sábado, 23 de maio de 2026

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (1)

A gravidade da Crise Ambiental na visão do Papa Francisco

É impossível ignorar a gravidade da situação

As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade (§ 25).

As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual só pode desembocar em catástrofes. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências (§ 161).

Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum. Os sintomas anunciam de que chegamos a um ponto de ruptura, por causa da velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada (§ 161).

Em relação às mudanças climáticas, os progressos são muito escassos. A redução de gases com efeito de estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade. A Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20, emitiu uma declaração final extensa, mas ineficaz. As negociações internacionais não podem avançar por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global (§ 169).

O sistema industrial não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos/as e para as gerações futuras, o que exige limitar o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A solução deste problema está no enfrentamento da cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos (§ 22).

Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Essa ideologia pretende legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar (§ 50).

Os caminhos do Espírito

O Espírito Santo está sobre nós?

Neste domingo, as Igrejas Cristãs celebram o acontecimento permanente da vinda do Espírito Santo sobre o povo de Deus e toda a criação. Geralmente este evento é situado no passado e relacionado a eventos miraculosos ou impressionantes como terremoto, vento, línguas de fogo, iluminação da inteligência, línguas estranhas, entre outros.

À luz das Sagradas Escrituras e da autêntica Tradição cristã, a presença ativa do Espírito Santo no ser humano e nas demais criaturas tem outras ênfases. E o ponto de partida para uma correta compreensão do Espírito Santo e sua ação é Jesus Cristo, o Filho de Deus concebido pelo Espírito Santo, nascido de Maria, ungido pelo Espírito para a missão.

 O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres; enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos a visão; para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar um ano do agrado do Senhor... Hoje cumpriu-se esta palavra da Escritura que acabais de ouvir”, diz ele ao iniciar sua missão.

Doravante, tudo o que Jesus fará e ensinará vem do Espírito que o reveste e inspira: a defesa da dignidade das mulheres, dos doentes e dos pobres; o resgate da inocência dos pecadores; a reintrodução dos doentes e leprosos na plena cidadania; a incondicional acolhida dos pagãos e estrangeiros no povo de Deus; a compaixão para com tudo e todos.

Jesus mostra os frutos do Espírito falando a língua da proximidade e da compaixão e afirmando a primazia devida aos últimos da sociedade. O Espírito leva Jesus a afirmar a dignidade dos ‘sem dignidade’, a devolver a eles a palavra que lhes é negada ou silenciada; a reunir o povo disperso e desarticulado; a libertar os cativos pelo medo.

Na profissão de fé dos cristãos, afirmamos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá vida, ele que falou pelos profetas”. Ou seja: onde a vida é resgatada, sustentada e renovada, e onde profetas e profetizas levantam sua voz e se engajam na denúncia das forças dominadoras e no anúncio de novos céus e nova terra, aí está ativo o Espírito Santo.

Na descrição do evento que lançou o Povo de Deus na missão de Jesus, Pedro explica: “Está acontecendo o que foi anunciado pelo profeta Joel” (At 2,16). Ou seja: o Espírito de Deus foi derramado sobre todos, homens e mulheres, jovens e idosos, cidadãos e escravos, e todos são profetas. O Espírito Santo gera a Igreja congregando todos os homens e mulheres de boa vontade e todas as Igrejas num povo profético e libertador.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Súplica ao Espírito

INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO

Vem, Espírito Santo. Desperta a nossa fé fraca, pequena e vacilante. Ensina-nos a viver confiando no amor insondável de Deus, nosso Pai, por todos os seus filhos e filhas, estejam dentro ou fora da tua Igreja. Se esta fé se apagar nos nossos corações, em breve morrerá também nas nossas comunidades e igrejas.

Vem, Espírito Santo. Faz com que Jesus ocupe o centro da tua Igreja. Que nada nem ninguém o substitua ou o obscureça. Não vivas entre nós sem nos atrair para o seu Evangelho e sem nos converter ao seu seguimento. Que não fujamos da sua Palavra, nem nos desviemos do seu mandamento do amor. Que a sua memória não se perca no mundo.

