A
busca de novos paradigmas
O Papa Bento XVI
convocou o mundo a eliminar as causas
estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de
crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente.
Lembrou que o mundo não pode ser
analisado considerando apenas sobre um dos seus aspectos, porque o livro da
natureza é uno e indivisível, incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a
vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda
a convivência humana (§ 6).
A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o
meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de
vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão
modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que
tudo está interligado (§ 138).
Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou
político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar
os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de
mudanças climáticas. Mas tornou-se urgente o desenvolvimento de políticas
capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbônico e
outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, substituindo os
combustíveis fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável (§ 26).
Para que surjam novos
modelos de progresso, precisamos converter
o modelo de desenvolvimento global, refletir sobre o sentido da economia e
dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o
cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente
com o progresso. Neste campo, os
meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se de redefinir o progresso. Um
desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma
qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso (§
194).
A humanidade precisa
tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e
de consumo, para combater este aquecimento
ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o
mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e
de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as
sociedades (§§ 5, 23).
A consciência
da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos. Muitos sabem que não basta o progresso atual e a mera
acumulação de objetos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano,
mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos
países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade
ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela
defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e
bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos (§ 209).
Uma mudança nos
estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quem detêm o
poder político, econômico e social.
Quando os hábitos da sociedade afetam os ganhos das empresas, estas veem-se
pressionadas a mudar a produção. Isto
lembra-nos a responsabilidade social dos consumidores. Comprar é sempre um
ato moral, para além de econômico. Por isso, hoje, o tema da degradação
ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós (§ 206).
Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com
medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos
estrangeiros. A construção míope do poder freia
a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos.
A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com
base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo (§ 178)
Prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende
a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso
sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é
preciso ter presente que os modelos de
pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se
preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à
sociedade e à relação com a natureza (§ 215).