sexta-feira, 10 de abril de 2026

Sejam minhas testemunhas!

Superamos o medo pela fé na Ressurreição?

1047 | Oitava da Páscoa | Sábado | Marcos 16,9-15

Entre o primeiro relato de Marcos sobre a ressurreição de Jesus (16,1-7) e o relato de hoje (16,9-15), há um versículo problemático, omitido pela liturgia pascal: “Saindo, (as Marias) fugiram, pois estavam tomadas de tremor e espanto. E não contaram nada a ninguém, pois tinham medo”. Como entender este medo e este silêncio?

Marcos faz questão de não romancear o papel dos primeiros apóstolos. A aventura de Jesus não tem um final feliz, como as narrativas imperiais e de Hollywood. A narrativa de Marcos termina com uma pergunta não expressa, mas envolvente, dirigida aos leitores e discípulos: vocês e aquelas mulheres superaram o medo e recomeçaram o seguimento de Jesus na Galileia, para onde ele foi, à nossa frente?

Isso ressoa como uma advertência para não cairmos em leituras facilitadoras, como reabilitar a primazia do papel masculino; imaginar Jesus como um profeta poderoso; tirar Jesus da terra e instalá-lo “no alto dos céus”. No evangelho de Marcos, Jesus oferece poucas respostas, mais ainda se fazemos as perguntas erradas. Mas ele nos chama a tomar uma posição. E Marcos nos apresenta apenas Jesus “no alto” da cruz e caminhando à nossa frente, esperando-nos nas “periferias”.

O epílogo de hoje (v. 9-15) faz parte de uma releitura do texto original de Marcos. De qualquer modo, as mulheres testemunham aos apóstolos aquilo que viram, mas não dão crédito às mulheres, e nem a dois outros discípulos que diziam ter encontrado Jesus no caminho. Por isso, recebem uma advertência de Jesus, “por causa da falta de fé e da dureza de coração”, por não acreditarem nas testemunhas.

O texto, o último de Marcos, termina com um novo mandato missionário. A experiência que brota da fé na ressurreição de Jesus nos leva a recomeçar o caminho do discipulado na periferia das “galileias”, e nos envia a percorrer o mundo e viver anunciando o Evangelho do Deus compassivo e crucificado pela humanidade a todos os povos e criaturas.

 

Sugestões para a meditação

Como entender que as pessoas mais “confiáveis” e próximas de Jesus resistam tanto em aceitar sua ressurreição?

Será que nós também corremos o risco de desviar a atenção e tomar distância de Jesus crucificado e do chamado a voltar à Galileia?

Temos consciência de que a afirmação da ressurreição de Jesus não nos livra da morte e confirma num caminho pleno de riscos?

Preferimos um Jesus que “sobe aos céus” ou um Jesus que é “elevado na cruz”, “desce aos infernos” e nos precede nas “periferias”?

Sob a força do Espírito

VIVER DA SUA PRESENÇA

O relato de João não poderia ser mais sugestivo e interpelante. Só quando veem Jesus ressuscitado no meio deles é que o grupo de discípulos se transforma. Recuperam a paz, desaparecem os seus medos, enchem-se de uma alegria desconhecida, sentem o sopro de Jesus sobre eles e abrem as portas porque se sentem enviados a viver a mesma missão que ele recebeu.

A crise atual da Igreja, os seus medos e a sua falta de vigor espiritual têm origem num nível profundo. Com frequência, a ideia da ressurreição de Jesus e da sua presença entre nós é mais uma doutrina pensada e pregada do que uma experiência vivida. Tanto faz se há ou não ressurreição.

Cristo ressuscitado está no centro da Igreja, mas a sua presença viva não está enraizada em nós, não está incorporada à substância das nossas comunidades, não alimenta habitualmente os nossos projetos. Após vinte séculos, Jesus não é conhecido nem compreendido na sua originalidade. Não é amado nem seguido como foi pelos seus primeiros discípulos.

Nota-se logo quando um grupo ou uma comunidade cristã se sente habitada por essa presença invisível, mas real e ativa, de Cristo ressuscitado. Não se contentam em seguir as diretrizes que regulam a vida eclesial. Possuem uma sensibilidade especial para escutar, buscar, recordar e aplicar o evangelho de Jesus. São os espaços mais saudáveis e vivos da Igreja.

