terça-feira, 13 de outubro de 2026

Atenção e vigilância

Portas abertas e palavras que confirmam

1234 | Tempo Comum | 28ª Semana | Quarta | Lucas 11,47-54

Jesus adverte e acusa os fariseus na própria casa de um deles! No texto que meditamos ontem, Jesus fazia três acusações contra eles: a obsessão pelos detalhes da lei e a consequente relativização da prática do amor e da justiça; a busca desmedida de evidência e honra; a falsidade, ou a incoerência entre o que ensinam e o que fazem. Hoje, Jesus prossegue sua denúncia, dirigindo-se prioritariamente e ao mesmo tempo aos fariseus e aos mestres da lei.

E a quarta acusação de Jesus, que faz parte do texto de hoje, é de que, mesmo aparentemente honrando e elogiando os profetas do passado, os fariseus e doutores da lei são corresponsáveis pelo assassinato da maioria deles, obra executada pelas mãos de seus antepassados. Eles demonstram isso se opondo e armando ciladas a Jesus, e, no futuro, farão o mesmo contra seus discípulos missionários que Jesus enviará para continuar sua missão profética e messiânica.

A quinta e última desta série de acusações dirigidas contra os fariseus e mestres da lei é a de terem se apossado da lei, do caminho que conduz à salvação e à plena humanização, interditando-o à maioria das pessoas. Eles pensam que sabem tudo e, por causa da incoerência intrínseca e incurável, eles mesmos não entram no Reino de Deus e, ao mesmo tempo, impedem que a maioria do povo o faça. Eles se apossam das chaves do Reino de Deus e fecham a porta a eles mesmos e a todos os demais.

Jesus adverte com veemência que Deus não deixará as coisas por isso mesmo. As lideranças religiosas deverão prestar contas de tudo isso, de todas as violências cometidas, de toda palavra mal dita, de todo ensinamento incoerente, de toda omissão em questões relevantes, de todo desvio ao qual induzem o povo. Como dirá Jesus noutro contexto: a quem muito foi confiado, muito será exigido, e esse é o caso deles, mas também o nosso caso!

Como discípulos missionários de Jesus Cristo, não nos enganemos pensando que Jesus denuncia e critica apenas os fariseus e doutores da lei. A advertência vale claramente para todos aqueles que são chamados, estabelecidos e enviados em seu nome, sejam catequistas ou ministros, ordenados ou não, leigos ou consagrados. A incoerência, a hipocrisia e o abuso de autoridade costuma rondar a todos, e mais fortemente quem está à frente das comunidades, organizações e Igrejas.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua a cena na casa do fariseu, participe dela, escute cada acusação que Jesus dirige contra fariseus e mestres da lei

Será que nós não somos parecidos com eles? Onde nossas violências, incoerências e hipocrisia se mostram mais claramente?

Também a nós, Deus pede contas daquilo que estamos fazendo com o tesouro preciosos e libertador do Reino de Deus

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

O sabão da esmola

A compaixão e a misericórdia purificam tudo

1233 | Tempo Comum | 28ª Semana | Terça | Lucas 11,37-41

No contexto do duro embate que trava em Jerusalém com as elites defensoras do judaísmo, Jesus as acusa de ser uma “geração perversa”. E contrapõe a elas dois fatos relatados pelo Antigo Testamente: o povo pagão de Nínive, que se converte ouvindo a pregação de Jonas; a rainha pagã que busca Salomão e reconhece sua sabedoria. E Jesus é mais que Jonas, e mais que Salomão.

Eis que, neste contexto, um fariseu convida Jesus para um jantar em sua casa, provavelmente não por amizade, mas por curiosidade e expectativa de poder confirmar seus preconceitos e comprovar pessoalmente as “heresias” de Jesus. Não esqueçamos que, ao apresentar estes fatos, Lucas tem presentes as polêmicas vividas pelas comunidades cristãs do oriente médio, no final do século I da era cristã.

A liberdade de Jesus espanta o fariseu, e, por sua vez, Jesus fica impressionado com a hipocrisia dele. Então, na própria casa do anfitrião, Jesus percebe e denuncia que, por trás da aparência de piedade e de correção, os fariseus escondem uma personalidade geralmente corrompida e um caráter dominado por relações violentas. Eles defendem a pureza ritual mas esquecem todo o resto.

Jesus propõe ao fariseu e seus comparsas, e especialmente aos seus discípulos de ontem e de hoje, uma nova interpretação da pureza: ela não vem dos ritos e de coisas externas, mas da ação, da misericórdia; não depende do rito de lavar objetos ou de evitar contatos. Jesus passa longe de uma religião e um estilo de vida centrado nas aparências. Para ele, a ênfase nas aparências sociais não passa de hipocrisia.

Nas sociedades rurais antigas, a esmola era partilha solidária, de justiça, sinal de misericórdia, uma importante prática de correção ou limitação dos efeitos nocivos da desigualdade. Para Jesus, é nessa prática generosa e solidária que se distingue o essencial do secundário. Fazendo o contrário, fechando-se em si mesmas e apegando-se aos seus poucos ou muitos bens, as pessoas acabam exercendo um poder que oprime, e vivendo uma religião superficial, mesquinha e hipócrita. Jesus é exemplo e modelo de uma vida vivida como compaixão e misericórdia.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua mentalmente a cena, participe dela, entre na casa do fariseu, veja como ele observa Jesus e como Jesus observa ele

Acolha palavra por palavra as duras palavras que Jesus dirige ao fariseu, e a todas as pessoas que vivem uma fé de fachada

Que aspectos da nossa prática cristã, como fiéis e como comunidade, Jesus pede que sejam mudados?

Quais são os aspectos secundários do Evangelho que nossas Igrejas estão colocando no lugar daquilo que é essencial?

domingo, 11 de outubro de 2026

Dai-nos a bênção ó Mãe querida!

Aparecida é educadora e defensora dos pobres

1232 | Solenidade de Nossa Senhora Aparecida | João 2,1-11

O casamento narrado por João é um entre as tantas bodas que aconteciam no tempo de Jesus, e Caná é um lugar insignificante. Mas Jesus, seus discípulos, seus parentes e sua mãe estavam lá, e isso confere importância à cena e ao lugar. Tudo vai como o previsto até que a mãe de Jesus percebe o que ninguém percebia, e avisa o filho. Seu olhar é justo e adequado, e não manifesta crítica aos organizadores da festa.

Notar que o vinho acabou significa perceber a esterilidade da velha aliança e o esgotamento da força salvadora do templo. A crise entre o povo e o Deus do templo chegara ao seu ápice. Na observação de Maria ressoa a voz desolada de um povo inteiro que percebe que a alegria da aliança está se exaurindo e as lideranças religiosas do judaísmo não se dão conta. Respondendo à mãe com o substantivo “mulher”, Jesus parece não dar importância pública aos laços de parentesco.

Maria é uma mulher totalmente seduzida pelo mistério de Deus e pela novidade revolucionária do seu Reino de Deus. A ele e à sua vontade havia dado seu consentimento quando da anunciação do anjo Gabriel. Ela nos ensina que, para ser discípulo de Jesus, é necessário aderir a ele, aprender com ele, e fazer o que ele pede. É preciso passar da nossa vontade limitada e mesquinha à vontade de Deus, ampla e inclusiva, e permitir que nossa vida seja radicalmente transformada.

Atendendo à sugestão da mãe, Jesus aponta para seis jarras de pedra (imagem que nos remete à Lei), mas ele mesmo aparentemente não faz nada. Os serventes (ministros, servidores) que fazem sem demora e sem questionamentos o que Jesus pede, e a água acaba misteriosamente transformada em vinho. Aqui, Jesus age como o verdadeiro noivo (que pouco aparece na cena), e é a humanidade inteira que se beneficia das antigas promessas. Em Jesus, Deus faz uma aliança nova e indestrutível com a humanidade e comunica a ela a vida abundante.

