sexta-feira, 24 de abril de 2026

Uma porta aberta

ENCONTRAR A PORTA CERTA

O evangelho de João apresenta Jesus com imagens originais e belas. Quer que os seus leitores descubram que só Jesus pode responder plenamente às necessidades mais fundamentais do ser humano. Jesus é «o pão da vida»: quem se alimenta dele não terá fome. É «a luz do mundo»: quem o segue não caminhará na escuridão. É «o bom pastor»: quem escuta a sua voz encontrará a vida em abundância.

Entre essas imagens há uma, humilde e quase esquecida, que, no entanto, encerra um conteúdo profundo. «Eu sou a porta». Assim é Jesus. Uma porta aberta. Quem o segue atravessa um limiar que conduz a um mundo novo: uma nova maneira de entender e viver a vida.

O evangelista explica com três traços: «Quem entrar por mim será salvo». A vida tem muitas saídas. Nem todas levam ao sucesso nem garantem uma vida plena. Quem, de alguma forma, sintoniza com Jesus e tenta segui-lo, está a entrar pela porta certa. Não desperdiçará a sua vida.

O evangelista diz algo mais. Quem entra por Jesus «poderá sair e entrar». Tem liberdade de movimentos. Entra num espaço onde pode ser livre, pois só se deixa guiar pelo Espírito de Jesus. Não é o país da anarquia ou da libertinagem. «Entra e sai» passando sempre por essa «porta» que é Jesus, e move-se seguindo os seus passos.

O evangelista acrescenta ainda outro detalhe: quem entrar por essa porta que é Jesus «encontrará pastagens», não passará fome nem sede. Encontrará alimento sólido e abundante para viver.

Cristo é a «porta» pela qual devem entrar também hoje os cristãos, se queremos reavivar a nossa identidade. Um cristianismo formado por batizados que se relacionam com um Jesus mal conhecido, vagamente recordado, afirmado de vez em quando de forma abstrata, um Jesus mudo que não diz nada de especial ao mundo de hoje, um Jesus que não toca os corações, é um cristianismo sem futuro.

Só Cristo nos pode conduzir a um novo nível de vida cristã, melhor fundamentada, motivada e alimentada no evangelho. Cada um de nós pode contribuir para que, na Igreja dos próximos anos, se sinta e se viva Jesus de forma mais viva e apaixonada. Podemos fazer com que a Igreja seja mais de Jesus.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Festa de São Marcos

Anunciemos o Evangelho a todas as criaturas

1061 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Sábado | Marcos 16,15-20

Mesmo estando inserido no contexto da ressurreição de Jesus, o texto hoje está referido a Marcos, cristão de Jerusalém, companheiro de missão de Pedro e de Paulo e redator do segundo evangelho canônico. Propondo-nos este texto, a Igreja sugere que coloquemos Marcos, evangelista e missionário, no rol das grandes testemunhas da páscoa de Jesus, ampliando o mandato que é visto como restrito aos apóstolos.

Este trecho da Palavra de Deus está inserido no contexto das aparições de Jesus crucificado e ressuscitado aos discípulos. Trata-se da terceira manifestação, desta vez aos onze discípulos, numa refeição. Jesus começa desaprovando a falta de fé e a dureza de coração daquele grupo escolhido, ao qual Jesus dedicara uma intensa atividade formativa Eles não haviam acreditado nas testemunhas que lhes anunciavam que tinham visto Jesus ressuscitado.

Mesmo assim, Jesus manifesta total confiança nos discípulos, e põe na mão e nos lábios deles a missão de anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus e de continuar sua ação própria libertadora. A universalidade dessa missão é mais que ressaltada nestes poucos versículos: eles são enviados ao mundo todo para anunciar o Evangelho de Deus a todas as criaturas. Nada nem ninguém pode ficar sem a luz do Evangelho!

Os sinais que atestarão a veracidade da missão dos discípulos missionários são os mesmos que acompanharam a missão de Jesus: eles viverão a compaixão, que impede a indiferença diante das pessoas oprimidas; libertarão as pessoas dos males que as amarram e despersonalizam; curarão as pessoas das suas enfermidades; não se acanharão e não deixarão de anunciar e construir o reino de Deus diante de qualquer ameaça ou perigo.

Tendo Jesus sido elevado ao céu e sentado à direita de Deus – em outras palavras, tendo sido reconhecido plenamente na sua divindade – Marcos diz que os discípulos partiram e pregaram o Evangelho de Jesus por toda parte, e o anúncio deles era confirmado pelos sinais que o acompanhavam. Finalmente, eles conseguem entender o significado da vida, da morte e da ressurreição de Jesus: é muitíssimo mais que esperar a ressurreição depois da morte. E eis que os discípulos medrosos se tornam missionários generosos!

