sábado, 16 de maio de 2026

Fazer discípulos

Não fiquemos imóveis, olhando para o céu!

1083 | Tempo Pascal | Ascensão do Senhor | Mateus 28,16-20

Ascensão lembra geralmente subida, elevação, distanciamento e superioridade. Mas expressa também a experiência de ser destacado, promovido, reconhecido. Este o sentido original e mais profundo da boa notícia pregada pelos cristãos a respeito de Jesus: a ascensão é uma outra forma de proclamar sua ressurreição, de afirmar que a pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra principal, de renovar a adesão a ele e o engajamento na missão que ele cumpriu e as seus discípulos.

A ascensão enfatiza que a vida cristã é muito mais que espera da plenitude celeste. Os discípulos de Jesus não podem se acomodar na simples contemplação de alguém que subiu ao céu, mesmo que este alguém seja o próprio Jesus Cristo. “Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Professando a ascensão de Jesus, afirmamos que aquele homem contestado e condenado é assumido e reconhecido pelo próprio Deus como a expressão plena e cabal de si mesmo.

Jesus é o primogênito de muitos irmãos e irmãs, a cabeça de um corpo composto de muitos e variados membros. À glorificação do primogênito segue-se a honra dos seus irmãos. À elevação da cabeça segue o reconhecimento da dignidade daqueles que realizam sua vontade e perfazem o seu corpo. É famosa inversão enfatizada por Jesus na sua pregação: na lógica do Reino de Deus, os últimos passam a ser os primeiros. E isso não vale apenas para um futuro incerto: é fato e convicção já agora.

A ascensão de Jesus Cristo não é unicamente o fim de sua presença física no meio de nós: é também o início de nossa missão em seu nome. A liturgia da ascensão está focada nesta responsabilidade da comunidade cristã: convictos de que o Crucificado foi exaltado, os cristãos vencem o medo e se tornam suas testemunhas no coração do mundo. E, nesta missão, nada os intimida, nem a própria fraqueza.

Na qualidade de testemunhas, anunciamos Jesus Cristo, defendemos aqueles por quem ele deu a vida, atestamos a veracidade do seu caminho e a beleza do seu projeto de vida. E descobrimos que é o próprio Sopro de Deus que nos congrega na diferença e nos faz testemunhas “em Jerusalém, na Judéia, na Samaria e até os confins do mundo... Estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos...”

 

Sugestões para a meditação

Recomponha o episódio, relendo a cena, percebendo a mistura de alegria e diante das Palavras de Jesus

O que significa reconhecer que a autoridade e o poder de Deus estão em Jesus, e não na Igreja ou seus agentes?

Por que insistimos em reduzir essa missão a celebrar os sacramentos se Jesus nos envia a ensinar e fazer discípulos?


Jornada Mundial das Comunicações Sociais (4)

Uma possível aliança

Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controle oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas. Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante às funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.

Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.

Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.

Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.

Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer.

Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo acadêmico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.

A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação.

É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem, o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullyng, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento.

Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística) para compreender como os algoritmos moldam a nossa percepção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos econômicos da economia da IA.

É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica. Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.

Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.

LEÃO XIV PP.

A missão

FAZER DISCÍPULOS DE JESUS

Mateus descreve a despedida de Jesus traçando as linhas de força que devem orientar para sempre os seus discípulos, os traços que devem marcar a sua Igreja para cumprir fielmente a sua missão.

O ponto de partida é a Galileia. É lá que Jesus os convoca. A ressurreição não os deve levar a esquecer o que viveram com Ele na Galileia. Lá ouviram-no falar de Deus com parábolas comoventes. Lá viram-no aliviando o sofrimento, oferecendo o perdão de Deus e acolhendo os mais esquecidos. É precisamente isso que devem continuar a transmitir.

Entre os discípulos que rodeiam Jesus ressuscitado há crentes e há quem vacile. O narrador é realista. Os discípulos prostram-se. Sem dúvida querem acreditar, mas em alguns desperta a dúvida e a indecisão. Talvez estejam assustados, não conseguem captar tudo o que aquilo significa. Mateus conhece bem a fé frágil das comunidades cristãs. Se não contassem com Jesus, apagar-se-iam rapidamente.

Jesus aproxima-se e entra em contato com eles. Ele tem a força e o poder que lhes falta. O Ressuscitado recebeu do Pai a autoridade do Filho de Deus com pleno poder no céu e na terra. Se se apoiarem nele, não vacilarão.

Jesus indica-lhes com toda a precisão qual deve ser a sua missão. Não é propriamente ensinar doutrina, não é apenas anunciar o Ressuscitado. Sem dúvida, os discípulos de Jesus devem cuidar de vários aspetos: dar testemunho do Ressuscitado, proclamar o evangelho, implantar comunidades… Mas tudo estará finalmente orientado para um objetivo: fazer discípulos de Jesus.

Esta é a nossa missão: fazer seguidores de Jesus que conheçam a sua mensagem, sintonizem com o seu projeto, aprendam a viver como Ele e reproduzam hoje a sua presença no mundo. Atividades tão fundamentais como o batismo, compromisso de adesão a Jesus, e o ensino de tudo o que Ele mandou são vias para aprender a ser seus discípulos. Jesus promete-lhes a sua presença e ajuda constante. Não estarão sós nem desamparados. Nem que sejam poucos. Nem que sejam apenas dois ou três.

Assim é a comunidade cristã. A força do Ressuscitado sustenta-a com o seu Espírito. Tudo está orientado para aprender e ensinar a viver como Jesus e a partir de Jesus. Ele continua vivo nas suas comunidades. Continua conosco e entre nós curando, perdoando, acolhendo, salvando.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Pedir o que é essencial

“Pedi, para que a vossa alegria seja completa”

1082 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Sábado | João 16,23-28

Estamos nos aproximando do final do período pascal e, também, do capítulo 16 do evangelho segundo João. No texto de hoje, Jesus não fala mais propriamente da sua paixão e morte, nem das dificuldades que seus discípulos enfrentarão na missão. O tema do diálogo é a relação entre o Pai e os discípulos. Jesus afirma que a oração feita pelos discípulos e discípulas ao Pai, em seu nome, não cairá no vazio e, no seu devido tempo, será atendida. Por isso, exorta à confiança na intervenção de Deus, que é, desde sempre, um pai atencioso.

Jesus começa falando num tom solene (“em verdade, em verdade, eu vos digo”), e afirma que seus discípulos têm pleno acesso ao Pai, sem necessidade de nenhum intermediário (templo, sacerdotes, levitas). O que ele quer é que seus amados vivam uma felicidade completa e profunda. Quando um discípulo de Jesus faz ao Pai um pedido no espírito/nome de Jesus, a resposta será seguramente boa. O Pai concede tudo o que eles necessitam para viver.

Jesus vive com o pai uma profunda “comunhão de interesses”, uma “comunhão de vontades”, de modo que não existe um Deus severo, que amedronta os filhos, que precisam de um mediador para levar suas necessidades a ele. Há um Deus que ama profundamente seus filhos e filhas, e demonstra esse amor em seu Filho. O Pai quer bem aos discípulos de Jesus, e os trata como amigos. Sua onipotência e sua imutabilidade é onipotência e permanência no amor. Essa é a base da nossa confiança e da nossa alegria.

A expressão “naquele dia” se refere ao Espírito, que faz com que os discípulos peçam ao Pai apenas aquilo que é indispensável para que vivam plenamente. É isso que significa pedir em nome dele. Quando pedimos ao Pai no espírito de Jesus, pedimos a vinda do Reino de Deus, e não precisamos de intermediários.

Finalmente, Jesus resume seu itinerário: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”. Sair do Pai é ser enviado para realizar o seu projeto de vida. Ir ao pai significa deixar-se conduzir pelo seu Espírito, força vital de Deus que leva à origem. E o itinerário de Jesus passa pela morte em meio a outros crucificados, que é saída e, ao mesmo tempo, volta.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o anúncio da oposição que sofreriam para continuar a missão de Jesus

Repita cada frase desta fala de Jesus: “Se vocês pedirem alguma coisa em meu nome, o Pai concederá; Peçam e receberão; O próprio Pai ama vocês...

O que você costuma pedir ao Pai em suas orações? Sua oração está focada no reino de Deus, ou em você mesmo e seus pequenos interesses e desejos

Jornada Mundial das Comunicações Sociais (3)

Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade

À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada.

A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito à nossa imagem e semelhança. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.

Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma percepção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção. A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Da tristeza à alegria

Nossas tristezas se transformarão em alegria!

1081 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Sexta-feira | João 16,20-23

Estamos chegando ao fim do diálogo catequético de Jesus com seus discípulos, na sequência da ceia de despedida e pouco antes de ser preso. O texto de hoje começa retomando o último versículo de ontem, e desenvolve o mesmo tema da mudança da tristeza em alegria, agora recorrendo à bela metáfora do parto. O tema desenvolve o contraste entre a situação momentânea da comunidade dos discípulos e o mundo e, ao mesmo tempo, apresenta a mudança radical da situação no horizonte da fé.

A imagem da mulher em trabalho de parto nos remete a Eva, a mãe dos viventes. Também se relaciona com a história do povo de Deus, cuja relação com Deus era frequentemente comparada à relação conjugal, e à humanidade, da qual Jesus se apresenta como esposo, nas bodas de Caná. A referência à angústia, à tristeza e aos apuros nos remete a uma situação de perseguição social, mas, com a imagem da mulher em trabalho de parto, acena também para o mistério do nascimento da nova humanidade, de homens e mulheres novos.

A metáfora do grão de trigo, que cai na terra, morre, germina e se multiplica, pode completar a analogia do parto. Tanto a imagem do parto como a imagem da semente lançada na terra nos fazem imaginar a saída de uma situação de opressão ou grande limitação e o nascimento de um povo novo, livre, criativo e solidário. Entregando-se, Jesus não deixa de ser humano, mas, ao contrário, torna-se plenamente humano. É através da entrega generosa e incondicional de si mesmo que o ser humano chega à sua plena realização, ou seja, nasce realmente.

Como a semente de trigo e a alegria da mãe ao tomar nos braços o filho recém-nascido, a comunidade cristã experimentará uma alegria profunda e plena ao receber do Espírito, que a defende nas perseguições e a conserva na fidelidade. À luz dessa experiência, a comunidade compreenderá tudo o que aconteceu com Jesus e com ela mesma, e superará as dúvidas. Então, a alegria será permanente, pois a vitória final está assegurada. Mas esta vitória sobre as forças do mundo será aquela que Jesus consolidou: a vitória da cruz. Ele voltará a ver seus discípulos e a conviver com eles.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados a traição que se desenhava, com a partida próxima de Jesus e com o anúncio da oposição que sofreriam

Tente interagir com os discípulos, observando a confusão e o medo que eles vivem e não conseguem enfrentar

Tome consciência das resistências, oposições e perseguições que os cristãos coerentes e os humanistas e democratas enfrentam hoje


Jornada Mundial das Comunicações Sociais (2)

Não renunciar ao próprio pensamento

Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.

Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controle da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anônimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.

No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

São Matias, "patrono do banco de reservas"

Jesus dá frutos na missão dos discípulos

1080 | Festa do Apóstolo São Matias | João 15,9-17

O texto de hoje tem a função de iluminar a festa de São Matias, o 13° apóstolo, escolhido para substituir Judas Iscariotes. Estes versículos são a segunda parte da meditação de Jesus, inspirada na alegoria da videira e dos ramos. O tema da fecundidade missionária da adesão a Jesus é o fio condutor desse diálogo pascal, mas Jesus nos convida a deslocar o olhar da videira às relações de amor e amizade. O que ele destacava com a imagem da união do ramo à cepa agora é enfatizado como vínculo e relação de amor e amizade com ele e com os condiscípulos.

Para o cristão, o amor de Jesus está garantido, não depende disso ou daquilo. Não há lugar para o medo, e nada precisa ser feito para merecê-lo. O que Jesus pede é que sejamos capazes e estejamos dispostos a amar o próximo da mesma maneira. Se é verdade que ninguém é constituído senhor, para estar acima dos outros, também ninguém está em condição inferior, e deve se comportar como escravo. Jesus jamais tratou seus discípulos como servos, sempre os teve como amigos.

A união com Jesus e a assimilação da sua mensagem se revelam na entrega à missão e nos frutos de solidariedade, que devem durar no tempo. Do vínculo de amizade com Jesus brota a liberdade de doar-se sem medida, de amar incondicionalmente os irmãos. Esta é a glória do Pai e a alegria indestrutível do discípulo. O amor constitui a comunidade cristã e fundamenta a missão. Mas somente a entrega amorosa aos outros pode nos dar a certeza de que somos interlocutores do amor de Deus.

A alegria cristã não é apenas o resultado final do sucesso, da vitória sobre as adversidades, mas o dinamismo que nos livra da necessidade de vencer e obter sucesso, que nos capacita a esquecer-nos de nós mesmos para ser tudo para todos. A alegria cristã não vem no fim da missão, é o dinamismo que a deflagra e alimenta. Mesmo que, num momento, estejamos no “banco de reservas” e esperando ser escalados no time, como São Matias!

 

Sugestões para a meditação

Tome consciência das incompreensões e resistências que os cristãos enfrentam nesse grave momento da conjuntura política nacional

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o anúncio da oposição que sofreriam para continuar a missão de Jesus

Repita calmamente, respirando fundo: “Eu não quero que você seja meu servo, mas meu amigo! Eu escolhi você!”

Peça a Jesus a alegria permanecer nele, de dar muitos frutos, de amar como ele ama você

Jornada Mundial das Comunicações Sociais (1)

Preservar vozes e rostos humanos

MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O LX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto”, que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino “persona” inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Conhecimento completo

O Espírito nos guia ao conhecimento pleno

1079 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Quarta-feira | João 16,12-15

O evangelho que nos ilumina faz parte do diálogo exortativo com o qual Jesus prepara os discípulos para a sua Hora, sua paixão e morte. Pouco a pouco, Jesus vai sublinhando a boa e desejável novidade: o envio do seu Espírito como dinamismo de comunhão com ele, com o Pai e com os irmãos e irmãs e, ao mesmo tempo, base e força das comunidades de discípulos em permanente saída missionária.

Nos versículos de hoje, Jesus atribui ao Espírito da Verdade o papel de guiar os discípulos na compreensão das consequências da aceitação da sua mensagem, num processo de interpretação que evolui de acordo com os acontecimentos. O Espírito é Mestre experimentado que explica e aplica o Evangelho na vida concreta das comunidades imersas num mundo extremamente hostil à novidade cristã.

A voz do Espírito é a voz de Jesus, ele fala aquilo que “ouve” de Jesus, assim como Jesus compartilha Palavra e Ação com o Pai. Eles têm em comum o amor fiel, incondicional e generoso pelo ser humano. Por isso, assim como guiou e sustentou Jesus na sua missão histórica, o Espírito guia a comunidade cristã na sua atividade em favor da libertação dos cativos dos seus próprios temores e do domínio das instituições que oprimem e discriminam.

É quando Jesus, por amor, desce aos lugares mais inferiores que se possa imaginar que ele honra o amor do Pai e consuma a vocação de todo ser humano. E isso só é possível para os discípulos mediante a abertura à ação regeneradora e transformadora do Espírito Santo, que estabelece a relação de comunhão de tudo com tudo: do Pai com o Filho; do Pai e do Filho conosco; a nossa relação com os outros e com todas as criaturas.

É esse o sentido da afirmação aparentemente estranha de Jesus, quando diz que “todas as coisas do Pai são minhas” e que “ele vai receber do que é meu”. Não obstante serem três e conservarem sua “personalidade”, Pai, Filho e Espírito são “uma só coisa” na qualidade e na intensidade do amor. Eles compartilham do mesmo espírito: o amor incondicional.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o gesto do lava-pés, com o anúncio da sua morte e com a previsão da oposição que eles mesmos sofreriam

Você percebe, também hoje, sinais de oposição e resistência à missão dos seguidores de Jesus?

Quem implicações tem na vida a nossa fé num Deus que sustenta a originalidade de cada ser e dinamiza a unidade pela comunhão?