segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Evangelho e tradições

Por que não seguimos as tradições antigas?

1162 | Tempo Comum | Semana XVIII | Terça | Mateus 15,1-14

No capítulo 15, Mateus apresenta vários episódios focalizados no reconhecimento ou confirmação de Jesus como enviado pelo Pai para realizar seu reinado no mundo O texto de hoje omite os v. 3 a 9, nos quais Jesus acusa os fariseus e doutores da lei de substituir e esterilizar a Lei de Deus por tradições humanas que eles inventaram e ensinam, e de crer e louvar a Deus apenas da boca para fora.

O episódio começa com a aproximação dos fariseus e escribas para acusar os discípulos de Jesus de desrespeitar as tradições do judaísmo. Por trás dessa acusação, está a crítica ao próprio Jesus, que subordina as tradições e o legalismo frio à misericórdia. Jesus responde aos doutores da lei priorizando a pureza ética (purificação do coração) à pureza cultual, e insiste que seus discípulos devem compreender e assimilar essa novidade e essa mudança.

Os representantes do judaísmo oficial se escandalizam com a liberdade ensinada e praticada por Jesus e desaparecem. Eles não reconhecem a autoridade de Jesus diante das tradições que lhes conferem segurança e poder. Na continuidade e na ausência deles, Jesus volta sua “catequese” aos discípulos, mas não deixa de criticar dura a abertamente as práticas dos fariseus e doutores da lei.

Além de citar o profeta Isaías para acusá-los de falsidade e engano, Jesus diz que as tradições que eles defendem não são inspiradas por Deus, não são plantas de Deus e, por isso, serão arrancadas e não ficará nada. E conclui pedindo que ninguém os leve em consideração: os doutores da lei são cegos que se propõe a guiar outros cegos, e essa pretensão acabará seguramente em desastre para ambos.

Este episódio ressoa como ensino e advertência aos discípulos e à Igreja como um todo. Todos precisamos escutar e compreender o ensino de Jesus. Nada deve ser colocado acima ou em lugar desse ensino. E devemos estar muito atentos para não colocarmos os nossos planos, costumes e tradições acima do Evangelho da compaixão e do serviço a vida. A vida de uma pessoa vulnerável vale mais que noventa e nove missas e mil ave-marias...

 

Sugestões para a meditação

Procure participar mentalmente das cenas: o questionamento feito a Jesus pelos escribas e fariseus, a resposta de Jesus, a retirada desiludida deles, o ensino incisivo às multidões e aos discípulos

Como ressoa em você, e consequências tem para a vida eclesial, a afirmação de Jesus de que “é o que sai da boca das pessoas que as torna impuras” e que aqueles que substituem a Palavra de Deus pelas suas tradições “são cegos guiando cegos”?

Em que medida alguns costumes e tradições da sua família e da sua comunidade correm o risco de anular a vontade de Deus colocando-se acima da Palavra de Deus? Quais?

domingo, 2 de agosto de 2026

Medo é falta de fé

Jesus segura a mão de quem a estende ao pobre

1161 | Tempo Comum | Semana XVIII | Segunda | Mateus 14,22-36

Depois de saciar a multidão faminta com a partilha solidária de pão e peixe, Jesus envia os discípulos à sua frente e se retira para rezar durante toda uma noite, sozinho, como ensinara aos seus discípulos. Em oração, ele renova seu compromisso para que o nome do Pai seja santificado, que que venha seu reino, sua vontade seja feita, e que o pão chegue a todas as mesas.

Paralelamente, já no meio do mar e da noite, o barco dos discípulos é agitado pelo vento e pelas ondas. Certamente a agitação é também interior, frente à compaixão de Jesus pelo povo e à convocação de todos a colaborarem com o atendimento às suas necessidades essenciais. O mar representa todas as forças adversas, tanto interiores como exteriores, inclusive a pressão do império romano.