 

Sugestões para a meditação

Você sente-se pessoalmente enviado por Jesus? Enviado a quem e para anunciar qual mensagem?

Há algo que limita ou enfraquece o vigor da sua missão?

Quais são os sinais que acompanham o seu anúncio e as suas palavras sobre Jesus e o Evangelho?

O que a dedicação de Marcos ao Evangelho nos ensina hoje?

quinta-feira, 23 de abril de 2026

A lei e a compaixão

Quem ama cumpre integralmente toda a Lei

1060 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Sexta-feira | João 6,52-59

Neste penúltimo trecho da catequese que Jesus após a multiplicação dos pães e dos peixes, a reflexão se concentra sobre a condição humana e vulnerável de Jesus (sua “carne” e seu “sangue”). No centro da polêmica está a questão do caminho que assegura a vida plena: a Lei ou a pessoa humana concreta e frágil de Jesus?

O judaísmo chamava “Lei” ao conjunto de valores e práticas (proibições e mandamentos) que garantiam que uma pessoa fosse boa; em outras palavras, que garantiam a salvação. É o que hoje chamamos de ideologia: conjunto de fins e meios, valores e práticas que nos tornam “pessoas de bem”, diferentes e melhores que os outros. Hoje, são leis como “cada um para si”; “quem pode mais chora menos”; “direitos humanos são para os humanos direitos...

Os líderes do judaísmo oficial consideraram inaceitável que Jesus Cristo, na concretude da sua compaixão e da sua humana fragilidade pudesse ser o caminho para o bem-viver, para uma pessoa ser agradável a Deus. Para eles, não existia outro caminho senão o poder, a separação, a supremacia de uns sobre outros, a distância em relação àqueles “que não rezam pela nossa cartilha”.

Jesus, por sua parte, insiste que não há caminho para a vida abundante que não passe pela assimilação daquela compaixão que o faz irmão e servidor da humanidade, especialmente das pessoas excluídas, a ponto de dar a própria vida. Isso fica claro na expressão “carne e sangue”, que Jesus repete quatro vezes nestes breves versículos. É na sua paixão e morte que ele dá seu corpo e sangue e se torna pão para o mundo. Salva-se quem assimila sua humanidade.

Assim, Jesus de Nazaré, o Enviado do Pai para dar vida ao mundo entregando livremente sua vida, o Filho do Homem que demonstra em sinais a compaixão de Deus assume e supera o Antigo Testamento, mostra que a Lei caducou. O amor de Jesus, assimilado por seus discípulos, é o que dá vida ao mundo. Quem come deste “pão”, viverá eternamente, e saciará a fome e a sede da humanidade.

 

Sugestões para a meditação

O que significa a insistência de Jesus, que fala quatro vezes em “comer” sua carne e “beber” seu sangue?

Será que não nos enganamos ainda hoje, pensando que o que nos salva é o “poder” de Jesus, e não sua compaixão e humanidade?

Em que apostamos “todas as nossas fichas”, porque cremos que somente isso nos dá vida e salvação?

O que significa viver “por causa de Jesus”, assim como ele viveu “por causa do Pai” que vive e o enviou?

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A "carne" de Deus

Mergulhando na humanidade chegamos a Deus

1059 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Quinta-feira | João 6,44-51

Nesta quarta parte da catequese sobre o verdadeiro pão, Jesus enfrenta o escândalo que suas ações e declarações causam nos judeus. Ele volta a comparar-se com o maná com o qual Deus alimentou o povo hebreu na sua caminhada pelo deserto, mas aproveita a oportunidade e aborda também a questão do dinamismo da fé, da sua origem divina e da qualidade das ações que realiza.

Os “judeus” aos quais se refere o texto de João não são os cidadãos de Israel, mas aqueles que não reconhecem os sinais de Deus e não aderem a ele, onde quer que estejam. No deserto, os “judeus” reclamam do maná, qualificando-o de “alimento nojento”, e não o reconhecem como sinal do amor de Deus. Agora, reclamam de Jesus, “filho de José”, que, aos olhos deles, não goza de nobreza que julgam necessária para se apresentar como filho de Deus.

