, aceita-as à sua mesa e até se deixa acariciar por uma prostituta agradecida.

A sociedade considerava-as como ocasião e fonte de pecado. Desde a infância os homens eram advertidos para não caírem nas suas artes de sedução. Jesus, porém, sublinha a responsabilidade dos homens: «Todo aquele que olha para uma mulher desejando-a já cometeu adultério no seu coração».

Compreende-se a sua reação quando é apresentado a uma mulher apanhada em adultério, com a intenção de a apedrejar. Ninguém fala do homem. Era o que sempre ocorria naquela sociedade machista. A mulher é condenada porque desonrou a família e o homem é facilmente desculpado.

Jesus não suporta esta hipocrisia social construída pela dominação dos homens. Com simplicidade e coragem admiráveis, põe verdade, justiça e compaixão: «Aquele que não tem pecado, que atire a primeira pedra». Os acusadores retiram-se envergonhados. Sabem que são os maiores responsáveis pelos adultérios que são cometidos naquela sociedade.

Jesus dirige-se com ternura e respeito àquela mulher humilhada: «Tampouco eu te condeno». Vai-te, continua a caminhar na tua vida e, «doravante, não peques mais». Jesus confia nela, deseja-lhe o melhor e encoraja-a a não pecar. Mas nenhuma condenação sairá dos seus lábios.

Quem nos ensinará a olhar hoje para as mulheres com os olhos de Jesus? Quem introduzirá na igreja e na sociedade a verdade, a justiça e a defesa da mulher ao estilo de Jesus?

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Caminhando para a Páscoa

Jesus revela o rosto e o coração de Deus em suas ações | 672 | 04.04.2025 | João 7,1-30

A proposta litúrgica do tempo quaresmal não obedece à sequência literária nem ao progresso temporal dos textos dos evangelhos, mas a uma lógica temática, enfatizando o progresso na conversão pessoal, comunitária e social. O texto de hoje está localizado em plena ação apostólica de Jesus, num momento especialmente crítico.

Estando na Galileia, Jesus é abordado pelos seus próprios familiares, que fazem pressão para que ele suba a Jerusalém com o objetivo de ampliar sua influência sobre o povo e aumentar sua fama. Isso revela que seus parentes esperam usufruir das vantagens de ter um familiar famoso. Este não é o projeto de Jesus, e nem seus familiares acreditam nele.

Diante da recusa de Jesus, seus parentes sobem sozinhos a Jerusalém para a festa das tendas, que celebra a memória da travessia do deserto. Jesus vai a Jerusalém mais tarde, discreto e, ao mesmo tempo, absolutamente convicto de que o templo e suas instituições não tinham nada a dizer sobre os novos tempos do Reino de Deus que ele inaugurava com suas ações, anunciava com sua pregação e explicava com sua catequese.

Mas a discrição de Jesus não impede que sua presença seja percebida. E as pessoas se questionam sobre ele, já que ele não tem nada de especial que o identifique com o profeta esperado, a não ser suas ações de emancipação e libertação, aliás, radicalmente questionadas pelas lideranças religiosas. E os peregrinos se perguntam por que as autoridades não o prendem.

Os cidadãos de Jerusalém, mergulhados na ideologia veiculada pelo templo e seus ministros, refutam a identidade messiânica de Jesus e afirmam que sabem de onde ele vem: seu sotaque indica que é galileu. Quanto ao Messias, ensinava a tradição, ninguém saberia de onde viria. Mas Jesus responde a eles com ironia e coragem: eles não sabem de onde virá o Messias, e também não conhecem Aquele que o envia.

Na verdade, Jesus questiona o saber usado como muro protetivo contra as surpresas de Deus e como álibi para evitar a necessária conversão. Não podemos falar de Deus ou imaginá-lo passando ao largo de Jesus, seu filho amado e seu enviado autorizado. Ninguém chega ao Pai sem passar por Jesus Crucificado, presencializado no rosto dos pobres e das vítimas.

