sábado, 28 de fevereiro de 2026

Caminho X Tenda

É preciso levar a sério o Evangelho da Cruz!

1005 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | 17,1-9

Os discípulos haviam dito que reconheciam Jesus como “o Messias, o Filho do Deus Vivo” (cf. Mt 16,11). Mas discordaram e resistiram fortemente quando Jesus lhes dissera que seria perseguido e morto pelas mãos dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei (cf. 16,21-23). E fecharam os ouvidos quando Jesus colocou como condição para segui-lo tomar a cruz dos excluídos e dar a própria vida (cf. 24-28), um modo muito particular de “ganhar a vida”. É a condição atual de muitos cristãos: buscam em Jesus apenas prosperidade e alívio.

A cena audiovisual da transfiguração de Jesus está ligada a essa situação, e tem como objetivo superar a resistência dos discípulos e tornar visível a esplendorosa humanidade de Jesus. O protagonista da cena é o Pai, e a beleza da humanidade de Jesus deixa os discípulos extasiados, tanto que desejam prolongar essa experiência. Na proposta de fazer três tendas transparece o medo de prosseguir com Jesus o caminho até Jerusalém. É como se Pedro dissesse: “É melhor parar por aqui...” Mas essa cena é uma espécie de chave que abre o sentido da pregação e da paixão de Jesus.

A montanha e a nuvem são sinais que apontam para uma manifestação divina. Mas essa revelação não acontece no templo de Jerusalém, nem é dada às elites religiosas, a pessoas que se autoproclamavam mediadoras de Deus, mas num lugar marginal e a três pessoas pouco relevantes. A presença de Moisés e de Elias, além de buscar o testemunho da Lei e dos Profetas em favor daquilo que Jesus faz e ensina, também lembra que os profetas, como Jesus, são perseguidos. A voz imperativa manda escutar e entender o que Jesus disse, diz e dirá na sua vida, morte e ressurreição.

Diante da voz que afirma que Jesus é o filho amando do Pai e deve ser escutado, os três discípulos caem de susto. Reconhecem a presença divina em Jesus e se assustam com a confirmação do caminho da cruz. Deus faz Pedro calar (como em 16,23), mas o toque de Jesus cura a falta de fé e encoraja. Eles são proibidos de falar do que viram porque sua compreensão do mistério de Jesus é ainda limitada, e devem esperar a paixão de Jesus. O imperativo que vem da voz de Deus é incontornável: todos devemos escutar atentamente o que diz Jesus. Quaresma é tempo especial para isso.

 

Sugestões para a meditação

Procure participar da cena com sua imaginação: veja o desconforto dos discípulos diante do caminho proposto por Jesus; os três escolhidos subindo a montanha com ele; o êxtase deles frente ao brilho da humanidade de Jesus; o medo que os joga no chão quando a voz pede que eles levem Jesus a sério

Veja o testemunho de Elias e Moisés, que lembram a incompreensão e a perseguição sofrida pelos profetas

Ouça a ordem de escutar o que ele diz, e sinta o toque dele encorajando e curando suas resistências e sua falta de fé

Escutem o que ele diz

Ouvir Jesus Hoje

Ainda há alguns anos, era a religião que oferecia à maioria das pessoas critérios para interpretar a vida e princípios para orientá-la com sentido e responsabilidade. Hoje, pelo contrário, há muitos que prescindem de Deus para enfrentar sozinhos a sua vida, os seus desejos, medos e expectativas.

Não é tarefa fácil. Provavelmente nunca foi tão difícil e problemático para o indivíduo parar para pensar, refletir e tomar decisões sobre si mesmo e sobre o que é importante na sua vida. Vivemos mergulhados numa cultura sem transcendência, que prende as pessoas ao aqui e ao agora, fazendo-as viver apenas para o imediato, sem qualquer abertura ao mistério último da vida. Movemo-nos numa cultura do entretenimento que arranca as pessoas de si mesmas e as faz viver esquecidas das grandes questões que carregam no coração.