A busca de Deus e a adesão à sua vontade tem um dinamismo: parte de Deus, que atrai a ele; supõe nossa disponibilidade e a docilidade. Deus nada faz sem nossa livre adesão, mas realizamos pouco ou nada de bom se ele não nos atrair. É o que Jesus experimentou como Filho, e nos revelou. Quem se deixa atrair por Deus precisa reconhecê-lo em sua condição humana, tal como se manifesta na compaixão humana do “filho de José”.

O que Deus mais deseja e faz é encontrar formas de vir ao encontro do ser humano para fazê-lo mais humano. Essa vontade e esse dinamismo se tornam definitivos e insuperáveis em Jesus Cristo, em sua paixão e morte. Mas os incrédulos de todos os tempos querem dissocia-lo da humanidade de Jesus e afastá-lo da condição humana. Essa falta de fé atesta que não conhecemos a Deus.

A aceitação da condição humana fragilizada, radicalmente assumida por Jesus, é o único caminho que pode nos conduzir à vida. Ele, o filho de José, aquele que acolhe pecadores e proscritos, aquele cuja compaixão é sempre viva e ativa, é pão que desce, sacia nossa fome de plenitude e plenifica a vida. Sem o reconhecimento e a aceitação dessa “carne” de Jesus, a vida continua estreita, limitada, precária, “severina”.

 

Sugestões para a meditação

Será que nós fazemos parte do grupo dos “judeus”, dos incrédulos que não aceitam a condição e a compaixão humana de Jesus?

Este Jesus, “filho de José”, irmão universal, amor incondicional e rebeldia profética, é o Deus que nos atrai?

Teríamos suficiente sinceridade para dizer aquilo que, em Jesus, nos escandaliza e desestabiliza?

terça-feira, 21 de abril de 2026

Todas as vidas importam

A vontade do Pai é que nenhum filho se perca

1058 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Quarta-feira | João 6,35-40

Na terceira parte da catequese sobre o verdadeiro pão, Jesus convida enfaticamente à fé, ao reconhecimento de que ele – o galileu, o carpinteiro, o filho de José e de Maria – é o enviado de Deus, o pão vivo e verdadeiro que desceu do céu. E pede aos seus interlocutores uma confiança fundamental nele e no seu Evangelho. Trata-se de crer que Deus está nele e age nele, de aderir a ele e seguir seus passos.

Mas essa adesão a Jesus não é um ato voluntarista ou ritual. É uma decisão que tem uma base e um dinamismo: a vontade do Pai, e essa vontade é que nenhum filho seu se perca, que ninguém perca as condições materiais para viver, nem o sentido da vida. A vontade do Pai é clara: que toda pessoa que vê o Filho e nele crê tenha vida eterna. É para tornar isso possível e palpável que o Filho “desceu”.

Jesus é doador e fonte de vida, não um limitador da vida ou um juiz pronto a identificar e punir culpados. Ele é o pão da vida, e quem vai a ele não terá outra fome. Mas é preciso ir ao encontro dele, aceitar seu caminho, entender a convocação que se esconde em cada sinal que ele realiza. Porém, Jesus constata um pouco desolado: “Vós me vistes, mas não acreditais...”

Jesus afirma com clareza que não afasta nem trata com descaso ou dureza aqueles que o Pai confia a ele e o procuram, aqueles que decidem percorrer seu caminho e fazer parte do seu povo. Estes não perderão nada, nem se perderão; ao contrário, ganharão tudo. Jesus promete que ressuscitará estes seguidores “no último dia”, ou seja: no sétimo dia da criação, o ápice da criação saída do coração de Deus.

A expressão “no último dia” é também uma referência à sexta-feira, ao dia da doação total e radical de Jesus na cruz. É do alto da cruz, em meio a outras vítimas com as quais se solidariza, que Jesus revela até onde vai o amor do Pai, perdoa os seus próprios assassinos e, por isso, pode declarar: “Tudo está consumado!” Ele é a criação consumada, o ser humano maduro e libertado, o doador da vida no qual todos renascemos. É em gestos semelhantes a esse que nos tornamos semelhantes a Deus

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente essa dura e exigente “catequese” de Jesus, evitando concluir sem mais que ele fala simplesmente da eucaristia

Será que não estamos entre aqueles que viram, mas não acreditam, que não permitem que Jesus e seu Evangelho guie suas opções?

Será que não corremos o risco de evitar o renascimento no amor incondicional e sem medidas, e transformamos o “último dia” na última coisa que seríamos capazes de aceitar?