 

Meditação:

§ Situe-se no coração do debate de Jesus com seus familiares e com os cidadãos da capital, lendo o texto inteiro

§ Você conhece pessoas, grupos ou igrejas que “usam” o nome de Jesus para levar algum tipo de vantagem?

§ Você é capaz de perceber o alcance político e social da pregação e da prática de Jesus, ou vê nele apenas um líder espiritualista?

§ Você tem levado a sério Jesus (seu ensino e sua prática) para fazer uma ideia de Deus e falar dele?

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O Evangelho é a luz do meu caminho

Oxalá o Evangelho de Jesus Cristo encontre morada em nós! | 671 | 03.04.2025 | João 5,131-47

O episódio de hoje nos apresenta a continuidade do debate de Jesus com as autoridades do judaísmo. A polêmica emergiu depois que Jesus curou, emancipou e libertou um paralítico, símbolo de uma multidão de excluídos, sem pedir licença a ninguém e desobedecendo às proibições legais relativas ao sábado. A misericórdia que lhe era negada na “porta da misericórdia” (Betesda), ele a encontra em Jesus de Nazaré.

O debate gira em torno da questão da identidade de Jesus e do “mandato” ou “procuração” para que ele possa fazer o que faz: curar doentes, perdoar pecados, transgredir as leis, ensinar novas interpretações da lei, etc. Na verdade, enquanto as autoridades religiosas estão interessadas apenas em defender a Lei e assegurar o Sistema que impõe fardos aos mais vulneráveis, Jesus está interessado em ajudá-los a viver plenamente, a alcançar a autonomia, sem dominações ou restrições.

Hoje o debate é sobre o testemunho que confere credibilidade ao que Jesus está fazendo e à sua pretensão de ser o messias e o filho de Deus. Como prova da autenticidade divina daquilo que faz, Jesus cita João Batista, mas também sublinha que ele prescinde de testemunhos humanos. E enfatiza que são suas próprias relações ou obras de compaixão em favor dos pobres e vulneráveis que o acreditam como enviado de Deus.

Além disso, Jesus reivindica a seu favor o testemunho das Sagradas Escrituras como um todo. Segundo ele, o que elas testemunham com clareza é que Deus sempre ouve o clamor dos oprimidos e intervém para assegurar-lhes a dignidade, a liberdade e a vida. Essa é a Vontade e a Lei de Deus, e isso está acima de todos os costumes, interesses e sistemas, sejam eles religiosos, políticos ou econômicos.

De tabela, Jesus acusa as autoridades religiosas de “analfabetismo bíblico” e de busca doentia de aplausos. Elas não conhecem a fundo as leis que Deus nos deu através de Moisés, torcem as coisas para garantir seus interesses e amealhar apoios e aplausos dos seus comparsas. Eles não têm o amor de Deus neles mesmos, só pensam em si mesmos e bajulam-se reciprocamente.

 

Meditação:

§ Situe-se no coração do debate, suscitado pela ação de compaixão de Jesus em favor de uma pessoa vulnerável e necessitada

§ Você é capaz de reconhecer nas ações de Jesus as provas claras de que ele vem de Deus e realiza a vontade dele? Em quais delas?

§ Como você descreveria a imagem de Deus que você a credita: ele é pai, amante da vida, próximo de nós, compassivo com os fracos?

§ Será que também nós corremos o risco de colocar nossa vontade e nossos costumes no lugar que cabe à Vontade de Deus?

§ Onde buscamos a confirmação das nossas decisões e ações: no Evangelho e na vida de Jesus, ou no aplauso dos apoiadores?

terça-feira, 1 de abril de 2025

Eu trabalho sempre como meu Pai

O Senhor consola o seu povo e se compadece dos pobres | 670 | 02.04.2025 | João 5,17-30

A cena do evangelho de ontem terminava com um paralítico curado e caminhando livre, carregando sua cama em pleno dia de sábado, e com as autoridades decidindo prender e condenar Jesus à morte. Eles estavam interessados apenas em defender o aparato legal e religioso, sem a mínima empatia com o povo cansado e abatido.

No texto de hoje, que segue a cena de ontem, Jesus enfrenta as acusações levantadas pelas autoridades do templo. Para Jesus, o sexto dia da criação ainda não terminou, e Deus não descansa enquanto suas criaturas não cheguem à vida plena. Jesus ousa chamar Deus de pai, sublinhando que ele é sua origem e o fundamento da sua ação, que tem com ele uma relação que os escribas nem imaginam. Ele faz aquilo que aprende do Pai.

A reação do templo e das lideranças que o sustentam e dele vivem se torna cada vez mais violenta. Jesus não deixa por menos, e repete, de diversas formas, que o Pai é a base, o fundamento e a origem do seu ser e das suas ações. Apelando à experiência comum, Jesus diz que o filho só faz o que aprende do pai; que quem honra o filho honra, na verdade, seu pai; que ele dá realismo à profecia de Ezequiel, que faz os ossos secos recobrarem vida.

De diversos modos, Jesus se apresenta como o único conhecedor e mediador da vontade e da ação de Deus. Assim, desmascara a pretensão dos doutores da lei e dos sacerdotes, e solapa a autoridade deles junto ao povo. O que eles fazem e impõem não tem nada a ver com a vontade de Deus. O que Jesus faz, na emancipação do mendigo à beira da piscina e em diversas outras ações libertadoras, pode ser comparada à ressurreição dos mortos.

Por fim, Jesus acusa as autoridades do templo de julgar os outros a partir dos interesses deles mesmos e do templo. Enquanto isso, o julgamento de Jesus (intervenção libertadora em favor das pessoas vulneráveis) não é expressão da sua vontade e dos seus interesses, mas da vontade de Deus, seu e nosso pai. Amanhã, voltaremos à lição que Jesus passa às autoridades do templo. Por hoje, fiquemos com o alerta de que a conversão ao Evangelho é mais difícil que a simples mudança dos costumes.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus e a raiva que ele suscita nas autoridades religiosas

§ Deixe-se levar, envolver e iluminar pela metáfora da relação entre pai/mãe e filho/filha, que Jesus usa para justificar suas ações

§ Você percebe na Igreja e na sociedade de hoje pessoas que estão mais interessadas na defesa das leis que na defesa das pessoas?

§ Como podemos pôr hoje em prática a empatia, a compaixão e o compromisso de Jesus com a defesa das pessoas vulneráveis?

§ Porque muitos de nós ainda acham que agrada mais a Deus a defesa das leis e dos costumes que a defesa dos direitos humanos?

segunda-feira, 31 de março de 2025

O encontro vivo com Jesus liberta

O encontro vivo com Jesus nos liberta e nos emancipa | 669 | 01.04.2025 | João 5,1-16

Segundo o evangelho de João, esta é a segunda vez que Jesus vai a Jerusalém, mas desta vez não se diz que ele foi ao templo. João também não diz qual era a festa que se celebrava naquele momento. Mas isso não importa, porque Jesus relativiza tanto o templo como as festas religiosas promovidas nele. O templo não é mais o lugar da memória, da fé e da vida!

A piscina conhecida como casa da misericórdia não promove misericórdia nenhuma. Em torno dela temos um retrato da multidão de gente excluída que se amontoa em Jerusalém. Somente os “puros”, os “bons” podem entrar no templo, e é o próprio templo que impõe a lei segundo a qual somente “os primeiros” seriam beneficiados com a esperada cura.

