quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

A luz da Palavra

A Palavra de Deus deve brilhar e iluminar

974 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,21-25

No trecho do evangelho de ontem, meditamos e rezamos a partir da parábola da semente da Boa Notícia do Reino de Deus que é jogada em diferentes terrenos: três deles frustram a intenção do semeador, mas um deles produz com abundância, e compensa o fracasso dos outros. Estes são os discípulos que entendem, acolhem, praticam e perseveram no dinamismo do Reino de Deus.

Mas precisamos falar com prudência. Quem pensa que já entendeu o mistério do Reino de Deus pode não ter entendido nada! O próprio Jesus nos adverte: “Prestai atenção no que ouvis!” O Evangelho de Deus não nos é dado para ser parte de um rito religioso, para ser guardado meticulosamente por exegeses e interpretações eruditas e cuidadosas, nem para ser lido apenas em ocasiões especiais ou encontros protocolares.

O Evangelho, tal como foi ensinado e vivido por Jesus, deve brilhar como luz que nos ajuda a ver as pessoas com o olhar de Deus e apreciar os acontecimentos com lucidez e responsabilidade. É ele que revela a maldade escondida em pacotes cuidadosamente embrulhados e a mentira solenemente escondida em discursos tão falaciosos quanto piedosos. É à luz do Evangelho que se revela a relação intrínseca entre fé e vida, entre salvação e libertação.

A Palavra de Deus que, no evangelho de ontem, era comparado à semente, é hoje é comparado com a luz. Da mesma forma que a semente pode ser esterilizada pela inadequação da terra que a recebe, a luz pode perder seu brilho ou desaparecer por falta de compreensão ou falta de coragem. A Boa Notícia do reino de Deus precisa brilhar de modo inequívoco na vida cotidiana dos discípulos e discípulas, ou a fé que proclamam com a boca é uma falácia.

Na exortação Verbum Domini, o Papa Bento XVI escreve que, em Jesus Cristo, a Palavra de Deus, pela qual tudo é criado, se encolhe e abrevia, faz-se tão simples e pequena que, sem perder sua força e eloquência, cabe uma manjedoura. Mas, na cruz, a Palavra se faz silêncio, não porque Deus tenha decidido se calar definitivamente, mas porque, em Jesus crucificado por amor, Deus disse tudo o que tinha para comunicar à humanidade sobre sua natureza e seu amor por suas criaturas. Esta é a generosa medida de Deus! Até onde podemos chegar nós?

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, relacionando-o com a parábola da semente e com o anúncio do Reino e as ações libertadoras de Jesus

O que temos feito com a Boa Notícia do Reino de Deus? A escondemos na liturgia? Deixamo-la na superfície da mente?

Ou caímos na tentação de apossar-nos dela, pervertendo-a em lei pesada ou em doutrina abstrata e sem ressonância na vida?


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Terrenos & sementes

É preciso confiar na força na bondade da terra

973 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,1-20

Marcos nos apresenta duas catequeses ou sermões mais extensos de Jesus: o capítulo 4 (em linguagem parabólica); e o capítulo 13 (em linguagem apocalíptica). Muda a linguagem, mas o tema é o mesmo: as tensões e dificuldades inerentes à missão de Jesus e, por tabela, dos discípulos e discípulas. E o apelo de Jesus também é também o mesmo nos dois discursos: escutar, entender e vigiar.

A crescente polarização entre o “pessoal do templo” e o “pessoal de Jesus” leva Jesus a se retirar de cena para refletir sobre sua missão e intensificar a formação dos seus discípulos e discípulas. Recorrendo às parábolas que têm como fundo a experiência da vida no campo, Jesus quer suscitar nos seus seguidores a esperança diante das desigualdades. É uma espécie de sermão sobre a paciência e a perseverança que devem marcar a vida dos seus futuros missionários.

Contra o realismo cínico daqueles que dizem que nada mudará, que não adianta sonhar e tentar (a falsa sabedoria do senso comum), Jesus apresenta duas parábolas de sementes: a primeira convoca à paciência perseverante e revolucionária; e a segunda incita à esperança apesar das desigualdades e dominações que infestam e ferem a vida dos pobres. Jesus insiste que é preciso escutar e entender as lições dessas duas parábolas.

