sábado, 2 de maio de 2026

Caminho sem pedágios e Verdade sem fake

“Ninguém vai ao Pai senão por mim”

1069 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Domingo | João 14,1-12

O belo e sério diálogo de Jesus com seus discípulos, descrito hoje pelo evangelista, transcorre na noite da última ceia, após o lava-pés.  O clima é de sincera amizade e de apreensão frente às ameaças; de serena alegria da parte de quem se entrega inteiramente, e de inquietante dúvida de quem não consegue entender o caminho do serviço; de grande perturbação dos discípulos, e de Jesus também! É neste clima que Jesus fala de um lar cálido e com muitos lugares, do caminho para o Pai, da presença do Pai na sua vida e nas suas ações.

Como os discípulos depois da ceia, às vezes nos sentimos envolvidos por nuvens tenebrosas.  Como no atual momento vivido pelo povo brasileiro, o horizonte utópico se escurece, nossas forças de resistência se esvaem, não sabemos o rumo que devemos seguir e nada parece disposto a hospedar nossos sonhos. É neste contexto que Jesus promete: “Existem muitas moradas na casa do meu Pai!”  Podemos estar seguros de que, no coração de Deus há um lugar para aqueles que percorrem o caminho do êxodo, rumo a uma terra onde a justiça beija a paz.

Aqueles que queremos chegar ao Pai e ao mundo por ele sonhado temos um caminho seguro: este caminho é o próprio Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, aquele que coloca os últimos em primeiro lugar, que acolhe enobrecido o perfume que uma mulher malvista derrama nos seus pés, que se reparte no pão, que se ajoelha para lavar os pés dos discípulos, que nos ama como amigos e amigas, que perdoa o ladrão arrependido... Este é o Caminho seguro que leva infalivelmente ao Pai.

Jesus Cristo é a Verdade que nos acalma e enche de alegria. A verdade sobre a pessoa humana e sobre Deus. A verdade mais profunda do ser humano é sua capacidade de ternura e solidariedade. A verdade mais profunda de Deus é sua aliança com seu povo, sua companhia insuperável. Esta é uma verdade que exerce uma incrível atração sobre nós, que nos lança para fora e para frente.

Em tudo o que fez e viveu, inclusive no aparente abandono sofrido na cruz, Jesus estava no Pai e o Pai estava nele. Ele aprendeu e ensinou aos seus discípulos que não há alimento mais saudável e nutritivo que realizar a vontade libertadora de Deus, e é isso que significa estar no Pai. Ele agiu sem medo ou cansaço no resgate da dignidade e da vida das pessoas necessitadas, e isso quer dizer que Deus estava nele.

 

Sugestões para a meditação

O que mais lhe perturba e angustia hoje, nesta fase da sua vida e da história? Sua meta é a meta de Jesus, seu caminho é o caminho de Jesus?

O que significa ter para você ter assegurado um lugar preparado na intimidade com o Pai?

Como este texto nos ajuda em nossas dificuldades de reconhecer a presença de Deus em Jesus e nos irmãos e irmãs?

Caminho-Verdade-Vida

ACREDITAR EM JESUS, O CRISTO

Há momentos na vida de verdadeira sinceridade em que surgem do nosso interior, com lucidez e clareza pouco habituais, as perguntas mais decisivas: afinal, em que é que eu acredito? O que é que espero? Em quem apoio a minha existência?

Ser cristão é, antes de mais nada, acreditar em Cristo. Ter a sorte de nos termos encontrado com Ele. Acima de qualquer crença, fórmula, rito ou ideologização, o que é verdadeiramente decisivo na experiência cristã é o encontro com Jesus, o Cristo.

Ir descobrindo por experiência pessoal, sem que ninguém nos tenha de dizer de fora, toda a força, a luz, a alegria, a vida que podemos ir recebendo de Cristo. Poder dizer a partir da própria experiência que Jesus é «caminho, verdade e vida».

Em primeiro lugar, descobri-lo como Caminho. Ouvir nele o convite a caminhar, avançar sempre, nunca parar, renovar-nos constantemente, aprofundar na vida, construir um mundo justo, fazer uma Igreja mais evangélica. Apoiar-nos em Cristo para percorrer dia após dia o caminho doloroso e, ao mesmo tempo, jubiloso, que vai da desconfiança à fé.

Em segundo lugar, encontrar em Cristo a Verdade. Descobrir a partir dele Deus na raiz e no fim do amor que os seres humanos dão e acolhem. Perceber, finalmente, que a pessoa só é humana no amor. Descobrir que a única verdade é o amor, e descobri-lo aproximando-nos do ser concreto que sofre e é esquecido.

Em terceiro lugar, encontrar em Cristo a Vida. Na verdade, as pessoas acreditam naquele que lhes dá vida. Por isso, ser cristão não é admirar um líder nem elaborar e pronunciar uma confissão sobre Cristo. É encontrar-nos com um Cristo vivo e capaz de nos fazer viver.

Jesus é caminho, verdade e vida. É outro modo de caminhar pela vida. Outra maneira de ver e sentir a existência. Outra dimensão mais profunda. Outra lucidez e outra generosidade. Outro horizonte e outra compreensão. Outra luz. Outra energia. Outro modo de ser. Outra liberdade. Outra esperança. Outro viver e outro morrer.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Conhecemos Jesus?

“Há tempo estás comigo, e não me conheces?”

1068 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Sábado | João 14,7-14

Este é o Evangelho que ilumina a nossa vida neste sábado. A passagem faz parte da comovida catequese que Jesus desenvolve após a ceia e do lava-pés, para orientar e confortar os discípulos, que estavam muito assustados. Um deles, Filipe, pede que Jesus lhes mostre o Pai. “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”!

Jesus já havia deixado claro que é nele que temos acesso ao Pai, pois ele é o caminho, a verdade e a vida. Por isso, responde quase que lamentando a dificuldade de Filipe e dos demais: “Se me conheceis, conhecereis também o meu Pai. Há tanto tempo estou convosco e não me conheces? Quem me vê, vê o Pai. Crede, ao menos, por causa destas obras...”

O problema de Filipe é também o nosso. Custa-nos aceitar que o Deus que revestimos de poder e colocamos no mais alto dos céus nos seja dado a conhecer nas ações concretas e na vida de Jesus de Nazaré. Não queremos ver mais, mas ver outras coisas, mais abstratas e manipuláveis; menos interpeladoras, como o é lavar os pés dos irmãos, alimentar os famintos, dar a vida sem reservas.

O problema continua e se torna mais sério à medida em que queremos dar a impressão de que conhecemos Jesus, e fazemos o possível para impor a ideia que temos dele a quem crê diversamente. A tentação da qual não nos livramos facilmente é esta: fazer Jesus “vestir o figurino que preparamos para ele”, obrigá-lo a fazer aquilo que decidimos ou que aprendemos que ele deve fazer em nossas faculdades de teologia e gabinetes doutrinais.

Imagino Jesus dirigindo-se a nós, dizendo afirmativamente: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces...” Crer nele é fazer aquilo que ele faz, prosseguir sua ação libertadora, entrar no caminho da compaixão, armar a tenda dos nossos sonhos e projetos no chão da humanidade ferida e sedenta de vida. O resto é culto às vaidades que passam, serviço aos poderes que oprimem, fuga da responsabilidade.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória os gestos as palavras desse diálogo de Jesus com os seus discípulos no ambiente da última ceia

Será que também nós partilhamos da cegueira de Filipe, e não reconhecemos Deus naquilo que Jesus faz e pede?

Quais são as ações de Jesus que expressam de modo mais eloquente e libertador a ação do Pai?

Como podemos nós, em nosso tempo, recriar esta ação de Jesus, inclusive com maior alcance e eficácia?

Salve 1º de maio!

Quando o estado desregulamenta a exploração aumenta

O dia 1º de maio é uma data dedicada aos trabalhadores e celebrada, de alguma forma, em todos os países. A data está relacionada às lutas dos trabalhadores por melhores condições de trabalho desde a revolução industrial. No final do Século XIX, a realidade dos trabalhadores era duríssima, e jornadas de trabalho de 12 horas eram comuns.

Para conquistar a redução dessa jornada extenuante, os trabalhadores de Chicago organizaram uma greve que, no dia 1º de maio de 1886, mobilizou mais de 340 mil trabalhadores por todo o país. A greve continuou, com dezenas de manifestantes mortos por policiais e centenas de trabalhadores espancados e presos.

Alguns anos depois, o Papa Leão XIII manifestou-se em relação à exploração e à violência do capitalismo através da carta Rerum Novarum (15.05.1891). Este documento é considerado uma das fontes ocidental do direito do trabalho, um impulso essencial para a regulamentação estatal dos contratos de trabalho e o início da reflexão social da Igreja.

Desde então, a condição dos trabalhadores melhorou consideravelmente, especialmente no hemisfério Norte. Entretanto, hoje há uma tendência alarmante de retrocesso a situações semelhantes àquela de 150 anos atrás. A revolução digital e sua aplicação ao mundo do trabalho está jogando milhões de pessoas no trabalho precário.

As empresas-plataformas vêm tomando medidas para transferir os riscos da atividade econômica aos trabalhadores, apelando ao empreendedorismo e pressionando o Estado a legalizar a pejotização (transformação em pessoas jurídicas) dos trabalhadores. O horizonte que se desenha é tenebroso, com uma escala de trabalho de 7 x 0.

Veja-se o caso dos entregadores de aplicativos: a jornada média é de 10 horas por dia; a renda líquida é de R$ 6,50 por hora trabalhada; 3 em cada 10 entregadores enfrentam insegurança alimentar; 60% deles trabalham na informalidade; 39% das vítimas fatais de acidentes de trânsito em 2023 eram motociclistas, e 80% delas eram entregadores...

Anunciada como modernização das relações de trabalho, a pejotização é uma fraude jurídica que leva os trabalhadores (“empreendedores”) a um retrocesso de 150 anos na história: sem limite de jornada de trabalho, sem férias, sem licença maternidade, sem fundo de garantia, sem aposentadoria, sem licença em caso de doença. Onde o Estado não regulamenta, vigora a lei do mais forte, e “quem pode mais chora menos”.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Caminho, verdade e vida

O carpinteiro Jesus é caminho para a Vida

1067 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Sexta-feira | João 14,1-6

Este texto de São João está situado no contexto do lava-pés, como parte de uma ampla e cálida catequese que desenvolve o significado desse gesto de Jesus para confortar os discípulos. Na verdade, eles ficam desconcertados e confusos tanto com a origem trabalhadora, o ensino e com a prática de Jesus, como também pela percepção de que traições se desenhavam entre eles.

Estava clara uma espécie de divórcio entre as expectativas de sucesso, segurança e libertação política que os discípulos alimentavam, por um lado, e a proposta de Jesus centrada na reconciliação e na fraternidade, no serviço gratuito aos mais vulneráveis, por outro. O gesto do pão e do vinho, antecipando a sua paixão e morte, e o sinal do lava-pés, afirmando a igualdade fundamental de todos diante de Deus, chega a escandalizá-los. A concretude crua da mensagem de Jesus desconcerta.

Neste diálogo, Jesus procura confortar aqueles que ele ama e que o seguem. E começa afirmando que no “lar” do Pai, de onde ele vem e para onde ele volta, existe lugar para todos, lugar que o próprio Jesus prepara. Mas para chegar lá, os discípulos devem leva-lo mais a sério. “Acreditem no Pai acreditando em mim”, diz Jesus. É assim que poderão ser acolhidos na plenitude e gratuidade do seu amor.

Mas, para habitar na intimidade familiar com o Pai e experimentar a vida em sua plenitude só há um caminho: o estilo de vida de Jesus, o amor sem medida. Vida é a meta da caminhada. Neste caminho que é Jesus, o discípulo descobre a verdade sobre si mesmo e sobre Deus: nascemos do amor, vivemos por amor e morremos por amor, e isso não nos tira do mundo, mas nos mergulha nele. O amor está no caminho, no dinamismo de crescimento e amadurecimento, e a vida é a meta.

O caminho, a verdade e a vida são a pessoa e o Evangelho Jesus, e não esta ou aquela religião, esta ou aquela doutrina, uma ou outra denominação cristã. Como discípulos, jamais poderemos relativizar a pessoa e a proposta de Jesus. Se o fizermos, estaremos caindo na mentira, perdendo-nos nas encruzilhadas, caindo prisioneiros da morte, fora do nosso “lar”.

 

Sugestões para a meditação

Será que também nós perdemos a noção da meta da vida cristã (a vida plena no amor sem medidas) e, por isso, estamos confusos?

O que mais nos deixa perplexos e confusos, no atual momento da Igreja, do Brasil e do mundo? Ou somos indiferentes a tudo?

O que seria concretamente a “verdade” e a “vida” para as quais Jesus afirma ser o “caminho”?

Cremos em Deus acreditando verdadeiramente em Jesus, ou projetamos em Jesus nossos preconceitos e nossas surradas ideias sobre Deus?

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Sereis felizes


Nossa felicidade consiste em amar e servir

1066 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Quinta-feira | João 13,16-20

O texto que lemos ontem está situado antes da cena da ceia e do lava-pés. E o texto que nos ocupa hoje está sua sequência dessa cena programática e testamentária. É uma espécie de catequese que retoma os gestos da ceia e do lava-pés e extrai seu sentido mais profundo, chamando a atenção para a necessidade de leva-los a sério, de não ficar na exterioridade, como se não passassem de simples ritos.

Jesus havia perguntado aos discípulos se eles haviam entendido bem seus gestos, e sua pergunta se fazia necessária, uma vez que tanto Pedro como Judas Iscariotes não concordavam com aquilo que Jesus fizera. Recorrendo a um provérbio popular (“não queira ensinar a missa ao padre”), Jesus sublinha que o discípulo não pode fazer diferente do mestre, dominar em vez de servir, deixar de ser compassivo.

Para Jesus, é uma arrogância, uma irresponsabilidade e uma traição um discípulo comportar-se como senhor, como superior em vez de igual. E, para não deixar dúvidas sobre esta lição, afirma solenemente: “Se sabeis isto, e o puserdes em prática, sereis felizes”. Não se trata de repetir o rito da ceia e do lava-pés, mas de praticar o amor que serve, a compaixão que aproxima e faz irmãos.

Comporta-se como Judas o cristão que pensa que crer em Jesus é apenas algo formal e nominal; é como se comesse o pão com Jesus, mas não se alimentasse do seu corpo (vida). Mas quem coloca em prática a atitude global de Jesus, expressa de modo na ceia e no lava-pés, quem vive o amor que serve, gera uma nova comunidade humana, realiza-se como pessoa, vive a felicidade sem limites, alcança a vida eterna.

Discípulo de Jesus é quem assume sua prática, quem se faz semelhante a ele. Por isso, quem recebe um discípulo, recebe Jesus. Jesus é o enviado do Pai, e os discípulos são os enviados de Jesus para viver como ele e ensinar o que ele ensinou. É assim, vivendo relações que tecem a igualdade, que nos fazem filhos de Deus. Como fruto disso, quem acolhe um discípulo missionário também se descobre filho de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória os gestos as palavras no ambiente da última ceia de Jesus com os seus discípulos

Em que nós e nossos contemporâneos depositamos a esperança da felicidade: na atitude de amigo e irmão, ou de superior e chefe?

Por que a maioria dos cristãos prefere repetir o rito da eucaristia e do lava-pés, mas resiste em assumir a atitude que ele propõe?

Como testemunhamos aos homens e mulheres de hoje nossa identificação com Jesus e sua missão?


terça-feira, 28 de abril de 2026

Expressão da ação do Pai

A vida de Jesus ilumina nossos caminhos e opções

1065 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Quarta-feira | João 12,44-30

Embora apresentem cenas da vida de Jesus antes da morte e ressurreição, os evangelhos são pós-pascais, e precisam ser lidos nesta perspectiva. É isso que estamos fazendo desde o segundo domingo de Páscoa.  E o texto de hoje está situado no final da primeira parte do evangelho de João, antes da narração da ceia e do lava-pés, cena com a qual inicia-se a narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

Sobre Jesus já pesava um decreto de morte, e ele estava plenamente consciente disso. É por isso que ele andava se escondendo, mas não se furtava de dizer aquilo para o qual o Pai o havia enviado. As palavras de hoje são as últimas que Jesus pronuncia diante de todos os ouvintes, pois doravante falará apenas com seus discípulos e com seus perseguidores. E é a terceira vez que Jesus fala alto, gritando (como em Jo 7,28.37). Escutemos atentamente!

Em seu discurso, Jesus sublinha que suas ações e palavras são luz, amor solidário que conduz à vida. São um caminho diametralmente oposto às trevas, que são o egoísmo doentio, que produzem opressão e levam à morte. Quem o encontra é posto numa encruzilhada, e deve escolher entre luz e trevas. Nesta oposição nada metafísica e profundamente histórica, Jesus resume sua missão, como João já o fizera no primeiro capítulo do seu evangelho.

E o que Jesus faz e ensina não é aquilo que ele gosta ou acha oportuno, mas aquilo que o Pai pede que ele diga e faça. Ele não faz nada por si mesmo, e sente-se honrado em ser enviado, em cumprir a vontade do Pai. Ele dispensa qualquer protagonismo, pois basta-lhe a plena comunhão com o Pai no ensino e na ação. Para conhecermos Deus precisamos olhar para Jesus diz e faz, renunciando às ideias preconcebidas e aos conceitos abstratos.

Ele é caminho para a vida, e salva-nos suscitando em nós a capacidade de amar como ele ama. Por isso, este é “a” ação do Pai, especialmente no gesto de repartir o pão e lavar os pés dos seus discípulos. Quem escolhe outro caminho, prepara o próprio malogro e ruína, não chega a realizar-se como ser humano.

 

Sugestões para a meditação

Olhando para o que Jesus faz, e escutando o que ele ensina, conseguimos ver e ouvir Deus Pai?

Ou permanecemos com ideias preconcebidas sobre Deus e procuramos desesperadamente adequá-las a Jesus?

Jesus não fala aqui de mandamentos (no plural), mas de mandamento (no singular): qual é mesmo este único mandamento do Pai que se mostra em Jesus?

O que significa para nós, que meditamos diariamente o Evangelho, ouvir e guardar a Palavra de Jesus Cristo?


segunda-feira, 27 de abril de 2026

O pastor e sua voz

Somos ovelhas que reconhecem a voz do pastor?

1064 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Terça-feira | João 10,22-30

Este episódio do evangelho está no contexto da festa da dedicação do templo de Jerusalém, quando Jesus se apresenta como porta que conduz à vida e pastor que conhece seu rebanho e cujas ovelhas reconhecem sua voz. Mesmo que o templo abrigue seus maiores opositores, que já o ameaçaram com apedrejamento, Jesus passeia por ele como quem se sente em casa.

As lideranças do templo veem Jesus como uma ameaça, têm a impressão que ele lhes tira o fôlego. Pouco antes do episódio de hoje, haviam dito que Jesus estava louco ou possuído pelo diabo. Angustiados e irritados, elas cercam Jesus no templo, numa clara demonstração de ameaça. E o desafiam a apresentar-se claramente como Messias, não para que acreditassem, mas para terem motivo para condená-lo.

O vazio de poder aberto pela espera de um messias é ocupado por estas lideranças, membros das famílias nobres e poderosas, e elas temem perder o poder. Jesus havia dito que estas lideranças são cegas por opção, não fazem parte do seu rebanho, não reconhecem nele a voz e a mão de Deus, servem e seguem a mercenários. Orgulham-se de ser descendentes de Abraão e defensores da Lei de Moisés, mas o são apenas da boca para fora. São filhos de Satã, o pai da mentira.

Jesus percebe a artimanha deles e, como já fizera em várias oportunidades, foge de uma discussão teórica e estéril sobre o Messias. Jesus prefere invocar o testemunho das suas ações de afirmação da dignidade e restauração da liberdade das pessoas, e os chama a tomar posição. São suas obras que testemunham se ele está com Deus ou não, se Deus está com ele ou não. Assumir a defesa do ser humano humilhado significa estar com Deus. Mas as lideranças do templo são cegas, não querem ver.

A conclusão da cena é dramática. Jesus adverte as lideranças a não tentarem recuperar o controle que perderam sobre parte do povo. Aqueles que o reconhecem como Pastor Bom acessaram a vida plena, e ninguém vai arrancá-los das suas mãos, pois o Pai não o permitirá. Jesus diz que ele e o Pai são um, e, diante disso, as lideranças reagem ameaçando apedrejá-lo.

 

Sugestões para a meditação

Fazemos parte do rebanho de Jesus Cristo, daqueles que ouvem e seguem a sua voz e continuam seu estilo de vida?

Reconhecemos a mão de Deus nas ações humanizadora e libertadoras de Jesus e de todos os que fazem o bem?

Como demonstramos isso? Nosso modo de ser testemunha claramente nossa pertença ao caminho ou “movimento” de Jesus?

Somos capazes de demonstrar nossa pertença a Jesus colocando-nos ao lado do ser humano ameaçado?

domingo, 26 de abril de 2026

Pastor bom

O Bom Pastor não ergue muros ou cercas...

1063 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Segunda-feira | João 10,11-18

Uma das mais belas imagens que o povo de Israel usou para falar de Deus e da sua relação conosco é a do pastor. Essa imagem, visualizada pelo antigo povo de Israel na sua expectativa de um Messias, também nos ajuda a compreender uma faceta de Jesus Cristo. Sua vida é uma cotidiana realização do amor pastoral, da missão entendida como cuidadosa e atenta ação de pastoreio.

Vejamos, brevemente: ele tem compaixão das multidões porque estão cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor (Mt 9,35-36); ele procura as ovelhas dispersas e em situação de risco, como as mulheres, os doentes e pecadores marginalizados (Mt 18,12-14); ele festeja o reencontro, e diz que é maior sua alegria por um marginalizado resgatado que por noventa e nove que se consideram perfeitos (Lc 15,3-7).

No evangelho de hoje, apresentando-nos Jesus como bom pastor, João tem presente sua vida e suas ações concretas. Jesus é bom e excelente como o vinho abundante servido nas bodas de Caná. Ele é bom porque não é mercenário: não age por interesse ou vantagens e não foge nem esmorece diante das perseguições, mas arrisca sua vida para que os mais fracos tenham plenas condições de vida.

Mas ele é o Pastor bom e excelente também porque estabelece uma relação estreita e personalizada com cada pessoa, bem diferente de um herói ou benfeitor distante, incapaz de se misturar com as pessoas comuns. Jesus é o Bom Pastor porque conhece cada pessoa pelo nome, por mais simples que seja. Ele ouve seus clamores e conhece seus sofrimentos, desce para defendê-las e fazê-las subir (cf. Ex 3,7-10).

Jesus, o Pastor Bom, não veio para fundar uma instituição, mas para reunir as pessoas dispersas. É o pastor bom porque não se orienta por fanatismos, não se detém nas cercas ou muros religiosos, nacionais, étnicos ou de classe. “Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também a elas devo conduzir. Elas ouvirão a minha voz e haver um só rebanho e um só pastor”, diz ele, sem rodeios.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória as principais frases desta polêmica pregação de Jesus contra as lideranças religiosas e políticas

Como podemos distinguir hoje a diferença entre as lideranças mercenárias e as autênticas, como o Bom Pastor?

Como cristãos e seguidores de Jesus, conhecemos realmente sua Voz, sua Palavra, em meio a tantos ensinos e lições diversas?

Quais são hoje, em nosso meio, as “outras ovelhas, que não deste curral”, e que Jesus conduz e ouvem sua voz?

Em relação à sua família, sua comunidade e sua cidade: suas atitudes são como aquelas do Pastor Bom?

sábado, 25 de abril de 2026

Porta e pastor

Jesus é a porta aberta para o bem viver

1062 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Domingo | João 10,1-10

Jesus entra em nossa casa e nos conduz para fora. O Bom Pastor não quer isolar seu rebanho dentro de um redil e conservá-lo seguro, mesmo que este redil se chame Igreja. Ele não quer reduzir a vida dos discípulos ao ambiente doméstico, indiferente ao mundo exterior. Ele chama pelo nome e conduz aqueles que o ouvem para fora de si mesmos e para fora de um sistema que anestesia, separa, hierarquiza e aprisiona as pessoas. Não é possível ser discípulo de Jesus e viver na a auto-referencialidade.

Jesus, o Bom Pastor, chama pelo nome e manda sair às periferias. Neste percurso, ele mesmo caminha à nossa frente, livre e solidário. Ele não considera suficiente despertar os homens e mulheres, e mostrar-lhes um caminho. Ele se faz caminho e companheiro de caminhada, um pouco à frente para dissipar medos e incertezas, sempre próximo para curar as feridas e fortalecer nos tropeços. No fim, ele é porta aberta em forma de cruz, passagem-páscoa para a liberdade solidária e plena.

Além de manter uma relação personalizada com cada discípulo, Jesus também reúne um rebanho, uma comunidade. Àqueles que ele congrega, também aponta um caminho de saída, um estilo de vida comunitário, solidário. Somos ovelhas do seu rebanho, membros de um povo solidário. Recebemos o bônus e o ônus de estarmos ligados a um povo e a um mundo que caminha para a liberdade tropeçando nos próprios pés, mas com o olhar fixo naquele que vai à sua frente.

O sonho de Deus é ver a vida florescendo em todas as dimensões e para todos os seus filhos e filhas. Não se trata de uma vida miúda, apertada e resignada, mas de uma vida abundante, transbordante. A festa da vida preparada por Deus não pode ser reservada a uma meia dúzia de privilegiados. É entrando e saindo do redil de Jesus, vivendo nossa vida como dom, que encontramos pastagem. É na ousadia de ir além dos limites e muros erguidos por ideologias mesquinhas que encontraremos o alimento que sustenta esta vida tão sonhada.

 

Sugestões para a meditação

Como a imagem da porta pode nos ajudar a entender a identidade e a missão da comunidade cristã e da Igreja de hoje?

Nossas comunidades se parecem mais com portas abertas, que ajudam a entrar e sair, ou com redis ou currais fechados?

Em tempos de indiferença doentia e de proliferação de Igrejas, o que significa entrar por Jesus, sair e encontrar pastagem?

Num contexto de crescente distância entre ricos e pobres, como e através de quem Jesus concede vida abundante a todos?