sexta-feira, 10 de julho de 2026

Um profeta ousado

Será que Jesus Cristo deveria voltar à escola?

Está no evangelho segundo Lucas (15,1-7): “Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”. É como o caso de um pastor dedicado: ele deixa as 99 ovelhas no campo e vai atrás de uma que se perdeu. E, quando a encontra, toma ela no colo, volta para casa e reúne os vizinhos para festejar e participar da sua alegria. Será que 1 vale mais que 99?

Está no evangelho segundo João (6,1-13). Uma multidão segue Jesus na travessia do mar para escutá-lo. Vendo toda aquela gente, Jesus pergunta aos discípulos como alimentá-la. Eles fazem um rápido orçamento e concluem que custaria a renda de sete meses. Mas, com cinco pães e dois peixes que lhe são entregues, cinco mil cidadãos se alimentam o quanto querem, e a sobra enche doze cestos. Será que essa divisão é possível?

Está no evangelho segundo Mateus (20,1-16). Alguns assalariados começam a trabalhar para o mesmo patrão bem cedo, outros às nove horas, ao meio-dia e à tarde. Todos recebem o mesmo valor como pagamento: o necessário para viver um dia. Os primeiros murmuraram porque foram igualados aos últimos. Mas o patrão responde que a justiça considera a necessidade e não o mérito. Será que Jesus desconhece as leis?

Está em todos os evangelhos: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos”; “o primeiro e maior é o último e aquele que serve” (cf. Lc 13,30; 22,26; Mc 10,31.43; Mt 19,30; 20,16; 23,11; Jo 13,14). Isso é estranho, pois os primeiros sempre são os vencedores e bem-sucedidos, e os perdedores, condenados a servir e se submeter, são os imprestáveis. Será que Jesus não conhece os valores que garantem a ordem social?

Jesus não ignora o funcionamento das religiões e das instituições. Mas ele as critica com radicalidade, e propõe outra escala de valores e outros paradigmas de justiça. Não o representam as igrejas e comunidades que se fecham como gueto dos 99 justos, como seita que reúne os cidadãos mais honrados, ou as sociedades que premiam os vencedores por terem mérito e punem os empobrecidos porque os consideram fracassados.

Edifiquemos comunidades eclesiais que se alegram com cada pessoa que é protegida e supera a vulnerabilidade, porque “todas as vidas importam”. Elaboremos arcabouços legais que deem prioridade aos setores sociais que pagam com uma vida precária o desenvolvimento do país. E trabalhemos sem tréguas por estruturas econômicas e judiciais que assegurem a todos os cidadãos as condições básicas para uma vida digna.

Não tenhamos medo

O discípulo de Jesus não tem medo de ameaças

1138 | Tempo Comum | Semana XIV | Sábado | Mateus 10,24-33

No texto que meditamos ontem, Jesus nos apresentava as atitudes que devem nortear a vida dos discípulos missionários: confiança, simplicidade, prudência e perseverança. Hoje, no trecho que segue o de ontem, Jesus ressalta a importância de manter ele, seu anúncio e sua prática, em tudo e sempre, como modelo e referência, e de jamais deixar-se imobilizar ou guiar pelo medo.

Jesus começa sublinhando uma certa paridade entre o seu modo de viver e a atitude daqueles que ele envia como discípulos missionários. Trata-se de não buscar aplausos, protagonismos e posições de relevância, pois ele sempre se apresentou como servidor. Isso significa ter consciência de que as violências que ele sofreu poderão ser vividas também por aqueles que ele envia à sua frente e em seu lugar.

Jesus ilustra isso recorrendo à experiência comum das relações sociais: o discípulo não está acima do mestre, e o servo não está acima do senhor. Ele não critica isso que hoje seria inaceitável aos olhos do homem moderno, mas acrescenta que os discípulos missionários não são seus empregados, e sim irmãos e irmãs, parte da sua família. Se a Jesus, que é como que o chefe da família, o acusaram de ser agente do chefe dos demônios, isso também pode ocorrer com os irmãos e irmãs que ele envia.

Mas a insistência dessa exortação de Jesus recai sobre a necessidade de confiar, de não ter medo. O medo pode paralisar, limitar ou desorientar o anúncio e o testemunho do Reino de Deus, e pode levar os discípulos missionários até a fugir da missão. Mas, para Jesus, tudo está dentro do conhecimento compassivo e da vontade do Pai. Os “podres poderes” têm um poder limitado, têm “pés de barro”, e não podem matar o fermento da vida inaugurada em Jesus. Como diz Paulo, mesmo que seus enviados sejam perseguidos, o Evangelho não está algemado. 

Temer a Deus significa permanecer fiel à missão, pois ela é parte indissociável da vida nova em Cristo. Significa também ter mais em conta a vontade de Deus que as pressões e intimidações dos poderosos. Sem essa confiança de base, que é também a fonte da coragem profética, a vida perde seu esplendor e seu dinamismo. Deus é Pai e está próximo e atento às necessidades dos seus amados pequeninos. E nada escapa do seu cuidado por nós. Ademais, aquele que nos envia, é nosso advogado!

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoe em você e rumine por um instante cada uma das recomendações de Jesus aos discípulos 

Repita e deixe ecoar em sua mente e seu coração cada palavra de estímulo de Jesus aos seus discípulos

O que significa para você, nesse momento, a ordem insistente de Jesus: “Não tenha medo”?

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Pombas e Serpentes

Simples como pombas e astuto como serpentes

1137 | Tempo Comum | Semana XIV | Sexta-feira | Mateus 10,16-23

Nos últimos dias, Jesus informou sumariamente os discípulos sobre o campo, as tarefas, o suporte e o impacto da missão que confia aos discípulos missionários. No texto de hoje, Jesus apresenta as atitudes fundamentais que devem demarcar a vida missionária de quem adere a ele, em qualquer tempo ou lugar no qual realizam a missão: simplicidade, prudência, confiança e perseverança.

Jesus começa sublinhando que a missão se desenvolve num contexto de hostilidade, e é marcada por provações. Por isso, a tentação de desistir e desanimar estará sempre presente. O discípulo missionário será sempre como uma ovelha no meio de lobos, e precisa guiar-se tanto pela inteligência estratégica como pela simplicidade. Por isso, precisa mirar-se no pastor, modelo que o inspira e precede, sem “correr em raia própria”, sempre em comunidade.

A primeira atitude essencial do discípulo missionário é a simplicidade, que é o compromisso sincero e íntegro com o Reino de Deus, o compromisso de fazer sempre o bem e manter-se nele, de jamais desconfiar das pessoas ou ter medo delas. É claro que a referência à pomba não tem nada a ver com ingenuidade, mas tudo a ver com o modo de ser e de agir de Jesus. Ele é o missionário do Pai!

A segunda atitude é a prudência, ou sabedoria, que se mostra na escuta atenta e dócil da Palavra de Deus e na prática que lhe corresponde. É disso que brota a ‘esperteza evangélica’, aquela inteligência lúcida e autêntica que suscita criatividade e estratégias adequadas para levar a missão adiante, sem desvios e sem concessões. E não se trata daquela esperteza que se rege pela lei de levar vantagem em tudo.

A terceira atitude que não pode faltar ao discípulo missionário de Jesus é a confiança. Aqui se trata, antes de tudo, de confiança no Pai, na sua bondade, na sua providência imensamente divina. Nenhuma provação ou tribulação escapa ao seu olhar benevolente. Quem confia no Pai não se intimida diante das contrariedades, nem se vinga diante das perseguições. Quem confia sabe o que vale para Deus!

Por fim, e temperando as três atitudes anteriores, a perseverança, porque o discípulo missionário sabe que seu trabalho não é inútil e que as intempéries são passageiras e limitadas. Quem se mantiver fiel ao Mestre, no sucesso ou na perseguição, será por ele defendido, protegido e apresentado ao Pai. Ele é nosso primeiro defensor.

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoe em você e rumine por um instante cada uma das recomendações de Jesus aos discípulos

Qual das quatro atitudes que ele ressalta lhe parece mais relevante para as comunidades e seus missionários hoje?

Quais seriam outras atitudes que poderiam assegurar a credibilidade da evangelização hoje?

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Fazer como Jesus fez

Assim com o Pai enviou Jesus, ele nos envia

1136 | Tempo Comum | Semana XIV | Quinta-feira | Mateus 10,7-15

Na primeira parte da formação missionária que oferece aos apóstolos, depois de escolhê-los entre um grupo maior, Jesus delimitou o campo prioritário no qual deveriam agir: o povo cansado e abatido, ou as ovelhas perdidas da casa de Israel. Os samaritanos e pagãos ficariam para um segundo momento. No texto de hoje, Jesus fala das tarefas, do suporte e do impacto dessa missão.

Em relação ao que fazer, Jesus ensina que se trata de anunciar alegremente que o Reino de Deus chegou e de demonstrar isso com sinais concretos, exatamente como ele mesmo o fez: curando doentes, purificando leprosos, ressuscitando mortos, enfim: devolvendo vida e cidadania aos excluídos e sofredores. Isso significa que os eles devem continuar a missão de Jesus, estendendo-a no tempo e no espaço.

Em relação ao estilo de vida ou ao suporte da missão, trata-se de dar testemunho de despojamento, de evitar ser pesado para o povo, de não buscar vantagens, de deslocar-se discretamente pelas estradas, de abraçar a impotência e de confiar plenamente na hospitalidade do povo e na providência de Deus, fazendo das casas o foco irradiador da novidade do Reino de Deus, sem forçar nem impor nada.

No que se refere ao impacto da missão, o discípulo missionário deve contar com a acolhida benevolente e muitos, mas também com a resistência e a recusa de outros. Diante da recusa, não há lugar para a lamentação e muito menos para a ameaça: os discípulos devem continuar a missão noutro lugar e dirigir-se a outras pessoas. Sacudir a poeira dos pés significa dizer que a oportunidade foi concedida, mais que a Sodoma e Gomorra, e que a responsabilidade pelas consequências não recai sobre o missionário: ela repousa sobre que lhes interpõem dificuldades.

Focado no anúncio do Reino de Deus e tendo Jesus como modelo, para não afastar e criar dependência, o discípulo missionário não cria falsas expectativas nem exibe poder. Vive em si mesmo a novidade do Reino de Deus, abrindo as fronteiras e libertando-se dos vínculos familiares e sociais demasiadamente estreitos, e isso basta. Livre do compromisso com qualquer ideologia fechada e mesquinha, o discípulo missionário vive a profecia, a autocrítica e a coerência.

 

Sugestões para a meditação

Deixe que ressoe em você e rumine por um instante cada uma das recomendações de Jesus aos discípulos que ele envia

Qual dessas recomendações lhe parece mais relevante para as comunidades e seus missionários hoje?

Quais seriam as atitudes e ações prioritárias que poderiam assegurar a credibilidade da evangelização hoje?

Que atitudes costumamos tomar diante das pessoas e grupos que se fecham ao Evangelho?

terça-feira, 7 de julho de 2026

Tudo começpu com 12

Jesus continua chamando, formando e enviando

1135 | Tempo Comum | Semana XIV | Quarta-feira | Mateus 10,1-7

Ontem notávamos que, diante da exiguidade de recursos e da pequenez da comunidade frente à extensão da missão, Jesus não desiste nem se desespera: chama e envia discípulos, e pede que rezemos para que mais gente se incorpore a essa caravana da compaixão e da esperança. Jesus sublinha também a urgência desta missão, pois a colheita madura corre o risco de se perder, as pessoas cansadas e abatidas correm risco de vida.

Hoje, o evangelista nos apresenta o nome daqueles que são escolhidos por Jesus como colaboradores da missão. Eles são doze, para recordar as doze tribos do Israel antigo, que se organizaram de forma igualitária e descentralizada. De Jesus, recebem a autoridade para fazer o mesmo trabalho: anunciar a Boa Notícia da chegada do Reino de Deus; ensinar como corresponder adequadamente a essa novidade; dar sinais concretos dessa mudança curando e resgatando a vida dos sofredores.

Enviando discípulos em seu nome, Jesus está afirmando que não deseja ter junto de si uma espécie de grupo de adoradores dedicados ao culto e indiferentes ao mundo. A missão insere os discípulos no mundo com a responsabilidade de transformar, de curar, de ajudar a libertar as pessoas de todas as opressões. Como Jesus mesmo demonstrou, a prioridade dos chamados e enviados deve ser sair ao encontro do povo explorado e abandonado (as ovelhas perdidas são o rebanho sem pastor).

Proclamando a chegada do Reino de Deus e demonstrando-o com as ações de compaixão e solidariedade, os discípulos missionários estarão também desmascarando todo e qualquer reino que age diversamente ou contrariamente, inclusive o “império da lei”. No Reino de Deus há uma só lei soberana: a primazia da pessoa humana necessitada. Também aqui Jesus é o modelo, o caminho.

Na lista dos 12 escolhidos, além de nos brindar com o nome de cada um daqueles “ilustres anônimos”, o evangelista nos oferece poucas informações: são duas duplas de irmãos; de dois deles são nomeados os pais; um é descrito como ativista social, e outro como traidor. Se nosso nome estivesse nessa lista, como seríamos descritos?

 

Sugestões para a meditação

Deixe que cada nome dos escolhidos ressoe em você, que cada orientação de Jesus estimule sua caminhada

Seu nome também está nessa lista, as orientações missionárias de Jesus dizem também a seu respeito

O que significa hoje dar prioridade às “ovelhas perdidas”? Quem são as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade e correm riscos?

Como atualizar, em nosso tempo, a missão de expulsar demônios e curar as enfermidades?

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Colheita grande e pouca mão de obra

A compaixão move o coração dos discípulos

1134 | Tempo Comum | Semana XIV | Terça-feira | Mateus 9,32-38

Ontem contemplamos a bela cena da cura de uma mulher que sofria de hemorragia, e de uma menina que foi “levantada” depois de ser prostrada pela morte precoce. O evangelho de Mateus registra que a notícia foi se espalhando, e assim chegou até nós. Na meditação, perguntávamos também se cremos, como a mulher e o pai da menina, que o toque de Jesus pode nos curar e levantar. No evangelho de hoje, Jesus continua curando, e continua sua peregrinação pelo santuário das dores humanas, anunciando o Reino de Deus, ensinando e curando enfermos.

Jesus sempre é tocado pelo sofrimento humano, mas não fica no simples sentimento. Diante de um povo abandonado à própria sorte pelas autoridades, de um povo que é descrito como cansado e abatido, espoliado e abandonado, uma profunda compaixão toma conta de Jesus e o move a tomar iniciativas para mudar a situação e devolver a cidadania e a vida plena às pessoas e grupos. A compaixão, essa capacidade de se importar profundamente com a dor dos outros, é o segredo e o motor da sua missão.

O surdo-mudo da cena de hoje é mais um símbolo vivo e eloquente desse povo marginalizado e dependente. Sob a pressão do exército romano e das múltiplas carências que o encarceravam, o povo não consegue nem levantar seu próprio lamento nem gritar seu protesto. A ação de Jesus livra as pessoas desse tormento, a multidão se admira, mas os fariseus investem contra Jesus, acusando-o de agir em nome do demônio. Nada, porém, impede que Jesus continue sua missão de compaixão, anunciando a Boa Notícia de Deus, ensinando e curando. A força da compaixão é mais potente que a ameaça dos “podres poderes”.

O que ocorre é que Jesus percebe claramente que sua missão ultrapassa suas possibilidades. Ele sabe que não dará conta de fazer tudo sozinho. Ele precisa contar com muito mais gente nesse ministério da compaixão, que vence a indiferença e reconstrói a vida de um povo dilacerado. Diante da exiguidade de recursos e da pequenez da comunidade frente à extensão da missão, Jesus não desiste nem se desespera: chama-nos, envia-nos, e pede que rezemos, e busquemos mais colaboradores. Trata-se de ter um coração ardente e pôr os pés a caminho.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe cada palavra e cada gesto ou ação desta cena, observando bem a atitude dos diversos personagens

O segredo da vida e o motor da missão de Jesus é a compaixão, seu envolvimento visceral com as pessoas que sofrem

O que esta cena e estas palavras de Jesus nos ensinam sobre a missão da Igreja e nossa nos dias de hoje?

Como você, e as lideranças da sua comunidade, reagem às críticas ou acusações frente às iniciativas de evangelização e solidariedade?

domingo, 5 de julho de 2026

Uma menina, uma mulher

De Jesus brota um grande manancial de vida

1133 | Tempo Comum | Semana XIV | Segunda | Mateus 9,18-26

Nesta dupla cena descrita por São Mateus, temos a presença de vários elementos contrastantes: um chefe importante e reconhecido, e uma mulher anônima; a impotência dos oficiais e o poder libertador de Jesus; a doença e a cura; a prostração e a elevação; o ambiente público da rua e o espaço privado da casa; o pedido direto de uma pessoa socialmente relevante e a necessidade de uma mulher desprotegida.

A ação libertadora de Jesus cura e reabilita duas pessoas que sofrem e são marginalizadas: uma mulher e uma menina, ambas do extrato social mais vulnerável e desprezado num ambiente patriarcal. Mas enquanto a menina tem família e é filha de uma pessoa que tem cargo de chefia, a mulher que vê sua vida se esvaindo em sangue parece não ter ninguém por ela.

A menina tem alguém por ela, e seu pai, reconhecendo que seu poder é impotente, se aproxima de Jesus e pede em favor da filha. A mulher que sofre de hemorragia, ciente de sua pequenez, não tem ninguém que possa interceder por ela, e não pede nada: apenas se aproxima de Jesus e toca no seu manto, mantendo em segredo seu desejo, mas revelando sua confiança.

Há um elemento comum entre o chefe (não se diz se é chefe dos romanos ou dos judeus) e a mulher que interrompe a caminhada de Jesus à casa da menina do chefe: a fé na ação restauradora de Jesus. Talvez esse chefe, que em relação às crianças faz o contrário de Herodes, represente um modelo alternativo de liderança cristã, centrado no cuidado dos mais vulneráveis.

A mulher se aproxima de Jesus, sem reverência, mas com grande fé, tanto que, nesse toque, Jesus reconhece sua fé e fica impressionado. O chefe também, a seu modo, crê que o toque de Jesus dará vida à sua filha. Para Jesus, a fé é que fez o trabalho de cura da mulher, por isso deve ela ter coragem, e a menina não está morta, mas precisa ser “elevada”, reestabelecida, reinserida na sociedade, ou seja, curada.

Como os escribas e fariseus, a multidão reunida na casa do pai da menina não espera nada de Jesus, e até caçoa dele. Diante disso, Jesus evita fazer gestos espetaculares, e pede que aqueles que esperam apenas isso se retirem da cena. A cura ocorre em modo reservado, mas a notícia se espalha e chega até nós. Cremos como a mulher e o pai da menina que o toque e a Palavra de Jesus podem nos curar e levantar?

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe cada palavra, gesto ou ação desta cena, observando como as pessoas se dirigem a Jesus e o que ele faz por elas

O que a intercessão do pai da menina e a iniciativa doente podem nos ensinar?

É possível perceber como Jesus evita dar prioridade às necessidades de pessoas de classe superior em desfavor dos pobres?

sábado, 4 de julho de 2026

Os segredos de Deus

O caminho do bem-viver não é fardo que pesa

1132 | Tempo Comum | Semana XIV | Domingo | Mateus 11,25-30

Num contexto de rejeição de sua pessoa e sua mensagem, Jesus eleva seu louvor ao Pai pelos discípulos humildes, que entendem e acolhem o caminho do Reino de Deus. E sublinha que é vontade de Deus que a elite do judaísmo nada entenda. Que o povo de Corazin e Betsaida não tenham acolhido sua mensagem e seus enviados não é um fracasso missionário, mas a realização plena de sua missão libertadora.

Esta cena é, juntamente com a transfiguração, um dos momentos culminantes do Evangelho segundo Mateus. É um gozo exultante que brota da experiência de Deus como Pai. Aqui Jesus como que se transfigura e irradia a luz de Deus, abrindo seu coração e revelando sua espiritualidade mais profunda: a predileção do Pai, seu vínculo filial e a missão que dele recebeu. Sua alegria e seu consolo é ver que a missão dos seus enviados tenha atingido seu objetivo: o povo simples, cansado e abatido entendeu e acolheu a Boa Notícia do Reino de Deus.

Em uma sociedade na qual o prestígio era uma forma de poder e de segurança econômica, a ignorância era considerada não apenas um sinal de ausência de cultura e conhecimento, mas um fator de diminuição e desconsideração. As pessoas que desconheciam as leis eram consideradas malditas em alguns círculos judaicos. Mas, para Jesus, a dignidade e a salvação não dependem de um elevado grau de conhecimento e cumprimento do aparato legal e moral, mas da capacidade de identificar e acolher a passagem de Deus na história.

Para encontrar alívio dos fardos, os seguidores de Jesus precisam acolher com alegria sua proposta. Sua palavra e suas ações abrem as portas da liberdade e da humanização, e todos precisamos aprender dele e com ele a reconhecer e promover, em palavras e ações, o Reino de Deus, que suscita e inaugura práticas, estruturas, relações, prioridades e perspectivas alternativas. Jesus nos convida a livrarmo-nos das cargas da lei e carregar um fardo mais leve: a humildade e a mansidão.

O jugo de Jesus não é canga que se impõe, amarra e domina, mas leveza que nos torna mais humanos. E ele nos convida a aprender do seu coração a mansidão e a bondade, a tolerância e a reconciliação, pois nele não há espaço para a indiferença, a vingança e a violência. O Reino que ele encarna e antecipa é suave, bom e amável, é misericórdia e compaixão que afirma, reabilita e liberta os oprimidos.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você o louvor orante de Jesus e seu convite intenso e caloroso para que nos aproximemos dele e aprendamos dele

O que a ênfase no coração, na concretude humana e na compaixão de Jesus nos ensinam?

Assuma a atitude contemplativa e orante de Jesus, e reze com as palavras e frases que ele nos propõe no evangelho de hoje

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Os sábios e os simples

DEUS É PARA GENTE SIMPLES

Há muitos anos, um mestre de exegese iniciava-nos na difícil arte de desvendar o evangelho de Mateus. Tudo parecia pouco para captar o sentido último do texto: crítica textual, análise literária, estrutura da passagem. Um dia chegamos àqueles versículos em que Jesus exclama: «Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos simples».

O professor fez um longo silêncio. Depois disse-nos muito devagar: «Nunca esqueçam estas palavras. Tudo o resto podem esquecer». Foi provavelmente a melhor lição de exegese que recebi. E ao longo dos anos, pude ver que é mesmo assim. Sempre que tive a impressão de estar junto de alguém próximo de Deus, era uma pessoa de coração simples. Às vezes alguém sem grandes conhecimentos, outras vezes alguém de notável cultura, mas sempre um homem ou mulher de alma humilde e limpa.

Mais de uma vez pude comprovar que não basta falar de Deus para despertar a fé. Para muita gente, certos conceitos religiosos estão muito desgastados, e mesmo que se tente recuperar todo o vigor e sabor que tiveram na origem, Deus continua fossilizado nas suas consciências. No entanto, encontrei pessoas simples que não parecem precisar de grandes ideias nem raciocínios. Intuem de imediato que Deus é «um Deus oculto», e do seu coração nasce espontaneamente uma invocação: «Senhor, mostra-me o teu rosto».

Encontrei também pessoas que se movem sempre no terreno do útil. Algumas abandonam Deus porque lhes parece perfeitamente inútil; outras mantêm-no e prestam-lhe culto porque lhes serve. No entanto, conheci pessoas simples que vivem dando graças a Deus. Desfrutam do que há de bom na vida, suportam com paciência os males; sabem viver e fazer viver. Não sei como o conseguem, mas do seu coração parece brotar sempre o louvor ao Criador. A sua vida é um acerto.

Expus muitas vezes temas religiosos e falei de Deus perante pessoas muito diversas. Por vezes encontrei pessoas que colocavam perguntas e mais perguntas sobre todo o tipo de questões teológicas, sem mostrar o menor interesse em encontrar-se com Deus.

Mas vi também gente simples cujos olhos brilhavam de forma especial quando eu lia textos como este do profeta Isaías: «Eu sou o Senhor, teu Deus… Tu és precioso aos meus olhos, és valioso e eu te amo… Não temas, pois estou contigo» (Isaías 43,4); ou quando pronunciava o Salmo 103: «Como um pai sente ternura pelos seus filhos, assim sente ternura o Senhor por aqueles que o temem. Pois Ele sabe de que somos feitos, lembra-se de que somos pó» (Salmo 103,13-14). Sim, Deus revela-se aos simples.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez


Festa ou jejum?

É tempo de festejar a irrupção da Vida nova

1131 | Tempo Comum | Semana XIII | Sábado | Mateus 9,14-17

Ontem meditamos sobre o texto de Jo 20,24-29, pois era a festa de São Tomé. O texto que antecede o de hoje narra o chamado de Mateus e a festa que ele deu a Jesus na sua casa. Participaram da festa muitos pecadores e excluídos, como ele. Diante do escândalo dos fariseus, Jesus dizia que Deus quer misericórdia, e não sacrifícios, e que são os doentes os que precisam de médico. E é assim que ele faz: derruba todos os muros que separam e degraus que hierarquizam, e estabelece a igualdade.

Na cena de hoje, quem se aproxima de Jesus é um discípulo de João Batista. Ele estranha o comportamento de Jesus: parece-lhe pouco piedoso em relação ao jejum, e a mesma atitude é demonstrada pelos seus discípulos. “Por que razão nós e os fariseus praticamos jejuns, mas os teus discípulos não?” Não parece ser uma acusação, mas um questionamento sincero de quem havia recebido uma clara ordem de jejum e penitência e estava à espera do messias prometido pelos profetas.

Para Jesus, o tempo de espera terminou, o Sol da justiça raiou, o Noivo amado celebrou suas núpcias e o clima só pode ser de alegria. Os estrangeiros, doentes e pecadores, e todos os excluídos, são acolhidos gratuitamente. Não há mais lugar para o jejum, que é uma súplica de perdão. A chegada de Jesus, o Messias esperado, perdoa os pecados e altera radicalmente a situação social e espiritual.

Para ilustrar a novidade que se inaugura, Jesus lança mão de três alegorias ligadas à vida cotidiana e de fácil compreensão para todos: é inadmissível fazer luto e jejum quando estamos festejando de casamento de uma pessoa querida; é idiotice colocar um remendo de pano novo e bom num tecido totalmente arruinado; é inapropriado guardar vinho novo em barris velhos e frágeis, que podem pôr tudo a perder.

Os discípulos de Jesus vivem em comunidades alternativas, dedicados a acolher as pessoas e grupos marginalizados e a celebrar a alegria da chegada do “tempo da graça”, da festa dos pequenos. As práticas antigas são como roupa velha e como uma pipa apodrecida. É tempo de abandonar as velhas lições de morrer pela pátria e viver sem razões. Esperar não é saber. É preciso fazer a hora, sem esperar acontecer.

 

Sugestões para a meditação

Como poderíamos descrever hoje a novidade do estilo de vida inaugurado e proposto por Jesus?

Quais seriam as práticas antigas que o Evangelho considera superadas, mas que muita gente ainda continua pregando?

Quais seriam os principais remendos que uma vida pouco cristã tenta pregar o tecido apodrecido do capitalismo e do egoísmo?

O que podemos fazer para tornar a vida cristã mais alegre, leve e festiva, sem deixar de ser comprometida com as lutas humanas?