domingo, 26 de julho de 2026

Olhando para a cruz

A palavra de um Deus pregado na cruz

Estava eu em Brasília, participando de um encontro pastoral. Um grande crucifixo, fixado na parede atrás da mesa dos dirigentes, começou a chamar minha atenção. Já vi tantos outros, em muitos lugares diferentes (em templos, parlamentos, hospitais, fóruns, casas, bancos), mas, dessa vez, não consegui silenciar alguns questionamentos insistentes:  o que aquele corpo pendurado na cruz estava fazendo ali, e o que ele estaria a nos dizer.

Aprendi ainda criança o significado da cruz e do corpo que pende nela: é a memória visual do destino que alguns filhos da humanidade à qual pertenço impuseram ao enviado de Deus. Mas, olhando bem, na cruz não vejo uma divindade com os traços que nos ensinaram, nem um ser angélico ou um herói vitorioso, mas um corpo humano, despojado das suas vestes, machucado pela tortura, golpeado até à morte.

Senti um tremor ao lembrar que Jesus de Nazaré foi crucificado fora dos muros que protegiam os cidadãos mais importantes e em meio a dois outros condenados à mesma pena. Por isso, a cruz é muito mais que um símbolo daquilo que foi chamado de cristandade, uma civilização construída sobre os alicerces da guerra, da imposição da fé, da meritocracia, das cruzadas, do poder dos mais fortes, da bandeira dos vencedores.

E a pergunta dava voltas na minha cabeça: O que a cruz faz e diz nessa assembleia de lideranças eclesiais que se reúne em nome do crucificado? O que essa vítima do consórcio entre as elites do judaísmo e os colonizadores romanos fala aos parlamentos e tribunais de hoje? Como Jesus se sente ostentado como joia anexada a cordões caríssimos? Será que é possível esquecer que o crucificado nos remete a um corpo humano violentado?

Na cruz, Deus se faz carne para que toda carne seja revelação de Deus. Faz-se vítima em meio às vítimas para que não se faça mais vítimas em nome dele. Faz-se entrega livre e generosa para sustentar todas as entregas solidárias. Derruba os muros que separam e opõem homens e mulheres que têm a mesma origem e o mesmo destino. Revela-nos a humanidade nua e original, que relativiza todos os títulos e grandezas e a todos iguala.

O Papa Leão XIV nos ensina que “a carne do Filho, pobre e vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu” (Magnifica Humanitas, § 231). Fala-nos, Senhor!

sábado, 25 de julho de 2026

Pérola e tesouro

O Reino de Deus é um tesouro muito precioso

1153 | Tempo Comum | Semana XVII | Domingo | Mateus 13,44-52

Jesus nos apresenta a imagem de uma pessoa que encontra um tesouro no campo do seu patrão. Ao encontra-lo, é tomada pela surpresa, mantém o tesouro escondido e, cheia de alegria, se desfaz de tudo o que tem e compra o campo que esconde o tesouro. Para um simples empregado diarista, este é um negócio arriscado, que só se justifica pelo valor que o tesouro tem a seus olhos. Ele vende e arrisca perder tudo para ficar com o único bem que vale a pena.

Um segundo personagem é um comerciante de pérolas preciosas. Este sim está procurando uma pérola de grande valor e, quando a encontra, vende todos os seus bens e a compra. Este parece ser um negócio um pouco mais seguro, mas é comparável ao anterior no que diz respeito à necessidade de vender tudo para realizá-lo. Em ambos os casos, a experiência de encontrar algo precioso desestabiliza o equilíbrio dos negócios, relativiza a segurança de quem possui e chama a arriscar.

Eis o nosso desafio: tendo descoberto o valor impagável da liberdade e da vida digna de cada pessoa em sua singularidade, o horizonte deslumbrante de um mundo de irmãos e irmãs de fato, precisamos hipotecar ou subordinar tudo o mais – reputação, carreira, bem-estar individual e até família e religião – em função disso. Deus não tem tempo para tratar de pequenos negócios conosco. Seu projeto é vida abundante, para todos, e isso urge. É tudo ou nada. E é para já!

Jesus ensina que o Reino de Deus é também semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes bons e peixes de qualidade questionável. E nós precisamos prestar atenção à sabedoria dos pescadores e não assumir postura de juízes! Um pescador experiente sabe que não é sensato esperar que a rede recolha apenas peixes bons e apropriados para o consumo ou para o comércio.

