quarta-feira, 27 de maio de 2026

Eu quero ver!

Seguir Jesus com o coração e os olhos abertos

1094 | Tempo Comum | 8ª Semana | Quinta-feira | Marcos 10,46-52

Jesus está na última etapa do seu caminho de “subida” da Galileia a Jerusalém. Os mendigos, dependentes das intensas e constantes peregrinações populares, aparecem cada vez mais frequentemente. Jericó fica a poucos quilômetros da capital cantada e idealizada, está situada num vale, praticamente na área suburbana de Jerusalém.  Por outro lado, os discípulos continuam cegos e fechados à proposta de Jesus, e os ricos desertam desanimados com as exigências. É uma parábola do discipulado missionário em todos os tempos.

O cego e mendigo Bartimeu, cujo nome significa literalmente “filho da impureza”, “sujo” ou “impuro”. Enquanto os discípulos, que pensam enxergar bem, acompanham Jesus pelo caminho, o cego e mendigo está fixo à terra e depende da boa vontade dos peregrinos. Enquanto os discípulos esperam que Jesus seja um messias poderoso e vitorioso, o mendigo o invoca no horizonte de um messianismo popular, identificado com a causa dos pobres (“filho de Davi”).

Jesus faz ao cego a mesma pergunta que fizera aos filhos de Zebedeu, mas, enquanto Tiago, João e todos os outros discípulos do grupo dos Doze desejam e pedem privilégios, o mendigo e cego deseja e pede unicamente que seus olhos se abram. O homem rico não foi capaz de distribuir seus bens para seguir Jesus, enquanto que Bartimeu abandona o manto, o único bem que possui, e põe-se a caminho. Os ricos e nobres acabam sendo os últimos, enquanto os pobres e “sujos” e pobres são os primeiros a seguir Jesus. É uma inversão impressionante e difícil de ser assimilada.

Bastimeu é um personagem oposto ao jovem rico, e é o absoluto protagonista nesta cena: grita, torna a gritar, não obedece quando querem que ele se cale, faz Jesus parar, desfaz-se do manto, dá um pulo, põe-se de pé, dialoga, pede e caminha. Por isso, ele é uma metáfora de toda pessoa habitada pelo desejo de ver e conhecer, um modelo ideal ou paradigma de discípulo de Jesus. E, de tabela, é também um “teólogo popular”, pois, mesmo cego, reconhece em Jesus o herdeiro de Davi, e invoca a compaixão daquele que representa o líder popular que sabe o que significa ser suspeito, excluído e marginalizado, inclusive pelo pai e pelos irmãos maiores.

 

Sugestões para a meditação

Observe bem o papel de protagonista de Bartimeu, enumere as ações que ele realiza (os verbos que as descrevem)

Você percebe a diferença radical entre aquilo que Tiago e João pedem e aquilo que o mendigo cego pede a Jesus?

Bartimeu é o primeiro personagem a chamar Jesus de “filho de Davi”; as palavras que você usa para se dirigir a Jesus falam de que?

Qual é seu desejo mais profundo, que queima suas entranhas, e pelo qual você seria capaz de deixar tudo o mais?

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pelos primeiros lugares

Os primeiros lugares são dos servos mais humildes

1093 | Tempo Comum | 8ª Semana | Quarta-feira | Marcos 10,32-45

Todas as cenas e palavras do capítulo 10 de Marcos são intensas e densas. Depois da cena do homem rico que desiste de seguir Jesus, do ensino sobre o obstáculo da riqueza e da catequese sobre os frutos do despojamento, a reação dos discípulos é confusa e ambivalente: admiração, medo, ambição, competição e indignação. Neste contexto, Jesus retoma seu ensino. No centro da cena de hoje está o modelo de liderança ensinado por Jesus e a luta pelo poder que envolve a maioria dos discípulos.