O homem dos nossos dias aprendeu muitas coisas, está informado sobre tudo o que acontece no mundo à sua volta, mas não sabe o caminho para conhecer-se a si mesmo e construir a sua liberdade. Muitos subscreveriam a sombria descrição feita há alguns anos pelo diretor de La Croix, G. Hourdin: «O homem tornando-se incapaz de querer, de ser livre, de julgar por si mesmo, de mudar o seu modo de vida. Está transformando-se num robô disciplinado que trabalha para ganhar dinheiro, que depois desfrutará em umas férias coletivas. Lê as revistas de moda, vê os programas de televisão que todos veem. Aprende assim o que é, o que quer e como deve pensar e viver».

Precisamos mais do que nunca atender ao apelo evangélico: «Este é o meu Filho amado, o meu predileto. Escutai-o». Precisamos parar, fazer silêncio e escutar mais a Deus revelado em Jesus. Essa escuta interior ajuda a viver na verdade, a saborear a vida nas suas raízes, a não desperdiçá-la de qualquer maneira, a não passar superficialmente ante o essencial. Escutando Deus encarnado em Jesus descobrimos a nossa pequenez e pobreza, mas também a nossa grandeza de seres infinitamente amados por Ele.

Cada um é livre para viver escutando Deus ou virando-lhe as costas. Mas, em qualquer caso, há algo que todos devemos recordar, mesmo que pareça escandaloso e contracultural: viver sem um sentido profundo e último é viver de forma «insensata»; agir sem escutar a voz interior da consciência é ser um «inconsciente».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Fraternidade & moradia

“Moro onde não mora ninguém...”

Em 1975, Agepê lançou um álbum com este título. Na faixa em destaque, o compositor e intérprete canta, com lirismo e nostalgia, o lugar onde mora e se sente bem. O bem-estar que uma moradia simples e humilde proporciona também é cantado por Chico Buarque, num poema de Vinicius de Morais que ele musicou em 1970: “Gente Humilde”.

Assim canta Agepê: “Moro onde não mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro que eu me sinto bem! Não tem bloco na rua, não tem carnaval, mas não saio de lá. Uma casinha branca no alto da serra; um coqueiro ao lado, um cachorro magro amarrado. É lá que eu vivo sem guerra, é lá que eu me sinto bem”.

Não é preciso transcrever outras canções como “Tristeza do Jeca”, “Cidadão”, “Casinha Branca” e “Saudosa Maloca” para demonstrar como a questão da moradia digna está vivamente presente no cancioneiro brasileiro, como drama ou como utopia. Por isso, não deve estranhar que a Igreja católica hoje traga a questão da moradia para dentro dos templos.

Não podemos fechar os olhos para a grave questão da moradia no Brasil: 26 milhões de famílias vivem em moradias inadequadas; 6 milhões de famílias necessitam de uma moradia hoje; 330 mil pessoas vivem em situação de rua; 9 milhões de pessoas moram em áreas de risco; 16 milhões de pessoas vivem em favelas (que são “não-cidades”). Eles sim são obrigados a morar onde ninguém deveria morar...

Voltando a atenção a Santa Cruz do Sul, segundo o último censo, apenas 61% das famílias vivem em moradias próprias e quitadas; recentemente, mais de 800 famílias disputaram 250 casas de um programa habitacional; mais de 30 mil pessoas têm uma renda de até meio salário mínimo. Com essa renda, como poderão adquirir uma casa ou pagar aluguel?

Estamos habituados a tratar a moradia como uma mercadoria entre outras. Quem pode, compra. Mas a Declaração Universal dos Direitos Humanos insere a moradia entre os direitos humanos (cf. art. 25). E a Constituição Federal a insere entre os direitos sociais dos cidadãos brasileiros (cf. art. 6º). E cabe ao Estado assegurar o acesso a esse direito!