O homem paralisado há trinta e oito anos é figura da imensa maioria do povo: excluída sem piedade do templo e das suas festas religiosas. No templo não há lugar para a fé que liberta, mas vigora a competição que exclui e a perseguição que mata, como comprovará Jesus. Assim como o templo e suas festas não servem para nada, também a água da piscina, como a água do poço de Jacó, só consolidam e aumentam a discriminação.

Jesus visita Jerusalém sem chamar a atenção sobre si, e nem sequer se apresenta à multidão excluída e ao homem paralisado que esperam em torno da piscina. Ele também não dá a mínima importância para o templo e suas leis. Jesus sabe que as festas são ocasionais e que a exclusão é permanente. Sabe também que a Lei e o Templo não libertam ninguém, pois são os próprios causadores da prostração e da exclusão do povo.

Jesus não mergulha o paralítico na água, nem o manda lançar-se na piscina. Ele simplesmente ordena que ele se levante e caminhe por si mesmo, libertando-o das amarras e fardos da lei. A cama na qual estava preso é exatamente o símbolo da Lei! Estimulado por Jesus, o homem, emancipado, não leva mais a Lei em conta e pode peregrinar na esperança.

Por isso, Jesus vai buscar (e não “encontrar”) o homem curado no templo. Ser libertado à margem da Lei e contra as regras do templo e continuar submisso a elas significaria recair no pecado. Na Lei e no Templo ninguém encontra confirmação de sua liberdade nem da sua dignidade, mas apenas discriminação, perseguição e morte.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus em meio à multidão que se acotovelava para conseguir “uma vaga” na água

§ Observe atentamente cada palavra que Jesus fala e cada gesto ou ação que ele executa, captando seu sentido profundo

§ Você consegue perceber como o episódio é uma denúncia forte contra o uso das leis e cultos para manter as pessoas dominadas?

§ O que a palavra e a prática de Jesus nos ensina sobre o uso abusivo da religião para premiar alguns e submeter multidões?

domingo, 30 de março de 2025

A força da Palavra

Quem acredita na Palavra de Jesus verá a vida se multiplicar | 668 | 31.03.2025 | João 4,43-54

Esta cena está literariamente situada logo após a cena do encontro e diálogo de Jesus com uma mulher samaritana. E nós a contemplamos e acolhemos sua mensagem no contexto litúrgico e espiritual da adesão à Boa Notícia do Reino de Deus e da conversão a ela, como sublinha o tempo quaresmal. Converter-se é acreditar no Evangelho e assumi-lo como regra.

Jesus está voltando para a região onde se criara, passando pela complicada região da Samaria: marcado pelo desprezo pelo pessoal da Judeia, os samaritanos devolviam na mesma moeda. Mesmo sabendo que os profetas são desprezados em sua própria terra, ele é recebido com boa disposição, pois seus cidadãos haviam sido informados das ações de Jesus na capital.

Informado sobre os sinais que Jesus realizara no templo (expulsara os vendedores), um funcionário do rei busca em Jesus uma ajuda para seu filho, que está gravemente enfermo. Quer que Jesus o cure, ao que parece, preferencialmente com um milagre grandioso e espetacular.

Ao menos, é isso que que Jesus denota na sua resposta ou advertência ao funcionário da corte. Quem é habituado aos corredores do poder, age como tal e espera que Deus também intervenha no mundo com gestos de poder. Ele mesmo trata o filho como dependente de um chefe, pois o chama de “menino”, expressão que caracteriza menoridade.

O funcionário se dá conta que imagina Jesus apenas como uma autoridade corajosa, poderosa e reformista, e pede a Jesus para “descer”. Esse verbo diz mais que um movimento físico, e alude ao nível humano. Jesus declara que o filho dele vive, sem dizer que ele estava curado. Jesus não vai a Cafarnaum, mas “desce”: não realiza um gesto de poder, mas um gesto humano, tão humano que revela sua divindade.