A parábola do semeador e a explicação que se segue estão no contexto do intenso conflito ideológico entre o ensino e a prática de Jesus e o ensino e a prática dos doutores da lei. Elas refletem os obstáculos enfrentados pela missão de Jesus, mais tarde, pelos seus discípulos. Não são narrativas terrenas com sentidos celestes, mas demonstrações do dinamismo do Reino de Deus nas coisas mundanas, históricas.

Os três tipos de terra inaptos à semente do Reino chamam a atenção para três tipos deficiente de discipulado: o tipo daqueles que se afastam imediatamente depois de escutar o anúncio do Reino de Deus, ancorados num falso bom senso; o tipo daqueles que se entusiasmam e se alegram, mas não compreendem nem acolhem com profundidade a mensagem do Reino de Deus; o tipo daqueles que aderem à dinâmica do Reino, mas desistem sufocados pelas riquezas e outras ambições. Mas há esperança, porque há também aqueles (25%!) que ouvem, entendem, perseveram e dão abundantes frutos. Portanto, vale a pena se a alma não for pequena!

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com a imaginação, prestando atenção na parábola, na reação dos discípulos, no questionamento e explicação de Jesus

Em que medida nossa forma de seguir Jesus também apresenta as deficiências dos três primeiros tipos de terreno?

Você também não é tentado a pensar que nada vale a pena, que nada muda, que tudo está perdido, que só resta salvar a alma?


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A grande família de Jesus

Uma família cristã e sem fronteiras

972 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 3,31-35

Dentro da seção do evangelho de Marcos que trata da ‘cegueira e resistência do mundo’ ou do ministério de Jesus na Galileia, temos a cena que retrata um momento tenso entre Jesus e seus familiares (3,31-35). De volta à sua casa, depois de alguns dias de intensa e tensa atividade em favor dos excluídos da cidadania de Israel, Jesus não tem tempo sequer para se alimentar, muito menos para ficar com sua família. A multidão invade a casa e perturba o convívio familiar.

A ação missionária e emancipadora de Jesus desconcerta e provoca tanta surpresa que a rejeição vai crescendo e até seus familiares ficam contrariados, pensam que ele esteja fora de si e temem pela sua segurança. A mãe e os irmãos de Jesus vão até ele, e ficam impressionados com a sua rigidez mental (ou obsessão) em relação à missão. Eles têm a impressão de que Jesus está preparando a própria ruína, e sentem necessidade de defender a reputação da família.

A família era um dos eixos centrais da sociedade judaica. Mas o parentesco é também a coluna dorsal da ordem social que Jesus luta para derrubar. Os familiares de Jesus ficam do lado de fora e mandam chamá­-lo. Havia um outro grupo de pessoas que estão sentadas ao seu redor. Essa referência aos dois círculos (os que sentam ao seu redor e os que ficam do lado de fora) alude ao grupo dos que não aceitam sua mensagem e sua ação e ao grupo dos que aderem a ele e se fazem discípulos.

Os familiares nem sequer se aproximam, e mandam um recado através de terceiros. Jesus, por sua vez, não os atende nem responde diretamente, revelando um tratamento rude e desconcertante. Na resposta, Jesus afirma um círculo familiar mais aberto e amplo. Olhando para as pessoas que sentadas ao seu redor, Jesus declara que sua verdadeira família é composta por quem se faz seu discípulo, por aqueles que realizam na própria vida a vontade de Deus.

Jesus propõe um novo modelo familiar, baseado na obediência a Deus e não ao patriarca; repudia a velha instituição familiar patriarcal e abre caminho para uma nova família. A unidade fundamental do reino de Deus será a nova família, a comunidade dos discípulos e discípulas. A família deve ser como um porto de onde o navio parte e não como uma doca onde lança raízes e se amarra. E os familiares de Jesus precisam compreender que a família está em função do Reino de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Contemple a cena: Jesus cercado de gente cansada e abatida, totalmente dedicado ao anúncio do Reino, sem tempo para comer

Note com atenção a preocupação inicialmente legítima dos seus familiares com a sua saúde, honra e segurança

Inclua-se pessoalmente no círculo que está sentado em torno de Jesus e escute coo dirigida a você suas palavras