terça-feira, 3 de março de 2026

Os primeiros e os últimos

Quem quiser ser grande torne-se servidor!

1008 | Quaresma | 2ª Semana | Quarta  | Mateus 20,17-28

Estamos vivendo o tempo de Quaresma. Como discípulos de Jesus, nesse tempo especial e em todas as fases da nossa caminhada cristã e missionária, devemos tomar distância da sede de aparecer que devora os fariseus. Todos somos irmãos e servidores uns dos outros, iguais em dignidade, filhos do Pai, guiados por Jesus. A igualdade, a fraternidade e o serviço mútuo e a compaixão com os pobres configuram nossa identidade de discípulos missionários de Jesus.

Essa foi a lição que aprendemos ontem. Cronologicamente, a cena do evangelho de hoje ocorre antes daquela de ontem: está situada no meio do caminho de Jesus e seus discípulos a Jerusalém. Estamos diante de um “diálogo pedagógico”, cheio de tensões. A família de Tiago e João age no horizonte dos interesses de uma família patriarcal, tentando assegurar precedência e privilégios, mas Jesus propõe uma família alternativa, contracorrente.

Enquanto os filhos de Zebedeu fazem lobby para assegurar um lugar de honra no seu reinado, Jesus se coloca na base e percorre o caminho da margem: será zombado e açoitado, como era habitual fazer com os escravos. Enfatizando o caminho da cruz, Jesus põe por terra os mitos do poder e da glória, e é por isso que os demais discípulos se irritam. Como Pedro na montanha da transfiguração, eles não sabem o que estão pedindo e têm enormes dificuldades de entender o que Jesus diz.

Jesus insinua que os grandes e poderosos não realizam a vontade de Deus, pois mandam e oprimem. Ele sim, o Filho do Homem, faz a vontade do Pai, pois assume a condição do servidor, do menor, do último. A lógica de Deus é inversa à lógica do poder e da honra. O Reino de Deus segue um dinamismo contrário à lógica das instituições e dos reinos deste mundo.

A passagem da atitude de chefe à postura de irmão, de primeiro a último, é a prova de fogo do discipulado. O reino de Deus não tem nem senhores nem chefes, tem apenas irmãos, iguais e servidores. Tornar-se discípulo é percorrer um caminho marginal, é ensaiar uma família unida na diversidade, dialogante e acolhedora.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, a pretensão de Tiago e João, o questionamento e o ensino de Jesus

Observe a ordem que Jesus dá aos discípulos: “Entre vocês não deve ser assim... Quem quiser ser grande, deve ser o servidor!”

Em que tipo de líderes e autoridades podemos ver hoje um exemplo de quem realmente é maior, na ótica de Jesus?

Podemos afirmar com sinceridade que não corremos a mesma tentação dos discípulos João e Tiago, que são até invejados pelos outros?

segunda-feira, 2 de março de 2026

Todos são iguais

Um só é o nosso mestre, e somos todos irmãos!

1007 | Quaresma | 2ª Semana | Terça  | Mateus 23,1-12

Esta página do ensino de Jesus, que tem sua origem na observação crítica da atitude dos fariseus e doutores da lei, ocorre em Jerusalém, no templo, alguns dias antes da sua prisão e condenação à morte. E nós a lemos na perspectiva da conversão ao Evangelho, que é o apelo especial e predominante desse tempo.

Do ponto de vista literário, o episódio vem antes dos sete “ais” dirigidos por Jesus aos fariseus, e antecipa cinco exemplos do esforço deles para impressionar o povo. Por fim, a partir do contra-exemplo dos fariseus, cuja imitação os discípulos devem evitar, Jesus anuncia aos seus discípulos três mandamentos.

É preciso considerar que o objetivo desta cena, apesar da linguagem polêmica e do recurso aos clichês, não é propriamente acusar os fariseus e os doutores da lei, mas instruir e prevenir aqueles que seguem a Jesus. Os interlocutores são membros da comunidade cristã, e Jesus quer que eles façam uma autocrítica madura e responsável de suas próprias atitudes.

Jesus pede que seus discípulos escutem o que os escribas leem e proclamam (leis e profetas), mas não deem crédito à interpretação que fazem e ensinam, e não imitem suas atitudes. A fé em Deus e a conversão ao Reino de Deus implica na coerência entre ler, falar e agir. E é nisso que, segundo Jesus, os escribas e fariseus pecam. E seus discípulos não podem ceder a essa tentação, em hipótese nenhuma.

A crítica de Jesus aos fariseus se concentra em três atitudes: eles fazem tudo para serem vistos e causar boa impressão sobre o povo; multiplicam preceitos e proibições sem levar em conta o peso que representam para o povo; se recusam a mexer um dedo para ajudar o povo a carregar os fardos que impõem a eles. Por isso, buscam os primeiros lugares e querem ser chamados e tratados como mestres, líderes e pais.

Isso não pode ser imitado, de modo nenhum, pelos discípulos de Jesus! Todos somos irmãos e servidores uns dos outros, iguais em dignidade, filhos do Pai, guiados e instruídos por Jesus. A igualdade, a fraternidade, o cuidado, a coerência e o serviço configuram nossa identidade como discípulos de Jesus. E isso é coisa séria!

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, a crítica de Jesus aos escribas e fariseus, assim como o que ele pede dos discípulos

O que Jesus critica nos fariseus e escribas? Que exemplos de ambiguidade deles Jesus apresenta?

Será que nós, individualmente e comunitariamente, não caímos na mesma incoerência e tentação na qual caíram os fariseus?

O que Jesus manda e pede aos seus discípulos? Como vivemos hoje este tríplice mandamento?


domingo, 1 de março de 2026

Nossas medidas

A misericórdia nos faz semelhantes a Deus

1006 | Quaresma | 2ª Semana | Segunda  | Lucas 6,36-38

No evangelho de ontem, a voz que ressoou a partir de dentro da nuvem que envolveu os discípulos amedrontados, dizia: “Este é meu filho amado; escutem o que ele diz!” E hoje, aquele que devemos escutar nos ordena: “Sejam misericordiosos, como o Pai de vocês é misericordioso”. Em outras palavras: ele pede que vivamos como ele mesmo viveu, um amor solidário e sem fronteiras.

O Papa Francisco diz que, na Bíblia, a misericórdia é a palavra-chave para falar do agir de Deus em relação às suas criaturas. E os sinais que Jesus realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, estão marcados pela misericórdia e dela são expressão. Em Jesus, tudo fala de misericórdia, e nele não há nada que seja desprovido de compaixão.

Recordemos, a título de exemplo, o episódio relatado em João 8,1-11. Jesus estava na praça do templo, e o clima era de tensão com as autoridades. Um grupo de doutores da lei chegou trazendo uma mulher, acusando-a de adultério e pedindo que Jesus tome uma posição. Entre a lei de Moisés e a dignidade daquela pobre mulher, Jesus faz uma escolha surpreendente: chama os acusadores a rever sua própria conduta, e trata a mulher com misericórdia. Ele quer misericórdia, e não legalismo frio!

Para o discípulo de Jesus, a misericórdia não é apenas um princípio entre vários outros, mas o dinamismo fundamental, aquele que dá concretude e sentido a todas as leis e proibições. Nas palavras do Papa Francisco, a misericórdia é a arquitrave (viga-mestra) que sustenta a vida e a atividade da Igreja. “A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo”.

O que Jesus ensina nos demais versículos são desdobramentos da atitude misericordiosa: não julgar nem condenar ninguém; perdoar e ajudar todos; dar com generosidade a quem tem mais necessidade que nós. Essa ordem não se refere apenas ao campo das relações interpessoais, mas se aplica à dimensão social: acolher, e não julgar ou criminalizar as pessoas e grupos diferentes; afirmar a igual dignidade de homens e mulheres, brancos e negros, cristãos e ateus.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, o mandamento de Jesus e os exemplos mais concretos e detalhados que ele oferece

O que é que nos move e nos sustenta naquilo que fazemos pelos outros como cristãos e como Igreja?

Que medida nós usamos nas ações solidárias com os mais vulneráveis, e como avaliamos e julgamos as pessoas?

Como seria a nossa Igreja se todas as suas decisões e ações passassem pela estrada do amor misericordioso e compassivo?

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Caminho X Tenda

É preciso levar a sério o Evangelho da Cruz!

1005 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | 17,1-9

Os discípulos haviam dito que reconheciam Jesus como “o Messias, o Filho do Deus Vivo” (cf. Mt 16,11). Mas discordaram e resistiram fortemente quando Jesus lhes dissera que seria perseguido e morto pelas mãos dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei (cf. 16,21-23). E fecharam os ouvidos quando Jesus colocou como condição para segui-lo tomar a cruz dos excluídos e dar a própria vida (cf. 24-28), um modo muito particular de “ganhar a vida”. É a condição atual de muitos cristãos: buscam em Jesus apenas prosperidade e alívio.

A cena audiovisual da transfiguração de Jesus está ligada a essa situação, e tem como objetivo superar a resistência dos discípulos e tornar visível a esplendorosa humanidade de Jesus. O protagonista da cena é o Pai, e a beleza da humanidade de Jesus deixa os discípulos extasiados, tanto que desejam prolongar essa experiência. Na proposta de fazer três tendas transparece o medo de prosseguir com Jesus o caminho até Jerusalém. É como se Pedro dissesse: “É melhor parar por aqui...” Mas essa cena é uma espécie de chave que abre o sentido da pregação e da paixão de Jesus.

A montanha e a nuvem são sinais que apontam para uma manifestação divina. Mas essa revelação não acontece no templo de Jerusalém, nem é dada às elites religiosas, a pessoas que se autoproclamavam mediadoras de Deus, mas num lugar marginal e a três pessoas pouco relevantes. A presença de Moisés e de Elias, além de buscar o testemunho da Lei e dos Profetas em favor daquilo que Jesus faz e ensina, também lembra que os profetas, como Jesus, são perseguidos. A voz imperativa manda escutar e entender o que Jesus disse, diz e dirá na sua vida, morte e ressurreição.

Diante da voz que afirma que Jesus é o filho amando do Pai e deve ser escutado, os três discípulos caem de susto. Reconhecem a presença divina em Jesus e se assustam com a confirmação do caminho da cruz. Deus faz Pedro calar (como em 16,23), mas o toque de Jesus cura a falta de fé e encoraja. Eles são proibidos de falar do que viram porque sua compreensão do mistério de Jesus é ainda limitada, e devem esperar a paixão de Jesus. O imperativo que vem da voz de Deus é incontornável: todos devemos escutar atentamente o que diz Jesus. Quaresma é tempo especial para isso.

 

Sugestões para a meditação

Procure participar da cena com sua imaginação: veja o desconforto dos discípulos diante do caminho proposto por Jesus; os três escolhidos subindo a montanha com ele; o êxtase deles frente ao brilho da humanidade de Jesus; o medo que os joga no chão quando a voz pede que eles levem Jesus a sério

Veja o testemunho de Elias e Moisés, que lembram a incompreensão e a perseguição sofrida pelos profetas

Ouça a ordem de escutar o que ele diz, e sinta o toque dele encorajando e curando suas resistências e sua falta de fé

Escutem o que ele diz

Ouvir Jesus Hoje

Ainda há alguns anos, era a religião que oferecia à maioria das pessoas critérios para interpretar a vida e princípios para orientá-la com sentido e responsabilidade. Hoje, pelo contrário, há muitos que prescindem de Deus para enfrentar sozinhos a sua vida, os seus desejos, medos e expectativas.

Não é tarefa fácil. Provavelmente nunca foi tão difícil e problemático para o indivíduo parar para pensar, refletir e tomar decisões sobre si mesmo e sobre o que é importante na sua vida. Vivemos mergulhados numa cultura sem transcendência, que prende as pessoas ao aqui e ao agora, fazendo-as viver apenas para o imediato, sem qualquer abertura ao mistério último da vida. Movemo-nos numa cultura do entretenimento que arranca as pessoas de si mesmas e as faz viver esquecidas das grandes questões que carregam no coração.

O homem dos nossos dias aprendeu muitas coisas, está informado sobre tudo o que acontece no mundo à sua volta, mas não sabe o caminho para conhecer-se a si mesmo e construir a sua liberdade. Muitos subscreveriam a sombria descrição feita há alguns anos pelo diretor de La Croix, G. Hourdin: «O homem tornando-se incapaz de querer, de ser livre, de julgar por si mesmo, de mudar o seu modo de vida. Está transformando-se num robô disciplinado que trabalha para ganhar dinheiro, que depois desfrutará em umas férias coletivas. Lê as revistas de moda, vê os programas de televisão que todos veem. Aprende assim o que é, o que quer e como deve pensar e viver».

Precisamos mais do que nunca atender ao apelo evangélico: «Este é o meu Filho amado, o meu predileto. Escutai-o». Precisamos parar, fazer silêncio e escutar mais a Deus revelado em Jesus. Essa escuta interior ajuda a viver na verdade, a saborear a vida nas suas raízes, a não desperdiçá-la de qualquer maneira, a não passar superficialmente ante o essencial. Escutando Deus encarnado em Jesus descobrimos a nossa pequenez e pobreza, mas também a nossa grandeza de seres infinitamente amados por Ele.

Cada um é livre para viver escutando Deus ou virando-lhe as costas. Mas, em qualquer caso, há algo que todos devemos recordar, mesmo que pareça escandaloso e contracultural: viver sem um sentido profundo e último é viver de forma «insensata»; agir sem escutar a voz interior da consciência é ser um «inconsciente».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Fraternidade & moradia

“Moro onde não mora ninguém...”

Em 1975, Agepê lançou um álbum com este título. Na faixa em destaque, o compositor e intérprete canta, com lirismo e nostalgia, o lugar onde mora e se sente bem. O bem-estar que uma moradia simples e humilde proporciona também é cantado por Chico Buarque, num poema de Vinicius de Morais que ele musicou em 1970: “Gente Humilde”.

Assim canta Agepê: “Moro onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro que eu me sinto bem! Não tem bloco na rua, não tem carnaval, mas não saio de lá. Uma casinha branca no alto da serra; um coqueiro ao lado, um cachorro magro amarrado. É lá que eu vivo sem guerra, é lá que eu me sinto bem”.

Não é preciso transcrever outras canções como “Tristeza do Jeca”, “Cidadão”, “Casinha Branca” e “Saudosa Maloca” para demonstrar como a questão da moradia digna está vivamente presente no cancioneiro brasileiro, como drama ou como utopia. Por isso, não deve estranhar que a Igreja católica hoje traga a questão da moradia para dentro dos templos.

Não podemos fechar os olhos para a grave questão da moradia no Brasil: 26 milhões de famílias vivem em moradias inadequadas; 6 milhões de famílias necessitam de uma moradia hoje; 330 mil pessoas vivem em situação de rua; 9 milhões de pessoas moram em áreas de risco; 16 milhões de pessoas vivem em favelas (que são “não-cidades”). Eles sim são obrigados a morar onde ninguém deveria morar...

Voltando a atenção a Santa Cruz do Sul, segundo o último censo, apenas 61% das famílias vivem em moradias próprias e quitadas; recentemente, mais de 800 famílias disputaram 250 casas de um programa habitacional; mais de 30 mil pessoas têm uma renda de até meio salário mínimo. Com essa renda, como poderão adquirir uma casa ou pagar aluguel?

Estamos habituados a tratar a moradia como uma mercadoria entre outras. Quem pode, compra. Mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos insere a moradia entre os direitos humanos (cf. art. 25). E a Constituição Federal a insere entre os direitos sociais dos cidadãos brasileiros (cf. art. 6º). E cabe ao Estado assegurar o acesso a esse direito!

Os discípulos e discípulas de Jesus não podemos passar ao largo do drama da moradia, que fere grande parte dos nossos irmãos e irmãs. Jesus nos adverte sobre isso numa parábola (cf. Lucas 10,25-37): o serviço ao culto, a busca do bem-estar individual e a obsessão pela segurança não são álibis para ignorar a dor que fere os irmãos e irmãs.


Amar até os inimigos

A medida do amor cristão é amar sem medida

1004 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 5,43-48

Na escuta do evangelho de ontem, fomos provocados a viver uma justiça maior do que a justiça dos fariseus. “Não matar” não é a medida máxima, mas a medida mínima do amor. Porque nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente, relacionar-se bem com ele jamais será um peso, uma grande alegria. E o caminho para isso é a disposição permanente à reconciliação.

No trecho do evangelho que estamos meditando hoje, Jesus nos oferece um segundo exemplo de uma justiça maior que a justiça dos fariseus: não basta amar o próximo (aqueles que são iguais, pertencem ao mesmo sangue, à mesma religião, à mesma ideologia, ao mesmo grupo de interesses) e cultivar uma olímpica indiferença ou uma belicosa agressividade com os inimigos (os outros, os diferentes, os adversários, os que não pertencem aos nossos círculos de relacionamento).

A simples reciprocidade entre amigos e próximos pode ser sinal de egoísmo de grupo e não ter nada de Evangelho ou de cristão. “Os pagãos e os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?” O amor não é espontaneidade, gentileza acomodada que evita a realidade e os conflitos, nem algo facultativo, que depende da ocasião ou do estado de espírito. Para os cristãos, o amor é atitude e decisão. E a experiência demonstra que é mais fácil odiar os inimigos que amar o próximo.

Para Jesus, e para quem segue seu caminho, a medida do amor é o próprio Deus, que envia o sol e a chuva para maus e bons. Ele é pai que dá vida de forma indiscriminada e incondicional, por mais que não gostemos disso. Deus é perfeito no seu amor, e o amor perfeito deve ser pleno e inclusivo, e não dividido ou condicional. E os filhos devem imitar o Pai, como os discípulos devem imitar o Mestre.

O amor aos inimigos, aos que se opõem a nós ou nos perseguem, é o mandamento mais exigente de Jesus. Amar concretamente e em bitola universal é um desafio que pede profecia e um estilo de vida alternativo, que não ignora nem protege relações iníquas e distorcidas. O poeta nos pede para amar como se não houvesse amanhã. Mas é mais correto dizer: amemos e cuidemos, para que haja amanhã.

 

Sugestões para a meditação

Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente amar os próximos, é preciso amar os inimigos?

Como entender hoje a contraposição que Jesus faz entre o amor aos iguais (reciprocidade) e o amor aos inimigos (gratuidade)?

Como você, sua família e sua comunidade podem concretizar este ensinamento de Jesus de amar e respeitar os “diferentes”?

Quem são as pessoas que hoje você vê como ameaça ou como inimigas, ao menos potencialmente?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Da raiva ao homicídio

No Senhor encontramos graça e redenção

1003 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 5,20-26

Depois de propor o caminho da felicidade plena e duradoura (bem-aventuranças), Jesus sublinha que esse caminho requer a vivência de uma justiça maior que aquela demonstrada pelos escribas e fariseus. E dá uma série de exemplos, dos quais o texto de hoje nos apresenta o primeiro. Jesus parte das Escrituras Sagradas, mas não se detém na lei fria. Para ele, a Escritura tem como finalidade assegurar a proteção social dos vulneráveis e a comunhão harmônica no interior da comunidade.

Nesta perspectiva, Jesus reinterpreta o 5º mandamento da lei de Moisés, ciente de que o homicídio começa bem antes do ato concreto que o realiza, e tem suas raízes na falta de respeito à dignidade de quem é diferente de nós, configurada na raiva e no insulto. Não matar não é o teto da justiça, mas o seu mínimo, ou seu ponto de partida. A fraternidade sem fronteiras e a reconciliação sempre renovada são exigências primárias do Evangelho do Reino, e os discípulos não podem ignorar isso.

A justiça maior que aquela ostentada pelos fariseus se expressa na vivência da fraternidade e da reconciliação, ou seja: agindo para que o diferente seja acolhido e viva dignamente. Isso é tão importante e decisivo que Jesus ensina que a nossa comunhão com Deus depende da reconciliação com as pessoas e grupos que divergem de nós e até nos perseguem. A atitude de pacificação e reconciliação é mais importante que a doutrina ortodoxa e o culto divino!

É claro que Jesus não recomenda fazer um momento de parada durante a celebração ou a apresentação das oferendas. Ele usa esta imagem forte para reforçar a absoluta importância de cultivar, manter e reatar os vínculos que, tanto do ponto de vista humano como religioso, nos unem ao próximo. E não se trata apenas de constatar que ofendemos alguém e que isso nos pesa na consciência. Jesus nos pede para verificar se nós mesmos agimos mal e provocamos dano e ressentimento aos outros.

O nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente; jamais um inimigo ou um concorrente. Relacionar-se fraternalmente com ele não pode jamais ser um peso, mas deve ser sempre uma grande alegria, mesmo quando comporta exigências. Talvez seja importante começar pela pacificação da nossa linguagem, dos nossos sentimentos e dos nossos pensamentos.

 

Sugestões para a meditação

Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente não matar, é preciso evitar a raiva e o insulto?

Quais são as consequências do conselho de Jesus: interromper o culto e as ofertas para primeiro se reconciliar com quem prejudicamos?

Com quem você precisa se reconciliar hoje? Quem são as pessoas que poderiam ter uma queixa contra você?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Deus é Pai, e é bom

Deus faz por nós mais do que ousamos pedir!

1002 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 7,7-12

Ontem meditamos sobre o texto que nos ensina que Jesus, no dom generoso de si através de uma vida e uma morte absolutamente solidárias, tornou-se o sinal mais eloquente do amor de Deus pelas suas criaturas.  Nele, com ele e por ele recebemos tudo, e não perdemos nada. Com sua vida e sua palavra, ele nos ensina que, da confiança na bondade do Pai, brota a liberdade para se dedicar ao Reino.

É sobre a bondade do Pai e a necessidade de confiar plenamente nele que Jesus nos fala no texto de hoje. Ele já havia dito que trazia uma Boa Notícia de Deus: Deus não é inimigo, cobrador, juiz e general, mas pai que acolhe, socorre e perdoa, especialmente aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade ou são discriminados e excluídos, como são as pessoas que passam fome.

Ele havia ensinado a rezar ativando o desejo da vinda do Reino de Deus, e havia também convidado a olhar para a confiança e a liberdade que sustentam as aves dos céus e embelezam os lírios do campo. E agora, ainda em pleno “Sermão da Montanha”, Jesus sublinha de novo a atitude de confiança que se espera do discípulo, tanto na oração como no desempenho da missão. Confiar, pedir, lutar e perseverar: isso é o essencial; o resto vem depois.

Jesus nos convida a refletir sobre nossa experiência comum. Será que alguém, em sã consciência, seria capaz de dar uma pedra a quem pede um pão, ou cobra a quem pede carne? Jamais, se ainda não abdicamos do nível mais raso da nossa cota de humanidade! E Deus, que é Pai e é bom, seria indiferente às nossas necessidades, ou capaz de sentir prazer em ver-nos em desespero? Claro que não! O segredo é pedir corretamente, como Jesus ensinou no Pai-Nosso. Pedir corretamente, e confiar.

Qual é o fundamento da nossa relação com Deus? Ela precisa ter como base a confiança absoluta nele. Sem essa base, é praticamente impossível entregar nosso destino em suas mãos, estabelecer a sua Palavra como bússola que guia nossas buscas. Para sermos discípulos precisamos estar convictos da fidelidade do Pai, da sua bondosa prontidão para atender às súplicas que lhe dirigimos.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, este ensino de Jesus sobre a atitude de confiança na oração e na missão

Você que teve a sensação de que Deus fechou os ouvidos e as portas aos seus pedidos e necessidades?

Aquilo que costumamos pedir a Deus na oração é realmente aquilo que é indispensável para a realização do Reino de Deus?

A imagem que fazemos de Deus tem os traços e cores do amor e da compaixão, ou ainda tem resquícios de onipotência e ameaça?


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Converter-se é preciso

Dai-nos, Senhor, um espírito decidido!

1001 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Lucas 11,29-32

A missão de Jesus não era aceita unanimemente, pois provocava muitas controvérsias. Algumas lideranças religiosas diziam que, para curar doentes e possessos, Jesus havia feito uma aliança com a Diabo. Ele se defendia com ações, com sólidos argumentos e recorrendo a parábolas. Nesse contexto, alguém elogia sua mãe por ter trazido ao mundo alguém tão especial como ele. E Jesus reage afirmando que a honra pertence a quem ouve e pratica a Palavra de Deus.

Diante rejeição e do fechamento das pessoas, especialmente dos líderes religiosos, à Boa Notícia do Reino de Deus, e diante do insistente pedido de que apresente suas credenciais de enviado de Deus realizando sinais capazes de impressionar, Jesus declara: “Esta geração é uma geração perversa”. E se recusa a transformar o Reino de Deus em espetáculo mediante sinais grandiosos. E não faz nenhum milagre.

Jesus diz que o sinal do profeta Jonas continua em vigor, e vale para os seus interlocutores: um apelo à mudança de atitudes e de interesses, a voltar-se de coração a Deus e à sua vontade, e ao serviço ao próximo e suas necessidades. E mais ainda: Jesus apresenta a si mesmo como sinal, de modo que quem não reconhece o sinal da ação de Deus na sua compaixão pelos vulneráveis está dando as costas a Deus.

Numa postura claramente provocativa, Jesus afirma ainda que os “piedosos” judeus que o rejeitam são piores que os pagãos que eles tanto desprezam. Enquanto uma rainha pagã reconheceu a sabedoria de Salomão, e o povo pagão de Nínive aceitou a pregação de Jonas e se converteu, eles, em nome de uma limitada imagem de Deus, desprezam o Filho do Homem, que é maior que Salomão e que Jonas.

Precisamos aprender que Deus gosta manifestar-se de modo discreto, com sinais pequenos, mas eloquentes, e até na contramão das avenidas mais transitadas: na compaixão pelos pequenos, na doação de si mesmo, na comunhão com os últimos, na acolhida e no perdão aos pecadores, na morte na cruz. A conversão ao Reino de Deus precede qualquer milagre. E aqueles que são desprezados por serem pagãos, por suas atitudes de conversão, serão juízes daqueles que posam como piedosos.

 

Sugestões para a meditação

Será que estamos sendo capazes de acolher e valorizar os gestos e iniciativas humanitárias de gente de outros grupos e religiões?

Poderíamos afirmar sem medo de errar que temos levado sempre a sério a nossa conversão ao Evangelho do Reino de Deus?

Somos capazes de identificar na compaixão transformadora e amorosa de Jesus o sinal mais eloquente de sua divindade?

Ou ainda somos tentados a pedir e esperar sinais espetaculares de Deus para mudar as coisas que estão ruins?