sábado, 25 de abril de 2026

Porta e pastor

Jesus é a porta aberta para o bem viver

1062 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Domingo | João 10,1-10

Jesus entra em nossa casa e nos conduz para fora. O Bom Pastor não quer isolar seu rebanho dentro de um redil e conservá-lo seguro, mesmo que este redil se chame Igreja. Ele não quer reduzir a vida dos discípulos ao ambiente doméstico, indiferente ao mundo exterior. Ele chama pelo nome e conduz aqueles que o ouvem para fora de si mesmos e para fora de um sistema que anestesia, separa, hierarquiza e aprisiona as pessoas. Não é possível ser discípulo de Jesus e viver na a auto-referencialidade.

Jesus, o Bom Pastor, chama pelo nome e manda sair às periferias. Neste percurso, ele mesmo caminha à nossa frente, livre e solidário. Ele não considera suficiente despertar os homens e mulheres, e mostrar-lhes um caminho. Ele se faz caminho e companheiro de caminhada, um pouco à frente para dissipar medos e incertezas, sempre próximo para curar as feridas e fortalecer nos tropeços. No fim, ele é porta aberta em forma de cruz, passagem-páscoa para a liberdade solidária e plena.

Além de manter uma relação personalizada com cada discípulo, Jesus também reúne um rebanho, uma comunidade. Àqueles que ele congrega, também aponta um caminho de saída, um estilo de vida comunitário, solidário. Somos ovelhas do seu rebanho, membros de um povo solidário. Recebemos o bônus e o ônus de estarmos ligados a um povo e a um mundo que caminha para a liberdade tropeçando nos próprios pés, mas com o olhar fixo naquele que vai à sua frente.

O sonho de Deus é ver a vida florescendo em todas as dimensões e para todos os seus filhos e filhas. Não se trata de uma vida miúda, apertada e resignada, mas de uma vida abundante, transbordante. A festa da vida preparada por Deus não pode ser reservada a uma meia dúzia de privilegiados. É entrando e saindo do redil de Jesus, vivendo nossa vida como dom, que encontramos pastagem. É na ousadia de ir além dos limites e muros erguidos por ideologias mesquinhas que encontraremos o alimento que sustenta esta vida tão sonhada.

 

Sugestões para a meditação

Como a imagem da porta pode nos ajudar a entender a identidade e a missão da comunidade cristã e da Igreja de hoje?

Nossas comunidades se parecem mais com portas abertas, que ajudam a entrar e sair, ou com redis ou currais fechados?

Em tempos de indiferença doentia e de proliferação de Igrejas, o que significa entrar por Jesus, sair e encontrar pastagem?

Num contexto de crescente distância entre ricos e pobres, como e através de quem Jesus concede vida abundante a todos?

Salvemos o ecumenismo!

Agrada a Deus quem o teme e pratica a justiça

Em uma das suas composições mais polêmicas, escrita em 1979 e lançada em 1981, Gilberto Gil canta: “Se eu quiser falar com Deus tenho que ter as mãos vazias; ter a alma e o corpo nus; tenho que dizer adeus, dar as costas; caminhar decidido, pela estrada que, ao findar, vai dar em nada... do que eu pensava encontrar”.

Não quero entrar em polêmicas, mas este fecundo e profundo compositor brasileiro, como diria Jesus, “não está longe do Reino de Deus” (cf. Marcos 12,34). Não pode conhecer ou falar com Deus quem se apresenta cheio de razões, coberto de defesas, apegado às suas precárias verdades, preso a metas estreitas, claras e definidas. Precisa “ter a alma e o corpo nus” e “caminhar decidido” qual peregrino.

Esta é também a condição para uma caminhada ecumênica: o respeito e apreço pelas tradições cristãs que diferem das nossas e das religiões que dão outro nome para o Inominável e Indefinível que chamamos Deus. Para dialogar e caminhar juntos é preciso dizer adeus à autossuficiência espiritual e abrir-se sem medo à verdade dos outros.

As religiões e as Igrejas cristãs estão sempre ameaçadas pela tentação de tornar única e absoluta sua experiência própria do Divino. São tentadas a tomar o “pedaço de verdade” que recebem por graça e anunciá-la como a verdade inteira. Crer é caminhar confiado e confiante, com a fronte descoberta, com a mente livre, com o coração compassivo.

