segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Nascimento de Maria

Maria, filha de um povo de fé indomável

1198 | Festa da Natividade de Maria | Mateus 1,1-23

Recordamos o nascimento de Maria para destacar a longa preparação e o início da realização da promessa de Deus, da nova e eterna aliança selada na vida, morte e ressurreição de Jesus. As Sagradas Escrituras não estão interessadas na origem de Maria. O que sabemos é que sua história lança raízes na história de um povo marcado pela opressão e pela esperança inabalável. Maria é filha do seu povo e, através dela e do filho, o amor de Deus alcança toda a humanidade, sem nenhuma exclusão. Maria é a “arca da aliança”, e nela se unem a antiga e a nova aliança.

Os relatos de genealogia, como esse de Jesus, nos parecem hoje enfadonhos e inúteis. Mas, para a cultura do oriente antigo, as genealogias eram um modo de assegurar e demonstrar a pertença a um povo, de estabelecer heranças e promessas. No caso de Mateus, mesmo sem apresentar uma genealogia completa de Jesus (ele não cita Moisés nem os profetas), fica claro que Jesus pertence ao povo hebreu, que é um israelita legítimo, um descendente de Davi, encarnação do bom governante.

Normalmente as genealogias apresentam apenas figuras masculinas, pois são narrativas essencialmente patriarcais. Mas Mateus inclui na genealogia de Jesus cinco mulheres: Tamar (filha de uma prostituta), Raab (uma prostituta cananéia), Rute (mulher estrangeira, pertencente a um povo acusado pelos judeus de ter nascido de uma relação incestuosa), e a “mulher de Urias” (mulher sem nome, abusada pelo rei Davi, no auge do seu poder) e Maria de Nazaré.

Incluindo estas mulheres nas origens de Jesus, Mateus deslegitima o patriarcado e sublinha a providência misericordiosa de Deus e a inclusão de pessoas e povos marginalizados nos seus planos e intervenções. Silenciando sobre o pai biológico de Jesus (“José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”), Mateus sublinha a independência de Deus na sua ação libertadora e nos agentes que escolhe.

Maria é incluída no grupo das outras quatro mulheres (ela é filha da humanidade marginalizada), mas, ao mesmo tempo, representa uma diferença, uma novidade: nela e por ela se manifesta a encarnação de um Deus que intervém na história mediado pelo ser humano, elevando os humilhados e relativizando os poderes e ideologias. Por isso, a aclamamos: “Maria de Deus, Maria da gente!”

 

Sugestões para a meditação

Retome a genealogia, prestando muita atenção nas figuras femininas e na mudança da lógica do texto quando fala da geração de Jesus em Maria

Contemple demoradamente o drama enfrentado por José diante da inaudita e inexplicável gravidez da sua noiva

Qual é a relevância, e o que significa, para você, lembrar que Maria também nasceu, pertence a um povo e faz parte do grupo de mulheres olhadas com desprezo pelos homens?

domingo, 6 de setembro de 2026

Um grito por soberania

Gritos por uma nação fraterna e soberana

O Papa Leão XIV iniciou sua primeira encíclica com uma afirmação programática, fruto de uma lúcida visão da história: “Cada geração recebe em herança a tarefa de fazer da história um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.  Sobre cada época paira também o risco de construir um mundo desumano e mais injusto” (Magnifica Humanitas, § 1).

Isso significa que, tanto como cristãos como enquanto cidadãos, precisamos evitar duas posturas igualmente inconsequentes: viver recordando as conquistas do passado e venerando heróis nem sempre veneráveis; dispensar-nos da responsabilidade de projetar e construir um país e um mundo humano e justo, como se isso fosse algo impossível ou uma tarefa que pode ser delegada a alguns poucos cidadãos.

A celebração da Semana da Pátria é um programa legítimo e pedagogicamente oportuno, na medida em que ajuda a cimentar a unidade do povo brasileiro a partir de um dos seus eventos fundacionais. Mas torna-se perigosamente vazia e até nociva se nos induz a pensar a independência e a soberania do país como se fosse um fato já consolidado, e a isolar Dom Pedro, o filho do rei colonizador, da plêiade de interesses aos quais servia.

O que ressoou no longínquo 7 de setembro de 1822, já sabemos, não foi apenas o “heroico brado de um povo retumbante”, e o “sol da liberdade” e da soberania está hoje encoberto por nuvens tenebrosas que vêm do Norte e contam com a colaboração escancarada e inconfidente de outros Calabar e outros Silvério dos Reis. A independência, a democracia e a soberania nacional são conquistas sempre precárias e inacabadas.

Por isso, mesmo que não seja possível ver claramente o que está acontecendo no Planalto Central e nas instituições lá domiciliadas, é mais do que necessário juntar ao grito do Ipiranga a voz de um povo lucidamente indignado que proclama, como Sepé, um dos heróis da pátria: “Alto lá! Esta terra tem dono!” Se outrora sacudimos o domínio de Portugal e, depois, da Inglaterra, não podemos voltar a ser quintal de ninguém.

Longe de nós a cômoda e criminosa passividade diante da sanha dos prepotentes, sejam eles ianques ou tupiniquins. É verdade que as fronteiras nacionais não são alfândega para o Povo que nasce do lado esquerdo de Jesus Cristo. Mas, como cristãos, não podemos desviar, como fizeram o sacerdote e o levita da parábola (Lucas 10,25-37), diante de um povo que pode sofrer a rapina de poderes que se julgam divinos.

Outra vez!

O cuidado da vida não depende de agendas

1197 | Tempo Comum | Semana XXIII | Segunda | Lucas 6,6-11

Em plena semana da pátria, no dia em que recordamos a transição da nossa condição de colônia para nação independente, a cena do evangelho de hoje apresenta-nos Jesus desafiando as leis e instituições e colocando a pessoa e suas necessidades acima de tudo. Acima das prioridades desse ou daquele governo, acima do teto ou do arcabouço fiscal, acima dos sacramentos e das diversas normas e orientações morais e administrativas da Igreja está a pessoa humana concreta.

Jesus está na sinagoga, em dia de sábado: lugar sagrado, dia sagrado, espaço do império absoluto da lei e das tradições. Mas nada disso consegue reabilitar um homem anônimo impedido de agir, de fazer algo bom. A sinagoga, os fariseus e as tradições o ignoram, não podem ou não querem tomar conhecimento da sua marginalização, nem reabilitá-lo. O legalismo e o formalismo!

Embora necessitado de ajuda, o homem não pede nada. É Jesus que toma a iniciativa, chama aquele homem vulnerável para o centro da roda e interpela os líderes religiosos que o espreitam: “O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” Eles sabiam que a lei permitia agir em caso de necessidade, mas preferiam calar e permanecer indiferentes. Para Jesus, ser omisso e indiferente já significa fazer o mal!

A ação de Jesus, assim como sua pergunta, é claramente provocatória. Ele não espera qualquer resposta, mas um exame de consciência daqueles que o criticam e condenam. Curando o homem em dia de sábado, Jesus desmonta a sustentação ideológica dos escribas e fariseus, acusa-os de fazer o mal no dia sagrado e mostra a esterilidade das instituições que eles defendem. O que tem prioridade é o cuidado, a defesa e a promoção da vida, e não as tradições, o cuidado de si mesmo.

“A vida em primeiro lugar!”, e não a economia, o teto fiscal, o equilíbrio das contas, a louca vontade de um misterioso mercado, que é o nome usado para encobrir os especuladores. Ser discípulo de Jesus significa agir como ele, fazer a sua vontade, ser responsável pelo seu Reino, fazer o bem sempre, o máximo bem possível.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se nela, e observe atentamente o que dizem e o que fazem Jesus, os fariseus e o homem doente

Você é capaz de perceber como algumas instituições defendem mais as leis e seus interesses que a dignidade das pessoas?

Você percebe que, colocando a pessoa no centro, Jesus desvela a esterilidade do tradicionalismo, do legalismo e do patriotismo?

Em que medida você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades das pessoas?

sábado, 5 de setembro de 2026

Pedagogia da correção fraterna

A intolerância e a ofensa são coisas sérias!

1196 | Tempo Comum | Semana XXIII | Domingo | Mateus 18,15-20

Mateus dedica os capítulos 16 a 18 do seu evangelho para nos apresentar o empenho de Jesus na formação dos seus discípulos no modo de vida inspirado no Reino de Deus. Temos aqui as orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida liminar: alternativo, inovador, profético e crítico aos estilos então culturalmente habituais e politicamente predominantes.

Embora seja chamada a ser alternativa, a comunidade dos discípulos não é perfeita. As tensões e conflitos são inevitáveis. Às vezes, as lideranças são intolerantes em relação aos erros dos seus irmãos. Para evitar que os membros da comunidade fiquem à mercê do humor das autoridades, Jesus traça um caminho pedagógico. O objetivo é ajudá-los a tomar consciência dos erros e mudar de atitude.

O ponto de partida é a convicção de que a ofensa recíproca é algo sério, algo que precisa ser resolvido, e não ser posto “embaixo do tapete”. O primeiro passo é um diálogo pessoal e fraterno, para que o ofensor reconheça seu deslize. Se isso não resolve, volta-se a conversar com ele na presença de testemunhas. Se também isso resultar em fracasso, a questão é levada à comunidade dos discípulos.

Mas nem assim o êxito está garantido! Se as três tentativas resultarem em nada, a ruptura pode ser declarada publicamente. Mas a missão reconciliadora dos cristãos fiéis não termina com esta declaração. Colocando os ofensores no grupo dos publicanos e pecadores, Jesus está dizendo que eles são campo de missão, como ele mesmo o demonstrou. Longe de Jesus ratificar práticas de exclusão definitiva!

Jesus pede paciência e lucidez na relação com as pessoas que erram, ou seja, com todos os membros da comunidade. A comunidade cristã (e não apenas Pedro!) tem a faculdade de atar e desatar, ou seja: de discernir quem está dentro e quem se coloca fora dela. Mas é sempre o próprio Jesus que manifesta sua incondicional inesgotável misericórdia através da sua presença e ação na comunidade dos discípulos e discípulas que se deixam reconciliar.

 

Sugestões para a meditação

Retome esta lição de Jesus, passo a passo, frase por frase; se possível, leia também os versículos anteriores (v. 1-14)

Como você, sua família e sua comunidade enfrentam os conflitos e tensões de relacionamento e convivência?

Por que é sempre mais fácil queixar-se das pessoas que nos ofendem ou prejudicam a terceiros, evitando falar com elas?

Reflita sobre o que significa, na perspectiva de Jesus, tratar os ofensores como gentios ou cobradores de impostos?

Abrir-se

SAIR DO ISOLAMENTO

A solidão tornou-se uma das pragas mais graves da nossa sociedade. Os homens constroem pontes e autoestradas para se comunicarem com mais rapidez. Lançam satélites para transmitir todo tipo de ondas entre os continentes. Desenvolve-se a telefonia móvel e a comunicação pela Internet. Mas muitas pessoas estão cada vez mais sozinhas.

O contato humano arrefeceu em muitos âmbitos da nossa sociedade. As pessoas já não se sentem responsáveis pelos outros. Cada um vive encerrado no seu mundo. Não é fácil o dom da verdadeira amizade

Há quem tenha perdido a capacidade de chegar a um encontro caloroso, cordial e sincero. Já não são capazes de acolher e amar ninguém com sinceridade, e não se sentem compreendidos nem amados por ninguém. Relacionam-se todos os dias com muitas pessoas, mas na realidade não se encontram com ninguém. Vivem com o coração bloqueado, fechado a Deus e fechado para os outros.

Segundo o relato evangélico, para libertar o surdo da sua doença, Jesus pede a sua colaboração: «Abre-te!» Não é este o convite que devemos escutar também hoje para resgatar o nosso coração do isolamento?

Sem dúvida, as causas desta falta de comunicação são muito diversas, mas com frequência têm sua raiz no nosso pecado. Quando agimos de forma egoísta afastamo-nos dos outros, separamo-nos da vida e encerramos em nós mesmos. Querendo defender a nossa própria liberdade e independência, corremos o risco de viver cada vez mais sozinhos.

Sem dúvida é bom aprender novas técnicas de comunicação, mas devemos aprender, antes de mais nada, a nos abrirmos à amizade e ao amor verdadeiro. O egoísmo, a desconfiança e a falta de solidariedade são também hoje o que mais nos separa e isola uns dos outros.

Por isso, a conversão ao amor é um caminho indispensável para escapar à solidão. Quem se abre ao amor ao Pai e aos irmãos não está sozinho. Vive de forma solidaria.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alimento ou propriedade?

A vida e os direitos humanos em primeiro lugar

1194 | Tempo Comum | Semana XXII | Sábado | Lucas 6,1-5

Na cena imediatamente anterior que meditamos ontem, Jesus afirma que seus discípulos devem viver a alegre e boa novidade do Reino de Deus, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos” rigorosos, que levam a formar guetos de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais. Hoje, Jesus volta à questão: a pessoa e suas necessidades estão acima de toda lei, inclusive do culto.

É sábado e, desta vez, Jesus se deslocando com seus discípulos no campo. Sentindo fome, eles colhem e comem trigo de uma plantação que não é deles. Os fariseus observam que eles caminham num dia que não é permitido fazê-lo. E notam que eles não respeitam o “sagrado direito” da propriedade privada. Não se trata apenas de costumes religiosos, mas de leis econômicas que causam insegurança alimentar.

Segundo a mentalidade dos fariseus, os discípulos de Jesus cometem dois pecados: não respeitam as proibições da lei que impõe repouso no sábado; “invadem” uma propriedade privada. A segunda acusação não aparece claramente, mas é aludida no fato citado por Jesus para sua própria defesa: Davi e seus companheiros, estando com fome, se apossam e comem do pão reservado aos sacerdotes. A vida tem prioridade sobre tudo, inclusive sobre a “sagrada” lei da propriedade privada!

Jesus responde à acusação dos fariseus com duas críticas à postura deles: embora se apresentem como defensores da tradição e da lei de Deus, eles desconhecem o sentido mais profundo das escrituras (“acaso vós não lestes?”); eles resistem a reconhecer Jesus como o enviado autorizado e Filho de Deus, que é o legislador e, por isso, está acima das leis (“o Filho do Homem é Senhor também do sábado”).

Algumas leis e costumes, por mais importantes que pareçam aos nossos olhos, se são contrárias ao Evangelho, são como tecido velho irrecuperável ou como barril danificado. Neste momento da história do Brasil, com polarizações e mentiras que enganam e embrutecem, há quem insista que a lei do equilíbrio e o princípio do arcabouço fiscal são intocáveis. Se, por causa disso, o povo não tem acesso à cultura, morre de fome ou por falta de atendimento médico, isso pouco importa a eles.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se na caminhada de Jesus com seus discípulos, sob o olhar crítico dos fariseus

Procure entender com exatidão a crítica que as lideranças religiosas (fariseus) fazem aos discípulos e a Jesus

Como você se sente diante da afirmação de Jesus, de que ele é senhor das leis e instituições, e está acima delas?

Você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades e a dignidade das pessoas?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Mesa pronta e toalha limpa

Vinho e roupa nova para a festa da aliança

1193 | Tempo Comum | Semana XXII | Sexta | Lucas 5,33-39

Depois da pesca frutuosa e do chamado de Pedro e seus companheiros de trabalho, nas cenas que a sequência litúrgica trata noutras oportunidades, Jesus cura um leproso (v. 12-16) e um paralítico (v. 17-26), chama o publicano Mateus a segui-lo e vai à casa dele se confraternizar com outros cobradores de impostos e pecadores (v. 27-32). Isso provoca desconforto nos fariseus, que começam a questionar as práticas religiosas de Jesus e o comportamento dos seus discípulos.

Ao interpelar Jesus a respeito do comportamento dos discípulos, os fariseus querem atingir o próprio Jesus. O ponto de discordância é o jejum praticado pelos fariseus e também por João Batista e seus seguidores. Jesus e seus discípulos fazem pouco caso do jejum e priorizam a festa e a confraternização. Levi se converte ao Evangelho de Jesus e, ao invés de fazer jejum, organiza uma festa, para a qual convidou outros cobradores de impostos. É quase uma provocação às tradições dos judeus.

Na sua resposta, Jesus não despreza o jejum, mas justifica a alegria e a esperança que nascem da chegada do Reino de Deus. E faz isso recorrendo a duas sentenças que contrapõem uma realidade velha e uma novidade. A palavra “novo” aparece quatro vezes nestes versículos, e se refere ao Reino de Deus, à nova Aliança assinada por Jesus. Nesta aliança-casamento, Jesus é o noivo da humanidade, e o vinho e o vestido apontam para a festa e a alegria.

Quem entra na lógica do Reino de Deus assume um estilo de vida alternativo àquele vivido como fachada e de modo superficial: a purificação que agrada a Deus e faz bem às pessoas é interior, e não exterior. Para alguns judeus, mormente os mais piedosos, a abertura à novidade do Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus é difícil, e eles preferem remendos numa roupa velha ou o vinho velho.

Os discípulos de Jesus são convidados a perceber e viver essa novidade, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos”, rigorosos e excludentes, que levam a formar guetos fechados de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais, e tratam as outras com desprezo, chegando até a atitudes e palavras violentas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, começando pelo chamado de Levi e pela festa na casa dele (v. 27-32)

Perceba o escândalo e o desconcerto dos fariseus diante da troca da austeridade e do jejum pela confraternização à mesa

Deixe-se inspirar pelas imagens do Reino de Deus: o remendo novo em roupa velha, o vinho novo em pipas antigas e a festa da Aliança

Você percebe, em você e sua comunidade, sinais da tentação de usar o Evangelho para remendar práticas que nada tem a ver com eles?

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele sobe no nosso barco vazio

O Evangelho nos abre novas possibilidades

1192 | Tempo Comum | Semana XXII | Quinta | Lucas 5,1-11

São João Paulo II buscou no episódio do evangelho de hoje a inspiração com a qual provocou os cristãos na entrada do terceiro milênio: “Avancem para águas mais profundas!” Com isso, quis exorcizar o medo que alguns grupos e setores eclesiais espalhavam entre os cristãos e, ao mesmo tempo, convocar as comunidades a tornar sua fé e sua vida mais profundas e fecundas.

A aldeia de Nazaré havia rejeitado Jesus, e a cidade de Cafarnaum quis se apossar dele. Jesus sai para outros lugares, e o povo, cansado e abatido, procura Jesus, porque encontra nele acolhida, compaixão e uma Palavra de esperança. Para eles, Jesus é um mestre e um guia confiável, em quem depositavam o que restava de esperança. Cercado de gente, Jesus se afasta da praia para poder falar a todos.

Pedro acolhe Jesus em seu barco, cheio de frustrações depois de uma noite de trabalho infrutífero. Depois de ensinar ao povo a Boa Notícia do Reino de Deus de dentro do barco de Pedro, Jesus lhe dá ordens para que lance de novo as redes, deixando as águas superficiais e avançando para águas mais profundas. Mesmo na contracorrente das evidências, Pedro recomeça o trabalho, por causa da Palavra ou do mandato de Jesus. É a Palavra de Jesus que lhe abre novas possibilidades.

Com o resultado surpreendente e inesperado da pesca, inicia-se entre Pedro e Jesus um diálogo que antes parecia truncado. Pedro reage assustado, como acontece com alguém diante de uma manifestação divina. Reconhecendo-se pecador, passa de pescador sabido e autossuficiente a discípulo e aprendiz de Jesus. Pedro não entra sozinho neste processo, porque outros companheiros são chamados e o acompanham, movidos por uma experiência igualmente inesquecível.

O chamado e a missão não são acontecimentos individuais e interiores, mas acontecem no interior de um povo que se reúne para escutar a Palavra. Os discípulos de Jesus precisam superar a tentação da segurança e da rotina. Precisam ousar, inovar, ir mais fundo, superar a tentação da acomodação e da superficialidade. Precisam se tornar especialistas em capturar gente para a vida (‘pescar’). É a Palavra de Jesus, que garante a fecundidade da missão e a nossa realização como pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, com atenção à relação de Jesus com o povo, com Pedro e com os demais pescadores

Permita que Jesus entre no barco dos seus afazeres, quem sabe vazio de expectativas e cheio de decepções e falências

Escute o convite de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lança as redes para a pesca...” O que isto significa para você hoje?

Como está sua sede da Palavra de Deus? Ela é suficiente para levar você a começar de novo quando nada parece promissor?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Dar as mãos para elevar

Deus se inclina para levantar a humanidade

1191 | Tempo Comum | Semana XXII | Quarta | Lucas 4,38-44

Na cena que meditamos ontem, vimos que Jesus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Ao mesmo tempo, Jesus devolve a palavra e a autonomia às pessoas socialmente e psicologicamente anuladas. Hoje, Lucas nos mostra a continuação desse ministério da compaixão, um ministério que não reconhece os limites de lugar ou de destinatários. Jesus tem diante dos olhos a humanidade e o mundo todo, e desconhece nacionalismos e discriminações.

A cura da sogra de Pedro, que está acometida de forte febre, demonstra que Jesus não está preocupado com gestos espetaculares, mas com ações que possibilitam o resgate da vida das pessoas oprimidas e marginalizadas. Deus não se compraz nos espetáculos, mas na libertação e emancipação das vítimas! Jesus entra numa casa de pescadores e vai ao encontro de uma mulher. A missão de Jesus é superar o mal e suas raízes. Ele se recusa a ser um simples curador.

Na casa da sogra de Pedro ocorre a manifestação silenciosa de uma Palavra que cura. Inclinando-se sobre a sogra de Pedro, Jesus se inclina sobre a humanidade oprimida e ameaça as forças que a colocam de joelhos. Através desse gesto restaurador, as pessoas não reconhecidas em sua dignidade passam a contar, e se tornam servidoras da vida. É isso que acontece com a sogra de Pedro, e conosco: quem experimenta a bondade de Deus em Jesus torna-se discípulo missionário.

Jesus não é um burocrata ou doutor da lei fixado na sinagoga, mas um profeta e um mestre itinerante. Ele é movido pela convicção de que o Reino de Deus não é monopólio de meia dúzia de pessoas. Curando e anunciando o Evangelho de Deus dia e noite e onde quer que seja necessário e oportuno, no final do episódio Jesus se retira e vai ao encontro de outras pessoas noutros lugares. É para isso que se sente enviado. Essa é a vontade do Pai a respeito dele.

Essa atitude de Jesus nos convoca a ser uma comunidade eclesial sempre “em saída”, rumo às periferias, ao encontro das pessoas e suas necessidades. Não podemos ficar na simples e fácil proclamação de que Jesus é o filho de Deus, pois isso até os demônios fazem, e Jesus os cala. Precisamos estar com Jesus, aprender dele e participar da sua missão, carregando também suspeitas que se voltam contra ele.

 

Sugestões para a meditação

Retome o episódio, acompanhando a presença de Jesus na casa de Pedro, sua ação incansável em favor do povo e sua saída para outros lugares para lá colocar sinais do Reino de Deus

Permita que Jesus se incline sobre você, cure suas enfermidades e faça de você um servidor da vida dos outros

Onde e a quem Jesus está pedindo que você sirva hoje? Que males que se hospedam em você ele ameaça e elimina com sua Palavra?

Ganhar ou perder?

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

No próximo domingo, as comunidades católicas celebram o ministério das catequistas, a quem somos gratos. E o evangelho do dia (Mateus 16,21-27) lembra que, antes de serem “professoras de doutrina”, elas são aprendizes na escola de Jesus, pessoas seduzidas pela Boa Notícia do Reino de Deus, dispostas a seguir seus passos e a viver suas opções, sem cair na tentação de colocar-se à frente de Jesus, como ocorreu com Pedro.

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido correta, mas incompleta: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Por isso, assim que Pedro termina sua profissão de fé, Jesus o elogia, muda o tom e começa a falar do seu futuro próximo: ele subirá a Jerusalém, apesar dos riscos; lá sofrerá muito nas mãos das autoridades religiosas; será morto, e ressuscitará. Trata-se claramente da imagem e do caminho de um Deus despojado.

Com estas palavras, Jesus corrige os resquícios de um messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos. Ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. Mas Pedro, com uma ousadia sem precedentes, leva Jesus para um lado e o repreende. “Que isso nunca te aconteça!” Pedro não consegue admitir nem imaginar um Messias sem poder e crucificado, pobre e rejeitado, humano e servidor.

Reagindo e falando assim, Pedro faz-se porta-voz dos discípulos de todos os tempos, e demonstra pessoalmente a dificuldade de pensar as coisas ao modo de Deus e a tentação de pensar as coisas ao modo dos homens. Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. Este é o discernimento que desafiada permanentemente os discípulos e discípulas de Jesus.

A cruz não é simplesmente uma intercorrência inesperada ou uma imposição à qual Jesus não pode escapar, mas a um caminho que todos devemos percorrer se quisermos ser cristãos. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. E tomar a cruz significa assumir a condição das pessoas colocadas à margem, assim como daquelas que resistem e enfrentam os poderes que marginalizam e oprimem.

A expressão “renuncie a si mesmo” não agrada muito aos homens e mulheres de hoje. Mas é claro que não se trata de negar o que há de mais original e precioso em cada indivíduo, mas de libertar-se da ideologia de sucesso. Eis a escolha a ser feita: negar os interesses mesquinhos, os sonhos infantis de sucesso e onipotência, ou negar o Messias, a compaixão, a solidariedade. Eis a lição mais preciosa que se espera das catequistas.