segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Misericórdia acima dos interesses

Nada pode estar acima da misericórdia

1183 | Tempo Comum | Semana XXI | Terça | Mateus 23,23-26

Estamos acompanhando a atuação de Jesus em Jerusalém, onde ele se confronta com o templo e é atacado pelos sacerdotes, pelos mestres da lei e pelos fariseus. Jesus faz uma série de críticas aos fariseus e escribas, que começa no versículo 1º do capítulo 23: eles não fazem o que ensinam e, além disso, impõem pesados fardos ao povo e estão atrás de reconhecimento e notoriedade.

O texto de hoje faz parte de uma série de sete “maldições” ou críticas que Jesus dirige a eles por excluírem o povo do Reino de Deus, por fazerem dos convertidos cidadãos e crentes piores que eles mesmos, por serem guias cegos e por falsificarem a Palavra de Deus em benefício de seus interesses. No pequeno texto de hoje temos a quarta, a quinta e a sexta maldições ou críticas de Jesus a eles.

Na quarta maldição, Jesus acusa os escribas e fariseus de praticar e ensinar uma visão parcial da vontade de Deus, pois eles fazem e ensinam muitas pequenas coisas, mas ignoram a justiça e a misericórdia, que estão no centro do coração de Deus. Assim, eles não são como cegos que se oferecem para guiar outros cegos. Dão importância aos detalhes e fazem menos caso da compaixão.

A quinta e a sexta maldição acusam esses líderes de incoerência e hipocrisia, pois vivem de aparências e disfarçam a ambição, o roubo e a violência que se escondem dentro deles que movem tudo o que fazem. Roubo significa pilhagem violenta, e cobiça é descontrole na posse, no sexo e nas acusações injustas. Segundo Jesus, o centro da vida dos fariseus e doutores da lei está nas coisas e não nas pessoas.

A dura crítica de Jesus é originalmente dirigida aos fariseus e mestres da lei, mas, muitos anos depois, quando Mateus escreve o evangelho, quem está em questão são os discípulos e discípulas de Jesus. É uma crítica recordada e atualizada “para o consumo interno” da comunidade, visando a conversão e a coerência de vida dos discípulos do final do primeiro século e de hoje.

Na condição de discípulos missionários, precisamos estar atentos ao risco da incoerência e da hipocrisia, pois elas não são privilégio dos fariseus. Ou será que às vezes, por trás de palavras formais e gentis, não se esconde um arrogante desprezo? E será que tantas picuinhas e regras que apregoamos não matam a compaixão?

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure ler ao contrário: o que Jesus e o Reino de Deus pedem ou esperam daqueles que seguem este caminho

Seguindo o que fala Jesus, você seria capaz de identificar as principais incoerências e contradições dos líderes cristãos e políticos de hoje?

Você seria capaz de identificar e dar nome às contradições e incoerências que rondam você, sua família e sua comunidade em relação ao Evangelho de Jesus?

domingo, 23 de agosto de 2026

Nosso grito

Mulheres vivas e soberania, eis nosso grito!

No dia 18 de agosto aconteceu, em Porto Alegre, o lançamento da 32ª edição do Grito dos Excluídos e do Manifesto por um Rio Grande Decente. O evento esteve sob a responsabilidade da Comissão das Pastorais Sociais da CNBB Sul 3, em parceria com os movimentos populares e algumas Igrejas. O espaço escolhido foi a Assembleia Legislativa, e a sala que nos acolheu não poderia ter um nome mais sugestivo: Espaço Democrático.

O Grito dos Excluídos nasceu da sensibilidade social de algumas Igrejas Cristãs e organismos que cuidam da dimensão social da fé. Desde sua primeira edição, vem sendo realizado no dia 7 de setembro. A data não é uma escolha fortuita, pois lembra que, ao grito de Dom Pedro I pela independência política e administrativa do Brasil, somam-se muitos gritos que clamam pelo resgate das dívidas sociais do Estado brasileiro.

