sábado, 7 de fevereiro de 2026

Complicação e graça

A vida missionária é complicada e cheia de graça

983 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,30-34

No episódio do envio dos apóstolos ao “estágio missionário” (cf. Mc 6,7-13), a ênfase recaía sobre as instruções de Jesus para a missão. Na crônica sobre a trama e morte de João Batista (cf. Mc 6,14-29), o evangelista sublinhava o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos com os profetas que não calam a verdade. Este é o caminho e o destino de Jesus, s os discípulos que ele envia também devem preparar-se para isso.

No episódio de hoje, Marcos descreve o que acontece quando os discípulos voltam do breve “estágio missionário”. Eles foram enviados como missionários itinerantes, dedicados integralmente ao anúncio e realização do Reino de Deus, absolutamente dependentes da hospitalidade alheia. Voltando, eles se reúnem com Jesus e compartilham o que haviam feito e ensinado.

Atento ao cansaço e aos limites do apostolado deles, Jesus os convida para um retiro de descanso e de aprofundamento do seu ensino. Este descanso ou retiro se faz necessário, pois é muita gente chegando para pedir socorro, e isso pode limitar até as condições para se alimentar adequadamente. Mas a proposta de descanso se torna uma lição de dedicação incansável ao Reino de Deus, concretizada na compaixão pelo povo necessitado.

De fato, enquanto os discípulos que apenas estreavam como apóstolos ainda tinham dificuldades de reconhecer a identidade de Jesus, as multidões cansadas e abatidas, abandonadas pelos seus líderes e pastores políticos e religiosos, intuem quem é Jesus, depositam nele suas derradeiras esperanças e chegam antes deles no desejado “retiro”. É isso que relatam os versículos subsequentes.

A dedicação incansável de Jesus ao povo, e sua ação curadora e emancipadora, é a lição que faltava aos apóstolos. A missão não é uma etapa, um momento, uma entre outras atividades que nos ocupam. A divina e humana compaixão não conhece agenda. E as pessoas descartadas pelos “pastores” de plantão são a prioridade dos discípulos missionários. Mesmo quando se retiram para a oração e a formação, o povo está presente por todos os lados.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, acompanhando o retorno dos apóstolos, o convite ao descanso, a multidão que os rodeia

A formação, a oração, as celebrações e outras demandas da vida cristã não podem ser obstáculos ao “ministério da compaixão”

A verdadeira evangelização (anúncio da Boa Notícia de Deus) se concretiza e culmina na compaixão demonstrada nas ações

Em que medida é a humana e divina compaixão de Jesus que dinamiza nossa formação, nossa oração e nossa missão?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Anunciar a Boa Notícia de Deus

Dar sabor à vida

Uma das tarefas mais urgentes da Igreja de hoje e de sempre é conseguir que a fé chegue às pessoas como «boa notícia». Frequentemente entendemos a evangelização como uma tarefa quase exclusivamente doutrinal. Evangelizar seria levar a doutrina de Jesus Cristo àqueles que ainda não a conhecem ou a conhecem de forma insuficiente.

Preocupamo-nos então em garantir o ensino religioso e a propagação da fé face a outras ideologias e correntes de opinião. Procuramos pessoas bem formadas, que conheçam perfeitamente a mensagem cristã e a transmitam corretamente. Tentamos melhorar as nossas técnicas e organização pastoral.

Naturalmente, tudo isso é importante, pois a evangelização implica anunciar a mensagem de Jesus Cristo. Mas não é isso o único nem o mais decisivo. Evangelizar não significa apenas anunciar verbalmente uma doutrina, mas tornar presente na vida das pessoas a força humanizadora, libertadora e salvadora que se encerra no acontecimento e na pessoa de Jesus Cristo.