Vem, Espírito Santo. Abre os nossos ouvidos para escutar os teus apelos, aqueles que hoje nos chegam através das interrogações, sofrimentos, conflitos e contradições dos homens e mulheres dos nossos dias. Faz-nos viver abertos ao teu poder para gerar a fé nova que esta sociedade nova necessita. Que, na tua Igreja, vivamos mais atentos ao que nasce do que ao que morre, com o coração sustentado pela esperança e não minado pela nostalgia.

Vem, Espírito Santo. Purifica o coração da tua Igreja. Põe verdade entre nós. Ensina-nos a reconhecer os nossos pecados e limitações. Recorda-nos que somos como todos: frágeis, medíocres e pecadores. Liberta-nos da nossa arrogância e falsa segurança. Faz com que aprendamos a caminhar entre os homens com mais verdade e humildade.

Vem, Espírito Santo. Ensina-nos a olhar de forma nova para a vida, o mundo e, sobretudo, para as pessoas. Que aprendamos a olhar como Jesus olhava para os que sofrem, os que choram, os que caem, os que vivem sós e esquecidos. Se o nosso olhar mudar, mudará também o coração e o rosto da tua Igreja. Os discípulos de Jesus irradiarão melhor a sua proximidade, a sua compreensão e solidariedade para com os mais necessitados. Parecer-nos-emos mais com o nosso Mestre e Senhor.

Vem, Espírito Santo. Faz de nós uma Igreja de portas abertas, coração compassivo e esperança contagiante. Que nada nem ninguém nos distraia ou desvie do projeto de Jesus: fazer um mundo mais justo e digno, mais amável e feliz, abrindo caminhos para o reino de Deus.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


Todos iguais

No caminho de Jesus ninguém é mais que ninguém

1089 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Sábado | João 21,20-25

A bela e instigante cena de ontem terminou com o convite imperativo de Jesus a Pedro: “Segue-me!” Pedro volta-se finalmente para Jesus (movimento de conversão) e vê que o discípulo amigo, que jamais duvidara ou abandonara Jesus, também seguia Jesus. Pedro pergunta o que será dele, qual será seu itinerário. Com essa inquietação, Pedro dá a entender que pretende seguir os passos dele.

Jesus não responde à pergunta de Pedro, mas questiona seu desejo implícito, sublinhando: “O que você tem a ver com isso? Trate de me seguir!” Para um discípulo missionário, essencial é seguir Jesus, e cada um o faz com um percurso pessoal, sem nunca se afastar da comunidade e da missão. Ninguém deve seguir ninguém, ninguém é mestre e guia de ninguém, e todos devem seguir e testemunhar Jesus, de quem recebem o Espírito.

Jesus diz que o discípulo e amigo e fiel poderá permanecer, enquanto ele mesmo continua vindo incessantemente. Isso quer dizer que, tanto o amor de Jesus feito sacramento na eucaristia quanto a missão que ele nos confia, se prolongam no tempo, sem uma data prevista para terminar. Tornar-se discípulo de Jesus é uma aventura que nunca termina de começar.

No finalzinho da sua vida, Pedro começa este caminho que se recusara a fazer antes, porque só acreditava num messias poderoso, e desejava o papel de protagonista entre os demais discípulos. De muitos modos, Jesus se dedica a curar pela raiz esse mal, que ameaça inclusive a nós, ajudando Pedro a renunciar à ambição de ser o primeiro, a aceitar ser amigo e não súdito, a reconhecer que ninguém é mais que ninguém, a se dispor a um amor generoso e incondicional.

No começo da cena (cf. 21,15), Pedro é tratado por Jesus como “Simão, filho de João”, expressão que sublinha seu vínculo com aqueles que esperavam um messias nacionalista e poderoso. A cena termina com ele sendo tratado por Pedro, nome que Jesus lhe deu, incluindo-o entre os discípulos. Agora sim, chegando à maturidade, Pedro é pedra preciosa e firme, base da sólida construção da casa de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoem o diálogo de Jesus com Pedro, e o desconcerto de Pedro em iniciar o caminho que o outro discípulo já percorria

Que luzes e ressonâncias esta bela cena tem para nós, nossas famílias e nossas comunidades cristãs?

Como evitar a comparação marcada pela inveja ou pelo menosprezo do jeito de seguir jesus dos irmãos e irmãs de outras Igrejas?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Cuida das minhas ovelhas

Quem ama Jesus cuida dos outros com amor

1088 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Sexta-feira | João 21,15-19

Depois de aparecer aos discípulos no fim de uma noite de pesca frustrante, e depois de partilhar com eles pão e peixe e de ignorar o gesto de Pedro, que se joga na água para ir ao seu encontro, Jesus o interroga. O simples fato de que Jesus lhe dirija a palavra depois do seu “papelão” durante sua paixão e morte é, para Pedro, um bálsamo reconfortante, um grande sinal de delicadeza e misericórdia de Jesus.

Jesus começa induzindo Pedro a se comparar com os demais discípulos, chamando-o a ser humilde, convidando-o a reconhecer o fracasso e encontrar a própria verdade. Por isso, a pergunta é se Pedro o ama profundamente, se seu amor é total, se ele é capaz de uma doação sem reservas. E Pedro, mais modesto e consciente da fragilidade do seu amor, responde que lhe quer bem. Jesus pergunta uma segunda vez, sem mudar o verbo, e Pedro responde da mesma maneira.

Na terceira vez, Jesus muda o verbo, e pergunta se Pedro lhe quer bem. Mudando a pergunta, Jesus se coloca no nível de Pedro, desce à sua fragilidade, o acolhe como ele é. Pedro fica triste, porque é confrontado com sua verdade e não pode mais se iludir com sua ideia de força, e tem que confessar que não é capaz do amor que Jesus lhe pede. Pedro responde dizendo que Jesus o conhece de verdade, que sabe que ele deseja ser seu amigo, que não pode ir além disso. E Jesus reafirma uma terceira vez que a prova desse amor a Jesus é sempre cuidar do rebanho!

Jesus acolhe Pedro em sua fragilidade e aceita sua amizade. Mas acaba acrescentando que, mesmo não sendo capaz de um amor maduro e pleno por enquanto, um dia chegará a esse amor: outros o conduzirão para onde ele hoje não pode e não quer ir! Pedro ainda será um verdadeiro discípulo missionário, capaz de doar-se inteiramente e de servir e amar os irmãos como Jesus o fez e pediu. Assim, no final desse diálogo profundo e tenso, Pedro é confirmado na sua missão de pastorear o rebanho, sustentado por sua amizade com Jesus e na sua condição de aprendiz.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus e de Pedro, observe o mal-estar de Pedro e acolha as perguntas de Jesus como dirigidas a você

O que significa para você, sua família e sua comunidade, “apascentar as ovelhas” e “cuidar dos cordeiros” hoje?

Quais são as consequências missionárias e pastorais da “união indissolúvel” entre o amor a Jesus e o cuidado pelo seu rebanho?

Que passos devemos dar para passar de uma adesão adolescente a uma responsabilidade adulta (“quando fores adulto”) a Jesus?

Que todos sejam um!

A união das Igrejas torna crível sua fé

1087 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Quinta-feira | João 17,20-26

Os versículos propostos para a nossa reflexão são a parte final da chamada “oração sacerdotal” de Jesus, e trazem suas últimas palavras antes da sua prisão, realizada com a ajuda de Judas, membro do grupo dos discípulos. Estando prestes a fazer a travessia da cruz e antevendo a fragilidade e a grandeza dos discípulos de todos os tempos, Jesus os recomenda ao Pai e pede por eles, por nós.

Jesus reza tendo diante de si a humanidade inteira, e com a consciência de que sua missão está chegando ao ápice e ao fim. Ele alarga o horizonte da sua oração, e pede pelos futuros discípulos, seguro de que neles e por eles sua missão continuará. É nesta perspectiva que Jesus insiste na unidade dinâmica e profunda de todos aqueles que acreditam nele. Esta unidade é a condição para que o mundo creia nele.

A unidade em torno da novidade e da ação de Jesus e seu Evangelho se baseia no conhecimento e na comunhão recíproca de discípulos, comunidades e Igrejas, que por sua vez, é fruto do amor incondicional dedicado aos mais vulneráveis. Essa unidade é condição para a união com Deus e alternativa às relações de dominação. Sem essa unidade vivida na comunidade, o próprio Jesus Cristo será visto apenas como um sonhador ou teórico a mais.

A glória que Jesus nos revela e nos transmite não é outra coisa que o dinamismo do amor com que nos amou, um amor incondicional pelos não-amados, prova de que ele é o enviado do Pai e a força que nos torna filhos e irmãos. Contemplar essa glória significa reconhecer, acolher e corresponder ao amor que ele manifesta na cruz, um amor cuja medida é servir sem medidas. O que brilha, o que dá “peso” e relevância, o que resplandece (=glória) é sempre o amor-doação.

Jesus manifesta seu desejo de que os discípulos estejam com ele, gozem com ele da vida plena e da filiação do Pai. Ele quer que, diante do Pai, sejamos como ele, experimentemos com ele do mesmo amor com que o Pai o amou e vivamos em profunda comunhão com ele e com todos os que nele creem. Ele mesmo se identifica conosco, vive uma união viva e dinâmica com a comunidade que reuniu.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus, compartilhe seus sentimentos e pensamentos, e entre com ele no espírito da oração

Identifique com clareza o que você, sua família e o povo de Deus mais necessitam hoje e faça seu os pedidos de Jesus

Como essa oração de Jesus pode instruir e orientar nossa oração pessoal e familiar e estimular e dirigir as relações ecumênicas?

terça-feira, 19 de maio de 2026

Que a alegria seja plena!

Que a nossa alegria seja plena e profunda

1086 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Quarta-feira | João 17,11-19

Estando prestes a fazer a travessia da cruz, e conhecendo a fragilidade e a grandeza de coração daqueles que decidiram segui-lo, Jesus pede ao Pai que seja guardião e protetor deles, especialmente na sua ausência e nas perseguições. “Pai santo, guarda-os em teu nome. Quando eu estava com eles, guardava-os em teu nome. E guardei-os, e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição”.

Mas Jesus pede mais. Ele não deseja apenas que sejamos protegidos por uma espécie de grande mãe ou grande pai, mas que a alegria dele se realize plenamente em nós. E essa alegria plenamente realizada consiste na vivência do amor generoso e incondicional com o qual ele ama a todos, na capacidade de doar-se sem medidas, no empenho para viver uma união de vontades e metas tão forte como aquela que une Jesus ao Pai. É a alegria de saber-se amado incondicionalmente pelo Pai.

Por isso mesmo, a proteção e o cuidado que Jesus pede ao Pai em favor dos seus discípulos não significa tirá-los do mundo e eliminar os desafios e exigências da missão. Recebendo o Espírito, seus seguidores rompem com a lógica do mundo, mas a missão testemunhal os insere no mundo como uma comunidade alternativa. A perfeita união de vontades e de projeto é o pressuposto e a meta da missão, e, ao mesmo tempo, a vacina que elimina relações de dominação.

Jesus também chama o Pai de “santo”, e fala da santificação de si mesmo e dos discípulos a ele. Esta santidade significa ruptura e distanciamento do mundo e da sua lógica de indiferença e dominação. Jesus e quem o segue são consagrados/separados para a prática do amor, a verdade que vem de Deus. São separados para serem enviados em missão no mundo, para servir à humanidade. A bússola que os mantém no caminho correto é a Palavra de Deus. E o culto verdadeiro ao Deus verdadeiro é sempre serviço ao Homem. Nisso, Jesus não nos dá apenas o exemplo, mas também a força, o Espírito que moveu ele e que nos moverá na missão.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus, compartilhe seus sentimentos, e entre com ele no espírito de diálogo orante com o Pai

Perceba como Jesus pede, com serenidade e insistência, pelos discípulos – por nós! – que o Pai confiou a ele

O que significa concretamente hoje “ficar no mundo” ou “ser enviado ao mundo”, mas sem “ser do mundo”?

Que invocações o próprio Jesus acrescentaria, ou sugere que seus discípulos acrescentemos, no contexto atual?

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Jesus reza por nós!

A glória de Deus brilha na vida humana plena

1085 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Terça-feira | João 17,1-11

Estamos na Semana de Oração pela Unidade Cristã, uma unidade tão preciosa e urgente que não basta dedicar-lhe uma semana por ano. E hoje, na última semana do tempo pascal, começamos a meditar sobre a bela oração com a qual Jesus se entrega ao Pai, levando nos braços e no coração os amados discípulos e discípulas. Na primeira parte do trecho de hoje (v. 1-5) Jesus pede ao Pai que se realize, por ele, o acontecimento salvífico. Na segunda parte (v. 6-11), reza pelos discípulos.

Jesus começa erguendo os olhos, fazendo referência à cruz, lugar da manifestação mais contundente da revelação divina. Sua oração está ligada a tudo o que ele partilhou e ensinou até então: sua presença decisiva no casamento em Caná, na multiplicação dos pães e peixes no deserto, na cura do cego e do paralítico, na ceia da aliança, no lava-pés, no mandamento do amor, no anúncio da traição e das perseguições, na promessa do Espírito. Ele tem plena consciência de que chegou a Hora esperada, anunciada nas bodas de Caná e referida na ceia.

Pedindo que o Pai o glorifique, Jesus está pedindo que o amor do Pai brilhe com intensidade e sem ambivalências no amor sem limites expresso na doação sem reservas da própria vida. A glória de Deus é o amor de Jesus e o amor dos discípulos. A união perfeita de Jesus com o Pai se dá pela cruz, na qual o amor do Pai e o amor de Jesus coincidem. É a perfeita união de vontades, de interesses, de projetos. Na cruz, a nova criação que estava em curso, chega à meta, tudo chega à consumação.

Crer em Jesus significa colocar-se ao lado do ser humano, e a obra que honra o Pai é aquela que honra a dignidade da pessoa humana. A santidade do Pai, do Filho e do Espírito não os afastam da humanidade, mas os implicam definitivamente com ela. E isso vale também para a santidade dos discípulos. Por isso, Jesus não pede ao Pai por esta ou aquela necessidade específica da comunidade e nem pelo mundo, mas pede que ela permaneça responsavelmente no mundo, plantando nele a diferença evangélica, enfrentando e vencendo a lógica dominadora e excludente do mundo.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus, compartilhe seus sentimentos, e entre com ele no espírito da oração intensa que ele dirige ao seu Pai e nosso Pai

Perceba como ele pede, com serenidade e insistência, que sua doação na cruz (glória e salvação da humanidade) se realize

Repita pausadamente, e deixe que ressoem em você cada uma das palavras e expressões da oração de Jesus

Como repercute em você a advertência de que, diante das dificuldades, nos dispersaremos, cada um para as suas coisas?


domingo, 17 de maio de 2026

No caminho da vitória

Jesus vence mundo entregando-se por amor

1084 | Tempo Pascal | Sétima Semana | João 16,29-33

Estamos no último trecho da catequese na qual Jesus fala sobre o sentido da sua partida para o Pai, das perseguições que seus discípulos sofrerão e do envio do Espírito Consolador e animador da missão. E amanhã iniciaremos a meditação da bela oração que Jesus dirige ao Pai, diante dos discípulos, antes de ser preso e crucificado, e que há anos inspira a Semana de Oração pela Unidade Cristã realizada por um grupo de Igrejas cristãs no Brasil.

Os discípulos demonstram que não superaram ainda uma fé ilusória e limitada. Eles pensam que Jesus adivinhou as perguntas e dúvidas que tinham, e imaginam que ele sabe tudo e, somente por isso, prova que vem de Deus. Como Nicodemos (cf. Jo 3,1-12), eles consideram Jesus um mestre excepcional, e se admiram do seu saber. Mas ignoram que ele é mestre porquê entrega sua vida por amor, lava os pés dos discípulos e se importa com todas as vítimas. Ele não é mestre somente por ensinar uma doutrina clara e oportuna.

Jesus demonstra que conhece seus discípulos mais que eles mesmos se conhecem, e reage com ironia. Por mais eles que pretendam dar a impressão de coragem, serão discípulos maduros somente depois da paixão e morte de Jesus. Por isso, Jesus os adverte que se dispersarão como um rebanho que abandona seu pastor, como já acontecera no final da multiplicação dos pães e peixes, e depois da catequese sobre o pão verdadeiro (cf. Jo 6, 17 e 6,66). Na verdade, eles deixarão Jesus sozinho, e cada um irá para sua casa e seus interesses. E disso Pedro também é o protótipo.

Mesmo assim, Jesus quer tranquilizar seus discípulos. Pede que eles não percam a paz, mas insiste que esta paz virá somente da permanência na união com ele, aconteça o que acontecer. Com a entrega de Jesus, a ordem injusta do mundo perde sua legitimação religiosa e sua força, e fica desacreditada. A perseguição é certa, mas a vitória é segura. É essa a convicção com a qual Jesus empreende sua última e mais exigente travessia, e é isso que ele transmite aos discípulos antes de selar o livre dom de si mesmo na cruz, em maio a outros excluídos.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto aos discípulos, perceba a superficialidade da fé que eles vivem e que nós, muitas vezes, vivemos

Acolha a ironia, a advertência e as palavras consoladoras que Jesus dirige aos seus discípulos de todos os tempos

O que significa a afirmação de Jesus “eu venci o mundo”? Quais são as consequências dessa vitória para nós, seus discípulos?

Como repercute em você a advertência de que, diante das dificuldades, nos dispersaremos, cada um para as suas coisas?

Ascenção de Jesus Cristo

Não se esqueça de nós!

O evangelista João nos informa que, na noite da ceia e do lava-pés, Jesus se demora num diálogo tenso e amistoso com os discípulos. Eles estavam perturbados com o gesto radical de Jesus e com o anúncio da sua partida para o Pai, que coincide com a “elevação” na cruz. Eles não conseguem imaginar a vida sem a presença orientadora de Jesus.

É neste contexto que Pedro pergunta a Jesus para onde ele vai (cf. João 13,36-38). É como se Pedro suplicasse: “Não nos deixe sozinhos!” Jesus responde indiretamente, dizendo que Pedro não poderia acompanhá-lo naquele momento, mas o faria mais tarde. Pedro reage dizendo que está disposto a dar a vida por Jesus (mas não para viver como Jesus).

Transcorridos os dias em que aquilo que Jesus anunciou na ceia se realizou nas ruas de Jerusalém e no calvário, fora dos muros da cidade, e depois do tempo necessário para a superação do escândalo e o reconhecimento dos sinais de que o Crucificado vivia, Jesus é “elevado aos céus”, e uma nuvem o oculta “aos olhos dos discípulos” (cf. Atos 1,9).

Não obstante a intensa e incisiva catequese de Jesus sobre a validade e o caráter divino do seu caminho de amor e compaixão, os discípulos ainda alimentam expectativas de uma ação poderosa e restauradora por parte dele. Jesus insiste que o tempo é de testemunho e de missão, mas eles ficam parados, olhando para o céu, esperando um evento miraculoso (cf. Atos 1,6-11).

Ainda hoje, há cristãos que esperam e suplicam ansiosamente que Jesus volte e conclua a obra que a cruz interrompeu. Eles esquecem que a cruz – o amor incondicional de Jesus e o amor incondicional dos discípulos – é a ação definitiva de Deus para mudar o mundo. E não aprenderam que a ascensão de Jesus é a sua divina inserção no coração do mundo pelo nosso testemunho.

Na cena da ascensão, os anjos continuam a questionar a nossa inércia e a tentação de delegar a Jesus a tarefa que é nossa (cf. Atos 1,11). Ele não nos deixou órfãos e indefesos, com uma missão impossível e cercados de perigos e ameaças. Ele nos envia o Defensor, aquele que nos envolve de Sabedoria, Inteligência e Fortaleza, e isso basta. Ele não esquece de nós! Ele está no meio de nós!

Somos nós, discípulas e discípulos de Jesus e ungidos pelo seu Espírito, que somos convocados a não esquecer as vítimas da violência e as pessoas que estão à margem; a ser pais e irmãos de quem sente-se órfão de Esperança; a estar próximos de quem se desespera com a impunidade dos grandes algozes do povo. E a sermos Igrejas que rezam e caminham juntas, conscientes de terem um só coração e um só espírito, e de serem chamadas a uma única esperança.