Aos cristãos e cidadãos que estranham ou questionam o que chamam de “indevida intromissão” das Igrejas nas questões sociais”, lembramos que o judaísmo, do qual somos herdeiros, nasceu do grito dos hebreus oprimidos que clamaram a Deus e foram por ele ouvidos. E permaneceu vivo e se renovou na medida em que os profetas e profetizas emprestaram suas vozes aos gritos dos pobres, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros.

O cristianismo também nasceu em torno do Enviado de Deus que, na cruz cravada fora dos muros que protegiam os “cidadãos de bem”, juntou seu grito ao de dois condenados e ao clamor de milhões de homens e mulheres não reconhecidos como cidadãos e sujeitos de direitos. Leprosos, cegos, leprosos, mendigos, crianças e pessoas de boa vontade se reconheceram no grito de Jesus e fizeram dele um grito de vitória coletiva: o Evangelho!

Nossas Igrejas precisam ser fiéis ao seu DNA cristão, fazendo ressoar os gritos das vítimas de hoje, abrindo-lhes espaços nos templos, ruas, parlamentos e praças. Elas nasceram para incomodar, para sacudir o comodismo. Afinal, o Filho de Deus a quem seguimos é sinal de contradição e veio para incomodar (Lucas 2,34). Não podemos ignorar ou silenciar os gritos dos excluídos, esperando que as pedras gritem por eles (Lucas 19,4).

Na Semana da Pátria nosso grito será “Vida em primeiro lugar!” Na defesa da paz e da moradia, façamos ressoar a nossa voz: “Mulheres vivas e soberania!” Esse grito adquire maior relevância no contexto de um estado machista e violento (80 feminicídios em 2025 e 60 em 2026), e de um momento nacional em que líderes despudorados querem sacrificar a soberania de um povo no altar de um poder fugaz e vantajoso para poucos.

Uma pergunta decisiva

UMA PERGUNTA DECISIVA

«E vós, quem dizeis que eu sou?» Esta pergunta de Jesus não se dirige apenas aos seus primeiros seguidores. É a questão fundamental à qual devemos responder sempre os que nos confessamos cristãos.

A nossa primeira reação pode ser encontrar rapidamente uma resposta doutrinal e confessar de forma rotineira que Jesus é o «Filho de Deus encarnado», o «Redentor» do mundo, o «Salvador» da humanidade. Títulos todos eles muito solenes e ortodoxos, sem dúvida, mas que podem ser pronunciados sem qualquer conteúdo vital.

A pergunta de Jesus não nos pede simplesmente a nossa opinião. Interpela-nos, sobretudo, sobre a nossa atitude perante Ele. E esta não se reflete apenas nas nossas palavras, mas sobretudo no nosso seguimento concreto. Como escreveu um teólogo: «A breve proposição: “Eu creio que Jesus é o Filho de Deus”, significa algo completamente diferente se for pronunciada por Francisco de Assis ou por um dos atuais ditadores sul-americanos. O Deus desses homens não é o mesmo, ou, pelo menos, o Deus que cada um invoca para orientar a sua conduta».

As palavras de Jesus exigem uma opção radical. Ou Jesus é para nós apenas mais uma figura entre tantas da história, ou é a Pessoa decisiva que nos oferece a compreensão última da existência, dá a orientação fundamental à nossa vida e nos oferece a esperança definitiva.

A pergunta «quem dizeis que eu sou?» adquire então um novo conteúdo. Já não é uma questão sobre Jesus, mas sobre nós mesmos. Quem sou eu? Em quem acredito? A partir de onde oriento a minha existência? Em que se resume a minha fé?

Todos devemos recordar que a fé não se identifica com as fórmulas que pronunciamos. Para compreender melhor o alcance do «que eu creio», é necessário verificar como vivo, o que aspiro, em que me comprometo.

Por isso, a pergunta de Jesus, mais do que um exame da nossa ortodoxia, deveria ser um apelo a um estilo de vida cristão. Evidentemente, não se trata de dizer ou acreditar qualquer coisa sobre Cristo. Mas também não se trata de fazer solenes profissões de fé ortodoxa para depois viver muito longe do espírito que essa mesma proclamação exige e implica.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Apóstolo Bartolomeu

Jesus é o abraço eterno entre Deus e o Homem

1182 | Festa de São Bartolomeu, Apóstolo | João 1,45-51

A tradição cristã sempre viu em Natanael a figura de Bartolomeu, cuja festa celebramos hoje, e que é um dos discípulos e apóstolos de Jesus. A cena conta o final de uma corrente de encontros e testemunhos que reúne em torno de Jesus o primeiro grupo de discípulos. A notícia da novidade de Jesus corre como um fio de pólvora e incendeia a imaginação utópica dos mais pobres.

É assim que Filipe procura Natanael para lhe comunicar sua marcante experiência no encontro com Jesus. Ele fala em nome da pequena comunidade, e suas palavras revelam que ainda não conhecem Jesus em profundidade. Mas são movidos pelo desejo de entrar na vida de Jesus e desvendar o mistério de sua pessoa. E esse desejo os leva a arriscar tudo pelo tesouro de uma vida plena de sentido.

Filipe apresenta Jesus como “o filho de José, de Nazaré”, em quem reconhece “Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e também os profetas”. A vila de Nazaré é uma região periférica da Palestina de então, habitada por um povo mestiço, tanto do ponto de vista étnico como religioso. Por isso, como judeu, Natanael não consegue conectar o Messias com essa região. De Nazaré só pode vir coisa ruim.

Filipe convida Natanael a fazer a experiência de conviver com Jesus, e ele se aproxima. Mas Jesus o havia visto e fixado seu olhar nele bem antes, e elogia sua autenticidade, inclusive na atitude preconceituosa que compartilha como judeu. Natanael representa o resto fiel do povo de Israel, que só consegue ver em Jesus um mestre ao estilo dos fariseus e um messias nos moldes de rei.

Aqui temos a primeira declaração solene de Jesus sobre si mesmo no evangelho segundo João: ele é o humano (“Filho do Homem”) que possibilita o encontro e a comunicação plena e permanente de Deus com a humanidade. Ele se apresenta como presença de Deus no Ser humano, enquanto que Natanael ainda separa Homem e Deus. Deus não se manifesta na realeza de Davi, mas na plenitude humana.

Com Natanael e os demais discípulos, somos convidados a fazer a experiência do olhar de Jesus fixado amorosamente em nós e de caminhar com ele, aprendendo e participando da sua vida. Dele e de quem nos apresenta ele, somos convidados a “ir e ver”. Como ele, nunca mais esqueceremos o momento do encontro!

 

Sugestões para a meditação

Participe afetivamente da cena: do comunicado de Filipe, da reação de Natanael, do encontro com Jesus

Acolha uma a uma as palavras e comparações de Jesus, e penetre no sentido profundo e espiritual que elas têm

Aceite o olhar fixo e amoroso de Jesus, convidando a fazer a passagem dos lugares comuns a uma experiência transformadora

sábado, 22 de agosto de 2026

Quem sou eu para você?

Que lugar Jesus Cristo ocupa na sua vida?

1181 | Tempo Comum | Semana XXI | Sexta | Mateus 16,13-20

O nome da cidade Cesaréia é uma homenagem de um rei vassalo ao imperador e colonizador César Augusto e mexia com a questão da soberania e da submissão política dos judeus nacionalistas. E a primeira pergunta que Jesus dirige aos discípulos, justamente neste lugar carregado de significado político.

Jesus pergunta: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” A expressão com a qual Jesus se refere a si mesmo destaca os vínculos de Jesus com humanidade, e é o título que ele prefere e usa com mais frequência. Conhecedor da ambiguidade dos conceitos, Jesus evita referir-se a si mesmo como Filho de Deus ou Messias.

