quinta-feira, 11 de junho de 2026

Deus tem coração

Um coração para amar, ao me criar tu me deste

1109 | Solenidade do S. Coração de Jesus | Mateus 11,25-30

Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus interrompemos a reflexão sobre a formação que Jesus oferece aos discípulos sobre Reino de Deus (cf. Mt 5-7), mas permanecemos ainda com Mateus, antecipando um texto que meditaremos mais adiante. Ao falarmos de Jesus com a metáfora do coração, queremos sublinhar a sua humanidade. Deus é humano, tem um corpo, tem um coração, e “haja coração!”

No imaginário bíblico, o coração designa o núcleo da identidade ou centro dinamizador dos relacionamentos e compromissos da pessoa. Pode ser equiparado ao termo moderno “consciência”, que diz respeito à tomada de decisões. Não tem nada a ver com sentimento! Celebrar o coração de Jesus e seu caráter sagrado significa superar uma imagem de Deus reduzido a um juiz implacável e sem coração, a um sujeito solitário, inacessível e desprovido de traços humanos.

Na cena de hoje, situada num contexto de rejeição de sua pessoa e sua mensagem, Jesus eleva seu louvor ao Pai pelos discípulos humildes, cansados e abatidos que entendem e acolhem o caminho do Reino de Deus, o pequeno caminho, pavimentado de pequenas coisas possíveis. E sublinha que faz parte do querer de Deus que a elite do judaísmo nada consiga entender. Depois disso, Jesus como que, “abre seu coração” àqueles que o seguem e que ele ama.

A alegria e consolo de Jesus é que, para encontrar alívio dos fardos que carregamos, sigamos seus passos. Sua palavra e suas ações abrem as portas da liberdade e da humanização, e todos precisamos aprender dele e com ele a reconhecer e promover, em palavras e ações, o Reino de Deus, que suscita e inaugura práticas, estruturas, relações, prioridades e perspectivas alternativas. Seu caminho não está infestado de alfândegas, mas povoado de enfermarias, como diria o Papa Francisco.

O jugo ou caminho de Jesus não é canga que amarra e domina, mas leveza que nos torna mais humanos. E ele nos convida a aprender do seu coração a mansidão e a bondade, pois nele não há espaço para a indiferença, a vingança e a violência. O coração de Jesus, ou o Reino que ele encarna e antecipa é suave, bom e amável, é misericórdia e compaixão infinitas, que afirmam, reabilitam e libertam os sofredores e oprimidos. Assim devem ser nossas comunidades, estas devem ser a marca registrada das nossas igrejas.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você a oração de louvor que brota da boca de Jesus e seu convite intenso e caloroso para que se aproximar e aprender dele

O que a ênfase no coração, na concretude humana e na compaixão de Jesus podem ensinar para nossas igrejas, comunidades e famílias?

O que podemos fazer para que a imagem do Sagrado Coração de Jesus não sejam reféns de uma piedade intimista e desligada do todo do Evangelho?

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Apóstolo Barnabé

Barnabé, Discípulo de Jesus e sábio Missionário

1108 | Memória do Apóstolo São Barnabé | Mateus 10,7-15

Na primeira parte da formação missionária que Jesus oferece aos seus discípulos missionários, Jesus delimitava o campo prioritário no qual deveriam agir: o povo cansado e abatido, ou as ovelhas perdidas da casa de Israel. Os samaritanos e pagãos ficariam para o segundo momento. No texto de hoje, memória de São Barnabé, Jesus fala das tarefas (v. 7-8), do suporte (v. 8-10) e do impacto dessa missão (v. 11-15).

Em relação ao que fazer, Jesus ensina que se trata de anunciar alegremente que o Reino de Deus chegou, e de demonstrar isso com sinais concretos, exatamente como ele mesmo fez: curar doentes, purificar leprosos, ressuscitar mortos, enfim: a mesma missão de Jesus, que é devolver vida e cidadania aos excluídos e sofredores. Ou seja: os discípulos precisam estender a missão de Jesus no tempo e no espaço.