O papel pedagógico e catequético de Maria que a cena sublinha é confirmado em todas as suas manifestações reconhecidas pela Igreja. Assumindo a pele negra dos africanos escravizados no Brasil de ontem, e dos excluídos do Brasil de hoje, Maria proclama de modo inequívoco a dignidade deles. Hoje ela convoca o povo brasileiro a se unir em torno da defesa da soberania e dos setores marginalizados ou ameaçados por uma proposta política que se esmera em caçar direitos e assegurar privilégios.

 

Sugestões para a meditação

O que Maria disse silenciosamente ao Brasil que escravizava os negros quando encontraram sua imagem de cor negra?

O que Maria está dizendo hoje, quando a indiferença, intolerância e a violência contra negros, indígenas, migrantes e pobres reaparecem ameaçadoras?

Daquilo que Jesus fez e pede que façamos, o que é indispensável para resgatar a dignidade dos oprimidos e não votar contra os pobres e contra nós mesmos?

sábado, 10 de outubro de 2026

O convite está feito

Deus convida você para a festa dos pequenos

1231 | Tempo Comum | 28ª Semana | Domingo | Mateus 22,1-14

O calendário litúrgico-pastoral omite quase dois capítulos do evangelho de Mateus, e nos propõe para hoje o início do capítulo 22. Esta parábola faz parte do quinto bloco narrativo do evangelista. Jesus percorreu um longo caminho e chegou a Jerusalém. Ali ele travará um duro confronto com a instituição do templo e com seus defensores. Este confronto começa com sua entrada no templo com chicote na mão, e se prolonga em várias parábolas. 

A parábola dos convidados para a festa de casamento é um confronto aberto de Jesus com os fariseus e os mestres da lei, que representam a elite religiosa do judaísmo. Os protagonistas são um rei que convida seus amigos para a festa de casamento do filho (uma alusão a Jesus). Comer e festejar significa participar da vontade de Deus, e evoca as refeições de Jesus com as pessoas excluídas. O filho celebra sua aliança com a humanidade, mas nem todos aceitam esta decisão e rejeitam o convite.

Os convidados preferenciais para a festa declinam do convite reiterado do rei, e tratam com violência os mensageiros que ele envia. Na verdade, rejeitam tanto a autoridade de Jesus como enviado e mensageiro do Pai como a participação no dinamismo do Reino de Deus, no qual há lugar para todos. Mesmo vendo seu convite rejeitado e seus enviados tratados com violência, o rei não reage de modo violento, nem pune aqueles que não o reconhecem.

Então, o rei deixa de convidar os que vivem nos templos e nos corredores dos palácios e das cúrias e se dirige às pessoas e grupos que vivem nas encruzilhadas (lugares de mendicância, onde jazem as pessoas excluídas da cidadania), abrindo a porta do seu Reino a todos, sem exclusão: homens e mulheres, judeus e pagãos, doentes e pecadores, adultos e crianças, bons e maus. É nisso que consiste a alegria do rei, e é nisso que ele se parece com Deus Pai.

A parábola termina fazendo referência a alguém que aceitou o convite, mas não se apresentou à festa com as vestes adequadas e é punido duramente. Trata-se de um sujeito que quer ser discípulo de Jesus sem assumir um novo jeito de viver, e não de alguém que tenha alguma culpa moral. Os últimos da escala social e aqueles que se dispõem a seguir a Jesus precisam assumir seus valores e suas práticas: dar gratuitamente aquilo que de graça receberam.

 

Sugestões para a meditação

Como você vem respondendo a este convite para participar da festa da vida que acolhe quem sempre foi relegado à margem?

Você acolhe esse convite com alegria e compromisso, ou “com dor de cotovelo”, como se você e sua classe fossem preteridos?

E você está usando a roupa adequada para uma festa de núpcias (prática da justiça) e não se preocupa com a coerência?

