sábado, 14 de março de 2026

A verdadeira cegueira

O fruto da luz é bondade, justiça e verdade

1019 | Quaresma | 4ª Semana | Domingo | João 9,1-41

O pessoal do templo havia ameaçado apedrejar Jesus, o que o leva a sair de fininho daquele espaço religioso. Os discípulos vêm um cego mendigando, e perguntam se a desgraça é fruto do pecado, como pensam. O cego representa as pessoas que vivem sob a opressão, sem imaginar que podem sair dela, sem vislumbrar alternativas. Ele não esperava uma cura, nascera privado da condição e dignidade humana e sempre vivera assim. Jesus não pode dar-lhe nada, porque ele não sabe o que é a vida.

Para Jesus, esse limite não é castigo, e Deus não é indiferente a essa condição limitadora. Jesus convoca os discípulos à ação, e assinala a urgência de fazer algo: sua obra é fazer algo em favor da pessoa humana humilhada. Com o barro, Jesus recria o ser humano, acaba a criação desfigurada e incompleta. A piscina está fora da cidade, e o cego deve caminhar, sair livremente, mas ainda sem ver. Assim ele começa a ver e conhecer o que é o ser humano, o mundo, o caminho da fé.

O cego é como um morto que volta à vida, sendo o mesmo, é outro. Antes ele permanecia imóvel, impotente, dependente, e a mudança repentina deixa os vizinhos perplexos. A cura suscita interesse por Jesus no meio popular, esperança e desejo de encontra-lo. Que os cegos vejam, é sinal dos tempos messiânicos. Os fariseus não se interessam pela cura em si, mas sobre como foi feita. Eles não se alegram com a cura, e exigem respeito à lei, que seria a regra da ação de Deus.

O deus dos fariseus não se interessa pela pessoa humana que tem sua vida limitada. Os judeus se refugiam na incredulidade e suspeitam que o homem jamais havia sido cego. Não encaram o fato evidente, pois contradiz suas convicções. Intimidado pelas autoridades, o povo também não pode expressar a alegria espontânea pela cura. Deve submeter-se à opinião dos dirigentes para continuar sobrevivendo.

Os fariseus querem evitar o testemunho do cego sobre Jesus, e pedem que jure lealdade a eles, para que Jesus seja rotulado como pecador. Não podem negar a cura, mas pensam que podem calar a interpelação e a novidade que ela provoca. Para eles, Deus não pode agir contra a lei e a favor do ser humano necessitado. Eles pensam que sua ideologia é mais verdadeira que a experiência, e se refugiam na tradição para negar a realidade e não encarar a mudança possível e necessária.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, em cada personagem, naquilo que dizem e fazem

Perceba como a iluminação do cego vai crescendo, e passa da cura física à maturidade espiritual e à iluminação da fé

Quais são as ideologias ou cegueiras das quais necessitamos ser libertados, para que nossa adesão a Jesus seja madura e plena?

Nós e as meninas do Irã

Eu choro pelas meninas e demais cidadãos do Irã!

“O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá. Ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã. Sejam quais forem as motivações da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro...”  (O Estado de São Paulo, 28/02/2026).

Este é o juízo implacável expresso no editorial do jornal. É uma de declarar que essa guerra é “justa” e “santa”. O que falta é apenas definir o preço que “a civilização ocidental” está disposta a pagar para “derrubar o regime” e implantar à força sua democracia vazia. Para eles, o assassinato de 165 meninas numa escola feminina é um custo aceitável.

Para os senhores da “imprensa hereditária”, a mesma que aplaudiu o início do Terceiro Reich de Hitler, “Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca”. Assumindo o papel de juiz, o jornalão diz que a agressão é justa, e os EUA têm o direito de impor o seu “modelo de democracia” e de controlar o petróleo iraniano.

“Se ninguém no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”, eu me orgulho de não pertencer a esta “civilização”, que tem mais de violência do que de civilidade. Pertenço aos “povos bárbaros” que choram a morte de inocentes. “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos, e não quer consolar-se porque os perdeu” (Mt 2,18).

