sábado, 29 de agosto de 2026

Ganhar a vida ou perdê-la?

Mudemos nosso modo de pensar e de julgar

1188 | Tempo Comum | Semana XXII | Domingo | Mateus 16,21-27

A atitude contraditória de Pedro, mesmo depois de ter professado sua fé em Jesus e ter sido elogiado por ele, nos previne contra todo e qualquer triunfalismo apostólico, inclusive papal. Como Pedro, muitos de nós desejamos desesperadamente impedir que Jesus realize sua missão pelo caminho do serviço e da cruz e acabamos sendo uma pedra de tropeço na sua missão. 

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido formalmente correta, mas a salvação não depende da formalidade e da ortodoxia. Por isso, assim que Pedro termina sua declaração e recebe o elogio, Jesus aparentemente muda o tom da conversa e começa a falar de forma clara e firme sobre o seu futuro próximo: ele havia tomado a firme decisão de ir a Jerusalém, apesar dos riscos que isso representava; lá sofreria nas mãos das autoridades religiosas; e acabaria sendo morto.

Com este anúncio, Jesus quer corrigir os resquícios de um certo messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos, e mostrar outra imagem de Messias: ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. É aqui que Pedro tropeça e faz tropeçar.

Com uma ousadia sem precedentes, Pedro “levou Jesus para um lado e o repreendeu. Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” Pedro intima, adverte e ameaça Jesus, afirmando que não é essa a vontade de Deus. O que ele não consegue admitir é um Messias sem poder e crucificado, um Messias pobre e rejeitado, humano e servidor, nem uma Igreja sem glórias e sem sucesso; uma Igreja que ao invés de se aliar aos poderes sofre nas mãos deles.

Como é difícil pensar as coisas de Deus e como é fácil, cômodo e atraente pensar as coisas dos homens! Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. A cruz da doação plena não é simplesmente imposta a Jesus, mas a um caminho que todos devemos abraçar. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

E tomar a cruz significa, em primeiro lugar, assumir a condição das pessoas desprezadas e colocadas à margem, e daquelas que enfrentam os poderes que as marginalizam e oprimem; e em segundo lugar, a possibilidade e a disposição de dar a vida pela vida plena dos irmãos e irmãs, de sofrer a morte por amor.

 

Sugestões para a meditação

Retome calmamente o texto desde a cena anterior (v. 13-20) e observe a atitude ambivalente e contraditória de Pedro

Será que postura rígida de Pedro se manifesta hoje em grupos de cristãos que tendem a esvaziar a cruz de Jesus e reduzir a fé a uma busca de benefícios?

O que você e sua comunidade podem fazer para levar a sério esse caminho, sem assumir uma atitude de desprezo pelos bens indispensáveis?

Hoje a promessa se cumpre

O Evangelho desconhece fronteiras e muros

1189 | Tempo Comum | Semana XXII | Segunda | Lucas 4,16-30

Sábado passado concluímos a escuta e meditação diária do evangelho segundo Mateus, e iniciamos hoje, prestes a iniciar o mês dedicado à Palavra de Deus, com o evangelho segundo Lucas. E o texto indicado para esta segunda-feira é exatamente o anúncio programático com o qual Jesus inicia e explicita sua missão pública em sua própria terra. Esse contexto confere uma importância especial ao texto.

O enfrentamento das tentações em pleno deserto havia possibilitado a Jesus uma espécie de treinamento na escuta da Palavra de Deus, e isso é confirmado na cena que nos ocupa hoje. Jesus entende e explicita sua missão e seu projeto de vida recorrendo à palavra profética, muito cara ao seu povo. Ele vai à sinagoga para ler a profecia de Isaías. E isso não é casual, mas costumeiro na vida de Jesus. Ele cultiva uma interessante familiaridade com a Palavra de Deus.

Essa é a primeira ação de Jesus sob o impulso do Espírito que repousara sobre ele por ocasião do batismo e o conduzira no deserto. Mas a cena descreve também a primeira rejeição e o primeiro atentado que se abate sobre ele. E isso porque Jesus não se subordina às expectativas e interesses do seu próprio povoado, nem da sua religião e da sua etnia. A Palavra de Deus é como espada que divide.

Com a ajuda do profeta Isaías, Jesus esclarece sua compreensão da missão que Deus confiou a ele: realizar a misericórdia de Deus, e não sua vingança contra o povo. Os verbos do texto citado ilustram claramente isso: anunciar e proclamar uma boa notícia, recuperar e libertar os oprimidos. Depois de ler o texto, Jesus faz um comentário conciso e lapidar: “Hoje se cumpre isso que vocês acabam de ouvir!”

Seus conterrâneos reagem com entusiasmo, mas logo manifestam frustração, quando tomam conhecimento que o seu messianismo não é patriótico nem excludente e constatam sua origem e seus vínculos familiares. O entusiasmo se transforma em decepção, e a decepção se transforma em violência: Jesus é ameaçado e expulso da cidade pelos seus compatriotas.

Desde o início da sua missão Jesus deixa claro que a compaixão de Deus desconhece fronteiras, não se rege pela meritocracia, nem depende de publicidade. Por isso, Jesus recorda dois episódios da história que seus ouvintes conhecem: Elias abençoou uma viúva estrangeira, e Eliseu deu prioridade a um leproso também estrangeiro.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio narrado por Lucas, acompanhando tudo com os olhos da imaginação

Sua compreensão sobre o Evangelho do Reino de Deus é semelhante à de Jesus: uma boa notícia libertadora para todas as vítimas?

Você já conseguiu superar a ideia de que o Evangelho é doutrina que premia quem merece, e protege apenas cristãos, católicos e brancos?

A primazia dos interesses

UMA RELIGIÃO SEM DEUS

Os cristãos da primeira e da segunda gerações recordavam Jesus não tanto como um homem religioso, mas como um profeta que denunciava com coragem os perigos e as armadilhas de toda a religião. Acima de tudo, não era a observância piedosa, mas antes a busca apaixonada da vontade de Deus.

Marcos, o evangelho mais antigo e direto, apresenta Jesus em conflito com os setores mais piedosos da sociedade judaica. Entre as suas críticas mais radicais, há que destacar duas: o escândalo de uma religião vazia de Deus e o pecado de substituir a sua vontade por tradições humanas ao serviço de outros interesses.

Jesus cita o profeta Isaías: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim». O culto que me prestam está vazio, porque a doutrina que ensinam são preceitos humanos. Depois denuncia em termos claros onde está a armadilha: «Vocês deixaram de lado o mandamento de Deus para se apegarem à tradição dos homens».

Este é o grande pecado. Uma vez estabelecidas as nossas normas e tradições, colocamo-las no lugar que só Deus deveria ocupar. Colocamo-las acima até da sua vontade: não devemos ignorar a menor prescrição, mesmo que vá contra o amor e prejudique as pessoas.

Nessa religião, o que importa não é Deus, mas outros tipos de interesses. Deus é honrado com os lábios, mas o coração está longe dele; pronuncia-se um credo obrigatório, mas acredita-se no que for conveniente; cumprem-se ritos, mas não há obediência a Deus, mas sim aos homens.

Pouco a pouco esquecemos Deus e depois esquecemos que o esquecemos. Menosprezamos o evangelho para não termos que nos converter muito. Orientamos a vontade de Deus para aquilo que nos interessa e esquecemos a sua exigência absoluta de amor.

