domingo, 13 de setembro de 2026

Exaltação da Cruz

Deus ama o mundo e tudo o que nele existe

1204 | Exaltação da Santa Cruz | Domingo | João 3,13-17

O texto que é proposto à nossa meditação está relacionado com a festa litúrgica de hoje: a exaltação da Santa Cruz. Esta é uma celebração que vem desde o ano 335, quando foi celebrada a dedicação de duas basílicas, na colina do Gólgota, em Jerusalém: a basílica da Santa Cruz e basílica da Ressurreição.

Não deixa de ser estranho, ao menos do ponto de vista histórico e sociológico, exaltar a cruz, recorrente instrumento de tortura e morte usado pelo império romano contra seus “inimigos”. Seria como exaltar e expor no centro dos nossos templos, ou carregar no peito ou estampadas em nossas camisas, imagens do “pau de arara”, de um fuzil ou de um revólver. (Alguns até gostariam, como nos revelam as imagens que marcaram as últimas campanhas eleitorais no Brasil.)

Para os cristãos, mesmo que pareça paradoxal, a cruz não é memória da violência, do sofrimento ou da derrota, mas uma expressão clara e contundente do amor sem limites de Deus pela humanidade. Pregado na cruz, Jesus é a imagem de um Deus apaixonado pelas suas criaturas, o protótipo do ser humano maduro e livre como Deus o quis, criado à sua imagem e semelhança, dinamizado pelo seu Sopro Vital.

Na cruz é como que assinada a aliança de Deus com a humanidade: sua vontade é totalmente positiva (que todos tenham vida em abundância), universal (inclui todas as pessoas e todos os grupos humanos) e irreversível (ele não volta atrás em sua paixão pela humanidade). Um Deus crucificado exclui todo resquício ou ameaça de indiferença ou de punição, mesmo contra errantes e pecadores.

Na vida de Jesus, mesmo sendo uma imposição dos poderes constituídos, a cruz é a efusão da compaixão de Deus, e não um acontecimento inesperado ou passageiro. Ela toma o lugar da lei, torna-se ponto de partida e de convergência da vida cristã, e expressa a presença permanente e libertadora de Deus no mundo, e não apenas no coração das pessoas. “Nossa glória é a cruz”, exclama São Paulo.

A cruz traz a assinatura de Deus: ele continua amando o mundo e o que nele existe, e exclui de seu horizonte punições e castigos. Aderir a um Deus crucificado por amor significa afirmar o amor, e não o poder, o sucesso ou as armas, como princípio, como meta e como caminho, custe o que custar. Fora disso, nossa fé seria vazia, e nossos símbolos seriam falsos, ou então armas letais disfarçadas de piedade.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e expressão, em forma negativa ou em forma positiva, e deixe que ressoem em você

Você ainda só consegue ver na cruz dor, abandono e sofrimento, ou consegue fixar nela seu olhar e contemplar o amor de Deus?

O que significa a expressão “Deus amou tano o mundo” (organização humana, humanidade), em vez de “Deus amou tanto os indivíduos”?

Romaria da Santa Cruz

25ª Romaria Diocesana de Santa Cruz do Sul

(Palavras de Dom Itacir msf)

Chegando

Queridas irmãs e irmãos, vindos dos mais diversos lugares da Diocese para esta romaria jubilar: Bem-vindos, bem-vindas! A graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Rm 1,3).

Jesus, o Príncipe da Paz; Jesus, aquele que, na cruz, derrubou os muros que separam e opõem pessoas, igrejas, povos e nações e estabelece a paz duradoura e sem fronteiras; esse Jesus está de verdade aqui, no meio de nós!

