segunda-feira, 4 de maio de 2026

A paz que ele nos dá

A paz de Jesus Cristo é mais forte que o medo!

1071 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Terça-feira | João 14,27-31

Estes breves versículos são densos. Eles são a conclusão da primeira parte do diálogo de Jesus com os discípulos, após a ceia. Jesus vê nos olhos deles o medo e, mesmo assim, não os poupa da verdade: ele deve ir, deve partir, ausentar-se brevemente. Mas o faz para voltar mais tarde, e voltar plenamente. Por isso, deixa-lhes a paz, e quer que vivam alegres e confiantes, como discípulos maduros.

“Paz” é a palavra de despedida da comunidade judaica. Utilizando esta saudação, Jesus sublinha que não o faz como todo mundo costuma fazer. É sua saudação pessoal, que não é um adeus, mas um “até breve”, com reforço no advérbio de tempo. Ele não se despede, porque ele vai para voltar, ele vai e fica, ele vai ficando. Esta sua ida é indispensável, porque nela tornará concreto o amor de Deus pela humanidade.

Jesus diz que não poderá falar muito porque sua partida é iminente e o tempo é breve. Na verdade, será preso naquela mesma noite. Por isso, fala da aproximação do “chefe deste mundo”, que personifica as forças e estruturas que oprimem, inclusive em nome da religião. Mas Jesus deixa claro que este chefe não tem força de mando ou poder de intimidação sobre ele: quem tem a Palavra é o Pai.

Jesus decide trilhar o caminho da paixão e morte não porque “o chefe deste mundo” tem poder sobre ele, mas porque assim cumprirá a vontade do Pai, que o quer radicalmente solidário com as vítimas de todos os tempos, sinal concreto do imenso, generoso e eterno amor do Pai. Isso não deixará dúvidas sobre a autenticidade da sua mensagem e da sua identificação com o querer e o agir do Pai.

Jesus prefere entregar sua vida ao invés de ceder à lógica do mundo, e, assim, o vence. Por isso, é bom que ele vá ao Pai, passando pela cruz. Sua acolhida nos braços daquele que “é maior” é a confirmação de que ele, humano que é, vem do Pai, fala o que ouviu do Pai e faz aquilo que vê o Pai fazer. E convida os discípulos a levantar e seguir com ele. Quem o vê, vê o Pai. E isso é mais que suficiente.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se mentalmente junto aos discípulos, perturbados com o anúncio da sua morte e com a previsão de que seria traído

Acolha as palavras de despedida de Jesus, a afirmação de que vai para voltar, que vai ficando, o seu “até breve!”

Tome consciência dos medos, fragilidades e carências que perturbam você, sua família e sua comunidade

Procure experimentar a alegria que nos vem da certeza de que é bom para nós que Jesus volte ao Pai, que o enviou e sempre o envia

domingo, 3 de maio de 2026

Moradas de Deus

O amor fraternos nos torna morada de Deus

1070 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Domingo | João 14,21-26

Saltando alguns versículos que prosseguem o trecho meditado ontem, os quais apresentam a promessa de Jesus de enviar aos seus discípulos um “outro Advogado”, o “Espírito da Verdade”, o trecho de hoje afirma a presença de Deus nas relações fraternas e solidárias dos seus discípulos e discípulas. Não somos apenas nós que podemos morar na casa de Deus; ele mesmo pode estabelecer sua morada em nós.

Esta é a primeira vez que Jesus fala do amor dos discípulos a ele. Até então ele falara apenas do amor os irmãos e irmãs, e da disponibilidade às necessidades do povo. Assim, crer em Jesus significa aderir amorosamente a ele, comportar-se como ele, compartilhar seus sonhos, seus pensamentos e suas atitudes. Mas o amor a ele se encarna e se mostra necessariamente no amor aos irmãos e irmãs, um amor que não é mero sentimento. Ajudar os outros é a única forma de concretizar o amor.

Este amor é graça derramada abundantemente na vida de quem crê em Jesus, só é chamado de mandamento porque é norma de vida, e substitui todos os demais códigos de leis. No evangelho de João, Jesus jamais cita ou enumera os dez mandamentos, pois entende que só existe um. Por isso, o amor fraterno e concreto é a chave que abre a porta para que o Pai e o Filho façam em nós sua morada.

Sendo o que “acomuna” o Pai e o Filho, o Espírito Santo de Amor é também o que une os discípulos entre si, a Jesus e ao Pai. Enquanto algo a ser proclamado, esse amor recebe o nome de mensagem; enquanto norma de vida, é chamado de mandamento; enquanto dinamismo de Deus em nós, é apresentado como Espírito Santo. Mas trata-se de um único e mesmo dinamismo divino nas criaturas.

Jesus adverte seus discípulos sobre o fato de que amá-lo significa guardar sua ordem, de amarmo-nos como ele nos amou; implica em comportar-se como ele em relação a tudo e todos. Sendo a essência do Espírito de Deus, o amor transforma a comunidade cristã e os milhões de discípulos anônimos em infinitas vivendas mediante as quais Deus se faz presente no mundo. Não o adoramos em santuários ou templos, mas em espírito e verdade, mediante atitudes e ações muito concretas.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória as palavras que Jesus dirige aos discípulos, depois da ceia e prestes a ser preso e crucificado

Situe-se junto com os discípulos, perturbados com o gesto do lava-pés, com o anúncio da sua morte e com a previsão de que seria traído

Será que na voz de Judas se expressa a expectativa de manifestações espetaculares, jamais a manifestação discreta aos discípulos e na cruz?

sábado, 2 de maio de 2026

Caminho sem pedágios e Verdade sem fake

“Ninguém vai ao Pai senão por mim”

1069 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Domingo | João 14,1-12

O belo e sério diálogo de Jesus com seus discípulos, descrito hoje pelo evangelista, transcorre na noite da última ceia, após o lava-pés.  O clima é de sincera amizade e de apreensão frente às ameaças; de serena alegria da parte de quem se entrega inteiramente, e de inquietante dúvida de quem não consegue entender o caminho do serviço; de grande perturbação dos discípulos, e de Jesus também! É neste clima que Jesus fala de um lar cálido e com muitos lugares, do caminho para o Pai, da presença do Pai na sua vida e nas suas ações.

Como os discípulos depois da ceia, às vezes nos sentimos envolvidos por nuvens tenebrosas.  Como no atual momento vivido pelo povo brasileiro, o horizonte utópico se escurece, nossas forças de resistência se esvaem, não sabemos o rumo que devemos seguir e nada parece disposto a hospedar nossos sonhos. É neste contexto que Jesus promete: “Existem muitas moradas na casa do meu Pai!”  Podemos estar seguros de que, no coração de Deus há um lugar para aqueles que percorrem o caminho do êxodo, rumo a uma terra onde a justiça beija a paz.

Aqueles que queremos chegar ao Pai e ao mundo por ele sonhado temos um caminho seguro: este caminho é o próprio Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, aquele que coloca os últimos em primeiro lugar, que acolhe enobrecido o perfume que uma mulher malvista derrama nos seus pés, que se reparte no pão, que se ajoelha para lavar os pés dos discípulos, que nos ama como amigos e amigas, que perdoa o ladrão arrependido... Este é o Caminho seguro que leva infalivelmente ao Pai.

Jesus Cristo é a Verdade que nos acalma e enche de alegria. A verdade sobre a pessoa humana e sobre Deus. A verdade mais profunda do ser humano é sua capacidade de ternura e solidariedade. A verdade mais profunda de Deus é sua aliança com seu povo, sua companhia insuperável. Esta é uma verdade que exerce uma incrível atração sobre nós, que nos lança para fora e para frente.

Em tudo o que fez e viveu, inclusive no aparente abandono sofrido na cruz, Jesus estava no Pai e o Pai estava nele. Ele aprendeu e ensinou aos seus discípulos que não há alimento mais saudável e nutritivo que realizar a vontade libertadora de Deus, e é isso que significa estar no Pai. Ele agiu sem medo ou cansaço no resgate da dignidade e da vida das pessoas necessitadas, e isso quer dizer que Deus estava nele.

 

Sugestões para a meditação

O que mais lhe perturba e angustia hoje, nesta fase da sua vida e da história? Sua meta é a meta de Jesus, seu caminho é o caminho de Jesus?

O que significa ter para você ter assegurado um lugar preparado na intimidade com o Pai?

Como este texto nos ajuda em nossas dificuldades de reconhecer a presença de Deus em Jesus e nos irmãos e irmãs?

Caminho-Verdade-Vida

ACREDITAR EM JESUS, O CRISTO

Há momentos na vida de verdadeira sinceridade em que surgem do nosso interior, com lucidez e clareza pouco habituais, as perguntas mais decisivas: afinal, em que é que eu acredito? O que é que espero? Em quem apoio a minha existência?

Ser cristão é, antes de mais nada, acreditar em Cristo. Ter a sorte de nos termos encontrado com Ele. Acima de qualquer crença, fórmula, rito ou ideologização, o que é verdadeiramente decisivo na experiência cristã é o encontro com Jesus, o Cristo.

Ir descobrindo por experiência pessoal, sem que ninguém nos tenha de dizer de fora, toda a força, a luz, a alegria, a vida que podemos ir recebendo de Cristo. Poder dizer a partir da própria experiência que Jesus é «caminho, verdade e vida».

Em primeiro lugar, descobri-lo como Caminho. Ouvir nele o convite a caminhar, avançar sempre, nunca parar, renovar-nos constantemente, aprofundar na vida, construir um mundo justo, fazer uma Igreja mais evangélica. Apoiar-nos em Cristo para percorrer dia após dia o caminho doloroso e, ao mesmo tempo, jubiloso, que vai da desconfiança à fé.

Em segundo lugar, encontrar em Cristo a Verdade. Descobrir a partir dele Deus na raiz e no fim do amor que os seres humanos dão e acolhem. Perceber, finalmente, que a pessoa só é humana no amor. Descobrir que a única verdade é o amor, e descobri-lo aproximando-nos do ser concreto que sofre e é esquecido.

Em terceiro lugar, encontrar em Cristo a Vida. Na verdade, as pessoas acreditam naquele que lhes dá vida. Por isso, ser cristão não é admirar um líder nem elaborar e pronunciar uma confissão sobre Cristo. É encontrar-nos com um Cristo vivo e capaz de nos fazer viver.

Jesus é caminho, verdade e vida. É outro modo de caminhar pela vida. Outra maneira de ver e sentir a existência. Outra dimensão mais profunda. Outra lucidez e outra generosidade. Outro horizonte e outra compreensão. Outra luz. Outra energia. Outro modo de ser. Outra liberdade. Outra esperança. Outro viver e outro morrer.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Conhecemos Jesus?

“Há tempo estás comigo, e não me conheces?”

1068 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Sábado | João 14,7-14

Este é o Evangelho que ilumina a nossa vida neste sábado. A passagem faz parte da comovida catequese que Jesus desenvolve após a ceia e do lava-pés, para orientar e confortar os discípulos, que estavam muito assustados. Um deles, Filipe, pede que Jesus lhes mostre o Pai. “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”!

Jesus já havia deixado claro que é nele que temos acesso ao Pai, pois ele é o caminho, a verdade e a vida. Por isso, responde quase que lamentando a dificuldade de Filipe e dos demais: “Se me conheceis, conhecereis também o meu Pai. Há tanto tempo estou convosco e não me conheces? Quem me vê, vê o Pai. Crede, ao menos, por causa destas obras...”

O problema de Filipe é também o nosso. Custa-nos aceitar que o Deus que revestimos de poder e colocamos no mais alto dos céus nos seja dado a conhecer nas ações concretas e na vida de Jesus de Nazaré. Não queremos ver mais, mas ver outras coisas, mais abstratas e manipuláveis; menos interpeladoras, como o é lavar os pés dos irmãos, alimentar os famintos, dar a vida sem reservas.

O problema continua e se torna mais sério à medida em que queremos dar a impressão de que conhecemos Jesus, e fazemos o possível para impor a ideia que temos dele a quem crê diversamente. A tentação da qual não nos livramos facilmente é esta: fazer Jesus “vestir o figurino que preparamos para ele”, obrigá-lo a fazer aquilo que decidimos ou que aprendemos que ele deve fazer em nossas faculdades de teologia e gabinetes doutrinais.

Imagino Jesus dirigindo-se a nós, dizendo afirmativamente: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces...” Crer nele é fazer aquilo que ele faz, prosseguir sua ação libertadora, entrar no caminho da compaixão, armar a tenda dos nossos sonhos e projetos no chão da humanidade ferida e sedenta de vida. O resto é culto às vaidades que passam, serviço aos poderes que oprimem, fuga da responsabilidade.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória os gestos as palavras desse diálogo de Jesus com os seus discípulos no ambiente da última ceia

Será que também nós partilhamos da cegueira de Filipe, e não reconhecemos Deus naquilo que Jesus faz e pede?

Quais são as ações de Jesus que expressam de modo mais eloquente e libertador a ação do Pai?

Como podemos nós, em nosso tempo, recriar esta ação de Jesus, inclusive com maior alcance e eficácia?

Salve 1º de maio!

Quando o estado desregulamenta a exploração aumenta

O dia 1º de maio é uma data dedicada aos trabalhadores e celebrada, de alguma forma, em todos os países. A data está relacionada às lutas dos trabalhadores por melhores condições de trabalho desde a revolução industrial. No final do Século XIX, a realidade dos trabalhadores era duríssima, e jornadas de trabalho de 12 horas eram comuns.

Para conquistar a redução dessa jornada extenuante, os trabalhadores de Chicago organizaram uma greve que, no dia 1º de maio de 1886, mobilizou mais de 340 mil trabalhadores por todo o país. A greve continuou, com dezenas de manifestantes mortos por policiais e centenas de trabalhadores espancados e presos.

Alguns anos depois, o Papa Leão XIII manifestou-se em relação à exploração e à violência do capitalismo através da carta Rerum Novarum (15.05.1891). Este documento é considerado uma das fontes ocidental do direito do trabalho, um impulso essencial para a regulamentação estatal dos contratos de trabalho e o início da reflexão social da Igreja.

Desde então, a condição dos trabalhadores melhorou consideravelmente, especialmente no hemisfério Norte. Entretanto, hoje há uma tendência alarmante de retrocesso a situações semelhantes àquela de 150 anos atrás. A revolução digital e sua aplicação ao mundo do trabalho está jogando milhões de pessoas no trabalho precário.

As empresas-plataformas vêm tomando medidas para transferir os riscos da atividade econômica aos trabalhadores, apelando ao empreendedorismo e pressionando o Estado a legalizar a pejotização (transformação em pessoas jurídicas) dos trabalhadores. O horizonte que se desenha é tenebroso, com uma escala de trabalho de 7 x 0.

Veja-se o caso dos entregadores de aplicativos: a jornada média é de 10 horas por dia; a renda líquida é de R$ 6,50 por hora trabalhada; 3 em cada 10 entregadores enfrentam insegurança alimentar; 60% deles trabalham na informalidade; 39% das vítimas fatais de acidentes de trânsito em 2023 eram motociclistas, e 80% delas eram entregadores...

