quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Todos, todos, todos

No Reino de Deus, todos são cidadãos plenos

988 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,24-30

Jesus desmonta a teologia da pureza e solapa as bases da ideologia da supremacia e hierarquização da dignidade de alguns povos e pessoas sobre outros. Declarando que todos os alimentos são puros, ele resgata a dignidade dos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Assim, ele mostra que o sistema de pureza, não protege o povo, mas oprime os vulneráveis. Diga-se a mesma coisa hoje em relação às leis que restringem ou criminalizam as migrações.

Depois do confronto com os escribas e do ensino ao povo e aos discípulos, Jesus entra no território dos pagãos com o desejo explícito de aprofundar a questão e colocar um ponto final nessa interminável discussão. Mas eis que uma mulher pagã, discriminada por ser mulher e por ser pagã, ousa interromper esse “retiro” de Jesus. Ela desrespeita claramente as fronteiras que separam judeus e pagãos.

A cena descreve a reação de Jesus no horizonte das hostilidades étnicas e culturais dos judeus aos pagãos, e isso só realça a ousadia e a novidade do ensino e da prática de Jesus. A mulher pagã não apenas desrespeita as leis que excluem os pagãos dos benefícios de Deus e da cidadania em Israel, nem se contenta em pedir pela sua filha, mas discute com Jesus defendendo a dignidade do seu povo e reivindica a igualdade das pessoas e povos diante de Deus.

Segundo Marcos, o que faz Jesus “mudar” de opinião em relação ao desprezo os pagãos não é a fé ou a simples confiança daquela mulher insistente, mas o seu argumento: Deus é pai, e não trata nenhuma pessoa e nenhum povo como indigno ou impuro. O Reino de Deus, que é o horizonte no qual Jesus se move e a causa maior que ele abraça, derruba os muros que classificam e opõem as pessoas entre puras e impuras, judias e pagãs, filhas e cães.

Infelizmente, o sentimento de que “temos o que eles não têm” ou de que “somos melhores e mais merecedores que eles” ainda vigora, e volta com virulência inaudita entre grupos que se dizem cristãos. Ninguém esquece o teor de algumas manifestações contra o Papa Francisco, a Conferência dos Bispos do Brasil, o ecumenismo, a fraternidade universal e a defesa da diversidade patrocinadas pelas Campanhas da Fraternidade dos últimos anos.        

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, procurando entender bem os recursos literários e a questão que está em discussão: a igualdade diante de Deus

Qual seria a razão que leva grupos de cristãos a se oporem à ação social e ecumênica da Igreja do Brasil?

Como superar a contradição de quem reza “Senhor, eu não sou digno que entres em minha casa” e continua pensando “Somos melhores que os outros e temos o que eles não têm”?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pureza & impurezas

A exclusão do diferente é sempre uma violência

987 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,14-23

Ontem refletimos sobre a primeira parte do confronto dos doutores da lei com Jesus em torno da questão da pureza legal. Os doutores da lei e os fariseus acham que Jesus ensina a relativizar a lei de Deus, e os seus discípulos se comportam conforme o ensinamento do mestre. Mas não é Jesus que desrespeita a Palavra de Deus, e sim os próprios escribas, que a deviam ensiná-la e, na verdade, a esvaziam e manipulam.

Mesmo que não pareça à primeira vista, a questão da pureza é crucial na mensagem e na prática de Jesus. No tempo de Jesus, os rituais e preceitos de pureza tinham o objetivo de manter a unidade fechada do judaísmo às custas da exclusão ou menosprezo de todos os demais povos, culturas e religiões. A equação era aparentemente simples: judeu = puro; pagão = impuro. Portanto, por trás da discussão sobre a pureza e a purificação está a questão da admissão ou não dos excluídos como membros do povo de Deus.

A questão é tão central que Jesus insiste, e voltará a isso com frequência: “Ouçam-me todos, e entendam!” “Então, nem vocês (os discípulos) entendem?” Para as multidões, Jesus esclarece a questão recorrendo a uma breve metáfora: assim como nenhum alimento ingerido pode tornar uma pessoa impura, nenhuma relação com pessoas pagãs pode desqualificar ou tornar impuro quem quer que seja.

Interrogado pelos discípulos, Jesus explica a metáfora. Declarando puros todos os alimentos, ele considera insustentável a separação entre judeus e pagãos. O que nos torna maus ou inaceitáveis aos olhos de Deus não é o encontro, a acolhida ou o diálogo com as pessoas diferentes, de outras religiões ou grupos, mas as atitudes, práticas e pretensões de superioridade, de intolerância, de distanciamento. Não há a menor chance de que algo externo comprometa a interioridade.