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A verdadeira felicidade

A verdadeira felicidade está em seguir Jesus

1230 | Tempo Comum | 27ª Semana | Sábado | Lucas 11,27-28

Na cena anterior, Jesus apresentara suas credenciais como enviado do Pai e agente autorizado do reino de Deus. No fim, advertira os judeus que se diziam libertos e salvos pela lei e as pessoas que haviam sido libertadas por ele do demônio. Não basta ser curado, sentir-se livre das coações e imposições exteriores! É preciso ir além, entrar no dinamismo do Reino de Deus, encetar uma nova caminhada e perseverar nela: ser livre para amar e servir.

Ouvindo o ensino de Jesus aos discípulos e o debate dele com seus opositores, uma mulher anônima expressa o sentimento do povo diante da pregação e das ações de Jesus. Exultando e em alta voz ela proclama feliz a mulher que gerou e amamentou Jesus. É um eco da exultação de Isabel ao receber a mãe de Jesus em sua casa. Como mulher, ela sabe daquilo que uma mãe precisa para gerar e educar um filho assim.

Exaltando a mãe de Jesus, esta mulher, e o povo que ela representa, quer exaltar o seu filho, Jesus de Nazaré. Mas Jesus surpreende seus interlocutores alterando o destinatário da bem-aventurança. Para ele, a felicidade não está em gerar e amamentar o Verbo de Deus, mas em ser ouvinte, guardião e praticante atento e perseverante da Palavra de Deus. A felicidade consiste em ser filho e não mãe da Boa Notícia! A verdadeira felicidade é a do discípulo do Reino de Deus.

Para Jesus, grande e feliz é quem se torna ouvinte e discípulo fiel, guardião atento e praticante do Evangelho do Reino de Deus. Assim, a atitude de escuta e serviço à Palavra que vemos em Maria representa o nascimento de uma família diferente, gerada no ventre fecundo da misericórdia vivida como prática cotidiana. A relação mestre-discípulo é mais importante que a relação mãe-filho ou pai-filho. A fraternidade tem prioridade sobre a maternidade e a paternidade. Os vínculos mais relevantes e virtuosos são os vínculos de afeto e de compromisso, e não os de sangue.

Conforme Lucas, guardar a Palavra significa perseverar no Evangelho do Reino de Deus e colocá-lo em prática. E isso fica claro na parábola da semente (8,15), na apresentação da verdadeira família de Jesus (8,21) e na parábola da casa construída sobre o firme alicerce (6,46-49). “Quem tem ouvidos, ouça!” Faz parte da Boa Notícia do Reino de Deus o anúncio incansável, o testemunho coerente e o serviço despojado que caracterizam a vida do missionário.

 

Sugestões para a meditação

Releia lentamente estes breves versículos, palavra por palavra, no horizonte de todas as ações de Jesus

Acolha estas palavras de Jesus como dirigidas a você e à sua comunidade, e permita que elas ecoem com toda a carga de significado que elas carregam

Em que medida somos tentados a avaliar as pessoas pela origem, pelo sobrenome, pelo papel social ou pelo poder que tem na Igreja e na sociedade?

Quase ninguém tem tempo

O CONVITE DE DEUS

Ao que parece, a parábola do banquete foi muito popular entre as primeiras gerações cristãs, e ficou registada em Lucas, Mateus e até no evangelho apócrifo de Tomás. As versões são tão diferentes e as interpretações tão diversas que só podemos aproximar-nos dos elementos essenciais do relato original.

Deus está preparando uma festa para todos os seus filhos, pois quer ver todos sentados, junto a Ele, à volta da mesma mesa, desfrutando para sempre de uma vida plena. Esta foi certamente uma das imagens mais queridas por Jesus para sugerir o fim último da história humana. Não se contentava só com dizê-lo com palavras. Sentava-se à mesa com todos, e comia até com pecadores e indesejáveis, pois queria que todos pudessem ver, de forma concreta, algo do que Deus desejava realizar.

Por isso, Jesus entendeu a sua vida como um grande convite em nome de Deus. Não impunha nada, não pressionava ninguém. Anunciava a boa notícia de Deus, despertava a confiança no Pai, tirava os medos, acendia a alegria e o desejo de Deus. A todos devia chegar o seu convite, sobretudo aos mais necessitados de esperança.