Netanyahu não poderia esquecer o lamento dos seus antepassados: “Consomem-se em lágrimas os meus olhos, fervem as minhas entranhas; derrama-se por terra meu fel ante a ruína da filha do meu povo, quando meninos e crianças de peito desfalecem nas praças da cidade... Jazem por terra nas ruas meninos e velhos...” (Lamentações 2,11.21).

Não me conformo com o fato de que haja quem, proclamando-se cristão e católico, justifique e aplauda guerras, mesmo as mais nefastas e injustificáveis. Neles a indiferença se globalizou e arruinou a alma. Eles confundem o aplauso e a submissão aos vencedores e à rapina com reverência ao Deus da Vida e defesa dos verdadeiros valores humanos.

Recordemos, mais uma vez, a Doutrina Social da Igreja: A Comunidade Internacional se baseia na soberania de cada Estado, e nada pode negar ou limitar a sua independência. “Para resolver os conflitos que comprometem a segurança internacional é preciso renunciar definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra (cf. §§ 434 e 438). Não há espaço para guerras declaradas diante de “ameaças existenciais”.

A visão e a cegueira

TESTEMUNHA DA VERDADE

Há uma característica que define Jesus e configura toda a sua atuação: a sua vontade de viver na verdade. É surpreendente a sua decisão de viver na realidade, sem se enganar nem enganar ninguém. Não é comum na história encontrar um homem assim. Jesus não apenas diz a verdade. Ele acredita na verdade e a procura. Está convencido de que a verdade humaniza todos.

Por isso, não tolera a mentira ou o encobrimento. Não suporta a tergiversão ou as manipulações. Não há nele indícios de dissimular a verdade ou de convertê-la em propaganda. A sua honestidade com a realidade torna-o livre para dizer toda a verdade. Jesus tornar-se-á «voz dos sem voz, e voz contra os que têm voz demais» (Jon Sobrino).

Jesus vai sempre ao fundo das coisas. Fala com autoridade porque fala a partir da verdade. Não precisa de falsos autoritarismos. Fala com convicção, mas sem dogmatismos. Não precisa pressionar ninguém. Basta a sua verdade. Não grita contra os ignorantes, mas contra os que falseiam intencionalmente a verdade para agir de forma injusta.

Jesus convida a procurar a verdade. Não fala como os fanáticos, que a impõem, nem como os funcionários, que a defendem por obrigação. Diz as coisas com absoluta simplicidade e soberania. O que diz e faz é claro e fácil de entender. As pessoas percebem isso imediatamente. Em contato com Jesus, cada um encontra-se consigo mesmo e com o melhor que há Nele. Jesus leva-nos à nossa própria verdade.

Quando este homem fala de um Deus que quer uma vida digna para os mais desgraçados e indefesos, torna-se credível. A sua palavra não é a de um farsante interessado na sua própria causa. Tampouco a de um religioso piedoso em busca do seu bem-estar espiritual. É a palavra de quem traz a verdade de Deus para aqueles que a quiserem acolher.

Segundo o quarto evangelho, Jesus diz: «Eu vim a este mundo para que os que não veem, vejam, e os que veem, fiquem cegos». É assim. Quando reconhecemos a nossa cegueira e acolhemos o seu evangelho, começamos a ver a verdade.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 13 de março de 2026

O fariseu e o publicano

Grande é quem a exata noção de si mesmo

1018 | Quaresma | 3ª Semana | Sábado | Lucas 18,9-14

Só não vê quem não quer, para não ter que mudar de atitude: vivemos numa sociedade intolerante e polarizada, com grupos contrapostos por ideologias e por disputa de espaços e poderes. O argumento moral – “nós, os cidadãos de bem; eles, os malfeitores, preguiçosos” – é usado com uma frequência espantosa. E a ideologia da meritocracia acabou oferecendo uma justificação adequada a esta divisão social.