Em relação ao estilo de vida ou ao suporte material da missão, trata-se de dar testemunho de despojamento, evitar ser pesado para o povo, não buscar vantagens, deslocar-se discretamente pelas estradas, abraçar a impotência e confiar na hospitalidade do povo e na providência de Deus, fazer das casas o foco irradiador da novidade do Reino de Deus, não forçar nem impor nada.

No que se refere ao impacto da missão realizada, o discípulo missionário deve contar com a acolhida benevolente, mas também com a resistência e a recusa de outros. Diante da recusa, não há lugar para a lamentação nem para a ameaça: os discípulos devem continuar a missão noutro lugar e dirigir-se a outras pessoas. Sacudir a poeira dos pés significa dizer que a oportunidade foi concedida e que a responsabilidade pelas consequências não recaiu sobre o missionário.

Focado no anúncio do Reino de Deus e tendo Jesus como modelo, para não afastar e criar dependência, o discípulo missionário não cria falsas expectativas nem exibe poder. Vive em si mesmo a novidade do Reino de Deus, abrindo as fronteiras e libertando-se dos vínculos familiares e sociais demasiadamente estreitos, e isso basta. Livre do compromisso com qualquer ideologia fechada e mesquinha, vive a profecia, a autocrítica e a coerência.

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoe em você e rumine por um instante cada uma das recomendações de Jesus aos discípulos que ele envia

Qual dessas recomendações lhe parece mais relevante para as comunidades e seus missionários hoje?

Quais seriam as atitudes e ações prioritárias que poderiam assegurar a credibilidade da evangelização hoje?

Que atitudes costumamos tomar diante das pessoas e grupos que se fecham ao Evangelho?

terça-feira, 9 de junho de 2026

A lei e os profetas

Jesus revela e cumpre o sentido profundo da Lei

1107 | Tempo Comum | Semana X | Quarta-feira | Mateus 5,17-19

Os evangelhos não deixam dúvidas: aos olhos de grande parte dos seus contemporâneos, Jesus era um anarquista que estimulava à desobediência da lei religiosa e civil. A liberdade recebida e vivida por aqueles que se fizeram seus discípulos também causou preocupações, até por causa do exagero de alguns. Daí a pergunta: Jesus teria vindo da parte de Deus para abolir a Lei?

Estamos na primeira grande “aula” no processo de formação dos discípulos, que conhecemos como “sermão da montanha”. É claro que a indicação das características das pessoas que são os “bem-aventurados”, os santos, as pessoas que agradam a Deus, causou desconcerto. A intervenção de Jesus que refletimos hoje procura esclarecer colocar as coisas no seu devido lugar.

As citações diretas das escrituras que podemos ler nos capítulos anteriores já poderiam ter eliminado as dúvidas: tudo na vida de Jesus ocorre “para que se cumpra a Lei”. Mas então, se fosse apenas isso, Jesus seria apenas um profeta judeu como todos os outros, ou um simples reformador dos costumes? Nele só haveria continuidade, sem nenhuma espécie de ruptura em relação ao judaísmo?

Para responder a estas interrogações, Jesus começa com uma advertência: “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas!” Tanto a Lei como os Profetas, continuam como uma espécie de “pedagogos” até que o Reino de Deus seja consumado, até que passe este velho sistema social, cultural e religioso (“o céu e a terra”). “Eu vim para cumprir plenamente” tanto a Lei como a Profecia, diz Jesus. A prática dos escribas e fariseus era parcial e imperfeita.

Com expressão “em verdade, em verdade” Jesus enfatiza sua autoridade e se apresenta como o cumpridor do sentido profético da Lei, até então escondido aos judeus. Ele é  a “chave” que abre o sentido das escrituras, que devem ser lidas e revistas a partir daquilo que ele viveu e ensinou. Desobedecendo (ou ultrapassando) as leis para atender as necessidades das pessoas vulneráveis, Jesus se mostra um profeta, e manifesta o verdadeiro sentido e o objetivo último da lei.

