sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ir além do mínimo

A lei é superada pelo amor e pela misericórdia

991 | Tempo Comum | 6ª Semana | Mateus 5,17-37

Mateus nos mostra que, na sua primeira “catequese” mais extensa, Jesus nos propõe uma justiça mais ampla, profunda e humana que aquela ensinada e praticada pelos escribas e fariseus. Sua advertência é clara e inequívoca: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. Já diante de João Batista, Jesus já antecipara: “Devemos cumprir toda a justiça”! (3,16)

Jesus oferece alguns exemplos de cumprimento radical da Lei. O primeiro é no campo das tensões nas relações interpessoais, contemplada pelo mandamento “Não matarás”! Na ótica da nova ética do Reino de Deus, o conteúdo desta lei não se resume em evitar o homicídio, mas passa pela pacificação das relações e pela superação das posturas raivosas e da linguagem eivada de desprezo, preconceito e violência, como aquela tão comumente usada hoje nas redes sociais.

O segundo exemplo está situado no campo da espiritualidade e da liturgia. Jesus critica o culto que ignora as tensões e não leva à reconciliação. A vida concreta é mais importante que os ritos religiosos, e a percepção dos conflitos tem primazia sobre a ortodoxia. “Deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”. Devemos nos reconciliar antes da chegada ao tribunal do incerto fim da vida.

Os dois exemplos seguintes estão no âmbito das relações homem-mulher. O primeiro focaliza a questão do adultério, e afirma que a lei tem a função de educar para uma relação que não seja possessiva. Sabemos que o dinamismo que sustenta comportamentos sexuais descontrolados é sutil: passa do olhar viciado e interesseiro, que não reconhece a dignidade da pessoa, à palavra que humilha e despreza e, enfim, à violência fatal que elimina a vida da parceira.

Jesus também reprova a dominação do homem sobre a mulher, mesmo quando sancionada pela cultura e pela lei. Dizer que a lei permite ou que é costume não desculpa nem justifica ninguém. Este é o horizonte da proposta de Jesus no caso do divórcio. A permissão legal do divórcio legitimava o descompromisso do marido com a mulher, e garantia ele o direito de maltratá-la e execrá-la publicamente, mas a ética do Reino de Deus restringe o poder ilimitado e violento dos homens.

 

Sugestões para a meditação

Releia o relato, dando atenção às palavras e exemplos que Jesus oferece de uma justiça superior àquela dos doutores da lei

Qual é o procedimento que a sociedade de hoje considera justo em relação à violência, ao culto, às relações conjugais e ao sexo?

Concordamos verdadeiramente com a radicalização de Jesus nesses campos, e tiramos as consequências disso?

Procure dar sequência aos exemplos de Jesus em outras áreas da vida, como a economia, a política, as relações internacionais...

Amar com lucidez

Amar os próximos de amanhã como os de hoje!

Vivemos tempos de frequentes eventos climáticos extremos. Todos sentimos isso na pele, mas nem todos querem abrir os olhos à realidade que nos cerca e atravessa. O negacionismo climático ainda seduz a muita gente. Sob o governo Trump, os EUA, responsáveis pela emissão de mais 25% dos gases que poluem a atmosfera do planeta, se recusam a assinar compromissos para reduzir a emissão destes venenos. O argumento é simplesmente simplório: não causar prejuízos à economia norte-americana.

Como cristãos, somos desafiados a compreender a gravidade da questão ambiental na encruzilhada histórica que vivemos. Passou o tempo em que se podia acusar meia dúzia de ambientalistas exagerados pela disseminação de inverdades acerca dos riscos ambientais. Entidades e academias reconhecidamente sérias acumulam informações e divulgam dados que não podem mais ser ignorados. Jesus curou os surdos para que ouvissem, e os cegos para que pudessem ver as coisas como são.

Como cristãos, precisamos também levar a sério o mandamento de amar o próximo. Este amor implica, certamente, o esforço inteligente, perseverante e organizado para garantir condições de vida, de liberdade e de justiça para os irmãos e irmãs que estão ao nosso lado, e para os 2/3 da humanidade que são “invisíveis” para as elites que “habitam os andares superiores” e só têm olhos para si mesmos e seus lucros.

Mas creio que o amor ao próximo hoje exige mais que isso. Ele pede de nós a capacidade de amar os próximos que ainda virão: preservar boas condições ambientais para que as próximas gerações possam viver. É ilusão pensar que fazemos nossa parte lutando e defendendo o direito dos pobres que hoje nos rodeiam e interpelam. Não podemos “salvar” os pobres de hoje colocando em risco aqueles que deverão viver amanhã.

