Viver sem
vergonha de ser feliz!
Este compromisso nos leva à canção
“O que é, o que é”, que Gonzaguinha gravou em 1982, que é uma louvação à beleza
da vida, apesar da sua complexidade. A felicidade depende, em boa parte, do
modo como olhamos a vida, da sabedoria que nos faz encarar o mistério da vida
como eternos aprendizes, deixando-nos surpreender com a beleza do instante.
Essa perspectiva é confirmada pela
composição “Manhã bonita”, de Fábio C. Leal e Maria Ângela Leal,
gravada por Rolando Boldrin em 2002, que fez sucesso na novela Cabocla (2004):
“Assim é a terra, nos dizendo todo
dia: ‘tudo é tão simples, num eterno despertar; o raiar do sol é sempre o
mesmo; e o segredo está no jeito da gente olhar”.
Na prática, isso não é tão simples,
ao menos no horizonte cultural de hoje. O ensaísta anglo-polaco Zygmunt Baumann
afirma que, para a maioria das pessoas, a felicidade é um bem individual que
supõe exclusividade, sensação de estar um grau acima dos outros: lugares
exclusivos, bens exclusivos, relações exclusivas, inalcançáveis para a maioria.
Se a felicidade consiste nisso, a
privação desses bens exclusivos é vivida como a mais dolorida infelicidade.
Como a maioria desses bens ‘portadores da felicidade’ são limitados, a
felicidade é impossível para a maioria da humanidade. É isso que faz o
privilégio, a condição de estar um degrau acima, de ser especial, ser visto
como felicidade.
O cristianismo não é alheio à
busca da felicidade, mas indica outro ‘conteúdo”. Conforme o judaísmo, nada
proporciona mais felicidade que meditar a Lei de Deus: “Feliz o homem que
encontra seu prazer na Lei de Javé, e a medita dia e noite... Como eu amo a tua
lei! É mais doce que o mel!” (Salmos 1 e 119). Mas isso também é para poucos
felizardos...
Jesus Cristo tem uma proposta
inovadora e ‘mais democrática’: a felicidade, como a salvação, não é para
poucos, mas é desejo e oferta de Deus para todos. Os conceitos ‘salvação’ e
‘felicidade’ estão relacionados com a realização plena da pessoa humana, com o
‘bem viver’ na relação com Deus, com os outros e com todas as demais criaturas.
Para ele, são felizes as pessoas
que não sentem proprietárias de nada e de ninguém; que compartilham com as
dores e as alegrias dos semelhantes; que não recorrem a relações violentas; que
não se resignam às injustiças; que se fazem próximos dos vulneráveis; que têm
um jeito puro de olhar; que promovem a paz; que permanecem firmes, mesmo nas
perseguições (cf. Mateus 5,1-12). Então, vivamos sem vergonha de sermos felizes
assim!
Dom Itacir
Brassiani msf