sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A verdadeira felicidade

A verdadeira felicidade está em seguir Jesus

1230 | Tempo Comum | 27ª Semana | Sábado | Lucas 11,27-28

Na cena anterior, Jesus apresentara suas credenciais como enviado do Pai e agente autorizado do reino de Deus. No fim, advertira os judeus que se diziam libertos e salvos pela lei e as pessoas que haviam sido libertadas por ele do demônio. Não basta ser curado, sentir-se livre das coações e imposições exteriores! É preciso ir além, entrar no dinamismo do Reino de Deus, encetar uma nova caminhada e perseverar nela: ser livre para amar e servir.

Ouvindo o ensino de Jesus aos discípulos e o debate dele com seus opositores, uma mulher anônima expressa o sentimento do povo diante da pregação e das ações de Jesus. Exultando e em alta voz ela proclama feliz a mulher que gerou e amamentou Jesus. É um eco da exultação de Isabel ao receber a mãe de Jesus em sua casa. Como mulher, ela sabe daquilo que uma mãe precisa para gerar e educar um filho assim.

Exaltando a mãe de Jesus, esta mulher, e o povo que ela representa, quer exaltar o seu filho, Jesus de Nazaré. Mas Jesus surpreende seus interlocutores alterando o destinatário da bem-aventurança. Para ele, a felicidade não está em gerar e amamentar o Verbo de Deus, mas em ser ouvinte, guardião e praticante atento e perseverante da Palavra de Deus. A felicidade consiste em ser filho e não mãe da Boa Notícia! A verdadeira felicidade é a do discípulo do Reino de Deus.

Para Jesus, grande e feliz é quem se torna ouvinte e discípulo fiel, guardião atento e praticante do Evangelho do Reino de Deus. Assim, a atitude de escuta e serviço à Palavra que vemos em Maria representa o nascimento de uma família diferente, gerada no ventre fecundo da misericórdia vivida como prática cotidiana. A relação mestre-discípulo é mais importante que a relação mãe-filho ou pai-filho. A fraternidade tem prioridade sobre a maternidade e a paternidade. Os vínculos mais relevantes e virtuosos são os vínculos de afeto e de compromisso, e não os de sangue.

Conforme Lucas, guardar a Palavra significa perseverar no Evangelho do Reino de Deus e colocá-lo em prática. E isso fica claro na parábola da semente (8,15), na apresentação da verdadeira família de Jesus (8,21) e na parábola da casa construída sobre o firme alicerce (6,46-49). “Quem tem ouvidos, ouça!” Faz parte da Boa Notícia do Reino de Deus o anúncio incansável, o testemunho coerente e o serviço despojado que caracterizam a vida do missionário.

 

Sugestões para a meditação

Releia lentamente estes breves versículos, palavra por palavra, no horizonte de todas as ações de Jesus

Acolha estas palavras de Jesus como dirigidas a você e à sua comunidade, e permita que elas ecoem com toda a carga de significado que elas carregam

Em que medida somos tentados a avaliar as pessoas pela origem, pelo sobrenome, pelo papel social ou pelo poder que tem na Igreja e na sociedade?

Quase ninguém tem tempo

O CONVITE DE DEUS

Ao que parece, a parábola do banquete foi muito popular entre as primeiras gerações cristãs, e ficou registada em Lucas, Mateus e até no evangelho apócrifo de Tomás. As versões são tão diferentes e as interpretações tão diversas que só podemos aproximar-nos dos elementos essenciais do relato original.

Deus está preparando uma festa para todos os seus filhos, pois quer ver todos sentados, junto a Ele, à volta da mesma mesa, desfrutando para sempre de uma vida plena. Esta foi certamente uma das imagens mais queridas por Jesus para sugerir o fim último da história humana. Não se contentava só com dizê-lo com palavras. Sentava-se à mesa com todos, e comia até com pecadores e indesejáveis, pois queria que todos pudessem ver, de forma concreta, algo do que Deus desejava realizar.

