Superamos o medo
pela fé na Ressurreição?
1047 | Oitava da
Páscoa | Sábado | Marcos 16,9-15
Entre o primeiro
relato de Marcos sobre a ressurreição de Jesus (16,1-7) e o relato de hoje
(16,9-15), há um versículo problemático, omitido pela liturgia pascal: “Saindo,
(as Marias) fugiram, pois estavam tomadas de tremor e espanto. E não contaram
nada a ninguém, pois tinham medo”. Como entender este medo e este silêncio?
Marcos faz questão de não romancear o
papel dos primeiros apóstolos. A aventura de Jesus não tem um final feliz, como
as narrativas imperiais e de Hollywood. A narrativa de Marcos termina com uma
pergunta não expressa, mas envolvente, dirigida aos leitores e discípulos:
vocês e aquelas mulheres superaram o medo e recomeçaram o seguimento de Jesus
na Galileia, para onde ele foi, à nossa frente?
Isso ressoa como uma advertência para
não cairmos em leituras facilitadoras, como reabilitar a primazia do papel
masculino; imaginar Jesus como um profeta poderoso; tirar Jesus da terra e
instalá-lo “no alto dos céus”. No evangelho de Marcos, Jesus oferece poucas
respostas, mais ainda se fazemos as perguntas erradas. Mas ele nos chama a
tomar uma posição. E Marcos nos apresenta apenas Jesus “no alto” da cruz e
caminhando à nossa frente, esperando-nos nas “periferias”.
O epílogo de hoje
(v. 9-15) faz parte de uma releitura do texto original de Marcos. De qualquer
modo, as mulheres testemunham aos apóstolos aquilo que viram, mas não dão
crédito às mulheres, e nem a dois outros discípulos que diziam ter encontrado
Jesus no caminho. Por isso, recebem uma advertência de Jesus, “por causa da
falta de fé e da dureza de coração”, por não acreditarem nas testemunhas.
O texto, o último de Marcos, termina com um novo
mandato missionário. A experiência que brota da fé na ressurreição de Jesus nos
leva a recomeçar o caminho do discipulado na periferia das “galileias”, e nos
envia a percorrer o mundo e viver anunciando o Evangelho do Deus compassivo e
crucificado pela humanidade a todos os povos e criaturas.
Sugestões para a
meditação
Como entender que as pessoas mais
“confiáveis” e próximas de Jesus resistam tanto em aceitar sua ressurreição?
Será que nós também corremos o risco
de desviar a atenção e tomar distância de Jesus crucificado e do chamado a
voltar à Galileia?
Temos consciência de que a afirmação
da ressurreição de Jesus não nos livra da morte e confirma num caminho pleno de
riscos?
Preferimos um Jesus que “sobe aos
céus” ou um Jesus que é “elevado na cruz”, “desce aos infernos” e nos precede
nas “periferias”?