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O Pão que dá vida ao mundo

Jesus é o pão que sacia nossa fome de justiça

1057 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Terça-feira | João 6,30-35

Na segunda parte da catequese sobre o pão, que tem as marcas do debate e da controvérsia, a multidão exige de Jesus um sinal de sua divindade, como o sinal do maná. Jesus diz que ele mesmo é este sinal, e que maná seria apenas um símbolo que remete a ele, que é o dom superior e definitivo de Deus. Nele, o Deus poderoso se apresenta vulnerável e frágil, acessível e próximo.

Este ensino de Jesus resolve pouco, e a multidão murmura. “Que sinal fazes para que possamos crer em ti? Que obra fazes?”, questiona a multidão. Aquela gente não entende o sinal do pão, e acrescenta, quase como uma acusação a Jesus: “Nossos pais comeram o maná no deserto”. Esperam de Jesus obras mais espetaculares, que impressionem e resolvam suas necessidades sem deles exigir compromisso.

Jesus responde destacando que a crença e a expectativa deles estão baseadas numa falsa compreensão do passado. Eles precisam olhar para o presente e reconhecer os sinais que Deus está realizando agora, e em favor do seu povo hoje. “Não foi Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos o verdadeiro pão do céu”! Jesus põe a ênfase no presente, e nos interlocutores que o questionam.

Jesus passa, então, a falar claramente de si mesmo como sendo o pão verdadeiro. “Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e vida ao mundo”. Descendo sempre, fazendo-se carne, colocando-se no lugar do ser humano necessitado, superando a indiferença e respondendo com compaixão às suas necessidades, Jesus abre caminho à abundância, à vida plena.

Diante dessa afirmação, a multidão parece entender, mas sua compreensão ainda é superficial. O pedido “Senhor, dá-nos sempre desse pão” denota, de novo, a busca de uma solução sem compromisso. E Jesus avança, de modo mais claro ainda: “Eu sou o pão da vida! Quem vem a mim não terá mais fome”. Que ninguém espere coisas, mas acolha e sua proposta, e a vida deixará de ser carência e se fará farta.

 

Sugestões para a meditação

Jesus questiona o que move as multidões ao seu encontro: o que motiva você a procurar e escutar Jesus Cristo hoje?

Qual é o sinal que você espera para poder crer nele? Um milagre retumbante, uma cura, a solução das aflições da humanidade?

Sua fé se baseia mais nos sinais que Deus realizou no passado, ou naquilo que ele manifesta no tempo presente?

Em que medida Jesus Cristo e seu Evangelho alimentam suas utopias e iluminam suas buscas?

domingo, 19 de abril de 2026

Cadê a prova?

O que fazer para realizar as obras de Deus?

1056 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Segunda | João 6,22-29

Depois de saciar a fome da multidão e de ir ao encontro dos discípulos que remavam angustiados no meio da noite, Jesus volta a Cafarnaum e faz uma longa catequese sobre sua identidade e missão. É uma espécie de comentário das leituras feitas pelos judeus durante a liturgia pascal. O episódio do maná era um dos textos refletidos na festa, e Jesus o toma para apresentar a si mesmo como verdadeiro pão da vida.

Meditaremos o episódio em partes, ao longo da semana. Hoje ficamos com a primeira parte desta catequese, centrada no debate entre Jesus e a multidão. O povo chegara entusiasmado, porque presenciara o “sinal” da multiplicação dos pães e dos peixes. Não procura Jesus movido pela fé nos sinais, mas pelo alimento abundante e fácil. E Jesus convoca a multidão a fazer uma passagem à realidade, do interesse imediato aos verdadeiros valores: crer nele e aderir a ele, o enviado do Pai.

Presa às tradições e habituada a buscar as migalhas que lhe sobravam, a multidão insiste em pedir a Jesus um sinal poderoso, nos moldes do sinal do maná. Presas à Lei ensinada pelos doutores e fariseus, as pessoas não sabem o que fazer para viver mais plenamente. Parece-lhes que basta a Lei, e o amargo e parco pão de cada dia. E se perguntam: se a prática da Lei não basta, “o que devemos fazer para realizar as obras de Deus?” E Jesus responde: “Acreditar naquele que ele enviou”.

Acreditar no Enviado do Pai parece pouco, mas se trata de reconhecer Jesus como o Messias esperado, compreender seus sinais e aderir a ele com fé. O sinal do alimento abundante, fruto da compaixão e da partilha, traz consigo o compromisso de doação de si mesmo. Por mais que esteja atento às pessoas concretas e suas necessidades, Jesus não é uma solução mágica para toda indigência humana! Ele realiza e prolonga a ação de Deus no mundo, e se propõe como caminho para que façamos o mesmo.