Por isso, Jesus entendeu a sua vida como um grande convite em nome de Deus. Não impunha nada, não pressionava ninguém. Anunciava a boa notícia de Deus, despertava a confiança no Pai, tirava os medos, acendia a alegria e o desejo de Deus. A todos devia chegar o seu convite, sobretudo aos mais necessitados de esperança.

Jesus era realista. Sabia que o convite podia ser rejeitado. Na versão de Mateus, descrevem-se várias reações. Uns rejeitam conscientemente: «Não quiseram ir». Outros respondem com indiferença: «Não fizeram caso». Importavam-se mais com os seus campos e negócios. Houve quem reagisse de forma hostil contra os servos.

São muitos os que já não escutam qualquer apelo de Deus. Basta-lhes responder por si mesmos diante de si mesmos. Sem talvez se darem conta, vivem uma existência solitária, encerrados num monólogo perpétuo consigo próprios. O risco é sempre o mesmo: viver cada dia mais surdos a qualquer apelo que possa transformar radicalmente a sua vida.

Talvez uma das tarefas mais importantes da Igreja hoje seja criar espaços e facilitar experiências onde as pessoas possam escutar de forma simples, transparente e jubilosa o convite de Deus proclamado no evangelho de Jesus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

O voto dos brasileiros

Venceu a astúcia interesseira do machado

O Brasil se define como uma república democrática. República (“coisa pública”) é uma concepção de Estado baseado na igualdade de todos perante a lei, na alternância do exercício de governo, na independência dos poderes, na soberania do povo e na busca do bem comum. Democracia (“poder do povo”) é um sistema de governo no qual o poder político pertence ao povo, que o exerce diretamente ou mediante representantes que elege livremente.

No último domingo, o Brasil foi às urnas para escolher os cidadãos e cidadãs aos quais vai delegar seu direito de elaborar e aprovar leis e executar políticas que atendam seus interesses e assegurem a plena cidadania política e social a todos os cidadãos. Tanto os meios de comunicação social como os próprios agentes políticos e as autoridades constituídas gostam de proclamar em alto e bom tom que esta foi uma grande celebração da democracia.

Longe de mim negar o valor do voto universal e das eleições periódicas, transparentes e livres. O voto do empresário tem o mesmo peso que a escolha do operário. A vontade do militante vale tanto quando o voto de protesto do indiferente. Em tese, estamos livres dos sistemas autocráticos e monocráticos, pois a independência e a harmonia entre os poderes estão asseguradas. Sim, as eleições são uma grande e bela festa da democracia!

Mas, para que seja real e não uma mera formalidade, a democracia tem alguns pressupostos. E o primeiro elemento que o efetivo exercício da democracia supõe é a correta compreensão daquilo que chamamos povo e da sua vontade objetiva. Povo não é um conceito fluido e indiferenciado, mas uma maioria qualificada que se diferencia e opõe àquilo que chamamos elites (econômica, cultural, financeira, política). O poder emana dele, e está a serviço dele.

Quanto à vontade objetiva e legítima do povo, não podemos presumir ingenuamente que seja aquilo que se revela no resultado das urnas. Uma coisa é a vontade objetiva, que coincide com suas necessidades e direitos fundamentais (à vida, à liberdade, ao trabalho, à saúde, à educação, à segurança, ao bem-estar, etc.); outra é a vontade subjetiva, que sofre influência dos medos (reais ou produzidos), das ambições e das manipulações da cultura e da mídia.

O resultado das urnas reflete esta vontade manipulada pela grande mídia e pelas big techs. Mais de 90% dos brasileiros deploram a corrupção, mas os envolvidos no caso Master foram eleitos! 80% querem o fim das bets e 70% querem o fim da escala 6x1, mas os candidatos que as defendem foram os eleitos! Os trabalhadores e aposentados lutam por aumento de salários e pensões, mas elegeram políticos que são contra. As árvores da floresta tombam uma a uma, mas o machado as convenceu que é uma delas por ter o cabo de madeira...

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A ação é reveladora

É para sermos livres que Jesus nos libertou

1229 | Tempo Comum | 27ª Semana | Sexta | Lucas 11,15-26

O foco deste trecho do evangelho, que está inserido na caminhada decisiva de Jesus a Jerusalém, não é a discussão sobre o exorcismo. O texto sequer descreve a expulsão de demônios. Na verdade, o debate gira em torno da identidade de Jesus e em nome de quem – ou com o dedo de quem – ele combate elimina as forças do mal (simbolizadas no demônio) e inaugura um tempo de justiça e paz.

Os adversários de Jesus propriamente não contestam sua ação libertadora, mas dizem que aquilo que ele faz não passa de “magia negra” ou de conluio com Satanás, e pedem-lhe um sinal espetacular que seja capaz de convencê-los de que ele vem e age efetivamente em nome de Deus. Para Jesus, as ações que libertam e reconstroem pessoas dominadas e oprimidas são sua credencial, são eloquentes sinais do “dedo de Deus”, da irrupção do seu Reino de Deus.

Diante de interlocutores divididos em dois grupos – o povo, que fica maravilhado com o que faz Jesus, e os líderes do judaísmo que o acusam de agir como mediador do diabo – Jesus desenvolve sua autodefesa. Ele afirma que são exatamente as suas ações emancipadoras que o credenciam, e convoca os próprios exorcistas judeus a julgar aqueles que questionam suas ações. Jesus não fez aliança com Satanás, mas é mais forte que ele, e o derrotou definitivamente.

Para ilustrar ou exemplificar o que afirma, Jesus recorre a duas pequenas parábolas: um povo (um reino ou uma família) internamente dividido, e um chefe doméstico dominado e expulso de sua casa por alguém mais forte que ele. O homem mais forte, que vence o senhor da dominação, é Jesus. Ele libertou a família humana do domínio do mal. Diante dele não há neutralidade: ou estamos com ele, ou agimos contra ele. Jesus não é agente ou executivo de satanás, pois se assim fosse, Satanás estaria agindo contra si mesmo e cavando sua própria ruína.

Por fim, Jesus adverte tanto os judeus que se dizem libertos e salvos pela lei como as pessoas que foram libertadas por ele mesmo do demônio. Ele sublinha que não basta ser curado, é preciso ir além, entrar no dinamismo do Reino de Deus e perseverar nele. Caso contrário, quem se considera uma pessoa de “consciência limpa” ou totalmente libertada em Jesus Cristo, pode ser vítima dos próprios caprichos e interesses, e ver-se dominada por desejos contraditórios.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, observando os detalhes e nuances da discussão sobre as credenciais messiânicas de Jesus

Você é capaz de ver nas ações de Jesus, mesmo pequenas, os sinais do Reino de Deus, ou espera apenas grandes milagres?

O que você faz para evitar que sua vida, liberta e limpa por Jesus e seu Evangelho, seja de novo ocupada pelo egoísmo?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Pedir com confiança

Quem confia no Senhor, nunca fica ‘na mão’

1228 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quinta | Lucas 11,5-13

Nos versículos anteriores, Jesus ensina aos discípulos a oração do Pai-Nosso, respondendo ao pedido deles mesmos. Mais que propor um texto de oração, Jesus abre aos discípulos um horizonte, e os convida à busca da vontade e do Reino de Deus. Ele nos ensina a confiança absoluta no Pai e Deus do Reino e na reconciliação fraterna. Não se trata de pedir coisas, mas de contar com uma presença amorosa.

O trecho que meditamos hoje reforça a atitude de proximidade, amizade e confiança em Deus como base indispensável da oração cristã. Mais que uma obrigação, a oração é um “espaço pedagógico” que nos ajuda a crescer no conhecimento e na fidelidade à vontade de Deus. Exercitando a oração, o cristão capta e experimenta a bondade e a benevolência de Deus. A oração é abertura ao Reino de Deus, e não um modo de convencer Deus a fazer a nossa vontade.

O texto de hoje é uma espécie de comentário à oração ensinada por Jesus, e sublinha que oração é essencialmente uma relação confiante e amistosa de Jesus e dos seus discípulos e discípulas com Deus, que é Pai. Esta relação amorosa e confiante é ilustrada por Jesus mediante duas comparações muito concretas e conhecidas: a relação de ajuda entre vizinhos; a relação de confiança entre pai e filho.

Para os povos do Oriente, a hospitalidade é sagrada, é um dever básico das relações humanas, tanto entre conhecidos como em relação a estrangeiros e desconhecidos. É por isso que, mesmo à noite, o vizinho socorre seu amigo que bate à sua porta: para que ele não falte em relação a esse dever sagrado para com a visita inesperada. Assim é Deus: ele não deixa de atender as necessidades de quem se dirige a ele, ele não deixa um amigo “na mão”, especialmente quando está em jogo a solidariedade.

A segunda metáfora vem do contexto da relação entre pais e filhos. Um pai, mesmo que não seja um modelo de bondade, socorre os filhos em suas necessidades, e faz de tudo para que não lhes falte o necessário, mesmo que nem sempre lhes dê o que desejam. Ninguém, muito menos um pai ou uma mãe, dá cobra ou escorpião quando o filho ou a filha pede peixe ou ovo! Assim, Deus não nega o Espírito Santo àqueles que lhe pedem. Daí o estímulo a pedir com confiança, mas também buscar, lutar incessantemente, e não por questões de pequena monta: buscar o Reino de Deus, a santificação do nome de Deus, lideranças comprometidas com o bem dos pobres.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, ligando-o com a oração de Jesus e prestando atenção às duas comparações

Qual é sua atitude ao rezar: desejo de dobrar Deus à sua vontade, fé mecânica e mágica num milagre, ou confiança e abertura ao Reino de Deus?

O que poderíamos fazer para ajudar as pessoas e comunidades cristãs a rezar abrindo-se com confiança a Deus e sua vontade?

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Nossa Senhora do Rosário

Maria é modelo de serviço a Deus e aos irmãos

1227 | Memória de Nossa S. do Rosário | Lucas 1,26-38

A festa de Nossa Senhora do Rosário fui instituída em 1571, pelo Papa Pio V, para celebrar a vitória romana sobre o exército turco, ocorrida no dia 7 de outubro daquele ano. Pio V foi também o responsável pela promoção do rosário, como forma de piedade. Esse exercício devocional mariano, até então conhecido em apenas alguns pequenos círculos religiosos, foi estendido e recomendado à Igreja universal em 1716.

No texto de Lucas escolhido para a celebração de hoje, o papel central é do Anjo Gabriel, e o clima em toda a narração é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão típica para dizer “Esteja bem! Tudo de bom para você!” O anjo Gabriel diz que o “charme” (graça) dela encantou o próprio Deus. É claro que o mensageiro de Deus não está se referindo à formosura física, nem à sua possível perfeição moral de Maria, mas à sua humanidade, original e sem pecado, como a criação saída das mãos de Deus.

Maria se mostra acolhedora, disponível e confiante em Deus e à sua vontade. E isso significa que o pecado (egoísmo, ostentação, fechamento, indiferença) não tem lugar em suas decisões, ações e projetos. Ela é a imagem da humanidade como Deus a quis, da pessoa humana madura na qual brilha a imagem de Deus, segundo a qual foi criada. A virgindade de Maria, tão preciosa para a Igreja Católica, não aponta para uma espécie de supremacia moral, nem para algo como a meritocracia, mas para sua radical pobreza, impotência e abertura ao projeto de Deus.

É verdade que Maria é uma pessoa acolhedora, disponível e serviçal diante da Palavra de Deus, mas isso não significa que ela seja uma mulher passiva, sem personalidade e sem iniciativa. Antes, a cena narrada por Lucas nos mostra uma mulher atenta e reflexiva. Ela pede explicações, interroga o Anjo, quer compreender. Corajosa, Maria vai descobrindo lentamente a misteriosa ação que Deus realiza nela e através dela dando beleza, prioridade e grandeza aos humildes e marginalizados. Quem ama torna-se criativo, toma iniciativas, não pode ser indiferente.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem/sombra que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo do povo hebreu, e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. Maria prefigura o novo povo de Deus, como o outro, vindo da periferia.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, imaginando-se presente e ativo na anunciação, num lugar perdido e obscuro da Galileia

Tome como dirigidas a você as palavras do Anjo: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

Acolha estas palavras como o horizonte e o fundamento da sua vocação e missão na Igreja e no mundo

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A missão nasce da escuta

O apostolado nasce da escuta e do discipulado

1226 | Tempo Comum | 27ª Semana | Terça | Lucas 10,38-42

Este conhecido e interessante encontro de Jesus com Marta e Maria na casa delas, relatado unicamente pelo evangelista Lucas, está na sequência do texto que trata do amor ao próximo, ilustrado por Jesus com a conhecida parábola conhecida como a parábola do bom samaritano. Por trás de uma e de outra cena está a pergunta sobre como servir a Deus e alcançar a salvação.

Nas cenas anteriores do evangelho de Lucas, enquanto Jesus caminha em direção a Jerusalém e faz o bem por onde passa, se alternam episódios de acolhida e de rejeição. Na casa de Marta, que é senhora e chefe da casa, Jesus encontra acolhida. Como pedira que fizessem os discípulos que enviara anteriormente, Jesus confia na hospitalidade a quem se dirige, e a valoriza. É isso que testemunha a cena de hoje.

A cena ocorre no ambiente doméstico, e mostra uma mulher no seu papel tradicional (trabalhos domésticos) e uma outra assumindo um papel novo, pouco convencional naquele ambiente, atribuído por Jesus (discipulado). Marta e Maria representam também dois paradigmas de discípulo: um, preocupado em multiplicar atividades exigidas pelas leis e costumes; outro, aprendendo aos pés de Jesus e ensinando.

Marta aparece como protagonista da cena: toma a iniciativa, adverte Jesus, manda que ele corrija sua irmã, como se quisesse se colocar acima até do próprio Jesus! A cena e as palavras de Jesus não nos permitem concluir que ele reprova a hospitalidade e o serviço que Marta lhe dispensa. Marta faz o que fez a sogra de Pedro (4,39) e o que fazem as mulheres que seguem Jesus (8,1-3). Marta, porém, age freneticamente, por sua própria cabeça, sem dar atenção à Palavra de Jesus.

O atordoamento de Marta nasce de uma divisão interna, de valores contraditórios, como aqueles que movem o sacerdote e o levita da parábola anterior. Jesus dirá que é preciso buscar o Reino de Deus, e deixar tudo o mais em segundo lugar. O Reino de Deus é a melhor parte, a única necessária, e ele não tem nada de cômoda passividade. Mas isso nós precisamos aprender e reaprender aos pés de Jesus, ouvindo atentamente a sua Palavra, como Pedro (5,5) e Maria, modelos de discipulado. A missão nasce da escuta, e o discipulado antecede o apostolado!

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, observando a agitação de Marta e a escuta atenta e obsequiosa de Maria

Se possível, releia o diálogo e a parábola que antecede o episódio de hoje, narrado por Lucas nos versículos 25 a 37

Sua ação pastoral e evangelizadora é agitada e mecânica, nasce da escuta atenta e despojada do Evangelho?

Poderíamos dizer que nós, em nossa família e em nossa comunidade, escolhemos a melhor parte, a única necessária?

domingo, 4 de outubro de 2026

Quem é o próximo?

O amor nos faz livres, criativos e solidários

1225 | Tempo Comum | 27ª Semana | Segunda | Lucas 10,25-37

Por trás da pergunta que o mestre da lei dirige a Jesus sobre como ganhar a vida eterna está uma ideia muito particular sobre o significado da salvação e o caminho que conduz a ela. Não esqueçamos que a discussão que perpassa os evangelhos é sobre o caminho mais direto e seguro para salvação: seria a submissão à lei, como ensinavam os escribas e fariseus, ou haveria outro caminho?

Para Jesus, o caminho da salvação não passa pelo cumprimento escrupuloso da lei, mas pela compaixão com todas vítimas e sofredores, mediante ações concretas de solidariedade. Na vida de Jesus, e na vida de quem o segue, não há lugar para a indiferença diante do sofrimento humano. Para ele, o amor pleno a Deus se concretiza na ação impostergável e generosa, sem agenda, em benefício das vítimas e de todas as pessoas necessitadas. Esta é a reposta de Jesus ao doutor da lei.

Mas o debate segue e o doutor da lei questiona quem é o nosso próximo. Ressoam aqui as perguntas do primeiro livro das escrituras sobre “onde está o meu irmão?” e “o que eu tenho a ver com ele?” Quem repete estas perguntas e não toma uma atitude concreta perdeu o rumo e o ritmo da vida cristã. Como resposta, Jesus não acrescenta mais uma norma ao monte de leis que existem, mas estabelece uma perspectiva nova e exigente de toda lei que queira ter fundamento.

Para Jesus, a solidariedade concreta e desinteressada substituiu todas as leis, e vale mais que culto e as instituições. E o samaritano – considerado herético, bastardo e impuro pelos judeus de Jerusalém – está mais próximo de Deus que o sacerdote e o levita, porque se aproxima da pessoa ferida e se compadece dela, enquanto que o sacerdote e o levita, obcecados pelas leis e pelo templo, se afastam dela. Há uma oposição entre fazer-se próximo e afastar-se sem se importar.

Jesus inverte a questão e pergunta pelo sujeito e não pelo objeto do amor ao próximo. Com a parábola Jesus não quer apresentar apenas um belo exemplo, mas abrir uma nova perspectiva. O amor concreto é definido na resposta à pessoa necessitada, que pode ser até inimiga. O amor nos faz livres e criativos! O paradoxo é que o protótipo do amor que salva é a pessoa mais desprezada, e o doutor da lei deve imitá-lo...

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, observando a astúcia do escriba e a sabedoria espiritual e humana de Jesus

Visualize a cena da parábola e participe dela, lembrando que os samaritanos eram desprezados e os sacerdotes idealizados

Será que nós também não nos distraímos e dispensamos do amor ao próximo em discussões estéreis sobre quem são eles?

Em que medida nós e nossas comunidades não deixamos de lado a compaixão para priorizar as leis e o culto?

sábado, 3 de outubro de 2026

As pedras falarão

A missão do cristão é também cobrar as contas

1224 | Tempo Comum | 27ª Semana | Domingo | Mateus 21,33-43

A missão dos cristãos não consiste unicamente em semear a mensagem do Reino de Deus onde o cristianismo ainda não lançou raízes, mas também em ir aos “arrendatários da vinha do Senhor” para recolher os frutos esperados, àqueles que foram investidos de autoridade ou ocupam posições de liderança política, social e religiosa para verificar se realmente se dedicam ao povo e defendem sua dignidade. Trata-se de uma missão com uma clara dimensão profética!

Esta missão é tão urgente quanto difícil e conflituosa. Na parábola, Jesus menciona as agressões sofridas pelas pessoas enviadas. Quando os missionários não se limitam a propor doutrinas e celebrar ritos, correm o risco de se tornar pessoas indesejáveis e sofrer violências nas mãos dos ‘malvadamente maus’ ou dos ‘canalhas’, como diz o evangelista. O Pe. Júlio Lancelotti e Dom Vicente Ferreira que o digam!

A missão não consiste em colher frutos para a Igreja ou multiplicar suas ‘agências’, mas em cobrar o estabelecimento do direito de Deus no mundo: a implantação da justiça para os pobres, o reconhecimento da dignidade dos desprezados, o cuidado e a bondade gratuita para com todas as criaturas. Se estes frutos não forem encontrados, o Reino de Deus deve ser subtraído às elites e autoridades constituídas e entregue a pessoas, grupos e movimentos que produzam esses frutos.

Jesus é o missionário enviado pelo Pai, modelo de missionário. Ele foi tratado como uma pedra de tropeço, sem valor, inadequada e problemática pelos projetos de dominação e exclusão. Essa rejeição indesejada acabou revelando sua opção pessoal e o princípio norteador da sua vida. Esta é a perspectiva de todo trabalho autenticamente missionário: subverter os esquemas, inverter as prioridades, afirmar os excluídos como indispensáveis no projeto de um mundo que deseje ser humano.

A missão segue seu caminho de baixo para cima, da periferia para o centro, dos últimos para os primeiros. A parábola da pedra rejeitada pelos grandes e recolocada por Deus no centro, é a parábola da missão. O discípulo missionário que tiver como meta contabilizar sucessos expansionistas e méritos errou o alvo da missão...

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente esta parábola, e perceba, por trás dela, toda a compaixão solidária de Jesus pelo seu povo

Traga a luz dessa parábola para a realidade de hoje, com nossas lideranças religiosas e políticas tão contraditórias

Podemos dizer que, como pessoas, como família e como comunidade, estamos produzindo os frutos que Deus espera?

Como desenvolver e viver melhor a dimensão crítica e profética da nossa fé em Jesus Cristo e nossa adesão ao seu Evangelho?

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Matar para se apropriar

NÃO CALAR A VOZ DOS PROFETAS

Quando, no ano 70 da era cristã, as tropas romanas destruíram Jerusalém e o povo judeu desapareceu como nação, os cristãos fizeram uma leitura terrível desse trágico acontecimento. Israel, esse povo tão amado por Deus, não soube responder aos seus apelos. Os seus dirigentes religiosos foram matando os profetas enviados por Ele; por fim, crucificaram o seu próprio Filho. Agora, Deus abandona-os e permite a sua destruição: Israel será substituído pela Igreja cristã.

Assim liam os primeiros cristãos a parábola dos lavradores homicidas, dirigida por Jesus aos sumos sacerdotes de Israel. Os lavradores encarregados de cuidar da «vinha do Senhor» vão matando, um após outro, os servos que Ele lhes envia para recolher os frutos. Por fim, matam também o filho do proprietário, com a intenção de eliminar o herdeiro e ficar com a vinha. O senhor não pode fazer outra coisa senão puni-los e entregar a sua vinha a outros lavradores mais fiéis.

Esta parábola não foi recolhida pelos evangelistas para alimentar o orgulho da Igreja, novo Israel, face ao povo judeu, derrotado por Roma e disperso pelo mundo. A preocupação era outra: poderá acontecer à Igreja cristã o mesmo que aconteceu ao antigo Israel? Poderá ela frustrar as expectativas de Deus? E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, que caminhos seguirá Deus para realizar os seus planos de salvação?

O perigo é sempre o mesmo. Israel sentia-se seguro: tinha as Escrituras Sagradas; possuía o templo; celebrava-se escrupulosamente o culto; pregava-se a Lei; defendia-se as instituições. Não parecia necessário nada novo. Bastava conservar tudo em ordem. É o mais perigoso que pode acontecer a uma religião: que se sufoque a voz dos profetas e que os sacerdotes, sentindo-se donos da «vinha do Senhor», queiram administrá-la como propriedade sua.

É também o nosso perigo. Pensar que a fidelidade da Igreja está garantida por pertencer à Nova Aliança. Sentir-nos seguros por termos Cristo como propriedade. No entanto, Deus não é propriedade de ninguém. A sua vinha pertence apenas a Ele. E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, Deus continuará a abrir novos caminhos de salvação.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez