domingo, 29 de março de 2026

Homilia no Domingo de Ramos

Jesus Cristo, nossa Páscoa!

Queridos irmãos e irmãs! Recordando o dinamismo do esvaziamento amoroso de Jesus, Paulo diz porque, diante de Jesus Crucificado se dobra todo joelho: não porque Deus tenha manifestado sua grandeza e seu poder, mas porque ele desceu tão e se fez tão amorosamente pequeno que, para receber seu abraço salvador precisamos abaixar-nos.

Enquanto os soldados que servem aos que governam mediante a violência desafiam o poder daquele que é acusado de querer ser o rei dos Judeus, e enquanto os que propõem uma religião indiferente à sorte dos humanos ironizam aquele que diz ser o Messias, o oficial e alguns soldados pagãos contemplam a doação incondicional e sem limites de Jesus na cruz e proclamam: “Ele era mesmo o Filho de Deus”.

A páscoa é aqui!

Participemos desde já da festa da Páscoa, por enquanto ainda espírito e imaginação. Mas é uma participação mais real e concreta que aquela do povo hebreu que, no êxodo, venceu a escravidão imposta pelo faraó do Egito e peregrinou para a conquista de um território livre e solidário.

Dentro de uma semana, participaremos da Páscoa de modo mais pleno, embora sacramental. O Verbo de Deus virá beber conosco o vinho novo no reino de seu Pai, revelando definitivamente o que até agora só em parte nos foi revelado, e que pouco compreendemos. Entretanto, a força espiritual que bebemos na Páscoa nos é oferecida em cada celebração eucarística.

Nossa Páscoa, a páscoa de Jesus e dos cristãos, é sempre real e nova. Não é a simples recordação de um passado distante. Não é um ritual protocolar e vazio. Também não é algo que tem a ver apenas com a intimidade e a fé privada de cada pessoa. É memória, experiência e futuro que envolve e renova a humanidade.

Participemos dessa festa ritual e existencial, sacramento da Nova e Eterna Aliança de Deus conosco. Participemos de modo perfeito, deixando-nos banhar e regenerar pelas águas batismais. Alimentemo-nos na mesa da ceia partilhada. Entremos com Jesus em Jerusalém, não na atual capital de Israel, onde mandam os senhores da guerra impiedosa, mas na Jerusalém celeste, a cidade dos homens e mulheres livres, irmãos e solidários.

Não sacrificaremos novilhos ou carneiros com chifres e cascos, nem mesmo peixes, vítimas sem vida e sem inteligência. Ofereceremos a Deus um sacrifício de louvor, o fruto do trabalho das nossas mãos e da partilha solidária das quatro semanas da quaresma. Apresentemos isso em comunhão com todas as vítimas da violência, seja ela doméstica ou política, perpetrada em nosso país ou ao redor do mundo.

Mais ainda: ofereçamos diariamente ao Deus e Pai de Jesus Cristo e nosso a nós mesmos e todas as nossas relações e ações. Levemos para a mesa dos irmãos e irmãs nossos pães e nosso vinho. Respondamos com o amor aos irmãos e irmãs ao amor e a misericórdia com que Jesus nos trata. Imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo. Honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente com ele à cruz.

A Via-Sacra é hoje!

Nesta santa semana que estamos iniciando, acompanhemos os personagens que se cruzam com Jesus Cristo na sua via-sacra, na sua santa e derradeira peregrinação.

Se nos sentimos tocados pelo povo que vivia na periferia e fora dos muros de Jerusalém, acolhamos Jesus Cristo em nossa vida, veneremos sua santa humildade, anunciemos que ele é o Messias justo e pobre, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Com este resto humilde e pacífico, clamemos pedindo socorro ao filho de Davi, juntando-nos a todas as vítimas que clamam e seus gritos são sufocados pelos desertos.

Se consideramos execráveis o julgamento combinado e a condenação hipócrita de Jesus à tortura e à morte, não nos dobremos diante da tentação de presumir que todos os outros são culpados, e que nós e o “nosso lado”, somos bons e justos. E não nos calemos diante das condenações lapidárias perpetradas diariamente por setores da imprensa e do grande capital, e até nas redes sociais, contra os movimentos e organizações populares e os defensores dos direitos humanos.

Se o coro insano dos que pedem a morte de Jesus de Nazaré e a anistia para Barrabás nos apavora e o gesto hipócrita de Pilatos nos desconcerta, não descansemos tranquilamente enquanto os grandes criminosos não sejam condenados, dentro do devido processo legal, e a dignidade dos inocentes seja restaurada.

Se nos vemos espelhados em Simão Cireneu, tomemos nossa cruz e sigamos a Cristo, ajudando também aqueles que sofrem extenuados sob o peso de tantos males dos quais não têm culpa. Façamo-nos próximos e solidários dos idosos e dos doentes, dos sem casa, daqueles que as guerras e conflitos expulsam de sua pátria e daqueles que adentram nosso país para refazer suas vidas despedaçadas.

Se quem nos inspira são as mulheres de Jerusalém, acolhamos a recomendação de Jesus e choremos pelas dores dos irmãos e irmãs, particularmente daqueles que são as primeiras vítimas dos eventos climáticos extremos, acelerados e intensificados pelo nosso consumo descontrolado e predatório.

O Salvador crucificado

Se ressoam fortemente em nós a atitude e as palavras do malfeitor crucificado com Cristo, reconheçamos nossas muitas faltas, inclusive a indiferença e o individualismo que nos seduz mais que a fruta proibida. Reconheçamos a fonte de vida que brota do lado esquerdo de Jesus e peçamos a ele a graça de sermos contados entre seus amigos e amigas.

Se por nossa causa e por nosso pecado Jesus foi tratado como malfeitor, ele nos torne justos por seu amor. Adoremos aquele que foi crucificado por nossa causa. Preso à nossa própria cruz, à cruz que a maior parte da humanidade é obrigada a carregar, aprendamos a tirar proveito até da nossa própria iniquidade.

Aceitemos a salvação que Jesus nos oferece dando a vida por amor, amando mais aos pequenos e pecadores que à própria vida. Entremos com Jesus no paraíso. Contemplemos as belezas desse lugar imaginado o oferecido por Deus a todas as suas amadas criaturas, e deixemos que os malfeitores rebeldes fiquem fora dele.

Se o grito de Jesus na Cruz questiona a paz interior e tranquilidade que buscamos nas práticas religiosas, não tapemos os ouvidos aos clamores dos pobres e ao clamor da terra. Virar o rosto e fechar os ouvidos a eles significa desconhecer o rosto e ser surdos ao Senhor que nos visita.

A esperança que não engana

Se José de Arimatéia brilha diante de nós por sua delicada atenção ao corpo de Jesus, contemplemos e acolhamos com cuidado materno e medicinal nosso próprio corpo alquebrado pela idade, pelas doenças ou pelo trabalho, assim como o corpo dos crucificados que jazem perto ou longe de nós. E experimentaremos a graça de acolher a vítima que expiou o pecado do mundo.

Se nos sentimos semelhantes a Nicodemos, o discípulo oculto e adorador noturno de Deus, envolvamos com óleos e perfumes e ornemos com flores o seu corpo para a sepultura. Mas não esqueçamos de envolver com nosso abraço silencioso e amoroso as pessoas desconsoladas e enlutadas pelos entes queridos, roubados do seu convívio por acidentes, decisões ou omissões de quem deveria cuidar de todos.

Se nos identificamos com Maria Madalena, a outra Maria, Salomé, ou Joana, derramemos lágrimas diante do Crucificado no Calvário e junto aos milhares de crucificados ao redor de nós e ao redor do mundo, começando pelos irmãos e irmãs que ainda hoje ainda podem desfrutar de uma moradia digna, ou pelas esposas e mães que são espancadas por aqueles que dizem amá-las.

O Ressuscitado e nossa missão

Levantemos de manhã bem cedo, como aquelas mulheres da madrugada. Procuremos ser os primeiros a ver a pedra afastada, e encontrar anjos com boas notícias, ou o próprio Jesus, que nos espera com suas mãos e pés feridos, mas sempre de braços abertos. E escutemos o que ele nos diz:

“A paz esteja com vocês! A paz que eu dou não é como a paz que o mundo promete. Minha paz é desarmada e desarmante! Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês! Se vocês se amarem um aos outros, eu morarei para sempre no meio de vocês! Vocês são minhas testemunhas! Lutem, ao lado de todas as vítimas, pelo fim das guerras e de tantos calvários!

Felizes e bem-aventurados os que promovem a paz, pois, como eu, serão chamados filhos de Deus! E felizes se vos perseguirem por causa de mim e do Evangelho, pois assim foram tratados os verdadeiros profetas que vieram antes e virão depois de mim”.

Dom Itacir Brassiani msf

(Inspirado numa homilia de São Gregório de Nazianzo, Século VI)

sábado, 28 de março de 2026

Transformar sonhos em realidade

“Viver é melhor que sonhar!”

Esta afirmação faz parte de uma música escrita por Belchior em 1976, imortalizada na voz de Ellis Regina. Mais que uma crítica à supostas ilusões dos sonhos, Belchior faz um chamamento à necessidade de traduzir o sonho em atitudes concretas e cotidianas. “O amor é uma coisa boa, mas qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

Uma pessoa envelhece e perde a vitalidade quando deixa de sonhar, quando os sonhos dão lugar às lamentações. Uma pessoa sem utopias é como um pássaro sem asas: acaba rastejando e sendo vítima dos predadores de plantão. Vive jovialmente quem vê chegando no vento o “cheiro de nova estação” e “sabe de tudo na ferida viva do coração”.

Os cristãos não vivem apenas da memória de grandes acontecimentos do passado, mas principalmente de utopias que os movem para o futuro. “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra. As coisas antigas nunca mais serão lembradas. Por isso fiquem para sempre alegres e contentes, por causa do que vou criar” (Isaías 65,17-18).

O que mobilizou as tribos que deram origem do povo de Israel não foram mandamentos e proibições, mas sonhos utópicos como esse descrito pelo profeta. As leis tinham seu lugar apenas como disciplina para colaborar na realização do sonho. Por isso, Jesus não iniciou sua missão propondo um conjunto de leis, mas resgatando um sonho.

“Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus: “O tempo já se cumpriu e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14-15). A força dessa metáfora, já descrita pelos profetas, ressoou com força nos ouvintes de Jesus, de tal forma que deixaram tudo para segui-lo.

Quase vinte séculos mais tarde, um discípulo de Jesus apresentou este sonho com outras palavras: “Apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter...” Este sonho compartilhado foi o segredo da perseverança dos negros na luta pela igualdade.

Acompanhando Jesus de Nazaré em sua chegada à capital do seu país, reafirmamos nosso sonho de um mundo onde haja lugar e vida plena para todos, que não criminalize os profetas e os sonhadores, que dê primazia aos mais vulneráveis. Em Jesus, o sonho é vivido e testemunhado no dom de si mesmo, sem reservas. Por isso, vive e é imortal.


Montado num jumento

Quem é esse homem tão semelhante a nós?

1034 | Quaresma | Domingo de Ramos | Mateus 21,1-11

O relato da entrada de Jesus em Jerusalém nos convida a abandonar toda e qualquer fantasia de poder e de sucesso que alimentamos e projetamos nele. Nesta cena não há nada de triunfal. Jesus vem da região periférica da Galileia e entra na capital do seu país politicamente dominado montado numa jumenta. Nada de cortejos de honra, de generais e cavalos vistosos, de discursos oficiais de acolhida. Jesus chega a Jerusalém como sempre foi: um servidor, um reformador inquieto, um profeta destemido e vindo dos grotões, um simples homem da Galileia.

Jesus chega a Jerusalém à frente de um numeroso e desorganizado grupo de discípulos. O povo da capital não o conhece, e mesmo assim o teme. Mas o pessoal do campo que o acompanha desde a Galileia ou que vive na periferia da capital o aclama entusiasmo e o acolhe como o Messias esperado. “Bendito o que vem em nome do Senhor!” Como o velho Simeão, essa gente reconhece naquele homem que tem ouvidos, palavras e ações libertadoras em favor dos últimos o Enviado de Deus. E isso contrasta claramente com a fria acolhida do povo de Jerusalém.

O que aquela pequena multidão de pobres e estropiados faz é aclamar a chegada do líder enviado por Deus e o despontar do Reino messiânico inspirado em Davi. Mas Jesus não realiza as ações potentes que esta ideologia apregoava! Ele é o servo paciente e o ouvinte atento da Palavra de Deus anunciado por Isaías, e é dessa escuta que brota uma palavra que desperta as pessoas adormecidas e encoraja as multidões acorrentadas ao medo. A ação poderosa de Jesus será essencialmente o incondicional e solidário dom de si mesmo na cruz, síntese de todas as suas ações libertadoras.

O entusiasmo daquela gente que vinha do interior ou vivia na periferia da capital não se sustentará por muito tempo. Os próprios discípulos, depois de se unirem às multidões e saudarem Jesus como o Messias esperado, voltam atrás e o abandonam. Os gritos de ‘hosana’ – Socorro! Deus salve agora! – darão lugar ao insolente e violento pedido ‘Crucifica-o!’, fruto da frustração das expectativas e da manipulação interesseira das autoridades de Jerusalém.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com calma, prestando atenção aos personagens, ao que eles fazem e ao que eles dizem

Você consegue perceber os traços de sátira política que Mateus dá à sua narração da chegada de Jesus a Jerusalém?

Com que palavras, gestos e símbolos acolheríamos hoje Jesus em nossas casas, instituições e cidades?

O que esta cena paradigmática diz e ensina sobre a prática da evangelização e do anúncio do Reino de Deus?

Não domesticar a cruz

SEGUIR JESUS LEVA À CRUZ

Estamos tão familiarizados com a cruz do Calvário que já não nos causa qualquer impressão. O hábito domestica e rebaixa tudo. Por isso, é bom recordar alguns aspetos demasiado esquecidos do Crucificado.

Comecemos por dizer que Jesus não morreu de morte natural. A sua morte não foi a extinção esperada da sua vida biológica. Jesus foi morto violentamente. Não morreu vítima de um acidente casual ou fortuito, mas foi executado, após um processo conduzido pelas forças religiosas e civis mais influentes daquela sociedade.

A sua morte foi consequência da reação que provocou com a sua atuação livre, fraterna e solidária com os mais pobres e abandonados daquela sociedade. Isto significa que não se pode viver o evangelho impunemente. Não se pode construir o reino de Deus, que é reino de fraternidade, liberdade e justiça, sem provocar a rejeição e a perseguição daqueles a quem não interessa qualquer mudança. É impossível a solidariedade com os indefesos sem sofrer a reação dos poderosos.

O seu compromisso por criar uma sociedade mais justa e humana foi tão concreto e sério que até a sua própria vida ficou comprometida. E, no entanto, Jesus não foi um guerrilheiro, nem um líder político, nem um fanático religioso. Foi um homem em quem se encarnou e se tornou realidade o amor insondável de Deus pelos homens.

Por isso, agora sabemos quais são as forças que se sentem ameaçadas quando o amor verdadeiro penetra numa sociedade, e como reagem violentamente tentando suprimir e sufocar a atuação daqueles que procuram uma fraternidade mais justa e livre.

O evangelho será sempre perseguido por quem coloca a segurança e a ordem acima da fraternidade e da justiça (farisaísmo). O reino de Deus será sempre obstaculizado por toda a força política que se entenda como poder absoluto (Pilatos). A mensagem do amor será rejeitada na sua raiz por toda religião em que Deus não seja Pai dos que sofrem (sacerdotes judeus).

Seguir Jesus conduz sempre à cruz; implica estar disposto a sofrer o conflito, a polêmica, a perseguição e até a morte. Mas a sua ressurreição revela-nos que a uma vida crucificada, vivida até ao fim com o espírito de Jesus, só lhe espera a ressurreição.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 27 de março de 2026

As estruturas ou as pessoas?

Será que ele estará conosco na Páscoa?!

1033 | Quaresma | 5ª Semana | Sábado | João 11,45-56

Na meditação de ontem, Jesus concluía o debate com as lideranças do templo reafirmando sua filiação divina – suas ações mostram que ele é parecido com o Pai – e que a elite religiosa é filha da idolatria (que a tradição chama de prostituição), pois rejeita, persegue e quer matar Jesus, assim como os discípulos fiéis a ele.

Na cena de hoje, que está situada depois da ressurreição de Lázaro, estas mesmas “autoridades” confirmam a decisão de eliminar Jesus, dispensando um processo legal. Diante da crescente adesão do povo a Jesus, elas sentem estar perdendo a influência, e reúnem o “conselho superior” (o Sinédrio) para tomar uma decisão.

As lideranças do templo não toleram pessoas livres e revolucionárias. Como Jesus desperta a sede de liberdade, reúnem-se os que pretendem representar os “interesses de Deus”, seja pelo cargo que exercem, seja pelo saber que administram. Reunidos, fazem uma leitura negativa e tendenciosa dos acontecimentos, não conseguem ver nada de bom e tão somente ameaça naquilo que Jesus faz.

Pode parecer incrível, mas esses líderes religiosos não estão interessados no cumprimento da vontade de Deus e na defesa do povo, mas apenas no risco de perder a “clientela religiosa” para Jesus. Porém, disfarçam, e justificam sua decisão assassina acenando para o risco de que Jesus, agitando as esperanças do povo, viesse a provocar uma represália romana. Em outras palavras, apelam à “lei de segurança nacional” para defender seus interesses pouco nacionalistas.

Ironicamente, Caifás, em nome do conselho e como chefe que encarna a instituição, se opõe à ação de Deus em Jesus para “salvar” o “lugar de Deus”, que é o templo. Isso faz com que Jesus se afaste do templo e se esconda, onde atrai mais discípulos e se dedica à última etapa de formação deles antes de ser levado à morte. Mas, com a morte na cruz, Jesus acaba decretando o fim da identificação do povo de Deus com a nação judaica, pois abre as portas para os “filhos de Deus dispersos”.

 

Sugestões para a meditação

Qual é o verdadeiro motivo da reunião do Conselho do Sinédrio, e o que seus membros temem a respeito de Jesus?

Que tipo de “leitura da realidade” eles fazem? O que dizem de Jesus? Isso que eles dizem é verdadeiro?

Como entender que as ações emancipadoras e restauradoras de Jesus provoquem tanta indignação e violência nas lideranças religiosas?

Elas podem se arrogar a autoridade de representantes de Deus? O que isso significa para as autoridades e lideranças cristãs de hoje?

quinta-feira, 26 de março de 2026

As ações é que importam

As ações de Jesus revelam o coração de Deus

1031 | Quaresma | 5ª Semana | Sexta-feira | João 10,31-42

Estamos no capítulo 10 do Evangelho de João, no qual Jesus aplica a si mesmo as sugestivas metáforas da porta e do pastor. Um dos momentos mais provocativos é quando Jesus declara que todos os que vieram antes dele são ladrões, assaltantes ou mercenários, e apenas ele é um pastor bom, o único disposto a dar a vida pelo rebanho. A reação das lideranças religiosas foi acusá-lo de estar louco.

Para Jesus, uma pessoa mostra sua personalidade e seu valor nas ações que realiza e nas relações que estabelece. E isso vale também para Deus, que mostra que é justo e bondoso libertando as pessoas mais vulneráveis. Por isso, Jesus não defende sua missão com palavras, mas com o testemunho de suas ações. São elas que mostram que ele é o enviado do Pai por causa da intensidade da compaixão. Jesus não veio revelar Deus em palavras e conceitos, mas em ações que libertam as pessoas.

E quando as lideranças religiosas do templo ameaçam apedrejá-lo, Jesus pergunta pelo motivo da rejeição e do ódio. Se ele é o que demostram suas obras, são elas que devem ser louvadas ou reprovadas, e não suas palavras. “Por quais das minhas ações mereço ser condenado?”, pergunta ele. Mas as elites religiosas fazem questão de divorciar as palavras de Jesus da compaixão que ele demonstra, e querem condená-lo por suas declarações, interpretadas no horizonte da própria ideologia.

Como defensores de uma palavra morta e de uma lei desligada da vida, eles não se interessam pela exploração praticada na sociedade e até dentro do templo, desde que os exploradores tenham o nome de Deus em seus lábios. E acabam traindo a fidelidade às Escrituras, pois silenciam quando elas dizem que todos os que agem de modo semelhante à ação de Deus são deuses (cf. Sl 82). E esquecem que a lei existe para defender a dignidade e a liberdade das vítimas.

Apelando à violência e planejando assassinar Jesus, a elite do templo demonstra que é assassina e perseguidora, e não representa a vontade e a ação de Deus, o Pai de Jesus. É por isso que Jesus sai do templo e do território que se tornara lugar de opressão. Fora do templo, do outro lado do rio Jordão, exatamente onde João viveu sua vocação profética, ele continua atraindo discípulos. E o povo vê nas ações de Jesus a realização da profecia do Batista.

 

Sugestões para a meditação

Releia e perceba o sentido das acusações levantadas contra Jesus e dos argumentos que apresenta para se defender

Será que não somos tentados pelo mesmo pecado das elites do templo: dissociar aquilo que proclamamos daquilo que fazemos?

Sendo verdade que são nossas ações e relações que revelam nosso valor, o que nossas ações estão revelando de nós e nossa Igreja?

quarta-feira, 25 de março de 2026

Maior que Abraão

Quem assimila o Evangelho vence a morte

1030 | Quaresma | 5ª Semana | Quinta-feira | João 8,51-59

Jesus havia afirmado que as lideranças do templo eram filhos da mentira, e elas reagiram de forma violenta: acusam Jesus de ser samaritano e estar possuído pelo demônio. Quando Jesus insiste que seu ensino ilumina e conduz à vida e à liberdade, que quem o segue não será envolvido pelas trevas da morte, esse “pessoal do templo” pensa ter encontrado uma prova da sua loucura.

Eles se baseiam na experiência universal de que a morte colhe todos os homens e mulheres, inclusive Abraão e os profetas. Mas o fato é que eles não conhecem nem reconhecem senão a vida mortal e a morte amarga. Eles não conseguem entender que a vida pode ser vazia e tediosa, ou intensa e indestrutível. A simples possibilidade de uma vida terna e eterna lhes causa desestabilização.

A discussão entre Jesus e o pessoal do templo é permeada pela ironia, tanto da parte deles como de Jesus. Isso aparece tanto nas perguntas como nas respostas de ambos os lados: “Quem pretendes ser?  Acaso és maior que nosso pai Abraão?” “Não tens 50 anos e vistes Abraão?” Mas a ironia não esquece nem se afasta do conteúdo em discussão: Quem de fato conhece a Deus e realiza suas ações?

Jesus não recorre a títulos para falar de si mesmo. Ele conhece a Deus como Pai, e demonstra que é seu Filho e seu Enviado porque participa da ação de Deus em defesa do ser humano. Tomando distância até do próprio Abraão, e afirmando que ele é pai “de vocês” (e não “nosso” pai), Jesus escapa das apertadas amarras de raça e de nação. Deus, enquanto Pai, está para além do “cercadinho” ou da “bolha” do gênero, raça e nação, e estende nossos laços de fraternidade a toda a humanidade.

Por fim, Jesus diz que Abraão exultou e se alegrou ao visualizar “o meu dia”. Não é Jesus que viu Abraão, mas Abraão que previu em Jesus o Enviado de Deus e o início dos tempos messiânicos. Quando Jesus afirma “antes que Abraão existisse, eu sou”, a taça da raiva do “pessoal do templo" transborda: eles pegam em pedras para executar Jesus, comprovando que são assassinos e que o templo deixou de ser casa de Deus e se tornou lugar de comércio, violência e morte.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto atentamente, participe do debate, interaja com os protagonistas, perceba o que está em jogo

Qual é a imagem que fazemos de Deus, e em que medida essa imagem nos emancipa e nos torna solidários e libertadores?

Nossa imagem de Deus está preso a ideologias como o machismo, o nacionalismo, o patriarcalismo, o liberalismo?

Em que medida, para defender nossa ideia de Deus e nossa religião, somos capazes de usar de violência contra os outros?

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma Boa Notícia

Alegra-te! Encontraste graça diante de Deus!

1029 | Festa da Anunciação | 25 de Março | Lucas 1,26-38

Hoje a Igreja católica nos propõe a solenidade da anunciação do nascimento de Jesus, celebrada exatamente nove meses antes do Natal. E a Igreja indica o texto do evangelho de Lucas para iluminar esta solenidade cristológica. Com os discípulos e discípulas de Jesus proclamamos que Maria é uma mulher cheia de graça. Ela é agraciada pela presença de Jesus, que compartilha conosco.

Na cena da anunciação, o papel central fica para o Anjo Gabriel. O clima geral é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão que significa “Esteja bem! Tudo de bom!” E diz que o “charme” dela encantou o próprio Deus. Mas isso terá consequências, pois Maria terá que mudar os planos que traçara.

É claro que o anjo Gabriel não está se referindo apenas à eventual e imaginável formosura física de Maria de Nazaré, mas à sua humanidade, original e sem pecado, como a criação tal como foi sonhada e imaginada por Deus. Ela é a imagem da pessoa humana livre, criativa e acolhedora, na qual brilha a imagem de Deus.

Sendo acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é, de modo algum, uma mulher passiva e sem personalidade. Antes, mostra-se uma mulher atenta e reflexiva. Ela pede explicações, interroga o Anjo, quer compreender. Graças aos seus teimosos questionamentos, Maria descobrirá a misteriosa ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá abrirá o caminho de uma para uma nova terra, na qual floresce o cuidado, a liberdade e a fraternidade.

E o próprio anjo antecipa alguns traços do filho que vem anunciar: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, será santo por sua ação profética, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi, o parceiro dos pobres. No nome que lhe será dado, está escondida sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, imaginando-se presente e ativo na anunciação, naquele lugar perdido e obscuro da Galileia

Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado que nascerá de Maria

Tome como dirigidas a você as palavras do Mensageiro de Deus: “Alegra-te, cheio de graça! O Senhor está contigo!

Procure inserir seu projeto de vida no projeto que Deus tem para a humanidade e para você nesta fase da sua vida

segunda-feira, 23 de março de 2026

A cruz nos atrai

O amor crucificado continua nos atraindo

1028 | Quaresma | 5ª Semana | Terça-feira | João 8,21-30

Depois de fazer a defesa pública da mulher prestes a ser apedrejada pelos defensores da lei, e depois de questionar insistentemente os seus acusadores, o diálogo de Jesus com os fariseus vai ficando difícil e vira confronto aberto. Mais ainda depois de Jesus se apresentar como luz do mundo, aquela que vence as trevas e orienta os homens e mulheres de boa vontade. Ele quer tomar o lugar da Lei!

No texto que refletimos hoje, Jesus fala de um modo enigmático: diz que vai partir, que os fariseus não poderão acompanhá-lo, que eles vão procurá-lo mas não vão encontrá-lo. E faz uma clara advertência: os fariseus não acreditam nele, e, por isso, morrerão no pecado. Na verdade, segundo o evangelho de João, os fariseus e demais lideranças religiosas pertencem ao mundo, têm interesses rasteiros, orientam-se por um deus feito à imagem e semelhança deles.

A má vontade que os impede de compreender Jesus e aderir a ele nasce de um preconceito teológico. Para eles, Deus é aquele que submete e limita a liberdade e a autonomia das pessoas. Fazendo o que faz e ensinando o que ensina, Jesus estaria usurpando o poder de Deus, e isso eles não conseguem tolerar. Eles não percebem nenhuma relação entre Jesus e o deus deles. Mas, para Jesus, Deus é sempre a favor do ser humano, e o prioriza acima das leis.

São duas cosmovisões distintas e contrastantes. Estas lideranças jamais conseguirão aceitar um Messias despojado de poder e crucificado por amor, a vida como dom entregue livremente. Por isso, quando Jesus fala em “partir”, eles ironizam, perguntando se ele vai suicidar-se. Não há preocupação por Jesus. Mas Jesus mostra-se livre e altivo; não se acovarda, pois sabe que não está sozinho.

Se, por um lado, os fariseus se fecham cada vez mais e aceitam cada vez menos Jesus e seu ensino, por outro, acolhendo o testemunho de liberdade, ousadia e generosidade dele, muitos acreditam e aderem à sua proposta. Estes entram na lógica “de cima”, dos valores humanos universais, e abandonaram a lógica dos interesses “baixos”. Para estes, Jesus fala com sabedoria e ensina com amor.

 

Sugestões para a meditação

Nesta última semana da quaresma, o apelo a mudar de olhar e de atitude se torna cada vez mais contundente e urgente

Ao aproximar-se do desfecho da sua vida, decretado pelas próprias autoridades, Jesus fala claramente de “entrega” e cruz

Que imagem de Deus nos orienta e está presente em nossa catequese, nossos cânticos e nossa espiritualidade?

Será que estamos sendo capazes de refazer e corrigir nossa imagem de Deus a partir de Jesus crucificado por amor?

domingo, 22 de março de 2026

Jesus e a nossa ressurreição

Você acredita em vida após o nascimento?

No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria. Este texto não fala propriamente sobre a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a amizade dele conosco.

Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e germina.

Sei que a ressurreição é vista como algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos pelo “moneyteísmo”.

A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e Nilo. Nilo perguntou se Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento. Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma preparação para o que seremos mais tarde...”

Em tom irônico, Nilo perguntou se o irmão saberia dizer como seria a outra vida, e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer muitas outras pessoas...”

Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada numa escuridão sem sentido e sem fim”.

Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo...”