O funcionário do rei reconhece a força da Palavra de Jesus e obedece a ela. É a Palavra de Jesus que devolve a vida. O funcionário precisa ir e ver, mas não há nenhum gesto grandioso. Ele não deve tratar o filho como dependente (“menino”) mas como filho. Jesus atende o pedido desse homem pagão e próximo ao poder sem pedir nada em troca, pois está disposto a ajudar a todos. Mas tudo acontece quando Jesus e o funcionário “descem” da esfera das relações de poder à esfera das relações humanas.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude do funcionário do rei, assim como a postura e as palavras de Jesus

§ Você percebe como o funcionário real demonstra pensar, falar e agir segundo a lógica das funções de poder?

§ Em que medida também nós esperamos de Jesus gestos e ações espetaculares, que dispensem nossa colaboração?

§ Que mudanças em nosso modo de pensar e de agir esta cena pede de nós, enquanto caminhamos para a páscoa?

sábado, 29 de março de 2025

Reconciliemo-nos!

Reconciliemo-nos com Deus, com os irmãos e com a natureza! | 667 | 30.03.2025 | Lucas 15,1-3.11-32

Avançando em nossa caminhada quaresmal, neste quarto domingo a Igreja nos brinda hoje com uma das mais belas e conhecidas páginas dos evangelhos: a conhecida parábola do filho pródigo, que seria mais justo chamar de “parábola do pai misericordioso”. Explico: partindo das tensões descritas nos versos 1-3, fica claro que os protagonistas são o pai e o filho mais velho, e o personagem central da cena não é o filho mais novo.

Enquanto os publicanos e demais categorias de gente considerada “pecadora” se aproximam e confraternizam com Jesus, os fariseus o acusam de aliar-se com gente suspeita. Evidentemente, quem critica e acusa se sente melhor que os outros, superior ou com mais méritos que aqueles que são acolhidos por Jesus. E a parábola tem exatamente o objetivo de ilustrar como Deus costuma tratar seus filhos e filhas.

Observemos que o pai tem dois filhos: o filho mais novo cai na miséria mais extrema, vivendo como estrangeiro e forçado a se alimentar da ração dada aos porcos (imagem dos publicanos e demais pecadores); o filho mais velho, cumpridor minucioso das leis e costumes, tem tudo e mais do que necessita (figura dos fariseus). O primeiro tem a sensação de não ser filho de Deus; o segundo, se vê cheio de direitos e não aceita a misericórdia.

O pai, que é figura e imagem do Deus do Reino, em nome de quem Jesus age, trata a ambos como filhos necessitados de acolhida e amparo, mesmo que não mereçam este tratamento. O pai não se interessa pela contrição do filho em situação de miséria e nem deixa que ele termine seu “ato de contrição”. Deus é Pai, e não juiz ou delegado de polícia! Ele não trata ninguém como empregado, pois todos são seus filhos, e jamais deixam de sê-lo. Neste mundo, que é sua casa, ele não quer que uns fiquem com tudo e outros fiquem sem nada, que uns lamentem e outros festejem.

É claro que esta parábola é um chamado contundente à conversão. Mas este chamado é dirigido ao filho mais velho! É ele que não reconhece o amor do pai, não dialoga com o irmão, não o reconhece como tal, nega a fraternidade que torna todos iguais, e defende a primazia do mérito, que nos separa e nos coloca uns acima dos outros. O filho mais novo, mais necessitado, entra para a festa. E o filho mais velho, será capaz de fazê-lo?

 

Meditação:

§ Leia atentamente essa parábola, considerando os versículos iniciais e a atitude do pai e do irmão mais velho

§ Qual é hoje a reação dos cristãos diante do chamado da Igreja e do Papa a uma fraternidade sem fronteiras e a uma ecologia integral?

§ Como você se sente diante dessa parábola? Você concorda e aceita tranquilamente a atitude do pai?

§ Com qual dos três personagens você se sente identificado? Com qual deles precisa se identificar para seguir Jesus de verdade?