Escrevo isso para partilhar uma experiência breve e profunda que vivi nesta semana, em Aparecida, durante a 62ª Assembleia dos Bispos do Brasil: uma celebração ecumênica com mais de 300 bispos de todo o Brasil e com representantes de uma dezena de Igrejas cristãs do Brasil. Isso seria impossível se cada Igreja pensasse bastar-se a si mesma. Uma experiência como essa compromete as Igrejas a caminhar sempre juntas, abraçadas.

Durante a celebração, veio-me ao coração a venturosa “conversão” de Pedro na casa de Cornélio, um soldado e pagão romano. Como judeu, Pedro sabia que não poderia entrar na casa de um pagão. Todavia, a experiência da hospitalidade e o testemunho de abertura de Cornélio mudam tudo. Ele descobriu que não podemos desqualificar a fé de ninguém.

No final, Pedro toma a palavra e diz: “Estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença” (Atos 10,34-35). E o relato da sua experiência faz com que até quem tivesse considerado isso estranho acaba glorificando a Deus por ter aberto também aos pagãos o caminho da vida (cf. Atos 11,1-18). Uma lição bela e atual também para nós.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Uma porta aberta

ENCONTRAR A PORTA CERTA

O evangelho de João apresenta Jesus com imagens originais e belas. Quer que os seus leitores descubram que só Jesus pode responder plenamente às necessidades mais fundamentais do ser humano. Jesus é «o pão da vida»: quem se alimenta dele não terá fome. É «a luz do mundo»: quem o segue não caminhará na escuridão. É «o bom pastor»: quem escuta a sua voz encontrará a vida em abundância.

Entre essas imagens há uma, humilde e quase esquecida, que, no entanto, encerra um conteúdo profundo. «Eu sou a porta». Assim é Jesus. Uma porta aberta. Quem o segue atravessa um limiar que conduz a um mundo novo: uma nova maneira de entender e viver a vida.

O evangelista explica com três traços: «Quem entrar por mim será salvo». A vida tem muitas saídas. Nem todas levam ao sucesso nem garantem uma vida plena. Quem, de alguma forma, sintoniza com Jesus e tenta segui-lo, está a entrar pela porta certa. Não desperdiçará a sua vida.

O evangelista diz algo mais. Quem entra por Jesus «poderá sair e entrar». Tem liberdade de movimentos. Entra num espaço onde pode ser livre, pois só se deixa guiar pelo Espírito de Jesus. Não é o país da anarquia ou da libertinagem. «Entra e sai» passando sempre por essa «porta» que é Jesus, e move-se seguindo os seus passos.

O evangelista acrescenta ainda outro detalhe: quem entrar por essa porta que é Jesus «encontrará pastagens», não passará fome nem sede. Encontrará alimento sólido e abundante para viver.

Cristo é a «porta» pela qual devem entrar também hoje os cristãos, se queremos reavivar a nossa identidade. Um cristianismo formado por batizados que se relacionam com um Jesus mal conhecido, vagamente recordado, afirmado de vez em quando de forma abstrata, um Jesus mudo que não diz nada de especial ao mundo de hoje, um Jesus que não toca os corações, é um cristianismo sem futuro.

Só Cristo nos pode conduzir a um novo nível de vida cristã, melhor fundamentada, motivada e alimentada no evangelho. Cada um de nós pode contribuir para que, na Igreja dos próximos anos, se sinta e se viva Jesus de forma mais viva e apaixonada. Podemos fazer com que a Igreja seja mais de Jesus.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Festa de São Marcos

Anunciemos o Evangelho a todas as criaturas

1061 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Sábado | Marcos 16,15-20

Mesmo estando inserido no contexto da ressurreição de Jesus, o texto hoje está referido a Marcos, cristão de Jerusalém, companheiro de missão de Pedro e de Paulo e redator do segundo evangelho canônico. Propondo-nos este texto, a Igreja sugere que coloquemos Marcos, evangelista e missionário, no rol das grandes testemunhas da páscoa de Jesus, ampliando o mandato que é visto como restrito aos apóstolos.

Este trecho da Palavra de Deus está inserido no contexto das aparições de Jesus crucificado e ressuscitado aos discípulos. Trata-se da terceira manifestação, desta vez aos onze discípulos, numa refeição. Jesus começa desaprovando a falta de fé e a dureza de coração daquele grupo escolhido, ao qual Jesus dedicara uma intensa atividade formativa Eles não haviam acreditado nas testemunhas que lhes anunciavam que tinham visto Jesus ressuscitado.

Mesmo assim, Jesus manifesta total confiança nos discípulos, e põe na mão e nos lábios deles a missão de anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus e de continuar sua ação própria libertadora. A universalidade dessa missão é mais que ressaltada nestes poucos versículos: eles são enviados ao mundo todo para anunciar o Evangelho de Deus a todas as criaturas. Nada nem ninguém pode ficar sem a luz do Evangelho!

Os sinais que atestarão a veracidade da missão dos discípulos missionários são os mesmos que acompanharam a missão de Jesus: eles viverão a compaixão, que impede a indiferença diante das pessoas oprimidas; libertarão as pessoas dos males que as amarram e despersonalizam; curarão as pessoas das suas enfermidades; não se acanharão e não deixarão de anunciar e construir o reino de Deus diante de qualquer ameaça ou perigo.

Tendo Jesus sido elevado ao céu e sentado à direita de Deus – em outras palavras, tendo sido reconhecido plenamente na sua divindade – Marcos diz que os discípulos partiram e pregaram o Evangelho de Jesus por toda parte, e o anúncio deles era confirmado pelos sinais que o acompanhavam. Finalmente, eles conseguem entender o significado da vida, da morte e da ressurreição de Jesus: é muitíssimo mais que esperar a ressurreição depois da morte. E eis que os discípulos medrosos se tornam missionários generosos!

 

Sugestões para a meditação

Você sente-se pessoalmente enviado por Jesus? Enviado a quem e para anunciar qual mensagem?

Há algo que limita ou enfraquece o vigor da sua missão?

Quais são os sinais que acompanham o seu anúncio e as suas palavras sobre Jesus e o Evangelho?

O que a dedicação de Marcos ao Evangelho nos ensina hoje?

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A lei e a compaixão

Quem ama cumpre integralmente toda a Lei

1060 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Sexta-feira | João 6,52-59

Neste penúltimo trecho da catequese que Jesus após a multiplicação dos pães e dos peixes, a reflexão se concentra sobre a condição humana e vulnerável de Jesus (sua “carne” e seu “sangue”). No centro da polêmica está a questão do caminho que assegura a vida plena: a Lei ou a pessoa humana concreta e frágil de Jesus?

O judaísmo chamava “Lei” ao conjunto de valores e práticas (proibições e mandamentos) que garantiam que uma pessoa fosse boa; em outras palavras, que garantiam a salvação. É o que hoje chamamos de ideologia: conjunto de fins e meios, valores e práticas que nos tornam “pessoas de bem”, diferentes e melhores que os outros. Hoje, são leis como “cada um para si”; “quem pode mais chora menos”; “direitos humanos são para os humanos direitos...

Os líderes do judaísmo oficial consideraram inaceitável que Jesus Cristo, na concretude da sua compaixão e da sua humana fragilidade pudesse ser o caminho para o bem-viver, para uma pessoa ser agradável a Deus. Para eles, não existia outro caminho senão o poder, a separação, a supremacia de uns sobre outros, a distância em relação àqueles “que não rezam pela nossa cartilha”.

Jesus, por sua parte, insiste que não há caminho para a vida abundante que não passe pela assimilação daquela compaixão que o faz irmão e servidor da humanidade, especialmente das pessoas excluídas, a ponto de dar a própria vida. Isso fica claro na expressão “carne e sangue”, que Jesus repete quatro vezes nestes breves versículos. É na sua paixão e morte que ele dá seu corpo e sangue e se torna pão para o mundo. Salva-se quem assimila sua humanidade.

Assim, Jesus de Nazaré, o Enviado do Pai para dar vida ao mundo entregando livremente sua vida, o Filho do Homem que demonstra em sinais a compaixão de Deus assume e supera o Antigo Testamento, mostra que a Lei caducou. O amor de Jesus, assimilado por seus discípulos, é o que dá vida ao mundo. Quem come deste “pão”, viverá eternamente, e saciará a fome e a sede da humanidade.

 

Sugestões para a meditação

O que significa a insistência de Jesus, que fala quatro vezes em “comer” sua carne e “beber” seu sangue?

Será que não nos enganamos ainda hoje, pensando que o que nos salva é o “poder” de Jesus, e não sua compaixão e humanidade?

Em que apostamos “todas as nossas fichas”, porque cremos que somente isso nos dá vida e salvação?

O que significa viver “por causa de Jesus”, assim como ele viveu “por causa do Pai” que vive e o enviou?

