Maria, filha de um
povo de fé indomável
1198 | Festa da Natividade de Maria | Mateus 1,1-23
Recordamos o nascimento de Maria para destacar a longa preparação e o início da realização
da promessa de Deus, da nova e eterna aliança selada na vida, morte e
ressurreição de Jesus. As Sagradas Escrituras não estão interessadas na origem
de Maria. O que sabemos é que sua
história lança raízes na história de um povo marcado pela opressão e pela
esperança inabalável. Maria é filha do seu povo e, através dela e do filho,
o amor de Deus alcança toda a humanidade, sem nenhuma exclusão. Maria é a “arca
da aliança”, e nela se unem a antiga e a nova aliança.
Os relatos de genealogia, como esse de Jesus, nos
parecem hoje enfadonhos e inúteis. Mas, para a cultura do oriente antigo, as genealogias eram um modo de assegurar e
demonstrar a pertença a um povo, de estabelecer heranças e promessas. No
caso de Mateus, mesmo sem apresentar uma genealogia completa de Jesus (ele não
cita Moisés nem os profetas), fica claro que Jesus pertence ao povo hebreu, que
é um israelita legítimo, um descendente de Davi, encarnação do bom governante.
Normalmente as genealogias
apresentam apenas figuras masculinas, pois são narrativas essencialmente patriarcais.
Mas Mateus inclui na genealogia de Jesus cinco mulheres: Tamar (filha de uma prostituta),
Raab (uma prostituta cananéia), Rute (mulher estrangeira, pertencente a um povo
acusado pelos judeus de ter nascido de uma relação incestuosa), e a “mulher de
Urias” (mulher sem nome, abusada pelo rei Davi, no auge do seu poder) e Maria
de Nazaré.
Incluindo estas mulheres nas origens de Jesus, Mateus deslegitima o
patriarcado e sublinha a providência misericordiosa de Deus e a inclusão de
pessoas e povos marginalizados nos seus planos e intervenções. Silenciando sobre o pai biológico de Jesus (“José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”), Mateus sublinha
a independência de Deus na sua ação libertadora e nos agentes que escolhe.
Maria é incluída no grupo
das outras quatro mulheres (ela é filha da humanidade
marginalizada), mas, ao mesmo tempo, representa
uma diferença, uma novidade: nela e por ela se manifesta a encarnação de um
Deus que intervém na história mediado pelo ser humano, elevando os humilhados e
relativizando os poderes e ideologias. Por isso, a aclamamos: “Maria de Deus,
Maria da gente!”
Sugestões para a meditação
Retome a
genealogia, prestando muita atenção nas figuras femininas e na mudança da
lógica do texto quando fala da geração de Jesus em Maria
Contemple
demoradamente o drama enfrentado por José diante da inaudita e inexplicável
gravidez da sua noiva
Qual é a
relevância, e o que significa, para você, lembrar que Maria também nasceu,
pertence a um povo e faz parte do grupo de mulheres olhadas com desprezo pelos
homens?