Alguém pode se surpreender ao constatar que esta mesma postura estava presente na sociedade e no contexto cultural no qual Jesus de Nazaré viveu e atuou. Naquele tempo, vigorava o muro ideológico e religioso que distinguia puros e impuros e os colocava uns contra os outros. A ideologia da pureza – que misturava critérios sanitários, religiosos, morais, étnicos e sociais – definia quem era puro e quem era impuro, ou melhor, quem era “cidadão de bem” e quem era “elemento suspeito”.

Na parábola de hoje, estes dois grupos sociais estão tipificados no fariseu e no publicado. O primeiro se considera e é tratado como homem correto, justo, superior, ou cidadão digno. O segundo é visto e tratado como suspeito, sujo, herege, sem dignidade e sem direito ao respeito e à cidadania. Chama a atenção que a prática da oração não os torna iguais perante Deus; apenas escancara as diferenças.

Para Jesus e seu Evangelho, ninguém pode se arrogar o status de superior, honrado, merecedor ou melhor que os outros. Todos são pecadores e necessitam de conversão. O fariseu, que, na oração, manifesta seu orgulho e seu desprezo pelos outros, exatamente por isso também é pecador. A diferença é que o publicano, explicitando a dor da exclusão e a percepção das próprias contradições, é acolhido e justificado, enquanto que o fariseu continua devendo.

A humildade não é um simples ou falso sentimento de inferioridade, mas a consciência justa e correta daquilo que somos: vazio, interdependência, ambiguidade, desejo. É o reconhecimento de que somos todos devedores uns aos outros, de que ninguém – começando por nós mesmos – é maior ou melhor que ninguém. Somos o que somos por graça de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo, como quem foi rezar com o fariseu e o publicano, e observe a postura e as palavras de cada um

Com qual deles você se parece quando reza? Você se apresenta diante de Deus ostentando seus méritos e “cobrando a conta”?

Você considera a humildade uma limitação à sua personalidade e as realizações e o mérito uma expressão de sua grandeza?

Como assumir com serenidade e verdade diante de Deus a nossa condição de pecadores e devedor necessitados de misericórdia?

quinta-feira, 12 de março de 2026

O maior mandamento

O amor a Deus e ao próximo está acima do culto

1017 | Quaresma | 3ª Semana | Sexta | Marcos 12,28-34

A cena oferecida à nossa leitura neste sexta-feira da segunda semana da quaresma, mesmo parecendo bastante tranquila e isenta de provocações, faz parte das armadilhas que os chefes do judaísmo colocam a Jesus com a intenção de acusá-lo e das tensas disputas teológicas e políticas com ele. Não esqueçamos que elas ocorrem no ambiente do templo, do qual Jesus já havia expulsado os comerciantes. Este é o último confronto de Jesus antes de ser preso, condenado, torturado e crucificado.

No centro da disputa está a questão do primeiro ou principal mandamento da ética religiosa judaica. Quem questiona e chama ao debate é um mestre da lei, que disfarça sua intenção ardilosa falando num tom simpático. Ele pergunta pelo “primeiro de todos os mandamentos”. Jesus responde no horizonte com cautela, mas se atreve a juntar ao mandamento de amar a Deus (cf. Dt 6,4-13), conhecido e aceito, o de amar ao próximo (cf. Lv 19,18). “Não existe outro mandamento maior que estes!”

É importante perceber ainda que, no primeiro testamento, o mandamento “ame ao seu próximo como a si mesmo” não vem isolado, mas situado num conjunto de normas que se opõem às práticas de indiferença e opressão dos mais pobres das tribos de Javé (cf. Lv 19,9-18). Jesus já havia dito que estas normas são violadas pelos escribas. Para Jesus, o céu precisa vir à terra, e a terra é o único caminho para o céu. Não há lugar para escapismos e espiritualismos de qualquer espécie.

O texto termina dizendo que ninguém mais se atrevia a apresentar armadilhas a Jesus. Ele venceu todos os seus opositores: expulsou os comerciantes do templo, enfrentou as ciladas de fariseus e saduceus sem cair nelas, questionou a legitimidade e os privilégios dos chefes, assumiu seu papel de mestre. Em síntese, “amarrou o homem forte e reconquistou sua casa”, como refletíamos ontem (cf. Mc 3,27).

No caminho da conversão precisamos decidir quem manda em nós: Jesus e seu evangelho da fraternidade, ou o Mercado, que incensa o consumismo individualista e predatório, que trata tudo – as pessoas e todas as demais criaturas – como se fossem bens dos quais pode se apropriar e desfrutar.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, no templo, diante de Jesus e do escriba, especialista nos mandamentos da lei de Deus

O escriba parece candidato a discípulo, seu tom é simpático, mas, em verdade, é ardiloso e enganador, como os outros

Estaríamos nós também comprometidos com a manutenção das relações de dominação e legitimando-as com falsa ortodoxia?

Perceba a novidade corajosa de Jesus: ele une o amor a Deus e o amor ao próximo, e faz dos dois um só mandamento

quarta-feira, 11 de março de 2026

O selo de autenticidade

Escutemos hoje o que nos diz o Senhor!

1016 | Quaresma | 3ª Semana | Quinta | Lucas 11,14-23

Jesus acabara de ensinar os discípulos a rezar, sublinhando a necessidade de pedir com confiança, pois Deus é pai. Mas isso não livra Jesus de reações diversas e contraditórias frente à sua pessoa e às suas ações. Enquanto as multidões ficam admiradas com seu ensino, as autoridades religiosas questionam suas credenciais. E pedem com insistência que diga em nome de quem ele vive, prega e age.

Por ocasião da libertação de uma pessoa do domínio do demônio, os questionamentos viram acusação curta e grossa: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. É a mais grave acusação que pode ser dirigida a uma pessoa: a acusação de ser aliado do demônio. Partindo dessa acusação, Jesus discorre sobre o sentido do que ele faz, questiona as práticas do judaísmo e alerta seus discípulos.

Quando liberta uma pessoa de algo que limita sua personalidade, Jesus não age como quem realiza sinais espetaculares para impressionar, nem recorre a poderes mágicos. As curas e libertações que opera, sempre em benefício de pessoas vulneráveis e necessitadas, são sinais eficazes do dinamismo do Reino de Deus que está ativo no mundo. Ele não é enviado ou parceiro do diabo, mas filho e enviado de Deus.

Para refutar a grave acusação que lhe dirigem, Jesus recorre a duas experiências familiares aos seus ouvintes: um reino dividido prepara a própria ruína; quando a casa de um homem forte e bem armado é atacada e dominada por outro homem mais forte ainda, o dono acaba sendo expulso e seus bens mudam de dono. Jesus é esse homem mais forte, que restituiu a liberdade a todas as pessoas vítimas dos agentes do mal e expulsa o “dominador”.

Por fim, Jesus faz uma advertência a todos os que foram acolhidos e justificados por ele: ninguém pode se sentir imunizado e melhor que os outros, nem considerar a salvação como adquirida e merecida. Nossa liberdade se mantém e se renova na luta pela liberdade dos outros. Nossa condição de filhos, irmãos e herdeiros é sempre precária, e precisa ser reassumida diariamente. A necessária celebração da vitória não pode esconder a continuidade da luta.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esta breve, tensa e complexa discussão de Jesus com seus acusadores, que são lideranças religiosas do judaísmo

Acusações semelhantes àquela feita contra Jesus não estão sendo feitas hoje aos cristãos, igrejas e organizações mais progressistas?

O que significam as críticas desrespeitosas que alguns grupos católicos dirigem contra a Conferência dos Bispos do Brasil e contra o Papa?

O que dizer das pessoas e grupos que se julgam superiores, mais puras e ortodoxas que o próprio Papa e a Conferência dos Bispos?

terça-feira, 10 de março de 2026

Jesus, a Lei e a Profecia

Em Jesus, a profecia e a lei se realizam

1015 | Quaresma | 3ª Semana | Quarta | Mateus 5,17-19

Os evangelhos não deixam dúvidas: aos olhos de grande parte dos seus contemporâneos, Jesus era um anarquista que estimulava a desobediência religiosa e civil. A liberdade daqueles que se fizeram seus discípulos também causou preocupações, até por causa do exagero de alguns. Daí a pergunta que rondava a cabeça de muita gente: Jesus teria vindo da parte de Deus para abolir a Lei?

O texto faz parte do processo de formação dos discípulos, que conhecemos como “sermão da montanha”. É claro que a indicação das características das pessoas que são “bem-aventuradas”, os santos, as pessoas que agradam a Deus, causou um certo desconcerto, e não apenas naquele tempo. A intervenção de Jesus que refletimos hoje procura esclarecer e colocar as coisas no seu devido lugar.

As citações diretas das escrituras que podemos ler nos capítulos anteriores de Mateus já poderiam ter eliminado as dúvidas: tudo na vida de Jesus ocorre “para que se cumpra a Lei”. Mas então, se fosse simples assim, Jesus seria apenas um profeta judeu como todos os outros, ou um simples reformador dos costumes? Nele só haveria continuidade, sem nenhuma espécie de ruptura em relação ao judaísmo?

Para responder a estas interrogações, Jesus começa com uma advertência: “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas!” Tanto a Lei como os Profetas, continuam como uma espécie de pedagogos até que o Reino de Deus seja consumado, até que passe este velho sistema social, cultural e religioso (“o céu e a terra”). “Eu vim para cumprir plenamente” tanto a Lei como a Profecia, diz Jesus. Para ele, a prática dos escribas e fariseus era ostensivamente parcial e imperfeita.

Jesus é o cumpridor do sentido profético da Lei, até então escondido aos judeus. Jesus se apresenta como a “chave” que abre o sentido das escrituras, que devem ser lidas e revistas a partir daquilo que ele viveu e ensinou. Desobedecendo (ou ultrapassando) as leis para atender as necessidades das pessoas vulneráveis, Jesus se mostra um profeta, e manifesta o verdadeiro sentido e o objetivo último da Lei. Quem o segue deva estar disposto a renunciar ao legalismo e ao medo.

 

Sugestões para a meditação

Você não tem a impressão de que, com seu ensino e sua prática, Jesus estimula uma postura desobediente e anárquica frente às leis?

Você não acha que, por outro lado, muitas pregações e práticas de hoje prendem Jesus à simples e inflexível obediência às leis e costumes?

O que significa para nós, hoje, levar a sério que Jesus cumpre e revela plenamente as escrituras anteriores a ele e leva à perfeição a profecia?

Quais as implicações de assumir “o olhar, o agir e o sentir” de Jesus como chaves para a leitura das Escrituras Sagradas?

segunda-feira, 9 de março de 2026

A compaixão e o perdão

Não devemos nós também ter compaixão?

1014 | Quaresma | 3ª Semana | Terça | Mateus 18,21-35

Na meditação de ontem vimos que Deus não está sujeito aos interesses e expectativas de pequenos grupos, pois sua lógica é diferente: ele prioriza as pessoas e grupos sociais mais necessitados, aqueles que não contam e não valem aos olhos de quem controla o poder, aqueles que são “diferentes” e, por isso, menosprezados. Cabe-nos fazer nossa essa compaixão sem fronteiras que Deus nos revela em Jesus.

Hoje, neste ensino inserido na quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. O rei da parábola é igualzinho aos demais: ele age oprimindo os mais fracos. A compaixão e o perdão concedidos ao escravo endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude do escravo. Este, tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do escravo perdoado, que mostra mais autoridade e crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente a descrição desse episódio, especialmente a parábola com a qual Jesus ilustra seu ensino aos discípulos

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?

Sinodalidade

Apaixonados e renovados por uma experiência sinodal

Caminhando com a Igreja

Ontem, na abertura da terceira etapa da 14ª Assembleia Diocesana da Ação Evangelizadora trazíamos à memória a recomendação do último Sínodo: Que se realizem assembleias eclesiais a todos os níveis com certa regularidade, pois elas são um modo privilegiado de escuta, consulta e discernimento eclesial (cf. Documento Final, § 107).

Recordávamos também que “as Assembleias sinodais são acontecimentos que celebram a união de Cristo com a sua Igreja através da ação do Espírito. É Ele que assegura a unidade do Corpo eclesial de Cristo, tanto na assembleia eucarística como na assembleia sinodal”. Ambas são espaços para ouvir a Palavra, discernir a vontade de Deus e responder a ela (cf. Idem, § 27).

Nos caminhos de Emaús

No início da manhã de hoje fomos iluminados pelo encontro de Jesus com os discípulos de Emaús. Jesus caminha conosco, e nos pede um olhar retrospectivo sobre a Assembleia: O que esperávamos e não aconteceu?  O que aconteceu que não esperávamos? Sua Palavra mexeu com o nosso coração, e nós abrimos nossas portas trancadas.

Uma vez escancaradas as portas, ele entra e senta à mesa conosco. Mas com ele entra também a Igreja diocesana como um todo, e a tenda da nossa pequena casa se alarga. E todos sentimo-nos acolhidos e hospedados pela Igreja diocesana. Isso é maravilhoso: a Igreja inteira habita e vive em nós, e nós somos plenamente acolhidos na Igreja.

Anunciar e testemunhar o Evangelho

Ontem, São Paulo (cf. 1Cor 9,16-20) nos ajudou a vislumbrar o horizonte que nos atrai, congrega e ilumina: Anunciar e testemunhar a Boa Notícia de Jesus Cristo a todos e sempre. É isso que sonhamos como Igreja diocesana: anunciar o Evangelho com a vida, sendo uma Igreja acolhedora, sinodal, enraizada em Jesus Cristo e na sua Palavra.

Por isso mesmo, fizemos nossa a prioridade pastoral que Jesus indicou ao enviar os apóstolos (cf. Mt 10,5-11): iremos primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel, a quem está mais exposto à vulnerabilidade. E o faremos anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus e multiplicando gratuitamente ações que resgatam a cidadania que lhes é negada.

Renascidos em Jesus

No evangelho de hoje (Mt 20,17-28), Jesus nos antecipa o modo como nos revelará e entregará o amor de Deus: mantendo-se fiel e servidor, mesmo quando isso atraia humilhação despojamento, condenação e zombaria pública dos grandes, entrega plena de si mesmo, confiança absoluta no Pai. E é isso que ele espera daqueles que o seguem, da sua Igreja.

Num contexto terrivelmente assustador, diante de imperadores que impõem taxas e semeiam guerras, que governam como autocratas, proclamam que seus bombardeios são bem-sucedidos se definem sempre como os melhores, Jesus manda claramente: “Entre vocês não seja assim!” O maior é o mais humilde, e o primeiro é aquele que serve.

Atraídos e guiados pelo horizonte

Ao iniciar sua missão, Jesus não disse: “Tenho um programa bem elaborado para vocês!”, mas“O Reino de Deus está próximo, acreditem nessa Boa Notícia!” (cf. Mc 1,15). Dois mil anos depois, Martin Luther King também proclamou aos negros norte-americanos e aos homens e mulheres de boa vontade: “Eu tenho um sonho!”

É isso que desperta consciências adormecidas, atrai discípulos e lhes dá forças para ser eternos peregrinos de esperança. Saint-Exupéry dizia que, se queremos construir um barco, não devemos começar chamando engenheiros, madeireiros e profissionais diversos. É preciso antes ensinar um povo a desejar a misteriosa imensidão do amar.

Queridas irmãs e irmãos! O Plano de Evangelização que nascerá das decisões desta Assembleia será apenas um barco, um meio. Ele não passará de letra morta se não nos apaixonamos pela imensidão bela e libertadora do Reino de Deus. É essa paixão envolvente que nos dará forças e alegria para lançar-nos no trabalho do Senhor.

Partilhemos aquilo que descobrimos

Logo mais estaremos voltando para as comunidades que nos enviaram. Voltaremos como viemos? Os discípulos voltavam para Emaús desolados, sem entender o que estava acontecendo. Era dia, mas tudo lhes parecia escuro. Depois de reconhecer Jesus na partilha do pão, eles voltaram a Jerusalém de noite, e tudo estava claro como o dia.

Oxalá possamos voltar alegres e cheios de esperança, e partilhar com os irmãos e irmãs aquilo que vimos, ouvimos e construímos juntos. E – Quem sabe?! – ouviremos deles algo semelhante àquilo que os dois jovens de Emaús ouviram ao chegar ofegantes em Jerusalém: “O Senhor está vivo de verdade e apareceu a Simão” (cf. Lc 24,34).

+ Itacir Brassiani msf

Homilia na conclusão da Assembleia Diocesana

04 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

Sem fronteiras

Deus prioriza sempre os mais necessitados

1013 | Quaresma | 3ª Semana | Segunda | Lucas 4,24-30

Depois de termos refletido ontem sobre a cena na qual Jesus se apresenta como fonte de água viva que sacia nossa sede de infinito, hoje somos levados à estreia da sua vida pública em Nazaré. E ele começara “demarcando o campo”, lendo um trecho do profeta Isaías e terminando com uma breve e explosiva “homilia”: “Hoje se cumpriu essa passagem da escritura que vocês acabaram de ouvir”.

A reação dos seus conterrâneos e coetâneos é contraditória: por um lado, admiração e aplausos; por outro, escândalo, críticas e até ameaças. Enquanto uns se impressionam pela coragem e sabedoria das suas palavras, outros tropeçam na sua origem humilde e pobre. Ademais, sua postura não supremacista e pouco nacionalista por alargar as fronteiras da sua missão para todos os pobres começa a causar estranheza e incômodo inclusive aos mais próximos.

Jesus conhece a história da profecia. Deus não considera a primazia dos vínculos étnicos, tribais e nacionais na sua ação libertadora. E os profetas, quando autênticos, se movem na mesma direção e com a mesma liberdade. Por isso, sofrem rejeição por parte daqueles que se consideram melhores, superiores, mais merecedores, começando pelos que lhes são mais próximos ou parecem mais piedosos.

Jesus não realiza nenhum milagre em benefício exclusivo dos seus conterrâneos e, com isso, frustra suas expectativas. Ele não se submete aos interesses de pequenos grupos. Os caminhos de Deus seguem outra lógica: Deus prioriza as pessoas e grupos sociais mais necessitados, aqueles que não contam e não valem aos olhos dos grupos que controlam o poder, aqueles que são “diferentes” ou “estão longe” e, por isso, são tornados invisíveis e são menosprezados.

Jesus busca como prova dessa lógica de Deus dois fatos antigos. Mesmo que existissem muitas viúvas pobres em Israel, o profeta Elias socorreu apenas uma viúva estrangeira. Mesmo diante de muitos leprosos hebreus, Eliseu priorizou a cura de um leproso estrangeiro. Cabe-nos assimilar e viver o amor sem fronteiras de Deus. É este o caminho da conversão nesta quaresma.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente a narração desta primeira manifestação e rejeição pública de Jesus na cidade de onde se criara

Dá para entender que, recordando Elias e Eliseu, Jesus está pedindo que a Igreja abra suas portas às pessoas discriminadas?

Em que medida também nós estaríamos alimentando a ideia de que Deus deve beneficiar primeiro os “nossos”?

No horizonte da Campanha da Fraternidade, quem faria parte desses grupos considerados desprezíveis e “estrangeiros”?