Jesus era realista. Sabia que o convite podia ser rejeitado. Na versão de Mateus, descrevem-se várias reações. Uns rejeitam conscientemente: «Não quiseram ir». Outros respondem com indiferença: «Não fizeram caso». Importavam-se mais com os seus campos e negócios. Houve quem reagisse de forma hostil contra os servos.

São muitos os que já não escutam qualquer apelo de Deus. Basta-lhes responder por si mesmos diante de si mesmos. Sem talvez se darem conta, vivem uma existência solitária, encerrados num monólogo perpétuo consigo próprios. O risco é sempre o mesmo: viver cada dia mais surdos a qualquer apelo que possa transformar radicalmente a sua vida.

Talvez uma das tarefas mais importantes da Igreja hoje seja criar espaços e facilitar experiências onde as pessoas possam escutar de forma simples, transparente e jubilosa o convite de Deus proclamado no evangelho de Jesus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

O voto dos brasileiros

Venceu a astúcia interesseira do machado

O Brasil se define como uma república democrática. República (“coisa pública”) é uma concepção de Estado baseado na igualdade de todos perante a lei, na alternância do exercício de governo, na independência dos poderes, na soberania do povo e na busca do bem comum. Democracia (“poder do povo”) é um sistema de governo no qual o poder político pertence ao povo, que o exerce diretamente ou mediante representantes que elege livremente.

No último domingo, o Brasil foi às urnas para escolher os cidadãos e cidadãs aos quais vai delegar seu direito de elaborar e aprovar leis e executar políticas que atendam seus interesses e assegurem a plena cidadania política e social a todos os cidadãos. Tanto os meios de comunicação social como os próprios agentes políticos e as autoridades constituídas gostam de proclamar em alto e bom tom que esta foi uma grande celebração da democracia.

Longe de mim negar o valor do voto universal e das eleições periódicas, transparentes e livres. O voto do empresário tem o mesmo peso que a escolha do operário. A vontade do militante vale tanto quando o voto de protesto do indiferente. Em tese, estamos livres dos sistemas autocráticos e monocráticos, pois a independência e a harmonia entre os poderes estão asseguradas. Sim, as eleições são uma grande e bela festa da democracia!

Mas, para que seja real e não uma mera formalidade, a democracia tem alguns pressupostos. E o primeiro elemento que o efetivo exercício da democracia supõe é a correta compreensão daquilo que chamamos povo e da sua vontade objetiva. Povo não é um conceito fluido e indiferenciado, mas uma maioria qualificada que se diferencia e opõe àquilo que chamamos elites (econômica, cultural, financeira, política). O poder emana dele, e está a serviço dele.

Quanto à vontade objetiva e legítima do povo, não podemos presumir ingenuamente que seja aquilo que se revela no resultado das urnas. Uma coisa é a vontade objetiva, que coincide com suas necessidades e direitos fundamentais (à vida, à liberdade, ao trabalho, à saúde, à educação, à segurança, ao bem-estar, etc.); outra é a vontade subjetiva, que sofre influência dos medos (reais ou produzidos), das ambições e das manipulações da cultura e da mídia.

O resultado das urnas reflete esta vontade manipulada pela grande mídia e pelas big techs. Mais de 90% dos brasileiros deploram a corrupção, mas os envolvidos no caso Master foram eleitos! 80% querem o fim das bets e 70% querem o fim da escala 6x1, mas os candidatos que as defendem foram os eleitos! Os trabalhadores e aposentados lutam por aumento de salários e pensões, mas elegeram políticos que são contra. As árvores da floresta tombam uma a uma, mas o machado as convenceu que é uma delas por ter o cabo de madeira...

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A ação é reveladora

É para sermos livres que Jesus nos libertou

1229 | Tempo Comum | 27ª Semana | Sexta | Lucas 11,15-26

O foco deste trecho do evangelho, que está inserido na caminhada decisiva de Jesus a Jerusalém, não é a discussão sobre o exorcismo. O texto sequer descreve a expulsão de demônios. Na verdade, o debate gira em torno da identidade de Jesus e em nome de quem – ou com o dedo de quem – ele combate elimina as forças do mal (simbolizadas no demônio) e inaugura um tempo de justiça e paz.

Os adversários de Jesus propriamente não contestam sua ação libertadora, mas dizem que aquilo que ele faz não passa de “magia negra” ou de conluio com Satanás, e pedem-lhe um sinal espetacular que seja capaz de convencê-los de que ele vem e age efetivamente em nome de Deus. Para Jesus, as ações que libertam e reconstroem pessoas dominadas e oprimidas são sua credencial, são eloquentes sinais do “dedo de Deus”, da irrupção do seu Reino de Deus.

Diante de interlocutores divididos em dois grupos – o povo, que fica maravilhado com o que faz Jesus, e os líderes do judaísmo que o acusam de agir como mediador do diabo – Jesus desenvolve sua autodefesa. Ele afirma que são exatamente as suas ações emancipadoras que o credenciam, e convoca os próprios exorcistas judeus a julgar aqueles que questionam suas ações. Jesus não fez aliança com Satanás, mas é mais forte que ele, e o derrotou definitivamente.

Para ilustrar ou exemplificar o que afirma, Jesus recorre a duas pequenas parábolas: um povo (um reino ou uma família) internamente dividido, e um chefe doméstico dominado e expulso de sua casa por alguém mais forte que ele. O homem mais forte, que vence o senhor da dominação, é Jesus. Ele libertou a família humana do domínio do mal. Diante dele não há neutralidade: ou estamos com ele, ou agimos contra ele. Jesus não é agente ou executivo de satanás, pois se assim fosse, Satanás estaria agindo contra si mesmo e cavando sua própria ruína.

Por fim, Jesus adverte tanto os judeus que se dizem libertos e salvos pela lei como as pessoas que foram libertadas por ele mesmo do demônio. Ele sublinha que não basta ser curado, é preciso ir além, entrar no dinamismo do Reino de Deus e perseverar nele. Caso contrário, quem se considera uma pessoa de “consciência limpa” ou totalmente libertada em Jesus Cristo, pode ser vítima dos próprios caprichos e interesses, e ver-se dominada por desejos contraditórios.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, observando os detalhes e nuances da discussão sobre as credenciais messiânicas de Jesus

Você é capaz de ver nas ações de Jesus, mesmo pequenas, os sinais do Reino de Deus, ou espera apenas grandes milagres?

O que você faz para evitar que sua vida, liberta e limpa por Jesus e seu Evangelho, seja de novo ocupada pelo egoísmo?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Pedir com confiança

Quem confia no Senhor, nunca fica ‘na mão’

1228 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quinta | Lucas 11,5-13

Nos versículos anteriores, Jesus ensina aos discípulos a oração do Pai-Nosso, respondendo ao pedido deles mesmos. Mais que propor um texto de oração, Jesus abre aos discípulos um horizonte, e os convida à busca da vontade e do Reino de Deus. Ele nos ensina a confiança absoluta no Pai e Deus do Reino e na reconciliação fraterna. Não se trata de pedir coisas, mas de contar com uma presença amorosa.

O trecho que meditamos hoje reforça a atitude de proximidade, amizade e confiança em Deus como base indispensável da oração cristã. Mais que uma obrigação, a oração é um “espaço pedagógico” que nos ajuda a crescer no conhecimento e na fidelidade à vontade de Deus. Exercitando a oração, o cristão capta e experimenta a bondade e a benevolência de Deus. A oração é abertura ao Reino de Deus, e não um modo de convencer Deus a fazer a nossa vontade.

O texto de hoje é uma espécie de comentário à oração ensinada por Jesus, e sublinha que oração é essencialmente uma relação confiante e amistosa de Jesus e dos seus discípulos e discípulas com Deus, que é Pai. Esta relação amorosa e confiante é ilustrada por Jesus mediante duas comparações muito concretas e conhecidas: a relação de ajuda entre vizinhos; a relação de confiança entre pai e filho.

Para os povos do Oriente, a hospitalidade é sagrada, é um dever básico das relações humanas, tanto entre conhecidos como em relação a estrangeiros e desconhecidos. É por isso que, mesmo à noite, o vizinho socorre seu amigo que bate à sua porta: para que ele não falte em relação a esse dever sagrado para com a visita inesperada. Assim é Deus: ele não deixa de atender as necessidades de quem se dirige a ele, ele não deixa um amigo “na mão”, especialmente quando está em jogo a solidariedade.

A segunda metáfora vem do contexto da relação entre pais e filhos. Um pai, mesmo que não seja um modelo de bondade, socorre os filhos em suas necessidades, e faz de tudo para que não lhes falte o necessário, mesmo que nem sempre lhes dê o que desejam. Ninguém, muito menos um pai ou uma mãe, dá cobra ou escorpião quando o filho ou a filha pede peixe ou ovo! Assim, Deus não nega o Espírito Santo àqueles que lhe pedem. Daí o estímulo a pedir com confiança, mas também buscar, lutar incessantemente, e não por questões de pequena monta: buscar o Reino de Deus, a santificação do nome de Deus, lideranças comprometidas com o bem dos pobres.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, ligando-o com a oração de Jesus e prestando atenção às duas comparações

Qual é sua atitude ao rezar: desejo de dobrar Deus à sua vontade, fé mecânica e mágica num milagre, ou confiança e abertura ao Reino de Deus?

O que poderíamos fazer para ajudar as pessoas e comunidades cristãs a rezar abrindo-se com confiança a Deus e sua vontade?

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Nossa Senhora do Rosário

Maria é modelo de serviço a Deus e aos irmãos

1227 | Memória de Nossa S. do Rosário | Lucas 1,26-38

A festa de Nossa Senhora do Rosário fui instituída em 1571, pelo Papa Pio V, para celebrar a vitória romana sobre o exército turco, ocorrida no dia 7 de outubro daquele ano. Pio V foi também o responsável pela promoção do rosário, como forma de piedade. Esse exercício devocional mariano, até então conhecido em apenas alguns pequenos círculos religiosos, foi estendido e recomendado à Igreja universal em 1716.

No texto de Lucas escolhido para a celebração de hoje, o papel central é do Anjo Gabriel, e o clima em toda a narração é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão típica para dizer “Esteja bem! Tudo de bom para você!” O anjo Gabriel diz que o “charme” (graça) dela encantou o próprio Deus. É claro que o mensageiro de Deus não está se referindo à formosura física, nem à sua possível perfeição moral de Maria, mas à sua humanidade, original e sem pecado, como a criação saída das mãos de Deus.

Maria se mostra acolhedora, disponível e confiante em Deus e à sua vontade. E isso significa que o pecado (egoísmo, ostentação, fechamento, indiferença) não tem lugar em suas decisões, ações e projetos. Ela é a imagem da humanidade como Deus a quis, da pessoa humana madura na qual brilha a imagem de Deus, segundo a qual foi criada. A virgindade de Maria, tão preciosa para a Igreja Católica, não aponta para uma espécie de supremacia moral, nem para algo como a meritocracia, mas para sua radical pobreza, impotência e abertura ao projeto de Deus.

É verdade que Maria é uma pessoa acolhedora, disponível e serviçal diante da Palavra de Deus, mas isso não significa que ela seja uma mulher passiva, sem personalidade e sem iniciativa. Antes, a cena narrada por Lucas nos mostra uma mulher atenta e reflexiva. Ela pede explicações, interroga o Anjo, quer compreender. Corajosa, Maria vai descobrindo lentamente a misteriosa ação que Deus realiza nela e através dela dando beleza, prioridade e grandeza aos humildes e marginalizados. Quem ama torna-se criativo, toma iniciativas, não pode ser indiferente.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem/sombra que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo do povo hebreu, e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. Maria prefigura o novo povo de Deus, como o outro, vindo da periferia.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, imaginando-se presente e ativo na anunciação, num lugar perdido e obscuro da Galileia

Tome como dirigidas a você as palavras do Anjo: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

Acolha estas palavras como o horizonte e o fundamento da sua vocação e missão na Igreja e no mundo