 

Sugestões para a meditação

Você não tem a impressão de que, com seu ensino e sua prática, Jesus estimula uma postura desobediente e anárquica frente às leis?

Você não acha que, por outro lado, muitas pregações e práticas de hoje prendem Jesus à simples e inflexível obediência às leis e costumes?

O que significa para nós, hoje, levar a sério que Jesus cumpre e revela plenamente as escrituras anteriores a ele?

Quais as implicações de assumir “o olhar, o agir e o sentir” de Jesus como chaves para a leitura das Escrituras Sagradas?

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Sal & Luz

Sejamos luz e sal do Reino de Deus no mundo

1106 | Tempo Comum | Semana X | Terça-feira | Mateus 5,13-16

Não esqueçamos o ponto de partida deste breve e intenso texto do evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus: os quatro versículos de hoje são a sequência das bem-aventuranças, e fazem parte de uma espécie de apresentação da novidade de Jesus. Ele não é um pregador e mestre ao estilo dos doutores da Lei, e não veio impor um receituário moral a ser praticado minuciosamente.

Nestes breves versículos, Jesus retoma o tom direto, e fala aos discípulos: “Vocês são o sal da terra! Vocês são a luz do mundo!” Ele fala aos mesmos interlocutores das últimas bem-aventuranças: “Felizes vocês, quando por minha causa os insultarem e perseguirem...” Está claro que estes discípulos são sal da terra e luz do mundo na medida em que forem misericordiosos, íntegros, pacificadores e promotores da justiça.

A comunidade que se reúne em torno de Jesus e segue seus passos não é um grupo de fanáticos, separado e fechado. Quando Jesus diz que somos sal, está enfatizando nossa inserção no mundo, nosso engajamento pelo bem-estar das pessoas e povos, nosso trabalho para que os projetos e instituições não se degradem ou se corrompam. Ai de nós se esquecermos isso! Não podemos esperar outro destino que não seja ser pisoteados, ser objeto de desprezo.

A comunidade que nasce da novidade do Reino e do chamado de Jesus não pode ser uma instituição auto referencial, não pode viver em função de si mesma. Quando Jesus diz que somos luz do mundo, está pedindo que vivamos e saiamos em missão, que irradiemos o brilho do Reino de Deus em nossas relações, que a identidade e a missão que pertencia ao povo de Israel passa a pertencer ao novo povo de Deus, a este povo-semente do qual somos parte.

Uma comunidade que é sal da terra e luz do mundo será sempre uma comunidade-semente, minoritária e marginal. Mas terá a força e a vocação de tornar visível a novidade do Reino de Deus na história. Nem mais e nem menos que isso. Que seja apenas isso, mas seja sempre. Esta é a nossa grandeza, a nossa glória, a nossa vocação. E não precisamos de outras.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar em você a imagem do sal (modo de ser no mundo) e da luz (missão do discípulo missionário de Jesus)

O sal misturado à comida perde a visibilidade, mas todos percebem se está ou não presente: o que isso nos ajuda a entender?

A luz não brilha para si mesma, mas para que vejamos as pessoas e coisas ao nosso redor: o que isso nos ensina sobre a vida cristã?

Qual é a qualidade do sal e a intensidade da luz que nossas comunidades cristãs estão demonstrando nestes tempos difíceis?

domingo, 7 de junho de 2026

Uma vida verdadeiramente feliz

Jesus nos propõe um caminho de vida feliz

1105 | Tempo Comum | Semana X | Segunda | Mateus 5,13-16

A partir de hoje, acompanharemos a missão, o anúncio e o ensino de Jesus no evangelho segundo Mateus. Depois da experiência forte feita por ocasião do batismo e do deserto, Jesus inicia sua pregação na Galileia, e desperta os primeiros discípulos. Ele percorre a região “pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo”. E isso mexe com as esperanças mais profundas daquele povo.

Na cena de hoje, Jesus vê diante de si as multidões que vêm das aldeias de toda a região e assume sua missão de mestre e formador de discípulos. Tendo os discípulos e o povo cansado e abatido diante dos olhos, fala da novidade jubilosa do Reino de Deus, o dinamismo que reverte a situação de sofrimento do povo. Ao mesmo tempo, pede o engajamento daqueles que se fazem seus discípulos. O que ele propõe não é o cumprimento de leis, mas um novo estilo de vida, o seu estilo, o seu caminho.

Àqueles que o procuram, Jesus não apresenta um manual de procedimentos. Ele indica uma direção, convida a alargar o horizonte do olhar, esboça um mundo bom e alternativo, uma comunidade-semente e um caminho de felicidade a ser compartilhado. E oferece várias ilustrações de como se pode acolher a vontade de Deus, o Reino de Deus. Não é uma descrição de diferentes virtudes a serem exercitadas, mas alguns exemplos das prioridades do Reino de Deus.

Estas ilustrações podem ser divididas em dois grupos de quatro: as primeiras quatro (v. 3-6) abordam de situações de opressão (pobreza, aflição, impotência e ausência de justiça), que são simplesmente revogadas com a chegada do reino de Deus; o segundo grupo (v. 7-12) apresenta ações humanas que brotam da acolhida da novidade de Jesus (misericórdia, integridade, promoção da paz e luta firme pela justiça). Estas é a razão e o caminho da felicidade.

Para Jesus, pobreza, opressão, injustiça e humilhação não são situações que devemos simplesmente aceitar, mas algo que devemos deplorar, denunciar e superar com tenacidade, valentia e perseverança. O Reino de Deus, que ele anuncia e inicia, provoca essa mudança, e não há caminho de felicidade fora do engajamento nesse profundo e radical processo de mudança.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se dentro da cena, com Jesus e seus discípulos reunidos naquela montanha, tendo diante dos olhos o povo cansado, abatido e sedento

Acolha, como horizonte e não como manual, as diversas ilustrações de como podemos acolher e realizar a vontade de Deus e, assim, alcançar a felicidade

Procure perceber claramente qual é a condição real das pessoas e grupos a quem Jesus assegura a felicidade que o Pai deseja para todos

Será que não temos compreendido e apresentado a proposta de Jesus mais como um fardo de ordens e proibições que como um caminho de felicidade?

sábado, 6 de junho de 2026

A primazia da misericórdia

Deus não pede sacrifícios, mas Misericórdia

1104 | Tempo Comum | Semana X | Domingo | Mateus 9,9-13

Depois de curar um paralítico, que contou com o auxílio de pessoas amigas, Jesus não reivindica para si mesmo os créditos do perdão e da cura. Ele passa do perdão (ação interior, cujos frutos não são visíveis) à cura (lado visível da mesma ação). Diante do que viu, o povo fica com medo e glorifica a Deus por ter dado tal poder a Jesus e aos seus discípulos. O medo, uma mistura de surpresa e estupor, é uma reação tipicamente presente nas experiências da divindade.

No texto de hoje, Jesus se encontra com Levi, que é cobrador de impostos, colaborador do império romano e, por isso, também considerado pecador, execrado e banido da convivência social e religiosa pelos judeus. Mas Jesus não se orienta por preconceitos que excluem, pelas aparências e exterioridades. Partindo da base e da periferia social, Jesus chama e congrega pessoas de boa vontade para, com elas, iniciar uma comunidade alternativa.

Levi responde prontamente ao chamado de Jesus, e o segue no seu caminho. Como não exclui ninguém da mesa do Reino, desde que a pessoa entre no dinamismo do Reino de Deus, Jesus se confraterniza com Levi, seus colegas cobradores de impostos e muitas outras pessoas tratadas pelo judaísmo como pecadoras. Pecador é o termo usado para designar quem não vive de acordo com as normas de um grupo.

Essa prática inclusiva e inovadora de Jesus desestabiliza a ordem social, e, por isso, é criticada pelos fariseus e mestres da lei. Esta manifestação da misericórdia de Deus é vista como desconformidade com a vontade de Deus. A justiça de Deus, assim como é entendida e praticada por Jesus, deslegitima as práticas excludentes do judaísmo e dos seus representantes, e também dos seus sucessores até os dias hoje.

Levi tomará parte desta comunidade vivificadora que compartilha os bens e estabelece relações estáveis de acolhida e inclusão, e passa a ser visto como modelo de discípulo e apóstolo. Ele entendeu que Deus quer misericórdia, e não legalismo, que Jesus veio para quem está necessitado, e não para quem se considera justo e satisfeito. E esse deve ser o caminho da Igreja e todos os seus organismos e membros, em todos os tempos e em todos os lugares onde está presente.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena de Mateus trabalhando, sendo interpelado por Jesus, deixando tudo para segui-lo, e confraternizando-se com ele

Participe da cena, da alegria de Mateus e dos outros pecadores, repudie a postura crítica dos fariseus e demais líderes do judaísmo

Contemple a vida de Jesus e, com Mateus, acolha-o em sua vida e aprenda essa lição fundamental: Deus quer misericórdia e não sacrifícios

Como nós e nossas igrejas acolhemos e praticamos esse princípio fundamental que orienta toda a vida e a missão de Jesus?

Ressignificar o domingo

O NOVO DOMINGO

O domingo já não é o que era há alguns anos. Em pouco tempo cresceu e tornou-se o fim de semana, que começa já na sexta-feira à tarde e no qual a maioria pode viver de forma diferente, escapando às obrigações do trabalho, aos horários impostos e à rotina diária.

Nem todos vivem o fim de semana da mesma maneira. Para alguns é uma verdadeira sorte: têm iniciativa, possibilidades e amigos para desfrutar desses dias. Para outros é um tempo cruel, pois sentem com mais força a sua solidão, doença ou velhice; o domingo só desperta neles tristeza e nostalgia. Outros temem o domingo, não sabem o que fazer com ele, aborrecem-se; se não houvesse futebol, seria insuportável.

Teólogos e liturgistas perguntam-se hoje como será no futuro o domingo cristão. Reduzir-se-á a uma celebração da missa isolada e sem qualquer ligação com o fim de semana das pessoas? Pelo contrário, não será possível uma integração dinâmica dos valores humanos do fim de semana na mística do domingo?

O domingo cristão pode ser a alma do fim de semana, ajudando os crentes a experimentar melhor a sua liberdade de filhos de Deus, sem imposições nem fins utilitaristas. A eucaristia poderia ajudar a recuperar a serenidade e reavivar o alento interior. No fim de semana podemos ser mais nós mesmos.

Por outro lado, poderia recuperar-se o sábado como festa da criação. Desta forma, o domingo prosseguiria com a celebração da salvação. Assim pensam alguns liturgistas. A fé ajudaria então a viver o fim de semana como uma celebração ao Criador e um encontro com a natureza, não através do trabalho, mas do desfrute e da contemplação.

Por fim, a celebração da assembleia eucarística pode dar um sentido mais profundo a essa outra dimensão do fim de semana, que é a comunicação íntima e gratificante com amigos e familiares, ou o encontro com outras pessoas e outros povos. O fim de semana pode ser uma experiência de encontro e comunhão entre irmãos. Crescerá o domingo cristão até ser fermento e sal do fim de semana da cultura atual? Em todo o caso, podemos fazer uma pergunta: sabemos nós, cristãos, extrair da eucaristia dominical alento e alegria para viver o novo domingo?

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pão & Corpo

Eucaristia: memória, expectativa e compromisso

Desde muito cedo na sua história, o cristianismo recordou, ritualizou e celebrou a vida, a morte e ressurreição de Jesus. A identidade, a organização e a missão da Igreja foi se constituindo em torno de celebrações simples, populares e permeadas de memória agradecida e de expectativas de algo novo e grandioso que ainda vai acontecer.

Assim “nasce” a Eucaristia, sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Ou melhor: ação simbólica e memorial da aliança definitiva de Deus com a humanidade peregrina, selada no pão partilhado, no vinho abençoado e no gesto de um Mestre e Senhor que lava os pés, inclusive de quem o nega e trai. A Eucaristia é uma lição profunda e atual!

Aquela ceia de despedida, celebrada no clima cálido e tenso que antecedeu a prisão de Jesus e sua condenação à pena de morte, está ligada às inúmeras ceias que Jesus compartilhou, seja para saciar um povo faminto no deserto, seja sentado à mesa onde acolheu pecadores e proscritos. Não podemos excluir da mesa aqueles que Jesus acolheu!

É verdade que, nesta ceia, Jesus diz com amargura que um dos Doze, daqueles que come o pão com ele, irá traí-lo. E acrescenta: “Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido” (Marcos 14,17-21). Mas não se trata de alguém que se sente culpado e pecador, mas de alguém que participa da sua intimidade. E Jesus não o expulsa da mesa!

Na ceia de despedida, Jesus abençoa o pão e o distribui dizendo: “Isto é meu corpo, que é dado por vós”. E tomando nas mãos o cálice com vinho, dá graças e o serve aos discípulos declarando: “Tomai este cálice e partilhai entre vós”. E acrescenta, em forma de mandamento e de testamento: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22,14-23).

Este mandamento não se refere apenas à repetição de um ritual, mas ao prosseguimento do modo de vida que ele expressa: fazer da vida um dom generoso e incondicional aos irmãos e irmãs, especialmente aos mais pobres. E sempre na expectativa de que o Reino de Deus, a vida plena e abundante para todos, se realize na história (cf. Lucas 22,18).

São Paulo entendeu isso muito bem e o expressou na Carta aos Romanos: “Eu vos exorto, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo (hóstias vivas), santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (12,1-2). Nosso culto não se resume a um rito, mas se realiza no engajamento para que venha o Reino de Deus.

As viúvas e os escribas

Que nossa piedade e doação não sejam fingidas

1103 | Tempo Comum | Semana IX | Sábado | Marcos 12,38-44

Depois de ter calado os adversários e desmascarado a ideologia nacionalista e triunfalista dos que pregavam a restauração messiânica do império de Davi, Jesus continua por algum tempo no templo de Jerusalém. Ali, ele ensina as multidões e os seus discípulos a respeito da novidade do Reino de Deus, e se mostra implacável com os mestres ou doutores da Lei. Para Jesus, eles estão muito longe da novidade ética e religiosa do Reino de Deus inaugurado por ele.

Na cena de hoje, Jesus começa pedindo ao povo que se cuide e tenha muita cautela diante dos doutores da Lei: eles buscam apenas e sempre distinção, status e privilégios, enquanto que Jesus propõe que ocupemos o lugar do servo e do último. Por causa da aparência de piedade, os doutores da Lei haviam conseguido o direito legal de cuidar da herança das viúvas, e eram muito bem pagos para fazer isso. Entretanto, mesmo sendo pagos, eles acabavam “devorando” os bens delas, fazendo o contrário do que pedia a própria Lei: proteger os órfãos e as viúvas.

Mas não é apenas isso. O próprio templo, que Jesus lembra que deve ser um lugar de oração, acaba sendo uma estrutura que explora e empobrece ainda mais o povo. E Jesus não aceita isso de modo nenhum. Sentado, diante do cofre das esmolas, ele observa como os ricos alardeiam suas ofertas, que são enganosas, e como a viúva é explorada, obrigada a dar mais que eles, a dar “tudo o que possuía para viver”.

Esta cena não é um elogio à “doação forçada” da viúva, mas uma denúncia pelo que ela sofre. Jesus não compara a esmola dos ricos com a “oferta” que a viúva é obrigada a dar, que não passa de uma extorsão inaceitável, mas ilustra aos seus discípulos como é que os doutores da Lei agem para “devorar” as casas das viúvas. A piedade ostentada pelos escribas é um véu que mal esconde oportunismo e exploração.

Esta passagem não quer apresentar um exemplo de generosidade, e não deve ser oferecida como motivação para o dízimo. Nela ressoa o clamor dos pobres, explorados até em nome de Deus. Jesus nunca poupou críticas e denúncias contra o templo e seus controladores. É por isso que, depois de chamar os discípulos e criticar a exploração travestida de piedade, Jesus se afasta templo definitivamente.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se dentro da cena, no templo, com Jesus e os escribas, e observe, com Jesus, a descarada ostentação dos ricos e piedosos, que com suas migalhas disfarçam e legitimam o que acumulam injustamente

Perceba a coragem de Jesus ao desmascarar os doutores da lei, pois eles dão legitimidade teológica à exploração dos pobres: “Tomai cuidado com eles!”

Fique atento aos sentimentos e pensamentos que esta palavra e esta atitude de Jesus desperta em você 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Escutar com prazer

Escutemos Jesus com prazer e maturidade.

1102 | Tempo Comum | Semana IX | Sexta-feira | Marcos 12,35-37

Na cena de hoje, Jesus continua no espaço do templo, centro ideológico, político e religioso do judaísmo daquele tempo. A cena imediatamente anterior terminava demonstrando que Jesus havia vencido todos os seus opositores: expulsou os comerciantes, não caiu nas ciladas dos fariseus e saduceus, questionou a legitimidade dos chefes, assumiu seu papel de mestre, enfim: amarrou os “homens fortes”, deslegitimou sua ideologia e reconquistou sua casa.

Na cena de hoje, Jesus volta a investir contra os escribas ou mestres da lei, enfrentando sem “panos quentes” a ideologia messiânica triunfalista e nacionalista que eles veiculavam e alcançara grande aceitação popular. “Como é que os mestres da lei dizem que o Messias é filho de Davi? Como é que ele pode ser seu filho?” É o confronto claro e direto entre o projeto do Reino de Deus e o ensinamento dos mestres da lei, entre o mundo solidário e inclusivo proposto por Jesus e a esperança da restauração da dinastia política do rei Davi.

Jesus não está interessado em discutir sua genealogia (se é, e como é descendente de Davi), mas a ideologia dos mestres da lei. Quem propaga o messianismo monárquico acaba legitimando o templo e suas práticas de extorsão e discriminação, assim como o Estado teocrático que nele tem sua validação e sua sustentação. Definitivamente, Jesus toma distância dessa ideologia e nega seus vínculos com o messianismo identificado com a monarquia. O Messias não deve nada a ninguém, é anterior e superior a Davi e sua dinastia.

Talvez isso nos traga desconforto, pois estamos acostumados a afirmar (nos hinos, na catequese, nas pregações) que Jesus é filho e descendente de Davi. Que isso não seja problema! O que precisamos é distanciar-nos de Davi enquanto autoridade política e voltar às suas origens, ao filho discriminado pelo pai e pelos irmãos, ao organizador e líder de um bando de marginalizados, tratado como bandido perigoso pelo rei Saul. Mas é importante evitar todo e qualquer sinal de adesão a ideologias políticas e religiosas eivadas de autoritarismo, nacionalismo, totalitarismo e exclusivismo que gravitam em torno do seu nome. É isso que o texto ensina.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, no templo, diante de Jesus e dos escribas que pregavam um messianismo com caraterísticas monárquicas

Perceba a novidade corajosa da proposta de Jesus: ele encarna um messianismo despojado, compassivo, inclusivo e solidário

Será que a cultura republicana e democrática já conseguiu eliminar da nossa imaginação a visão de um Jesus coroado como um rei?

Em que medida templos e algumas alfaias litúrgicas ainda se inspiram na “majestade” dos reis?