quinta-feira, 3 de abril de 2025

Caminhando para a Páscoa

Jesus revela o rosto e o coração de Deus em suas ações | 672 | 04.04.2025 | João 7,1-30

A proposta litúrgica do tempo quaresmal não obedece à sequência literária nem ao progresso temporal dos textos dos evangelhos, mas a uma lógica temática, enfatizando o progresso na conversão pessoal, comunitária e social. O texto de hoje está localizado em plena ação apostólica de Jesus, num momento especialmente crítico.

Estando na Galileia, Jesus é abordado pelos seus próprios familiares, que fazem pressão para que ele suba a Jerusalém com o objetivo de ampliar sua influência sobre o povo e aumentar sua fama. Isso revela que seus parentes esperam usufruir das vantagens de ter um familiar famoso. Este não é o projeto de Jesus, e nem seus familiares acreditam nele.

Diante da recusa de Jesus, seus parentes sobem sozinhos a Jerusalém para a festa das tendas, que celebra a memória da travessia do deserto. Jesus vai a Jerusalém mais tarde, discreto e, ao mesmo tempo, absolutamente convicto de que o templo e suas instituições não tinham nada a dizer sobre os novos tempos do Reino de Deus que ele inaugurava com suas ações, anunciava com sua pregação e explicava com sua catequese.

Mas a discrição de Jesus não impede que sua presença seja percebida. E as pessoas se questionam sobre ele, já que ele não tem nada de especial que o identifique com o profeta esperado, a não ser suas ações de emancipação e libertação, aliás, radicalmente questionadas pelas lideranças religiosas. E os peregrinos se perguntam por que as autoridades não o prendem.

Os cidadãos de Jerusalém, mergulhados na ideologia veiculada pelo templo e seus ministros, refutam a identidade messiânica de Jesus e afirmam que sabem de onde ele vem: seu sotaque indica que é galileu. Quanto ao Messias, ensinava a tradição, ninguém saberia de onde viria. Mas Jesus responde a eles com ironia e coragem: eles não sabem de onde virá o Messias, e também não conhecem Aquele que o envia.

Na verdade, Jesus questiona o saber usado como muro protetivo contra as surpresas de Deus e como álibi para evitar a necessária conversão. Não podemos falar de Deus ou imaginá-lo passando ao largo de Jesus, seu filho amado e seu enviado autorizado. Ninguém chega ao Pai sem passar por Jesus Crucificado, presencializado no rosto dos pobres e das vítimas.

 

Meditação:

§ Situe-se no coração do debate de Jesus com seus familiares e com os cidadãos da capital, lendo o texto inteiro

§ Você conhece pessoas, grupos ou igrejas que “usam” o nome de Jesus para levar algum tipo de vantagem?

§ Você é capaz de perceber o alcance político e social da pregação e da prática de Jesus, ou vê nele apenas um líder espiritualista?

§ Você tem levado a sério Jesus (seu ensino e sua prática) para fazer uma ideia de Deus e falar dele?

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O Evangelho é a luz do meu caminho

Oxalá o Evangelho de Jesus Cristo encontre morada em nós! | 671 | 03.04.2025 | João 5,131-47

O episódio de hoje nos apresenta a continuidade do debate de Jesus com as autoridades do judaísmo. A polêmica emergiu depois que Jesus curou, emancipou e libertou um paralítico, símbolo de uma multidão de excluídos, sem pedir licença a ninguém e desobedecendo às proibições legais relativas ao sábado. A misericórdia que lhe era negada na “porta da misericórdia” (Betesda), ele a encontra em Jesus de Nazaré.

O debate gira em torno da questão da identidade de Jesus e do “mandato” ou “procuração” para que ele possa fazer o que faz: curar doentes, perdoar pecados, transgredir as leis, ensinar novas interpretações da lei, etc. Na verdade, enquanto as autoridades religiosas estão interessadas apenas em defender a Lei e assegurar o Sistema que impõe fardos aos mais vulneráveis, Jesus está interessado em ajudá-los a viver plenamente, a alcançar a autonomia, sem dominações ou restrições.