É assim, contando com o engajamento generoso de quem acredita nele, que Jesus, o Filho do Homem marcado e enviado pelo Pai com seu selo, sacia todas as fomes da humanidade peregrina, mas sempre contando com sua própria participação. Nada podemos sem ele, mas ele nada faz sem nós!

 

Sugestões para a meditação

O que move você ao encontro de Jesus Cristo? Qual é o sinal realizado por ele que ilumina suas buscas?

Em que consiste hoje o alimento que não se perde, que permanece e conduz a uma vida mais plena?

O que significa acreditar no deus que enviou Jesus Cristo, e que consequências essa fé tem para sua vida

Paz na terra!

“E o mundo viverá como um só...”

Em 1971, quando a guerra promovida pelos EUA contra o Vietnã fervia e matava, John Lennon compôs e gravou uma canção que se tornaria um provocativo libelo pela paz: “Imagine que não exista paraíso, nenhum inferno sob nós, e, acima de nós, apenas o céu. Imagine que não há países, nenhum motivo para matar ou morrer”.

E prosseguia, instigando nossa imaginação: “Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Imagine que não existam posses, ganância ou fome. Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo. Você pode dizer que sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu espero que algum dia você se junte a nós, e o mundo viverá como um só”.

Não precisamos compartilhar a escala de valores do ex-Beatle para justificar o engajamento pela paz e pela igualdade. Zacarias, o pai de João Batista, saudou Jesus de Nazaré como o “Sol que nasce do alto para guiar nossos passos no caminho da paz” (Lucas 1,79). E, no seu nascimento, os coros celestes cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos que ele ama” (Lucas 2,14).

Em 1963, antes de John Lennon e no calor da ‘guerra fria’, o Papa João XXIII escreveu Pacem in terris, onde afirma que a paz entre os povos se baseia na verdade, na justiça e na liberdade, e que as tensões entre países não são superadas com a força das armas ou com a mentira. E cita S. Agostinho: “Sem a justiça, os reinos não passam de latrocínio”.

Nesta encíclica dirigida a todas as pessoas de boa vontade, João XXIII diz também que as relações internacionais devem se desenvolver “em uma solidariedade dinâmica”, através de colaboração econômica, social, política e cultural, etc.” Na busca dos próprios interesses, uma nação não pode prejudicar as outras, mas somar e conjugar esforços.

Mais recentemente, Francisco, o ‘papa argentino’, escreveu que o que leva à guerra é a “falta de horizontes capazes de nos fazer convergir para a unidade”, e isso destrói o projeto de fraternidade próprio da humanidade. Mas não haverá paz social sem igualdade concreta e sem desenvolvimento humano integral (cf. Fratelli tutti, §§ 26; 235).

Vivemos tempos em que multiplicam elogios à guerra e às diversas formas de violência, não apenas praticadas, mas também divulgadas com grande velocidade e intensidade. Governantes com graves sinais de perturbação psíquica têm nas mãos meios que colocam toda a humanidade em risco.  E um bando de ensandecidos os apoiam, qualificando como animais e monstros aqueles que não compartilham suas cartilhas.

Não quero ser um sonhador solitário! Que o Senhor nos guie num caminho de paz!

sábado, 18 de abril de 2026

Fica conosco, Senhor!

Por que caminhamos tristes e preocupados?

1055 | Tempo Pascal | 3ª Semana | Domingo | Lucas 24,13-35

Os evangelhos não escondem a lentidão dos discípulos e discípulas para reconhecer a ressurreição de Jesus Cristo e assumi-la como caminho. Nisso, o episódio de hoje é paradigmático. Os discípulos estão desolados, e caminham como cegos. Para eles, o fracasso de Jesus fora completo e arrasador. Eles não conseguem conciliar a esperança suscitada por Jesus com ele pregado na cruz.

Mas o próprio Jesus se aproxima deles, discretamente, e puxa conversa. Começa perguntando pelo assunto sobre o qual falam e pelo motivo da tristeza. Com a sabedoria de mestre, Jesus conduz os discípulos ao coração da própria dor e ao aspecto central dos acontecimentos. E faz isso caminhando, voltando ao passado, ao secreto e misterioso lugar onde dormiam as esperanças deles.

Caminhando e dialogando com os discípulos, Jesus provoca neles a abertura a uma imagem de Deus despida de poder e de saber. E sua catequese paciente e lúcida acaba abrindo algumas pequenas brechas na terra seca dos pensamentos e sentimentos deles. Eles percebem que é tarde, e que um caminho sem esperanças não leva a lugar nenhum. E convidam o inesperado companheiro a desfrutar da hospitalidade e a dividir com eles o pão seco da dor.

A sede de companhia, somada ao desejo de partilhar o pouco que lhes resta, acaba abrindo-lhes portas e acendendo luzes. Acolhendo o “forasteiro” na própria casa e partilhando com ele a vida e o pão, os discípulos passam da cegueira à visão, da frustração à alegria, da escuridão à luz. E isso ocorre no mesmo momento em que Jesus deixa de ser visível a eles. Quando a luz da fé começa a brilhar, dispensamos o apoio de algumas experiências demasiadamente sensíveis.

A hospitalidade e a partilha abrem aos discípulos frustrados a possibilidade de fazer uma releitura daquilo que viveram, compreender melhor o que sentem e descobrir o significado daquilo que acontecera. Só então eles dão atenção ao que sentiam na estrada: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho?” Que o Evangelho de Jesus aqueça, também hoje, nosso coração!

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena dos discípulos de Emaús

Preste atenção na atitude de Jesus, nas perguntas que faz, na sua forma de conduzir ao entendimento da vida e das escrituras

Como entender a cegueira e falta de discernimento para entender a realidade de Jesus por parte dos discípulos de Emaús e de hoje?

O que significa para nós hoje, voltar a Jerusalém, mesmo no escuro? Apenas encontrar os irmãos, ou também enfrentar riscos?

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Ondas agitadas

Dar as costas a Jesus não leva a lugar nenhum

1054 | Tempo Pascal | 2ª Semana | Sábado | João 6,16-21

Depois de atender a fome do povo, e depois de escapar para que a multidão exaltada não o transformasse num chefe político poderoso, Jesus sobe ao monte sozinho, toma consciência de que o Reino de Deus tem o dinamismo que brota da cruz e, depois, atravessa o mar sem levar com consigo as multidões. O povo precisa então tomar a decisão de fazer ou não a travessia sem contar com ele.

Os discípulos desertam, tomam uma barca qualquer, voltam atrás, retornam a uma vida vazia de utopias, desprovida de uma força capaz de impulsioná-la. Por isso, enfrentam a noite, a crise, o mar agitado. A escuridão denota falta de rumo, agitação interior, frustração, discordância, ruptura, busca de velhas soluções. As trevas lembram também a ideologia então predominante: a submissão absoluta às leis do mercado. Eles não esperam Jesus, e o mau espírito os agita.

No meio dessa turbulência tão exterior como interior, Jesus vai ao encontro dos discípulos. Quando eles o veem, temem ser advertidos, mas Jesus caminha sobre as águas turbulentas e vai ao encontro deles. Os discípulos desejam acolhê-lo, mas a travessia termina imediatamente, assim como a agitação. Eles chegam rapidamente ao lugar para onde Jesus queria levá-los, e não para onde desejavam ir.

O povo ficara perdido, pois a comunidade dos discípulos, que fora a referência para encontrá-lo, fugira e desaparecera. E então Jesus fala pela primeira vez com o povo, mas não responde às suas perguntas. O que ele faz é evidenciar a ambiguidade das motivações que movem a multidão a busca-lo tão ansiosamente. Jesus pede que todos alarguem seu horizonte e entendam os sinais que ele realiza: a compaixão e o amor de Deus, a partilha, o resgate da dignidade das pessoas. É isso que significa “trabalhar pelo pão verdadeiro”, o pão que não acaba.

As multidões, cansadas e esmagadas por múltiplas explorações e dominações, inclusive em nome da religião, não conhecem o amor gratuito, e esperam de Jesus apenas ordens e leis, mostrando-se dispostos a se submeterem, desde que recebam o que comer. Eles têm uma fé limitada, pois veem Jesus apenas como ponto de chegada, desejam o que ele dá, acham difícil ser como ele, viver no espírito dele. Buscar e acolher seu Espírito é buscar o pão que não perece...

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa, palavra por palavra, gesto por gesto este episódio situado depois de Jesus alimentar a multidão faminta

Que reações esboçamos diante de atitudes e palavras de Jesus que nos parecem exigentes demais, contra nossas expectativas?

O que é que hoje nos amedronta, intimida e diminui nosso necessário compromisso com a transformação do mundo?

Temos alguma experiência de acolher Jesus em nosso “barco agitado” e recuperar a serenidade e chegado onde ele queria?