Nada nem ninguém nos pode oferecer hoje a força, a alegria e a criatividade de que precisamos para enfrentar uma crise sem precedentes como pode fazê-lo a presença viva de Cristo ressuscitado. Privados do seu vigor espiritual, não sairemos da nossa passividade quase inata, continuaremos com as portas fechadas ao mundo moderno, seguiremos fazendo o que está mandado, sem alegria nem convicção. Onde encontraremos a força de que precisamos para recriar e reformar a Igreja?

Temos que reagir. Precisamos de Jesus mais do que nunca. Precisamos viver da sua presença viva, recordar em toda ocasião os seus critérios e o seu Espírito, repensar constantemente a sua vida, permitir que ele inspire as nossas ações. Ele pode transmitir-nos mais luz e mais força do que ninguém. Ele está no meio de nós comunicando-nos a sua paz, a sua alegria e o seu Espírito.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Uma pesca frustrante

As noites escuras e o desejo de voltar atrás

1046 | Oitava da Páscoa | Sexta-feira | João 21,1-14

Os relatos dos evangelhos nos levam a compreender que a ressurreição de Jesus está ligada ao testemunho da tumba vazia, mas passa necessariamente pela experiência pessoal da presença do crucificado e ressuscitado, e desemboca ao testemunho vivo, corajoso e público de que ele vive, e seu projeto de vida continua válido.

No episódio do evangelho de hoje, João relata como Jesus aparece uma terceira vez, a sete apóstolos, às margens do lago de Tiberíades. É difícil entender por quê, mesmo depois da manifestação a portas fechadas na noite da páscoa, do sopro do Espírito Santo sobre eles, e da nova manifestação com a presença de Tomé, os discípulos continuam desanimados e incrédulos.

Envolvidos por uma noite existencial e ideológica, sete membros do grupo dos Doze, liderados por Pedro, decidem retomar o ofício que haviam abandonado para seguir Jesus. É como se o sonho tivesse acabado em pesadelo, e como se o único desejo deles fosse voltar aos voos rasteiros de antes. Mas acabam amargando uma frustração ainda mais forte e profunda que aquela provocada pela crucifixão de Jesus.

Além de estarem sem rumo, os discípulos sentem também a falta de algo que os alimente. Eles haviam esquecido que o alimento do discípulo é fazer a vontade do Pai (cf. Jo 4,34), e que só em Jesus eles encontram palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68). Na fuga para trás, vivem a noite escura da fé e tateiam sem rumo. Para reencontrar a vida, precisam confiar de novo na Palavra de Jesus. E é isso que fazem.

Mesmo sem saberem de quem partia a ordem, eles lançam de novo a rede. E, além de um inesperado êxito na pesca, recuperam a coragem de se jogarem no mar bravio do testemunho. Diante da pesca abundante, mas ainda dolorido pelas suas repetidas negações durante a paixão de Jesus, Pedro se joga no mar e vai ao encontro dele, que espera e recebe os discípulos com peixe assado e pão. Mas a impressão é que a reação deles é uma mistura de vergonha e desconfiança, sem sinais de alegria...

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena depois da manifestação de Jesus a Tomé e aos demais apóstolos

Preste atenção nos gestos e palavras: pergunta se eles têm pão; manda lançar as redes de novo; oferece peixe e pão

O que significa a decisão de voltar à pesca, o insucesso que experimentam, e uma nova tentativa à ordem de Jesus?

O que esse terceiro encontro de Jesus crucificado e ressuscitado com seus discípulos significa para nós hoje?

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Vocês serão testemunhas

Por quê ainda duvidamos e temos medo?

1045 | Páscoa do Senhor | Quinta-feira | Lucas 24,35-48

Esta cena ocorre depois do testemunho das mulheres e da comprovação, por parte de Pedro, que a sepultura estava vazia; depois da manifestação de Jesus aos dois discípulos na estrada e depois da partilha do pão; e, finalmente, após a aparição de Jesus a Pedro. Apesar disso, a presença de Jesus os espanta, e os deixa incrédulos.

A ressurreição de Jesus não é uma espécie de prêmio que o Pai dá ao Filho obediente e generoso. O que a Igreja afirma com a ressurreição de Jesus é algo bem mais sério que a simples volta de um cadáver à vida. O ressuscitado por Deus não é alguém que morreu com idade avançada, rodeado de familiares e amigos, mas aquele que resgatou a dignidade dos excluídos e foi condenado por um conluio de autoridades.

Diante do espanto e da perturbação dos discípulos com a sua presença inesperada, Jesus mostra as chagas nas mãos e nos pés, e pede que eles as toquem. Com isso, sublinha a continuidade do amor que o levou a abraçar a cruz, a continuidade entre o profeta de Nazaré e o ressuscitado. As feridas nas mãos e nos pés são o sinal eloquente de que Jesus é fiel, e se tornou nosso advogado de defesa.

A ressurreição de Jesus não é fruto da imaginação dos discípulos. Nela Deus confirma a validade e a justeza da causa que atraiu a ira e a morte. E, na sua manifestação aos discípulos, Jesus lhes abre a inteligência para que compreendam as escrituras. Jesus não faz uma longa e completa catequese bíblica aos discípulos desanimados, mas esclarece a imagem de Messias: seu caminho se desvia do poder e da impassibilidade, passa pela aceitação do sofrimento.

Em seu nome, somos convocados anunciar a conversão e ao perdão dos pecados, sem excluir ninguém. Não é possível adentrar no sentido da ressurreição de Jesus e nossa se não nos movemos num horizonte de esperança, se não aceitamos a possibilidade de uma transformação profunda de todas as coisas, uma mudança radical e integral, que já está em curso, e que só será concreta se começar por nós.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, gesto por gesto este episódio situado depois manifestação de Jesus no caminho

Quais são as razões e as consequências da não aceitação da cruz e da ressurreição como núcleo essencial da vida e missão de Jesus?

Qual é a perspectiva da nossa leitura das escrituras: buscamos milagres e sinais do poder, ou de compaixão e misericórdia?

Como podemos testemunhar hoje que Jesus ressuscitou, que sua vida foi validada por Deus, e seu sonho de vida continua vivo?

terça-feira, 7 de abril de 2026

Emaús é aqui!

Que o Evangelho aqueça nosso coração

1044 | Páscoa do Senhor | Quarta-feira | Lucas 24,13-35

Os evangelhos não escondem as dificuldades e a lentidão com que os discípulos vão fazendo a experiência da ressurreição de Jesus Cristo e assumindo-a como caminho de vida. O episódio de hoje é paradigmático: os discípulos estão desolados, e caminham como cegos; para eles, o fracasso de Jesus fora completo e arrasador; eles não conseguem conciliar a esperança suscitada por Jesus com ele pregado na cruz.

Mas o próprio Jesus se aproxima deles e toma a iniciativa na conversa. Começa perguntando pelo assunto sobre o qual falam e pelo motivo da tristeza estampada no rosto. Com sabedoria de mestre, Jesus conduz os discípulos ao coração da própria dor e ao aspecto central dos acontecimentos. E faz isso caminhando, voltando ao passado, ao secreto e misterioso lugar onde dormiam as esperanças deles.

Caminhando e dialogando com os discípulos, Jesus provoca a abertura a um Deus despojado. Sua catequese paciente acaba abrindo algumas pequenas brechas na terra seca dos pensamentos e sentimentos deles. Então, eles percebem que é tarde, e que um caminho sem esperanças não leva a lugar nenhum. E convidam o inesperado companheiro a desfrutar da hospitalidade e a dividir com eles o pão seco da dor.

A sede de companhia, somada ao desejo de partilhar o pouco de sentido de vida que lhes resta, acaba abrindo-lhes portas e acendendo luzes. Acolhendo o forasteiro e partilhando com ele a vida e o pão, os discípulos passam da cegueira à visão, da escuridão à luz. E isso ocorre no mesmo momento em que Jesus escapa aos olhos deles. Quando a luz da fé começa a brilhar, algumas experiências são dispensáveis.

A hospitalidade e a partilha abrem aos discípulos a possibilidade de uma releitura daquilo que viveram, à compreensão daquilo que sentem e à descoberta do significado do que acontecera. Só então eles dão atenção ao que ocorrera na estrada: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho?” Que o Evangelho de Jesus aqueça nosso coração!

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena dos discípulos de Emaús

Preste atenção na atitude de Jesus, nas perguntas que faz, na sua forma de conduzir ao entendimento da vida e das escrituras

Como entender a cegueira e falta de discernimento para entender a realidade de Jesus por parte dos discípulos de Emaús e de hoje?

O que significa para nós hoje, voltar a Jerusalém, mesmo no escuro? Apenas encontrar os irmãos, ou também enfrentar riscos?

