sábado, 28 de março de 2026

Não domesticar a cruz

SEGUIR JESUS LEVA À CRUZ

Estamos tão familiarizados com a cruz do Calvário que já não nos causa qualquer impressão. O hábito domestica e rebaixa tudo. Por isso, é bom recordar alguns aspetos demasiado esquecidos do Crucificado.

Comecemos por dizer que Jesus não morreu de morte natural. A sua morte não foi a extinção esperada da sua vida biológica. Jesus foi morto violentamente. Não morreu vítima de um acidente casual ou fortuito, mas foi executado, após um processo conduzido pelas forças religiosas e civis mais influentes daquela sociedade.

A sua morte foi consequência da reação que provocou com a sua atuação livre, fraterna e solidária com os mais pobres e abandonados daquela sociedade. Isto significa que não se pode viver o evangelho impunemente. Não se pode construir o reino de Deus, que é reino de fraternidade, liberdade e justiça, sem provocar a rejeição e a perseguição daqueles a quem não interessa qualquer mudança. É impossível a solidariedade com os indefesos sem sofrer a reação dos poderosos.

O seu compromisso por criar uma sociedade mais justa e humana foi tão concreto e sério que até a sua própria vida ficou comprometida. E, no entanto, Jesus não foi um guerrilheiro, nem um líder político, nem um fanático religioso. Foi um homem em quem se encarnou e se tornou realidade o amor insondável de Deus pelos homens.

Por isso, agora sabemos quais são as forças que se sentem ameaçadas quando o amor verdadeiro penetra numa sociedade, e como reagem violentamente tentando suprimir e sufocar a atuação daqueles que procuram uma fraternidade mais justa e livre.

O evangelho será sempre perseguido por quem coloca a segurança e a ordem acima da fraternidade e da justiça (farisaísmo). O reino de Deus será sempre obstaculizado por toda a força política que se entenda como poder absoluto (Pilatos). A mensagem do amor será rejeitada na sua raiz por toda religião em que Deus não seja Pai dos que sofrem (sacerdotes judeus).

Seguir Jesus conduz sempre à cruz; implica estar disposto a sofrer o conflito, a polêmica, a perseguição e até a morte. Mas a sua ressurreição revela-nos que a uma vida crucificada, vivida até ao fim com o espírito de Jesus, só lhe espera a ressurreição.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 27 de março de 2026

As estruturas ou as pessoas?

Será que ele estará conosco na Páscoa?!

1033 | Quaresma | 5ª Semana | Sábado | João 11,45-56

Na meditação de ontem, Jesus concluía o debate com as lideranças do templo reafirmando sua filiação divina – suas ações mostram que ele é parecido com o Pai – e que a elite religiosa é filha da idolatria (que a tradição chama de prostituição), pois rejeita, persegue e quer matar Jesus, assim como os discípulos fiéis a ele.

Na cena de hoje, que está situada depois da ressurreição de Lázaro, estas mesmas “autoridades” confirmam a decisão de eliminar Jesus, dispensando um processo legal. Diante da crescente adesão do povo a Jesus, elas sentem estar perdendo a influência, e reúnem o “conselho superior” (o Sinédrio) para tomar uma decisão.

As lideranças do templo não toleram pessoas livres e revolucionárias. Como Jesus desperta a sede de liberdade, reúnem-se os que pretendem representar os “interesses de Deus”, seja pelo cargo que exercem, seja pelo saber que administram. Reunidos, fazem uma leitura negativa e tendenciosa dos acontecimentos, não conseguem ver nada de bom e tão somente ameaça naquilo que Jesus faz.

Pode parecer incrível, mas esses líderes religiosos não estão interessados no cumprimento da vontade de Deus e na defesa do povo, mas apenas no risco de perder a “clientela religiosa” para Jesus. Porém, disfarçam, e justificam sua decisão assassina acenando para o risco de que Jesus, agitando as esperanças do povo, viesse a provocar uma represália romana. Em outras palavras, apelam à “lei de segurança nacional” para defender seus interesses pouco nacionalistas.

Ironicamente, Caifás, em nome do conselho e como chefe que encarna a instituição, se opõe à ação de Deus em Jesus para “salvar” o “lugar de Deus”, que é o templo. Isso faz com que Jesus se afaste do templo e se esconda, onde atrai mais discípulos e se dedica à última etapa de formação deles antes de ser levado à morte. Mas, com a morte na cruz, Jesus acaba decretando o fim da identificação do povo de Deus com a nação judaica, pois abre as portas para os “filhos de Deus dispersos”.

 

Sugestões para a meditação

Qual é o verdadeiro motivo da reunião do Conselho do Sinédrio, e o que seus membros temem a respeito de Jesus?

Que tipo de “leitura da realidade” eles fazem? O que dizem de Jesus? Isso que eles dizem é verdadeiro?

Como entender que as ações emancipadoras e restauradoras de Jesus provoquem tanta indignação e violência nas lideranças religiosas?

Elas podem se arrogar a autoridade de representantes de Deus? O que isso significa para as autoridades e lideranças cristãs de hoje?

quinta-feira, 26 de março de 2026

As ações é que importam

As ações de Jesus revelam o coração de Deus

1031 | Quaresma | 5ª Semana | Sexta-feira | João 10,31-42

Estamos no capítulo 10 do Evangelho de João, no qual Jesus aplica a si mesmo as sugestivas metáforas da porta e do pastor. Um dos momentos mais provocativos é quando Jesus declara que todos os que vieram antes dele são ladrões, assaltantes ou mercenários, e apenas ele é um pastor bom, o único disposto a dar a vida pelo rebanho. A reação das lideranças religiosas foi acusá-lo de estar louco.

Para Jesus, uma pessoa mostra sua personalidade e seu valor nas ações que realiza e nas relações que estabelece. E isso vale também para Deus, que mostra que é justo e bondoso libertando as pessoas mais vulneráveis. Por isso, Jesus não defende sua missão com palavras, mas com o testemunho de suas ações. São elas que mostram que ele é o enviado do Pai por causa da intensidade da compaixão. Jesus não veio revelar Deus em palavras e conceitos, mas em ações que libertam as pessoas.

E quando as lideranças religiosas do templo ameaçam apedrejá-lo, Jesus pergunta pelo motivo da rejeição e do ódio. Se ele é o que demostram suas obras, são elas que devem ser louvadas ou reprovadas, e não suas palavras. “Por quais das minhas ações mereço ser condenado?”, pergunta ele. Mas as elites religiosas fazem questão de divorciar as palavras de Jesus da compaixão que ele demonstra, e querem condená-lo por suas declarações, interpretadas no horizonte da própria ideologia.

Como defensores de uma palavra morta e de uma lei desligada da vida, eles não se interessam pela exploração praticada na sociedade e até dentro do templo, desde que os exploradores tenham o nome de Deus em seus lábios. E acabam traindo a fidelidade às Escrituras, pois silenciam quando elas dizem que todos os que agem de modo semelhante à ação de Deus são deuses (cf. Sl 82). E esquecem que a lei existe para defender a dignidade e a liberdade das vítimas.

Apelando à violência e planejando assassinar Jesus, a elite do templo demonstra que é assassina e perseguidora, e não representa a vontade e a ação de Deus, o Pai de Jesus. É por isso que Jesus sai do templo e do território que se tornara lugar de opressão. Fora do templo, do outro lado do rio Jordão, exatamente onde João viveu sua vocação profética, ele continua atraindo discípulos. E o povo vê nas ações de Jesus a realização da profecia do Batista.

 

Sugestões para a meditação

Releia e perceba o sentido das acusações levantadas contra Jesus e dos argumentos que apresenta para se defender

Será que não somos tentados pelo mesmo pecado das elites do templo: dissociar aquilo que proclamamos daquilo que fazemos?

Sendo verdade que são nossas ações e relações que revelam nosso valor, o que nossas ações estão revelando de nós e nossa Igreja?

quarta-feira, 25 de março de 2026

Maior que Abraão

Quem assimila o Evangelho vence a morte

1030 | Quaresma | 5ª Semana | Quinta-feira | João 8,51-59

Jesus havia afirmado que as lideranças do templo eram filhos da mentira, e elas reagiram de forma violenta: acusam Jesus de ser samaritano e estar possuído pelo demônio. Quando Jesus insiste que seu ensino ilumina e conduz à vida e à liberdade, que quem o segue não será envolvido pelas trevas da morte, esse “pessoal do templo” pensa ter encontrado uma prova da sua loucura.

Eles se baseiam na experiência universal de que a morte colhe todos os homens e mulheres, inclusive Abraão e os profetas. Mas o fato é que eles não conhecem nem reconhecem senão a vida mortal e a morte amarga. Eles não conseguem entender que a vida pode ser vazia e tediosa, ou intensa e indestrutível. A simples possibilidade de uma vida terna e eterna lhes causa desestabilização.

A discussão entre Jesus e o pessoal do templo é permeada pela ironia, tanto da parte deles como de Jesus. Isso aparece tanto nas perguntas como nas respostas de ambos os lados: “Quem pretendes ser?  Acaso és maior que nosso pai Abraão?” “Não tens 50 anos e vistes Abraão?” Mas a ironia não esquece nem se afasta do conteúdo em discussão: Quem de fato conhece a Deus e realiza suas ações?

Jesus não recorre a títulos para falar de si mesmo. Ele conhece a Deus como Pai, e demonstra que é seu Filho e seu Enviado porque participa da ação de Deus em defesa do ser humano. Tomando distância até do próprio Abraão, e afirmando que ele é pai “de vocês” (e não “nosso” pai), Jesus escapa das apertadas amarras de raça e de nação. Deus, enquanto Pai, está para além do “cercadinho” ou da “bolha” do gênero, raça e nação, e estende nossos laços de fraternidade a toda a humanidade.

Por fim, Jesus diz que Abraão exultou e se alegrou ao visualizar “o meu dia”. Não é Jesus que viu Abraão, mas Abraão que previu em Jesus o Enviado de Deus e o início dos tempos messiânicos. Quando Jesus afirma “antes que Abraão existisse, eu sou”, a taça da raiva do “pessoal do templo" transborda: eles pegam em pedras para executar Jesus, comprovando que são assassinos e que o templo deixou de ser casa de Deus e se tornou lugar de comércio, violência e morte.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto atentamente, participe do debate, interaja com os protagonistas, perceba o que está em jogo

Qual é a imagem que fazemos de Deus, e em que medida essa imagem nos emancipa e nos torna solidários e libertadores?

Nossa imagem de Deus está preso a ideologias como o machismo, o nacionalismo, o patriarcalismo, o liberalismo?

Em que medida, para defender nossa ideia de Deus e nossa religião, somos capazes de usar de violência contra os outros?

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma Boa Notícia

Alegra-te! Encontraste graça diante de Deus!

1029 | Festa da Anunciação | 25 de Março | Lucas 1,26-38

Hoje a Igreja católica nos propõe a solenidade da anunciação do nascimento de Jesus, celebrada exatamente nove meses antes do Natal. E a Igreja indica o texto do evangelho de Lucas para iluminar esta solenidade cristológica. Com os discípulos e discípulas de Jesus proclamamos que Maria é uma mulher cheia de graça. Ela é agraciada pela presença de Jesus, que compartilha conosco.

Na cena da anunciação, o papel central fica para o Anjo Gabriel. O clima geral é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão que significa “Esteja bem! Tudo de bom!” E diz que o “charme” dela encantou o próprio Deus. Mas isso terá consequências, pois Maria terá que mudar os planos que traçara.

É claro que o anjo Gabriel não está se referindo apenas à eventual e imaginável formosura física de Maria de Nazaré, mas à sua humanidade, original e sem pecado, como a criação tal como foi sonhada e imaginada por Deus. Ela é a imagem da pessoa humana livre, criativa e acolhedora, na qual brilha a imagem de Deus.

Sendo acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é, de modo algum, uma mulher passiva e sem personalidade. Antes, mostra-se uma mulher atenta e reflexiva. Ela pede explicações, interroga o Anjo, quer compreender. Graças aos seus teimosos questionamentos, Maria descobrirá a misteriosa ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá abrirá o caminho de uma para uma nova terra, na qual floresce o cuidado, a liberdade e a fraternidade.

E o próprio anjo antecipa alguns traços do filho que vem anunciar: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, será santo por sua ação profética, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi, o parceiro dos pobres. No nome que lhe será dado, está escondida sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, imaginando-se presente e ativo na anunciação, naquele lugar perdido e obscuro da Galileia

Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado que nascerá de Maria

Tome como dirigidas a você as palavras do Mensageiro de Deus: “Alegra-te, cheio de graça! O Senhor está contigo!

Procure inserir seu projeto de vida no projeto que Deus tem para a humanidade e para você nesta fase da sua vida

segunda-feira, 23 de março de 2026

A cruz nos atrai

O amor crucificado continua nos atraindo

1028 | Quaresma | 5ª Semana | Terça-feira | João 8,21-30

Depois de fazer a defesa pública da mulher prestes a ser apedrejada pelos defensores da lei, e depois de questionar insistentemente os seus acusadores, o diálogo de Jesus com os fariseus vai ficando difícil e vira confronto aberto. Mais ainda depois de Jesus se apresentar como luz do mundo, aquela que vence as trevas e orienta os homens e mulheres de boa vontade. Ele quer tomar o lugar da Lei!

No texto que refletimos hoje, Jesus fala de um modo enigmático: diz que vai partir, que os fariseus não poderão acompanhá-lo, que eles vão procurá-lo mas não vão encontrá-lo. E faz uma clara advertência: os fariseus não acreditam nele, e, por isso, morrerão no pecado. Na verdade, segundo o evangelho de João, os fariseus e demais lideranças religiosas pertencem ao mundo, têm interesses rasteiros, orientam-se por um deus feito à imagem e semelhança deles.

A má vontade que os impede de compreender Jesus e aderir a ele nasce de um preconceito teológico. Para eles, Deus é aquele que submete e limita a liberdade e a autonomia das pessoas. Fazendo o que faz e ensinando o que ensina, Jesus estaria usurpando o poder de Deus, e isso eles não conseguem tolerar. Eles não percebem nenhuma relação entre Jesus e o deus deles. Mas, para Jesus, Deus é sempre a favor do ser humano, e o prioriza acima das leis.

São duas cosmovisões distintas e contrastantes. Estas lideranças jamais conseguirão aceitar um Messias despojado de poder e crucificado por amor, a vida como dom entregue livremente. Por isso, quando Jesus fala em “partir”, eles ironizam, perguntando se ele vai suicidar-se. Não há preocupação por Jesus. Mas Jesus mostra-se livre e altivo; não se acovarda, pois sabe que não está sozinho.

Se, por um lado, os fariseus se fecham cada vez mais e aceitam cada vez menos Jesus e seu ensino, por outro, acolhendo o testemunho de liberdade, ousadia e generosidade dele, muitos acreditam e aderem à sua proposta. Estes entram na lógica “de cima”, dos valores humanos universais, e abandonaram a lógica dos interesses “baixos”. Para estes, Jesus fala com sabedoria e ensina com amor.

 

Sugestões para a meditação

Nesta última semana da quaresma, o apelo a mudar de olhar e de atitude se torna cada vez mais contundente e urgente

Ao aproximar-se do desfecho da sua vida, decretado pelas próprias autoridades, Jesus fala claramente de “entrega” e cruz

Que imagem de Deus nos orienta e está presente em nossa catequese, nossos cânticos e nossa espiritualidade?

Será que estamos sendo capazes de refazer e corrigir nossa imagem de Deus a partir de Jesus crucificado por amor?

domingo, 22 de março de 2026

Jesus e a nossa ressurreição

Você acredita em vida após o nascimento?

No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria. Este texto não fala propriamente sobre a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a amizade dele conosco.

Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e germina.

Sei que a ressurreição é vista como algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos pelo “moneyteísmo”.

A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e Nilo. Nilo perguntou se Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento. Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma preparação para o que seremos mais tarde...”

Em tom irônico, Nilo perguntou se o irmão saberia dizer como seria a outra vida, e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer muitas outras pessoas...”

Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada numa escuridão sem sentido e sem fim”.

Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo...”

A miséria humana e a misericórdia divina

Com Jesus, todos os pecadores têm futuro

1027 | Quaresma | 5ª Semana | Segunda | João 8,1-11

No dia mais solene da festa, de madrugada, vai ao templo. Era a Festa das Tendas, que recordava o tempo em que viveram em tendas e o início do Yom Kippur, o tempo especial de perdão e remissão todas as dívidas. E eis que chegam à praça do templo alguns fariseus arrastando uma mulher e acusando-a de adultério.

Os mestres da lei e os fariseus transgredem o espírito dessas festas, tramam a prisão e morte de Jesus e condenam tacitamente uma mulher ao apedrejamento, sem o mínimo sinal de misericórdia. Eles pretendem apresentar uma armadilha a Jesus: colocam ele entre a lei judaica, a lei romana e seu próprio ensino.

Jesus começa respondendo com um gesto corporal: inclina-se, e coloca-se no nível de mulher; abaixa-se diante do um bando de homens que esperam seu sinal para liberar sua violência machista. Jesus se aproxima da humanidade ferida e busca uma avaliação e uma palavra justa. Para desmobilizar a violência dos acusadores, Jesus evita o olhar dos agressores. Abandonando o combate, ele o acaba vencendo.

Os fariseus insistem. Então, a resposta de Jesus é extremamente simples, uma única frase, que chama ao discernimento: quem nunca pecou, que comece o apedrejamento! Os fariseus conhecem a Lei, e sabem que ela chama à conversão, à atenção a Deus e ao seu povo. Eles se dão conta da ilusão de serem superiores. Jesus e a mulher acabam ficando sozinhos na praça, miséria diante da misericórdia.

A mulher permanece ali, cercada e algemada pela própria culpa. Então Jesus se dirige a ela, com uma pergunta que a ajuda a tomar consciência de que todos os seus acusadores são pecadores, como ela, que todos são membros da mesma e única humanidade que ele veio libertar. Por fim, declara que ele também não a condena, e pede que a mulher não volte a pecar.

Jesus não defende o laxismo nem rigorismo, mas a misericórdia, que não legitima o pecado, mas também se recusa a reduzir e identificar a pessoa com seu pecado.  A pessoa jamais pode ser reduzida aos seus atos!  Diante de Deus todos temos chance. Não é verdade que para conhecer e experimentar Deus não podemos ser pecadores! Ser pecador é uma chance para conhecer o coração de Deus! É porque ele nos ama e perdoa incondicionalmente que precisamos viver cada vez melhor.

 

Sugestões para a meditação

Retome esta cena atentamente, situando-se entre os três personagens: os fariseus, a mulher e Jesus

Tome como dirigidas a você as palavras de Jesus: “Eu também não te condeno... Vai em paz e não tornes a pecar...”

Por que nos custa tanto superar a atitude de acusadores e assumir, de verdade, nossa realidade de pecadores e iguais?


sábado, 21 de março de 2026

Ninguém vive para morrer

Senhor, que a morte não nos seja indiferente!

1026 | Quaresma | 5ª Semana | Domingo | João 11,1-45

A experiência de fracasso pode nos levar a repetir o refrão acusatório contra Deus e contra o destino, como o fazem Marta e de Maria: “Senhor, se tivesses vindo, meu irmão não teria morrido...” Muitas vezes temos esta mesma sensação diante de doenças incuráveis, de acidentes trágicos, ou de pandemias arrasadoras como esta que a humanidade vive hoje. Na revolta, gerada no ventre dor, chegamos a acusar Deus, pois, nessas circunstâncias, ele nos parece ausente, desinteressado ou sem coração. “Onde está Deus em meio a tanto sofrimento?”

 “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro”, assim como ama cada um de nós. Somos sua família, seus amigos e amigas, ainda que ele não se deixe prender aos nossos desejos, nem se submeta às urgências do nosso calendário. Jesus sempre chega, no tempo oportuno, para nos ajudar a mudar as coisas, para chorar as dores que nos afligem, e não passa adiante sem se desdobrar em iniciativas de cuidado. Compassivo e terno, seu coração também sofre! “E Jesus estremeceu interiormente, ficou muito comovido e chorou”, testemunha João.                      

Jesus nono é nem pse comove não é indiferente aos sofrimentos de ninguém, e participa da dor de Marta e Maria, como o faz também hoje com todos aqueles que choram, impotentes e inconsoláveis. É mediante sua compaixão que ele nos faz experimentar seu amor. Eis aqui a porta que abre a possibilidade de mudança: o amor e a compaixão, tão divinos e tão humanos, essenciais no enfrentamento das tragédias que nos arrasam.

Acreditar em Jesus Cristo implica em confiar na força do seu amor. Da parte de Jesus, o amor que se compadece; da nossa parte, a confiança que abre horizontes e possibilidades. Da fé e da abertura ao amor compassivo e solidário de Jesus brotam as novas possibilidades de vida e a força da ressurreição. “Se você acreditar, verá a glória de Deus”. Esta é a glória de Deus: seu amor pela humanidade. A fé ilumina nossa inteligência na busca de soluções humanas para os problemas humanos.

Jesus convida Maria a ultrapassar a dor e o medo que obscurecem o olhar da sua fé. E Lázaro, no escuro da morte e no fundo da sepultura, também é interpelado: “Vem para fora!” Este grito de Jesus, pronunciado como oração, chama-nos todos à vida, a um novo olhar e um novo agir. É apelo a sair dos nossos interesses e projetos, geralmente nascidos e nutridos no ventre do medo e da indiferença.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, identifique-se com os personagens, preste atenção àquilo que dizem e fazem

Perceba o limite da fé de Marta e de Maria, o teor e o conteúdo existencial da promessa de Jesus e o salto de qualidade que ela pede de nós

Como você vive a morte inesperada de um familiar ou amigo? Você se sente injustiçado e incompreendido por Deus?

Vem para fora!

OS NOSSOS MORTOS VIVEM!

A despedida definitiva de um ser muito querido mergulha-nos inevitavelmente na dor e na impotência. É como se toda a vida ficasse destruída. Não há palavras nem argumentos que nos possam consolar. Em que se pode esperar?

O relato de João não tem apenas como objetivo narrar a ressurreição de Lázaro, mas sobretudo despertar a fé, não para que acreditemos na ressurreição como um acontecimento distante que ocorrerá no fim do mundo, mas para que vejamos desde já que Deus está a infundir vida àqueles que enterrámos.

Jesus chega profundamente comovido, ou soluçando, ao túmulo do seu amigo Lázaro. O evangelista diz que está coberto com uma laje. Essa laje fria fecha-nos o caminho. Não sabemos nada dos nossos amigos mortos. Uma laje separa o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Só nos resta esperar o dia final para ver se algo acontece.

Esta é a fé judaica de Marta: «Sei que o meu irmão ressuscitará na ressurreição do último dia». A Jesus isso não basta. «Tirai a laje». Vamos ver o que acontece com aquele que enterraram. Marta pede a Jesus que seja realista. O morto já começou a decompor-se e cheira mal. Jesus responde: «Se creres, verás a glória de Deus». Se em Marta despertar a fé, poderá ver que Deus está a dar vida ao seu irmão.

Tiram a laje e Jesus levanta os olhos ao alto, convidando todos a elevar o olhar até Deus, antes de penetrar com fé no mistério da morte. Ele deixa de soluçar e dá graças ao Pai porque ele sempre o escuta. O que ele deseja é que os que o rodeiam acreditem que é o Enviado do Pai para introduzir no mundo uma nova esperança.

Depois, Jesus grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” Quer que ele saia para mostrar a todos que está vivo. A cena é impactante. Lázaro tem «os pés e as mãos atados com ligaduras» e «o rosto envolto em um sudário». Lázaro traz os sinais e as ataduras da morte. No entanto, «o morto sai» por si mesmo. Ele está vivo!

Esta é a fé de quem acredita em Jesus: os que enterramos e deixamos na morte entre lágrimas vivem. Deus não os abandona. Afastemos a laje com fé. Chamemos os nossos mortos para fora, pois eles estão vivos!

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez