terça-feira, 17 de março de 2026

O Filho e o Pai

A missão de Jesus atualiza a ação do Pai

1022 | Quaresma | 4ª Semana | Quarta-feira | João 5,17-30

A cena do evangelho de ontem terminava com um paralítico curado e caminhando livre, carregando sua cama em pleno dia de sábado, e com as autoridades decidindo prender e condenar Jesus à morte. Eles estavam interessados apenas em defender o aparato legal e religioso, sem a mínima empatia com o povo cansado e abatido.

No texto de hoje, que segue a cena de ontem, Jesus enfrenta as acusações levantadas pelas autoridades do templo. Para Jesus, o sexto dia da criação ainda não terminou, e Deus não descansa enquanto suas criaturas não chegam à vida plena. Jesus ousa chamar Deus de pai, sublinhando que é ele a origem e o fundamento da sua ação, que tem com ele uma relação que os escribas nem imaginam.

A reação do templo e suas lideranças se torna cada vez mais violenta. Jesus não deixa por menos, e repete, de diversas formas, que o Pai é a base, o fundamento e a origem do seu ser e das suas ações. Apelando à experiência comum, Jesus diz que o filho só faz o que aprende do pai; que quem honra o filho honra, na verdade, seu pai; que ele dá realismo à profecia de Ezequiel, que faz os ossos secos recobrarem vida.

Jesus se apresenta como o único mediador da vontade e da ação de Deus. Assim, desmascara a pretensão dos doutores da lei e dos sacerdotes, e solapa a autoridade deles junto ao povo. O que eles fazem e impõem não tem nada a ver com a vontade de Deus. O que Jesus faz, na emancipação do mendigo à beira da piscina e em diversas outras ações libertadoras, pode ser comparada à ressurreição dos mortos.

Por fim, Jesus acusa as autoridades de julgar os outros a partir dos interesses deles mesmos e do templo. Enquanto isso, o julgamento de Jesus (intervenção libertadora em favor das pessoas vulneráveis) não é expressão da sua vontade e dos seus interesses, mas da vontade de Deus, seu e nosso pai. Amanhã, voltaremos à lição que Jesus passa às autoridades do templo. Por hoje, fiquemos com o alerta de que a conversão ao Evangelho é mais difícil que a simples mudança dos costumes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus e a raiva que ele suscita nas autoridades religiosas

Deixe-se levar, envolver e iluminar pela metáfora da relação entre pai/mãe e filho/filha, que Jesus usa para justificar suas ações

Você percebe na Igreja e na sociedade de hoje pessoas que estão mais interessadas na defesa das leis que na defesa das pessoas?

Como podemos pôr hoje em prática a empatia, a compaixão e o compromisso de Jesus com a defesa das pessoas vulneráveis?

Porque muitos de nós ainda acham que agrada mais a Deus a defesa das leis e dos costumes que a defesa dos direitos humanos?


segunda-feira, 16 de março de 2026

Cura e emancipação

O encontro vivo com Jesus liberta e emancipa

1021 | Quaresma | 4ª Semana | Terça-feira | João 5,1-16

Segundo o evangelho de João, esta é a segunda viagem de Jesus a Jerusalém, mas desta vez não se diz se ele foi ao templo. João também não diz qual era a festa que se celebrava naquele momento. Mas isso não importa, porque Jesus relativiza tanto o templo como as festas religiosas. O templo não é mais o lugar da memória e da fé.

A piscina conhecida como “casa da misericórdia” (Betesda) não promove misericórdia nenhuma. Em torno dela temos um retrato da multidão de gente excluída que se amontoa em Jerusalém. Somente os “puros”, os “bons” podem entrar no templo, e é o próprio templo que impõe a lei segundo a qual somente “os primeiros” seriam beneficiados com a esperada cura.