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Madalena, a perseverante

Anunciemos aos desanimados que ele vive

1043 | Páscoa do Senhor | Domingo | João 20,11-18

Junto à sepultura de Jesus, Maria Madalena chora sua pena e sua desorientação. Para ela, a única coisa certa e palpável é a morte de Jesus. Está disposta a levá-lo consigo, mesmo morto. Vê anjos que a interrogam sobre a dor. Não pronuncia ao Jardineiro o nome de Jesus, e o chama de Senhor. Não reconhece Jesus pela voz, nem pela aparência. A tumba vazia é insuficiente para sustentar a fé na ressurreição de Jesus.

As vestes brancas e a pergunta dos anjos insinuam que não há motivo para o luto. Mas é somente quando Jesus chama Madalena pelo nome, quando ela se volta a ele e deixa de olhar para a tumba que seus olhos se abrem. É a voz do Pastor que caminha à frente e é reconhecido pelas ovelhas, que chama pelo nome a acolhe cada pessoa, nas suas dores e nos seus sonhos. Madalena se vê esposa da nova aliança.

Esta experiência de Maria de Magdala é apenas o começo da missão, do testemunho aos irmãos, à comunidade dos iguais instituída na ceia e no lava-pés. Depois de tê-lo desejado, buscado, conhecido, seguido e amado em vida, ela precisa se inclinar para dentro de si mesma, para a profundidade do próprio desejo, para reconhecê-lo e amá-lo sem retê-lo. Sem isso, seus olhos continuariam fechados à novidade.

É no movimento de voltar-nos para nossa interioridade mais profunda, de superar um certo realismo ou cinismo desmobilizador, que identificamos os sinais de vida e encontramos Jesus vivo e chamando-nos pelo nome. Crer em Jesus crucificado e ressuscitado é mais que constatar que a sepultura está vazia. Significa encontrá-lo, reconhece-lo, escutá-lo e segui-lo de modo pessoal e renovado na missão.

Que o Espírito Santo abra os nossos olhos e nos ajude a ver a presença escondida, solidária e transformadora de Jesus neste mundo tão contraditório. E possamos reconhecer, com o olhar lúcido e apaixonado da fé, que ele está em comunhão conosco, com o amado Papa Francisco e todos os que partiram, com todos os sofredores e vítimas, dialogando, chamando e enviando.

 

Sugestões para a meditação

Preste atenção nas palavras de envio de Maria aos discípulos. Com que palavra Jesus se refere àqueles que o abandonaram?

Como entender a aparente cegueira e falta de discernimento de Maria, incapaz de reconhecer Jesus que está vivo e lhe fala?

O que faz com que tantos cristãos não vivam a fé na ressurreição de Jesus como imperativo para continuar sua missão libertadora?

O testemunho que damos com nossa vida é ajuda ou empecilho para que as pessoas de hoje acreditem na ressurreição de Jesus?

domingo, 5 de abril de 2026

Ele vai à nossa frente!

Deus ressuscitou Jesus, e disso somos testemunhas

1042 | Páscoa do Senhor | Domingo | Mateus 28,8-15

Crer na ressurreição de Jesus Cristo não é um ato de submissão intelectual. Crer é caminhar, e crer em Jesus crucificado e ressuscitado significa percorrer com ele os caminhos do Reino de Deus, tornando-se semente que não teme desfazer-se no ventre da terra, em gestos e sinais sempre frágeis, mas potentes e eloquentes.

As mulheres da aurora não viram um anjo rolando a pedra em meio a um terremoto que derrubou os guardas, mas souberem que a sepultura não reteve Jesus e que ele ia à frente delas para a Galileia.  Mas já antes de iniciarem a volta para o lugar onde começaram a seguir Jesus, ele se manifesta e confere a elas um mandato: “Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão”.

Em clara oposição a esta notícia e percurso do centro à periferia, os guardas vão à chefia do templo. E lá selam a mentira que acompanhou o processo contra Jesus: a elite suborna os guardas para que divulguem a falsa notícia de que Jesus continua morto e que seu corpo foi roubado pelos discípulos. Mas a memória viva de Jesus havia “tomado corpo” no testemunho corajoso dos discípulos.

Aquelas duas mulheres madrugadoras haviam intuído os dois pilares fundamentais da fé em Jesus Cristo: ele não faz parte do clube dos mortos, eliminados e anulados pelos poderosos; ele se deixa encontrar nas periferias e nas fronteiras, onde a dominação assume mil formas e os sinais do Reino de Deus avançam de forma discreta e, ao mesmo tempo, irreversível.

