A palavra de um Deus
pregado na cruz
Estava
eu em Brasília, participando de um encontro pastoral. Um grande crucifixo,
fixado na parede atrás da mesa dos dirigentes, começou a chamar minha atenção.
Já vi tantos outros, em muitos lugares diferentes (em templos, parlamentos,
hospitais, fóruns, casas, bancos), mas, dessa vez, não consegui silenciar alguns
questionamentos insistentes: o que aquele
corpo pendurado na cruz estava fazendo ali, e o que ele estaria a nos dizer.
Aprendi
ainda criança o significado da cruz e do corpo que pende nela: é a memória
visual do destino que alguns filhos da humanidade à qual pertenço impuseram ao
enviado de Deus. Mas, olhando bem, na cruz não vejo uma divindade com os traços
que nos ensinaram, nem um ser angélico ou um herói vitorioso, mas um corpo
humano, despojado das suas vestes, machucado pela tortura, golpeado até à
morte.
Senti
um tremor ao lembrar que Jesus de Nazaré foi crucificado fora dos muros que
protegiam os cidadãos mais importantes e em meio a dois outros condenados à
mesma pena. Por isso, a cruz é muito mais que um símbolo daquilo que foi
chamado de cristandade, uma civilização construída sobre os alicerces da
guerra, da imposição da fé, da meritocracia, das cruzadas, do poder dos mais
fortes, da bandeira dos vencedores.
E a
pergunta dava voltas na minha cabeça: O que a cruz faz e diz nessa assembleia de
lideranças eclesiais que se reúne em nome do crucificado? O que essa vítima do
consórcio entre as elites do judaísmo e os colonizadores romanos fala aos parlamentos
e tribunais de hoje? Como Jesus se sente ostentado como joia anexada a cordões
caríssimos? Será que é possível esquecer que o crucificado nos remete a um
corpo humano violentado?
Na
cruz, Deus se faz carne para que toda carne seja revelação de Deus. Faz-se
vítima em meio às vítimas para que não se faça mais vítimas em nome dele.
Faz-se entrega livre e generosa para sustentar todas as entregas solidárias.
Derruba os muros que separam e opõem homens e mulheres que têm a mesma origem e
o mesmo destino. Revela-nos a humanidade nua e original, que relativiza todos
os títulos e grandezas e a todos iguala.
O Papa Leão XIV nos ensina que “a carne do Filho, pobre e
vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua
dignidade e reduzidos ao silêncio. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos
a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a
ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu”
(Magnifica Humanitas, § 231).
Fala-nos, Senhor!