O homem paralisado há trinta e oito anos é figura da maioria do povo: excluídos sem piedade do templo e das suas festas. No templo vigora a competição que exclui e a perseguição que mata, como comprovará Jesus. Assim como o templo e suas festas não servem para nada, também a água da piscina, como a água do poço de Jacó, só consolidam e aumentam a discriminação.

Jesus visita Jerusalém sem chamar a atenção, e nem sequer se apresenta à multidão excluída e ao homem paralisado que esperam em torno da piscina. Ele também não dá a mínima importância para o templo e suas leis. Jesus sabe que as festas são ocasionais e que a exclusão é permanente. Sabe também que a Lei e o Templo não libertam ninguém, pois são os próprios causadores da prostração e da exclusão do povo.

Jesus não mergulha o paralítico na água, nem o manda lançar-se na piscina. Ele simplesmente ordena que ele se levante e caminhe por si mesmo, libertando-o das amarras e fardos da lei. A cama na qual estava preso é exatamente o símbolo da Lei! Estimulado por Jesus, o homem, agora emancipado, não leva mais a Lei em conta e se torna um peregrino de esperança.

Por isso, Jesus vai buscar (e não “encontrar”) o homem curado no templo e o tira para fora. Ser libertado à margem da Lei e contra as regras do templo e continuar submisso a elas significaria recair no pecado ou cair na escravidão voluntária. Na Lei e no Templo ninguém encontra confirmação de sua liberdade ou da sua dignidade, mas apenas discriminação, perseguição e morte.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus em meio à multidão que se acotovelava para conseguir “uma vaga” na água

Você consegue perceber como o episódio é uma denúncia forte contra o uso das leis e cultos para manter as pessoas dominadas?

O que a palavra e a prática de Jesus nos ensina sobre o uso abusivo da religião para premiar alguns e submeter multidões?

domingo, 15 de março de 2026

A força da Palavra

Senhor, tua palavra tem força para curar-me!

1020 | Quaresma | 4ª Semana | Segunda | João 4,43-54

Esta cena está literariamente situada logo após a cena do encontro e diálogo de Jesus com uma mulher samaritana à beira do poço de Jacó. E nós a contemplamos e acolhemos sua mensagem no contexto litúrgico e espiritual da adesão à Boa Notícia do Reino de Deus e da conversão a ela, como sublinha o tempo quaresmal. Converter-se é acreditar no Evangelho e assumi-lo como regra.

Jesus está voltando para a região onde se criara, passando pela complicada região da Samaria. Era um povo marcado pelo desprezo que recebia do pessoal da Judeia, e era tentado a devolver na mesma moeda. Mesmo sabendo que os profetas são desprezados em sua própria terra, Jesus é recebido pelos seus conterrâneos com boa disposição, pois eles haviam sido informados das ações de Jesus na capital.

Informado sobre os sinais que Jesus realizara no templo (expulsara os vendedores), um funcionário do rei busca em Jesus uma ajuda para seu filho, que está gravemente enfermo. Quer que Jesus o cure, ao que parece, preferencialmente com um milagre grandioso e espetacular. Quem é habituado aos corredores do poder, age como tal e espera que Deus também intervenha no mundo com gestos de poder.

O funcionário se dá conta que imagina Jesus apenas como uma autoridade corajosa, poderosa e reformista, e pede a Jesus que ele “desça”. Esse verbo diz mais que um movimento físico, e alude à descida ao nível humano. Jesus não vai a Cafarnaum, mas “desce”: não realiza um gesto de poder, mas um gesto humano, tão humano que revela sua divindade. Jesus declara que o filho dele vive, e não que ele está curado. O funcionário do rei reconhece a força da Palavra de Jesus e obedece a ela.

É a Palavra de Jesus que devolve a vida. O funcionário precisa ir e ver, mas não há nenhum gesto grandioso. Ele não deve tratar o filho como dependente (“menino”) mas como filho. Jesus atende o pedido desse homem pagão e próximo ao poder sem pedir nada em troca, pois está disposto a ajudar a todos. Mas tudo acontece quando Jesus e o funcionário “descem” da esfera das relações pragmáticas ou de poder à esfera das relações autenticamente humanas, onde todos somos iguais.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude do funcionário do rei, assim como a postura e as palavras de Jesus

Você percebe como o funcionário real demonstra pensar, falar e agir segundo a lógica das funções de poder?

Em que medida também nós esperamos de Jesus gestos e ações espetaculares, que dispensem nossa colaboração?

Que mudanças em nosso modo de pensar e de agir esta cena pede de nós, enquanto caminhamos para a páscoa?

sábado, 14 de março de 2026

A verdadeira cegueira

O fruto da luz é bondade, justiça e verdade

1019 | Quaresma | 4ª Semana | Domingo | João 9,1-41

O pessoal do templo havia ameaçado apedrejar Jesus, o que o leva a sair de fininho daquele espaço religioso. Os discípulos vêm um cego mendigando, e perguntam se a desgraça é fruto do pecado, como pensam. O cego representa as pessoas que vivem sob a opressão, sem imaginar que podem sair dela, sem vislumbrar alternativas. Ele não esperava uma cura, nascera privado da condição e dignidade humana e sempre vivera assim. Jesus não pode dar-lhe nada, porque ele não sabe o que é a vida.

Para Jesus, esse limite não é castigo, e Deus não é indiferente a essa condição limitadora. Jesus convoca os discípulos à ação, e assinala a urgência de fazer algo: sua obra é fazer algo em favor da pessoa humana humilhada. Com o barro, Jesus recria o ser humano, acaba a criação desfigurada e incompleta. A piscina está fora da cidade, e o cego deve caminhar, sair livremente, mas ainda sem ver. Assim ele começa a ver e conhecer o que é o ser humano, o mundo, o caminho da fé.

O cego é como um morto que volta à vida, sendo o mesmo, é outro. Antes ele permanecia imóvel, impotente, dependente, e a mudança repentina deixa os vizinhos perplexos. A cura suscita interesse por Jesus no meio popular, esperança e desejo de encontra-lo. Que os cegos vejam, é sinal dos tempos messiânicos. Os fariseus não se interessam pela cura em si, mas sobre como foi feita. Eles não se alegram com a cura, e exigem respeito à lei, que seria a regra da ação de Deus.

O deus dos fariseus não se interessa pela pessoa humana que tem sua vida limitada. Os judeus se refugiam na incredulidade e suspeitam que o homem jamais havia sido cego. Não encaram o fato evidente, pois contradiz suas convicções. Intimidado pelas autoridades, o povo também não pode expressar a alegria espontânea pela cura. Deve submeter-se à opinião dos dirigentes para continuar sobrevivendo.

Os fariseus querem evitar o testemunho do cego sobre Jesus, e pedem que jure lealdade a eles, para que Jesus seja rotulado como pecador. Não podem negar a cura, mas pensam que podem calar a interpelação e a novidade que ela provoca. Para eles, Deus não pode agir contra a lei e a favor do ser humano necessitado. Eles pensam que sua ideologia é mais verdadeira que a experiência, e se refugiam na tradição para negar a realidade e não encarar a mudança possível e necessária.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, em cada personagem, naquilo que dizem e fazem

Perceba como a iluminação do cego vai crescendo, e passa da cura física à maturidade espiritual e à iluminação da fé

Quais são as ideologias ou cegueiras das quais necessitamos ser libertados, para que nossa adesão a Jesus seja madura e plena?

Nós e as meninas do Irã

Eu choro pelas meninas e demais cidadãos do Irã!

“O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá. Ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã. Sejam quais forem as motivações da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro...”  (O Estado de São Paulo, 28/02/2026).

Este é o juízo implacável expresso no editorial do jornal. É uma de declarar que essa guerra é “justa” e “santa”. O que falta é apenas definir o preço que “a civilização ocidental” está disposta a pagar para “derrubar o regime” e implantar à força sua democracia vazia. Para eles, o assassinato de 165 meninas numa escola feminina é um custo aceitável.

Para os senhores da “imprensa hereditária”, a mesma que aplaudiu o início do Terceiro Reich de Hitler, “Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca”. Assumindo o papel de juiz, o jornalão diz que a agressão é justa, e os EUA têm o direito de impor o seu “modelo de democracia” e de controlar o petróleo iraniano.

“Se ninguém no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”, eu me orgulho de não pertencer a esta “civilização”, que tem mais de violência do que de civilidade. Pertenço aos “povos bárbaros” que choram a morte de inocentes. “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos, e não quer consolar-se porque os perdeu” (Mt 2,18).

Netanyahu não poderia esquecer o lamento dos seus antepassados: “Consomem-se em lágrimas os meus olhos, fervem as minhas entranhas; derrama-se por terra meu fel ante a ruína da filha do meu povo, quando meninos e crianças de peito desfalecem nas praças da cidade... Jazem por terra nas ruas meninos e velhos...” (Lamentações 2,11.21).

Não me conformo com o fato de que haja quem, proclamando-se cristão e católico, justifique e aplauda guerras, mesmo as mais nefastas e injustificáveis. Neles a indiferença se globalizou e arruinou a alma. Eles confundem o aplauso e a submissão aos vencedores e à rapina com reverência ao Deus da Vida e defesa dos verdadeiros valores humanos.

Recordemos, mais uma vez, a Doutrina Social da Igreja: A Comunidade Internacional se baseia na soberania de cada Estado, e nada pode negar ou limitar a sua independência. “Para resolver os conflitos que comprometem a segurança internacional é preciso renunciar definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra (cf. §§ 434 e 438). Não há espaço para guerras declaradas diante de “ameaças existenciais”.

A visão e a cegueira

TESTEMUNHA DA VERDADE

Há uma característica que define Jesus e configura toda a sua atuação: a sua vontade de viver na verdade. É surpreendente a sua decisão de viver na realidade, sem se enganar nem enganar ninguém. Não é comum na história encontrar um homem assim. Jesus não apenas diz a verdade. Ele acredita na verdade e a procura. Está convencido de que a verdade humaniza todos.

Por isso, não tolera a mentira ou o encobrimento. Não suporta a tergiversão ou as manipulações. Não há nele indícios de dissimular a verdade ou de convertê-la em propaganda. A sua honestidade com a realidade torna-o livre para dizer toda a verdade. Jesus tornar-se-á «voz dos sem voz, e voz contra os que têm voz demais» (Jon Sobrino).

Jesus vai sempre ao fundo das coisas. Fala com autoridade porque fala a partir da verdade. Não precisa de falsos autoritarismos. Fala com convicção, mas sem dogmatismos. Não precisa pressionar ninguém. Basta a sua verdade. Não grita contra os ignorantes, mas contra os que falseiam intencionalmente a verdade para agir de forma injusta.

Jesus convida a procurar a verdade. Não fala como os fanáticos, que a impõem, nem como os funcionários, que a defendem por obrigação. Diz as coisas com absoluta simplicidade e soberania. O que diz e faz é claro e fácil de entender. As pessoas percebem isso imediatamente. Em contato com Jesus, cada um encontra-se consigo mesmo e com o melhor que há Nele. Jesus leva-nos à nossa própria verdade.

Quando este homem fala de um Deus que quer uma vida digna para os mais desgraçados e indefesos, torna-se credível. A sua palavra não é a de um farsante interessado na sua própria causa. Tampouco a de um religioso piedoso em busca do seu bem-estar espiritual. É a palavra de quem traz a verdade de Deus para aqueles que a quiserem acolher.