Entendida assim, a evangelização não depende tanto de meios poderosos e eficazes de propaganda religiosa, mas de saber agir com o estilo libertador de Jesus. O decisivo não é ter pessoas bem formadas doutrinariamente, mas contar com testemunhas vivas do evangelho. Crentes cuja vida revele a força humanizadora e salvadora que o evangelho encerra quando é acolhido com convicção e responsabilidade.

Nós cristãos, confundimos muitas vezes evangelização com o desejo de que o nosso cristianismo seja socialmente aceite. As palavras de Jesus, chamando-nos a ser sal da terra e «luz do mundo», obrigam-nos a fazer perguntas muito sérias. Somos nós, crentes, uma «boa notícia» para alguém? O que se vive nas nossas comunidades cristãs, o que se observa entre os crentes, é «boa notícia» para as pessoas de hoje?

Colocamos nós, cristãos, na sociedade atual algo que dê sabor à vida, algo que purifique, cure e liberte da decomposição espiritual e do egoísmo brutal e indiferente à solidariedade? Vivemos algo que possa iluminar as pessoas nestes tempos de incerteza, oferecendo esperança e um novo horizonte aos que buscam salvação?

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O preço da fidelidade

Quanto nos dispomos a pagar por nossa coerência?

982 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,14-29

Ontem meditamos sobre o episódio do envio dos doze apóstolos e o ensino sobre o que é essencial na missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como peregrinos e hóspedes; confiar na força libertadora dos meios frágeis; manter a abertura e o diálogo; fazer bem e fazer bem sem olhar a quem. E, na cena de amanhã, refletiremos sobre o retorno e a partilha da experiência missionária.

É aparentemente estranho que o evangelista coloque, entre o envio e o retorno dos apóstolos, o relato sobre a condenação e morte de João Batista. Parece uma espécie de parêntesis na história central, mas não é! Inserindo aqui este episódio, o evangelista quer dar a entender que os apóstolos herdam tanto a missão como o destino de Jesus. Ele inicia sua missão com a prisão de João, é comparado a ele, e terá o mesmo destino dele. Assim também os discípulos enviados em seu nome.

Na história contada hoje temos uma crítica mordaz às elites que controlam Israel, um registro do conluio incestuoso entre interesses políticos, militares e comerciais, e uma denúncia vigorosa dos seus caprichos assassinos. Herodes convida para sua festa a nobreza, o exército e as lideranças regionais. O juramento de um Herodes bêbado, prometendo dar à bailarina, sua enteada, a metade dos seus bens, registra e denuncia o modo estranho como as elites tomam suas decisões políticas.

Mesmo que aparentemente deseje conhecer Jesus, Herodes não o conseguirá, pois silenciou a Voz que anuncia o Verbo, e sem voz não há palavra. Seu casamento com a cunhada, que era também uma aliança política e diplomática, era criticada por João. Imaginando que Jesus seria João Batista que havia retornado, Herodes reconhece seu fracasso na tentativa de calar a voz dos profetas que o criticavam.

Nessa espécie de crônica policial percebemos o recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos e profetas que não calam a verdade, mesmo quando têm que pagar sua coerência com a própria vida. Jesus seguirá por esse mesmo caminho, e terá semelhante destino. E os discípulos missionários que ele envia também devem se preparar para isso. Os cristãos serão sempre luz que revela o que costuma ser escondido, e podem pagar um alto preço por sua fidelidade.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, observando bem as nuances do relato e participando da cena que ele descreve

Você percebe a crítica irônica do evangelista às elites da Galileia, assim como a denúncia vigorosa da violência delas?

O que explica o arrefecimento da profecia das lideranças cristãs nos tempos atuais, e como poderemos resgatá-la?

Como desenvolver nos discípulos missionários de hoje a coragem da verdade e a ousadia do testemunho?


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Do discipulado ao apostolado

Um bom discípulo amadurece como apóstolo

981 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,7-13

No episódio anterior (v. 1-6), o esperado encontro de Jesus com sua família e seus conterrâneos de Nazaré terminou em desencontro. Jesus percebeu que, como ocorreu com muitos profetas, ele não era reconhecido pelas pessoas mais próximas, tanto do povoado como da própria família. Familiares e conterrâneos também são vítimas da ideologia que não consegue acreditar na força dos fracos.

Mas Jesus não se rende às objeções, vindas da elite religiosa e muito disseminadas, a um Deus que assume a condição humana. Os sinais mais eloquentes e transformadores do Reino de Deus vêm exatamente da ação dos pequenos e marginalizados. Que eles atuem de forma pública e transformadora é um sinal da libertação já conquistada. O Reino de Deus não depende da eficácia dessas ações, pois o fato de os amordaçados falarem já é a libertação em curso.

Indiferente a este desprezo, Jesus põe sua confiança naquela gente pequena e desprezada que ele acolhe e escolhe para ser o início simbólico da sua comunidade-semente, da nova família que ele reúne em torno do Evangelho. E, mais tarde, os envia para multiplicar sua ação emancipadora por doze, sem o apoio de meios potentes, que só fazem impressionar e intimidar. Seria como negar com os fatos a Boa Notícia que anunciavam com as palavras.

É este o significado das recomendações que Jesus faz àqueles e aquelas que envia: não levar reserva de alimentação, nem reserva técnica de dinheiro; dispensar também as roupas desnecessárias; levar apenas o cajado e calçar sandálias, para facilitar e agilizar a caminhada. Mas Jesus pede que eles não deixem de fazer o que é indispensável: não atuem sozinhos, mas em companhia de outros; larguem mão dos pensamentos elitistas, que menosprezam os pobres; curem os doentes e libertem as pessoas dominadas, para que possam viver plenamente; evitem retaliações violentas contra aqueles que não os ouvem nem acolhem.

Eis o essencial da missão, em qualquer tempo e lugar: sair ao encontro como amigos e hóspedes; confiar na força libertadora da fragilidade; manter a abertura e o diálogo; fazer o bem sem olhar a quem. Um bom discípulo torna-se bom mestre e apóstolo.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida nós e nossas comunidades ainda não conseguimos aceitar a importância das ações frágeis e pequenas?

Você acredita mesmo que este mundo será melhor quando o menor que padece acreditar no menor?

Como superar a tentação de confiar apenas nos meios potentes e nos agentes mais poderosos para desenvolver nossa missão?

Deixe-se seduzir por Jesus Cristo, o Deus na carpintaria e na cruz, assumindo uma vida simples e priorizando os meios frágeis

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Deus na carpintaria

As mãos de Deus têm as marcas da carpintaria

980 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,1-6

Apesar dos títulos de poder que a história associou a ele, Jesus de Nazaré partilhou a sorte das pessoas humildes, simples, normais. Ele não fez coro com os soberbos e satisfeitos, nem foi indiferente ao destino das pessoas desprezadas. Nasceu numa estrebaria, habitou numa cidade insignificante, foi trabalhador braçal, aproximou-se de grupos sociais considerados suspeitos, foi preso e executado entre outros condenados, fora dos muros de Jerusalém. Em sua cidade, Jesus era conhecido como um carpinteiro, e seus familiares eram pessoas muito humildes.

O trecho do evangelho de hoje mostra a admiração e a inquietação dos conterrâneos de Jesus sobre a origem e o carisma de Jesus. Como o conheciam desde pequeno, perguntavam-se: “Onde foi que arranjou tanta sabedoria? Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” Do ponto de vista da origem, Jesus não poderia ser o que dava a impressão de ser. Para seus conterrâneos, a sabedoria não poderia vir de pessoas comuns e humildes como eles. Por mais seus ensinamento e ações impressionassem, sua pertença a um povoado e uma família marginal era como uma pedra de escândalo. Ele não poderia ser o Messias que esperavam.

Jesus, por sua vez, fica muito impressionado com esta visão estreita, com a influência que a ideologia das elites exerce sobre os humildes habitantes da sua aldeia. Por trás dela está a ideia da inferioridade e impotência dos pobres, da sua radical e eterna dependência de benfeitores poderosos. Como tantos outros, aquele povo simples havia interiorizado e assimilado a insignificância que os outros lhe atribuíam. E parece que esse escândalo atinge os próprios familiares e parentes de Jesus. Com um olhar ofuscado por ambições e preconceitos, não conseguimos ver claramente.

Por isso, Jesus repete um provérbio popular da sua região: “Um profeta só não é estimado na sua pátria, entre seus parentes e familiares” Aqueles que conhecem sua origem humilde e suas mãos calejadas na carpintaria não conseguem reconhecer nele os traços do Profeta ou do Messias. Mas para Jesus o escândalo dos habitantes de Nazaré significa falta de fé, ausência daquela abertura essencial que permite reconhecer a presença de Deus nas coisas e pessoas simples, acolher as surpresas e a ação de Deus que se manifesta onde menos se espera.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, imaginando-se presente em Nazaré, interagindo com os familiares e conterrâneos de Jesus

Em que medida também nós resistimos em admitir que pessoas simples, em lugares remotos podem fazer grandes coisas?

Como nós e nossas comunidades vivemos nossa origem, frequentemente humilde e de pouca relevância social?

Deixe-se seduzir por Jesus Cristo, o Deus na carpintaria e na cruz, assumindo uma vida simples e priorizando os meios frágeis


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

A mulher e a menina

Jesus é o peregrino que faz o bem por onde passa

979 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 5,21-43

O texto do evangelho de hoje está literariamente estruturado em forma de sanduíche: no início e no fim está a cena da menina doente; no meio, temos a cena da mulher que sofre de hemorragia há 12 anos. A menina, mesmo muito enferma, tem alguém por ela: seu pai é chefe de uma sinagoga. A mulher enferma já sofrera na mão de muitos médicos, e não pode contar com ninguém que interceda por ela.

Jairo, o chefe da sinagoga e pai da adolescente que “está nas últimas” atira-se aos pés de Jesus e pede insistentemente que ele faça um gesto que a cure e faça viver. Jesus atende o seu pedido e caminha com ele, ladeado por uma multidão. Tudo parece andar bem de acordo com as expectativas e necessidades, mas, no meio do caminho aparece uma mulher sofrida, sem nome e sem ninguém.

Ela sofre de hemorragia há 12 anos, foi depauperada pelos médicos, e, “em vez de melhorar, piorava cada vez mais”. 12 anos de dor, de isolamento social por causa da “impureza” provocada pelo fluxo de sangue, de uma pobreza que se agrava a cada dia. Também ela ouve falar de Jesus, mas não ousa pedir nada. Apenas aproxima-se discretamente por trás e toca na roupa dele. Movida pela fé, acredita que o seu toque não transmite sua impureza a Jesus, mas atrai dele a graça da cura.

Aproximando-se de Jesus e tocando na roupa dele, a mulher vê-se curada. Mesmo apertado pela multidão por todos os lados, Jesus percebe que algo acontecera. Uma pessoa tão sofrida não poderia passar por Jesus sem que ele se sentisse profundamente tocado! Mesmo embaraçada pelo seu gesto inusitado, a mulher se apresenta, e ouve de Jesus uma palavra poderosa e emancipadora: “És minha filha, e o que te curou é a tua fé. Vai em paz!”

Enquanto Jesus se entretém com esta mulher, a filha de Jairo morre, e seus empregados querem dispensar Jesus do pedido que ele lhe fizera. Então Jesus pede ao chefe da sinagoga que aprenda a crer como aquela mulher sem nome. E, chegando à casa, interrompe os lamentos, põe ordem na confusão, fica sozinho com os pais na peça onde está a menina, estende a mão a ela e a coloca de pé. E ela caminha, livre e curada, diante de uma multidão admirada.

 

Sugestões para a meditação

Perceba a situação de abandono social da mulher anônima, mas também sua confiança e sua fé, e a estratégia que nasce delas

Perceba como Jesus não dá preferência a quem tem um intercessor importante, e como toma a fé de uma pagã como exemplo

Qual é a atenção que dispensamos às pessoas que, movidas pela necessidade e pelo desespero, irrompem em nossas igrejas?

O que podemos fazer para que a Igreja reconheça o espaço que cabe às mulheres na sua missão e organização?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Sinal de contradição

Jesus mostra qual é a verdadeira felicidade

978 | Tempo Comum | 4ª Semana | Lucas 2,22-40

O momento alto e revelador desta cena, que ilumina a Festa da Apresentação de Jesus no Templo, não é o cumprimento das leis de purificação por Maria e José, mas o encontro de José e Maria, à margem dos dirigentes do templo, com Simeão e Ana, assim como o que eles anunciam. Na cena narrada por Lucas, tudo chama a atenção para o significado do filho que Maria e José apresentam ao povo de Deus e ao templo.

Simeão toma o Menino nos braços e, com seu olhar penetrante, vê nele a presença libertadora de Deus na fragilidade humana. É uma salvação que desborda as fronteiras étnicas e religiosas de Israel e se destina a todos os povos. É luz que ilumina as nações sem excluir nenhuma e ninguém. Ana também fala do Menino a todas as pessoas que viviam de esperança. Como os pastores representavam a acolhida de Jesus pelos excluídos, Simeão e Ana expressam sua acolhida pelo resto piedoso e fiel.

No suntuoso templo de Jerusalém, cantado em prosa e verso pelos peregrinos, Maria e José observam a alegria de quem esperou longamente, e experimentam certo brilho. Poucas coisas estão claras, mas cresce neles a percepção de que o filho que lhes foi confiado é especial para todos os povos. Porém, este brilho logo é ofuscado pelas palavras misteriosas que Simeão dirige a Maria. Jesus vai incomodar os acomodados, pois veio para desmascarar o colocar pedras no caminho dos exploradores.

Nesse encontro, José e Maria entendem que ainda precisam avançar e crescer no escuro da fé. Como Abraão, eles se lançam na estrada sem saber aonde chegarão. Simplesmente, ousam acreditar, e isso lhes é creditado como justiça. Abrem-se, pouco a pouco, à novidade que Deus manifesta através do nascimento daquele inesperado filho. Eis o caminho a ser seguido pelos religiosos e religiosas, que hoje celebram o dia a eles dedicado.

O breve cântico de Simeão é uma síntese do credo dos primeiros cristãos. Jesus é Boa Notícia e caminho de libertação para todos os povos. Ele é também o paradigma da responsabilidade missionária dos homens e mulheres que se consagram a Deus e ao seu Evangelho: sair do estreito âmbito das instituições para ser presença solidária, consoladora e libertadora para todas as pessoas e povos.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto lentamente, detendo-se nos personagens, nos gestos, nas atitudes e nas palavras deles

Observe e contemple as ofertas de resgate apresentadas por Maria e José, próprias dos casais pobres e humildes,

Procure perceber como, nas palavras de Simeão e de Ana, transparece a vida e a missão do Jesus adulto, assim como a missão dos cristãos

Com que palavras e atitudes as pessoas consagradas poderíamos apresentar Jesus e seu Evangelho aos homens e mulheres de hoje?

sábado, 31 de janeiro de 2026

Em que consiste a felicidade?

Jesus mostra qual é a verdadeira felicidade

977 | Tempo Comum | 4ª Semana | Mateus 5,1-12

Buscamos nas bem-aventuranças, que fazem parte da primeira grande pregação ou catequese de Jesus para iluminar nossa vida na primeira semana do mês de fevereiro, a quarta do tempo comum. Depois da experiência forte por ocasião do batismo e das tentações no deserto, Jesus inicia sua pregação na Galileia, e chama os primeiros discípulos. Ele percorre a região “pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo” (Mt 4,23).

Na cena de hoje, Jesus vê diante de si as multidões que vêm de toda a região, e assume sua missão de Mestre e Formador de discípulos. Tendo os discípulos e o povo cansado e abatido diante dos ele fala da novidade jubilosa do Reino de Deus, que reverte a situação de sofrimento e dominação na qual eles vivem. Ao mesmo tempo, pede o engajamento daqueles que desejam segui-lo. E não se trata de cumprir leis minuciosas, mas de assumir um novo estilo de vida!

Por isso, Jesus evita apresentar um simples manual de procedimentos, um conjunto de mandamentos, mas indica uma direção, esboça um mundo bom e alternativo, uma comunidade-semente, um caminho de felicidade compartilhada. Ele oferece várias ilustrações sobre como podemos acolher a vontade de Deus, o Reino de Deus. Não é uma descrição de diferentes virtudes a serem exercitadas, mas alguns exemplos das prioridades do Reino de Deus.

Estas ilustrações podem ser divididas em dois grupos de quatro: as primeiras (v. 3-6) abordam de situações de opressão (pobreza, aflição, impotência e ausência de justiça) que são simplesmente revogadas com a chegada do reino de Deus; o segundo grupo (v. 7-12) apresenta ações humanas que brotam da acolhida da novidade de Jesus (misericórdia, integridade, promoção da paz e luta firme pela justiça). Estas são a razão e o caminho da felicidade.

Para Jesus, pobreza, opressão, injustiça, humilhação e a perseguição não são situações que devemos simplesmente aceitar resignadamente, mas algo que devemos deplorar, denunciar e superar. O Reino de Deus que ele anuncia e inicia provoca essa mudança, e não há caminho de felicidade fora do engajamento nesse processo de mudança. O engajamento se mostra na postura misericordiosa, nas atitudes que promovem a paz, na eliminação da duplicidade de atitudes e palavras.

 

Sugestões para a meditação

Retome as bem-aventuranças uma a uma, observando o porquê da felicidade relacionada em cada aspecto

Podemos dizer que é nisso que reside nosso sonho, nossas aspirações, a meta de tudo o que fazemos e buscamos?

Em qual desses oito aspectos do caminho do discípulo você precisa crescer mais? E qual deles lhe dá mais alegria?

Chamados a ser livres

Onde começa nossa liberdade?

Na carta que escreve aos Gálatas, o Apóstolo Paulo exorta “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, fiquem firmes, e não se deixem prender de novo ao jugo da escravidão. Vocês foram chamados para a liberdade! Mas que a liberdade não sirva de pretexto para a carne. Por meio do amor, ponham-se a serviço uns dos outros” (5,1.13).

Quem segue Jesus Cristo e o reconhece como seu “único e suficiente salvador”, não importa a tradição cristã com a qual se vincula, têm um ponto como firme e seguro: nele e por ele recebemos a salvação, fomos libertados e justificados, e não por qualquer tipo de mérito ou conquista pessoal, mas por incondicional e generosa graça de Deus.

O dom que recebemos e chamamos liberdade também recebe outros nomes, igualmente dignos e significativos: salvação, redenção, libertação, regeneração, vida nova, vida no Espírito, etc. Mas vivemos essa nova condição neste mundo, com tudo o que significa viver a condição humana: em meio a ambivalências, contradições, lutas e buscas.

É por isso que Paulo, depois de afirmar que Cristo nos libertou para vivermos livres, acrescenta que fomos “chamados para a liberdade”, para a vida plena, para a salvação. Ou seja: vivemos essa condição na esperança e na luta contra as forças que desumanizam, separam, aprisionam e se opõem ao amor e ao serviço aos outros e ao bem comum.

Mas a condição de vocacionados à liberdade não pode ser pretexto para a indiferença e o egoísmo. A liberdade é um chamado que nos impulsiona a viver segundo o Espírito, a amar e servir a todos e sempre. É um dinamismo espiritual que nos torna livres do medo e das ambições, solidários e criativos para plantar as sementes de “um mundo outro”.

Os medos exercem sobre nós um poder imobilizador que tende a anular a nossa da nossa liberdade. E o medo da morte é um dos mais poderosos. Por isso, a raiz da liberdade que recebemos em Jesus Cristo é o dom e a promessa de vida eterna. Vencido o medo da morte, renascemos criativos e corajosos para defender a vida, livres para dar a vida.

Estejamos atentos ao engano daquele apelo da loja de armas: “Aqui começa a sua liberdade!” É uma mentira mortal, uma ilusão, uma negação da verdade cristã. Uma arma não nos torna mais livres ou seguros, mas mais agressivos, ameaçadores, e, no limite, violentos. A arma não tem força para regenerar ninguém, mas tem o poder de corromper o que ainda nos resta de confiança, sociabilidade e humanidade.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Ondas que assustam

Que a fragilidade dos sinais não nos assustem!  

976 | Tempo Comum | 3ª Semana | Marcos 4,35-41

Recorrendo a diversas parábolas, Jesus havia acabado de desenvolver uma longa catequese sobre o misterioso dinamismo do Reino de Deus. Diante da rejeição das autoridades religiosas, e frente à incompreensão dos próprios familiares, Jesus sente necessidade de intervir para manter a esperança e ativar a paciência. E faz isso em plena travessia do território conhecido para a “outra margem”.

Parece que a missão de Jesus estava dando poucos frutos. Dominados por medos e amarrados por preocupações mesquinhas, os discípulos do tempo de Marcos enfrentam as dificuldades de modo muito diferente de Jesus. Atravessando o mar revolto da vida no mesmo barco, Jesus permanece confiante e tranquilo, enquanto que eles se apavoram. Os discípulos têm dificuldade de aceitar o dinamismo e as exigências e do Reino de Deus. Não conseguem confiar a Deus a própria vida.

Parece também que a Palavra de Jesus, a Boa Notícia do Reino encontrou nos próprios discípulos uma terra dura, rasa ou infestada de ervas daninhas. Eles têm a impressão de que correm o risco de morrer, e não percebem que o que está morrendo neles é a Boa Notícia do Reino de Deus. Pensam que Jesus não se importa com eles, e não percebem o tanto que os ama. Eles ainda precisam percorrer um longo caminho para que uma fé que os sustente. O medo das perdas ainda se sobrepõe à confiança.

Jesus é acordado por eles, e fala forte, ordenando que silenciem estas agitações e se cale a voz dissidente do medo que ameaça seus discípulos. Eles precisam conhecer melhor quem é este profeta da Galileia, esse mestre que ensina com autoridade e enfrenta as forças e instituições que se opõem ao querer de Deus. Muitos caminhos e muitas travessias os esperam.

Os discípulos da primeira hora precisam superar a crônica divergência com Jesus. Precisam descobrir, compreender e acolher o cerne da sua pregação e missão: o Reino de Deus chegou, e é graça que liberta; ele pede mudança das pessoas e estruturas; quem o segue precisa dar prioridade aos pobres e só pode contar com os meios mais frágeis; e este caminho passa pela cruz, pelo dom de si mesmo. Em que medida também nós ainda precisamos assimilar essa realidade?

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com atenção, relacionando-o com as repetidas crises nas quais o seguimento de Jesus coloca seus discípulos

Você consegue perceber a agitação e o medo de muitos católicos na passagem de uma fé intimista a um engajamento no mundo?

Não ocorre também a nós pensar que Jesus está longe ou indiferente dos ventos e ondas que ameaçam a humanidade?

Será que também nós não necessitamos conhecer melhor quem é esse Jesus em quem dizemos ter posto nossa confiança?