E o trabalho árduo e criterioso de separar peixes bons e peixes ruins não pode ser feito em alto mar: fica para depois. Estre trabalho de caráter judicial não é de nossa responsabilidade, nem competência de nossas Igrejas e seus hierarcas! Somos apenas peixes, e não estamos seguros da nossa própria qualidade! Deixemos ao fim dos tempos e aos anjos de Deus essa difícil tarefa de separar.

 

Sugestões para a meditação

Você tem consciência da preciosidade inestimável do Reino de Deus, do novo mundo, construído e habitado por homens e mulheres novos?

Você está disposto a investir tudo e ficar apenas com esse tesouro, com esse sonho para guiar sua vida?

Você tem evitado cair na tentação de excluir as pessoas que, no seu modo de ver, não se comportam corretamente, não estão entre “as pessoas de bem”?

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Um precioso tesouro

PROCURAR DEUS

Os estudos sociológicos indicam que a crise religiosa na Europa está a evoluir para uma indiferença cada vez maior. Uma indiferença tranquila, alheia a qualquer reflexão sobre Deus. No entanto, são cada vez mais os que, movidos por uma certa nostalgia de Deus, sentem necessidade de procurar «algo diferente», uma nova forma de acreditar nele. Como procurar Deus hoje?

Sem dúvida, cada um deve partir da sua própria experiência. Não é preciso copiar os outros. Não é necessário fazer nada forçado ou artificial. Cada um conhece os seus próprios desejos e misérias, os seus vazios e medos. Cada um sabe da sua necessidade de Deus. A sua voz nunca se cala. Não grita com os lábios, mas sussurra ao coração.

Por isso mesmo, não basta procurar Deus por fora: nos livros, nas discussões ou nos debates. Uma coisa é discutir religião e outra bem diferente é buscar Deus com coração sincero. Cada um percebe quando está a fugir de Deus e quando o está a procurar de verdade. Santo Agostinho dizia: «Não te disperses. Concentra-te na tua intimidade. A verdade reside no homem interior».

Buscar Deus exige esforço, mas encontrá-lo nunca é fruto de um voluntarismo fanático nem de uma ascese tensa. Deus é um dom, e o importante é acolhê-lo com simplicidade de alma. Recordemos a reflexão da velha priora no Diálogo das Carmelitas de Georges Bernanos: «Depois de sairmos da infância, é preciso sofrer muito para voltar a ela, como só depois de uma longa noite volta a aparecer a aurora. Terei eu voltado a ser criança?».

Não é o mais acertado buscar Deus apoiando-nos apenas nas nossas próprias intuições. Há muitas formas de nos enganarmos ou de andarmos às voltas sobre nós mesmos, sobre os nossos sentimentos e ideias. Por isso é melhor partilhar e confrontar a própria experiência com alguém que nos possa guiar a partir da sua vivência de Deus. Esse partilhar mútuo pode ser o melhor estímulo para continuar a procurá-lo.

Na parábola do tesouro escondido no campo, Jesus fala do homem que, cheio de alegria, vende tudo o que tem para ficar com o tesouro. Buscar Deus não gera tristeza nem amargura; pelo contrário, gera alegria e paz, porque a pessoa começa a descobrir onde está a verdadeira felicidade. Recordemos Santo Agostinho: «Só o que torna o homem bom pode torná-lo feliz».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Apóstolo São Tiago

Deus é Pai, e ninguém é mais do que ninguém!

1152 | Tempo Comum | Festa de São Tiago | Mateus 20,20-28

Hoje a Igreja celebra a festa do Apóstolo São Tiago e, por isso, o texto proposto foge um pouco da sequência que estávamos seguindo. Parece que, propondo-nos este texto, a Igreja quer que façamos uma autocrítica sobre o modo como exercemos a autoridade e desenvolvemos nossos ministérios e serviços no seio da família e no âmbito da Igreja e da sociedade.

Jesus acabara de sublinhar que, na lógica do Reino de Deus, os últimos da escala social, aqueles que contam pouco ou nada, ocupam os lugares preferenciais, e que ele mesmo seria rejeitado, perseguido e condenado, colocado entre os últimos, como pedra descartada. Por isso, fica a impressão de que os discípulos não quiseram entender e ficaram calados, resistindo silenciosamente à proposta de Jesus.

A ideologia do império romano, que idealizava a grandeza, a força, o poder e a violência, seduzia também os discípulos de Jesus. A expectativa que se manifesta em Tiago e seu irmão não são exclusividade deles: de alguma forma, todos os discípulos estavam mais preocupados com suas ambições que com a defesa dos vulneráveis. Eles desejavam honras e tronos, e estavam inquietos com a demora!

O ressentimento dos outros dez discípulos contra os dois que se anteciparam na busca de privilégios quando Jesus fosse vencedor revela tanto inveja como concorrência. Pela resposta de Jesus ao pedido da mãe dos dois, resposta que é dirigida a todos (Jesus fala no plural!), parece uma espécie de reação e ressentimento por terem visto demolidos seus sonhos de poder e grandeza.

A novidade do Reino de Deus provoca uma inversão na escala de valores. Jesus pede de seus discípulos opções diferentes em relação ao judaísmo e à cultura do império romano. A condição do servo, proposto como modelo, se aproxima da condição social da criança, da impotência e da irrelevância. Nada a ver com grandeza e os centros de decisão desejados pela dupla, e tudo a ver com a margem e as periferias!

Jesus não poderia ser mais claro: “Entre vocês não deve haver dominação e tirania!” Na Igreja de Jesus não há lugar para senhores ou para rígidas hierarquias: as funções são diferentes, mas a dignidade é a mesma e vem do batismo, e não dos ministérios. Todos são iguais! E nisso, Jesus é, em primeira pessoa, modelo e caminho.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as palavras, dando atenção a cada gesto, a cada personagem e a cada palavra

Em que medida o desejo de grandeza, destaque e privilégio contamina hoje as diversas lideranças da Igreja?

O que significa concretamente para você hoje ser o último da fila e o servidor dos outros?

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Quatro tipos de terreno

Quais são os frutos do Evangelho em nós?

1151 | Tempo Comum | Semana XVI | Sexta-feira | Mateus 13,18-23

Jesus apresentou à multidão a parábola do semeador, ao que parece, originalmente focalizada no personagem que semeia. Era uma ilustração da própria missão de Jesus, o agricultor que espalha generosamente a boa semente do Reino de Deus. Como vimos, a compreensão das parábolas engaja os ouvintes, provoca uma tomada de posição. E, posteriormente, sua interpretação depende tanto do contexto literário original como do contexto existencial, social e eclesial do leitor.

Hoje, Mateus nos apresenta uma das possíveis interpretações da parábola do semeador. Essa releitura é feita no contexto da rejeição do Evangelho do Reino de Deus experimentada pela Igreja nascente, após a morte e ressurreição de Jesus. Por isso, o foco se desloca do semeador para o destino das sementes, para a qualidade do terreno que recebe a semeadura. Em outras palavras, o enfoque deixa de ser o evangelizador e põe em evidência a atitude dos ouvintes do Evangelho do Reino.

Um primeiro grupo de ouvintes é aquele dos que ouvem o anúncio do Reino sem se envolver nem entender, e a novidade desaparece sem sequer ter germinado. Um segundo grupo recebe o anúncio do Reino com alegria, intuiu seu valor, mas não o aprofunda, não reflete, fica na superficialidade, e, diante da perseguição, tropeça, definha e abandona o seguimento de Jesus. Há um terceiro grupo que acolhe e compreende o Reino de Deus, mas é a ambição e não Deus que comanda suas decisões, de modo que o mistério do reino de Deus acaba asfixiado.

Na explicação do dinamismo do Reino de Deus expresso na parábola que Jesus nos oferece, ele se mostra muito realista, e constata que três quartos (ou 75%) dos seus ouvintes e interlocutores não compreendem adequadamente e não aderem à novidade do reino de Deus. Mas ele se alegra com a adesão dos 25%, da quarta parte, que é composta pelos pequenos e humildes que compreendem, assimilam e se comprometem, e se fazem seus discípulos.

Estes últimos são os discípulos missionários que dão uma resposta generosa e fecunda de 100, 60 e 30 frutos por 1semente. É verdade que três sobre quatro ouvintes fracassam, mas, por causa de, apenas um, a semeadura do Reino não fracassará! Não tem nenhum fundamento evangélico o medo de alguns setores da Igreja quando sugerem não arriscar o anúncio do Evangelho numa sociedade secular.

 

Sugestões para a meditação

Você percebe que, às vezes, diante do Evangelho, se comporta como terreno duro de beira de estrada, terreno superficial e terra dominada por espinheiros?

Como estamos demonstrando que acolhemos com alegria, compreendemos e perseveramos no projeto do Reino de Deus ao qual Jesus nos chama?

Quais são concretamente os frutos do Evangelho em nossa vida, especialmente através da sua meditação diária?

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Compreender e converter-se

Quem conhece os mistérios do Reino de Deus?

1150 | Tempo Comum | Semana XVI | Quinta| Mateus 13,10-17

Uma leitura atenta dos capítulos 4 a 12 do evangelho de Mateus deixa bastante claro que o anúncio do Reino de Deus e as ações que Jesus faz para demonstrá-lo presente na história encontra muita incredulidade, rejeição e hostilidade. Daí a insistência de Jesus na escuta, na compreensão e na conversão ao seu Evangelho, que ele anuncia recorrendo a diversas linguagens (catequese, parábolas, apocalipse).

Ao povo em geral e, às vezes, às elites dirigentes do judaísmo, Jesus prefere anunciar o mistério do Reino de Deus através de parábolas. É um recurso de comunicação sapiencial e popular que fala do Reino de Deus a partir de imagens e comparações tiradas da experiência comum e cotidiana, o que acaba atraindo e exigindo o engajamento do ouvinte na interpretação. Aos discípulos, mais sintonizados com ele e inseridos no processo de formação, Jesus fala de forma mais objetiva e incisiva.

A parábola do semeador ilustra as diversas reações frente ao anúncio do Reino de Deus. Jesus é realista, e parte da constatação de que 3/4 (ou 75%) dos seus interlocutores não compreendem adequadamente e não aderem de verdade à novidade do reino de Deus. Ver e ouvir significa discernir, compreender e aderir. E isso implica em converter-se, mudar o modo de pensar e de agir. A responsabilidade recai sempre sobre a decisão do ouvinte, e não sobre a qualidade da semente.

Jesus não analisa as causas que concorrem para isso, mas acena para algumas delas. Em geral, elas convergem na insensibilidade e na má vontade para assumir um processo de mudança que pode ser exigente. Por isso, muitos grupos e pessoas, especialmente as elites religiosas, olham sem ver (os sinais de Jesus e a opressão que recai sobre o povo) e ouvem (a pregação de Jesus) sem realmente escutar. Assim, percebem a necessidade de mudar e são curados de sua cegueira e dureza de coração.

Entretanto, Jesus não fica refém das lamentações e acusações. Ele se alegra com a adesão dos pequenos e humildes que acolhem sua mensagem se fazem seus discípulos. Não são muitos, mas são semente, sal e luz. Tornando-se discípulos e entrando na escola itinerante de Jesus, eles são a confirmação da vontade de Deus, e se juntam à grande caravana dos profetas e justos do Antigo Testamento. Por isso, podem e devem participar da alegria de Jesus!

 

Sugestões para a meditação

Usando de imaginação, procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os discípulos e com Jesus

Deixe ressoar em sua mente e em seu coração o elogio de Jesus aos discípulo: “Eu lhes garanto: muitos justos e profetas desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, e não ouviram!”

Não corremos, como fiéis e como Igreja, o risco de olhar sem ver, de ouvir sem escutar, ou seja: de adaptar o Evangelho de Jesus aos nossos interesses e medos?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Santa Maria Madalena

Madalena, a apóstola amorosa e corajosa

1149 | Tempo Comum | Santa Maria Madalena | João 20,1-18

Na festa de Santa Maria Madalena, retomamos o evangelho segundo João. Já meditamos esta cena por ocasião da páscoa de Jesus, mas hoje a perspectiva é outra. Maria Madalena foi sozinha à sepultura de Jesus, de quem era discípula e amiga, e a encontrou aberta. Então, correu para anunciar o fato a Pedro e João, surpresa e apavorada: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Também tomados pela surpresa, os discípulos João e Pedro saem correndo, chegam, veem a sepultura vazia e acreditam, mas voltam para casa calados. Maria Madalena fica sozinha junto à sepultura, chorando por ter perdido aquele que ela amava porque despertara nela a dignidade adormecida e não reconhecida. Inconsolada, Maria Madalena se inclina para dentro da sepultura, como Jesus se inclinara diante da mulher ameaçada de apedrejamento e diante dos discípulos no lava-pés.

E, em vez de panos estendidos no chão, Madalena vê anjos, mensageiros e mensagem de Deus, que a interrogam pela razão do seu pranto. Ela perdera o guia, a referência, o mestre amado. Está desolada porque não sabe que rumo dar à sua vida, não tem mais um amor concreto com o qual possa contar. Os próprios condiscípulos haviam todos desertado e a deixaram ela sozinha.