Segundo o quarto evangelho, Jesus diz: «Eu vim a este mundo para que os que não veem, vejam, e os que veem, fiquem cegos». É assim. Quando reconhecemos a nossa cegueira e acolhemos o seu evangelho, começamos a ver a verdade.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 13 de março de 2026

O fariseu e o publicano

Grande é quem a exata noção de si mesmo

1018 | Quaresma | 3ª Semana | Sábado | Lucas 18,9-14

Só não vê quem não quer, para não ter que mudar de atitude: vivemos numa sociedade intolerante e polarizada, com grupos contrapostos por ideologias e por disputa de espaços e poderes. O argumento moral – “nós, os cidadãos de bem; eles, os malfeitores, preguiçosos” – é usado com uma frequência espantosa. E a ideologia da meritocracia acabou oferecendo uma justificação adequada a esta divisão social.

Alguém pode se surpreender ao constatar que esta mesma postura estava presente na sociedade e no contexto cultural no qual Jesus de Nazaré viveu e atuou. Naquele tempo, vigorava o muro ideológico e religioso que distinguia puros e impuros e os colocava uns contra os outros. A ideologia da pureza – que misturava critérios sanitários, religiosos, morais, étnicos e sociais – definia quem era puro e quem era impuro, ou melhor, quem era “cidadão de bem” e quem era “elemento suspeito”.

Na parábola de hoje, estes dois grupos sociais estão tipificados no fariseu e no publicado. O primeiro se considera e é tratado como homem correto, justo, superior, ou cidadão digno. O segundo é visto e tratado como suspeito, sujo, herege, sem dignidade e sem direito ao respeito e à cidadania. Chama a atenção que a prática da oração não os torna iguais perante Deus; apenas escancara as diferenças.

Para Jesus e seu Evangelho, ninguém pode se arrogar o status de superior, honrado, merecedor ou melhor que os outros. Todos são pecadores e necessitam de conversão. O fariseu, que, na oração, manifesta seu orgulho e seu desprezo pelos outros, exatamente por isso também é pecador. A diferença é que o publicano, explicitando a dor da exclusão e a percepção das próprias contradições, é acolhido e justificado, enquanto que o fariseu continua devendo.

A humildade não é um simples ou falso sentimento de inferioridade, mas a consciência justa e correta daquilo que somos: vazio, interdependência, ambiguidade, desejo. É o reconhecimento de que somos todos devedores uns aos outros, de que ninguém – começando por nós mesmos – é maior ou melhor que ninguém. Somos o que somos por graça de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo, como quem foi rezar com o fariseu e o publicano, e observe a postura e as palavras de cada um

Com qual deles você se parece quando reza? Você se apresenta diante de Deus ostentando seus méritos e “cobrando a conta”?

Você considera a humildade uma limitação à sua personalidade e as realizações e o mérito uma expressão de sua grandeza?

Como assumir com serenidade e verdade diante de Deus a nossa condição de pecadores e devedor necessitados de misericórdia?

quinta-feira, 12 de março de 2026

O maior mandamento

O amor a Deus e ao próximo está acima do culto

1017 | Quaresma | 3ª Semana | Sexta | Marcos 12,28-34

A cena oferecida à nossa leitura neste sexta-feira da segunda semana da quaresma, mesmo parecendo bastante tranquila e isenta de provocações, faz parte das armadilhas que os chefes do judaísmo colocam a Jesus com a intenção de acusá-lo e das tensas disputas teológicas e políticas com ele. Não esqueçamos que elas ocorrem no ambiente do templo, do qual Jesus já havia expulsado os comerciantes. Este é o último confronto de Jesus antes de ser preso, condenado, torturado e crucificado.

No centro da disputa está a questão do primeiro ou principal mandamento da ética religiosa judaica. Quem questiona e chama ao debate é um mestre da lei, que disfarça sua intenção ardilosa falando num tom simpático. Ele pergunta pelo “primeiro de todos os mandamentos”. Jesus responde no horizonte com cautela, mas se atreve a juntar ao mandamento de amar a Deus (cf. Dt 6,4-13), conhecido e aceito, o de amar ao próximo (cf. Lv 19,18). “Não existe outro mandamento maior que estes!”

É importante perceber ainda que, no primeiro testamento, o mandamento “ame ao seu próximo como a si mesmo” não vem isolado, mas situado num conjunto de normas que se opõem às práticas de indiferença e opressão dos mais pobres das tribos de Javé (cf. Lv 19,9-18). Jesus já havia dito que estas normas são violadas pelos escribas. Para Jesus, o céu precisa vir à terra, e a terra é o único caminho para o céu. Não há lugar para escapismos e espiritualismos de qualquer espécie.

O texto termina dizendo que ninguém mais se atrevia a apresentar armadilhas a Jesus. Ele venceu todos os seus opositores: expulsou os comerciantes do templo, enfrentou as ciladas de fariseus e saduceus sem cair nelas, questionou a legitimidade e os privilégios dos chefes, assumiu seu papel de mestre. Em síntese, “amarrou o homem forte e reconquistou sua casa”, como refletíamos ontem (cf. Mc 3,27).

No caminho da conversão precisamos decidir quem manda em nós: Jesus e seu evangelho da fraternidade, ou o Mercado, que incensa o consumismo individualista e predatório, que trata tudo – as pessoas e todas as demais criaturas – como se fossem bens dos quais pode se apropriar e desfrutar.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, no templo, diante de Jesus e do escriba, especialista nos mandamentos da lei de Deus

O escriba parece candidato a discípulo, seu tom é simpático, mas, em verdade, é ardiloso e enganador, como os outros

Estaríamos nós também comprometidos com a manutenção das relações de dominação e legitimando-as com falsa ortodoxia?

Perceba a novidade corajosa de Jesus: ele une o amor a Deus e o amor ao próximo, e faz dos dois um só mandamento

quarta-feira, 11 de março de 2026

O selo de autenticidade

Escutemos hoje o que nos diz o Senhor!

1016 | Quaresma | 3ª Semana | Quinta | Lucas 11,14-23

Jesus acabara de ensinar os discípulos a rezar, sublinhando a necessidade de pedir com confiança, pois Deus é pai. Mas isso não livra Jesus de reações diversas e contraditórias frente à sua pessoa e às suas ações. Enquanto as multidões ficam admiradas com seu ensino, as autoridades religiosas questionam suas credenciais. E pedem com insistência que diga em nome de quem ele vive, prega e age.

Por ocasião da libertação de uma pessoa do domínio do demônio, os questionamentos viram acusação curta e grossa: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. É a mais grave acusação que pode ser dirigida a uma pessoa: a acusação de ser aliado do demônio. Partindo dessa acusação, Jesus discorre sobre o sentido do que ele faz, questiona as práticas do judaísmo e alerta seus discípulos.

Quando liberta uma pessoa de algo que limita sua personalidade, Jesus não age como quem realiza sinais espetaculares para impressionar, nem recorre a poderes mágicos. As curas e libertações que opera, sempre em benefício de pessoas vulneráveis e necessitadas, são sinais eficazes do dinamismo do Reino de Deus que está ativo no mundo. Ele não é enviado ou parceiro do diabo, mas filho e enviado de Deus.

Para refutar a grave acusação que lhe dirigem, Jesus recorre a duas experiências familiares aos seus ouvintes: um reino dividido prepara a própria ruína; quando a casa de um homem forte e bem armado é atacada e dominada por outro homem mais forte ainda, o dono acaba sendo expulso e seus bens mudam de dono. Jesus é esse homem mais forte, que restituiu a liberdade a todas as pessoas vítimas dos agentes do mal e expulsa o “dominador”.

Por fim, Jesus faz uma advertência a todos os que foram acolhidos e justificados por ele: ninguém pode se sentir imunizado e melhor que os outros, nem considerar a salvação como adquirida e merecida. Nossa liberdade se mantém e se renova na luta pela liberdade dos outros. Nossa condição de filhos, irmãos e herdeiros é sempre precária, e precisa ser reassumida diariamente. A necessária celebração da vitória não pode esconder a continuidade da luta.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esta breve, tensa e complexa discussão de Jesus com seus acusadores, que são lideranças religiosas do judaísmo

Acusações semelhantes àquela feita contra Jesus não estão sendo feitas hoje aos cristãos, igrejas e organizações mais progressistas?

O que significam as críticas desrespeitosas que alguns grupos católicos dirigem contra a Conferência dos Bispos do Brasil e contra o Papa?

O que dizer das pessoas e grupos que se julgam superiores, mais puras e ortodoxas que o próprio Papa e a Conferência dos Bispos?

terça-feira, 10 de março de 2026

Jesus, a Lei e a Profecia

Em Jesus, a profecia e a lei se realizam

1015 | Quaresma | 3ª Semana | Quarta | Mateus 5,17-19

Os evangelhos não deixam dúvidas: aos olhos de grande parte dos seus contemporâneos, Jesus era um anarquista que estimulava a desobediência religiosa e civil. A liberdade daqueles que se fizeram seus discípulos também causou preocupações, até por causa do exagero de alguns. Daí a pergunta que rondava a cabeça de muita gente: Jesus teria vindo da parte de Deus para abolir a Lei?

O texto faz parte do processo de formação dos discípulos, que conhecemos como “sermão da montanha”. É claro que a indicação das características das pessoas que são “bem-aventuradas”, os santos, as pessoas que agradam a Deus, causou um certo desconcerto, e não apenas naquele tempo. A intervenção de Jesus que refletimos hoje procura esclarecer e colocar as coisas no seu devido lugar.

As citações diretas das escrituras que podemos ler nos capítulos anteriores de Mateus já poderiam ter eliminado as dúvidas: tudo na vida de Jesus ocorre “para que se cumpra a Lei”. Mas então, se fosse simples assim, Jesus seria apenas um profeta judeu como todos os outros, ou um simples reformador dos costumes? Nele só haveria continuidade, sem nenhuma espécie de ruptura em relação ao judaísmo?

Para responder a estas interrogações, Jesus começa com uma advertência: “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas!” Tanto a Lei como os Profetas, continuam como uma espécie de pedagogos até que o Reino de Deus seja consumado, até que passe este velho sistema social, cultural e religioso (“o céu e a terra”). “Eu vim para cumprir plenamente” tanto a Lei como a Profecia, diz Jesus. Para ele, a prática dos escribas e fariseus era ostensivamente parcial e imperfeita.

Jesus é o cumpridor do sentido profético da Lei, até então escondido aos judeus. Jesus se apresenta como a “chave” que abre o sentido das escrituras, que devem ser lidas e revistas a partir daquilo que ele viveu e ensinou. Desobedecendo (ou ultrapassando) as leis para atender as necessidades das pessoas vulneráveis, Jesus se mostra um profeta, e manifesta o verdadeiro sentido e o objetivo último da Lei. Quem o segue deva estar disposto a renunciar ao legalismo e ao medo.

 

Sugestões para a meditação

Você não tem a impressão de que, com seu ensino e sua prática, Jesus estimula uma postura desobediente e anárquica frente às leis?

Você não acha que, por outro lado, muitas pregações e práticas de hoje prendem Jesus à simples e inflexível obediência às leis e costumes?

O que significa para nós, hoje, levar a sério que Jesus cumpre e revela plenamente as escrituras anteriores a ele e leva à perfeição a profecia?

Quais as implicações de assumir “o olhar, o agir e o sentir” de Jesus como chaves para a leitura das Escrituras Sagradas?