Jesus destrói a ideologia da pureza e solapa em suas bases a ideologia da separação e da supremacia dos judeus sobre os pagãos. Ele declara que todos os alimentos são puros, afirma que todas as pessoas possuem a mesma dignidade, e resgata a dignidade negada aos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Jesus mostra que o sistema de pureza, que diz proteger o povo, na verdade oprime os mais vulneráveis. E hoje, o mito da meritocracia e a ideologia do empreendedorismo continuam classificando e descartando pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Tome consciência de que Jesus não está a falar de pureza ou impureza de alimentos, mas da inclusão ou exclusão de pessoas

Quais são os argumentos usados hoje para defender a superioridade de povos, religiões ou classes sobre outros?

Por que ainda tememos tanto a relação, a cooperação e o diálogo com os pobres e marginalizados, com as demais Igrejas e outras religiões?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Interesses restritos & Evangelho

Nada pode impedir o socorro a quem o necessita

986 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,1-13

Vindo de Jerusalém e representando os interesses do templo, um grupo de doutores da lei faz cerco a Jesus e questiona seu ensino na prática pouco ortodoxa dos discípulos. Como sabemos, os escribas, ou doutores da lei, defendem o cumprimento rigoroso dos preceitos para garantir a identidade, a separação e a influência do grupo. O núcleo do conflito não é espiritual ou prático, mas doutrinário, e só será solucionado nos versículos que prosseguem o texto de hoje. Aqui, Jesus apenas ataca, desmascara e desqualifica as práticas defendidas pelos doutores da lei.

Os doutores da lei criticam os discípulos de Jesus por, segundo eles, desrespeitarem reiteradamente as tradições tomando os alimentos sem lavar as mãos. E a crítica fundamental que Jesus faz a eles (que também se estende aos fariseus) é que, defendendo falsamente a tradição e colocando toda a atenção nos ritos exteriores de purificação, eles vivem uma piedade e uma religiosidade apenas aparente: lavar mãos, copos, pratos e vasos, e assim por diante.

Jesus vai a fundo na sua crítica aos doutores da lei e na defesa da nova prática do reino de Deus. Para ele, os defensores da tradição do templo já teriam sido denunciados pelo profeta Isaías, que diz que eles fazem de conta que honram a Deus com os lábios, mas suas práticas e decisões passam bem longe da vontade de Deus. Mais ainda, Jesus diz que eles esvaziam a lei de Deus e a substituem pelas suas próprias tradições pouco inspiradas em Deus.

E Jesus dá um exemplo: segundo o ensino dos doutores da lei, os bens que os filhos devem destinar ao cuidado e sustento dos pais idosos podem ser oferecidos ao templo e, assim, ficarem sob o controle e administração deles mesmos. Ocorre que, agindo assim, eles fazem com que a lei e a tradição, que, segundo a vontade de Deus, devem proteger os mais fracos, acabam explorando os mais vulneráveis em nome de Deus. E o ensino de Deus, para salvar a vida dos fracos, acaba virando descarga de consciência e preceito interesseiro a serviço de alguns.

Assim, podemos dizer que “o feitiço virou contra o feiticeiro”: a crítica dos doutores da lei a Jesus virou crítica de Jesus contra os doutores da lei: não é Jesus que desrespeita a Palavra de Deus; aqueles que deviam vive-la e ensiná-la, na verdade a esvaziam e manipulam, mesmo quando dizem fazer isso em nome de Deus. 

 

Sugestões para a meditação

Leia com atenção e procure compreender a crítica de Jesus aos escribas, e o exemplo de como eles esvaziam a Palavra de Deus

Você percebe também hoje a tentação de esvaziar a Palavra de Deus e substitui-la por interesses mesquinhos?

Foi realmente entre nós a tentação de “torcer” o Evangelho e transformá-lo em pedras que jogamos contra as pessoas que consideramos culpadas?

A tal felicidade

Viver sem vergonha de ser feliz!

Este compromisso nos leva à canção “O que é, o que é”, que Gonzaguinha gravou em 1982, que é uma louvação à beleza da vida, apesar da sua complexidade. A felicidade depende, em boa parte, do modo como olhamos a vida, da sabedoria que nos faz encarar o mistério da vida como eternos aprendizes, deixando-nos surpreender com a beleza do instante.

Essa perspectiva é confirmada pela composição “Manhã bonita”, de Fábio C. Leal e Maria Ângela Leal, gravada por Rolando Boldrin em 2002, que fez sucesso na novela Cabocla (2004): “Assim é a terra, nos dizendo todo dia: ‘tudo é tão simples, num eterno despertar; o raiar do sol é sempre o mesmo; e o segredo está no jeito da gente olhar”.

Na prática, isso não é tão simples, ao menos no horizonte cultural de hoje. O ensaísta anglo-polaco Zygmunt Baumann afirma que, para a maioria das pessoas, a felicidade é um bem individual que supõe exclusividade, sensação de estar um grau acima dos outros: lugares exclusivos, bens exclusivos, relações exclusivas, inalcançáveis para a maioria.

Se a felicidade consiste nisso, a privação desses bens exclusivos é vivida como a mais dolorida infelicidade. Como a maioria desses bens ‘portadores da felicidade’ são limitados, a felicidade é impossível para a maioria da humanidade. É isso que faz o privilégio, a condição de estar um degrau acima, de ser especial, ser visto como felicidade.

O cristianismo não é alheio à busca da felicidade, mas indica outro ‘conteúdo”. Conforme o judaísmo, nada proporciona mais felicidade que meditar a Lei de Deus: “Feliz o homem que encontra seu prazer na Lei de Javé, e a medita dia e noite... Como eu amo a tua lei! É mais doce que o mel!” (Salmos 1 e 119). Mas isso também é para poucos felizardos...

Jesus Cristo tem uma proposta inovadora e ‘mais democrática’: a felicidade, como a salvação, não é para poucos, mas é desejo e oferta de Deus para todos. Os conceitos ‘salvação’ e ‘felicidade’ estão relacionados com a realização plena da pessoa humana, com o ‘bem viver’ na relação com Deus, com os outros e com todas as demais criaturas.

Para ele, são felizes as pessoas que não sentem proprietárias de nada e de ninguém; que compartilham com as dores e as alegrias dos semelhantes; que não recorrem a relações violentas; que não se resignam às injustiças; que se fazem próximos dos vulneráveis; que têm um jeito puro de olhar; que promovem a paz; que permanecem firmes, mesmo nas perseguições (cf. Mateus 5,1-12). Então, vivamos sem vergonha de sermos felizes assim!

Dom Itacir Brassiani msf

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O toque que cura

O encontro com Jesus nos fortalece e liberta

985 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,53-56

O sexto capítulo de Marcos começa com o escândalo dos familiares e conterrâneos de Jesus, prossegue na compaixão que o leva a buscar alimento para a multidão faminta, continua com a tumultuada travessia do mar e termina com a cena de hoje: a multidão que o procura e encontra do outro lado do mar, como último porto para não desfalecer de necessidade e desespero.

Em todas as cenas transparece uma grande tensão: mesmo tendo sido chamados, tendo recebido uma formação especial e tendo ensaiado uma participação na missão de Jesus, os discípulos e discípulas não conseguem reconhecer nele os traços do Messias esperado e assimilar sua prática. Por outro lado, a multidão, cansada e sem pastor, busca e encontra em Jesus aquilo que já havia desistido de esperar.

Os discípulos não conseguem entender o significado do gesto do pão partilhado para os famintos no deserto, mas um mar de gente miserável se lança sobre Jesus! Este capítulo termina sem relato de qualquer gesto particular de Jesus em favor das pessoas, mas nos apresenta uma espécie de sumário ou resumo do seu ministério em todas as esferas sociais: nos mercados, nas aldeias, nos campos e nas cidades. Para Jesus, a sinagoga e o espaço religioso não esgotam os sinais do Reino de Deus!

Este sumário é comovente: reconhecendo Jesus imediatamente, as pessoas o buscavam em qualquer lugar, carregando seus doentes pelas estradas e campos; colocando seus doentes nas praças das cidades; contentando-se até com apenas um toque na barra do seu manto. “E todos os que tocavam nele eram salvos”, diz Marcos. Tudo isso aumenta o contraste com a atitude dos doutores da lei, descrita logo em seguida: eles estão mais interessados com a impureza das mãos dos discípulos de Jesus que com sua imensa compaixão.

Todos somos encorajados a buscar e encontrar em Jesus o conforto que necessitamos, e isso é legítimo. Mas somos também convocados a assimilar e viver sua divina compaixão, sem agenda e sem mapa, com o próximo esquecido e necessitado. Esperar de Jesus benefícios pessoas e não imitá-lo nos gestos de amor é incoerência.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, prestando atenção à comoção que se esconde atrás das palavras desse resumo da missão de Jesus

Perceba como Jesus não estabelece horário ou lugar para a compaixão, e como o povo põe nele sua última esperança

Será que nós, homens e mulheres que separam fé e ciência, cremos de fato que o encontro com Jesus pode nos curar e salvar?

O que você espera de Jesus: um benefício pessoal, ou um caminho que o/a torne mais humano e solidário?

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sal & Luz

Nossa única nobreza é agir como luz e sal

984 | Tempo Comum | 4ª Semana | Mateus 5,13-16

Não esqueçamos o ponto de partida deste breve e intenso texto do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus: os quatro versículos de hoje são a sequência das bem-aventuranças, e fazem parte de uma espécie de apresentação da novidade de Jesus. Ele não é um pregador e mestre ao estilo dos doutores da Lei, e não veio impor um receituário moral a ser praticado minuciosamente.

Nestes versículos, Jesus retoma o tom direto, e fala aos discípulos: “Vocês são o sal da terra! Vocês são a luz do mundo!” Fala aos mesmos interlocutores das últimas bem-aventuranças: “Felizes vocês, quando por minha causa os insultarem e perseguirem”. Está claro que estes discípulos são sal da terra e luz do mundo na medida em que forem misericordiosos, íntegros, pacificadores e sedentos de justiça.

A comunidade que se reúne em torno de Jesus e segue seus passos não é um grupo separado e fechado. Quando Jesus diz que somos sal, está enfatizando sua inserção no mundo, seu engajamento pelo bem-estar das pessoas e povos, seu trabalho para que os projetos e instituições não se degradem ou se corrompam. Ai de nós se esquecermos isso! Não podemos esperar mais que ser pisoteados e desprezados.

A comunidade que nasce da novidade do Reino e do chamado de Jesus não pode ser uma instituição auto referencial, não pode viver em função de si mesma. Quando Jesus diz que somos luz do mundo, está pedindo que vivamos e saiamos em missão, que irradiemos o brilho do Reino de Deus em nossas relações, que a identidade e a missão que pertencia ao povo de Israel passa a pertencer ao novo povo de Deus, a este povo-semente do qual temos a alegria de fazer parte.

Uma comunidade que é sal da terra e luz do mundo será sempre uma comunidade-semente, minoritária e marginal. Mas terá a força e a vocação de tornar visível a novidade do Reino de Deus na história. Nem mais e nem menos que isso. Que seja apenas isso, mas seja sempre. Esta é a nossa grandeza, a nossa glória, a nossa vocação. E não precisamos de outras.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se na cena, próximo a Jesus, sem dar as costas à multidão que busca nele um caminho para uma vida mais digna e humana

Acolha e deixe ressoar em você a imagem do sal (modo de ser no mundo) e da luz (missão do discípulo missionário de Jesus)

O sal misturado à comida perde a visibilidade, mas todos percebem se está ou não presente: o que isso nos ajuda a entender?

A luz não brilha para si mesma, mas para que vejamos as pessoas e coisas ao nosso redor: o que isso nos ensina sobre a vida cristã?

Qual é a qualidade do sal e a intensidade da luz que nossas comunidades cristãs estão demonstrando nestes tempos difíceis?

Complicação e graça

A vida missionária é complicada e cheia de graça

983 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,30-34

No episódio do envio dos apóstolos ao “estágio missionário” (cf. Mc 6,7-13), a ênfase recaía sobre as instruções de Jesus para a missão. Na crônica sobre a trama e morte de João Batista (cf. Mc 6,14-29), o evangelista sublinhava o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos com os profetas que não calam a verdade. Este é o caminho e o destino de Jesus, s os discípulos que ele envia também devem preparar-se para isso.

No episódio de hoje, Marcos descreve o que acontece quando os discípulos voltam do breve “estágio missionário”. Eles foram enviados como missionários itinerantes, dedicados integralmente ao anúncio e realização do Reino de Deus, absolutamente dependentes da hospitalidade alheia. Voltando, eles se reúnem com Jesus e compartilham o que haviam feito e ensinado.

Atento ao cansaço e aos limites do apostolado deles, Jesus os convida para um retiro de descanso e de aprofundamento do seu ensino. Este descanso ou retiro se faz necessário, pois é muita gente chegando para pedir socorro, e isso pode limitar até as condições para se alimentar adequadamente. Mas a proposta de descanso se torna uma lição de dedicação incansável ao Reino de Deus, concretizada na compaixão pelo povo necessitado.

De fato, enquanto os discípulos que apenas estreavam como apóstolos ainda tinham dificuldades de reconhecer a identidade de Jesus, as multidões cansadas e abatidas, abandonadas pelos seus líderes e pastores políticos e religiosos, intuem quem é Jesus, depositam nele suas derradeiras esperanças e chegam antes deles no desejado “retiro”. É isso que relatam os versículos subsequentes.

A dedicação incansável de Jesus ao povo, e sua ação curadora e emancipadora, é a lição que faltava aos apóstolos. A missão não é uma etapa, um momento, uma entre outras atividades que nos ocupam. A divina e humana compaixão não conhece agenda. E as pessoas descartadas pelos “pastores” de plantão são a prioridade dos discípulos missionários. Mesmo quando se retiram para a oração e a formação, o povo está presente por todos os lados.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, acompanhando o retorno dos apóstolos, o convite ao descanso, a multidão que os rodeia

A formação, a oração, as celebrações e outras demandas da vida cristã não podem ser obstáculos ao “ministério da compaixão”

A verdadeira evangelização (anúncio da Boa Notícia de Deus) se concretiza e culmina na compaixão demonstrada nas ações

Em que medida é a humana e divina compaixão de Jesus que dinamiza nossa formação, nossa oração e nossa missão?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Anunciar a Boa Notícia de Deus

Dar sabor à vida

Uma das tarefas mais urgentes da Igreja de hoje e de sempre é conseguir que a fé chegue às pessoas como «boa notícia». Frequentemente entendemos a evangelização como uma tarefa quase exclusivamente doutrinal. Evangelizar seria levar a doutrina de Jesus Cristo àqueles que ainda não a conhecem ou a conhecem de forma insuficiente.

Preocupamo-nos então em garantir o ensino religioso e a propagação da fé face a outras ideologias e correntes de opinião. Procuramos pessoas bem formadas, que conheçam perfeitamente a mensagem cristã e a transmitam corretamente. Tentamos melhorar as nossas técnicas e organização pastoral.

Naturalmente, tudo isso é importante, pois a evangelização implica anunciar a mensagem de Jesus Cristo. Mas não é isso o único nem o mais decisivo. Evangelizar não significa apenas anunciar verbalmente uma doutrina, mas tornar presente na vida das pessoas a força humanizadora, libertadora e salvadora que se encerra no acontecimento e na pessoa de Jesus Cristo.

Entendida assim, a evangelização não depende tanto de meios poderosos e eficazes de propaganda religiosa, mas de saber agir com o estilo libertador de Jesus. O decisivo não é ter pessoas bem formadas doutrinariamente, mas contar com testemunhas vivas do evangelho. Crentes cuja vida revele a força humanizadora e salvadora que o evangelho encerra quando é acolhido com convicção e responsabilidade.

Nós cristãos, confundimos muitas vezes evangelização com o desejo de que o nosso cristianismo seja socialmente aceite. As palavras de Jesus, chamando-nos a ser sal da terra e «luz do mundo», obrigam-nos a fazer perguntas muito sérias. Somos nós, crentes, uma «boa notícia» para alguém? O que se vive nas nossas comunidades cristãs, o que se observa entre os crentes, é «boa notícia» para as pessoas de hoje?

Colocamos nós, cristãos, na sociedade atual algo que dê sabor à vida, algo que purifique, cure e liberte da decomposição espiritual e do egoísmo brutal e indiferente à solidariedade? Vivemos algo que possa iluminar as pessoas nestes tempos de incerteza, oferecendo esperança e um novo horizonte aos que buscam salvação?

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O preço da fidelidade

Quanto nos dispomos a pagar por nossa coerência?

982 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,14-29

Ontem meditamos sobre o episódio do envio dos doze apóstolos e o ensino sobre o que é essencial na missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como peregrinos e hóspedes; confiar na força libertadora dos meios frágeis; manter a abertura e o diálogo; fazer bem e fazer bem sem olhar a quem. E, na cena de amanhã, refletiremos sobre o retorno e a partilha da experiência missionária.

É aparentemente estranho que o evangelista coloque, entre o envio e o retorno dos apóstolos, o relato sobre a condenação e morte de João Batista. Parece uma espécie de parêntesis na história central, mas não é! Inserindo aqui este episódio, o evangelista quer dar a entender que os apóstolos herdam tanto a missão como o destino de Jesus. Ele inicia sua missão com a prisão de João, é comparado a ele, e terá o mesmo destino dele. Assim também os discípulos enviados em seu nome.

Na história contada hoje temos uma crítica mordaz às elites que controlam Israel, um registro do conluio incestuoso entre interesses políticos, militares e comerciais, e uma denúncia vigorosa dos seus caprichos assassinos. Herodes convida para sua festa a nobreza, o exército e as lideranças regionais. O juramento de um Herodes bêbado, prometendo dar à bailarina, sua enteada, a metade dos seus bens, registra e denuncia o modo estranho como as elites tomam suas decisões políticas.

Mesmo que aparentemente deseje conhecer Jesus, Herodes não o conseguirá, pois silenciou a Voz que anuncia o Verbo, e sem voz não há palavra. Seu casamento com a cunhada, que era também uma aliança política e diplomática, era criticada por João. Imaginando que Jesus seria João Batista que havia retornado, Herodes reconhece seu fracasso na tentativa de calar a voz dos profetas que o criticavam.

Nessa espécie de crônica policial percebemos o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos e profetas que não calam a verdade, mesmo quando têm que pagar sua coerência com a própria vida. Jesus seguirá por esse mesmo caminho, e terá semelhante destino. E os discípulos missionários que ele envia também devem se preparar para isso. Os cristãos serão sempre luz que revela o que costuma ser escondido, e podem pagar um alto preço por sua fidelidade.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, observando bem as nuances do relato e participando da cena que ele descreve

Você percebe a crítica irônica do evangelista às elites da Galileia, assim como a denúncia vigorosa da violência delas?

O que explica o arrefecimento da profecia das lideranças cristãs nos tempos atuais, e como poderemos resgatá-la?

Como desenvolver nos discípulos missionários de hoje a coragem da verdade e a ousadia do testemunho?


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Do discipulado ao apostolado

Um bom discípulo amadurece como apóstolo

981 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,7-13

No episódio anterior (v. 1-6), o esperado encontro de Jesus com sua família e seus conterrâneos de Nazaré terminou em desencontro. Jesus percebeu que, como ocorreu com muitos profetas, ele não era reconhecido pelas pessoas mais próximas, tanto do povoado como da própria família. Familiares e conterrâneos também são vítimas da ideologia que não consegue acreditar na força dos fracos.

Mas Jesus não se rende às objeções, vindas da elite religiosa e muito disseminadas, a um Deus que assume a condição humana. Os sinais mais eloquentes e transformadores do Reino de Deus vêm exatamente da ação dos pequenos e marginalizados. Que eles atuem de forma pública e transformadora é um sinal da libertação já conquistada. O Reino de Deus não depende da eficácia dessas ações, pois o fato de os amordaçados falarem já é a libertação em curso.

Indiferente a este desprezo, Jesus põe sua confiança naquela gente pequena e desprezada que ele acolhe e escolhe para ser o início simbólico da sua comunidade-semente, da nova família que ele reúne em torno do Evangelho. E, mais tarde, os envia para multiplicar sua ação emancipadora por doze, sem o apoio de meios potentes, que só fazem impressionar e intimidar. Seria como negar com os fatos a Boa Notícia que anunciavam com as palavras.

É este o significado das recomendações que Jesus faz àqueles e aquelas que envia: não levar reserva de alimentação, nem reserva técnica de dinheiro; dispensar também as roupas desnecessárias; levar apenas o cajado e calçar sandálias, para facilitar e agilizar a caminhada. Mas Jesus pede que eles não deixem de fazer o que é indispensável: não atuem sozinhos, mas em companhia de outros; larguem mão dos pensamentos elitistas, que menosprezam os pobres; curem os doentes e libertem as pessoas dominadas, para que possam viver plenamente; evitem retaliações violentas contra aqueles que não os ouvem nem acolhem.

Eis o essencial da missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como amigos e hóspedes; confiar na força libertadora da fragilidade; manter a abertura e o diálogo; fazer o bem sem olhar a quem. Um bom discípulo torna-se bom mestre e apóstolo.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida nós e nossas comunidades ainda não conseguimos aceitar a importância das ações frágeis e pequenas?

Você acredita mesmo que este mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor?

Como superar a tentação de confiar apenas nos meios potentes e nos agentes mais poderosos para desenvolver nossa missão?

Deixe-se seduzir por Jesus Cristo, o Deus na carpintaria e na cruz, assumindo uma vida simples e priorizando os meios frágeis