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A "carne" de Deus

Mergulhando na humanidade chegamos a Deus

1059 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Quinta-feira | João 6,44-51

Nesta quarta parte da catequese sobre o verdadeiro pão, Jesus enfrenta o escândalo que suas ações e declarações causam nos judeus. Ele volta a comparar-se com o maná com o qual Deus alimentou o povo hebreu na sua caminhada pelo deserto, mas aproveita a oportunidade e aborda também a questão do dinamismo da fé, da sua origem divina e da qualidade das ações que realiza.

Os “judeus” aos quais se refere o texto de João não são os cidadãos de Israel, mas aqueles que não reconhecem os sinais de Deus e não aderem a ele, onde quer que estejam. No deserto, os “judeus” reclamam do maná, qualificando-o de “alimento nojento”, e não o reconhecem como sinal do amor de Deus. Agora, reclamam de Jesus, “filho de José”, que, aos olhos deles, não goza de nobreza que julgam necessária para se apresentar como filho de Deus.

A busca de Deus e a adesão à sua vontade tem um dinamismo: parte de Deus, que atrai a ele; supõe nossa disponibilidade e a docilidade. Deus nada faz sem nossa livre adesão, mas realizamos pouco ou nada de bom se ele não nos atrair. É o que Jesus experimentou como Filho, e nos revelou. Quem se deixa atrair por Deus precisa reconhecê-lo em sua condição humana, tal como se manifesta na compaixão humana do “filho de José”.

O que Deus mais deseja e faz é encontrar formas de vir ao encontro do ser humano para fazê-lo mais humano. Essa vontade e esse dinamismo se tornam definitivos e insuperáveis em Jesus Cristo, em sua paixão e morte. Mas os incrédulos de todos os tempos querem dissocia-lo da humanidade de Jesus e afastá-lo da condição humana. Essa falta de fé atesta que não conhecemos a Deus.

A aceitação da condição humana fragilizada, radicalmente assumida por Jesus, é o único caminho que pode nos conduzir à vida. Ele, o filho de José, aquele que acolhe pecadores e proscritos, aquele cuja compaixão é sempre viva e ativa, é pão que desce, sacia nossa fome de plenitude e plenifica a vida. Sem o reconhecimento e a aceitação dessa “carne” de Jesus, a vida continua estreita, limitada, precária, “severina”.

 

Sugestões para a meditação

Será que nós fazemos parte do grupo dos “judeus”, dos incrédulos que não aceitam a condição e a compaixão humana de Jesus?

Este Jesus, “filho de José”, irmão universal, amor incondicional e rebeldia profética, é o Deus que nos atrai?

Teríamos suficiente sinceridade para dizer aquilo que, em Jesus, nos escandaliza e desestabiliza?

terça-feira, 21 de abril de 2026

Todas as vidas importam

A vontade do Pai é que nenhum filho se perca

1058 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Quarta-feira | João 6,35-40

Na terceira parte da catequese sobre o verdadeiro pão, Jesus convida enfaticamente à fé, ao reconhecimento de que ele – o galileu, o carpinteiro, o filho de José e de Maria – é o enviado de Deus, o pão vivo e verdadeiro que desceu do céu. E pede aos seus interlocutores uma confiança fundamental nele e no seu Evangelho. Trata-se de crer que Deus está nele e age nele, de aderir a ele e seguir seus passos.

Mas essa adesão a Jesus não é um ato voluntarista ou ritual. É uma decisão que tem uma base e um dinamismo: a vontade do Pai, e essa vontade é que nenhum filho seu se perca, que ninguém perca as condições materiais para viver, nem o sentido da vida. A vontade do Pai é clara: que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha vida eterna. É para tornar isso possível e palpável que o Filho “desceu”.

Jesus é doador e fonte de vida, não um limitador da vida ou um juiz pronto a identificar e punir culpados. Ele é o pão da vida, e quem vai a ele não terá outra fome. Mas é preciso ir ao encontro dele, aceitar seu caminho, entender a convocação que se esconde em cada sinal que ele realiza. Porém, Jesus constata um pouco desolado: “Vós me vistes, mas não acreditais...”

Jesus afirma com clareza que não afasta nem trata com descaso ou dureza aqueles que o Pai confia a ele e o procuram, aqueles que decidem percorrer seu caminho e fazer parte do seu povo. Estes não perderão nada, nem se perderão; ao contrário, ganharão tudo. Jesus promete que ressuscitará estes seguidores “no último dia”, ou seja: no sétimo dia da criação, o ápice da criação saída do coração de Deus.