Os discípulos e discípulas de Jesus não podemos passar ao largo do drama da moradia, que fere grande parte dos nossos irmãos e irmãs. Jesus nos adverte sobre isso numa parábola (cf. Lucas 10,25-37): o serviço ao culto, a busca do bem-estar individual e a obsessão pela segurança não são álibis para ignorar a dor que fere os irmãos e irmãs.


Amar até os inimigos

A medida do amor cristão é amar sem medida

1004 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 5,43-48

Na escuta do evangelho de ontem, fomos provocados a viver uma justiça maior do que a justiça dos fariseus. “Não matar” não é a medida máxima, mas a medida mínima do amor. Porque nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente, relacionar-se bem com ele jamais será um peso, uma grande alegria. E o caminho para isso é a disposição permanente à reconciliação.

No trecho do evangelho que estamos meditando hoje, Jesus nos oferece um segundo exemplo de uma justiça maior que a justiça dos fariseus: não basta amar o próximo (aqueles que são iguais, pertencem ao mesmo sangue, à mesma religião, à mesma ideologia, ao mesmo grupo de interesses) e cultivar uma olímpica indiferença ou uma belicosa agressividade com os inimigos (os outros, os diferentes, os adversários, os que não pertencem aos nossos círculos de relacionamento).

A simples reciprocidade entre amigos e próximos pode ser sinal de egoísmo de grupo e não ter nada de Evangelho ou de cristão. “Os pagãos e os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa?” O amor não é espontaneidade, gentileza acomodada que evita a realidade e os conflitos, nem algo facultativo, que depende da ocasião ou do estado de espírito. Para os cristãos, o amor é atitude e decisão. E a experiência demonstra que é mais fácil odiar os inimigos que amar o próximo.

Para Jesus, e para quem segue seu caminho, a medida do amor é o próprio Deus, que envia o sol e a chuva para maus e bons. Ele é pai que dá vida de forma indiscriminada e incondicional, por mais que não gostemos disso. Deus é perfeito no seu amor, e o amor perfeito deve ser pleno e inclusivo, e não dividido ou condicional. E os filhos devem imitar o Pai, como os discípulos devem imitar o Mestre.

O amor aos inimigos, aos que se opõem a nós ou nos perseguem, é o mandamento mais exigente de Jesus. Amar concretamente e em bitola universal é um desafio que pede profecia e um estilo de vida alternativo, que não ignora nem protege relações iníquas e distorcidas. O poeta nos pede para amar como se não houvesse amanhã. Mas é mais correto dizer: amemos e cuidemos, para que haja amanhã.

 

Sugestões para a meditação

Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente amar os próximos, é preciso amar os inimigos?

Como entender hoje a contraposição que Jesus faz entre o amor aos iguais (reciprocidade) e o amor aos inimigos (gratuidade)?

Como você, sua família e sua comunidade podem concretizar este ensinamento de Jesus de amar e respeitar os “diferentes”?

Quem são as pessoas que hoje você vê como ameaça ou como inimigas, ao menos potencialmente?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Da raiva ao homicídio

No Senhor encontramos graça e redenção

1003 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 5,20-26

Depois de propor o caminho da felicidade plena e duradoura (bem-aventuranças), Jesus sublinha que esse caminho requer a vivência de uma justiça maior que aquela demonstrada pelos escribas e fariseus. E dá uma série de exemplos, dos quais o texto de hoje nos apresenta o primeiro. Jesus parte das Escrituras Sagradas, mas não se detém na lei fria. Para ele, a Escritura tem como finalidade assegurar a proteção social dos vulneráveis e a comunhão harmônica no interior da comunidade.

Nesta perspectiva, Jesus reinterpreta o 5º mandamento da lei de Moisés, ciente de que o homicídio começa bem antes do ato concreto que o realiza, e tem suas raízes na falta de respeito à dignidade de quem é diferente de nós, configurada na raiva e no insulto. Não matar não é o teto da justiça, mas o seu mínimo, ou seu ponto de partida. A fraternidade sem fronteiras e a reconciliação sempre renovada são exigências primárias do Evangelho do Reino, e os discípulos não podem ignorar isso.

A justiça maior que aquela ostentada pelos fariseus se expressa na vivência da fraternidade e da reconciliação, ou seja: agindo para que o diferente seja acolhido e viva dignamente. Isso é tão importante e decisivo que Jesus ensina que a nossa comunhão com Deus depende da reconciliação com as pessoas e grupos que divergem de nós e até nos perseguem. A atitude de pacificação e reconciliação é mais importante que a doutrina ortodoxa e o culto divino!

É claro que Jesus não recomenda fazer um momento de parada durante a celebração ou a apresentação das oferendas. Ele usa esta imagem forte para reforçar a absoluta importância de cultivar, manter e reatar os vínculos que, tanto do ponto de vista humano como religioso, nos unem ao próximo. E não se trata apenas de constatar que ofendemos alguém e que isso nos pesa na consciência. Jesus nos pede para verificar se nós mesmos agimos mal e provocamos dano e ressentimento aos outros.

O nosso próximo, sendo diferente, e até mesmo divergente de nós, é um dom, um presente; jamais um inimigo ou um concorrente. Relacionar-se fraternalmente com ele não pode jamais ser um peso, mas deve ser sempre uma grande alegria, mesmo quando comporta exigências. Talvez seja importante começar pela pacificação da nossa linguagem, dos nossos sentimentos e dos nossos pensamentos.

 

Sugestões para a meditação

Que impacto tem sobre você este ensino de Jesus: não é suficiente não matar, é preciso evitar a raiva e o insulto?

Quais são as consequências do conselho de Jesus: interromper o culto e as ofertas para primeiro se reconciliar com quem prejudicamos?

Com quem você precisa se reconciliar hoje? Quem são as pessoas que poderiam ter uma queixa contra você?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Deus é Pai, e é bom

Deus faz por nós mais do que ousamos pedir!

1002 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Mateus 7,7-12

Ontem meditamos sobre o texto que nos ensina que Jesus, no dom generoso de si através de uma vida e uma morte absolutamente solidárias, tornou-se o sinal mais eloquente do amor de Deus pelas suas criaturas.  Nele, com ele e por ele recebemos tudo, e não perdemos nada. Com sua vida e sua palavra, ele nos ensina que, da confiança na bondade do Pai, brota a liberdade para se dedicar ao Reino.

É sobre a bondade do Pai e a necessidade de confiar plenamente nele que Jesus nos fala no texto de hoje. Ele já havia dito que trazia uma Boa Notícia de Deus: Deus não é inimigo, cobrador, juiz e general, mas pai que acolhe, socorre e perdoa, especialmente aqueles que se encontram em situação de maior vulnerabilidade ou são discriminados e excluídos, como são as pessoas que passam fome.

Ele havia ensinado a rezar ativando o desejo da vinda do Reino de Deus, e havia também convidado a olhar para a confiança e a liberdade que sustentam as aves dos céus e embelezam os lírios do campo. E agora, ainda em pleno “Sermão da Montanha”, Jesus sublinha de novo a atitude de confiança que se espera do discípulo, tanto na oração como no desempenho da missão. Confiar, pedir, lutar e perseverar: isso é o essencial; o resto vem depois.

Jesus nos convida a refletir sobre nossa experiência comum. Será que alguém, em sã consciência, seria capaz de dar uma pedra a quem pede um pão, ou cobra a quem pede carne? Jamais, se ainda não abdicamos do nível mais raso da nossa cota de humanidade! E Deus, que é Pai e é bom, seria indiferente às nossas necessidades, ou capaz de sentir prazer em ver-nos em desespero? Claro que não! O segredo é pedir corretamente, como Jesus ensinou no Pai-Nosso. Pedir corretamente, e confiar.

