No Reino de Deus,
todos são cidadãos plenos
988 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,24-30
Jesus desmonta a teologia da pureza e solapa as bases
da ideologia da supremacia e hierarquização da dignidade de alguns povos e
pessoas sobre outros. Declarando que todos os alimentos são puros, ele resgata
a dignidade dos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Assim, ele
mostra que o sistema de pureza, não protege o povo, mas oprime os vulneráveis.
Diga-se a mesma coisa hoje em relação às leis que restringem ou criminalizam as
migrações.
Depois
do confronto com os escribas e do ensino ao povo e aos discípulos, Jesus entra
no território dos pagãos com o desejo explícito de aprofundar a questão e colocar
um ponto final nessa interminável discussão. Mas eis que uma mulher pagã,
discriminada por ser mulher e por ser pagã, ousa interromper esse “retiro” de Jesus.
Ela desrespeita claramente as fronteiras que separam judeus e pagãos.
A
cena descreve a reação de Jesus no horizonte das hostilidades étnicas e
culturais dos judeus aos pagãos, e isso só realça a ousadia e a novidade do
ensino e da prática de Jesus. A mulher pagã não apenas desrespeita as leis que
excluem os pagãos dos benefícios de Deus e da cidadania em Israel, nem se
contenta em pedir pela sua filha, mas discute com Jesus defendendo a dignidade
do seu povo e reivindica a igualdade das pessoas e povos diante de Deus.
Segundo
Marcos, o que faz Jesus “mudar” de opinião em relação ao desprezo os pagãos não
é a fé ou a simples confiança daquela mulher insistente, mas o seu argumento:
Deus é pai, e não trata nenhuma pessoa e nenhum povo como indigno ou impuro. O
Reino de Deus, que é o horizonte no qual Jesus se move e a causa maior que ele
abraça, derruba os muros que classificam e opõem as pessoas entre puras e
impuras, judias e pagãs, filhas e cães.
Infelizmente, o sentimento de
que “temos o que eles não têm” ou de que “somos melhores e mais merecedores que
eles” ainda vigora, e volta com virulência inaudita entre grupos que se dizem
cristãos. Ninguém esquece o teor de algumas manifestações contra o Papa
Francisco, a Conferência dos Bispos do Brasil, o ecumenismo, a fraternidade
universal e a defesa da diversidade patrocinadas pelas Campanhas da
Fraternidade dos últimos anos.
Sugestões para a meditação
Releia o
texto, procurando entender bem os recursos literários e a questão que está em
discussão: a igualdade diante de Deus
Qual seria
a razão que leva grupos de cristãos a se oporem à ação social e ecumênica da
Igreja do Brasil?
Como
superar a contradição de quem reza “Senhor, eu não sou digno que entres em
minha casa” e continua pensando “Somos melhores que os outros e temos o que
eles não têm”?