A expressão “no último dia” é também uma referência à sexta-feira, ao dia da doação total e radical de Jesus na cruz. É do alto da cruz, em meio a outras vítimas com as quais se solidariza, que Jesus revela até onde vai o amor do Pai, perdoa os seus próprios assassinos e, por isso, pode declarar: “Tudo está consumado!” Ele é a criação consumada, o ser humano maduro e libertado, o doador da vida no qual todos renascemos. É em gestos semelhantes a esse que nos tornamos semelhantes a Deus

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente essa dura e exigente “catequese” de Jesus, evitando concluir sem mais que ele fala simplesmente da eucaristia

Será que não estamos entre aqueles que viram, mas não acreditam, que não permitem que Jesus e seu Evangelho guie suas opções?

Será que não corremos o risco de evitar o renascimento no amor incondicional e sem medidas, e transformamos o “último dia” na última coisa que seríamos capazes de aceitar?

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O Pão que dá vida ao mundo

Jesus é o pão que sacia nossa fome de justiça

1057 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Terça-feira | João 6,30-35

Na segunda parte da catequese sobre o pão, que tem as marcas do debate e da controvérsia, a multidão exige de Jesus um sinal de sua divindade, como o sinal do maná. Jesus diz que ele mesmo é este sinal, e que maná seria apenas um símbolo que remete a ele, que é o dom superior e definitivo de Deus. Nele, o Deus poderoso se apresenta vulnerável e frágil, acessível e próximo.

Este ensino de Jesus resolve pouco, e a multidão murmura. “Que sinal fazes para que possamos crer em ti? Que obra fazes?”, questiona a multidão. Aquela gente não entende o sinal do pão, e acrescenta, quase como uma acusação a Jesus: “Nossos pais comeram o maná no deserto”. Esperam de Jesus obras mais espetaculares, que impressionem e resolvam suas necessidades sem deles exigir compromisso.

Jesus responde destacando que a crença e a expectativa deles estão baseadas numa falsa compreensão do passado. Eles precisam olhar para o presente e reconhecer os sinais que Deus está realizando agora, e em favor do seu povo hoje. “Não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos o verdadeiro pão do céu”! Jesus põe a ênfase no presente, e nos interlocutores que o questionam.

Jesus passa, então, a falar claramente de si mesmo como sendo o pão verdadeiro. “Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e vida ao mundo”. Descendo sempre, fazendo-se carne, colocando-se no lugar do ser humano necessitado, superando a indiferença e respondendo com compaixão às suas necessidades, Jesus abre caminho à abundância, à vida plena.

Diante dessa afirmação, a multidão parece entender, mas sua compreensão ainda é superficial. O pedido “Senhor, dá-nos sempre desse pão” denota, de novo, a busca de uma solução sem compromisso. E Jesus avança, de modo mais claro ainda: “Eu sou o pão da vida! Quem vem a mim não terá mais fome”. Que ninguém espere coisas, mas acolha e sua proposta, e a vida deixará de ser carência e se fará farta.

 

Sugestões para a meditação

Jesus questiona o que move as multidões ao seu encontro: o que motiva você a procurar e escutar Jesus Cristo hoje?

Qual é o sinal que você espera para poder crer nele? Um milagre retumbante, uma cura, a solução das aflições da humanidade?

Sua fé se baseia mais nos sinais que Deus realizou no passado, ou naquilo que ele manifesta no tempo presente?

Em que medida Jesus Cristo e seu Evangelho alimentam suas utopias e iluminam suas buscas?

domingo, 19 de abril de 2026

Cadê a prova?

O que fazer para realizar as obras de Deus?

1056 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Segunda | João 6,22-29

Depois de saciar a fome da multidão e de ir ao encontro dos discípulos que remavam angustiados no meio da noite, Jesus volta a Cafarnaum e faz uma longa catequese sobre sua identidade e missão. É uma espécie de comentário das leituras feitas pelos judeus durante a liturgia pascal. O episódio do maná era um dos textos refletidos na festa, e Jesus o toma para apresentar a si mesmo como verdadeiro pão da vida.