Os discípulos e discípulas de Jesus não se deixam intimidar nem derrotar pela execução patrocinada pelos poderes estabelecidos, enquanto estes tremem, mentem e subornam para não aceitar a reviravolta. Contra tudo e contra todos, estas mulheres, sustentadas pelos sutis fios da esperança, confiam plenamente naquilo que ouvem, e se tornam peregrinas e alegres testemunhas, reúnem os discípulos e “refundam” a Igreja dispersa.

 

Sugestões para a meditação

Por que elas, os fios mais frágeis do tecido social e eclesial, são as primeiras a saber, a ver e a anunciar a ressurreição?

Terá o corpo masculino da Igreja caído sob a influência dos “podres poderes”, esquecido a força criadora e desconfiado delas?

Como podemos resgatar hoje o papel essencial das mulheres no testemunho da ressurreição e na reconstrução da Igreja?

O que significa hoje afirmar que Jesus “vai à nossa frente” e poderemos vê-lo na Galileia, onde iniciara sua missão?

A páscoa de Jesus e seus significados

A pedra rejeitada tornou-se a principal

O Salmo 118 (117) é uma solene e festiva celebração de ação de graças que inclui até uma procissão ao templo para agradecer a Deus pela libertação dos inimigos e opressores. É nele que se encontra uma imagem que os cristãos usaram para interpretar a ressurreição de Jesus: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22-23).

Além desta metáfora da pedra rejeitada que se tornou essencial, os primeiros cristãos usaram várias outras imagens para falar da ressurreição de Jesus: exaltação daquele que foi humilhado (cf. At 2,32; 5,30; Fil 2,9); glorificação daquele que foi apagado (cf. Tm 3,16; Hb 1,3); subida ao céu de quem desceu aos infernos (cf. 1Pd 3,22); ser colocado à direita do Pai (1Pd 3,22; Hb 1,3); nomeação de juiz universal (cf. At 0,42).

Sem desprezar a infindável discussão sobre como foi de fato a ressurreição de Jesus, o mais importante é entender o que ela significa. Nesse aspecto, o primeiro significado é a reabilitação humana, social e religiosa daquele que fora descartado e rebaixado. A ressurreição coloca Jesus como o primeiro dos humanos e afirma a validade da sua causa.

Uma segunda perspectiva de sentido é aquela que considera quem detém o poder de assegurar a vida plena para todos. A ressurreição de Jesus é a proclamação de que o verdadeiro poder e a última palavra não estão com quem manda, proíbe, oprime, violenta e mata, mas com aqueles que a eles se opõem, dando a própria vida, se for preciso.

Outro significado da ressurreição de Jesus é o reconhecimento de que ele é o Filho de Deus que se fez carne e mergulhou na história humana. Não que a ressurreição seja uma espécie de prova da sua divindade. Mas, acolhendo sua compaixão e seu amor sem fronteiras, afirmamos que, embora ostente as feridas da cruz, ele é divino e continua vivo.

E, para aqueles que cremos em Jesus e por ele vivemos, a sua ressurreição é muitíssimo mais que a crença numa nossa ressurreição após a morte. Afirmando que Jesus ressuscitou, comprometemo-nos em prosseguir o sonho e a missão que deram sentido à sua vida. A fé na sua ressurreição nos constitui testemunhas vivas daquilo que ele fez.

Ao mesmo tempo, aprendemos com Jesus que passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos e irmãs (cf. 1Jo 3,14). Na certeza de nossa vida está nas boas mãos de Deus Pai, não temos medo dos poderes que matam, e cremos na fraqueza e na morte dos poderes. Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, nos tornou livres para amar e servir.

sábado, 4 de abril de 2026

Ressurreição já!

Nenhuma mulher e nenhum homem a menos!

1041 | Páscoa do Senhor | Domingo | João 20,1-9

A cena da paixão e morte de Jesus que meditamos na sexta-feira terminou laconicamente: ele morre abandonado pelos discípulos, e acompanhado somente por dois outros executados com ele; José de Arimatéia, numa ação ambígua, compra um lençol, enrola nele e corpo sem vida de Jesus, deposita-o num túmulo e fecha o túmulo com uma grande pedra, como que dizendo que tudo estava terminado.

Na cena de hoje, Maria Madalena faz algo diferente de José de Arimatéia: sai de casa de madrugada e vai ao túmulo, movida pela inconformidade com o destino imposto pelos dirigentes do judaísmo a Jesus de Nazaré, com a conivência criminosa de Pilatos. Caminhando com essa dor, Maria dá-se conta de que a pedra fora rolada e que a sepultura estava aberta. Assustada, ela dá meia-volta e vai correndo ao encontro de Pedro e de João, dizendo que alguém havia tirado Jesus do túmulo.

Eles dão crédito ao anúncio de Madalena, mas partem correndo em direção à sepultura. João chega primeiro e espera Pedro. Olha para dentro da sepultura aberta, vê os panos da mortalha no chão, mas não entra. Pedro chega depois, entra na sepultura e vê o pano que cobrira o rosto de Jesus cuidadosamente dobrado. Os sinais apontam para algo inusitado, e não para uma fuga apressada ou um roubo do corpo.

Mais tarde, João também entra na sepultura, “vê e acredita”. Vê o quê, e a credita em que? Vê o vazio da sepultura, a impotência das autoridades que se impõem pela força e pela violência, a invencibilidade das causas mais nobres e mobilizadoras. E acredita na Palavra de Jesus, acredita que o amor é mais forte que as águas impetuosas; que o amor não pode ser limitado ou derrotado pela morte, não pode ser comprado ou vendido, mas oferecido incondicionalmente (cf. Ct 8,6-7).

A cena termina com uma nota estranha: “Então, os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Como assim? Acreditam na ressurreição e seguem como se nada relevante tivesse acontecido? É a mesma Madalena, aquela que fora ao encontro dos discípulos desolados, que permanece teimosamente próxima ao sepulcro. Ela suspeita que um amor tão generoso e uma dor tão pungente não podem terminar assim.

 

Sugestões para a meditação

Observe a teimosa inconformidade de Maria Madalena, suas buscas, suas intuições, mas também sua dependência do passado

Observe com atenção os movimentos, gestos e atitudes de João e de Pedro, e procure entender o que eles dizem

Que forças e que atitudes a ressurreição de Jesus desperta em você hoje? É possível crer na ressurreição e viver indiferente à causa que o levou à morte?

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ressuscitou!

O Senhor está vivo e nos espera fora dos muros

1040 | Quaresma | Semana Santa | Sábado | Mateus 28,1-10

Na sepultura vazia, mulheres e anjos ensinam que o caos do lixo pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que as pandemias podem ser vencidas, que os crucificados caminham rumo às fronteiras, onde novas possibilidades estão em gestação. O vazio da sepultura não é prova da ressurreição, mas sinal.

O dia ainda não amanheceu plenamente, a liberdade não alcançou todos os seres humanos, mas os guardas do sistema tremem diante de mulheres e homens que caminham destemidos. O poder sobre a vida e a morte não está nas mãos deles! Precisamos nos abrir às novas possibilidades escondidas nas pessoas e nos caminhos da história, vibrar de alegria e sair correndo para anunciar aos outros esta Boa Notícia: “Ele não está aqui! Ressuscitou!”

As mulheres da aurora nos ensinam que os sinais palpáveis da ressurreição só podem ser tocados na periferia ou numa Igreja em saída. É neste caminho missionário que iniciam a partir da sepultura vazia que as duas mulheres reconhecem o Ressuscitado que vem ao encontro delas pedindo que não tenham medo. Não importam mais os lugares onde ele esteve; importa onde ele disse que estará nos esperando.

Como cristãos, somos chamados a completar em nossos corpos os sofrimentos de Cristo, a prolongar os sinais do esvaziamento por amor e a fazer germinar as sementes do Reino de Deus. A ressurreição se multiplica no testemunho e nas iniciativas dos discípulos, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos. Os sinais são pequenos, mas reais e promissores.

Jesus é como uma pedra que os construtores descartaram e foi por Deus transformada em pedra de ângulo, em pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a Páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais que são descartados pelas elites e pelos poderosos. Se não os tivermos no coração das nossas preocupações e projetos, nossa fé é construção sobre a areia, nosso amor pode virar patologia e nossa utopia se deteriora.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com calma, prestando atenção aos personagens, ao que eles fazem e ao que eles dizem

O que nos ensinam as “mulheres madrugadeiras”, que, graças à sua ousada coragem, tornam-se testemunhas da ressurreição?

Sua fé na ressurreição de Jesus tem força para mobilizar suas forças e colocá-las a serviço da mesma causa vivida por Jesus?

Com que palavras e com quais gestos podemos hoje anunciar e testemunhar a validade da vida e do caminho de Jesus?