A aproximação de Jesus em meio ao mar agitado e ameaçador não resolve a situação, e até a torna mais grave, pois, pensando que ele fosse um fantasma, os discípulos começam a gritar de pavor e medo. Por isso, as primeiras palavras de Jesus são para acalmar e encorajar seus seguidores, insistindo que eles estão vendo ele mesmo, que ele não é uma fantasia deles. Ao fazer seu pedido, Pedro deixa entrever que a dúvida sobre quem é que se aproxima continua.

A aparente fé e submissão de Pedro a Jesus denota um certo desejo de participar do poder que é próprio de Jesus, mas não consegue disfarçar o medo e a fragilidade que o envolvem e são mais profundas que a própria fé. Quando ele grita de medo, temendo mais as ondas e o vento, Jesus lhe estende a mão e adverte: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” E, assim que ele entra no barco, tudo se acalma, e Jesus é reconhecido pelos seus discípulos como Filho de Deus.

As tribulações e riscos fazem parte da vida dos discípulos de Jesus: medo, cansaço, incompreensão, vontade de abandonar tudo. Mas precisamos deixar sua palavra ressoar forte em nossos ouvidos e em nosso coração e segurar a mão que ele nos estende. É assim que teremos condições de prosseguir, com e como ele, o ministério de restaurar a vida dos pobres, predominante para os ministros ordenados, mas comum a todas as vocações e ministérios eclesiais.

 

Sugestões para a meditação

Procure participar das três cenas: Jesus retirando-se para uma noite de oração; os discípulos no meio do mar agitado pelas ondas, gritando de pavor no meio da noite; a aproximação de Jesus, seu diálogo com Pedro e a calmaria que se fez

Tente perceber o conteúdo do diálogo orante de Jesus com o Pai: certamente ele faz menção à morte de João Batista, à sua compaixão pelo povo, ao pão tornado acessível a todos, aos discípulos que ele havia enviado à sua frente

Recorde situações de aperto e desespero pelas quais você passou, e como a fé na presença de Jesus lhe ajudou

sábado, 1 de agosto de 2026

Uma operação matemática surpreendente

Que o pão da vida chegue a todas as mesas!

1160 | Tempo Comum | Semana XVIII | Domingo | Mateus 14,13-21

Depois de ter provocado escândalo na sua própria terra e de ter tomado conhecimento da prisão e do martírio de João Batista, Jesus parte para uma região deserta e afastada, tomando distância dos lugares onde o poder mostra mais sua ferocidade. Não quer entrar num jogo de cartas marcadas e assume conscientemente a margem. Sente necessidade de outros ares e de buscar inspiração junto ao Pai.

As multidões cansadas e abatidas deixam as cidades e seguem Jesus a pé. Têm a intuição de que é da periferia que pode nascer uma alternativa. Sabem que os centros de poder são como uma figueira estéril. Jesus vê a multidão e, movido pela compaixão, cura e reinsere na sociedade muitas pessoas doentes e marginalizadas. Para ele, socorrer seu povo não é um apêndice da missão, mas sua razão de ser!

No entardecer das possibilidades de ajuda, os discípulos percebem a fome do povo, mas não conseguem vislumbrar uma solução fora da lógica do império. E pedem que Jesus despeça a multidão para que cada se vire. Querem entregar os famintos às leis do mercado, bem ao estilo do “cada um para si e Deus por todos”. “Eles não precisam ir embora. Vocês é que têm de lhes dar de comer”.

Os discípulos tentam disfarçar seu descompromisso sublinhando os exíguos recursos disponíveis frente a tão grande necessidade. Mas está longe do pensamento de Jesus uma Igreja feita apenas de doutrina e de ritos religiosos, uma comunidade que se compraz em lavar as mãos diante das tragédias que se abatem sobre o povo. Ele não tolera instituições que entregam seus membros à lógica dos impérios!

“Tragam isso aqui”, diz Jesus. Ele quer deixar bem claro que a saída não é nem cada um pensar em para si, nem considerar o povo faminto um simples objeto de caridade. Para Jesus, o povo é soberano, e as autoridades religiosas e políticas devem estar a seu serviço. Mas não é cristão um amor que se preocupa apenas com a vida dos membros da sua denominação eclesial ou dos seus compatriotas!