Meditaremos o episódio em partes, ao longo da semana. Hoje ficamos com a primeira parte desta catequese, centrada no debate entre Jesus e a multidão. O povo chegara entusiasmado, porque presenciara o “sinal” da multiplicação dos pães e dos peixes. Não procura Jesus movido pela fé nos sinais, mas pelo alimento abundante e fácil. E Jesus convoca a multidão a fazer uma passagem à realidade, do interesse imediato aos verdadeiros valores: crer nele e aderir a ele, o enviado do Pai.

Presa às tradições e habituada a buscar as migalhas que lhe sobravam, a multidão insiste em pedir a Jesus um sinal poderoso, nos moldes do sinal do maná. Presas à Lei ensinada pelos doutores e fariseus, as pessoas não sabem o que fazer para viver mais plenamente. Parece-lhes que basta a Lei, e o amargo e parco pão de cada dia. E se perguntam: se a prática da Lei não basta, “o que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” E Jesus responde: “Acreditar naquele que ele enviou”.

Acreditar no Enviado do Pai parece pouco, mas se trata de reconhecer Jesus como o Messias esperado, compreender seus sinais e aderir a ele com fé. O sinal do alimento abundante, fruto da compaixão e da partilha, traz consigo o compromisso de doação de si mesmo. Por mais que esteja atento às pessoas concretas e suas necessidades, Jesus não é uma solução mágica para toda indigência humana! Ele realiza e prolonga a ação de Deus no mundo, e se propõe como caminho para que façamos o mesmo.

É assim, contando com o engajamento generoso de quem acredita nele, que Jesus, o Filho do Homem marcado e enviado pelo Pai com seu selo, sacia todas as fomes da humanidade peregrina, mas sempre contando com sua própria participação. Nada podemos sem ele, mas ele nada faz sem nós!

 

Sugestões para a meditação

O que move você ao encontro de Jesus Cristo? Qual é o sinal realizado por ele que ilumina suas buscas?

Em que consiste hoje o alimento que não se perde, que permanece e conduz a uma vida mais plena?

O que significa acreditar no deus que enviou Jesus Cristo, e que consequências essa fé tem para sua vida

Paz na terra!

“E o mundo viverá como um só...”

Em 1971, quando a guerra promovida pelos EUA contra o Vietnã fervia e matava, John Lennon compôs e gravou uma canção que se tornaria um provocativo libelo pela paz: “Imagine que não exista paraíso, nenhum inferno sob nós, e, acima de nós, apenas o céu. Imagine que não há países, nenhum motivo para matar ou morrer”.

E prosseguia, instigando nossa imaginação: “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Imagine que não existam posses, ganância ou fome. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós, e o mundo viverá como um só”.

Não precisamos compartilhar a escala de valores do ex-Beatle para justificar o engajamento pela paz e pela igualdade. Zacarias, o pai de João Batista, saudou Jesus de Nazaré como o “Sol que nasce do alto para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lucas 1,79). E, no seu nascimento, os coros celestes cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos que ele ama” (Lucas 2,14).

Em 1963, antes de John Lennon e no calor da ‘guerra fria’, o Papa João XXIII escreveu Pacem in terris, onde afirma que a paz entre os povos se baseia na verdade, na justiça e na liberdade, e que as tensões entre países não são superadas com a força das armas ou com a mentira. E cita S. Agostinho: “Sem a justiça, os reinos não passam de latrocínio”.

Nesta encíclica dirigida a todas as pessoas de boa vontade, João XXIII diz também que as relações internacionais devem se desenvolver “em uma solidariedade dinâmica”, através de colaboração econômica, social, política e cultural, etc.” Na busca dos próprios interesses, uma nação não pode prejudicar as outras, mas somar e conjugar esforços.

Mais recentemente, Francisco, o ‘papa argentino’, escreveu que o que leva à guerra é a “falta de horizontes capazes de nos fazer convergir para a unidade”, e isso destrói o projeto de fraternidade próprio da humanidade. Mas não haverá paz social sem igualdade concreta e sem desenvolvimento humano integral (cf. Fratelli tutti, §§ 26; 235).

Vivemos tempos em que multiplicam elogios à guerra e às diversas formas de violência, não apenas praticadas, mas também divulgadas com grande velocidade e intensidade. Governantes com graves sinais de perturbação psíquica têm nas mãos meios que colocam toda a humanidade em risco.  E um bando de ensandecidos os apoiam, qualificando como animais e monstros aqueles que não compartilham suas cartilhas.

Não quero ser um sonhador solitário! Que o Senhor nos guie num caminho de paz!