quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Festa com casa cheia

A alegria do Pai é que todos sentem à mesa

1178 | Tempo Comum | Semana XX | Quinta | Mateus 22,1-14

O calendário litúrgico-pastoral omite quase dois capítulos do evangelho de Mateus, e nos propõe para hoje o início do capítulo 22. Esta parábola faz parte do quinto bloco narrativo do evangelista. Jesus percorreu um longo caminho e chegou a Jerusalém. Ali ele travará um duro confronto com a instituição do templo e com seus defensores e controladores. Este confronto começa com sua entrada no templo com chicote na mão, e se prolonga em várias parábolas. 

A parábola dos convidados para a festa de casamento é um confronto aberto de Jesus com os fariseus e os mestres da lei, que representam a elite religiosa do judaísmo. Os protagonistas são um rei que convida seus amigos para a festa de casamento do filho (uma alusão a Jesus). Como sabemos, para o mundo e a cultura oriental, comer e festejar significa participar da vontade de Deus e do seu Reino, e evoca as refeições de Jesus com as pessoas excluídas.

Os convidados preferenciais para a festa declinam do convite reiterado do rei, e tratam com violência os mensageiros que ele envia. Na verdade, rejeitam tanto a autoridade de Jesus como enviado e mensageiro do Pai como a participação no dinamismo do Reino de Deus, no qual há lugar para todos. Mesmo vendo seu convite rejeitado e seus enviados tratados com violência, o rei não reage de modo violento, nem pune aqueles que não o reconhecem.

Então, o rei deixa de convidar os que vivem nos templos e nos corredores dos palácios e das cúrias e se dirige às pessoas e grupos que vivem nas encruzilhadas (lugares de mendicância), abrindo a porta do seu Reino a todos, sem exclusão: homens e mulheres, judeus e pagãos, doentes e pecadores, adultos e crianças, bons e maus. É nisso que consiste a alegria do rei, e é nisso que ele se parece com Deus Pai. Sua alegria e seu prazer é ver todos os filhos e filhas reunidos fraternalmente.

A parábola termina fazendo referência a alguém que aceitou o convite, mas não se apresentou com as vestes adequadas e é punido duramente. Trata-se de um sujeito que pretende ser discípulo de Jesus sem assumir um novo jeito de viver, e não de alguém que tenha alguma culpa moral. Os últimos da escala social e aqueles que se dispõem a seguir a Jesus precisam assumir seus valores e suas práticas: dar gratuitamente aquilo que de graça receberam.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Como você vem respondendo a este convite para participar da festa da vida que acolhe quem sempre foi relegado à margem?

Você acolhe esse convite com alegria e compromisso, ou “com dor de cotovelo”, como se você e sua classe fossem preteridos?

E você está usando a roupa adequada para uma festa de núpcias (prática da justiça) e não se preocupa com a coerência?

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Igualdade

É justo quem trata a todos com igualdade

1177 | Tempo Comum | Semana XX | Quarta | Mateus 20,1-16

Quem quiser ser discípulo de Jesus precisa ter sabedoria e decisão para encarnar o reino de Deus em todas as suas relações. No horizonte da utopia de Jesus, justiça e a bondade não estão no mérito e na aplicação da lei do “cada um recebe o que merece”. A lógica do Reino de Deus inverte os valores, e estabelece a prioridade dos últimos e desprezados sobre os ricos e privilegiados.

Na parábola de hoje, o personagem central é um chefe de família patriarcal. A primeira cena trata da contratação de diaristas para trabalhar no seu campo. Mas tudo está focado na segunda cena, ou seja, no acerto de contas pelo trabalho realizado pelos trabalhadores contratados em diferentes horas do dia. A todos o chefe da família prometera pagar o que seria justo, e não um valor estabelecido.

As pessoas contratadas na primeira hora assistem ao pagamento das que foram contratadas no fim do dia, que recebem, por poucas horas de trabalho, um valor que permite a subsistência diária, e isso alimenta a expectativa de que receberiam bem mais, pois haviam feito por merecer. Mas o contratante não se orienta pela meritocracia, e sim pela justiça e pela bondade, e retribui a todas igualmente.

O grupo que se julga merecedor de uma retribuição maior se irrita por ter sido igualado aos demais. De fato, o pai de família não age conforme o costume, não reforça a competição e a distinção de classes. A irritação brota da inconformidade por terem sido igualados aos mais necessitados. Eles protestam contra a igualdade fundamental de todos os trabalhadores!

Com esta parábola, Jesus nos convoca a tomar uma posição radical, como ele mesmo o fez: assumir um estilo de vida alternativo também na economia, agindo na perspectiva do Reino de Deus, guiando-nos pela necessidade das pessoas e pela gratuidade, ou pela economia do dom, como a chama o Papa Francisco.

Será que também nós, depois de dois mil anos de cristianismo, caímos na armadilha de nos sentir melhores que os outros? Em que medida ainda tratamos as pessoas, grupos, religiões e classes sociais a partir daquilo que achamos que ‘merecem”? Será que ainda defendemos a velha moral econômica que recomenda dar a cada um o que merece? Chegamos a perceber que a lógica de Deus é outra, é diferente?

 

Sugestões para a meditação

Com esta parábola, Jesus provoca fortemente as pessoas, tanto os judeus como seus discípulos, a superar a lógica do mérito

Deixe ressoar em você a afirmação clara e provocativa de Jesus mediante a parábola do patriarca generoso e solidário

Peça a Jesus a graça de se comprometer e se alegrar com os pequenos e grandes sinais de emancipação dos pobres

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Quanto temos de crédito?

O discípulo de Jesus não acumula créditos

1176 | Tempo Comum | Semana XX | Terça | Mateus 19,23-30

Ontem meditamos o instigante episódio do jovem religioso e rico que se candidatou a discípulo de Jesus. Diante da exigência de distribuir os bens aos pobres e se colocar a caminho com os demais discípulos, ele voltou atrás, e preferiu ficar com os bens a seguir Jesus. Na verdade, os bens o possuíam e impediam de ser livre para.

A atitude desse jovem leva Jesus a sublinhar que o apego aos bens e a alguns vínculos que aparentemente dão segurança são entraves à adesão ao Reino de Deus. A metáfora da agulha e do camelo não deixa dúvidas: que uma pessoa rica aceite o desafio do Reino de Deus não é apenas difícil, mas impossível, a menos que se desapegue e corrija suas práticas injustas para acumular bens e os partilhe com os pobres, os verdadeiros “proprietários” daquilo que nos sobra.

Os discípulos ficam assustados com esta afirmação de Jesus. Eles bebem da ideologia religiosa que considera a riqueza um sinal da benção divina, e os ricos, já socialmente privilegiados, como muito amados e favorecidos por Deus. Por isso, pensam que se os ricos não se salvam (não entram no Reino, não são perfeitos) ninguém poderá se salvar. Mas Jesus crê que a fé sincera pode produzir mudanças: quem descobre o valor do Reino, arrisca tudo, como aquele trabalhador que vendeu tudo para comprar o campo, ou aquele negociante, que faz o mesmo pela pérola preciosa.

Pedro, em nome dos discípulos, observa que eles deixaram tudo e estão seguindo Jesus. De fato, deixaram a família e os contratos de trabalho de pesca, e entraram no caminho da busca do Reino, embora não tenham distribuído os bens aos pobres. Eles perguntam que benefício terão, pois acham que merecem. Por isso, podemos dizer que Pedro se mune de coragem e, em nome dos colegas, cobra a conta de Jesus.

Jesus responde acenando para o futuro, quando o Reino de Deus será plenamente realizado. Então aqueles que hoje são colocados em último lugar serão reconhecidos em sua dignidade e grandeza, terão influência e atrairão outros por seu testemunho de vida. Mas sem seguimento radical de Jesus, os que hoje são badalados podem se ver no último lugar, como uma simples nota de rodapé no livro da história.

 

Sugestões para a meditação

Há algo que ainda amarra você e o impede de entregar-se à aventura de criar novos céus e nova terra, sem regatear nada?

Em que medida você também participa da ideologia que considera os estudados, ricos e poderosos como abençoados por Deus e os pobres como culpados?

Qual é o obstáculo faz com que a vida dos cristãos não tenha hoje grande poder de influência e exerça pouca atração?

Você já ouviu sermões que tentam amenizar a metáfora do camelo e da agulha, fazendo possível conjugar o apego aos bens com a fé em Jesus?

domingo, 16 de agosto de 2026

Falta o mais importante

Cumprir bem as leis é pouco e insuficiente

1175 | Tempo Comum | Semana XX | Segunda | Mateus 19,16-22

Nos últimos dias, estamos meditando trechos do Evangelho nos quais Jesus nos apresenta o dinamismo inovador, transformador e provocador do reino de Deus nos diversos campos das relações humanas: nas relações entre as classes sociais, nas relações no interior das famílias, nas relações entre homem e mulher, na relação com Deus e a religião, etc. Hoje, o foco é a relação do discípulo com os bens.

Ao que parece, o jovem que busca Jesus faz parte da elite de Israel. Ele tem muitos bens e, conforme o que ele mesmo afirma, pratica fielmente os mandamentos, e isso desde a mais tenra juventude. Está preocupado com a felicidade individual, trata Jesus como os mestres da lei o tratavam, mas parece estar no caminho certo e bem-intencionado. Ele pergunta a Jesus o que deve fazer de bom, ou como ser bom. Vida eterna equivale a perfeição ou justiça, a ser salvo, a entrar no Reino de Deus.

Mas este jovem busca um caminho seguro para “possuir” a vida eterna, e não para “deixar-se possuir” e conduzir por Deus e seu Reino. Jesus responde a ele sublinhando que não há nada (coisa) perfeitamente bom, mas apenas Alguém que é bom, e faz uma referência indireta ao que o profeta Miquéias já havia dito (respeitar o direito, amar a fidelidade e caminhar humildemente com Deus) e aos mandamentos, enfatizando as relações justa e equitativas com os irmãos.

Sem dar ouvidos à afirmação de Jesus, o jovem demonstra que se considera bom e perfeito, escondendo que os muitos bens que possui poderiam ser resultado de exploração ou roubo. Mas, para Jesus, a prática dos mandamentos não é suficiente para ser bom. Por isso, leva o jovem dar-se conta que lhe falta a justiça e o amor aos pobres. Trata-se do amor que leva à partilha e à restituição daquilo que por direito pertence aos necessitados, condição essencial para seguir Jesus.

O jovem não está disposto a fazer isso, nem a caminhar com os demais discípulos. Ele é possuído pelos bens que pensa possuir, não é livre, não é bom, não ousa iniciar um caminho de despojamento e conversão. Na verdade, ele não é capaz de considerar o reino de Deus como seu único tesouro. A riqueza o sufoca, como os espinheiros sufocam parte da semente (cf. Mt 13,22). E isso ressoa como advertência quando caímos na tentação de considerar-nos justos e bons. “Conversão, justiça, comunhão e alegria, no cristão, é missão de cada dia!”

 

Sugestões para a meditação

Com que intenções você procura Jesus e a vida cristã? O desejo de perfeição, de renovação total e profunda é o que move você?

Como você se avalia em relação aos preceitos da Igreja? Você os considera suficiente para ser bom, e se acha bom praticante?

O que ainda impede você de entregar-se na aventura de criar novos céus e nova terra, com Jesus e todos aqueles que o seguem?

sábado, 15 de agosto de 2026

Maria elevada ao céu

Bem-aventurada aquela que acreditou!

1174 | Assunção de Nossa Senhora | Lucas 1,39-46

A Assunção de Nossa Senhora é uma festa que, para as comunidades católicas do Brasil, está ligada à semana dedicada às vocações à vida consagrada. Mas aquilo que cremos sobre Maria não tem a ver exclusivamente com os religiosos e religiosas: de alguma forma, se refere a todos os homens e mulheres, à Igreja, ao povo de Deus. A glorificação de Maria, que é a plena realização de sua vida e sua vocação, é uma interpelação e uma promessa extensivas a todos os homens e mulheres.

Lucas nos apresenta Maria como uma mulher que sabe ouvir a Palavra de Deus e está pronta a dar o melhor de si para que ela se realize na história. Maria ousou acreditar na força da Palavra e na fidelidade daquele que a pronuncia. Deus pôde realizar grandes coisas através de Maria porque encontrou nela uma base humana madura. Não fazemos bem quando a idealizamos, tirando-a da história.

Depois da experiência de ser amada e de ser chamada a gerar e dar à luz aquele que é a Luz do mundo, Maria vai apressadamente à casa de Isabel. Busca um sinal que confirme a parceria de Deus com os humildes, sua aliança com os pobres e a veracidade de suas promessas. A discípula se faz serva, a serva se faz peregrina e a peregrina experimenta a hospitalidade de Isabel.

Maria de Nazaré, esta mulher que foi elevada e assunta ao céu, não é apenas uma humilde trabalhadora do lar, uma pessoa discreta que acredita em Deus, uma doce e recatada esposa de um carpinteiro. Deus assume em corpo e alma e eleva à glória do céu uma mulher que rompe com os costumes que menosprezam a mulher e a mantêm calada, que diz uma palavra profética na arena pública, que proclama uma revolucionária intervenção de Deus num mundo patriarcal e opressor.

Por isso, Maria simboliza uma Igreja com traços femininos. Nela e com ela, a Igreja é chamada a construir-se como corpo social diversificado que acolhe, aquece, alimenta, ensina, respeita e favorece o crescimento e o amadurecimento dos filhos e filhas. Com Maria e suas companheiras mulheres é possível construir uma Igreja que viva intensamente a alegria do Evangelho, que deixe de ser alfândega e tribunal para ser lar e enfermaria que sai para acolher e cuidar, como quer o Papa Francisco.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe os passos apressados de Maria, percorrendo mais de 100 km para chegar à casa de Isabel e Zacarias.

Preste atenção na saudação cheia de exultação de Isabel, nas suas palavras proféticas e no cântico corajoso de Maria.

O que significa reconhecer nessa figura de Maria visitadora e profetiza o modelo e a imagem de uma Igreja que peregrina no mundo?

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Casar ou não casar?

Jesus propõe uma família baseada na igualdade

1173 | Tempo Comum | Semana XIX | Sábado | Mateus 19,13-15

Há alguns dias estamos lendo e meditando as orientações de Jesus para a encarnação da novidade do Reino de Deus nas relações comunitárias e sociais. Hoje, a atenção se volta para as relações no interior da família, especialmente para as relações conjugais. A reflexão de Jesus é oportunizada por mais uma pergunta provocadora vinda da boca dos fariseus, que se posicionam como adversários de Jesus.

O ensino de Jesus é uma contundente defesa da dignidade das mulheres, no contexto de uma cultura patriarcal, na qual o marido tem direito de vida e de morte sobre a mulher. A família nascida da cruz de Jesus e reconfigurada pelo Reino de Deus rejeita de forma inequívoca as relações patriarcais, que eram aceitas como normais e normativas no mundo cultural romano e judaico. Mas essa aceitação e defesa volta de modo inesperado nos albores do século XXI.

Para Jesus, o matrimônio deve ser entendido em outra perspectiva, sem o domínio da figura masculina. Os fariseus tinham dificuldades de entender e aceitar isso. Para eles, a mulher fazia parte das propriedades do homem e a ele deveria ser submissa. Mas, para Jesus, as relações matrimoniais devem ser pautadas pela igualdade, pela reciprocidade, pela solidariedade e pela unidade. Este é o querer de Deus sobre o casal humano. Esta é a família verdadeiramente cristã e tradicional!

Os fariseus e doutores da lei fazem uma leitura distorcida da Lei, e dizem que é ordem para todos aquilo que Moisés permitiu apenas como exceção. Mesmo fazendo essa concessão à dureza dos homens, Moisés pediu garantias à mulher divorciada, limitando o “direito ao despejo”. Jesus, por sua vez, propõe uma releitura da vida conjugal a partir da vontade original de Deus, sublinhando que homem e mulher se tornam uma unidade profunda, e nada deve desfazê-la.

Isso escandaliza os discípulos, contaminados também eles pela ideologia patriarcal. Jesus não se incomoda, e radicaliza ainda mais: além de tomarem como modelo as crianças, seus discípulos podem também se espelhar nos eunucos, outro grupo de pessoas desprezadas e marginalizadas pela excludente cultura patriarcal.

 

Sugestões para a meditação

Como você vive a vocação de ser uma só carne (comunhão, reciprocidade e solidariedade) na vida conjugal?

Em que medida vocês conseguem superar as relações ditadas pelo patriarcalismo e pelo individualismo?

Você tem conseguido superar uma compreensão machista e excludente da Palavra de Deus?

Como são tratadas as mulheres, as crianças e as pessoas homo afetivas na sua família e na sua Igreja?

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Uma conjugalidade transformada

Jesus propõe uma família baseada na igualdade

1172 | Tempo Comum | Semana XIX | Sexta | Mateus 19,3-12

Há alguns dias estamos lendo e meditando as orientações de Jesus para a encarnação da novidade do Reino de Deus nas relações comunitárias e sociais. Hoje, a atenção se volta para as relações no interior da família, especialmente para as relações conjugais. A reflexão de Jesus é oportunizada por mais uma pergunta provocadora vinda da boca dos fariseus, que se posicionam como adversários de Jesus.

O ensino de Jesus é uma contundente defesa da dignidade das mulheres, no contexto de uma cultura patriarcal, na qual o marido tem direito de vida e de morte sobre a mulher. A família nascida da cruz de Jesus e reconfigurada pelo Reino de Deus rejeita de forma inequívoca as relações patriarcais, que eram aceitas como normais e normativas no mundo cultural romano e judaico. Mas essa aceitação e defesa volta de modo inesperado nos albores do século XXI.

Para Jesus, o matrimônio deve ser entendido em outra perspectiva, sem o domínio da figura masculina. Os fariseus tinham dificuldades de entender e aceitar isso. Para eles, a mulher fazia parte das propriedades do homem e a ele deveria ser submissa. Mas, para Jesus, as relações matrimoniais devem ser pautadas pela igualdade, pela reciprocidade, pela solidariedade e pela unidade. Este é o querer de Deus sobre o casal humano. Esta é a família verdadeiramente cristã e tradicional!

Os fariseus e doutores da lei fazem uma leitura distorcida da Lei, e dizem que é ordem para todos aquilo que Moisés permitiu apenas como exceção. Mesmo fazendo essa concessão à dureza dos homens, Moisés pediu garantias à mulher divorciada, limitando o “direito ao despejo”. Jesus, por sua vez, propõe uma releitura da vida conjugal a partir da vontade original de Deus, sublinhando que homem e mulher se tornam uma unidade profunda, e nada deve desfazê-la.

Isso escandaliza os discípulos, contaminados também eles pela ideologia patriarcal. Jesus não se incomoda, e radicaliza ainda mais: além de tomarem como modelo as crianças, seus discípulos podem também se espelhar nos eunucos, outro grupo de pessoas desprezadas e marginalizadas pela excludente cultura patriarcal.

 

Sugestões para a meditação

Como você vive a vocação de ser uma só carne (comunhão, reciprocidade e solidariedade) na vida conjugal?

Em que medida vocês conseguem superar as relações ditadas pelo patriarcalismo e pelo individualismo?

Você tem conseguido superar uma compreensão machista e excludente da Palavra de Deus?

Como são tratadas as mulheres, as crianças e as pessoas homo afetivas na sua família e na sua Igreja?

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Perdoar sempre!

O perdão é sempre incondicional e ilimitado

1171 | Tempo Comum | Semana XIX | Quinta | Mateus 18,21-19,1

Nos capítulos 16 a 18 do seu evangelho, Mateus nos apresenta as orientações fundamentais de Jesus para que a comunidade de discípulos e discípulas assuma um estilo de vida alternativo, inovador, profético e crítico em relação aos estilos então predominantes. Nos textos de ontem e de hoje Jesus aborda a questão do enfrentamento das tensões e ofensas nas relações comunitárias.

Para ser fiel a Jesus, a comunidade cristã deve praticar o perdão como uma ação contínua e reiterada. O pedido de desculpas e o perdão não têm limites de tempo, nem restrições de pessoas ou de grupos. Sem isso, a vida em comunidade é inviável, e a liderança e a autoridade podem decair em opressão. O perdão concedido aos irmãos e irmãs é expressão viva do perdão recebido do Pai e decorrente dele.

Jesus ilustra isso com uma parábola, focalizada no sujeito do perdão. Jesus não costuma apresentar os reis como imagem de Deus, e sim os pais de família. Mas a parábola de hoje sublinha que, como o rei dessa história, Deus exige que seus filhos e filhas perdoem, porque foram antes perdoados. O perdão do rei tem pouco a ver com o perdão recebido e praticado pelos cristãos. Diferentemente do perdão do rei, o perdão de Deus não é condicionado e revogável, mas definitivo e incondicional.

Os 10 mil talentos devidos ao rei por um dos seus servos correspondem a um ano dos tributos cobrados de Israel pelo imperador romano (uma fortuna que mal podemos imaginar!), enquanto que a dívida do empregado inferior corresponde a apenas 100 dias de trabalho. A diferença é descomunal. Isso ressalta a imensa diferença entre as dívidas, entre o perdão que recebemos de Deus por Jesus e o perdão que devemos dar aos irmãos e irmãs que incorreram em débitos conosco.

Note-se que o rei não aceita dar mais prazo ao devedor, como ele mesmo pedira, mas perdoa a dívida de forma incondicional e plena. Nisso, ele simboliza a compaixão ilimitada de Deus. Mas o outro empregado não dá prazo, nem perdoa, e se mostra mais cruel que o próprio rei. Para Jesus, gentileza gera gentileza, perdão gera capacidade de perdoar. Para o cristão, o perdão é norma e obrigação, não uma opção!

 

Sugestões para a meditação

Todos já vivemos a experiência de ofender uma pessoa próxima e querida, ou de ser ofendido por outros

Mesmo que o perdão que recebemos dessas pessoas possa não ter sido pleno e total, Deus não nos tratou assim

Recorde suas experiências de ser perdoado pelas pessoas próximas, e, principalmente, por Deus

Você já se percebeu tentado a colocar condições e limites ao perdão que os outros lhe pedem?


terça-feira, 11 de agosto de 2026

Corrigir sem ferir

Façamos o possível para manter os vínculos

1170 | Tempo Comum | Semana XIX | Quarta | Mateus 18,15-20

Mateus dedica os capítulos 16 a 18 do seu evangelho para nos apresentar o empenho de Jesus na formação dos seus discípulos no modo de vida inspirado no Reino de Deus. Temos aqui as orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida liminar: alternativo, inovador, profético e crítico aos estilos de vida então habituais e predominantes.

Embora seja chamada a ser alternativa, a comunidade dos discípulos de Jesus não é perfeita. Enquanto caminha no mundo, as tensões e conflitos são inevitáveis no. Às vezes, as lideranças são intolerantes com os erros dos seus irmãos e irmãs. Para evitar que fiquemos à mercê do humor das autoridades, Jesus traça um caminho pedagógico, em três passos. Quer ajudar-nos a tomar consciência dos erros e mudar.

O ponto de partida é a convicção de que a ofensa recíproca é algo sério, que precisa ser resolvido, e não ser “jogado embaixo do tapete”. Tudo começa com um diálogo pessoal e fraterno, para que o pecador reconheça seu deslize. Se isso não resolve, volta-se a conversar com ele na presença de testemunhas. Se também isso resultar em fracasso, a questão é levada à comunidade. Mas nem assim o êxito está garantido! As relações humanas não se resolvem com soluções técnicas!

Se as três tentativas fracassarem, a ruptura pode ser declarada publicamente. Mas a missão reconciliadora dos cristãos fiéis não termina com esta declaração. Colocando os ofensores resistentes no grupo dos publicanos e pecadores, Jesus está dizendo que eles são campo permanente de missão, como ele mesmo o demonstrou sobejamente, tanto por seu ensino como mediante suas ações. Longe de Jesus tolerar ou ratificar práticas de exclusão definitiva! Jesus mesmo vai ao encontro dos publicanos e pecadores e os resgata para uma vida fraterna.

Jesus pede paciência e lucidez na relação com as pessoas que erram, ou seja, com todos os membros da comunidade. A comunidade cristã (e não apenas Pedro!) tem a faculdade de atar e desatar: de discernir quem está dentro e quem se coloca fora dela. Mas é sempre o próprio Jesus que manifesta sua inesgotável misericórdia por sua presença e ação na comunidade dos discípulos e discípulas.

 

Sugestões para a meditação

Como você, sua família e sua comunidade enfrentam os conflitos e tensões de relacionamento e convivência?

Por que é sempre mais fácil queixar-se das pessoas que nos ofendem ou prejudicam a terceiros, evitando falar com elas?

Reflita sobre o que significa, na perspectiva de Jesus, tratar os ofensores como gentios ou cobradores de impostos?

Você tem conseguido se exercitar na confiança no cuidado do Pai e na hospitalidade na sua prática comunitária e pastoral?

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Como crianças

Para Jesus Cristo, os últimos são os primeiros

1169 | Tempo Comum | Semana XIX | Terça | Mateus 18,1-14

Nos capítulos 18 a 20 do seu evangelho, Mateus nos oferece diversas catequeses de Jesus dedicadas aos seus discípulos, a caminho para Jerusalém. Trata-se de orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida alternativo e profético, testemunhando assim a força transformadora do Evangelho na vida pessoal e nas relações comunitárias, sociais, econômicas e políticas.

A tentação do elitismo e do autoritarismo rondam a comunidade de Jesus desde sempre, e o tempo que vivemos não nos deixa dúvidas. A pergunta sobre quem é o maior o demonstra, e a resposta de Jesus quer cortá-la pela raiz. Para ilustrar a virada radical que a chegada do Reino provoca nas pessoas, na escala de valores e no coração do mundo, Jesus toma a figura da criança como símbolo vivo e eloquente.

Aqui, a criança não significa a pureza e a inocência, “virtudes” que a modernidade burguesa gosta de enfatizar para esconder suas hipocrisias, mas a sua condição social de fragilidade, insignificância e marginalidade. Para Jesus, as crianças são o retrato perfeito da comunidade cristã, que nasceu para viver nas margens e ensaiar uma vida alternativa ao judaísmo e ao império romano, assumindo a fraternidade, a igualdade e a minoridade.

Esse estilo de vida vai contra a corrente, precisa ser aprendido e exercitado tenazmente, pois é exigente. Como as crianças, os discípulos de Jesus são preciosos aos olhos de Deus, são importantes por serem pequenos, são tirados dos últimos lugares e colocados nos primeiros. E as autoridades cristãs têm o dever de protegê-los. Eles podem se perder, ou seja, tornarem-se mais frágeis e vulneráveis ainda.

O Pai do céu não quer que nenhum deles se perca, e a comunidade deve assumir esse cuidado em nome de Deus. Por sua vez, os discípulos devem confiar totalmente na acolhida que o Pai suscita nas pessoas e nos povos aos quais são enviados. Não somos grandes ou importantes pela origem, pela riqueza, pela educação, pela profissão, pela função social ou pelo poder que exercemos, mas pelo batismo e porque somos filhas e filhos amados do Pai e portadores do tesouro do Reino.

 

Sugestões para a meditação

Exercite sua imaginação e procure participar da cena com todos os seus sentidos, para acolher o sentido integral do texto

Você percebe as ambições e expectativas de reconhecimento e precedência que às vezes se insinuam nos seus trabalhos?

Como você se sente em relação à condição liminar (margem, insignificância, despojamento) dos discípulos de Jesus?

Você tem conseguido se exercitar na confiança no cuidado do Pai e na hospitalidade na sua prática comunitária e pastoral?