O que ele quer nos dizer nessa 25ª Romaria Diocesana da Santa Cruz? Vendo em nossos rostos a tensão e o medo de novas enchentes; entrando em nossos lares e enxugando as lágrimas das mulheres e crianças que sofrem violências daqueles que deveriam ser seus protetores; contemplando as manifestações de intolerância e de violência que se espalham, do Planalto Central aos compôs e fronteiras; voltando seus olhos severos aos arrogantes que impõem taxas e promovem guerras de extermínio pelo mundo afora; e fixando seu olhar misericordioso sobre esta numerosa assembleia aqui reunida e sobre cada um de vocês ministros, catequistas, diáconos, padres e demais lideranças sociais e comunitárias, incansáveis e generosas no seu serviço cotidiano, Jesus proclama, com voz forte como um sino: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,21) “Felizes e bem-aventurados os que promovem a paz!” (Mt 5,9)

Aqui estamos em busca de paz, de relações de confiança, acolhida, colaboração e solidariedade que assegurem a cada pessoa e à sociedade como um todo, o pleno bem-estar, aquele “tudo de bom” ou “paz e bem” que gostamos de desejar uns aos outros.

Buscamos nesta romaria a paz verdadeira, que nos vem de Jesus Cristo crucificado por amor, e é vacina contra o ódio e a vingança, contra a dominação e a violência, contra a indiferença e a intolerância.

Essa paz é dom gratuito de Jesus Cristo, e precisa ser acolhido com gratidão. Mas ela é também uma tarefa da qual ninguém pode se dispensar. “Em qualquer lugar que vocês chegarem, digam primeiro: ‘Paz a esta casa!’ (Lc 10,6). “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês!’ (Jo 20,21).

Caminhemos juntos, lado a lado e ao lado de Jesus, atentos às lições que ele nos dará sobre a urgente missão de promover a paz. A via-sacra de Jesus é um caminho concreto no qual aprendemos a construir uma paz profunda, duradoura e sem fronteiras.

Ouvindo (João 20,19-23)

Naquela noite de domingo, depois da crucificação, morte e ressurreição de Jesus, os discípulos estavam assustados diante do poder e da violência dos inimigos. O medo demonstra a insegurança. Pensavam que haviam perdido para sempre aquele que tinha palavras de vida eterna.

Mas a noite já é o início do Dia esperado, como na libertação do Egito. Jesus se manifesta presente no meio deles. Ele vem para os libertar do medo de perder a vida. Ele vem para ficar no meio deles, e continuar sendo fonte de vida, ponto de referência, videira da qual os ramos recebem força e vitalidade, caminho seguro para a paz.

“A paz esteja convosco!” Esta é a saudação daquele que venceu o mundo, que derrotou as forças da morte e a própria morte. É uma paz que abre portas, abre caminhos, abre as mentes, abre os corações. É a paz daquele que está vivo no meio de nós e nos envia para promover a fraternidade e a paz com todas as criaturas, a justiça social para os pobres e o desenvolvimento integral da pessoa humana, a política como dedicação corajosa ao bem comum.

A mensagem da Santa Cruz é a paz verdadeira, a paz vivida como missão corajosa, duradoura, sem fronteiras. São Paulo nos diz que, “de fato, Cristo é nossa paz” (Ef 2,11-22). Pois a cruz de Jesus reúne povos diferentes e adversários em uma família de irmãos. A cruz de Jesus derruba os muros que separam e a inimizade que fere. Do corpo de Jesus crucificado por amor nascem homens e mulheres novos, irmãos e irmãs de verdade, diferentes, mas iguais em dignidade.

A cruz de Jesus reestabelece a igual dignidade e a paz entre o corpo e o espírito, entre homens e mulheres, entre cidadãos e estrangeiros, entre heterossexuais e homossexuais, entre adultos e jovens, entre católicos e protestantes, entre crentes e ateus, entre desenvolvimento e meio ambiente, entre partidos e projetos políticos diferentes.

Não se trata de uma paz superficial, interior ou psicológica. É uma paz assumida como tarefa, como empenho árduo e perseverante, que dispensa o recurso aos poderes que se impõem pela força. É uma paz desarmada e desarmante, que construímos de mãos abertas e estendidas, como ovelhas indefesas em meio a lobos famintos e violentos. Uma paz que ninguém poderá nos roubar.

Voltando

“Bem-aventurados os que promovem a paz! Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês! Por onde vocês passarem, nas casas em que vocês entrarem, nas comunidades às quais vocês se reunirem, nas celebrações que vocês realizarem, nas ruas que vocês percorrerem, nos trabalhos que vocês realizarem, nas redes sociais que vocês usarem, sejam fazedores da paz! Como são belos os pés dos mensageiros que anunciam, semeiam e cultivam a paz!” (cf. Mt 5; Jo 20,21; Lc 10,5-6; Is 52,7).

sábado, 12 de setembro de 2026

Perdoados que perdoam

Somos pecadores perdoados e agentes do perdão

1203 | Tempo Comum | Semana XXIV | Domingo | Mateus 18,21-35

No domingo passado, acolhíamos o ensinamento de Jesus que nos oferecia uma verdadeira pedagogia da correção fraterna. Hoje, nesta parte da quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. De resto, o rei da parábola é igualzinho a todos os demais: ele age oprimindo os mais fracos. Imagina como conseguiu a fortuna que lhe possibilitou emprestar ao seu empregado aquela fortuna. A compaixão e o perdão concedidos ao empregado endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude deste empregado. Tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do empregado perdoado, que mostra mais crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

A cultura na qual nos movemos nos convenceu de que o outro é um estranho que precisa ser temido, um inimigo que precisa ser combatido, um incapaz que só pode ser desprezado, um incômodo que deve ser afastado, um devedor que deve ser sempre cobrado, que deve fazer por merecer. Perdoar é conceder ao outro a chance de ser alguém, de ter dignidade, de recomeçar e amadurecer.

 

Sugestões para a meditação

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?

O perdão liberta

APOLOGIA DO PERDÃO

Quase sempre que escrevi sobre o perdão, recebi cartas, geralmente anônimas, acusando-me de esquecer o sofrimento das vítimas do terrorismo, de não compreender a humilhação de quem foi traído pelo cônjuge, de não ter os pés no chão, e coisas semelhantes.

Não me é difícil compreender essa resistência ao perdão. Como não hei de intuir a raiva, impotência e dor de quem foi vítima da violência, do desprezo ou da traição? Mas, precisamente, o ressentimento e a agressividade que se percebem nessas palavras fazem-me ver com mais clareza o que seria um mundo sem perdão.

Há um mecanismo de defesa bem conhecido pelos psicólogos. Por um mimetismo misterioso, quem foi vítima de uma agressão tende, de alguma forma, a imitar o agressor. Trata-se de uma reação quase instintiva que se desencadeia no inconsciente individual ou coletivo e pode até transmitir-se de geração em geração.

Se, em algum momento, não surgir uma reação de sinal contrário, o mal tende a perpetuar-se. Quando a vítima não quer ou não consegue perdoar, permanece nela uma ferida mal curada que lhe causa dor, pois a prende negativamente ao passado. Da mesma forma, o ressentimento instalado numa sociedade dificulta a lucidez para procurar caminhos de convivência e pode bloquear todo o esforço por encontrar soluções para os conflitos.

O desejo de vingança é, sem dúvida, a resposta mais instintiva à ofensa. A pessoa precisa defender-se da ferida recebida, mas, como adverte o conhecido especialista Jacques Pohier, quem pretende curar a sua ferida infligindo sofrimento ao agressor, engana-se. O sofrimento não tem poder mágico para curar a humilhação ou a agressão sofrida. Pode produzir uma breve satisfação, mas a pessoa precisa de algo mais para voltar a viver de forma saudável. Já o dizia há muito Henri Lacordaire: «Queres ser feliz por um momento? Vinga-te. Queres ser feliz para sempre? Perdoa».

Às vezes esquece-se que o processo do perdão é mais benéfico para o ofendido, pois liberta-o do mal, faz crescer a sua dignidade e nobreza, dá-lhe forças para recriar a sua vida, permite-lhe iniciar novos projetos. Quando Jesus convida a perdoar setenta vezes sete, está a convidar-nos a seguir o caminho mais saudável e eficaz para erradicar o mal da nossa vida. As suas palavras ganham ainda mais profundidade para quem acredita em Deus como fonte última do perdão: «Perdoai e sereis perdoados».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Em nome de Deus

Nem ímpios, nem ungidos

Estamos avançando nas campanhas eleitorais para os parlamentos e governos estaduais e federal. As pessoas que têm consciência cidadã e política, mesmo num nível muito básico, têm o direito de esperar que este seja um tempo de debate sobre perspectivas e projetos para um país soberano e solidário e propostas que melhorem a vida do povo, reduzam as desigualdades ou imponham limites à sanha rapinadora dos mais fortes.

Em vez disso, estamos sendo bombardeados por levas de acusações recíprocas entre os sujeitos que estão inscritos nas disputas, e enganados por empresas de comunicação que dirigem a nossa atenção sobre aspectos periféricos e jogam no esquecimento as questões que realmente importam. Mais grave ainda é o recurso à linguagem religiosa para ungir com o óleo da santidade alguns personagens e rotular outros como ímpios incuráveis.

Neste contexto, um bispo católico, muito ativo nas redes digitais, vem afirmando que estamos sendo governados por ímpios. Ímpios são pessoas sem fé, que não acreditam em Deus, que não levam em conta ou se opõem às suas leis, ou fazem o mal sem remorsos. No horizonte religioso, os ímpios são pecadores típicos, pessoas que merecem nosso desprezo e precisamos combater e eliminar. De gente ímpia não pode vir nada de bom.

Por outro lado, segmentos políticos e religiosos apresentam candidatos e ministros do seu campo ideológico como ungidos de Deus. Ungida é a pessoa escolhida ou eleita, purificada e consagrada pelo Espírito para ser seu agente e representante no governo ou no tribunal. Na perspectiva religiosa, não reconhecer ou contrariar uma pessoa ungida e escolhida por Deus significa opor-se a Ele e à sua vontade, ou seja, tornar-se ímpio...

O recurso à linguagem religiosa para cabrestear o voto dos cidadãos, impor ou blindar candidatos e juízes, ou para disfarçar ideologias que, na prática, se opõem a Deus e ao seu povo, é pernicioso e condenável. É manipulação da ideia de Deus, esvaziamento da fé uma limitação à liberdade de escolha, uma ação que acaba destruindo a credibilidade da religião e abrindo as portas à intolerância, ao fanatismo e ao autoritarismo.

E, quando uma liderança religiosa usa sua autoridade para distribuir acusações sem se dar ao tempo de analisar a realidade e sem levar em conta a complexidade da política e dos tribunais, se arvora em juiz contra o qual não cabe recurso. A profecia é legítima e necessária, mas não pode prescindir do discernimento lúcido e responsável. Somente os pobres e as vítimas têm o poder de nos julgar em nome de Deus (Mateus 25,31-46).

A verdade está nos frutos

Nada pode abalar uma vida coerente

1202 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sábado | Lucas 6,43-49

Somente quem tem um olhar limpo e um coração puro está em condições de ajudar e criticar o próprio irmão. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos é o horizonte que nos inspira e a regra primeira. Nessa perspectiva, Jesus hoje nos oferece critérios para reconhecer o autêntico discípulo do Reino. Não basta reconhecer Jesus como Senhor!

Como a razão de ser da árvore é produzir sombra, flores ou frutos, espera-se que o discípulo demonstre o que é naquilo que faz, nas relações que estabelece com pessoas e com as coisas. E este fruto não é apenas uma canção, uma oração, uma invocação ou um determinado ato de piedade. Como vimos ontem, revelamos que somos discípulos de Jesus sendo misericordiosos como Deus o é conosco.

É pelos frutos que produzimos em nossas relações que revelamos em quem acreditamos e demonstramos a qualidade da árvore que somos. Não podemos esperar coisa boa de gente que se orienta pelo ódio ou pela indiferença, que se manifesta pela eliminação daqueles que julga errado ou incômodo, mas gosta de publicar frases e imagens de piedade e de pessoa devota em suas redes sociais.

As relações são exteriores, mas revelam os princípios e as decisões interiores, os valores que nos orientam e consideramos preciosos. Se nossa consciência é bem formada, se assumimos a escala de valores do Evangelho, se pautamos nossas ações pela prática e pelo ensino de Jesus, sempre tiraremos desse tesouro decisões boas e construtivas. Não há como tirar dele o ódio e a defesa do porte de armas.

O que se espera de nós é coerência entre a fé que professamos e aquilo que praticamos: seguir Jesus implica em levar a sério sua palavra e colocá-la em prática em todas as dimensões da vida. Caso contrário, seremos como as belas mansões construídas sem alicerce, sobre a areia: não resistem diante da menor prova ou força contrária; ou como as belas sepulturas que escondem carne em decomposição.

Que a incoerência e a superficialidade não façam de nós videiras estéreis ou que produzem frutos venenosos. Que Deus nos livre de sermos como aquelas casas que, de bonito e bom, só têm a fachada. Dentro delas vigora intolerância, violência, indiferença e a lei do “cada um para si e deus para todos”.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida a fé que você demonstra em nossa família e comunidade carecem de coerência?

Quais são os frutos bons que a escuta e meditação da Palavra e o cultivo da fé em Jesus tem produzido em você, sua família e sua comunidade?

Você não acha que corremos o risco de inflacionar novenas, adorações e ritos, mas deixamos anêmica nossa ação e nossos compromissos?

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma medida

Que o amor com justiça seja a nossa medida

1201 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sexta | Lucas 6,39-42

Um pouco antes desta cena, Jesus deixara claro que a misericórdia do Pai, expressa concretamente na vida e ação de Jesus, é a referência e o dinamismo que orienta e move a ação dos cristãos. Nossa condição no mundo é a de aprendizes, e não de juízes. Estamos na estrada, e não sentados no tribunal. Somos irmãos e irmãs, e não magistrados. Não pode haver crítica legítima sem autocrítica. É nosso amor aos mais vulneráveis que nos julgará no entardecer da vida.

No trecho de hoje, Jesus não se dirige aos fariseus ou doutores da lei, mas à comunidade de discípulos e discípulas. Para preveni-los do risco da crítica infundada e de assumirem a postura de superiores e juízes, Jesus recorre a dois provérbios ou sentenças: aquele do cego que se oferece nesciamente como guia; aquele do cisco no olho que impede de ver claramente a sujeira externa.

A advertência de Jesus é clara: todos nós podemos ser cegos e levar os outros a tropeçar e a cair; ninguém está em condições de julgar ninguém; não podemos criticar ninguém se não exercitarmos a autocrítica diante de Jesus e do seu Evangelho; em relação aos outros, somos irmãos, e não juízes. Quando esquecemos isso, acabamos sendo hipócritas, iguais aos criticáveis fariseus e doutores da lei. Não há lugar para a soberba e para tribunais penais no interior da comunidade cristã!

E a regra também é meridianamente clara: nossas relações devem pautar-se pelas relações de Jesus, único mestre e guia capaz de conduzir à vida e à verdade. Como discípulos do profeta de Nazaré, não somos maiores nem podemos ser diferentes do mestre. “Todo discípulo bem formado será como o mestre”. E Jesus não pautou sua vida pelo julgamento e pela condenação, mas pelo amor que liberta e edifica. É claro que isso não elimina a profecia, que nasce da paixão pela verdade. Aliás, a fraternidade, a acolhida e o respeito aos diferentes não é uma profecia eloquente?

Somente as pessoas que têm o olhar limpo e o coração puro (consciência dos próprios limites) estão em condições de ajudar e criticar os outros, e sempre como irmãos e irmãs. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos e maus, será sempre a nossa medida. Quem somos nós para colocarmo-nos acima dele? Quem teria competência e legitimidade para corrigir o próprio filho de Deus, ele que não foi enviado para julgar e condenar, mas para salvar?

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e cada comparação ou figura usada por Jesus e tente perceber o que significam para você

Você percebe, em você mesmo e na sua comunidade, sinais da tentação de ser como um cego que quer guiar cegos, corrigir os outros sem fazer autocrítica?

Como podemos evitar condenar os outros sem deixar de agir e falar com coragem profética diante das injustiças e mentiras que ferem nossos irmãos e irmãs?

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A primazia da misericórdia

A misericórdia nos faz semelhantes a Deus

1200 | Tempo Comum | Semana XXIII | Quinta | Lucas 6,27-38

O Reino de Deus pede de nós, discípulos e discípulas de Jesus, grandeza de coração. Precisamos espelhar-nos na misericórdia do Pai, cujo rosto é o próprio Jesus, que ama incondicionalmente a “todos, todos, todos”, inclusive as pessoas “ingratas” ou “más”. O amor que se nos pede é mais que estratégia, oportunismo, boa educação ou boas maneiras. As exigências de Jesus são altas, e não é possível ser mesquinho.

Jesus é direto: “A vós que me escutais, eu digo...” Ele fala conosco, que dedicamos um mês especial à Palavra de Deus. Ele fala de modo manso, mas sublinha com ênfase, que as relações de amor recíproco são insuficientes. O amor aos iguais, às pessoas bondosas e agradecidas, é pouco, e não consegue se libertar das correntes do egoísmo de grupo e do paganismo. Deus não nos trata assim!

No evangelho de hoje, Jesus fala de amor aos inimigos, de compreensão com aqueles que nos odeiam, excluem, insultam e amaldiçoam. Não são apenas aqueles que odiamos ou que nos odeiam, mas aqueles que nos fizeram ou nos fazem mal, aqueles que a sociedade torna invisíveis, aqueles dos quais não queremos nos aproximar e que, quando os ignoramos, nos sentimos bem.

Jesus faz questão de deixar bem claro o que significa amar os inimigos: fazer o bem a quem nos odeia; abençoar os que nos amaldiçoam; rezar por aqueles que nos caluniam; oferecer a outra face a quem nos bate; dar também a túnica a quem nos penhora o manto; emprestar a quem pede; dar sem cobrar retribuição. Não é apenas hoje que surgem pessoas que pensam que Jesus foi longe demais.

Mas Jesus não ensina a passividade, a submissão ou a ingenuidade. O que ele pede é que sejamos como ele e como o Pai dele e nosso, que “é bondoso também para com os ingratos e maus”. Ele espera que não sejamos apenas reagentes, mas capazes de inovar, de tomar a iniciativa, de fazer aos outros o que desejamos que nos façam.

A misericórdia é a profundidade e a generosidade de Deus, e também a balança na qual nossa fé, nossa esperança e nossa caridade são medidas. A medida de Jesus e do Pai deve ser a nossa medida. É assim que brilhará em nosso rosto e em tudo o que fazemos e somos o rosto do Pai e assim demonstraremos que somos filhos do Pai.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada afirmação ou prescrição de Jesus, identificando quem são os seus “inimigos” ou “adversários”

Você acha isso tudo praticável ou impossível de levar em conta em nossas relações? Por onde você poderia começar, hoje, evitando querer fazer tudo de uma vez e acabando por desanimar?

O que podemos fazer para ajudar nossas comunidades a levar a sério a proposta de Jesus em tempos de intolerância?

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Quem é feliz?

O Reino de Deus abre as portas da felicidade

1199 | Tempo Comum | Semana XXIII | Quarta | Lucas 6,20-26

No “sermão” de hoje, Jesus fala aos discípulos que ele mesmo chamou ou que o buscaram espontaneamente. Na sinagoga de Nazaré, ele já havia deixado claro que, com ele e com o advento do Reino de Deus, inaugurava-se um tempo de gratuidade e felicidade no qual os pobres e oprimidos ocupam o primeiro lugar.

No seu anúncio de hoje, Jesus distingue claramente dois grupos de pessoas: um grupo que ele declara feliz, e um grupo que ele caracteriza como maldito. As pessoas felizes são os discípulos verdadeiros, coerentes, solidários, colaboradores de Deus no mundo. As pessoas malditas são as que não permitem que Deus interfira nas suas escolhas e, assim, impedem que ele reine na sociedade.

Os pobres (literalmente, as pessoas carentes e dependentes) são felizes porque são os destinatários e beneficiados pela vinda do Reino de Deus. E os ricos (que em Lucas são representados pelo homem indiferente e avarento da parábola do rico e de Lázaro) devem se lamentar porque não descobriram o tesouro da partilha e da solidariedade, e se detêm em satisfações egoístas e fugazes.

Aos famintos (toda caracterização é dispensável!) Jesus opõe os satisfeitos (orgulhosos com o que têm). Felizes são também as pessoas que choram (aquelas que lamentam a morte de uma pessoa querida ou um erro cometido), enquanto que grupo dos que riem (pessoas seguras de si mesmas, que se sentem melhores e superioras) é declarado maldito.

Felizes são também os discípulos que sofrem ódio, insultos e perseguições por causa de Jesus e do Reino de Deus, enquanto que as pessoas despreocupadas, badaladas e estimadas como os falsos profetas merecem a reprovação de Jesus e não chegam a experimentar a verdadeira felicidade.

Não se trata de um desejo vazio de Jesus, nem de uma promessa para depois da morte, mas de uma declaração que tem a força de quem a pronuncia. Nessas palavras, Jesus desmascara as ilusões dos ricos e satisfeitos e assegura a reviravolta, já iniciada pela instauração do Reino de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada proclamação e cada lamentação correspondente e as deixe repercutir em você, mantendo os pés no chão

Para você é difícil concordar com o que Jesus diz e faz? Você tem vontade de amenizar sua fala, de adocicar suas palavras?

Experimente inverter o que Jesus diz: ai dos pobres, ai dos que choram, ai dos que têm fome... Isso é humano e aceitável?

Você continua disposto a seguir este caminho especial de felicidade proposto por Jesus, e está consciente das exigências que comporta?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Nascimento de Maria

Maria, filha de um povo de fé indomável

1198 | Festa da Natividade de Maria | Mateus 1,1-23

Recordamos o nascimento de Maria para destacar a longa preparação e o início da realização da promessa de Deus, da nova e eterna aliança selada na vida, morte e ressurreição de Jesus. As Sagradas Escrituras não estão interessadas na origem de Maria. O que sabemos é que sua história lança raízes na história de um povo marcado pela opressão e pela esperança inabalável. Maria é filha do seu povo e, através dela e do filho, o amor de Deus alcança toda a humanidade, sem nenhuma exclusão. Maria é a “arca da aliança”, e nela se unem a antiga e a nova aliança.

Os relatos de genealogia, como esse de Jesus, nos parecem hoje enfadonhos e inúteis. Mas, para a cultura do oriente antigo, as genealogias eram um modo de assegurar e demonstrar a pertença a um povo, de estabelecer heranças e promessas. No caso de Mateus, mesmo sem apresentar uma genealogia completa de Jesus (ele não cita Moisés nem os profetas), fica claro que Jesus pertence ao povo hebreu, que é um israelita legítimo, um descendente de Davi, encarnação do bom governante.

Normalmente as genealogias apresentam apenas figuras masculinas, pois são narrativas essencialmente patriarcais. Mas Mateus inclui na genealogia de Jesus cinco mulheres: Tamar (filha de uma prostituta), Raab (uma prostituta cananéia), Rute (mulher estrangeira, pertencente a um povo acusado pelos judeus de ter nascido de uma relação incestuosa), e a “mulher de Urias” (mulher sem nome, abusada pelo rei Davi, no auge do seu poder) e Maria de Nazaré.

Incluindo estas mulheres nas origens de Jesus, Mateus deslegitima o patriarcado e sublinha a providência misericordiosa de Deus e a inclusão de pessoas e povos marginalizados nos seus planos e intervenções. Silenciando sobre o pai biológico de Jesus (“José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”), Mateus sublinha a independência de Deus na sua ação libertadora e nos agentes que escolhe.

Maria é incluída no grupo das outras quatro mulheres (ela é filha da humanidade marginalizada), mas, ao mesmo tempo, representa uma diferença, uma novidade: nela e por ela se manifesta a encarnação de um Deus que intervém na história mediado pelo ser humano, elevando os humilhados e relativizando os poderes e ideologias. Por isso, a aclamamos: “Maria de Deus, Maria da gente!”

 

Sugestões para a meditação

Retome a genealogia, prestando muita atenção nas figuras femininas e na mudança da lógica do texto quando fala da geração de Jesus em Maria

Contemple demoradamente o drama enfrentado por José diante da inaudita e inexplicável gravidez da sua noiva

Qual é a relevância, e o que significa, para você, lembrar que Maria também nasceu, pertence a um povo e faz parte do grupo de mulheres olhadas com desprezo pelos homens?