Enquanto Jesus fala abertamente das consequências da sua fidelidade ao Reino de Deus e ao Deus do Reino – traição, julgamento, tortura, execução, exclusão, morte e ressurreição – os discípulos se envolvem em disputas nada fraternas e até vergonhosas pelos lugares de honra e pela herança da liderança de Jesus. Parece que Tiago e João imaginam que Jesus está prestes a dar uma espécie de “golpe messiânico”, e que a previsível e aparente derrota da cruz será substituída por uma estrondosa vitória. Nesta onda, ambicionam privilégios.

É outra a lógica do Reino de Deus, vivida e ensinada por Jesus. Ele não transfere sua liderança a uma espécie de “dinastia” ou “delegação”. O poder ambicionado e disputado por Tiago e João – e por todos os outros discípulos, que ficam indignados por eles terem saído à frente deles! – é exatamente aquele que impõe a Jesus a traição, o julgamento, a tortura e a execução. A liderança e a honra de Jesus estão no serviço, em ser o último. Jesus representa a liderança exatamente contrária ao poder exercido pelos administradores coloniais impostos por Roma.

A atitude dos dois irmãos denuncia que, na verdade, eles não haviam abandonado “tudo por Jesus”. Eles continuavam acorrentados aos ideais de poder nos moldes colonialistas. Eles não se envergonham de dizer que estão preparados para enfrentar as oposições como Jesus, mas a resposta de Jesus a eles é cheia de ironia. Eles estão cegos pela ambição e surdos à proposta alternativa de Jesus. Não sabem ou não têm noção do que estão ambicionando e pedindo. Depois de tudo, os discípulos continuam se inspirando nos “grandes” e nos “chefes” que oprimem e tiranizam, e não conseguem entender que Jesus encarna uma liderança alternativa e não violenta.

 

Sugestões para a meditação

Observe bem a reação dos discípulos (o que dizem e o que fazem), especialmente dos dois filhos de Zebedeu (Tiago e João)

Será que também nós não “fazemos menos” da traição, condenação, tortura e execução de Jesus, como se fossem disfarces da sua vitória?

Será que estamos tirando as consequências da afirmação de que Jesus não veio para ser servido mas para servir?

Como as pessoas da Igreja exercem a liderança e os ministérios: inspirados no “Filho do Homem” ou nos “chefes” e nos “grandes”?

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (4)

Por um novo início

Somos todos convidados/as a começar de novo, deixando para trás uma etapa de autodestruição, mas ainda não desenvolvemos uma consciência universal que o torne possível. Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida (§ 207).

É louvável a tarefa de organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais (§ 38).

Através de organismos não-governamentais e associações, a sociedade, deve forçar os governos a desenvolver normas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os cidadãos não controlam o poder político também não é possível combater os danos ambientais (§ 179).

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Retorno assegurado

Diante de Deus ninguém tem conta a cobrar

1092 | Tempo Comum | 8ª Semana | Terça-feira | Marcos 10,28-31

Concluído o tempo pascal, retomemos o tempo comum e voltemos ao evangelho segundo Marcos. Os versículos de hoje estão situados após a cena da deserção do homem rico diante das exigências de Jesus para ser seu discípulo. Ele sente-se bom e irrepreensível, um ‘homem de bem’ como se diz hoje, e volta para casa desiludido. Diante das palavras e atitudes daquele homem, Jesus desabafa: que um rico aceite seu caminho é tão raro como um camelo passar pelo buraco de uma agulha!

Os discípulos reagem à comparação de Jesus, pois pensam que se os ricos não estão mais perto de Deus, o que dizer então dos doentes, dos pobres e dos estrangeiros, que eles tratam como ‘sujeitos suspeitos’? Mas, aquilo que para muitos parece impossível, para Deus é absolutamente normal: a riqueza dos ricos não é bênção de Deus, e a prosperidade não é sinal de fidelidade; no reino de Deus e no coração do Deus do Reino, os pobres e doentes estão no centro!

É neste contexto que Pedro toma a Palavra e apresenta a Jesus a ‘causa’ dos discípulos: aquilo que o jovem rico não fez, os discípulos o fizeram, livremente ou por causa das perseguições. Eles deixaram os bens e seguiram Jesus, em busca do único bem: do reino de Deus. Pedro parece “cobrar a conta”, pois ele e seus companheiros ainda não haviam provado a vida eterna, apenas incompreensões.

Jesus responde sublinhando que o retorno prometido está assegurado, mas em dois tempos: agora, durante esta vida; no mundo futuro. Agora, quem relativizou tudo pelo absoluto do Reino de Deus já recebe 100 vezes mais em termos de hospitalidade, ajuda, companheiros e apoiadores mediante a fraternidade e a partilha comunitária. Mas isso sempre em meio às perseguições, próprias do discípulo no mundo.

No futuro, no Reino de Deus plenamente realizado, que começa aqui, mas aqui não chega ao seu termo, está assegurada uma vida densa e intensa em termos de dinamismo e de sentido, uma vida que desborda a história e avança para a eternidade. Com o olhar fixo no “mundo futuro”, o discípulo de Jesus é convidado e ver já “agora” os frutos da sua entrega: os benefícios da vida em comum, que são os irmãos e irmãs, os bem partilhados, um futuro de esperança.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha a cena, relendo os versos 15 a 27, que relatam o encontro de Jesus com as crianças e, depois, com o homem rico

Observe a reação dos discípulos, especialmente do homem que se apresentou como candidato a discípulo

Será que não somos tentados a nos apresentar a Deus ostentando nossos méritos, sem consciência daquilo que nos falta?

Conseguimos perceber que tudo aquilo do que abrimos mão nos havia sido dado, e que tudo o que temos pertence a todos?

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (3)

A busca de novos paradigmas

O Papa Bento XVI convocou o mundo a eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente. Lembrou que o mundo não pode ser analisado considerando apenas sobre um dos seus aspectos, porque o livro da natureza é uno e indivisível, incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana (§ 6).

A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado (§ 138).

Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas tornou-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbônico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, substituindo os combustíveis fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável (§ 26).

Para que surjam novos modelos de progresso, precisamos converter o modelo de desenvolvimento global, refletir sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso (§ 194).

A humanidade precisa tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades (§§ 5, 23).

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos. Muitos sabem que não basta o progresso atual e a mera acumulação de objetos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos (§ 209).

Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quem detêm o poder político, econômico e social. Quando os hábitos da sociedade afetam os ganhos das empresas, estas veem-se pressionadas a mudar a produção. Isto lembra-nos a responsabilidade social dos consumidores. Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico.  Por isso, hoje, o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós (§ 206).

Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder freia a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos. A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo (§ 178)

Prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza (§ 215).

domingo, 24 de maio de 2026

Eis aí tua Mãe!

Mãe da Igreja discípula missionária, rogai por nós!

1091 | Tempo Comum | Memória de Maria, Mãe da Igreja | João 19,25-34

Com a solenidade de Pentecostes havíamos concluído nosso caminho com o Evangelho de João. Mas hoje, em vista da memória litúrgica de “Maria, mãe da Igreja”, continuamos com ele. Esta memória nos sugere duas coisas: que Maria estava presente no cenáculo, quando da vinda do Espírito Santo, e também é dinamizada por ele; que precisamos fazer uma interpretação mariana dessa cena localizada no relato da paixão e morte de Jesus.

Segundo João, no momento da paixão no Calvário, a mãe de Jesus, Maria Madalena e o discípulo amado estão de pé, diante da cruz de Jesus. Jesus os vê, e faz uma dupla declaração, que é também um duplo pedido: “Mulher, este é teu filho!” “Filho, esta é tua mãe!” No alto do calvário, diante da expressão máxima do amor de Deus por nós, Jesus nos entrega Maria como mãe dos discípulos missionários, como mãe da Igreja. E nos convida a levá-la conosco, como a discípula primeira e fiel. Nasce aqui uma Nova Família, semente de uma Nova Humanidade.

É interessante notar que o texto original não fala da “mãe de Jesus”. O evangelista a apresenta apenas como “mulher” e “mãe”. Ela representa o antigo Povo de Deus, do qual procedem Jesus e a primeira comunidade de discípulos. Ela é convidada a fazer a passagem, reconhecendo e aceitando o Novo Povo de Deus nascido da nova aliança. E o discípulo amado, que representa o discipulado perseverante, tijolo vivo na construção do templo de Deus, é convidado a reconhecer e proteger suas raízes.

Na sequência, Jesus diz que tem sede. É um novo pedido de acolhida. Os representantes do judaísmo não têm água, nem vinho (amor, acolhida), e só sabem oferecer-lhe vinagre (ódio). Aceitando, sem revidar, mais este gesto de fechamento e violência, Jesus pode dizer que consumou em sua vida a demonstração do amor do Pai pelo mundo e, em si mesmo, arrematou ou deu o toque final à criação do Homem e da Mulher novos, iniciada no Gênesis.

Do corte que o soldado faz no corpo de Jesus com sua espada escorre sangue (o amor generoso e fecundo) e água (o Espírito que gera a Igreja). Isso não nos vem de Maria, mas do Filho que ela entrega a nós como Mãe. Neste sentido, ela é mãe da comunidade dos discípulos, mãe dos crentes. É isso que também nos é revelado na sua presença no cenáculo, no dia de pentecostes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no Calvário, aos pés da cruz, com Jesus, sua mãe, Maria Madalena e o discípulo amigo e fiel

Permita que ressoem em você as densas e ternas palavras de Jesus: “Este é teu filho! Esta é tua mãe! Tenho sede! Tudo está consumado!”

Acolha Maria como a mãe querida que Jesus partilha conosco e pede que levemos para nossa casa

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (2)

A raiz do problema

No paradigma homogêneo e unidimensional, as pessoas pensam que têm à sua frente uma realidade informe totalmente disponível para a manipulação. O que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana. O ser humano e as coisas deixam de ser parceiros e se tornam inimigos. Daqui passa-se à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos das finanças e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a espremê-lo além do limite (§ 106).

Atualmente, alguns setores econômicos têm mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise atual. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação pelo meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação por integrar os mais frágeis, porque, no modelo do êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida (§ 196).

sábado, 23 de maio de 2026

O Divino Sopro

Enviados para enfrentar os males do mundo

1090 | Tempo Pascal | Solenidade de Pentecostes | João 20,19-23

Estamos habituados a situar o acontecimento de pentecostes cristão cinquenta dias após a ressurreição de Jesus. Segundo o evangelho de João, este evento que mudou radicalmente a vida e missão dos discípulos teria acontecido na noite que se seguiu à ressurreição. A liturgia cristã une estas duas perspectivas, pois compreende a páscoa como um acontecimento processual que inicia na ressurreição de Jesus e culmina no envio do Espírito Santo sobre todos os fiéis e todas as criaturas.

O trecho do evangelho de hoje está situado exatamente no início desse movimento progressivo. Quando tudo parecia definitivamente sepultado, acabado e imutável (“fechado”, como as portas e janelas do cenáculo), Jesus irrompe em meio aos discípulos imobilizados pelo medo e restaura a paz. É este encontro e esta palavra, e não apenas o sepulcro vazio, que provoca a mudança que todos conhecemos. Jesus não está fora, acima ou indiferente a eles, mas no meio deles.

A harmonia plena e o bem-estar total que Jesus deseja e transparece na saudação não é uma palavra vazia, nem uma ordem penosa: é um dinamismo que toma conta dos discípulos e tem sua expressão simbólica no Sopro de Jesus. Trata-se do mesmo Sopro do Criador, quando moldou o ser humano do pó da terra. Sem esse Sopro, o ser humano e o discípulo não passam de pó indefinido e de barro informe.

Entretanto, para não eixar dúvidas e não induzir à confusão, soprando, Jesus fala, explicitando o significado do seu gesto. Trata-se do dom do Espírito Santo, do dom da fortaleza e fidelidade missionária: “Como o Pai me enviou, também vos envio”. Jesus não institui um ministério ou sacramento, nem constituiu um colegiado, mas convoca quem adere a ele e os envia em missão. Com a força do Espírito, a paz experimentada no cenáculo não pode reter ninguém.

A quem e a fazer o quê são enviados os discípulos? Como Jesus, são enviados aos pecadores, às ovelhas perdidas, às vítimas das relações violentas e agressivas, para abrir-lhes as portas da graça, para acolhê-los como irmãos e filhos amados do Pai. É isso que significa “tirar (ou carregar) o pecado do mundo”. O Espírito não nos torna simples confessores, mas pessoas novas e solidárias, capazes de clamar por justiça e de estender as mãos com amor solidário.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar as palavras de Jesus, deixe que o Sopro de Deus insufle vida em sua vida, missão em sua acomodação, unidade na diversidade

Acolha confiante e agradecido o mandato missionário de Jesus: Assim como o Pai me enviou, eu envio você!

Perceba com eles a presença inesperada, misteriosa e pacificadora de Jesus crucificado e ressuscitado

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (1)

A gravidade da Crise Ambiental na visão do Papa Francisco

É impossível ignorar a gravidade da situação

As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade (§ 25).

As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual só pode desembocar em catástrofes. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências (§ 161).

Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum. Os sintomas anunciam de que chegamos a um ponto de ruptura, por causa da velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada (§ 161).

Em relação às mudanças climáticas, os progressos são muito escassos. A redução de gases com efeito de estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade. A Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20, emitiu uma declaração final extensa, mas ineficaz. As negociações internacionais não podem avançar por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global (§ 169).

O sistema industrial não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos/as e para as gerações futuras, o que exige limitar o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A solução deste problema está no enfrentamento da cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos (§ 22).

Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Essa ideologia pretende legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar (§ 50).

Os caminhos do Espírito

O Espírito Santo está sobre nós?

Neste domingo, as Igrejas Cristãs celebram o acontecimento permanente da vinda do Espírito Santo sobre o povo de Deus e toda a criação. Geralmente este evento é situado no passado e relacionado a eventos miraculosos ou impressionantes como terremoto, vento, línguas de fogo, iluminação da inteligência, línguas estranhas, entre outros.

À luz das Sagradas Escrituras e da autêntica Tradição cristã, a presença ativa do Espírito Santo no ser humano e nas demais criaturas tem outras ênfases. E o ponto de partida para uma correta compreensão do Espírito Santo e sua ação é Jesus Cristo, o Filho de Deus concebido pelo Espírito Santo, nascido de Maria, ungido pelo Espírito para a missão.

 O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres; enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos a visão; para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar um ano do agrado do Senhor... Hoje cumpriu-se esta palavra da Escritura que acabais de ouvir”, diz ele ao iniciar sua missão.

Doravante, tudo o que Jesus fará e ensinará vem do Espírito que o reveste e inspira: a defesa da dignidade das mulheres, dos doentes e dos pobres; o resgate da inocência dos pecadores; a reintrodução dos doentes e leprosos na plena cidadania; a incondicional acolhida dos pagãos e estrangeiros no povo de Deus; a compaixão para com tudo e todos.

Jesus mostra os frutos do Espírito falando a língua da proximidade e da compaixão e afirmando a primazia devida aos últimos da sociedade. O Espírito leva Jesus a afirmar a dignidade dos ‘sem dignidade’, a devolver a eles a palavra que lhes é negada ou silenciada; a reunir o povo disperso e desarticulado; a libertar os cativos pelo medo.

Na profissão de fé dos cristãos, afirmamos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá vida, ele que falou pelos profetas”. Ou seja: onde a vida é resgatada, sustentada e renovada, e onde profetas e profetizas levantam sua voz e se engajam na denúncia das forças dominadoras e no anúncio de novos céus e nova terra, aí está ativo o Espírito Santo.

Na descrição do evento que lançou o Povo de Deus na missão de Jesus, Pedro explica: “Está acontecendo o que foi anunciado pelo profeta Joel” (At 2,16). Ou seja: o Espírito de Deus foi derramado sobre todos, homens e mulheres, jovens e idosos, cidadãos e escravos, e todos são profetas. O Espírito Santo gera a Igreja congregando todos os homens e mulheres de boa vontade e todas as Igrejas num povo profético e libertador.