A desorientação, a solidão e a dor de Maria são tão intensas que ela dá voltas ao redor de si mesma, sem conseguir deslocar seu olhar dos mensageiros para aquele para o qual eles apontam. Ela confunde Jesus, que vem ao seu encontro, com um jardineiro, e até imagina que teria sido ele quem roubara o corpo daquele que ela amava. Para ela, a esperança ficara no passado, e a vida era apenas luto.

Mas, quando Jesus pronuncia o seu nome com a ternura de sempre, os olhos de Maria se abrem. Ela o reconhece mais pelo chamado que pelo olhar. Nesse momento, ela toma consciência de que Jesus não lhe pertence, e que o encontro que lhe abriu os olhos da fé é força que impele à missão. E ela, que já era discípula dedicada, torna-se apóstola e missionária dos apóstolos: vai anunciar a Boa Notícia aos outros discípulos e refunda a comunidade eclesial que se havia dispersado.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Acompanhe Madalena na sua busca dolorida, no seu anúncio apressado, na sua permanência teimosa, na sua dificuldade de ler os sinais

Preste atenção na resposta de Maria Madalena às perguntas dos anjos e de Jesus, e perceba o que ela esconde e revela

Participe da alegria de Maria ao reconhecer Jesus quando dele pronuncia seu nome, o desapego de um amor pessoal e maduro, a prontidão para anunciar

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Que família?

Jesus supera o modelo tradicional de família

1148 | Tempo Comum | Semana XVI | Terça | Mateus 12,46-50

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado do Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Depois disso, Jesus deixa a sinagoga, e, nesta cena, está em uma casa, não necessariamente a sua, com seus discípulos e discípulas. Esta casa é como se fosse o lugar de encontro e convivência de uma nova família, uma família alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém (não diz se é um discípulo ou não) avisa Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Seus familiares aproximam-se respeitosamente, e não querem interromper a ação missionária de Jesus. Seriam movidos pela saudade? Pelo desejo de que ele voltasse para casa? Pela vontade de segui-lo na aventura do Reino de Deus? Estar dentro ou fora dessa casa delimita a clara pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino.

A novidade do Reino de Deus, muito esperada por todos e trazida por Jesus, implica claramente em uma mudança nas relações sociais, econômicas, religiosas, culturais, políticas, mas também das relações familiares. É no horizonte do Reino de Deus que Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão ao homem e senhor, reprodutora das relações de dominação.

Jesus responde de diversos modos. Dirigindo-se aos discípulos e discípulas que o circundam, pergunta quem é sua família, e ele mesmo responde, afirmando e indicando com a mão: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” A comunidade de discípulos é a nova família, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, pois, ninguém mais que ela, viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é nossa mãe, irmã e discípula. Mas é importante também que nos sintamos incluídos por Jesus no âmbito da sua família. Somos seus irmãos, irmãs e sua mãe, se fazemos a vontade do Pai.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Como ressoa em você o questionamento de Jesus aos que falam em nome de sua família e sua resposta a eles?

Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos aqueles que vivem seu Evangelho?

O que nossas comunidades e Igrejas precisam mudar ou melhorar para serem verdadeiras famílias humanas?


domingo, 19 de julho de 2026

Espetáculo X Compaixão

Jesus age por compaixão e não dá espetáculo

1147 | Tempo Comum | Semana XVI | Segunda | Mateus 12,38-42

Na ação missionária de Jesus não faltavam sinais da misericórdia de Deus em favor do povo cansado e abatido. Ele havia acabado de curar uma pessoa cuja personalidade estava destruída por um poder incontrolável. Mas, em vez de acreditar nele e se alegrar com os sinais do Reino de Deus tão esperado, os fariseus o acusaram de agir em nome do pai da maldade. E Jesus respondera que é pelos frutos que se conhece a árvore, pelas ações que conhecemos as pessoas.

Agora, os mestres da lei voltam a insistir, pedindo a Jesus um sinal que ateste que ele veio e age em nome de Deus. Eles já têm suficientes, mas se recusam a aceitar os sinais que beneficiam os sofredores e excluídos. Esperam e exigem sinais mais poderosos, capazes de impressionar, de assustar e provocar submissão. Mas Jesus só faz sinais para fazer o bem a quem está em situação de necessidade, e se recusa a fazer algo apenas para mostrar seu poder ou para satisfazer a curiosidade deles.

Na verdade, Jesus acena para um sinal futuro e inusitado: como o profeta Jonas ficara três dias no ventre de um peixe, como que sepultado no mar, o enviado do Pai e Filho do Homem compartilhará a condição dos humanos condenados e será morto e sepultado no ventre da terra. O sinal da sua divindade é sua plena humanidade. E como os pagãos de Nínive acreditaram na pregação de Jonas e se converteram, também os judeus devem aceitar seu anúncio e seu testemunho e mudar de vida.

Essa resposta de Jesus se torna denúncia, provocação e insulto às lideranças do judaísmo quando diz que povos pagãos que se converteram com a pregação dos profetas julgarão os orgulhosos mestres da lei. Jesus diz que eles, autoridades religiosas, são maus (agem por força do demônio) e adúlteros (sem nenhuma honra).

Além de recordar o exemplo do povo ninivita, Jesus também propõe o exemplo da rainha de Sabá, que fez de tudo para visitar Salomão, e, mesmo sendo pagã, reconheceu sua sabedoria. E, de fato, Jesus é muito mais que Jonas e muito mais que Salomão. Ele é a encarnação da Sabedoria e da Profecia, e o sinal maior que ele nos dá é a compaixão e a misericordiosa acolhida, levada ao extremo na cruz.

 

Sugestões para a meditação

Que sinais você costuma pedir ou esperar para confirmar o amor e a presença de Deus na sua vida?

Você leva em conta que é a fé que torna os sinais grandes e animadores, que não são os milagres que fortalecem a fé?

O que significa hoje o sinal de Jonas, o profeta que passou três dias desaparecido, no intestino de um grande peixe?

Como o exemplo do povo de Nínive e da rainha de Sabá podem estimular nossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Evangelho?

sábado, 18 de julho de 2026

Paciência e rersponsabilidade

Eu creio na força das pequenas sementes!

1146 | Tempo Comum | Semana XVI | Domingo | Mateus 13,24-43

O zelo pelo projeto de Deus às vezes provoca em nós uma santa ira, e nosso desejo é pegar foices e facões e extirpar da sociedade a injustiça e da Igreja a ambiguidade, acusando pessoas e “cortando o mal pela raiz”. Esta seria uma solução relativamente fácil se o joio estivesse apenas fora de nós, nas estruturas, e se fôssemos pessoas incorruptíveis, sem ambivalências e sem contradições. Mas o integrismo costuma se mostrar burro, irracional e violento.

A propósito, Jesus propõe duas outras parábolas, nas quais contrapõe a notável pequenez da semente de mostarda e do fermento ao arbusto frondoso e à massa levedada que produzem. Estas parábolas à perguntas que nos fazemos: será que a bondade e a compaixão não são ações insignificantes, pequenas e demasiadamente frágeis frente à injustiça e à opressão? Teremos que nos contentar em ser sempre uma minoria que age apenas para reparar danos, sem nunca chegar à vitória plena?

Para os grandes Roma, de Jerusalém e de todos os centros de poder, a semente ou o fermento do Reino de Deus é insignificante e não tem futuro. Não faltam pessoas e grupos que, em nome da eficácia histórica, propõem uma Igreja mais forte, centralizada e potente, capaz de medir forças ou negociar com os impérios. Mas a proposta de Jesus é outra: crer e confiar na força dos fracos, na fecundidade do amor solidário, no dinamismo revolucionário da profecia e do testemunho.

A pergunta, porém, ressurge insistente: isso não é apenas romantismo inconsequente, sonho de adolescente? Jesus responde chamando nossa atenção para o mundo doméstico e feminino. Precisamos aprender da ação silenciosa, escondida e demorada do fermento que a cozinheira mistura à farinha. Ninguém ousaria afirmar que a ação do fermento é ineficaz! Mas, para ser eficaz, o fermento do Reino de Deus precisa entrar em contato com a farinha, perder-se na massa, esperar.

Esta parábola do Reino completa o que falta às anteriores. Cada parábola quer evidenciar um aspecto do dinamismo do Reino de Deus. Aquela do trigo e do joio e a outra da rede nos chamam à paciência e ao discernimento. A história da semente de mostarda nos ensina a confiança nos meios pequenos e frágeis. E a parábola do fermento nos interpela ao engajamento lúcido e transformador, a gastar-se na ação de solapar as bases dos impérios que ameaçam, intimidam, excluem e matam.

 

Sugestões para a meditação

Qual tem sido a força do testemunho de compaixão e solidariedade que vivemos em nosso ambiente familiar e comunitário?

Por onde começar para superar o pessimismo de quem pensa apenas no fracasso ou só acredita no poder das grandes iniciativas e instituições?