O alimento suficiente para saciar a multidão faminta aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos colaboram com ele. Hoje, o cumprimento da ordem “deem vocês mesmos de comer” começa com a adoção de um estilo de vida sóbrio pelos setores sociais e povos ricos e com a erradicação da exploração comercial dos países ricos sobre os pobres. É para isso que a Eucaristia nos remete e conduz.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe Jesus e os discípulos na sua retirada para o deserto, alertado pelo martírio de João Batista e a “procissão” de pessoas necessitadas que os seguem

O que significa, para você, sua família e sua comunidade a ordem de Jesus: “Deem-lhes vocês mesmos de comer”?

Como poderíamos evitar o desperdício de alimentos em nossa própria casa, e destiná-los a quem deles necessita?

Mesa é partilha

COMO ABENÇOAR A MESA?

Quase sem nos darmos conta, e empurrados por diversos fatores, fomos desumanizando pouco a pouco esse gesto tão íntimo e humano que é sentar-se à mesa para comer juntos.

A refeição tornou-se, para muitos, algo puramente funcional que é necessário organizar de forma rápida e precisa dentro do dia de trabalho. Cada vez é mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar à volta da mesa. Em muitos lares, essa mesa feita para ser rodeada já não serve para que pais e filhos se encontrem, partilhem as suas vidas, conversem e descansem juntos.

Outros vão-se habituando a alimentar o organismo em refeições impessoais de restaurantes ou no canto do self-service de turno. Muitos são obrigados a participar em refeições protocolares ou de trabalho, onde o gesto amistoso de comer juntos é substituído pelo interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus ao convidar as pessoas a recostarem-se para partilhar uma refeição simples, bendizendo a Deus pelo pão recebido, pode ser um apelo para nós. Como expõe com riqueza Xabier Basurko no seu estudo “Partilhar o pão”, comer é muito mais do que introduzir uma determinada dose de calorias no organismo.

A necessidade de nos alimentarmos é, antes de mais, sinal da nossa indigência radical. De forma obscura, os seres humanos percebem que não se sustentam a si mesmos. Na verdade, vivemos recebendo, nutrindo-nos de uma vida que, através da terra, nos é oferecida dia após dia. Por isso é um gesto profundamente humano recolher-se antes de comer para agradecer a Deus esses alimentos, fruto do esforço e trabalho do homem e, ao mesmo tempo, dom originário do Deus criador que sustenta a vida.

Mas, além disso, comer não é apenas um ato individualista de caráter biológico. O ser humano está feito para comer com outros, partilhando a mesa com familiares e amigos. Comer juntos é confraternizar, dialogar, crescer em amizade, partilhar o dom da vida.

Por isso é tão difícil dar graças a Deus quando se tem mais comida do que a necessária enquanto outros sofrem miséria e fome. Sentimo-nos acusados por aquelas palavras de Gandhi: «Tudo o que comes sem necessidade estás roubando ao estômago dos pobres».

Talvez nos países do bem-estar tenhamos de aprender a benzer a mesa de outra forma: dando graças a Deus, mas, ao mesmo tempo, pedindo perdão pela nossa falta de solidariedade e tomando consciência da nossa responsabilidade perante os famintos da Terra.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O profeta e o Rei

 

Os profetas revelam a fraqueza dos poderosos

1159 | Tempo Comum | Semana XVII | Sábado | Mateus 14,1-12

A notícia sobre a trama que levou o profeta João Batista à morte não é uma espécie de parênteses sem relevância na descrição da pregação e da missão de Jesus, embora possa parecer isso. O episódio é uma antecipação daquela que seria a sorte de Jesus e um alerta aos discípulos: eles precisam ser lúcidos e corajosos, não fechar os olhos frente à prepotência e não ter medo.

Herodes é um político judeu que exerce um poder limitado, concedido ou, pelo menos, tolerado pelo imperador de Roma e a serviço dele. É um príncipe pequeno e insignificante, que entra em colisão com o Reino de Deus anunciado por Jesus e age com prepotência contra seu irmão, se apossando de sua esposa. É contra essa prepotência, e contra outros desmandos e injustiças que reinavam na corte, na sociedade e no judaísmo, que João Batista se levanta corajosamente.

Mateus deixa claro que Herodes deseja eliminar o incômodo profeta. Ele teme que a pregação de João acabe provocando uma revolta popular, e, dada a popularidade que desfruta, tem que esperar a ocasião perfeita, para não perder completamente o apoio do povo. E a ocasião se lhe oferece numa festa que reúne a elite masculina do seu reino e chama mulheres como parte da diversão e das orgias. Dançar no meio dos homens significava insinuar-se o oferecer serviços sexuais.

E João Batista, que não come nem bebe, acaba tendo o seu destino definido numa festa com comida, bebida e dança. Atendendo ao pedido de sua mulher, Herodes valoriza mais os códigos de honra da família patriarcal que os mandamentos de Moisés. Herodes é o responsável pela morte de João, pois há tempos desejava matá-lo. Sua mulher não tinha poder para tanto. Herodes se aproveita da situação, inclusive do pedido dela, para eliminar um crítico incômodo e assegurar a benevolência do império romano.

Jesus é informado do desfecho da vida do profeta e amigo, mas isso não o intimida, nem diminui sua fidelidade no anúncio e na construção do Reino de Deus. Antes, ele colhe essa ocasião para perceber e sublinhar a urgência e a relevância da sua missão. Por mais belas e estimulantes que sejam as parábolas do Reino de Deus, a sua realização encontra violenta resistência.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esse relato, e perceba o papel de cada personagem na execução de João Batista

Recorde o nome de profetas e profetizas que marcaram a vida dos cristãos nos últimos tempos

Deixe-se estimular e motivar pelo testemunho de João Batista e dos profetas e profetizas que você recordou

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O poder do preconceito

O preconceito impede as ações libertadoras

1158 | Tempo Comum | Semana XVII | Sexta | Mateus 13,54-58

Depois de uma longa seção dedicada ao anúncio do Reino de Deus às multidões em forma de parábolas, e depois de algumas catequeses especiais dirigidas aos discípulos, Jesus volta à sua terra e vai à sinagoga de Nazaré, onde seus amigos e familiares costumavam se reunir. A notícia da sua ação emancipadora, assim como a clareza e a pertinência do seu ensino, impressionara a todos.

Mas também nessa ocasião e nesse episódio emerge a dificuldade que os diversos grupos de interlocutores têm de reconhecer na ação e no ensino libertário de Jesus a ação libertadora de Deus. Essa dificuldade para discernir a identidade de Jesus é abordada por Mateus do capítulo 11 ao capítulo 16 da sua versão do Evangelho, mas o que surpreende é que ela se estende também aos seus conterrâneos e familiares.

O povo da cidade de Nazaré, mesmo se encantando e admirando com ensino e com o poder transformador das ações de Jesus, acaba tropeçando nos preconceitos próprios das pequenas cidades e das pessoas que o conhecem de perto. Seus conterrâneos começam a se perguntar onde ele teria encontrado tal sabedoria e tal poder, já que tem uma origem humilde e não pertence a uma elite cultural ou religiosa. Eles não conseguem defini-lo fora do seu contexto familiar. Para eles, o enviado de Deus deveria vir de cima, e não de baixo; do centro, e não da periferia.

Para o senso comum, no qual se moviam o povo de Nazaré e a família de Jesus, a origem humilde e o fato de ser filho de carpinteiro impede que Jesus possa ser o ungido e enviado por Deus. A sinagoga acaba sendo o joio no meio do trigo, e a querida Nazaré acaba se comportando como Corazim, Betsaida e Cafarnaum, povoados que se fecharam à novidade escandalosa e provocativa do Reino de Deus.

Jesus interpreta a rejeição dos seus familiares e conterrâneos no horizonte da histórica resistência e perseguição que se voltam contra todos os profetas. E esta notória falta de fé do povo de Nazaré acaba impedindo a ação libertadora de Jesus na sua própria cidade. Como sabemos, a fé não é uma reação de convencimento diante de um fato miraculoso, mas uma atitude de abertura que precede o milagre.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida, e em que ocasiões, você também foi vítima do preconceito das pessoas mais próximas e conhecidas?

Não aconteceu de você se escandalizar diante da Palavra ou da ação de Jesus? Nestas circunstâncias, o que você faz?

Como Jesus Cristo e seu Evangelho podem nos ajudar a não reduzir as pessoas aos seus erros, à profissão que exerce ou à origem familiar?

Será que a mentalidade fechada e o preconceito às vezes também não nos impedem de crer em processos de mudança?

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A história dos peixes na rede

O Reino de Deus é belo, precioso e exigente

1157 | Tempo Comum | Semana XVII | Quinta | Mateus 13,47-53

Jesus termina a sessão das parábolas do Reino de Deus demonstrando sua preocupação em ser entendido pela multidão e com uma boa formação para os discípulos: “Compreendestes tudo isso?” “Tudo isso” se refere às parábolas e ao dinamismo do Reino de Deus e ao seu ensino como um todo. Ele sabe que entre a escuta e a compreensão há um longo caminho de conversão a ser percorrido. E nós também sabemos que a conversão é um dinamismo belo, mas exigente.

Compreender significa aderir à Boa Notícia do Reino de Deus e colocá-la em prática, e Jesus tem plena consciência do risco de que seus ouvintes não consigam ou não queiram mudar sua mentalidade e visão de Deus e do mundo. E os fatos posteriores mostrarão as dificuldades reais dos discípulos em compreender e mudar. O caminho da conversão de mentalidade é longo e exigente!

Com a explicação da parábola da rede que pega uma grande diversidade de peixes, peixes bons e peixes ruins, Jesus volta à questão das práticas de vida contrastantes, tanto na sociedade como na comunidade dos discípulos e discípulas. Os peixes maus ou inaproveitáveis são as pessoas, grupos e setores que resistem aos propósitos de Deus manifestados por Jesus; os bons são os discípulos que perseveram no longo e complexo caminho do amadurecimento.

A tentação do fundamentalismo e da separação dos discípulos, que se julgam bons e puros, dos outros, considerados maus, é permanente, assim como o risco de ficar nas velhas tradições herdadas, nas “antigas lições de viver pela pátria e viver sem razões”. Cada nova geração precisa entender claramente a dinâmica do Reino de Deus na história, que comporta tensões, ambivalências, imperfeições, crescimento. Mas, no final, o mal e os malvados não terão a última palavra.

Tonar-se discípulo de Jesus implica em compromisso real e consequente com ele e na disposição para aprender sempre, para mudar e alargar a visão e os padrões de avaliação. Jesus é o próprio modelo do especialista na Palavra, que sabe tirar coisas velhas e novas desse tesouro, mais coisas novas que coisas velhas. Os valores precisam manter a capacidade de iluminar os novos problemas e os novos desafios. O que é velho, bom, permanente e não muda é somente a misericórdia e a compaixão de Deus. Nisso, Deus continua sempre o mesmo, e não muda!

 

Sugestões para a meditação

Como o sentido dado por Jesus à parábola da rede ilumina nossas urgências e estimula nossa paciência com quem se mostra lento ou resistente às mudanças?

Que luzes a imagem da rede que recolhe peixes bons e ruins traz para nossa convivência familiar, comunitária e social?

Como conjugar paciência com urgência, evitando criminalizar ou excluir quem diverge ou se opõe a nós?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Marta, Maria e Lázaro

Betânia é a casa dos pobres e dos amigos

1156 | Memória de Marta, Maria e Lázaro | João 11,19-27

Marta, discípula e amiga de Jesus, é mais conhecida pela passagem de Lucas, onde ela aparece atazanada com os afazeres domésticos e reclamando da passividade de Maria, sua irmã, empenhada na escuta de Jesus. Ambas moram em Betânia e são irmãs de Lázaro. Este núcleo de amizade fraterna é frequentado com gosto por Jesus. O texto ilumina a memória dos três santos, que o Papa Francisco propôs à Igreja.

A cena de hoje faz parte de um conjunto literário maior, que relata a enfermidade, a morte e o reerguimento de Lázaro. O pequeno fragmento oferecido à meditação de hoje começa com um clima de desolação e lamentação. A desolação é ainda maior porque todos sabem que Jesus fora avisado da enfermidade do amigo, e não quis mudar sua agenda a tempo de chegar para curá-lo. Os judeus se mostram amigos de Marta e Maria, e chegam para consolar as duas irmãs pela morte de Lázaro.

Marta sai ao encontro de Jesus ainda na estrada, e começa o diálogo manifestando sua dor e censurando-o: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido...” Ela espera de Jesus um benefício, pois o considera um potente curador. Não sabe o que significa o seu amor, e vê Jesus como apenas um mediador poderoso da ação de Deus. Sua crença na ressurreição é para o final dos tempos. Sua adesão a Jesus é imatura, parcial e insuficiente, como a dos demais discípulos.

A passagem da morte para a vida se dá no encontro pessoal e profundo com Jesus e na adesão de fé a ele. Porque Jesus é Vida, a morte não tem poder sobre ele e sobre quem acredita nele. O “último dia” é antecipado na cruz, do alto da qual ele abraça a humanidade sem excluir ninguém, e derrama seu Espírito de vida. Quem recebe o Espírito de Deus e se deixa mover por ele não conhecerá a morte nem o medo.

Marta percebe que a crença tradicional não é suficiente e pronuncia uma bela profissão de fé: Jesus é vida e ressurreição, o Ungido e Filho de Deus, enviado para que todos tenham vida. Assim, ela chega à maturidade da fé, e não lamenta mais a morte, porque conhece a Vida. E, como discípula missionária que chegou à maioridade, ela nos ensina o valor da acolhida fraterna no seguimento de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Você se reconhece no lamento de Marta, que se interroga porque Jesus não evita ou remedia certas situações dolorosas?

Você crê firmemente que aderir a Jesus é passar da morte para vida já agora? Como você expressa essa fé e essa adesão a ele?

Como acolher a fé na ressurreição como dinamismo de esperança e compromisso histórico, e não como desprezo da história concreta?

O que você está disposto a colocar hoje nas mãos de Jesus para que ele ajude a diminuir o sofrimento do seu povo?

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O trigo e o joio

A História é a arena da esperança e da luta

1155 | Tempo Comum | Semana XVII | Terça | Mateus 13,36-43

Sabemos que as parábolas têm as características da sabedoria popular, usa imagens da experiência cotidiana, e exige o engajamento do ouvinte na interpretação. Nisso, são diferentes das alegorias, que buscam uma certa equivalência ou correspondência e sentido específico para cada um dos termos. Conforme Mateus, na explicação, pedida pelos discípulos, Jesus faz uma leitura alegórica da parábola do trigo e do joio, considerando as demandas e conflitos da sua comunidade.

Notemos que esta é apenas uma entre as diversas interpretações possíveis da parábola, e o interesse está na oposição que o Reino de Deus enfrenta. É uma explicação dada em casa, no espaço das relações pessoais e de aprofundamento do seu ensino. A explicação se detém em oito aspectos, que não são os únicos. Há um fio condutor: o mal e sua oposição à novidade do Reino de Deus faz parte da condição humana mas tem seus dias contados, não se estenderá para sempre.

Jesus, o Filho do Homem, espalha a semente do Reino de Deus, que é boa e se concretiza nos discípulos que o seguem. O campo não se restringe ao coração das pessoas, mas é o mundo (a vida e as estruturas econômicas, políticas, sociais e religiosas cotidianas). O joio representa simbolicamente as elites políticas e religiosas, que Jesus qualifica como filhas do diabo, e são por ele semeadas no mundo (cf. 4,8; 12,33-37). Mas elas não são perpétuas, nem os frutos do mal que provocam.