Em nome da fé   em Jesus de Nazaré, em nome dos milhares e milhões de homens e mulheres que lutaram para que pudéssemos viver com liberdade e dignidade, respirando oxigênio e não apenas fumaça, precisamos nos engajar, sem demora nem desculpas, neste mutirão de defesa e conservação da Casa Comum.  E que ninguém venha me dizer que Jesus veio “salvar almas” e não as matas e os rios. Jesus não elogiou o sacerdote e o levita que priorizam a lei e o culto, mas o homem samaritano, que se aproxima para socorrer quem corre risco de vida (cf. Lucas 10,25-37).

Ah, o perdão!

A IMPORTÂNCIA SOCIAL DO PERDÃO

Não é fácil escutar o apelo de Jesus ao perdão ou tirar todas as implicações que pode ter a decisão de aceitar que um homem é mais humano quando perdoa do que quando se vinga.

Sem dúvida, é preciso entender bem o pensamento de Jesus. Perdoar não significa ignorar as injustiças cometidas, nem aceitá-las de forma passiva ou indiferente. Pelo contrário, se alguém perdoa é precisamente para romper, de algum modo, a espiral do mal e ajudar o outro a reabilitar-se e agir de forma diferente no futuro.

Na dinâmica do perdão há um esforço para superar o mal com o bem. O perdão é um gesto que muda qualitativamente as relações entre as pessoas e procura estabelecer uma convivência futura de uma nova forma. Por isso, o perdão não deve ser apenas uma exigência individual, mas deveria ter também uma tradução social.

A sociedade não deve abandonar nenhum ser humano, nem mesmo o culpado. Toda a pessoa tem direito a ser amada. Não podemos aceitar que a repressão penal apenas devolva mal por mal ao encarcerado, afundando-o no seu delito, degradando a sua existência e impedindo a sua verdadeira reabilitação.

O grande jurista G. Radbruch dizia que o castigo como imposição do mal pelo mal deve ir desaparecendo para se tornar, tanto quanto possível, um «estímulo para saldar o mal com o bem, único modo de exercer na terra uma justiça que não piore o mundo, mas o transforme num lugar melhor».

Não há justificação para agir de forma vexatória ou injusta com qualquer preso, seja delinquente comum ou ‘criminoso’ político. Nunca avançaremos para uma sociedade mais humana se não abandonarmos posturas de represália, ódio e vingança.

Por isso também é um erro incitar o povo à vingança. O grito de «o povo não perdoará» é, infelizmente, compreensível, mas não é o caminho certo para ensinar a construir um futuro mais humano.

O repúdio do perdão é um grito que, como crentes, nunca podemos subscrever, porque, no fundo, é um repúdio da fraternidade querida por Aquele que nos perdoa a todos.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O milagre da partilha

É assassinado quem morre de fome num país rico

990 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 8,1-10

O episódio de hoje é uma provocativa lição de economia política, centrada em dois princípios gêmeos: a compaixão e o companheirismo. A segunda distribuição de alimento ao povo faminto, conhecida como multiplicação dos pães, além de ser uma lição de solidariedade econômica popular, é uma lição de reforço na formação dos discípulos e discípulas, ainda reticentes diante da novidade do Evangelho.

Não quero chocar ninguém, porém precisamos reconhecer que o núcleo deste acontecimento não é a multiplicação milagrosa de pães e peixes, e sim a distribuição solidária e justa de alimentos a quem deles tem necessidade. Isso fica claro quando Jesus, chamando os discípulos, diz: “Tenho compaixão dessa multidão, porque faz três dias que está comigo e não tem nada para comer”.

E não se trata de cidadãos plenos, de gente que pertence ao povo judeu, mas de estrangeiros, ou pagãos. Para Jesus, aqueles que os judeus consideravam malditos, impuros, cães, são os pobres, muito queridos de Javé. Por isso, este segundo relato de distribuição de alimentos aos famintos é guiado pelo tema da acolhida e do socorro aos que “vieram de longe” e são excluídos do judaísmo.

Ao que parece, distribuindo fartamente pães e peixes Jesus também enfrenta e contesta o jejum ritual pregado e praticado pelos fariseus, especialmente quando estamos diante do jejum ou da fome impostas ao povo. Quando a fome é concreta, o jejum, por mais piedoso que seja, deve ser superado pela partilha e pelo atendimento às necessidades humanas, para que haja pão em todas as mesas, e para que haja festa.

Os discípulos, apegados aos seus princípios e costumes, mas também contaminados pela ideologia do mercado que grita “Menos Estado, mais Mercado!), ficam confusos: não veem no deserto ou na “lei do mercado” nenhuma possibilidade de encontrar meios e recursos para saciar a fome do povo. O Mercado não conhece a compaixão!

A lição de Jesus é mais do que clara: a satisfação econômica das massas empobrecidas passa pela economia do dom, ou da partilha. A vontade do Deus não é o jejum, mas a abundância de pão para todos mediante a partilha e o companheirismo. Deixar alguém morrer de fome num país com imensas riquezas equivale a um assassinato.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto dando atenção à atitude e às palavras de Jesus diante das necessidades do povo e à reação dos discípulos

Você consegue perceber qual é o segredo ou o dinamismo que desabrocha na abundância de alimento para todos?

Você acha correto dizer “só Jesus pode dar uma solução” quando ele começa perguntando “quantos pães vocês têm”?

Como esta ação de Jesus, e as lutas atuais pelo direito à alimentação, se relacionam com a Eucaristia?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Abrir os ouvidos

Não sejamos surdos ao Evangelho da igualdade

989 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,31-27

Jesus está percorrendo caminhos que podem parecer estranhos. A região de Tiro, Sidônia e da Decápole era habitada por pagãos, gente desprezada. Com a presença de Jesus, brilham novas possibilidades de vida para a filha de uma mulher nascida na Fenícia e para um surdo-mudo sem nome. Não teria Jesus o que fazer entre os seus conterrâneos? Em sua peregrinação no santuário das dores humanas, Jesus sempre dá prioridade absoluta aos ‘últimos’ da escala social, sejam judeus ou pagãos.

Há pessoas que desejam excluir da bíblia textos como a carta de São Tiago, que pede que, em nossas igrejas, não façamos distinção de pessoas em favor dos ricos e nobres. “Não foi Deus que escolheu os que são pobres aos olhos do mundo para torná-los ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu àqueles que o amam?” Este é um princípio fundamental e uma bela experiência dos primeiros cristãos: a fé em Jesus não admite distinções entre pessoas em benefício dos mais fortes ou daqueles que são ‘sem mais’ considerados nobres.

Acolhendo um pagão doente e tocando seus ouvidos e sua língua, Jesus despreza as prescrições religiosas e sanitárias do seu tempo. Ele rompe a distância, toca o doente, o contágio é revertido e o surdo-mudo é curado. Mas Jesus faz questão de não agir sob os refletores. Faz o contrário de muitos que hoje transformam a fé em espetáculo e inventam curas ao vivo e a cores, escarnecendo dos doentes, manipulando a fé do povo humilde e extorquindo deles os poucos recursos que lhes restam. Por isso, a multidão ficou entusiasmada diante da compaixão de Jesus.

Estamos como aquele homem que falava com dificuldade. Nossos ouvidos parecem surdos às Palavras que escapam da nossa lógica e questionam nossos interesses. Nossa língua parece presa, especialmente quando se trata de defender os direitos humanos e recriar o Evangelho da liberdade e da solidariedade. Um nacionalismo anacrônico e nada evangélico, ao lado de uma mentalidade escravagista, ativados especialmente na semana da pátria, nos induz a imaginar perigosamente que ser humano significa ser superior e melhor que outros. Precisamos que Jesus Cristo toque nossos ouvidos, coloque sua saliva em nossa língua, converta a nossa mente e libere a nossa comunicação e nossa ação.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, contemplando atentamente os gestos dos pagãos e de Jesus, mas também o que diz Jesus e o que dizem os pagãos

Você acha que as pessoas e grupos excluídos tem o espaço que lhes é devido na Igreja e na sociedade?

Será que muitos cristãos se sentem mais à vontade reproduzindo ideologias que separam que aderindo à escandalosa e provocadora liberdade inclusiva de Jesus?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Todos, todos, todos

No Reino de Deus, todos são cidadãos plenos

988 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,24-30

Jesus desmonta a teologia da pureza e solapa as bases da ideologia da supremacia e hierarquização da dignidade de alguns povos e pessoas sobre outros. Declarando que todos os alimentos são puros, ele resgata a dignidade dos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Assim, ele mostra que o sistema de pureza, não protege o povo, mas oprime os vulneráveis. Diga-se a mesma coisa hoje em relação às leis que restringem ou criminalizam as migrações.

Depois do confronto com os escribas e do ensino ao povo e aos discípulos, Jesus entra no território dos pagãos com o desejo explícito de aprofundar a questão e colocar um ponto final nessa interminável discussão. Mas eis que uma mulher pagã, discriminada por ser mulher e por ser pagã, ousa interromper esse “retiro” de Jesus. Ela desrespeita claramente as fronteiras que separam judeus e pagãos.

A cena descreve a reação de Jesus no horizonte das hostilidades étnicas e culturais dos judeus aos pagãos, e isso só realça a ousadia e a novidade do ensino e da prática de Jesus. A mulher pagã não apenas desrespeita as leis que excluem os pagãos dos benefícios de Deus e da cidadania em Israel, nem se contenta em pedir pela sua filha, mas discute com Jesus defendendo a dignidade do seu povo e reivindica a igualdade das pessoas e povos diante de Deus.

Segundo Marcos, o que faz Jesus “mudar” de opinião em relação ao desprezo os pagãos não é a fé ou a simples confiança daquela mulher insistente, mas o seu argumento: Deus é pai, e não trata nenhuma pessoa e nenhum povo como indigno ou impuro. O Reino de Deus, que é o horizonte no qual Jesus se move e a causa maior que ele abraça, derruba os muros que classificam e opõem as pessoas entre puras e impuras, judias e pagãs, filhas e cães.

Infelizmente, o sentimento de que “temos o que eles não têm” ou de que “somos melhores e mais merecedores que eles” ainda vigora, e volta com virulência inaudita entre grupos que se dizem cristãos. Ninguém esquece o teor de algumas manifestações contra o Papa Francisco, a Conferência dos Bispos do Brasil, o ecumenismo, a fraternidade universal e a defesa da diversidade patrocinadas pelas Campanhas da Fraternidade dos últimos anos.        

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, procurando entender bem os recursos literários e a questão que está em discussão: a igualdade diante de Deus

Qual seria a razão que leva grupos de cristãos a se oporem à ação social e ecumênica da Igreja do Brasil?

Como superar a contradição de quem reza “Senhor, eu não sou digno que entres em minha casa” e continua pensando “Somos melhores que os outros e temos o que eles não têm”?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pureza & impurezas

A exclusão do diferente é sempre uma violência

987 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,14-23

Ontem refletimos sobre a primeira parte do confronto dos doutores da lei com Jesus em torno da questão da pureza legal. Os doutores da lei e os fariseus acham que Jesus ensina a relativizar a lei de Deus, e os seus discípulos se comportam conforme o ensinamento do mestre. Mas não é Jesus que desrespeita a Palavra de Deus, e sim os próprios escribas, que a deviam ensiná-la e, na verdade, a esvaziam e manipulam.

Mesmo que não pareça à primeira vista, a questão da pureza é crucial na mensagem e na prática de Jesus. No tempo de Jesus, os rituais e preceitos de pureza tinham o objetivo de manter a unidade fechada do judaísmo às custas da exclusão ou menosprezo de todos os demais povos, culturas e religiões. A equação era aparentemente simples: judeu = puro; pagão = impuro. Portanto, por trás da discussão sobre a pureza e a purificação está a questão da admissão ou não dos excluídos como membros do povo de Deus.

A questão é tão central que Jesus insiste, e voltará a isso com frequência: “Ouçam-me todos, e entendam!” “Então, nem vocês (os discípulos) entendem?” Para as multidões, Jesus esclarece a questão recorrendo a uma breve metáfora: assim como nenhum alimento ingerido pode tornar uma pessoa impura, nenhuma relação com pessoas pagãs pode desqualificar ou tornar impuro quem quer que seja.

Interrogado pelos discípulos, Jesus explica a metáfora. Declarando puros todos os alimentos, ele considera insustentável a separação entre judeus e pagãos. O que nos torna maus ou inaceitáveis aos olhos de Deus não é o encontro, a acolhida ou o diálogo com as pessoas diferentes, de outras religiões ou grupos, mas as atitudes, práticas e pretensões de superioridade, de intolerância, de distanciamento. Não há a menor chance de que algo externo comprometa a interioridade.

Jesus destrói a ideologia da pureza e solapa em suas bases a ideologia da separação e da supremacia dos judeus sobre os pagãos. Ele declara que todos os alimentos são puros, afirma que todas as pessoas possuem a mesma dignidade, e resgata a dignidade negada aos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Jesus mostra que o sistema de pureza, que diz proteger o povo, na verdade oprime os mais vulneráveis. E hoje, o mito da meritocracia e a ideologia do empreendedorismo continuam classificando e descartando pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Tome consciência de que Jesus não está a falar de pureza ou impureza de alimentos, mas da inclusão ou exclusão de pessoas

Quais são os argumentos usados hoje para defender a superioridade de povos, religiões ou classes sobre outros?

Por que ainda tememos tanto a relação, a cooperação e o diálogo com os pobres e marginalizados, com as demais Igrejas e outras religiões?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Interesses restritos & Evangelho

Nada pode impedir o socorro a quem o necessita

986 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,1-13

Vindo de Jerusalém e representando os interesses do templo, um grupo de doutores da lei faz cerco a Jesus e questiona seu ensino na prática pouco ortodoxa dos discípulos. Como sabemos, os escribas, ou doutores da lei, defendem o cumprimento rigoroso dos preceitos para garantir a identidade, a separação e a influência do grupo. O núcleo do conflito não é espiritual ou prático, mas doutrinário, e só será solucionado nos versículos que prosseguem o texto de hoje. Aqui, Jesus apenas ataca, desmascara e desqualifica as práticas defendidas pelos doutores da lei.

Os doutores da lei criticam os discípulos de Jesus por, segundo eles, desrespeitarem reiteradamente as tradições tomando os alimentos sem lavar as mãos. E a crítica fundamental que Jesus faz a eles (que também se estende aos fariseus) é que, defendendo falsamente a tradição e colocando toda a atenção nos ritos exteriores de purificação, eles vivem uma piedade e uma religiosidade apenas aparente: lavar mãos, copos, pratos e vasos, e assim por diante.

Jesus vai a fundo na sua crítica aos doutores da lei e na defesa da nova prática do reino de Deus. Para ele, os defensores da tradição do templo já teriam sido denunciados pelo profeta Isaías, que diz que eles fazem de conta que honram a Deus com os lábios, mas suas práticas e decisões passam bem longe da vontade de Deus. Mais ainda, Jesus diz que eles esvaziam a lei de Deus e a substituem pelas suas próprias tradições pouco inspiradas em Deus.

E Jesus dá um exemplo: segundo o ensino dos doutores da lei, os bens que os filhos devem destinar ao cuidado e sustento dos pais idosos podem ser oferecidos ao templo e, assim, ficarem sob o controle e administração deles mesmos. Ocorre que, agindo assim, eles fazem com que a lei e a tradição, que, segundo a vontade de Deus, devem proteger os mais fracos, acabam explorando os mais vulneráveis em nome de Deus. E o ensino de Deus, para salvar a vida dos fracos, acaba virando descarga de consciência e preceito interesseiro a serviço de alguns.

Assim, podemos dizer que “o feitiço virou contra o feiticeiro”: a crítica dos doutores da lei a Jesus virou crítica de Jesus contra os doutores da lei: não é Jesus que desrespeita a Palavra de Deus; aqueles que deviam vive-la e ensiná-la, na verdade a esvaziam e manipulam, mesmo quando dizem fazer isso em nome de Deus. 

 

Sugestões para a meditação

Leia com atenção e procure compreender a crítica de Jesus aos escribas, e o exemplo de como eles esvaziam a Palavra de Deus

Você percebe também hoje a tentação de esvaziar a Palavra de Deus e substitui-la por interesses mesquinhos?

Foi realmente entre nós a tentação de “torcer” o Evangelho e transformá-lo em pedras que jogamos contra as pessoas que consideramos culpadas?

A tal felicidade

Viver sem vergonha de ser feliz!

Este compromisso nos leva à canção “O que é, o que é”, que Gonzaguinha gravou em 1982, que é uma louvação à beleza da vida, apesar da sua complexidade. A felicidade depende, em boa parte, do modo como olhamos a vida, da sabedoria que nos faz encarar o mistério da vida como eternos aprendizes, deixando-nos surpreender com a beleza do instante.

Essa perspectiva é confirmada pela composição “Manhã bonita”, de Fábio C. Leal e Maria Ângela Leal, gravada por Rolando Boldrin em 2002, que fez sucesso na novela Cabocla (2004): “Assim é a terra, nos dizendo todo dia: ‘tudo é tão simples, num eterno despertar; o raiar do sol é sempre o mesmo; e o segredo está no jeito da gente olhar”.

Na prática, isso não é tão simples, ao menos no horizonte cultural de hoje. O ensaísta anglo-polaco Zygmunt Baumann afirma que, para a maioria das pessoas, a felicidade é um bem individual que supõe exclusividade, sensação de estar um grau acima dos outros: lugares exclusivos, bens exclusivos, relações exclusivas, inalcançáveis para a maioria.

Se a felicidade consiste nisso, a privação desses bens exclusivos é vivida como a mais dolorida infelicidade. Como a maioria desses bens ‘portadores da felicidade’ são limitados, a felicidade é impossível para a maioria da humanidade. É isso que faz o privilégio, a condição de estar um degrau acima, de ser especial, ser visto como felicidade.

O cristianismo não é alheio à busca da felicidade, mas indica outro ‘conteúdo”. Conforme o judaísmo, nada proporciona mais felicidade que meditar a Lei de Deus: “Feliz o homem que encontra seu prazer na Lei de Javé, e a medita dia e noite... Como eu amo a tua lei! É mais doce que o mel!” (Salmos 1 e 119). Mas isso também é para poucos felizardos...

Jesus Cristo tem uma proposta inovadora e ‘mais democrática’: a felicidade, como a salvação, não é para poucos, mas é desejo e oferta de Deus para todos. Os conceitos ‘salvação’ e ‘felicidade’ estão relacionados com a realização plena da pessoa humana, com o ‘bem viver’ na relação com Deus, com os outros e com todas as demais criaturas.

Para ele, são felizes as pessoas que não sentem proprietárias de nada e de ninguém; que compartilham com as dores e as alegrias dos semelhantes; que não recorrem a relações violentas; que não se resignam às injustiças; que se fazem próximos dos vulneráveis; que têm um jeito puro de olhar; que promovem a paz; que permanecem firmes, mesmo nas perseguições (cf. Mateus 5,1-12). Então, vivamos sem vergonha de sermos felizes assim!

Dom Itacir Brassiani msf

domingo, 8 de fevereiro de 2026

O toque que cura

O encontro com Jesus nos fortalece e liberta

985 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,53-56

O sexto capítulo de Marcos começa com o escândalo dos familiares e conterrâneos de Jesus, prossegue na compaixão que o leva a buscar alimento para a multidão faminta, continua com a tumultuada travessia do mar e termina com a cena de hoje: a multidão que o procura e encontra do outro lado do mar, como último porto para não desfalecer de necessidade e desespero.

Em todas as cenas transparece uma grande tensão: mesmo tendo sido chamados, tendo recebido uma formação especial e tendo ensaiado uma participação na missão de Jesus, os discípulos e discípulas não conseguem reconhecer nele os traços do Messias esperado e assimilar sua prática. Por outro lado, a multidão, cansada e sem pastor, busca e encontra em Jesus aquilo que já havia desistido de esperar.

Os discípulos não conseguem entender o significado do gesto do pão partilhado para os famintos no deserto, mas um mar de gente miserável se lança sobre Jesus! Este capítulo termina sem relato de qualquer gesto particular de Jesus em favor das pessoas, mas nos apresenta uma espécie de sumário ou resumo do seu ministério em todas as esferas sociais: nos mercados, nas aldeias, nos campos e nas cidades. Para Jesus, a sinagoga e o espaço religioso não esgotam os sinais do Reino de Deus!

Este sumário é comovente: reconhecendo Jesus imediatamente, as pessoas o buscavam em qualquer lugar, carregando seus doentes pelas estradas e campos; colocando seus doentes nas praças das cidades; contentando-se até com apenas um toque na barra do seu manto. “E todos os que tocavam nele eram salvos”, diz Marcos. Tudo isso aumenta o contraste com a atitude dos doutores da lei, descrita logo em seguida: eles estão mais interessados com a impureza das mãos dos discípulos de Jesus que com sua imensa compaixão.

Todos somos encorajados a buscar e encontrar em Jesus o conforto que necessitamos, e isso é legítimo. Mas somos também convocados a assimilar e viver sua divina compaixão, sem agenda e sem mapa, com o próximo esquecido e necessitado. Esperar de Jesus benefícios pessoas e não imitá-lo nos gestos de amor é incoerência.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, prestando atenção à comoção que se esconde atrás das palavras desse resumo da missão de Jesus

Perceba como Jesus não estabelece horário ou lugar para a compaixão, e como o povo põe nele sua última esperança

Será que nós, homens e mulheres que separam fé e ciência, cremos de fato que o encontro com Jesus pode nos curar e salvar?

O que você espera de Jesus: um benefício pessoal, ou um caminho que o/a torne mais humano e solidário?