Este pode ser o nosso pecado hoje. Apegar-nos como que por instinto a uma religião desgastada e sem poder de transformar nossas vidas. Continuar a honrar a Deus apenas com os lábios. Resistirmos à conversão e viver esquecidos do projeto de Jesus: a construção de um mundo novo segundo o coração de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Martírio de João Batista

João vai à frente de Jesus também no Martírio

1187 | Martírio de São João Batista | Marcos 6,17-29

A presença de João Batista nos evangelhos evidencia seus vínculos com Jesus Cristo. Além de preparar os caminhos para a missão de Jesus, o profeta do deserto e do rio Jordão antecipa em si mesmo o desfecho da missão de Jesus. Suas posições claras contra os desvios éticos do seu tempo, e a coragem com que enfrenta os poderosos de plantão, valeram-lhe a perseguição, a prisão e a decapitação.

No texto de hoje, o protagonista é Herodes. Ele é judeu, mas, como todas as elites sociais e políticas, cumpre a Lei da sua religião apenas quando lhe convém. Ele tem medo de Jesus, e pensa que ele é uma espécie de reencarnação de João Batista, a quem havia mandado matar. O delito de Herodes vai além do roubo da mulher do seu irmão e da conivência com a morte de João Batista. A presença dos grandes da Galileia na sua festa de aniversário revela a quem ele serve, e de quem depende.

Marcos nos apresenta uma caricatura deveras sarcástica de Herodes e das elites que o apoiam. As festas que promoviam davam asas às paixões incontroláveis e aos seus caprichos assassinos. Entre eles, como em toda a realeza, o casamento tinha fortes conotações de aliança para adquirir sustentação política. O juramento ou promessa de Herodes à filha da sua concubina revela o modo escuso como as elites tomam suas decisões políticas: matam para salvar a própria honra.

Diante de Herodes e seus bajuladores, João não se intimida, nem se cala, mas não é um homem apenas preocupado com o culto ou com a moralidade dos costumes. Uma leitura atenta dos evangelhos nos mostra um profeta engajado num movimento de mudança, no corte raso das instituições que encobrem injustiças e violências, e numa partilha radical. É nesse horizonte que ele enfrenta Herodes.

A narração do martírio de João Batista está inserida no capítulo 6 do evangelho de Marcos, onde a discussão é sobre a identidade de Jesus. Com isso, o evangelista evidencia o destino de todo aquele que anuncia e testemunha uma nova ordem social e religiosa. E, além de uma antecipação do destino de Jesus, o destino de João Batista soa aos discípulos de todos os tempos e latitudes como um forte alerta.

 

Sugestões para a meditação

Perceba a força política, social e religiosa da atuação corajosa de João Batista, profeta da Judeia que estende sua missão à Galileia

Como você e sua comunidade cristã tem se posicionado diante de um governo belicista e contrário aos avanços sociais no Brasil?

Como podemos evitar polêmicas religiosas parciais e estéreis, mas sem abandonar a necessária dimensão política da fé?

Você tem medo dos conflitos provocados pela atuação profética dos cristãos em nome do Evangelho? Por que?

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lúcidos e vigilantes

A noite é escura, mas a madrugada está perto

1186 | Tempo Comum | Semana XXI | Sexta | Mateus 25,1-13

Na meditação sobre o evangelho de ontem, vimos que os discípulos sensatos são aqueles que ouvem e praticam o Evangelho, e, assim, constroem suas casas sobre a rocha. E isso significa importar-se com a vida e o bem-estar do próximo, mantendo acesa a chama da esperança, mesmo quando parece que nada acontece.

Com a parábola do evangelho de hoje, Jesus continua sua insistência na preparação e na prontidão para acolher e promover o Reino de Deus, mesmo quando ele parece demorar. O caminho do discipulado tem uma duração indeterminada, um fim imprevisível e um desfecho desconhecido. Supõe ânimo e disposição para perseverar na luta até o fim, sem a ânsia de que este fim aconteça logo.

A parábola das dez moças põe diante dos olhos da nossa imaginação dois grupos contrastantes de pessoas, ou duas atitudes contrastantes: o grupo das moças sensatas e prudentes; o grupo das moças desligadas e insensatas. Estes grupos representam todos os discípulos, homens e mulheres, de origem judia e de origem pagã. O foco da parábola são as moças, e não o noivo. Estranho é que a noiva não aparece...

Com o atraso do noivo para celebrar suas bodas, todas as dez moças dormem. Mas cinco delas, as moças sensatas, providenciam uma reserva de óleo. Estas representam o discipulado fiel, obediente e perseverante. As outras cinco são insensatas: ouvem o Evangelho e não o colocam em prática ou não o levam a sério. Com a demora ou a aparente insignificância dos sinais do Reino de Deus, o grupo das moças insensatas perde o foco e se perde no caminho. São como terreno ruim, no qual o Evangelho não consegue criar raízes nem frutificar.

Diante da complexidade do mundo e da lentidão dos processos de mudança, um falso realismo nos aconselha a “largar de mão” e deixar isso para os profissionais da política ou, pior ainda, aos tecnocratas da economia. E ocupar-nos da nossa saúde mental ou das práticas devocionais. É um sono tentador, e sem reserva de óleo...

A exortação de Jesus é que estejamos sempre prontos a encontrá-lo, reconhecê-lo e acolhê-lo, vigilantes no sonho do Reino e no serviço solidário aos irmãos e irmãs. Jesus e o Reino de Deus podem tardar, mas estão vindo! Que nada nos distraia diante da absoluta primazia da fraternidade e da solidariedade. “Ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora!”

 

Sugestões para a meditação

Retome calmamente as duas comparações que Jesus oferece sobre a correta atitude em tempos de espera e demora

O que você pode fazer para evitar que as comunidades cristãs fujam da responsabilidade com a transformação do mundo e se refugiem no moralismo?

Qual é o “óleo” que tem ajudado vocês a permanecer lúcidos e atenciosos, sal e fermento do Reino em tempos difíceis? 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Vigilância e solidariedade

A vida plena desejada por Deus depende de nós

1185 | Tempo Comum | Semana XXI | Quinta | Mateus 24,42-51

Estamos refletindo sobre as críticas e denúncias de Jesus contra os dirigentes do templo e do judaísmo como um todo. Depois de uma longa e dura crítica aos fariseus e mestres da lei, circulando e pregando em Jerusalém, nas proximidades do templo, Jesus anuncia a total destruição do templo e do poder dos impérios, assim como dos sinais e sofrimentos que a acompanham (23,33 a 24,35).

Mas Jesus não cede às especulações, e não fala da data em que isso acontecerá. Em vez disso, Jesus chama seus discípulos à vigilância e a fazer o possível para estarem sempre devidamente preparados. Parece que, com o passar do tempo e com a demora do esperado retorno de Jesus e da consequente consolidação do Reino de Deus, a comunidade dos discípulos corria o risco de cair na penitência rigorosa e excessiva, ou então desanimar e abandonar toda e qualquer esperança.

Por isso, Jesus insiste que é preciso viver o dinamismo discreto, mas efetivo, do Reino de Deus em meio a situações complexas e difíceis. Ele jamais deu a entender que a aventura de seguir seus passos e de participar da sua missão de edificar o mundo a partir do seu Evangelho seria um mar de rosas. Esperar com lucidez o reino de Deus significa vigiar mantendo a atitude de serviço, inspirada no seu próprio modo de viver, fecundada e sustentada por essa utopia.

Para ilustrar a atitude correta, Jesus recorre à metáfora do ladrão e à parábola do servo fiel. Como o ladrão, o reino de Deus e Jesus chegam quando ninguém espera. Por isso, os discípulos precisam se comportar como o servo fiel e sensato, que, na ausência do patrão, cumpre fielmente sua missão de servir seus companheiros.

Ao mesmo tempo, Jesus reprova a postura do empregado que, diante da demora do patrão, pensa unicamente em seus próprios interesses e age com descaso ou violência em relação aos demais. Tais discípulos são equiparados aos hipócritas (fariseus e mestres da lei) que Jesus denunciara anteriormente.

Os discípulos sensatos são aqueles que ouvem e praticam o Evangelho, e, assim, constroem suas casas sobre a rocha. E isso significa importar-se com a vida e o bem-estar do próximo – pois todas as vidas importam! –, mantendo acesa a chama da esperança, mesmo quando parece que nada acontece ou nada vale a pena.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Retome calmamente as duas comparações que Jesus oferece sobre a correta atitude em tempos de espera e demora

O que você pode fazer para ajudar a evitar que as comunidades cristãs fujam da sua responsabilidade de mudar o mundo e antecipar o reinado de Deus?

Lembre o exemplo de tantas pessoas, de ontem e de hoje, que esperaram e preparam responsavelmente o futuro esperado

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hipocrisia

O cristão precisa ser coerente e transparente

1184 | Tempo Comum | Semana XXI | Quarta | Mateus 23,27-32

Nos últimos dias, estamos refletindo sobre as críticas e denúncias de Jesus contra os mestres da lei e fariseus. O evangelista fala dos fariseus, mas pensa nos discípulos de Jesus e nas comunidades dos anos 80 da era cristã. Ele quer alertar e chamar à conversão e à coerência os discípulos de todos os tempos. No texto de ontem, Jesus já apresentou uma série de “ais” ou maldições contra os líderes religiosos.

No texto de hoje, temos a sexta e a sétima “maldições”, que dão continuidade e completam as cinco primeiras. Na primeira das duas, Jesus denuncia a incoerência entre a aparência que ostentam e a realidade concreta da vida dos escribas e fariseus. Na segunda, afirma que, mesmo maquiando e buscando mil disfarces, eles continuam a tradição assassina dos seus antepassados, perseguindo e eliminando os profetas para depois chorar na sepultura deles ou incensa-los cinicamente.

Jesus usa uma imagem bem conhecida dos seus conterrâneos e contemporâneos. Acuados pela busca da quase impossível pureza cultual, os judeus pintavam as sepulturas para que ninguém corresse o risco de se contaminar pisando inadvertidamente sobre os cadáveres. Mas Jesus muda um pouco o sentido dessa imagem, e diz que os fariseus e mestres da lei são como sepulturas enfeitadas para esconder o mal e a podridão que eles mesmos alimentam e guardam dentro de si.

Além disso, ao enfeitar as tumbas dos profetas e recordar o destino deles, em vez de fazê-lo para honrar os profetas fazem-no para esconder a violência com a qual perseguem os profetas do seu tempo, João Batista e Jesus à frente, e os discípulos depois. Para Jesus, com esta prática eles não apenas continuam a história de violência dos antepassados, mas a completam e levam ao ponto mais alto. Por isso, Jesus associa as suas cidades aos lugares mais detestados pela memória histórica do judaísmo, símbolos de fechamento e violência: Tiro, Sidônia e Sodoma.

Ser cristão é ser discípulo de Jesus, assimilar sua escala de valores e seu modo de viver. A preocupação fundamental de quem se põe atrás de Jesus não pode ser a pureza ritual e exterior, mas a pureza de mente e de coração, a retidão nas decisões e projetos que assume. Afinal, Jesus não pede mais orações, sacrifícios e cultos, mas uma justiça maior que a dos fariseus. Ser cristão é ser diferente, transparente e coerente com Jesus Cristo e seu Evangelho. O alerta está dado!

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure ler ao contrário: o que Jesus e o Reino de Deus pedem ou esperam daqueles que seguem este caminho

Seguindo o que fala Jesus, você seria capaz de identificar as principais incoerências e contradições dos líderes cristãos e políticos de hoje?

Você seria capaz de identificar e dar nome às contradições e incoerências que rondam você, sua família e sua comunidade em relação ao Evangelho de Jesus?

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Misericórdia acima dos interesses

Nada pode estar acima da misericórdia

1183 | Tempo Comum | Semana XXI | Terça | Mateus 23,23-26

Estamos acompanhando a atuação de Jesus em Jerusalém, onde ele se confronta com o templo e é atacado pelos sacerdotes, pelos mestres da lei e pelos fariseus. Jesus faz uma série de críticas aos fariseus e escribas, que começa no versículo 1º do capítulo 23: eles não fazem o que ensinam e, além disso, impõem pesados fardos ao povo e estão atrás de reconhecimento e notoriedade.

O texto de hoje faz parte de uma série de sete “maldições” ou críticas que Jesus dirige a eles por excluírem o povo do Reino de Deus, por fazerem dos convertidos cidadãos e crentes piores que eles mesmos, por serem guias cegos e por falsificarem a Palavra de Deus em benefício de seus interesses. No pequeno texto de hoje temos a quarta, a quinta e a sexta maldições ou críticas de Jesus a eles.

Na quarta maldição, Jesus acusa os escribas e fariseus de praticar e ensinar uma visão parcial da vontade de Deus, pois eles fazem e ensinam muitas pequenas coisas, mas ignoram a justiça e a misericórdia, que estão no centro do coração de Deus. Assim, eles não são como cegos que se oferecem para guiar outros cegos. Dão importância aos detalhes e fazem menos caso da compaixão.

A quinta e a sexta maldição acusam esses líderes de incoerência e hipocrisia, pois vivem de aparências e disfarçam a ambição, o roubo e a violência que se escondem dentro deles que movem tudo o que fazem. Roubo significa pilhagem violenta, e cobiça é descontrole na posse, no sexo e nas acusações injustas. Segundo Jesus, o centro da vida dos fariseus e doutores da lei está nas coisas e não nas pessoas.

A dura crítica de Jesus é originalmente dirigida aos fariseus e mestres da lei, mas, muitos anos depois, quando Mateus escreve o evangelho, quem está em questão são os discípulos e discípulas de Jesus. É uma crítica recordada e atualizada “para o consumo interno” da comunidade, visando a conversão e a coerência de vida dos discípulos do final do primeiro século e de hoje.

Na condição de discípulos missionários, precisamos estar atentos ao risco da incoerência e da hipocrisia, pois elas não são privilégio dos fariseus. Ou será que às vezes, por trás de palavras formais e gentis, não se esconde um arrogante desprezo? E será que tantas picuinhas e regras que apregoamos não matam a compaixão?

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure ler ao contrário: o que Jesus e o Reino de Deus pedem ou esperam daqueles que seguem este caminho

Seguindo o que fala Jesus, você seria capaz de identificar as principais incoerências e contradições dos líderes cristãos e políticos de hoje?

Você seria capaz de identificar e dar nome às contradições e incoerências que rondam você, sua família e sua comunidade em relação ao Evangelho de Jesus?

domingo, 23 de agosto de 2026

Nosso grito

Mulheres vivas e soberania, eis nosso grito!

No dia 18 de agosto aconteceu, em Porto Alegre, o lançamento da 32ª edição do Grito dos Excluídos e do Manifesto por um Rio Grande Decente. O evento esteve sob a responsabilidade da Comissão das Pastorais Sociais da CNBB Sul 3, em parceria com os movimentos populares e algumas Igrejas. O espaço escolhido foi a Assembleia Legislativa, e a sala que nos acolheu não poderia ter um nome mais sugestivo: Espaço Democrático.

O Grito dos Excluídos nasceu da sensibilidade social de algumas Igrejas Cristãs e organismos que cuidam da dimensão social da fé. Desde sua primeira edição, vem sendo realizado no dia 7 de setembro. A data não é uma escolha fortuita, pois lembra que, ao grito de Dom Pedro I pela independência política e administrativa do Brasil, somam-se muitos gritos que clamam pelo resgate das dívidas sociais do Estado brasileiro.

Aos cristãos e cidadãos que estranham ou questionam o que chamam de “indevida intromissão” das Igrejas nas questões sociais”, lembramos que o judaísmo, do qual somos herdeiros, nasceu do grito dos hebreus oprimidos que clamaram a Deus e foram por ele ouvidos. E permaneceu vivo e se renovou na medida em que os profetas e profetizas emprestaram suas vozes aos gritos dos pobres, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros.

O cristianismo também nasceu em torno do Enviado de Deus que, na cruz cravada fora dos muros que protegiam os “cidadãos de bem”, juntou seu grito ao de dois condenados e ao clamor de milhões de homens e mulheres não reconhecidos como cidadãos e sujeitos de direitos. Leprosos, cegos, leprosos, mendigos, crianças e pessoas de boa vontade se reconheceram no grito de Jesus e fizeram dele um grito de vitória coletiva: o Evangelho!

Nossas Igrejas precisam ser fiéis ao seu DNA cristão, fazendo ressoar os gritos das vítimas de hoje, abrindo-lhes espaços nos templos, ruas, parlamentos e praças. Elas nasceram para incomodar, para sacudir o comodismo. Afinal, o Filho de Deus a quem seguimos é sinal de contradição e veio para incomodar (Lucas 2,34). Não podemos ignorar ou silenciar os gritos dos excluídos, esperando que as pedras gritem por eles (Lucas 19,4).

Na Semana da Pátria nosso grito será “Vida em primeiro lugar!” Na defesa da paz e da moradia, façamos ressoar a nossa voz: “Mulheres vivas e soberania!” Esse grito adquire maior relevância no contexto de um estado machista e violento (80 feminicídios em 2025 e 60 em 2026), e de um momento nacional em que líderes despudorados querem sacrificar a soberania de um povo no altar de um poder fugaz e vantajoso para poucos.

Uma pergunta decisiva

UMA PERGUNTA DECISIVA

«E vós, quem dizeis que eu sou?» Esta pergunta de Jesus não se dirige apenas aos seus primeiros seguidores. É a questão fundamental à qual devemos responder sempre os que nos confessamos cristãos.

A nossa primeira reação pode ser encontrar rapidamente uma resposta doutrinal e confessar de forma rotineira que Jesus é o «Filho de Deus encarnado», o «Redentor» do mundo, o «Salvador» da humanidade. Títulos todos eles muito solenes e ortodoxos, sem dúvida, mas que podem ser pronunciados sem qualquer conteúdo vital.

A pergunta de Jesus não nos pede simplesmente a nossa opinião. Interpela-nos, sobretudo, sobre a nossa atitude perante Ele. E esta não se reflete apenas nas nossas palavras, mas sobretudo no nosso seguimento concreto. Como escreveu um teólogo: «A breve proposição: “Eu creio que Jesus é o Filho de Deus”, significa algo completamente diferente se for pronunciada por Francisco de Assis ou por um dos atuais ditadores sul-americanos. O Deus desses homens não é o mesmo, ou, pelo menos, o Deus que cada um invoca para orientar a sua conduta».

As palavras de Jesus exigem uma opção radical. Ou Jesus é para nós apenas mais uma figura entre tantas da história, ou é a Pessoa decisiva que nos oferece a compreensão última da existência, dá a orientação fundamental à nossa vida e nos oferece a esperança definitiva.

A pergunta «quem dizeis que eu sou?» adquire então um novo conteúdo. Já não é uma questão sobre Jesus, mas sobre nós mesmos. Quem sou eu? Em quem acredito? A partir de onde oriento a minha existência? Em que se resume a minha fé?

Todos devemos recordar que a fé não se identifica com as fórmulas que pronunciamos. Para compreender melhor o alcance do «que eu creio», é necessário verificar como vivo, o que aspiro, em que me comprometo.

Por isso, a pergunta de Jesus, mais do que um exame da nossa ortodoxia, deveria ser um apelo a um estilo de vida cristão. Evidentemente, não se trata de dizer ou acreditar qualquer coisa sobre Cristo. Mas também não se trata de fazer solenes profissões de fé ortodoxa para depois viver muito longe do espírito que essa mesma proclamação exige e implica.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez