segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (3)

A busca de novos paradigmas

O Papa Bento XVI convocou o mundo a eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente. Lembrou que o mundo não pode ser analisado considerando apenas sobre um dos seus aspectos, porque o livro da natureza é uno e indivisível, incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana (§ 6).

A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado (§ 138).

Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas tornou-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbônico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, substituindo os combustíveis fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável (§ 26).

Para que surjam novos modelos de progresso, precisamos converter o modelo de desenvolvimento global, refletir sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso (§ 194).

A humanidade precisa tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades (§§ 5, 23).

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos. Muitos sabem que não basta o progresso atual e a mera acumulação de objetos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos (§ 209).

Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quem detêm o poder político, econômico e social. Quando os hábitos da sociedade afetam os ganhos das empresas, estas veem-se pressionadas a mudar a produção. Isto lembra-nos a responsabilidade social dos consumidores. Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico.  Por isso, hoje, o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós (§ 206).

Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder freia a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos. A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo (§ 178)

Prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza (§ 215).

domingo, 24 de maio de 2026

Eis aí tua Mãe!

Mãe da Igreja discípula missionária, rogai por nós!

1091 | Tempo Comum | Memória de Maria, Mãe da Igreja | João 19,25-34

Com a solenidade de Pentecostes havíamos concluído nosso caminho com o Evangelho de João. Mas hoje, em vista da memória litúrgica de “Maria, mãe da Igreja”, continuamos com ele. Esta memória nos sugere duas coisas: que Maria estava presente no cenáculo, quando da vinda do Espírito Santo, e também é dinamizada por ele; que precisamos fazer uma interpretação mariana dessa cena localizada no relato da paixão e morte de Jesus.

Segundo João, no momento da paixão no Calvário, a mãe de Jesus, Maria Madalena e o discípulo amado estão de pé, diante da cruz de Jesus. Jesus os vê, e faz uma dupla declaração, que é também um duplo pedido: “Mulher, este é teu filho!” “Filho, esta é tua mãe!” No alto do calvário, diante da expressão máxima do amor de Deus por nós, Jesus nos entrega Maria como mãe dos discípulos missionários, como mãe da Igreja. E nos convida a levá-la conosco, como a discípula primeira e fiel. Nasce aqui uma Nova Família, semente de uma Nova Humanidade.

É interessante notar que o texto original não fala da “mãe de Jesus”. O evangelista a apresenta apenas como “mulher” e “mãe”. Ela representa o antigo Povo de Deus, do qual procedem Jesus e a primeira comunidade de discípulos. Ela é convidada a fazer a passagem, reconhecendo e aceitando o Novo Povo de Deus nascido da nova aliança. E o discípulo amado, que representa o discipulado perseverante, tijolo vivo na construção do templo de Deus, é convidado a reconhecer e proteger suas raízes.

Na sequência, Jesus diz que tem sede. É um novo pedido de acolhida. Os representantes do judaísmo não têm água, nem vinho (amor, acolhida), e só sabem oferecer-lhe vinagre (ódio). Aceitando, sem revidar, mais este gesto de fechamento e violência, Jesus pode dizer que consumou em sua vida a demonstração do amor do Pai pelo mundo e, em si mesmo, arrematou ou deu o toque final à criação do Homem e da Mulher novos, iniciada no Gênesis.

Do corte que o soldado faz no corpo de Jesus com sua espada escorre sangue (o amor generoso e fecundo) e água (o Espírito que gera a Igreja). Isso não nos vem de Maria, mas do Filho que ela entrega a nós como Mãe. Neste sentido, ela é mãe da comunidade dos discípulos, mãe dos crentes. É isso que também nos é revelado na sua presença no cenáculo, no dia de pentecostes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no Calvário, aos pés da cruz, com Jesus, sua mãe, Maria Madalena e o discípulo amigo e fiel

Permita que ressoem em você as densas e ternas palavras de Jesus: “Este é teu filho! Esta é tua mãe! Tenho sede! Tudo está consumado!”

Acolha Maria como a mãe querida que Jesus partilha conosco e pede que levemos para nossa casa

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (2)

A raiz do problema

No paradigma homogêneo e unidimensional, as pessoas pensam que têm à sua frente uma realidade informe totalmente disponível para a manipulação. O que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana. O ser humano e as coisas deixam de ser parceiros e se tornam inimigos. Daqui passa-se à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos das finanças e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a espremê-lo além do limite (§ 106).

Atualmente, alguns setores econômicos têm mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise atual. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação pelo meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação por integrar os mais frágeis, porque, no modelo do êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida (§ 196).

sábado, 23 de maio de 2026

O Divino Sopro

Enviados para enfrentar os males do mundo

1090 | Tempo Pascal | Solenidade de Pentecostes | João 20,19-23

Estamos habituados a situar o acontecimento de pentecostes cristão cinquenta dias após a ressurreição de Jesus. Segundo o evangelho de João, este evento que mudou radicalmente a vida e missão dos discípulos teria acontecido na noite que se seguiu à ressurreição. A liturgia cristã une estas duas perspectivas, pois compreende a páscoa como um acontecimento processual que inicia na ressurreição de Jesus e culmina no envio do Espírito Santo sobre todos os fiéis e todas as criaturas.

O trecho do evangelho de hoje está situado exatamente no início desse movimento progressivo. Quando tudo parecia definitivamente sepultado, acabado e imutável (“fechado”, como as portas e janelas do cenáculo), Jesus irrompe em meio aos discípulos imobilizados pelo medo e restaura a paz. É este encontro e esta palavra, e não apenas o sepulcro vazio, que provoca a mudança que todos conhecemos. Jesus não está fora, acima ou indiferente a eles, mas no meio deles.

A harmonia plena e o bem-estar total que Jesus deseja e transparece na saudação não é uma palavra vazia, nem uma ordem penosa: é um dinamismo que toma conta dos discípulos e tem sua expressão simbólica no Sopro de Jesus. Trata-se do mesmo Sopro do Criador, quando moldou o ser humano do pó da terra. Sem esse Sopro, o ser humano e o discípulo não passam de pó indefinido e de barro informe.

Entretanto, para não eixar dúvidas e não induzir à confusão, soprando, Jesus fala, explicitando o significado do seu gesto. Trata-se do dom do Espírito Santo, do dom da fortaleza e fidelidade missionária: “Como o Pai me enviou, também vos envio”. Jesus não institui um ministério ou sacramento, nem constituiu um colegiado, mas convoca quem adere a ele e os envia em missão. Com a força do Espírito, a paz experimentada no cenáculo não pode reter ninguém.

A quem e a fazer o quê são enviados os discípulos? Como Jesus, são enviados aos pecadores, às ovelhas perdidas, às vítimas das relações violentas e agressivas, para abrir-lhes as portas da graça, para acolhê-los como irmãos e filhos amados do Pai. É isso que significa “tirar (ou carregar) o pecado do mundo”. O Espírito não nos torna simples confessores, mas pessoas novas e solidárias, capazes de clamar por justiça e de estender as mãos com amor solidário.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar as palavras de Jesus, deixe que o Sopro de Deus insufle vida em sua vida, missão em sua acomodação, unidade na diversidade

Acolha confiante e agradecido o mandato missionário de Jesus: Assim como o Pai me enviou, eu envio você!

Perceba com eles a presença inesperada, misteriosa e pacificadora de Jesus crucificado e ressuscitado

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (1)

A gravidade da Crise Ambiental na visão do Papa Francisco

É impossível ignorar a gravidade da situação

As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade (§ 25).

As previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia. Às próximas gerações, poderíamos deixar demasiadas ruínas, desertos e lixo. O ritmo de consumo, desperdício e alteração do meio ambiente superou de tal maneira as possibilidades do planeta, que o estilo de vida atual só pode desembocar em catástrofes. A atenuação dos efeitos do desequilíbrio atual depende do que fizermos agora, sobretudo se pensarmos na responsabilidade que nos atribuirão aqueles que deverão suportar as piores consequências (§ 161).

Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa Casa Comum. Os sintomas anunciam de que chegamos a um ponto de ruptura, por causa da velocidade das mudanças e da degradação, que se manifestam tanto em catástrofes naturais como em crises sociais ou mesmo financeiras, uma vez que os problemas do mundo não se podem analisar nem explicar de forma isolada (§ 161).

Em relação às mudanças climáticas, os progressos são muito escassos. A redução de gases com efeito de estufa requer honestidade, coragem e responsabilidade. A Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20, emitiu uma declaração final extensa, mas ineficaz. As negociações internacionais não podem avançar por causa das posições dos países que privilegiam os seus interesses nacionais sobre o bem comum global (§ 169).

O sistema industrial não desenvolveu a capacidade de absorver e reutilizar resíduos. Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos/as e para as gerações futuras, o que exige limitar o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os. A solução deste problema está no enfrentamento da cultura do descarte que acaba por danificar o planeta inteiro, mas nota-se que os progressos neste sentido são ainda muito escassos (§ 22).

Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas. Essa ideologia pretende legitimar o modelo distributivo atual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar (§ 50).

Os caminhos do Espírito

O Espírito Santo está sobre nós?

Neste domingo, as Igrejas Cristãs celebram o acontecimento permanente da vinda do Espírito Santo sobre o povo de Deus e toda a criação. Geralmente este evento é situado no passado e relacionado a eventos miraculosos ou impressionantes como terremoto, vento, línguas de fogo, iluminação da inteligência, línguas estranhas, entre outros.

À luz das Sagradas Escrituras e da autêntica Tradição cristã, a presença ativa do Espírito Santo no ser humano e nas demais criaturas tem outras ênfases. E o ponto de partida para uma correta compreensão do Espírito Santo e sua ação é Jesus Cristo, o Filho de Deus concebido pelo Espírito Santo, nascido de Maria, ungido pelo Espírito para a missão.

 O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar o Evangelho aos pobres; enviou-me para proclamar a liberdade aos presos e, aos cegos a visão; para pôr em liberdade os oprimidos e para proclamar um ano do agrado do Senhor... Hoje cumpriu-se esta palavra da Escritura que acabais de ouvir”, diz ele ao iniciar sua missão.

Doravante, tudo o que Jesus fará e ensinará vem do Espírito que o reveste e inspira: a defesa da dignidade das mulheres, dos doentes e dos pobres; o resgate da inocência dos pecadores; a reintrodução dos doentes e leprosos na plena cidadania; a incondicional acolhida dos pagãos e estrangeiros no povo de Deus; a compaixão para com tudo e todos.

Jesus mostra os frutos do Espírito falando a língua da proximidade e da compaixão e afirmando a primazia devida aos últimos da sociedade. O Espírito leva Jesus a afirmar a dignidade dos ‘sem dignidade’, a devolver a eles a palavra que lhes é negada ou silenciada; a reunir o povo disperso e desarticulado; a libertar os cativos pelo medo.

Na profissão de fé dos cristãos, afirmamos: “Creio no Espírito Santo, Senhor que dá vida, ele que falou pelos profetas”. Ou seja: onde a vida é resgatada, sustentada e renovada, e onde profetas e profetizas levantam sua voz e se engajam na denúncia das forças dominadoras e no anúncio de novos céus e nova terra, aí está ativo o Espírito Santo.

Na descrição do evento que lançou o Povo de Deus na missão de Jesus, Pedro explica: “Está acontecendo o que foi anunciado pelo profeta Joel” (At 2,16). Ou seja: o Espírito de Deus foi derramado sobre todos, homens e mulheres, jovens e idosos, cidadãos e escravos, e todos são profetas. O Espírito Santo gera a Igreja congregando todos os homens e mulheres de boa vontade e todas as Igrejas num povo profético e libertador.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Súplica ao Espírito

INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO

Vem, Espírito Santo. Desperta a nossa fé fraca, pequena e vacilante. Ensina-nos a viver confiando no amor insondável de Deus, nosso Pai, por todos os seus filhos e filhas, estejam dentro ou fora da tua Igreja. Se esta fé se apagar nos nossos corações, em breve morrerá também nas nossas comunidades e igrejas.

Vem, Espírito Santo. Faz com que Jesus ocupe o centro da tua Igreja. Que nada nem ninguém o substitua ou o obscureça. Não vivas entre nós sem nos atrair para o seu Evangelho e sem nos converter ao seu seguimento. Que não fujamos da sua Palavra, nem nos desviemos do seu mandamento do amor. Que a sua memória não se perca no mundo.

Vem, Espírito Santo. Abre os nossos ouvidos para escutar os teus apelos, aqueles que hoje nos chegam através das interrogações, sofrimentos, conflitos e contradições dos homens e mulheres dos nossos dias. Faz-nos viver abertos ao teu poder para gerar a fé nova que esta sociedade nova necessita. Que, na tua Igreja, vivamos mais atentos ao que nasce do que ao que morre, com o coração sustentado pela esperança e não minado pela nostalgia.

Vem, Espírito Santo. Purifica o coração da tua Igreja. Põe verdade entre nós. Ensina-nos a reconhecer os nossos pecados e limitações. Recorda-nos que somos como todos: frágeis, medíocres e pecadores. Liberta-nos da nossa arrogância e falsa segurança. Faz com que aprendamos a caminhar entre os homens com mais verdade e humildade.

Vem, Espírito Santo. Ensina-nos a olhar de forma nova para a vida, o mundo e, sobretudo, para as pessoas. Que aprendamos a olhar como Jesus olhava para os que sofrem, os que choram, os que caem, os que vivem sós e esquecidos. Se o nosso olhar mudar, mudará também o coração e o rosto da tua Igreja. Os discípulos de Jesus irradiarão melhor a sua proximidade, a sua compreensão e solidariedade para com os mais necessitados. Parecer-nos-emos mais com o nosso Mestre e Senhor.

Vem, Espírito Santo. Faz de nós uma Igreja de portas abertas, coração compassivo e esperança contagiante. Que nada nem ninguém nos distraia ou desvie do projeto de Jesus: fazer um mundo mais justo e digno, mais amável e feliz, abrindo caminhos para o reino de Deus.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


Todos iguais

No caminho de Jesus ninguém é mais que ninguém

1089 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Sábado | João 21,20-25

A bela e instigante cena de ontem terminou com o convite imperativo de Jesus a Pedro: “Segue-me!” Pedro volta-se finalmente para Jesus (movimento de conversão) e vê que o discípulo amigo, que jamais duvidara ou abandonara Jesus, também seguia Jesus. Pedro pergunta o que será dele, qual será seu itinerário. Com essa inquietação, Pedro dá a entender que pretende seguir os passos dele.

Jesus não responde à pergunta de Pedro, mas questiona seu desejo implícito, sublinhando: “O que você tem a ver com isso? Trate de me seguir!” Para um discípulo missionário, essencial é seguir Jesus, e cada um o faz com um percurso pessoal, sem nunca se afastar da comunidade e da missão. Ninguém deve seguir ninguém, ninguém é mestre e guia de ninguém, e todos devem seguir e testemunhar Jesus, de quem recebem o Espírito.

Jesus diz que o discípulo e amigo e fiel poderá permanecer, enquanto ele mesmo continua vindo incessantemente. Isso quer dizer que, tanto o amor de Jesus feito sacramento na eucaristia quanto a missão que ele nos confia, se prolongam no tempo, sem uma data prevista para terminar. Tornar-se discípulo de Jesus é uma aventura que nunca termina de começar.

No finalzinho da sua vida, Pedro começa este caminho que se recusara a fazer antes, porque só acreditava num messias poderoso, e desejava o papel de protagonista entre os demais discípulos. De muitos modos, Jesus se dedica a curar pela raiz esse mal, que ameaça inclusive a nós, ajudando Pedro a renunciar à ambição de ser o primeiro, a aceitar ser amigo e não súdito, a reconhecer que ninguém é mais que ninguém, a se dispor a um amor generoso e incondicional.

No começo da cena (cf. 21,15), Pedro é tratado por Jesus como “Simão, filho de João”, expressão que sublinha seu vínculo com aqueles que esperavam um messias nacionalista e poderoso. A cena termina com ele sendo tratado por Pedro, nome que Jesus lhe deu, incluindo-o entre os discípulos. Agora sim, chegando à maturidade, Pedro é pedra preciosa e firme, base da sólida construção da casa de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoem o diálogo de Jesus com Pedro, e o desconcerto de Pedro em iniciar o caminho que o outro discípulo já percorria

Que luzes e ressonâncias esta bela cena tem para nós, nossas famílias e nossas comunidades cristãs?

Como evitar a comparação marcada pela inveja ou pelo menosprezo do jeito de seguir jesus dos irmãos e irmãs de outras Igrejas?

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Cuida das minhas ovelhas

Quem ama Jesus cuida dos outros com amor

1088 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Sexta-feira | João 21,15-19

Depois de aparecer aos discípulos no fim de uma noite de pesca frustrante, e depois de partilhar com eles pão e peixe e de ignorar o gesto de Pedro, que se joga na água para ir ao seu encontro, Jesus o interroga. O simples fato de que Jesus lhe dirija a palavra depois do seu “papelão” durante sua paixão e morte é, para Pedro, um bálsamo reconfortante, um grande sinal de delicadeza e misericórdia de Jesus.

Jesus começa induzindo Pedro a se comparar com os demais discípulos, chamando-o a ser humilde, convidando-o a reconhecer o fracasso e encontrar a própria verdade. Por isso, a pergunta é se Pedro o ama profundamente, se seu amor é total, se ele é capaz de uma doação sem reservas. E Pedro, mais modesto e consciente da fragilidade do seu amor, responde que lhe quer bem. Jesus pergunta uma segunda vez, sem mudar o verbo, e Pedro responde da mesma maneira.

Na terceira vez, Jesus muda o verbo, e pergunta se Pedro lhe quer bem. Mudando a pergunta, Jesus se coloca no nível de Pedro, desce à sua fragilidade, o acolhe como ele é. Pedro fica triste, porque é confrontado com sua verdade e não pode mais se iludir com sua ideia de força, e tem que confessar que não é capaz do amor que Jesus lhe pede. Pedro responde dizendo que Jesus o conhece de verdade, que sabe que ele deseja ser seu amigo, que não pode ir além disso. E Jesus reafirma uma terceira vez que a prova desse amor a Jesus é sempre cuidar do rebanho!

Jesus acolhe Pedro em sua fragilidade e aceita sua amizade. Mas acaba acrescentando que, mesmo não sendo capaz de um amor maduro e pleno por enquanto, um dia chegará a esse amor: outros o conduzirão para onde ele hoje não pode e não quer ir! Pedro ainda será um verdadeiro discípulo missionário, capaz de doar-se inteiramente e de servir e amar os irmãos como Jesus o fez e pediu. Assim, no final desse diálogo profundo e tenso, Pedro é confirmado na sua missão de pastorear o rebanho, sustentado por sua amizade com Jesus e na sua condição de aprendiz.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus e de Pedro, observe o mal-estar de Pedro e acolha as perguntas de Jesus como dirigidas a você

O que significa para você, sua família e sua comunidade, “apascentar as ovelhas” e “cuidar dos cordeiros” hoje?

Quais são as consequências missionárias e pastorais da “união indissolúvel” entre o amor a Jesus e o cuidado pelo seu rebanho?

Que passos devemos dar para passar de uma adesão adolescente a uma responsabilidade adulta (“quando fores adulto”) a Jesus?

Que todos sejam um!

A união das Igrejas torna crível sua fé

1087 | Tempo Pascal | Sétima Semana | Quinta-feira | João 17,20-26

Os versículos propostos para a nossa reflexão são a parte final da chamada “oração sacerdotal” de Jesus, e trazem suas últimas palavras antes da sua prisão, realizada com a ajuda de Judas, membro do grupo dos discípulos. Estando prestes a fazer a travessia da cruz e antevendo a fragilidade e a grandeza dos discípulos de todos os tempos, Jesus os recomenda ao Pai e pede por eles, por nós.

Jesus reza tendo diante de si a humanidade inteira, e com a consciência de que sua missão está chegando ao ápice e ao fim. Ele alarga o horizonte da sua oração, e pede pelos futuros discípulos, seguro de que neles e por eles sua missão continuará. É nesta perspectiva que Jesus insiste na unidade dinâmica e profunda de todos aqueles que acreditam nele. Esta unidade é a condição para que o mundo creia nele.

A unidade em torno da novidade e da ação de Jesus e seu Evangelho se baseia no conhecimento e na comunhão recíproca de discípulos, comunidades e Igrejas, que por sua vez, é fruto do amor incondicional dedicado aos mais vulneráveis. Essa unidade é condição para a união com Deus e alternativa às relações de dominação. Sem essa unidade vivida na comunidade, o próprio Jesus Cristo será visto apenas como um sonhador ou teórico a mais.

A glória que Jesus nos revela e nos transmite não é outra coisa que o dinamismo do amor com que nos amou, um amor incondicional pelos não-amados, prova de que ele é o enviado do Pai e a força que nos torna filhos e irmãos. Contemplar essa glória significa reconhecer, acolher e corresponder ao amor que ele manifesta na cruz, um amor cuja medida é servir sem medidas. O que brilha, o que dá “peso” e relevância, o que resplandece (=glória) é sempre o amor-doação.

Jesus manifesta seu desejo de que os discípulos estejam com ele, gozem com ele da vida plena e da filiação do Pai. Ele quer que, diante do Pai, sejamos como ele, experimentemos com ele do mesmo amor com que o Pai o amou e vivamos em profunda comunhão com ele e com todos os que nele creem. Ele mesmo se identifica conosco, vive uma união viva e dinâmica com a comunidade que reuniu.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto de Jesus, compartilhe seus sentimentos e pensamentos, e entre com ele no espírito da oração

Identifique com clareza o que você, sua família e o povo de Deus mais necessitam hoje e faça seu os pedidos de Jesus

Como essa oração de Jesus pode instruir e orientar nossa oração pessoal e familiar e estimular e dirigir as relações ecumênicas?