A resposta dos discípulos vincula Jesus claramente ao movimento profético. O povo identifica a ação e a pregação de Jesus com a missão dos grandes profetas da sua tradição, aqueles homens e mulheres que falavam e agiam em nome de Deus e defendiam os direitos dos sem-direitos: Elias, Jeremias, João Batista.

Jesus escuta a resposta dos discípulos, mas não comenta. Ele olha os discípulos nos olhos e pergunta-lhes enfaticamente: “E vocês, quem dizem que eu sou?” O que interessa a Jesus são as ideias, fantasias e expectativas que povoam a mente e o coração dos homens e mulheres que seguem seus passos e escutam suas palavras.

A pergunta toca direto nas expectativas que eles alimentam sobre Jesus, e coloca em questão a relação que tem com ele. No fundo, Jesus pergunta “que lugar eu ocupo na vida, no projeto e nas opções de vocês?” A resposta deve vir da vida pessoal e eclesial; está inscrita nas nossas práticas, relacionamentos, opções e utopias.

Pedro rompe o silêncio e fala em nome de todos: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. É uma afirmação de fé, que reconhece que aquele ser humano concreto que se compadece da multidão faminta e elogia a fé de uma mulher pagã, é o Ungido pelo Espírito Santo, o enviado de Deus para realizar seu projeto.

A resposta de Pedro não nasce dos medos ou desejos infantis de onipotência, nem é ensinada pelos doutores de plantão. O reconhecimento e a fé num Deus presente na carne humana é dom de Deus aos pequenos. Jesus reage chamando Pedro de rocha, pois é sobre essa adesão de fé que ele confia a continuidade da sua missão. Esta adesão se torna chave que abre e fecha portas.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure esquecer as respostas aprendidas e responda à pergunta de Jesus dizendo o lugar que ele ocupa na sua vida, e como ele influi nas suas relações, ações e opções

Recorde as consequências e incidências que esta resposta tem na sua vida e na vida da sua comunidade

Deixe ressoar em você a palavra de Jesus: “Feliz és tu, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai!”

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Rainha?

Maria é uma Mulher humana, madura e livre

1180 | Bem-aventurada Virgem Maria Rainha | Lucas 1,26-38

No contexto da caminhada do tempo comum, poucos dias depois da solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebramos a festa de Nossa Senhora Rainha, mesmo que o título ressoe estranho e ultrapassado. E o texto do evangelho segundo Lucas ilumina esta solenidade mariana. Maria é cheia de graça, mas essa graça ela a recebe do Filho que protege e alimenta no seu ventre e compartilha conosco.

Nesta cena, o papel central é desempenhado pelo Anjo Gabriel, e o clima é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão que pode ser traduzida por “Esteja bem!” ou “Tudo de bom!” O anjo prossegue dizendo que o “charme” (graça) dela encantou o próprio Deus, e que ele gosta de estar com ela. Mas isso terá suas consequências, pois Maria terá que mudar os planos que traçara, e participará da dor e da glória do seu filho.

É claro que o anjo Gabriel não está se referindo à eventual formosura física de Maria de Nazaré. Ele fala da sua humanidade, original e sem pecado, como a criação perfeita sonhada e saída das mãos de Deus. Ela é a imagem da humanidade como Deus imaginou, a pessoa humana na qual brilha a sua imagem: uma pessoa sem dobras, sem ambiguidades, inteira e íntegra, sempre e em tudo o que faz.

Acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é mulher passiva, um ser humano sem personalidade e sem iniciativa. Antes, mostra-se uma pessoa atenta e reflexiva. Ela pede explicações, quer compreender, interroga até o próprio mensageiro de Deus. E descobrirá lentamente a bela ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade e grandeza aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá – o fruto bendito do seu ventre – abrirá o caminho de um novo êxodo para uma nova terra.

E o próprio anjo antecipa traços do filho de Maria: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, santo, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi. No nome que lhe será dado, está sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador dos oprimidos.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado a Maria, razão de ser da nossa espera e da nossa alegria

Deixe ressoar em você as palavras do Mensageiro: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

Acolha estas palavras como fundamento da sua vocação de ser íntegro e irrepreensível e da missão na Igreja e no mundo

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Um único amor

Todos os mandamentos convergem no amor

1179 | Tempo Comum | Semana XX | Sexta | Mateus 22,34-40

Já dissemos que os capítulos 21 e 22 de Mateus apresentam o confronto permanente entre Jesus e o reino de Deus com a elite dirigente do judaísmo e a lógica excludente do templo. Nos trechos omitidos entre os textos de ontem e de hoje (v. 15-33), Jesus discute com os saduceus sobre a ressurreição e a legitimidade do imposto exigido pelo império romano. Com seus argumentos, Jesus calou a boca dos saduceus.

Mas o silêncio dos saduceus não é vergonha, capitulação ou inércia. Eles se aliam aos fariseus e mestres da lei para colocar Jesus novamente à prova. Desta vez, provocam Jesus a distinguir, entre os muitos mandamentos, aqueles que seriam grandes e relevantes, e aqueles que poderiam ser vistos como secundários. Jesus responde sublinhando a unidade dos mandamentos, e não a hierarquização. As leis da aliança e a perspectiva profética se entrelaçam na prática do amor.

Jesus responde à provocação acenando para aquilo que o livro do Deuteronômio apresenta no capítulo 6: o horizonte dos mandamentos é o amor profundo e integral a Deus, inseparável do amor social e cotidiano ao próximo. Não se trata de atos ocasionais de amor ou de simples sentimentos, mas de uma visão social e estrutural, que conjuga o amor ao próximo ao amor a Deus, do qual decorre.

Como Jesus havia anunciado no capítulo 5 de Mateus, a Lei e os Profetas, ou seja, todas as escrituras, dependem disso! Em outras palavras: o maior e mais importante dos mandamentos é a fidelidade e a perseverança integral e diária na prática da compaixão ativa, humanizadora e libertadora nas relações com os irmãos. E isso não é um entre outros mandamentos, mas o coração pulsante da inteira experiência e vontade de Deus na história.

Isso constitui o núcleo ou fio de ouro da pregação de Jesus e do caminho ético que ele propõe. Sem esse amor, a fé se torna moralismo e legalismo vazio, e os projetos de promoção social se esvaziam em políticas de ocasião. É nesse amor, na afirmação prática da dignidade do outro e no serviço solidário e perseverante às suas necessidades, que se revela e se sustenta a verdade e a solidez da fé. Nada vem antes nem está acima disso!

                                                                        

Sugestões para a meditação

Você leva a sério a centralidade do amor integral e fiel a Deus e ao próximo no qual está presente como a síntese da lei e da profecia?

Você percebe em você e na sua comunidade a tentação de acentuar exageradamente a obediência a Deus e a moral em detrimento do amor ativo e compassivo ao próximo?

Como a Igreja poderia ensinar e explicitar melhor esse fio vermelho em seu ensino e em sua prática pastoral?

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Festa com casa cheia

A alegria do Pai é que todos sentem à mesa

1178 | Tempo Comum | Semana XX | Quinta | Mateus 22,1-14

O calendário litúrgico-pastoral omite quase dois capítulos do evangelho de Mateus, e nos propõe para hoje o início do capítulo 22. Esta parábola faz parte do quinto bloco narrativo do evangelista. Jesus percorreu um longo caminho e chegou a Jerusalém. Ali ele travará um duro confronto com a instituição do templo e com seus defensores e controladores. Este confronto começa com sua entrada no templo com chicote na mão, e se prolonga em várias parábolas. 

A parábola dos convidados para a festa de casamento é um confronto aberto de Jesus com os fariseus e os mestres da lei, que representam a elite religiosa do judaísmo. Os protagonistas são um rei que convida seus amigos para a festa de casamento do filho (uma alusão a Jesus). Como sabemos, para o mundo e a cultura oriental, comer e festejar significa participar da vontade de Deus e do seu Reino, e evoca as refeições de Jesus com as pessoas excluídas.

Os convidados preferenciais para a festa declinam do convite reiterado do rei, e tratam com violência os mensageiros que ele envia. Na verdade, rejeitam tanto a autoridade de Jesus como enviado e mensageiro do Pai como a participação no dinamismo do Reino de Deus, no qual há lugar para todos. Mesmo vendo seu convite rejeitado e seus enviados tratados com violência, o rei não reage de modo violento, nem pune aqueles que não o reconhecem.

Então, o rei deixa de convidar os que vivem nos templos e nos corredores dos palácios e das cúrias e se dirige às pessoas e grupos que vivem nas encruzilhadas (lugares de mendicância), abrindo a porta do seu Reino a todos, sem exclusão: homens e mulheres, judeus e pagãos, doentes e pecadores, adultos e crianças, bons e maus. É nisso que consiste a alegria do rei, e é nisso que ele se parece com Deus Pai. Sua alegria e seu prazer é ver todos os filhos e filhas reunidos fraternalmente.

A parábola termina fazendo referência a alguém que aceitou o convite, mas não se apresentou com as vestes adequadas e é punido duramente. Trata-se de um sujeito que pretende ser discípulo de Jesus sem assumir um novo jeito de viver, e não de alguém que tenha alguma culpa moral. Os últimos da escala social e aqueles que se dispõem a seguir a Jesus precisam assumir seus valores e suas práticas: dar gratuitamente aquilo que de graça receberam.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Como você vem respondendo a este convite para participar da festa da vida que acolhe quem sempre foi relegado à margem?

Você acolhe esse convite com alegria e compromisso, ou “com dor de cotovelo”, como se você e sua classe fossem preteridos?

E você está usando a roupa adequada para uma festa de núpcias (prática da justiça) e não se preocupa com a coerência?

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Igualdade

É justo quem trata a todos com igualdade

1177 | Tempo Comum | Semana XX | Quarta | Mateus 20,1-16

Quem quiser ser discípulo de Jesus precisa ter sabedoria e decisão para encarnar o reino de Deus em todas as suas relações. No horizonte da utopia de Jesus, justiça e a bondade não estão no mérito e na aplicação da lei do “cada um recebe o que merece”. A lógica do Reino de Deus inverte os valores, e estabelece a prioridade dos últimos e desprezados sobre os ricos e privilegiados.

Na parábola de hoje, o personagem central é um chefe de família patriarcal. A primeira cena trata da contratação de diaristas para trabalhar no seu campo. Mas tudo está focado na segunda cena, ou seja, no acerto de contas pelo trabalho realizado pelos trabalhadores contratados em diferentes horas do dia. A todos o chefe da família prometera pagar o que seria justo, e não um valor estabelecido.

As pessoas contratadas na primeira hora assistem ao pagamento das que foram contratadas no fim do dia, que recebem, por poucas horas de trabalho, um valor que permite a subsistência diária, e isso alimenta a expectativa de que receberiam bem mais, pois haviam feito por merecer. Mas o contratante não se orienta pela meritocracia, e sim pela justiça e pela bondade, e retribui a todas igualmente.

O grupo que se julga merecedor de uma retribuição maior se irrita por ter sido igualado aos demais. De fato, o pai de família não age conforme o costume, não reforça a competição e a distinção de classes. A irritação brota da inconformidade por terem sido igualados aos mais necessitados. Eles protestam contra a igualdade fundamental de todos os trabalhadores!

Com esta parábola, Jesus nos convoca a tomar uma posição radical, como ele mesmo o fez: assumir um estilo de vida alternativo também na economia, agindo na perspectiva do Reino de Deus, guiando-nos pela necessidade das pessoas e pela gratuidade, ou pela economia do dom, como a chama o Papa Francisco.

Será que também nós, depois de dois mil anos de cristianismo, caímos na armadilha de nos sentir melhores que os outros? Em que medida ainda tratamos as pessoas, grupos, religiões e classes sociais a partir daquilo que achamos que ‘merecem”? Será que ainda defendemos a velha moral econômica que recomenda dar a cada um o que merece? Chegamos a perceber que a lógica de Deus é outra, é diferente?

 

Sugestões para a meditação

Com esta parábola, Jesus provoca fortemente as pessoas, tanto os judeus como seus discípulos, a superar a lógica do mérito

Deixe ressoar em você a afirmação clara e provocativa de Jesus mediante a parábola do patriarca generoso e solidário

Peça a Jesus a graça de se comprometer e se alegrar com os pequenos e grandes sinais de emancipação dos pobres

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quanto temos de crédito?

O discípulo de Jesus não acumula créditos

1176 | Tempo Comum | Semana XX | Terça | Mateus 19,23-30

Ontem meditamos o instigante episódio do jovem religioso e rico que se candidatou a discípulo de Jesus. Diante da exigência de distribuir os bens aos pobres e se colocar a caminho com os demais discípulos, ele voltou atrás, e preferiu ficar com os bens a seguir Jesus. Na verdade, os bens o possuíam e impediam de ser livre para.

A atitude desse jovem leva Jesus a sublinhar que o apego aos bens e a alguns vínculos que aparentemente dão segurança são entraves à adesão ao Reino de Deus. A metáfora da agulha e do camelo não deixa dúvidas: que uma pessoa rica aceite o desafio do Reino de Deus não é apenas difícil, mas impossível, a menos que se desapegue e corrija suas práticas injustas para acumular bens e os partilhe com os pobres, os verdadeiros “proprietários” daquilo que nos sobra.

Os discípulos ficam assustados com esta afirmação de Jesus. Eles bebem da ideologia religiosa que considera a riqueza um sinal da benção divina, e os ricos, já socialmente privilegiados, como muito amados e favorecidos por Deus. Por isso, pensam que se os ricos não se salvam (não entram no Reino, não são perfeitos) ninguém poderá se salvar. Mas Jesus crê que a fé sincera pode produzir mudanças: quem descobre o valor do Reino, arrisca tudo, como aquele trabalhador que vendeu tudo para comprar o campo, ou aquele negociante, que faz o mesmo pela pérola preciosa.

Pedro, em nome dos discípulos, observa que eles deixaram tudo e estão seguindo Jesus. De fato, deixaram a família e os contratos de trabalho de pesca, e entraram no caminho da busca do Reino, embora não tenham distribuído os bens aos pobres. Eles perguntam que benefício terão, pois acham que merecem. Por isso, podemos dizer que Pedro se mune de coragem e, em nome dos colegas, cobra a conta de Jesus.

Jesus responde acenando para o futuro, quando o Reino de Deus será plenamente realizado. Então aqueles que hoje são colocados em último lugar serão reconhecidos em sua dignidade e grandeza, terão influência e atrairão outros por seu testemunho de vida. Mas sem seguimento radical de Jesus, os que hoje são badalados podem se ver no último lugar, como uma simples nota de rodapé no livro da história.

 

Sugestões para a meditação

Há algo que ainda amarra você e o impede de entregar-se à aventura de criar novos céus e nova terra, sem regatear nada?

Em que medida você também participa da ideologia que considera os estudados, ricos e poderosos como abençoados por Deus e os pobres como culpados?

Qual é o obstáculo faz com que a vida dos cristãos não tenha hoje grande poder de influência e exerça pouca atração?

Você já ouviu sermões que tentam amenizar a metáfora do camelo e da agulha, fazendo possível conjugar o apego aos bens com a fé em Jesus?