Qual é o fundamento da nossa relação com Deus? Ela precisa ter como base a confiança absoluta nele. Sem essa base, é praticamente impossível entregar nosso destino em suas mãos, estabelecer a sua Palavra como bússola que guia nossas buscas. Para sermos discípulos precisamos estar convictos da fidelidade do Pai, da sua bondosa prontidão para atender às súplicas que lhe dirigimos.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, este ensino de Jesus sobre a atitude de confiança na oração e na missão

Você que teve a sensação de que Deus fechou os ouvidos e as portas aos seus pedidos e necessidades?

Aquilo que costumamos pedir a Deus na oração é realmente aquilo que é indispensável para a realização do Reino de Deus?

A imagem que fazemos de Deus tem os traços e cores do amor e da compaixão, ou ainda tem resquícios de onipotência e ameaça?


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Converter-se é preciso

Dai-nos, Senhor, um espírito decidido!

1001 | Quaresma | 1ª Semana | Quarta  | Lucas 11,29-32

A missão de Jesus não era aceita unanimemente, pois provocava muitas controvérsias. Algumas lideranças religiosas diziam que, para curar doentes e possessos, Jesus havia feito uma aliança com a Diabo. Ele se defendia com ações, com sólidos argumentos e recorrendo a parábolas. Nesse contexto, alguém elogia sua mãe por ter trazido ao mundo alguém tão especial como ele. E Jesus reage afirmando que a honra pertence a quem ouve e pratica a Palavra de Deus.

Diante rejeição e do fechamento das pessoas, especialmente dos líderes religiosos, à Boa Notícia do Reino de Deus, e diante do insistente pedido de que apresente suas credenciais de enviado de Deus realizando sinais capazes de impressionar, Jesus declara: “Esta geração é uma geração perversa”. E se recusa a transformar o Reino de Deus em espetáculo mediante sinais grandiosos. E não faz nenhum milagre.

Jesus diz que o sinal do profeta Jonas continua em vigor, e vale para os seus interlocutores: um apelo à mudança de atitudes e de interesses, a voltar-se de coração a Deus e à sua vontade, e ao serviço ao próximo e suas necessidades. E mais ainda: Jesus apresenta a si mesmo como sinal, de modo que quem não reconhece o sinal da ação de Deus na sua compaixão pelos vulneráveis está dando as costas a Deus.

Numa postura claramente provocativa, Jesus afirma ainda que os “piedosos” judeus que o rejeitam são piores que os pagãos que eles tanto desprezam. Enquanto uma rainha pagã reconheceu a sabedoria de Salomão, e o povo pagão de Nínive aceitou a pregação de Jonas e se converteu, eles, em nome de uma limitada imagem de Deus, desprezam o Filho do Homem, que é maior que Salomão e que Jonas.

Precisamos aprender que Deus gosta manifestar-se de modo discreto, com sinais pequenos, mas eloquentes, e até na contramão das avenidas mais transitadas: na compaixão pelos pequenos, na doação de si mesmo, na comunhão com os últimos, na acolhida e no perdão aos pecadores, na morte na cruz. A conversão ao Reino de Deus precede qualquer milagre. E aqueles que são desprezados por serem pagãos, por suas atitudes de conversão, serão juízes daqueles que posam como piedosos.

 

Sugestões para a meditação

Será que estamos sendo capazes de acolher e valorizar os gestos e iniciativas humanitárias de gente de outros grupos e religiões?

Poderíamos afirmar sem medo de errar que temos levado sempre a sério a nossa conversão ao Evangelho do Reino de Deus?

Somos capazes de identificar na compaixão transformadora e amorosa de Jesus o sinal mais eloquente de sua divindade?

Ou ainda somos tentados a pedir e esperar sinais espetaculares de Deus para mudar as coisas que estão ruins?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Rezar bem

A oração não se presta à espetacularização

1000 | Quaresma | 1ª Semana | Terça  | Mateus 6,7-15

As comunidades cristãs, aprenderam e ensinaram, desde muito cedo, que a oração, junto com a partilha dos bens e o jejum, é uma das formas mais expressivas de viver a quaresma e preparar a Páscoa. Jesus supõe a oração como óbvia para quem o segue e se entrega a Deus Pai. Daí que, falando de oração, Jesus chama a atenção para as atitudes equivocadas na oração, e indica o caminho da oração cristã.

O texto de hoje está inserido na primeira grande catequese de Jesus segundo o evangelho de Mateus, conhecido como “Sermão da Montanha” (Mt 5,1-7,29), e foi omitido na quarta-feira de cinzas. E a primeira advertência de Jesus em relação à oração é para não multiplicarmos louvores e pedidos vazios. Hoje parece que se tornou moda promover encontros de oração massivos e barulhentos, multiplicar Ave-Marias e prolongar tardes de louvor e orações de intercessão.

Em seguida, Jesus aponta para a atitude de base que deve ser revelada e cultivada na oração: a discrição e a dispensa de toda forma de espetacularização. Mandando “entrar no seu quarto”, Jesus não está falando do lugar adequado ou exclusivo para rezar, mas sublinha a necessidade de evitar a publicidade, ou de rezar colocando nossa atenção mais na impressão que causa nos outros que em Deus.

Finalmente, Jesus fala do conteúdo essencial da oração cristã, mas não ensina uma oração a mais. Na primeira parte, a ênfase está no compromisso e na ação: santificar o nome de Deus, ou aceitar que Deus não seja o espelho dos nossos egoísmos, mas faça justiça às vítimas; agir para que o reino de Deus venha a com sua força demolidora dos muros; que pratiquemos a vontade de Deus (que todos os seus filhos e filhas tenham vida em abundância) em todos os tempos e lugares

Na segunda parte do seu ‘roteiro de oração’, Jesus nos ensina a pedir a Deus, que é Pai e nos conhece e ama, aquilo que é essencial à nossa convivência: o alimento necessário à vida cotidiana e comum; o perdão que desfaz muros e reata relações rompidas; a liberdade diante das pessoas e estruturas que resistem e se opõem ao Reino de Deus. O resto deve ser fruto do essencial, e nos vem por acréscimo.   

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, a advertência e o ensino de Jesus sobre a atitude e o conteúdo da oração cristã

Que lugar a oração (e a celebração) ocupa na sua vida, na vida da sua família e da sua comunidade cristã?

Quais são os pedidos (e os agradecimentos) que você repete mais amiúde em sua oração pessoal, familiar e comunitária?

Em que medida o desejo de que a vontade do Pai e a ação transformadora do seu Reino ocupam o centro da sua oração?

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Quando isso aconteceu?

Ele não tem moradia digna, e o que fizemos?

999 | Quaresma | 1ª Semana | Segunda  | Mateus 25,31-46

Esta parábola faz parte dos ‘discursos escatológicos’ de Jesus. É uma catequese que nos leva a pensar no fim dos tempos para destacar o que realmente tem valor agora. É claro que, dizendo que o Filho do Homem virá ‘na sua glória’ e se sentará em seu ‘trono glorioso’, Mateus está comparando Jesus a um rei. A expressão ‘Senhor’ também tem o mesmo sentido, pois esse era o apelativo com o qual o povo se dirigia aos chefes, reis e imperadores. Meditemos o texto em perspectiva quaresmal.

Esta parábola compara Jesus a um juiz. “Todos os povos serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos”. Julgar significa discernir o verdadeiro valor das ações concretas das pessoas, separadas em dois grupos, a partir daquilo que fizeram, e não a partir dos títulos ou das intenções. Mas é interessante perceber que, mesmo no papel de juiz, Jesus age como pastor.

Não podemos esquecer que Jesus decidiu sentar-se à mesa como conviva dos pecadores, e não como juiz num tribunal. Sua vida comprova que ele foi ao encontro dos marginalizados e assumiu a causa deles. Não os esperou sentado para julgar! João Batista o anuncia como ‘cordeiro de Deus’, como aquele que dá a vida.

No confronto com as autoridades do seu tempo e com as ambições de poder dos discípulos, o próprio Jesus declara: “Eu estou no meio de vocês como quem está servindo” (Lc 22,27). A vivência do espírito quaresmal pede que nos coloquemos na perspectiva de quem serve, de quem dá o melhor de si mesmo pelos irmãos e irmãs.

O mais importante, porém, está um pouco escondido nessa instigante parábola. Diante da pergunta sobre quando foi que o servimos, ele responde: “Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram...” O que nos julga é a nossa atitude em relação às pessoas vulneráveis.

Jesus é irmão dos homens e mulheres mais necessitados, irmão daqueles que não têm moradia ou moram precariamente, dos doentes, dos presidiários. Irmão universal, de todas as criaturas. Um cristão não pode passar ao largo das necessidades de ninguém, pois estaria deixando de lado o próprio Cristo.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, e contemple gesto por gesto esta memorável parábola de Jesus

Escute atentamente as perguntas dos dois grupos de personagens, assim como as palavras do juiz e Senhor

Em qual dos dois grupos você pode se situar, honestamente? Quais atitudes e ações suas justificam essa identificação?

Como essa parábola pode nos ajudar a construir uma fraternidade sem fronteiras, especialmente em relação ao drama das pessoas que não têm uma moradia digna?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Tentações e tentativas

Com Jesus, superemos todas as tentações

998 | Quaresma | 1ª Semana | Domingo  | Mateus 4,1-11

Jesus fizera a experiência de ser Filho querido e precioso aos olhos do Pai, mas parece que lhe era difícil assumir a condição humana: a impotência, a carência, a falta de imagens concretas e palpáveis de Deus nos inquieta e deixa inseguros. E aqui está a verdadeira tentação: manipular Deus e viver indiferente a tudo e todos.

Jesus foi tentado pelo diabo, este personagem que simboliza o espírito invisível do império romano, de todos os impérios. As lideranças políticas e religiosas são a forma institucional deste dinamismo misterioso e potente que opõe resistência aos propósitos de Deus e impõe seus caminhos por meio da indiferença, da injustiça e do medo. E esta força tentadora está presente inclusive no templo.

A lógica do poder questiona e desafia Jesus sobre o modo mais correto e eficaz de viver sua filiação divina. A primeira tentação é aproveitar-se da condição de filho para exibir o poder de Deus e saciar a própria fome, agindo em benefício próprio e sem se importar com os demais. Jesus vence esta tentação afirmando que a nossa sobrevivência depende da obediência a Deus e à sua Palavra.

A segunda tentação ocorre no centro político, social e religioso do judaísmo. Jerusalém e o seu templo se transformam em obstáculo à lealdade a Deus. Aqui a tentação é exigir provas da proteção de Deus sem a contrapartida da fidelidade, pedir a Deus uma exibição grandiosa e capaz de impressionar. Jesus se recusa a chamar Deus em causa própria, confia filialmente no Pai, age de acordo com a sua vontade e não cede às tentações típicas do poder.

Na terceira tentação, o tentador tira as máscaras e revela seu rosto de poder. Ele leva Jesus a um lugar alto e revela quem controla os impérios e poderes do mundo: é o diabo, o tentador. Os tiranos dele recebem o poder, e a ele servem impondo taxas, exalando ameaças, promovendo guerras. Por que Jesus não poderia fazer o mesmo, demonstrar que é filho de Deus agindo segundo a lógica do poder? Mas Jesus permanece fiel à sua identidade de filho do Pai, que se move pela compaixão.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente o texto, prestando atenção ás palavras, aos lugares e aos personagens que aparecem

Como poderíamos descrever o conteúdo concreto de cada uma das três tentações e a forma de vencê-las?

Quais são as tentações sutis e atraentes que rondam os discípulos e discípulas de Jesus hoje?

De que modo a questão da fome e o mandato de Jesus “dai-lhes vós mesmos de comer” podem ajudar a vencer essas tentações?