Portanto, o tempo histórico, medido pelo nosso percurso existencial e pela construção e mudança das sociedades, é o tempo da adversidade e do conflito. Não faz sentido imaginar que um dia as coisas serão isentas de ambiguidades, puras e imaculadas neste mundo. Nem mesmo a Igreja pode imaginar-se assim. Mas, no final, no mundo que há de vir e que inspira o mundo que estamos a construir, o mal e suas causas serão eliminados. Essa é nossa esperança.

Por isso, os discípulos do Reino somos estimulados a manter a esperança, mesmo sendo trigo no meio do joio, e tendo o joio dentro de nós, em nossas ações e instituições. Quando o Mundo Novo florescer plenamente, os filhos do Reino brilharão como o sol, e a noite ficará iluminada como quando o Filho de Deus se fez carne. O tempo atual, entretanto, é de esperança e luta. O que nos anima é saber que tem boa semente que está florescendo e amadurecendo.

 

Sugestões para a meditação

Entre com Jesus e os discípulos em sua casa e peça que ele lhe dê inteligência para compreender sua palavra

Leia atentamente a explicação que Jesus nos oferece sobre a parábola do trigo bom e do joio semeado pelo inimigo

Seria possível atualizar essa interpretação para a situação que vivemos hoje na Igreja e na sociedade do Brasil?

domingo, 26 de julho de 2026

Como a semente e o fermento

A pequenez não limita a força da semente

1154 | Tempo Comum | Semana XVII | Segunda | Mateus 13,31-35

Já vimos que Jesus prefere anunciar o mistério do Reino de Deus mais através de parábolas que de longas exposições e explicações. As parábolas são um recurso sapiencial e popular que usa imagens da experiência cotidiana e exige o engajamento do ouvinte na interpretação. Aos discípulos, Jesus se comunica de modo mais explicativo, mas às multidões ele prefere usar as parábolas.

Nas parábolas de hoje, explicitamente relacionadas com o Reino de Deus, ou Reino dos Céus, na linguagem contida de Mateus, Jesus recorre às imagens da semente de mostrada e do fermento e parte da experiência agrícola e doméstica. Enquanto a parábola do semeador chama a atenção sobre a ação de semear e as condições da terra, as da semente de mostarda e do fermento contrastam o pequeno e o pouco de hoje com a grandeza e a força no futuro.

Jesus tem presente que o aparente fracasso do Reino que ele prega não se deve unicamente à oposição que muitos grupos fazem a ele, mas também à própria natureza do reino de Deus. Ele não cresce ao modo dos impérios, nem se impõe pela força e pela grandeza, mas de modo discreto e escondido, lentamente, corroendo a lógica do poder e do egoísmo como o fermento corrompe a farinha.

As parábolas do Reino de Deus nos chamam a manter os pés e mãos no tempo presente, mas sem deixar de vislumbrar o futuro, com realismo e esperança. Como o fermento escondido pela farinha, o Reino de Deus é invisível aos olhos da elite, mas lentamente vai minando o status quo e, de pequeno e quase invisível como a semente de mostarda, se torna hortaliça frondosa que acolhe as aves vulneráveis.

Às vezes, aquilo que nós e nossas organizações fazemos parece muito pequeno e praticamente sem futuro. Mas, como é difícil medir a força de crescimento contida numa minúscula semente, embora seja real e palpável, é-nos pedida a confiança de que aquilo que é bom perdura e se multiplica. Somos peregrinos de esperança.

O texto termina com frases que nos causam desconforto. Mas o sentido delas pode ser expresso assim: alguns ouvem e entendem a mensagem do Reino de Deus e outros não entendem e rejeitam. Mas a salvação de Deus é oferecida a todos, e está aberta até àqueles que a rejeitam. E isso é bom!

 

Sugestões para a meditação

De que modo estas parábolas, assim como toda a vida e ensino de Jesus, podem nos ensinar a unir realismo e esperança, paciência e urgência?

Você nota alguma “fermentação” evangélica na sua vida desde que você começou a praticar a Leitura Orante do Evangelho?

O que podemos fazer para que o fermento do Evangelho ajude nossas famílias e a Igreja a serem melhores?