Anunciada como modernização das relações de trabalho, a pejotização é uma fraude jurídica que leva os trabalhadores (“empreendedores”) a um retrocesso de 150 anos na história: sem limite de jornada de trabalho, sem férias, sem licença maternidade, sem fundo de garantia, sem aposentadoria, sem licença em caso de doença. Onde o Estado não regulamenta, vigora a lei do mais forte, e “quem pode mais chora menos”.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Caminho, verdade e vida

O carpinteiro Jesus é caminho para a Vida

1067 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Sexta-feira | João 14,1-6

Este texto de São João está situado no contexto do lava-pés, como parte de uma ampla e cálida catequese que desenvolve o significado desse gesto de Jesus para confortar os discípulos. Na verdade, eles ficam desconcertados e confusos tanto com a origem trabalhadora, o ensino e com a prática de Jesus, como também pela percepção de que traições se desenhavam entre eles.

Estava clara uma espécie de divórcio entre as expectativas de sucesso, segurança e libertação política que os discípulos alimentavam, por um lado, e a proposta de Jesus centrada na reconciliação e na fraternidade, no serviço gratuito aos mais vulneráveis, por outro. O gesto do pão e do vinho, antecipando a sua paixão e morte, e o sinal do lava-pés, afirmando a igualdade fundamental de todos diante de Deus, chega a escandalizá-los. A concretude crua da mensagem de Jesus desconcerta.

Neste diálogo, Jesus procura confortar aqueles que ele ama e que o seguem. E começa afirmando que no “lar” do Pai, de onde ele vem e para onde ele volta, existe lugar para todos, lugar que o próprio Jesus prepara. Mas para chegar lá, os discípulos devem leva-lo mais a sério. “Acreditem no Pai acreditando em mim”, diz Jesus. É assim que poderão ser acolhidos na plenitude e gratuidade do seu amor.

Mas, para habitar na intimidade familiar com o Pai e experimentar a vida em sua plenitude só há um caminho: o estilo de vida de Jesus, o amor sem medida. Vida é a meta da caminhada. Neste caminho que é Jesus, o discípulo descobre a verdade sobre si mesmo e sobre Deus: nascemos do amor, vivemos por amor e morremos por amor, e isso não nos tira do mundo, mas nos mergulha nele. O amor está no caminho, no dinamismo de crescimento e amadurecimento, e a vida é a meta.

O caminho, a verdade e a vida são a pessoa e o Evangelho Jesus, e não esta ou aquela religião, esta ou aquela doutrina, uma ou outra denominação cristã. Como discípulos, jamais poderemos relativizar a pessoa e a proposta de Jesus. Se o fizermos, estaremos caindo na mentira, perdendo-nos nas encruzilhadas, caindo prisioneiros da morte, fora do nosso “lar”.

 

Sugestões para a meditação

Será que também nós perdemos a noção da meta da vida cristã (a vida plena no amor sem medidas) e, por isso, estamos confusos?

O que mais nos deixa perplexos e confusos, no atual momento da Igreja, do Brasil e do mundo? Ou somos indiferentes a tudo?

O que seria concretamente a “verdade” e a “vida” para as quais Jesus afirma ser o “caminho”?

Cremos em Deus acreditando verdadeiramente em Jesus, ou projetamos em Jesus nossos preconceitos e nossas surradas ideias sobre Deus?

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sereis felizes


Nossa felicidade consiste em amar e servir

1066 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Quinta-feira | João 13,16-20

O texto que lemos ontem está situado antes da cena da ceia e do lava-pés. E o texto que nos ocupa hoje está sua sequência dessa cena programática e testamentária. É uma espécie de catequese que retoma os gestos da ceia e do lava-pés e extrai seu sentido mais profundo, chamando a atenção para a necessidade de leva-los a sério, de não ficar na exterioridade, como se não passassem de simples ritos.

Jesus havia perguntado aos discípulos se eles haviam entendido bem seus gestos, e sua pergunta se fazia necessária, uma vez que tanto Pedro como Judas Iscariotes não concordavam com aquilo que Jesus fizera. Recorrendo a um provérbio popular (“não queira ensinar a missa ao padre”), Jesus sublinha que o discípulo não pode fazer diferente do mestre, dominar em vez de servir, deixar de ser compassivo.

Para Jesus, é uma arrogância, uma irresponsabilidade e uma traição um discípulo comportar-se como senhor, como superior em vez de igual. E, para não deixar dúvidas sobre esta lição, afirma solenemente: “Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes”. Não se trata de repetir o rito da ceia e do lava-pés, mas de praticar o amor que serve, a compaixão que aproxima e faz irmãos.

Comporta-se como Judas o cristão que pensa que crer em Jesus é apenas algo formal e nominal; é como se comesse o pão com Jesus, mas não se alimentasse do seu corpo (vida). Mas quem coloca em prática a atitude global de Jesus, expressa de modo na ceia e no lava-pés, quem vive o amor que serve, gera uma nova comunidade humana, realiza-se como pessoa, vive a felicidade sem limites, alcança a vida eterna.

Discípulo de Jesus é quem assume sua prática, quem se faz semelhante a ele. Por isso, quem recebe um discípulo, recebe Jesus. Jesus é o enviado do Pai, e os discípulos são os enviados de Jesus para viver como ele e ensinar o que ele ensinou. É assim, vivendo relações que tecem a igualdade, que nos fazem filhos de Deus. Como fruto disso, quem acolhe um discípulo missionário também se descobre filho de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória os gestos as palavras no ambiente da última ceia de Jesus com os seus discípulos

Em que nós e nossos contemporâneos depositamos a esperança da felicidade: na atitude de amigo e irmão, ou de superior e chefe?

Por que a maioria dos cristãos prefere repetir o rito da eucaristia e do lava-pés, mas resiste em assumir a atitude que ele propõe?

Como testemunhamos aos homens e mulheres de hoje nossa identificação com Jesus e sua missão?


terça-feira, 28 de abril de 2026

Expressão da ação do Pai

A vida de Jesus ilumina nossos caminhos e opções

1065 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Quarta-feira | João 12,44-30

Embora apresentem cenas da vida de Jesus antes da morte e ressurreição, os evangelhos são pós-pascais, e precisam ser lidos nesta perspectiva. É isso que estamos fazendo desde o segundo domingo de Páscoa.  E o texto de hoje está situado no final da primeira parte do evangelho de João, antes da narração da ceia e do lava-pés, cena com a qual inicia-se a narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Sobre Jesus já pesava um decreto de morte, e ele estava plenamente consciente disso. É por isso que ele andava se escondendo, mas não se furtava de dizer aquilo para o qual o Pai o havia enviado. As palavras de hoje são as últimas que Jesus pronuncia diante de todos os ouvintes, pois doravante falará apenas com seus discípulos e com seus perseguidores. E é a terceira vez que Jesus fala alto, gritando (como em Jo 7,28.37). Escutemos atentamente!

Em seu discurso, Jesus sublinha que suas ações e palavras são luz, amor solidário que conduz à vida. São um caminho diametralmente oposto às trevas, que são o egoísmo doentio, que produzem opressão e levam à morte. Quem o encontra é posto numa encruzilhada, e deve escolher entre luz e trevas. Nesta oposição nada metafísica e profundamente histórica, Jesus resume sua missão, como João já o fizera no primeiro capítulo do seu evangelho.

E o que Jesus faz e ensina não é aquilo que ele gosta ou acha oportuno, mas aquilo que o Pai pede que ele diga e faça. Ele não faz nada por si mesmo, e sente-se honrado em ser enviado, em cumprir a vontade do Pai. Ele dispensa qualquer protagonismo, pois basta-lhe a plena comunhão com o Pai no ensino e na ação. Para conhecermos Deus precisamos olhar para Jesus diz e faz, renunciando às ideias preconcebidas e aos conceitos abstratos.

Ele é caminho para a vida, e salva-nos suscitando em nós a capacidade de amar como ele ama. Por isso, este é “a” ação do Pai, especialmente no gesto de repartir o pão e lavar os pés dos seus discípulos. Quem escolhe outro caminho, prepara o próprio malogro e ruína, não chega a realizar-se como ser humano.

 

Sugestões para a meditação

Olhando para o que Jesus faz, e escutando o que ele ensina, conseguimos ver e ouvir Deus Pai?

Ou permanecemos com ideias preconcebidas sobre Deus e procuramos desesperadamente adequá-las a Jesus?

Jesus não fala aqui de mandamentos (no plural), mas de mandamento (no singular): qual é mesmo este único mandamento do Pai que se mostra em Jesus?

O que significa para nós, que meditamos diariamente o Evangelho, ouvir e guardar a Palavra de Jesus Cristo?


segunda-feira, 27 de abril de 2026

O pastor e sua voz

Somos ovelhas que reconhecem a voz do pastor?

1064 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Terça-feira | João 10,22-30

Este episódio do evangelho está no contexto da festa da dedicação do templo de Jerusalém, quando Jesus se apresenta como porta que conduz à vida e pastor que conhece seu rebanho e cujas ovelhas reconhecem sua voz. Mesmo que o templo abrigue seus maiores opositores, que já o ameaçaram com apedrejamento, Jesus passeia por ele como quem se sente em casa.

As lideranças do templo veem Jesus como uma ameaça, têm a impressão que ele lhes tira o fôlego. Pouco antes do episódio de hoje, haviam dito que Jesus estava louco ou possuído pelo diabo. Angustiados e irritados, elas cercam Jesus no templo, numa clara demonstração de ameaça. E o desafiam a apresentar-se claramente como Messias, não para que acreditassem, mas para terem motivo para condená-lo.

O vazio de poder aberto pela espera de um messias é ocupado por estas lideranças, membros das famílias nobres e poderosas, e elas temem perder o poder. Jesus havia dito que estas lideranças são cegas por opção, não fazem parte do seu rebanho, não reconhecem nele a voz e a mão de Deus, servem e seguem a mercenários. Orgulham-se de ser descendentes de Abraão e defensores da Lei de Moisés, mas o são apenas da boca para fora. São filhos de Satã, o pai da mentira.

Jesus percebe a artimanha deles e, como já fizera em várias oportunidades, foge de uma discussão teórica e estéril sobre o Messias. Jesus prefere invocar o testemunho das suas ações de afirmação da dignidade e restauração da liberdade das pessoas, e os chama a tomar posição. São suas obras que testemunham se ele está com Deus ou não, se Deus está com ele ou não. Assumir a defesa do ser humano humilhado significa estar com Deus. Mas as lideranças do templo são cegas, não querem ver.

A conclusão da cena é dramática. Jesus adverte as lideranças a não tentarem recuperar o controle que perderam sobre parte do povo. Aqueles que o reconhecem como Pastor Bom acessaram a vida plena, e ninguém vai arrancá-los das suas mãos, pois o Pai não o permitirá. Jesus diz que ele e o Pai são um, e, diante disso, as lideranças reagem ameaçando apedrejá-lo.

 

Sugestões para a meditação

Fazemos parte do rebanho de Jesus Cristo, daqueles que ouvem e seguem a sua voz e continuam seu estilo de vida?

Reconhecemos a mão de Deus nas ações humanizadora e libertadoras de Jesus e de todos os que fazem o bem?

Como demonstramos isso? Nosso modo de ser testemunha claramente nossa pertença ao caminho ou “movimento” de Jesus?

Somos capazes de demonstrar nossa pertença a Jesus colocando-nos ao lado do ser humano ameaçado?