quinta-feira, 16 de abril de 2026

Cinco pães e dois peixes

A fé inspira soluções para as demandas humanas

1053 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Sexta-feira | João 6,1-15

No capítulo 6 do seu evangelho, João nos apresenta o primeiro encontro de Jesus com a multidão. O episódio é situado próximo à festa da páscoa judaica, e, na ocasião, Jesus realiza dois sinais muito importantes: a multiplicação dos pães, às margens do lago, diante de uma multidão e a serviço dela; a caminhada sobre as águas, um sinal mais discreto, na presença apenas dos discípulos.

Jesus está no apogeu da sua missão. O povo acredita nele e acolhe seu ensinamento, graças aos sinais que realiza. Mas a sua fama e a crescente multidão que se reúne acaba provocando uma crise: onde encontrar alimento para tanta gente? Ao que parece, os discípulos já haviam discutido sobre isso. Eles haviam calculado que dar uma refeição ao povo teria um custo equivalente a 100 dias de trabalho!

Jesus pede que os discípulos a cooperem ele, mas Filipe não vislumbra solução fora do sistema de mercado. André visualiza um começo de solução: informa a Jesus o que a comunidade dispõe para si mesma. O menino (“criadinho”), símbolo do discípulo, entrega o pouco que tem: peixes e alguns pães de escassa qualidade.

Jesus faz pelo povo aquilo que se recusara a fazer para si mesmo: toma os pães de cevada e os peixes e dá graças a Deus. Com isso, liberta estes bens da apropriação privada e exclusiva e proclama que eles pertencem a Deus. É quando devolvemos o que temos a quem lhe pertence de verdade que brota a abundância na mesa de todos. Mas os bens só produzem vida abundante quando os discípulos servem.

A resposta da multidão é o reconhecimento de que Jesus é o Profeta esperado. Mas esse entusiasmo esconde uma tentação: fazer de Jesus um rei, um chefe político. Este é o risco que ronda os líderes políticos e religiosos quando fascinam o povo. Jesus se retira sozinho, em busca de integridade e serenidade. Ele se afasta dos discípulos (também tentados pelo poder e pela passividade) e da multidão para se manter fiel à vontade do Pai: confiar às pessoas e solução dos problemas sociais concretos.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto este episódio ambientado no deserto, pouco antes da páscoa dos judeus

Você se percebe no meio da multidão faminta, que espera alimento, ou entre os discípulos que são chamados a colaborar com Jesus?

Qual é sua reação diante dos problemas que afligem o povo hoje: indiferença? Busca de culpados? Busca de soluções?

O que você está disposto a colocar hoje nas mãos de Jesus para que ele ajude a diminuir o sofrimento do seu povo?

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Aceitar o testemunho de Jesus

Quem segue os passos de Jesus acessa a Vida

1052 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Quinta-feira | João 3,31-36

Estamos ainda no capítulo três do evangelho de João, mas Nicodemos desapareceu da cena. Jesus está, com seus discípulos, na região onde João Batista cumpriu sua missão profética. Ali, o profeta do deserto havia falado de Jesus como o cordeiro de Deus e o noivo da nova aliança de Deus com seu povo novo. Diante dele, elevado ou rebaixado na cruz, todos precisamos rever a imagem que temos de nós mesmos.

João Batista diz que aceita o testemunho que Jesus deu do seu e nosso Pai, pois ele vem de Deus, e, por isso, fala daquilo que conhece, daquilo que viu e ouviu do Pai. E esse testemunho, que compreende tudo o que Jesus faz e diz, se condensa na cruz, na qual ele diz tudo o que se pode dizer sobre Deus: ele está sempre de braços abertos, e seu amor compassivo acolhe a todos.

Nisso Jesus se revela superior a Moisés, e não é um profeta a mais entre os profetas. Vindo do céu, ou melhor, elevado na cruz, seu conhecimento das coisas de Deus não vem da terra, não é provisório, limitado nem interesseiro. Quem se põe a segui-lo não pode se agarrar à Lei, pois ela divide o mundo em “pessoas de bem” e pessoas culpáveis ou descartáveis. Isso significaria rejeitar o testemunho que ele dá de Deus!

Deus entregou nas mãos de Jesus todos os seus projetos. Ele “fala as palavras de Deus e dá o Espírito sem medida”. Aceitar seu testemunho significa aderir a ele, acreditar nele, renascer dele, prosseguir sua missão. E aqui está o segredo de uma vida que não conhece ocaso, que tem beleza e plenitude que a morte não rouba. Para tanto, precisamos abandonar a postura de mestres e assumir a atitude de discípulos.

Aprendamos dos apóstolos, e vivamos como eles. Diante das ameaças e restrições impostas pelo Sinédrio, eles reagem intrépidos, acusando as elites religiosas de terem assassinado Jesus e afirmando que “é preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (cf. At 5,27-33). Ou seja: temer mais a Deus que a perda dos privilégios.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa, palavra por palavra, este episódio ambientado na região onde João Batista cumpriu sua missão

O que significa reconhecer que Jesus está acima de todos? Seria isso que entendem as pessoas que repetem o mote do Bolsonaro?

Entre tudo o que Jesus fez e ensinou, qual é a palavra/ação de Jesus que revela Deus de modo mais claro e significativo?

O que Jesus faz com tudo o que ele diz que o Pai colocou nas suas mãos?

Como é que as pessoas podem perceber que você, sua família e sua comunidade aceitaram o testemunho de Jesus?

terça-feira, 14 de abril de 2026

Deus não pode não amar

Punir e condenar não é coisa de Deus.

1051 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Quarta-feira | João 3,16-21

Estamos ainda no contexto literário da cena e da catequese que começamos a meditar na segunda-feira e prosseguimos no dia de ontem. Tendo procurado Jesus à noite, momento preferido pelos judeus para estudar e acolher a Palavra, Nicodemos ouviu dos lábios de Jesus que seu saber não servia para nada, que, para ver o Reino de Deus, ele precisaria desaprender, nascer de novo.

Para um doutor da Lei, como é o caso de Nicodemos, a palavra de Deus é substancialmente uma Lei que classifica e separa, condenando uns e absolvendo outros. Por isso, os fariseus esperavam a vinda de um Messias que, com a Lei na mão, punisse aqueles que não conseguissem cumpri-la, ou que a própria Lei excluía de toda e qualquer chance de dignidade e de vida.

Continuando sua catequese a Nicodemos, Jesus afirma, sem meias-palavras, que a relação de Deus com o mundo é uma relação de amor, e não de julgamento ou classificação. Deus envia seu Filho, Jesus de Nazaré, para que as pessoas que o aceitam e aderem ao seu caminho vivam mais plenamente. Ele não veio em vestes de juiz que julga e condena, mas em vestes de servo e companheiro cuida da vida.

Jesus é como Luz que ilumina, e não como Lei que discrimina. Ele nos ensina que a vontade de Deus é boa, e é boa para toda a humanidade e para as demais criaturas, sem discriminação. É no seu amor sem medida que brilha o ser e o agir de Deus, e não na Lei, que coloca as pessoas umas acima das outras, todas distantes, indiferentes ou competidoras entre si.

Mas há gente que prefere outra luz e outro saber, que não passam de idiotice violenta. Há quem chegue a afirmar que a pandemia e as enchentes, que feriram e mataram tantas pessoas, foram vingança de Deus. Como seu Deus não amasse o mundo a ponto de dar seu próprio Filho... O amor incondicional de Deus, manifestado em Jesus, é a verdade. E a prática fiel desse amor é que nos liberta e nos mantém no caminho que leva à Luz. E nós alcançamos essa luz nós amando-nos uns aos outros, e não armando-nos, como querem alguns setores amantes da violência.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa, palavra por palavra, este episódio e este diálogo tenso entre Nicodemos e Jesus

Recite de memória as palavras de Jesus: Deus amou tanto o mundo; para que o mundo seja salvo; os homens preferiram as trevas à luz...

O que significa concretamente esta afirmação: “Deus amou o mundo” (e não apenas as pessoas, as almas)?

E o que entendemos quando falamos “amor”: é substantivo (coisa) ou é verbo (ação, relação)? Sentimento ou decisão?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Somos atraídos pela cruz

O batismo é a regeneração na cruz de Jesus

1050 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Terça-feira | João 3,7-15

No diálogo com o fariseu Nicodemos, Jesus insiste que, para nascer de novo, para ver e participar do Reino de Deus, é preciso nascer do alto, o que significa nascer da cruz, do crucificado, do “levantado”, no amor que esvazia para servir. Para Jesus, a vida não está na volta ao passado, mas no novo começo. Nicodemos, porém, se apega ao passado, a um determinismo que exclui a possibilidade de mudança.

“Nascer do alto” significa renascer no Espírito. “Carne” representa o ser humano inacabado, a condição humana frágil e incapaz de amar: a raça, o povo, a estrutura, a instituição. Os fariseus e o aparato da Lei que eles defendem, fazem parte da carne, mas eles imaginam que ela seja acabada e perfeita. Espírito representa o reino de Deus, a universalidade, a esfera divina, excelente e invisível, não manipulável.

Na perspectiva do diálogo formativo de Jesus com Nicodemos, percebemos que o Verbo encarnado e crucificado ocupa o lugar da Lei. Se entramos no dinamismo do Reino de Deus, somos guiados e julgados pelo amor, e é por esse critério que são aferidas a bondade ou a maldade das ações e instituições humanas. Em Jesus, seu Filho amado, Deus não age como juiz, mas como amante e doador da vida.

O conhecimento suscitado pelo Espírito não se opõe à reflexão e ao estudo, mas atesta a insuficiência destes. Para acessar o coração do mistério de Deus a fé é necessária, mas a fé é mais que simples confiança na palavra de uma pessoa considerada superior. Fé é a elevação e universalização do nosso pensar e do nosso agir, ordenando-os à busca de soluções humanas para os problemas humanos.

Podemos falar então de iluminação interior. Mas esse dom da iluminação supõe uma disponibilidade de coração e uma verdadeira liberdade interior que nos capacita a abandonar saberes aparentemente seguros. Esta sabedoria é fruto da Palavra de Deus. E nós somos chamados a descobrir na sua leitura e meditação. Aproveitemos a noite, o tempo da Palavra.

 

Sugestões para a meditação

Retome o texto de ontem, pois ambos estão interligados, e a compreensão de um depende do entendimento do outro

Para ser conduzido pelo Espírito não basta rezar e cantar com emoção, falar em línguas: é preciso renascer no amor solidário

Todos corremos o risco de imaginar-nos “mestres” nos assuntos de religião, esquecendo que, sobre Deus, estamos sempre no “bê-á-bá”

Tenhamos bem presente que o Jesus glorificado e exaltado o é, especialmente, enquanto crucificado por amor

domingo, 12 de abril de 2026

Velhas e novas mentiras

“Pega na mentira, corta o rabo dela...”

Em 1981, Erasmo Carlos lançou uma canção na qual ironiza mentiras imaginadas e mentiras assimiladas pela nossa cultura. “Já gravei um disco voador; disse a Castro Alves seu valor; vi papai Noel numa favela; o Brasil não gosta de novela. Já não morre peixe, na lagoa; passa todo mundo no vestibular. Pega na mentira, pisa em cima, bate nela...”

Há dois mil anos atrás, para desacreditar o testemunho de mulheres que afirmavam que Jesus de Nazaré havia ressuscitado, os homens do templo subornaram os soldados romanos para que divulgassem uma mentira: “Digam que os discípulos deles foram à sepultura durante a noite e roubaram o corpo enquanto vocês dormiam” (Mateus 28, 13).

Em determinados ambientes, a mentira é vista como um ‘ativo’ importante. No mundo dos negócios, especialmente na publicidade, a mentira é geralmente considerada uma demonstração de esperteza, e a pessoa mentirosa é elogiada. A mentira deixa de ser vício e se reveste de virtude. A mentira adquire beleza, e ninguém pega ou corta o rabo dela.

Alguns anos atrás escutei descrente a afirmação de que iniciávamos a era da pós-verdade. Não imaginava o que nos esperava. Hoje, a mentira nos envolve por todos os lados, rebatizada com o nome de fake. Ela não frequenta mais apenas o mundo da publicidade; ela nos visita diariamente, entrando pela porta das redes e meios de comunicação social.

Separar o joio do trigo, ou melhor, distinguir o que é verdade e o que é mentira tornou-se um trabalho digno de Hércules. No mundo da política, a mentira tornou-se moeda corrente, e a verdade é sacrificada diariamente no altar do deus dos interesses. Acabamos quase acreditando que os candidatos querem se sacrificar pelo bem comum.

A mentira deixou de ser uma questão estrita à moral individual e passou a ser uma arma que mata reputações e pessoas. Se você duvida, ou considera minha afirmação exagerada, considere as razões e ‘verdades’ apresentadas pelos senhores da guerra (Trump, Putin, Netanyahu e caterva) para justifica-la.  A mentira tornou-se arma letal e armadura de defesa. Por isso, urge chamar a mentira pelo nome, pisar e bater nela, cortar o rabo dela.

Para Jesus de Nazaré, quem mente reiteradamente transforma o mundo num mercado de negócios, é homicida e filho da mentira, do Inimigo, de Satã. Falando aos dirigentes do templo, ele ataca: “Vós tendes por pai o Diabo, e quereis fazer o que o vosso pai deseja. Ele era homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade. Quando fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira” (João 8,44).

Precisamos nascer de novo

Felizes os que põe sua esperança no Senhor!

1049 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Segunda | João 3,1-8

Depois de ler e rezar, por uma semana, os relatos evangélicos da ressurreição de Jesus, agora somos convidados a voltar nossa atenção a algumas cenas e palavras anteriores à sua paixão e morte, mas que precisam ser lidas à luz da sua ressurreição. Nas próximas duas semanas, meditaremos os capítulos 3 e 6 de São João.

Depois de transformou água em vinho bom, sinal da novidade alvissareira do Reino de Deus, Jesus se dirige às margens do mar da Galileia, lugar de encontro dos judeus que se põem a caminho para a festa da pascoa, em Jerusalém. Jesus também quis festejar a páscoa dos hebreus no templo, mas lá acabou enfrentando os comerciantes. Isso ocorreu logo no início da sua missão, e complicou todos os seus dias posteriores.

Por causa daquilo que fazia e ensinava, Jesus vai sendo progressivamente contestado. A principal oposição veio dos fariseus e dos saduceus. Na cena de hoje, Jesus se encontra com Nicodemos, que é um fariseu importante, chefe de um grupo de fariseus, membro do Conselho chamado Sinédrio. É um diálogo muito relevante, pois é com uma pessoa que entende da Lei.

Nicodemos procura Jesus à noite. A noite é o espaço da dissimulação, para passar despercebido. Mas é também o tempo do estudo da Lei, o espaço do encontro com a Palavra de Deus. Mesmo agarrado às tradições que conhece e ensina, parece que Nicodemos deseja ouvir uma Palavra nova e significativa para o seu contexto. Para ele, porém, Jesus não passa de um reformador, um mestre igual a ele e seu grupo.

Nas palavras de Nicodemos, transparece seu sentimento de superioridade e segurança, próprio dos fariseus. Ele começa dizendo “nós sabemos...” Jesus questiona e contesta este saber que incha, eleva e domina. O conhecimento que nos dá acesso ao Reino de Deus é outro, e supõe nascer de novo, aprender da cruz, ser regenerado pelo Espírito, colocar-se no caminho de Jesus, mesmo sem saber onde vai terminar. Escutemos sua Palavra e deixemo-nos guiar por ela.

 

Sugestões para a meditação

Como você teria reagido diante da resposta de Jesus? Você sente a tentação de criar imagem de Jesus a seu gosto?

O que significa, na situação de você vive hoje, regenerar-se (nascer de novo), nascer de Jesus crucificado por amor?

Quais são as ideias sobre Deus e a religião que você precisa superar para acolher Jesus Cristo e seu Evangelho?

Como comportar-se de modo maduro e responsável em tempos de pandemia e distanciamento social?

sábado, 11 de abril de 2026

Paz e missão

“Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês!”

1048 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Domingo | João 20,19-31

Era noite, e as portas estavam muito bem fechadas. Os discípulos estavam desanimados, envergonhados, amedrontados, sem perspectivas. Ao medo da possível perseguição por parte das autoridades judaicas se juntava a frustração pela imagem terrível e pesada de um Messias crucificado, sem poder, abandonado por todos, e até, aparentemente, por Deus.

Mas os muros do remorso e do medo não impedem a manifestação de Jesus, e ele se faz presente não obstante as portas trancadas. E a sua primeira palavra é de acolhida e pacificação: “A paz esteja com vocês!” E lhes mostra as feridas nas mãos e no lado esquerdo, assegurando com isso que sua história concreta é importante, que sua presença não é mera fantasia e que seu amor fiel e solidário continua na história.

A alegria pascal não brota apenas da certeza na nossa ressurreição futura, mas também da experiência atual de não sermos condenados, de sermos aceitos como amigos de Jesus de Nazaré. Mas a fé na ressurreição esconde um risco: podemos ficar tão extasiados com as imagens de anjos, pelas palavras de paz, pela visão de um Cristo exaltado, que esquecemos que nossa missão está apenas começando.

Por isso, depois de entregar sua paz, Jesus confere aos discípulos uma missão: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”. Trata-se de continuar seu próprio trabalho de carregar nas costas pecado estruturado no pecado. E essa missão urge, não pode ser adiada para quando tivermos tempo. O pecado que não eliminarmos permanecerá aqui, diminuindo e ferindo a vida de muita gente.

O pecado é a cumplicidade com a injustiça, e perdoar os pecados significa dissolver os laços que vinculam as pessoas a essa cumplicidade. Abraçar a fé em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado nos vincula aos irmãos e irmãs, à partilha dos bens “conforme a necessidade de cada um”, à alegria radiante, à simplicidade profunda e cordial. Faz de nós uma Igreja sinodal, solidária e em saída às periferias.

 

Sugestões para a meditação

As portas e janelas fechadas não impedem a presença do Senhor ressuscitado; será que ocorre o mesmo com o fechamento mental?

Qual é o maior obstáculo para reconhecer a presença de Jesus ressuscitado e prosseguir sua missão de tirar o pecado do mundo?

Segundo sua experiência, somente quem vê pode crer, ou será que somente quem crê consegue ver corretamente o que é essencial?

Você se sente incluído nessa bem-aventurança de Jesus: Felizes aqueles que creram sem terem visto?

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sejam minhas testemunhas!

Superamos o medo pela fé na Ressurreição?

1047 | Oitava da Páscoa | Sábado | Marcos 16,9-15

Entre o primeiro relato de Marcos sobre a ressurreição de Jesus (16,1-7) e o relato de hoje (16,9-15), há um versículo problemático, omitido pela liturgia pascal: “Saindo, (as Marias) fugiram, pois estavam tomadas de tremor e espanto. E não contaram nada a ninguém, pois tinham medo”. Como entender este medo e este silêncio?

Marcos faz questão de não romancear o papel dos primeiros apóstolos. A aventura de Jesus não tem um final feliz, como as narrativas imperiais e de Hollywood. A narrativa de Marcos termina com uma pergunta não expressa, mas envolvente, dirigida aos leitores e discípulos: vocês e aquelas mulheres superaram o medo e recomeçaram o seguimento de Jesus na Galileia, para onde ele foi, à nossa frente?

Isso ressoa como uma advertência para não cairmos em leituras facilitadoras, como reabilitar a primazia do papel masculino; imaginar Jesus como um profeta poderoso; tirar Jesus da terra e instalá-lo “no alto dos céus”. No evangelho de Marcos, Jesus oferece poucas respostas, mais ainda se fazemos as perguntas erradas. Mas ele nos chama a tomar uma posição. E Marcos nos apresenta apenas Jesus “no alto” da cruz e caminhando à nossa frente, esperando-nos nas “periferias”.

O epílogo de hoje (v. 9-15) faz parte de uma releitura do texto original de Marcos. De qualquer modo, as mulheres testemunham aos apóstolos aquilo que viram, mas não dão crédito às mulheres, e nem a dois outros discípulos que diziam ter encontrado Jesus no caminho. Por isso, recebem uma advertência de Jesus, “por causa da falta de fé e da dureza de coração”, por não acreditarem nas testemunhas.

O texto, o último de Marcos, termina com um novo mandato missionário. A experiência que brota da fé na ressurreição de Jesus nos leva a recomeçar o caminho do discipulado na periferia das “galileias”, e nos envia a percorrer o mundo e viver anunciando o Evangelho do Deus compassivo e crucificado pela humanidade a todos os povos e criaturas.

 

Sugestões para a meditação

Como entender que as pessoas mais “confiáveis” e próximas de Jesus resistam tanto em aceitar sua ressurreição?

Será que nós também corremos o risco de desviar a atenção e tomar distância de Jesus crucificado e do chamado a voltar à Galileia?

Temos consciência de que a afirmação da ressurreição de Jesus não nos livra da morte e confirma num caminho pleno de riscos?

Preferimos um Jesus que “sobe aos céus” ou um Jesus que é “elevado na cruz”, “desce aos infernos” e nos precede nas “periferias”?

Sob a força do Espírito

VIVER DA SUA PRESENÇA

O relato de João não poderia ser mais sugestivo e interpelante. Só quando veem Jesus ressuscitado no meio deles é que o grupo de discípulos se transforma. Recuperam a paz, desaparecem os seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, sentem o sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas porque se sentem enviados a viver a mesma missão que ele recebeu.

A crise atual da Igreja, os seus medos e a sua falta de vigor espiritual têm origem num nível profundo. Com frequência, a ideia da ressurreição de Jesus e da sua presença entre nós é mais uma doutrina pensada e pregada do que uma experiência vivida. Tanto faz se há ou não ressurreição.

Cristo ressuscitado está no centro da Igreja, mas a sua presença viva não está enraizada em nós, não está incorporada à substância das nossas comunidades, não alimenta habitualmente os nossos projetos. Após vinte séculos, Jesus não é conhecido nem compreendido na sua originalidade. Não é amado nem seguido como foi pelos seus primeiros discípulos.

Nota-se logo quando um grupo ou uma comunidade cristã se sente habitada por essa presença invisível, mas real e ativa, de Cristo ressuscitado. Não se contentam em seguir as diretrizes que regulam a vida eclesial. Possuem uma sensibilidade especial para escutar, buscar, recordar e aplicar o evangelho de Jesus. São os espaços mais saudáveis e vivos da Igreja.

Nada nem ninguém nos pode oferecer hoje a força, a alegria e a criatividade de que precisamos para enfrentar uma crise sem precedentes como pode fazê-lo a presença viva de Cristo ressuscitado. Privados do seu vigor espiritual, não sairemos da nossa passividade quase inata, continuaremos com as portas fechadas ao mundo moderno, seguiremos fazendo o que está mandado, sem alegria nem convicção. Onde encontraremos a força de que precisamos para recriar e reformar a Igreja?

Temos que reagir. Precisamos de Jesus mais do que nunca. Precisamos viver da sua presença viva, recordar em toda ocasião os seus critérios e o seu Espírito, repensar constantemente a sua vida, permitir que ele inspire as nossas ações. Ele pode transmitir-nos mais luz e mais força do que ninguém. Ele está no meio de nós comunicando-nos a sua paz, a sua alegria e o seu Espírito.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Uma pesca frustrante

As noites escuras e o desejo de voltar atrás

1046 | Oitava da Páscoa | Sexta-feira | João 21,1-14

Os relatos dos evangelhos nos levam a compreender que a ressurreição de Jesus está ligada ao testemunho da tumba vazia, mas passa necessariamente pela experiência pessoal da presença do crucificado e ressuscitado, e desemboca ao testemunho vivo, corajoso e público de que ele vive, e seu projeto de vida continua válido.

No episódio do evangelho de hoje, João relata como Jesus aparece uma terceira vez, a sete apóstolos, às margens do lago de Tiberíades. É difícil entender por quê, mesmo depois da manifestação a portas fechadas na noite da páscoa, do sopro do Espírito Santo sobre eles, e da nova manifestação com a presença de Tomé, os discípulos continuam desanimados e incrédulos.

Envolvidos por uma noite existencial e ideológica, sete membros do grupo dos Doze, liderados por Pedro, decidem retomar o ofício que haviam abandonado para seguir Jesus. É como se o sonho tivesse acabado em pesadelo, e como se o único desejo deles fosse voltar aos voos rasteiros de antes. Mas acabam amargando uma frustração ainda mais forte e profunda que aquela provocada pela crucifixão de Jesus.

Além de estarem sem rumo, os discípulos sentem também a falta de algo que os alimente. Eles haviam esquecido que o alimento do discípulo é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34), e que só em Jesus eles encontram palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Na fuga para trás, vivem a noite escura da fé e tateiam sem rumo. Para reencontrar a vida, precisam confiar de novo na Palavra de Jesus. E é isso que fazem.

Mesmo sem saberem de quem partia a ordem, eles lançam de novo a rede. E, além de um inesperado êxito na pesca, recuperam a coragem de se jogarem no mar bravio do testemunho. Diante da pesca abundante, mas ainda dolorido pelas suas repetidas negações durante a paixão de Jesus, Pedro se joga no mar e vai ao encontro dele, que espera e recebe os discípulos com peixe assado e pão. Mas a impressão é que a reação deles é uma mistura de vergonha e desconfiança, sem sinais de alegria...

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena depois da manifestação de Jesus a Tomé e aos demais apóstolos

Preste atenção nos gestos e palavras: pergunta se eles têm pão; manda lançar as redes de novo; oferece peixe e pão

O que significa a decisão de voltar à pesca, o insucesso que experimentam, e uma nova tentativa à ordem de Jesus?

O que esse terceiro encontro de Jesus crucificado e ressuscitado com seus discípulos significa para nós hoje?