O Evangelho revela e
ilumina as divisões
1242 | Tempo Comum |
29ª Semana | Quinta | Lucas 12,49-53
No trecho do evangelho de
ontem, fomos advertidos por Jesus para que não aconteça que, mesmo conhecendo a
vontade de Deus, vivamos “na sombra e água fresca”, não preparemos nada e nos
comportemos como chefes violentos e sem compromisso, prontos a beber, dominar
com violência e discriminar. O foco do trecho de hoje é outro, mas a tensão
para a construção do Reino de Deus e o tom de urgência continuam. Esperamos o Reino de Deus articulando a paz
com a justiça.
A imagem à qual Jesus
recorre, assim como sua primeira afirmação, assustam, especialmente a quem quer reduzir a proposta de Jesus a
um inocente “paz e amor”. Ele diz claramente que não vem trazer paz, e sim divisão; que não vem apagar os incêndios
da ira, mas espalhar o fogo. E mais ainda: ele espera que seus discípulos e discípulas façam o mesmo! Como
entender corretamente estas palavras de Jesus? Elas fazem sentido? Os anjos não
cantaram “paz na terra” quando ele nasceu? Ele não é o príncipe da paz, sonhado
pelo profeta Isaías?
Na perspectiva de Jesus, a paz é fruto do abraço com a justiça,
resultado de uma escolha difícil e exigente que precisamos refazer todos os
dias. Não há paz fora do âmbito da justiça do reino de Deus. E essa justiça se mostra na compaixão solidária com as
vítimas, com todas as categorias de pessoas excluídas e marginalizadas. A
paz não pode ser fruto da contemporização com o mal e com a injustiça.
Jesus diz que veio lançar
fogo na terra, porque o fogo do
Espírito, experimentado por ele no batismo e manifestado na fidelidade até à
cruz, revela, distingue e purifica nossas intenções e projetos pessoais e
sociais. Este Espírito é o dom de si mesmo, feito de uma vez por todas no alto
do Calvário, dom que inunda o mundo como uma enxurrada, que espalha um fogo que
acende mil outros focos de incêndio, como as manifestações das juventudes nos
últimos dias.
As
várias manifestações da divisão das quais fala Jesus no evangelho de hoje não
são frutos de um desejo doentio ou violento, de uma mentalidade sectária e
litigiosa, mas consequências de um
posicionamento lúcido e firme contra a ordem e os hábitos dominantes. Nossa
lealdade com a novidade e a justiça do Reino de Deus está acima dos laços
familiares e pode até provocar cisão e distanciamento. E isso pode se mostrar
até quando escolhemos uma opção política evangélica e mais à esquerda.
Sugestões para a meditação
Acolha as palavras incisivas de Jesus, sem
deixar-se assustar por elas, mas também sem esvaziá-las de sua natural urgência
Como você vem tentando proporcionar o encontro
entre a justiça e a paz, entre o amor e a fidelidade ao Evangelho?
Recorde situações em que, por fidelidade a Jesus e
seu Evangelho, você provocou tensões nos círculos mais próximos