Dar as costas a
Jesus não leva a lugar nenhum
1054 | Tempo Pascal
| 2ª Semana | Sábado | João 6,16-21
Depois de atender a fome do povo, e
depois de escapar para que a multidão exaltada não o transformasse num chefe
político poderoso, Jesus sobe ao monte sozinho, toma consciência de que o Reino
de Deus tem o dinamismo que brota da cruz e, depois, atravessa o mar sem levar
com consigo as multidões. O povo precisa então tomar a decisão de fazer ou não
a travessia sem contar com ele.
Os discípulos desertam, tomam uma barca
qualquer, voltam atrás, retornam a uma vida vazia de utopias, desprovida de uma
força capaz de impulsioná-la. Por isso, enfrentam a noite, a crise, o mar
agitado. A escuridão denota falta de rumo, agitação interior, frustração,
discordância, ruptura, busca de velhas soluções. As trevas lembram também a
ideologia então predominante: a submissão absoluta às leis do mercado. Eles não
esperam Jesus, e o mau espírito os agita.
No meio dessa turbulência tão exterior como
interior, Jesus vai ao encontro dos discípulos. Quando eles o veem, temem ser
advertidos, mas Jesus caminha sobre as águas turbulentas e vai ao encontro
deles. Os discípulos desejam acolhê-lo, mas a travessia termina imediatamente,
assim como a agitação. Eles chegam rapidamente ao lugar para onde Jesus queria
levá-los, e não para onde desejavam ir.
O povo ficara perdido, pois a comunidade dos
discípulos, que fora a referência para encontrá-lo, fugira e desaparecera. E
então Jesus fala pela primeira vez com o povo, mas não responde às suas
perguntas. O que ele faz é evidenciar a ambiguidade das motivações que movem a
multidão a busca-lo tão ansiosamente. Jesus pede que todos alarguem seu
horizonte e entendam os sinais que ele realiza: a compaixão e o amor de Deus, a
partilha, o resgate da dignidade das pessoas. É isso que significa “trabalhar
pelo pão verdadeiro”, o pão que não acaba.
As multidões,
cansadas e esmagadas por múltiplas explorações e dominações, inclusive em nome
da religião, não conhecem o amor gratuito, e esperam de Jesus apenas ordens e
leis, mostrando-se dispostos a se submeterem, desde que recebam o que comer.
Eles têm uma fé limitada, pois veem Jesus apenas como ponto de chegada, desejam
o que ele dá, acham difícil ser como ele, viver no espírito dele. Buscar e
acolher seu Espírito é buscar o pão que não perece...
Sugestões para a
meditação
Leia atentamente, sem pressa, palavra
por palavra, gesto por gesto este episódio situado depois de Jesus alimentar a
multidão faminta
Que reações esboçamos diante de
atitudes e palavras de Jesus que nos parecem exigentes demais, contra nossas
expectativas?
O que é que hoje nos amedronta,
intimida e diminui nosso necessário compromisso com a transformação do mundo?
Temos
alguma experiência de acolher Jesus em nosso “barco agitado” e recuperar a
serenidade e chegado onde ele queria?