Hoje o debate é sobre o testemunho que confere credibilidade ao que Jesus está fazendo e à sua pretensão de ser o messias e o filho de Deus. Como prova da autenticidade divina daquilo que faz, Jesus cita João Batista, mas também sublinha que ele prescinde de testemunhos humanos. E enfatiza que são suas próprias relações ou obras de compaixão em favor dos pobres e vulneráveis que o acreditam como enviado de Deus.

Além disso, Jesus reivindica a seu favor o testemunho das Sagradas Escrituras como um todo. Segundo ele, o que elas testemunham com clareza é que Deus sempre ouve o clamor dos oprimidos e intervém para assegurar-lhes a dignidade, a liberdade e a vida. Essa é a Vontade e a Lei de Deus, e isso está acima de todos os costumes, interesses e sistemas, sejam eles religiosos, políticos ou econômicos.

De tabela, Jesus acusa as autoridades religiosas de “analfabetismo bíblico” e de busca doentia de aplausos. Elas não conhecem a fundo as leis que Deus nos deu através de Moisés, torcem as coisas para garantir seus interesses e amealhar apoios e aplausos dos seus comparsas. Eles não têm o amor de Deus neles mesmos, só pensam em si mesmos e bajulam-se reciprocamente.

 

Meditação:

§ Situe-se no coração do debate, suscitado pela ação de compaixão de Jesus em favor de uma pessoa vulnerável e necessitada

§ Você é capaz de reconhecer nas ações de Jesus as provas claras de que ele vem de Deus e realiza a vontade dele? Em quais delas?

§ Como você descreveria a imagem de Deus que você a credita: ele é pai, amante da vida, próximo de nós, compassivo com os fracos?

§ Será que também nós corremos o risco de colocar nossa vontade e nossos costumes no lugar que cabe à Vontade de Deus?

§ Onde buscamos a confirmação das nossas decisões e ações: no Evangelho e na vida de Jesus, ou no aplauso dos apoiadores?

terça-feira, 1 de abril de 2025

Eu trabalho sempre como meu Pai

O Senhor consola o seu povo e se compadece dos pobres | 670 | 02.04.2025 | João 5,17-30

A cena do evangelho de ontem terminava com um paralítico curado e caminhando livre, carregando sua cama em pleno dia de sábado, e com as autoridades decidindo prender e condenar Jesus à morte. Eles estavam interessados apenas em defender o aparato legal e religioso, sem a mínima empatia com o povo cansado e abatido.

No texto de hoje, que segue a cena de ontem, Jesus enfrenta as acusações levantadas pelas autoridades do templo. Para Jesus, o sexto dia da criação ainda não terminou, e Deus não descansa enquanto suas criaturas não cheguem à vida plena. Jesus ousa chamar Deus de pai, sublinhando que ele é sua origem e o fundamento da sua ação, que tem com ele uma relação que os escribas nem imaginam. Ele faz aquilo que aprende do Pai.

A reação do templo e das lideranças que o sustentam e dele vivem se torna cada vez mais violenta. Jesus não deixa por menos, e repete, de diversas formas, que o Pai é a base, o fundamento e a origem do seu ser e das suas ações. Apelando à experiência comum, Jesus diz que o filho só faz o que aprende do pai; que quem honra o filho honra, na verdade, seu pai; que ele dá realismo à profecia de Ezequiel, que faz os ossos secos recobrarem vida.

De diversos modos, Jesus se apresenta como o único conhecedor e mediador da vontade e da ação de Deus. Assim, desmascara a pretensão dos doutores da lei e dos sacerdotes, e solapa a autoridade deles junto ao povo. O que eles fazem e impõem não tem nada a ver com a vontade de Deus. O que Jesus faz, na emancipação do mendigo à beira da piscina e em diversas outras ações libertadoras, pode ser comparada à ressurreição dos mortos.

Por fim, Jesus acusa as autoridades do templo de julgar os outros a partir dos interesses deles mesmos e do templo. Enquanto isso, o julgamento de Jesus (intervenção libertadora em favor das pessoas vulneráveis) não é expressão da sua vontade e dos seus interesses, mas da vontade de Deus, seu e nosso pai. Amanhã, voltaremos à lição que Jesus passa às autoridades do templo. Por hoje, fiquemos com o alerta de que a conversão ao Evangelho é mais difícil que a simples mudança dos costumes.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus e a raiva que ele suscita nas autoridades religiosas

§ Deixe-se levar, envolver e iluminar pela metáfora da relação entre pai/mãe e filho/filha, que Jesus usa para justificar suas ações

§ Você percebe na Igreja e na sociedade de hoje pessoas que estão mais interessadas na defesa das leis que na defesa das pessoas?

§ Como podemos pôr hoje em prática a empatia, a compaixão e o compromisso de Jesus com a defesa das pessoas vulneráveis?

§ Porque muitos de nós ainda acham que agrada mais a Deus a defesa das leis e dos costumes que a defesa dos direitos humanos?

segunda-feira, 31 de março de 2025

O encontro vivo com Jesus liberta

O encontro vivo com Jesus nos liberta e nos emancipa | 669 | 01.04.2025 | João 5,1-16

Segundo o evangelho de João, esta é a segunda vez que Jesus vai a Jerusalém, mas desta vez não se diz que ele foi ao templo. João também não diz qual era a festa que se celebrava naquele momento. Mas isso não importa, porque Jesus relativiza tanto o templo como as festas religiosas promovidas nele. O templo não é mais o lugar da memória, da fé e da vida!

A piscina conhecida como casa da misericórdia não promove misericórdia nenhuma. Em torno dela temos um retrato da multidão de gente excluída que se amontoa em Jerusalém. Somente os “puros”, os “bons” podem entrar no templo, e é o próprio templo que impõe a lei segundo a qual somente “os primeiros” seriam beneficiados com a esperada cura.

O homem paralisado há trinta e oito anos é figura da imensa maioria do povo: excluída sem piedade do templo e das suas festas religiosas. No templo não há lugar para a fé que liberta, mas vigora a competição que exclui e a perseguição que mata, como comprovará Jesus. Assim como o templo e suas festas não servem para nada, também a água da piscina, como a água do poço de Jacó, só consolidam e aumentam a discriminação.

Jesus visita Jerusalém sem chamar a atenção sobre si, e nem sequer se apresenta à multidão excluída e ao homem paralisado que esperam em torno da piscina. Ele também não dá a mínima importância para o templo e suas leis. Jesus sabe que as festas são ocasionais e que a exclusão é permanente. Sabe também que a Lei e o Templo não libertam ninguém, pois são os próprios causadores da prostração e da exclusão do povo.

Jesus não mergulha o paralítico na água, nem o manda lançar-se na piscina. Ele simplesmente ordena que ele se levante e caminhe por si mesmo, libertando-o das amarras e fardos da lei. A cama na qual estava preso é exatamente o símbolo da Lei! Estimulado por Jesus, o homem, emancipado, não leva mais a Lei em conta e pode peregrinar na esperança.

Por isso, Jesus vai buscar (e não “encontrar”) o homem curado no templo. Ser libertado à margem da Lei e contra as regras do templo e continuar submisso a elas significaria recair no pecado. Na Lei e no Templo ninguém encontra confirmação de sua liberdade nem da sua dignidade, mas apenas discriminação, perseguição e morte.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus em meio à multidão que se acotovelava para conseguir “uma vaga” na água

§ Observe atentamente cada palavra que Jesus fala e cada gesto ou ação que ele executa, captando seu sentido profundo

§ Você consegue perceber como o episódio é uma denúncia forte contra o uso das leis e cultos para manter as pessoas dominadas?

§ O que a palavra e a prática de Jesus nos ensina sobre o uso abusivo da religião para premiar alguns e submeter multidões?

domingo, 30 de março de 2025

A força da Palavra

Quem acredita na Palavra de Jesus verá a vida se multiplicar | 668 | 31.03.2025 | João 4,43-54

Esta cena está literariamente situada logo após a cena do encontro e diálogo de Jesus com uma mulher samaritana. E nós a contemplamos e acolhemos sua mensagem no contexto litúrgico e espiritual da adesão à Boa Notícia do Reino de Deus e da conversão a ela, como sublinha o tempo quaresmal. Converter-se é acreditar no Evangelho e assumi-lo como regra.

Jesus está voltando para a região onde se criara, passando pela complicada região da Samaria: marcado pelo desprezo pelo pessoal da Judeia, os samaritanos devolviam na mesma moeda. Mesmo sabendo que os profetas são desprezados em sua própria terra, ele é recebido com boa disposição, pois seus cidadãos haviam sido informados das ações de Jesus na capital.

Informado sobre os sinais que Jesus realizara no templo (expulsara os vendedores), um funcionário do rei busca em Jesus uma ajuda para seu filho, que está gravemente enfermo. Quer que Jesus o cure, ao que parece, preferencialmente com um milagre grandioso e espetacular.

Ao menos, é isso que que Jesus denota na sua resposta ou advertência ao funcionário da corte. Quem é habituado aos corredores do poder, age como tal e espera que Deus também intervenha no mundo com gestos de poder. Ele mesmo trata o filho como dependente de um chefe, pois o chama de “menino”, expressão que caracteriza menoridade.

O funcionário se dá conta que imagina Jesus apenas como uma autoridade corajosa, poderosa e reformista, e pede a Jesus para “descer”. Esse verbo diz mais que um movimento físico, e alude ao nível humano. Jesus declara que o filho dele vive, sem dizer que ele estava curado. Jesus não vai a Cafarnaum, mas “desce”: não realiza um gesto de poder, mas um gesto humano, tão humano que revela sua divindade.

O funcionário do rei reconhece a força da Palavra de Jesus e obedece a ela. É a Palavra de Jesus que devolve a vida. O funcionário precisa ir e ver, mas não há nenhum gesto grandioso. Ele não deve tratar o filho como dependente (“menino”) mas como filho. Jesus atende o pedido desse homem pagão e próximo ao poder sem pedir nada em troca, pois está disposto a ajudar a todos. Mas tudo acontece quando Jesus e o funcionário “descem” da esfera das relações de poder à esfera das relações humanas.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, observe a atitude do funcionário do rei, assim como a postura e as palavras de Jesus

§ Você percebe como o funcionário real demonstra pensar, falar e agir segundo a lógica das funções de poder?

§ Em que medida também nós esperamos de Jesus gestos e ações espetaculares, que dispensem nossa colaboração?

§ Que mudanças em nosso modo de pensar e de agir esta cena pede de nós, enquanto caminhamos para a páscoa?

sábado, 29 de março de 2025

Reconciliemo-nos!

Reconciliemo-nos com Deus, com os irmãos e com a natureza! | 667 | 30.03.2025 | Lucas 15,1-3.11-32

Avançando em nossa caminhada quaresmal, neste quarto domingo a Igreja nos brinda hoje com uma das mais belas e conhecidas páginas dos evangelhos: a conhecida parábola do filho pródigo, que seria mais justo chamar de “parábola do pai misericordioso”. Explico: partindo das tensões descritas nos versos 1-3, fica claro que os protagonistas são o pai e o filho mais velho, e o personagem central da cena não é o filho mais novo.

Enquanto os publicanos e demais categorias de gente considerada “pecadora” se aproximam e confraternizam com Jesus, os fariseus o acusam de aliar-se com gente suspeita. Evidentemente, quem critica e acusa se sente melhor que os outros, superior ou com mais méritos que aqueles que são acolhidos por Jesus. E a parábola tem exatamente o objetivo de ilustrar como Deus costuma tratar seus filhos e filhas.

Observemos que o pai tem dois filhos: o filho mais novo cai na miséria mais extrema, vivendo como estrangeiro e forçado a se alimentar da ração dada aos porcos (imagem dos publicanos e demais pecadores); o filho mais velho, cumpridor minucioso das leis e costumes, tem tudo e mais do que necessita (figura dos fariseus). O primeiro tem a sensação de não ser filho de Deus; o segundo, se vê cheio de direitos e não aceita a misericórdia.

O pai, que é figura e imagem do Deus do Reino, em nome de quem Jesus age, trata a ambos como filhos necessitados de acolhida e amparo, mesmo que não mereçam este tratamento. O pai não se interessa pela contrição do filho em situação de miséria e nem deixa que ele termine seu “ato de contrição”. Deus é Pai, e não juiz ou delegado de polícia! Ele não trata ninguém como empregado, pois todos são seus filhos, e jamais deixam de sê-lo. Neste mundo, que é sua casa, ele não quer que uns fiquem com tudo e outros fiquem sem nada, que uns lamentem e outros festejem.

É claro que esta parábola é um chamado contundente à conversão. Mas este chamado é dirigido ao filho mais velho! É ele que não reconhece o amor do pai, não dialoga com o irmão, não o reconhece como tal, nega a fraternidade que torna todos iguais, e defende a primazia do mérito, que nos separa e nos coloca uns acima dos outros. O filho mais novo, mais necessitado, entra para a festa. E o filho mais velho, será capaz de fazê-lo?

 

Meditação:

§ Leia atentamente essa parábola, considerando os versículos iniciais e a atitude do pai e do irmão mais velho

§ Qual é hoje a reação dos cristãos diante do chamado da Igreja e do Papa a uma fraternidade sem fronteiras e a uma ecologia integral?

§ Como você se sente diante dessa parábola? Você concorda e aceita tranquilamente a atitude do pai?

§ Com qual dos três personagens você se sente identificado? Com qual deles precisa se identificar para seguir Jesus de verdade?

Por uma ecologia integral

Guardiões e guardiães da obra do Criador

Há alguns anos, quando os movimentos ambientalistas davam seus primeiros passos, eram recorrentes as críticas à Bíblia e aos movimentos religiosos que nela se fundamentam (judaísmo e cristianismo). Dizia-se que a “ordem” de Deus para que o ser humano se multiplicasse, povoasse e dominasse a terra” (cf. Gn 1,22) deu origem e sustentação ao movimento de apropriação, exploração e deterioração da natureza.

Ignorava-se naquele tempo que, por vários milênios, essa “ordem” não provocara danos relevantes. E que isso só veio a ocorrer no alvorecer da era moderna, com a ascensão e hegemonia do paradigma econômico extrativista, industrial e consumista. É nesse período que a ideologia da supremacia absoluta do ser humano sobre as demais criaturas toma corpo e justifica a posse e a exploração ilimitada dos bens.

Graças a esses questionamentos, e à crescente importância que a questão ambiental foi adquirindo nas últimas décadas, o cristianismo fez uma releitura crítica da sua interpretação do texto citado que alguns dos seus pronunciamentos veiculavam ou sugeriam. E formulou o horizonte que possibilita uma compreensão correta e responsável: criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26), o ser humano é por ele chamado a cuidar, guardar e administrar as demais criaturas (cf. Gn 2,8).

Não faz sentido afirmar que a natureza que é violenta e inimiga do ser humano, que ela precisa ser dominada pelo homem, se o próprio Deus a contempla e diz que tudo é muito bom (cf. Gn 1,31).  Não tem fundamento ensinar que há separação ou oposição entre o ser humano e as demais criaturas, se todos somos obra das mãos do mesmo Deus. Um ser humano arrogante e depredador das demais criaturas está muito longe da imagem de Deus segundo a qual foi criado.

É numa relação de mansidão, proteção e cuidado de todos os seres viventes que expressamos nossa semelhança com Deus. A missão que Deus nos confia é “descobrir a beleza, a bondade, a singularidade, a diversidade e a agradabilidade de todos os seres” (Texto-base da CF, § 69).  Qualquer prática de exploração irresponsável, posse absoluta ou destruição criminosa da obra da criação é contrária a essa missão.

Esta compreensão aparece também no pensamento dos povos originários, e é confirmada pela ciência. O pensamento científico afirma que todos os seres vivos, desde a bactéria que surgiu a mais de três bilhões de anos, passando pelos dinossauros e chegando ao ser humano, possuem o mesmo código genético de base, os mesmos 20 aminoácidos e as mesmas bases fosfatadas. De fato, tudo está interligado. Somos todos irmãos e irmãs, mas não nos tratamos como tais.

O Cacique Seattle nos adverte, ainda em 1855: “Ensinai aos vossos filhos o que ensinamos aos nossos: a terra é nossa mãe; ela não pertence ao homem branco, é o homem branco que pertence a ela; se os homens cospem na terra, estão cuspindo em si mesmos; o que fere a terra, fere também os filhos da terra; o homem não tece a teia da vida, mas é apenas um dos seus fios”. Como dizem os Bispos do Brasil: da criação não somos proprietários, mas guardiões (cf. Texto-base da CF, § 129 e 25).

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo diocesano de Santa Cruz do a Sul

sexta-feira, 28 de março de 2025

Quem se eleva será humilhado

Quem se eleva será humilhado, e o humilde será elevado | 666 | 29.03.2025 | Lucas 18,9-14

Só não vê quem não quer, para não ter que mudar de atitude: vivemos numa sociedade polarizada, com grupos contrapostos por ideologias e por disputa de espaços e poderes. O argumento moral – “nós, os cidadãos de bem; eles, os malfeitores, preguiçosos” – é usado com uma frequência espantosa. E a ideologia da meritocracia acabou oferecendo uma justificação adequada a esta divisão social.

Alguém pode se surpreender ao constatar que esta mesma postura estava presente na sociedade e no contexto cultural no qual Jesus de Nazaré viveu e atuou. Naquele tempo, vigorava o muro ideológico e religioso que separava puros e impuros e os colocava uns contra os outros. A ideologia da pureza – que misturava critérios sanitários, religiosos, morais, étnicos e sociais – definia quem era puro e quem era impuro, ou melhor, quem era “cidadão de bem” ou “elemento suspeito”.

Na parábola de hoje, estes dois grupos ou setores sociais estão tipificados no fariseu e no publicado. O primeiro, se considera e é tratado como homem correto, merecedor, justo, superior, ou cidadão digno. O segundo, é visto e tratado como suspeito, sujo, herege, sem dignidade e sem direito ao respeito e à cidadania. Chama a atenção que a prática da oração não os torna iguais perante a Deus, apenas escancara as diferenças.

Para Jesus e seu Evangelho, ninguém pode se arrogar o status de melhor que os outros, superior, honrado, merecedor. Todos – fariseus e publicanos – são pecadores e necessitam de conversão. O fariseu, que manifesta na oração seu orgulho e seu desprezo pelos outros, exatamente por isso também é pecador. A diferença é que o publicano, explicitando a dor da exclusão e a percepção das próprias contradições, é acolhido e justificado, enquanto que o fariseu, que se considera justo, melhor e superior aos demais, continua devendo.

A humildade não é um simples ou falso sentimento de inferioridade, mas a consciência justa e correta daquilo que somos: vazio, dependência, ambiguidade, desejo. É o reconhecimento de que somos todos devedores uns aos outros, de que ninguém – começando por nós mesmos – é maior ou melhor que ninguém. Somos o que somos por graça de Deus.

 

Meditação:

§ Situe-se no templo, como quem foi rezar com o fariseu e o publicano, e observe a postura e as palavras de cada um

§ Com qual deles você se parece quando reza? Você se apresenta diante de Deus ostentando seus méritos?

§ Você considera a humildade uma limitação à sua personalidade e o orgulho e o mérito uma expressão de sua grandeza?

§ Como assumir com serenidade e verdade diante de Deus a nossa condição de pecadores e devedor necessitados de misericórdia?

Um pai e dois filhos

COMO JESUS EXPERIMENTA DEUS?

Jesus não queria que o povo da Galileia sentisse Deus como um rei, um senhor ou um juiz. Ele experimentou-o como um pai incrivelmente bom. Na parábola do bom pai mostrou-lhes como imaginava Deus.

Deus é como um pai que não pensa na sua própria herança. Respeite as decisões dos seus filhos. Não se ofende quando um deles o considera morto e lhe pede a sua parte na herança.

Vê-o sair de casa com tristeza, mas nunca o esquece. Aquele filho poderá sempre voltar para casa sem medo. Quando um dia o vê chegar faminto e humilhado, o pai comove-se, perde o controlo e corre ao encontro do filho.

Esquece a sua dignidade de senhor da família e abraça-o e beija-o efusivamente como uma mãe. Interrompe a sua confissão para poupá-lo a mais humilhações. Já sofreu o suficiente. Não necessita de explicações para o receber como filho. Não impõe qualquer punição. Não lhe exige um ritual de purificação. Não parece sentir sequer a necessidade de manifestar-lhe o seu perdão. Não é necessário. Nunca deixou de o amar. Sempre procurou para ele o melhor.

Ele mesmo se preocupa de que o seu filho se sinta de novo bem. Oferece-lhe o anel da casa e o melhor vestido. Oferece uma festa para toda a cidade. Haverá banquete, música e dança. O filho deve conhecer junto do pai a boa celebração da vida, não a diversão falsa que procurava entre as prostitutas pagãs.

Assim sentia Jesus a Deus e assim o repetiria também hoje a quem vive longe d’Ele e começam a ver-se como «perdidos» no meio da vida. Qualquer teologia, pregação ou catequese que esqueça esta parábola central de Jesus e impede de experimentar Deus como Pai respeitoso e bom, que acolhe os seus filhos e filhas perdidos, oferecendo-lhes o seu perdão gratuito e incondicional, não provém de Jesus nem transmite a sua Boa Nova de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 27 de março de 2025

Ame a Deus acima de tudo

Ame a Deus acima de tudo, e tudo o mais como criaturas irmãs | Marcos 12,28-34

A cena oferecida à nossa leitura neste dia da quaresma, mesmo parecendo bastante tranquila e isenta de provocações, faz parte das armadilhas que os chefes do judaísmo colocam a Jesus com a intenção de acusá-lo e das tensas disputas teológicas e políticas com ele. Não esqueçamos que elas ocorrem no ambiente do templo, do qual Jesus já havia expulsado os comerciantes. Este é o último confronto de Jesus antes de ser preso, condenado, torturado e crucificado.

No centro da disputa de hoje está a questão do primeiro ou principal mandamento da ética religiosa judaica. Quem questiona e chama ao debate é um mestre da lei, que disfarça sua intenção ardilosa falando num tom aparentemente simpático. Ele pergunta pelo “primeiro de todos os mandamentos”. Jesus responde no horizonte de uma ortodoxia cautelosa, mas se atreve a juntar ao mandamento de amar a Deus (cf. Dt 6,4-13), amplamente conhecido e aceito, o mandamento de amar ao próximo (cf. Lv 19,18). “Não existe outro mandamento maior que estes!”

É importante perceber ainda que, no primeiro testamento, o mandamento “ame ao seu próximo como a si mesmo” não vem isolado, mas está situado num conjunto mais amplo de normas que se opõem às práticas de opressão, exploração e indiferença em relação aos mais pobres das tribos de Javé (cf. Lv 19,9-18). Anteriormente, Jesus havia dito que estas normas são violadas abertamente pelos escribas. Para Jesus, o céu precisa vir à terra, e a terra é o único caminho para o céu. Não há lugar para escapismos e espiritualismos de qualquer espécie.

O texto termina dizendo que ninguém mais se atrevia a apresentar armadilhas a Jesus. Ele venceu todos os seus opositores: expulsou os comerciantes do templo, enfrentou as ciladas de fariseus e saduceus sem cair nelas, questionou a legitimidade e os privilégios dos chefes, assumiu seu papel de mestre. Em síntese, “amarrou o homem forte e reconquistou sua casa”, como refletíamos ontem (cf. Mc 3,27).

No caminho da conversão precisamos decidir quem manda em nós: Jesus e seu evangelho da fraternidade, ou o Mercado, que incensa o consumismo individualista e predatório, que trata tudo – as pessoas e todas as demais criaturas – como se fossem bens dos quais pode se apropriar e desfrutar.

 

Meditação:

§ Situe-se no interior da cena, no templo, diante de Jesus e do escriba, especialista nos mandamentos

§ O escriba parece candidato a discípulo, seu tom é simpático, mas é ardiloso e enganador, como os outros

§ Estaríamos nós também comprometidos com a manutenção das relações de dominação e legitimando-as com falsa ortodoxia?

§ Perceba a novidade corajosa de Jesus: ele une o amor a Deus e o amor ao próximo, e faz dos dois um só mandamento