domingo, 1 de novembro de 2026

Finados

Nós estamos à espera daquele que nos ama

1254 | Comemoração dos Fiéis Defuntos | Lucas 12,35-40

O texto do Evangelho escolhido para iluminar a comemoração dos fiéis defuntos enfatiza a espera vigilante. Jesus se dirige aos discípulos e discípulas, e sua fala está marcada pelo contexto de crise da espera e do esmorecimento da confiança que os discípulos da comunidade de Lucas enfrentavam com a demora do “retorno” de Jesus. A esperança é essencial para quem segue Jesus. Ninguém pode perder o gosto de viver, mesmo quando a partida das pessoas queridas deixa um vazio imenso.

Jesus ilustra esta expectativa confiante recorrendo a duas imagens (o cinto amarado na cintura e as lâmpadas acesas durante a noite) e três parábolas. Para esperar adequadamente o retorno do patrão da festa de casamento, o pessoal da casa deve estar devidamente preparado: acordado, com as lâmpadas da casa acesas e com o cinto apertado; sem nenhum obstáculo que possa dificultar ações rápidas. E isso mesmo se o chefe da casa demorar. Assim, podem abrir a porta, sem demora nem obstáculos. Nenhuma coisa ou causa pode nos desviar desse foco. São Paulo repete que somos filhos do dia, que nossa vocação é viver acordados.

Se Jesus partiu, ele voltará, pois não foi embora. Disso os discípulos não podemos duvidar. Mas também não podemos esperar passivamente, “jogando-se nas cordas”. Precisamos ser como o pessoal da casa da parábola. Jesus foi celebrar a aliança, e crer nele significa ser uma Igreja em saída, mover-nos numa fé vigilante a ativa no serviço aos irmãos e irmãs, com prioridade a quem mais precisa. É ela que acende luzes na escuridão e aperta nossos cintos para que possamos caminhar com segurança, uma vez que somos chamados a ser peregrinos de esperança.

Há um encontro desejado e previsto também com nossos entes queridos, mesmo que não saibamos quando, como e onde. Não parece razoável ficar à espera de possíveis sinais e manifestações de “almas” que perambulariam por aí. A saudade que acende em nós o ardente desejo desse encontro não pode nos induzir a viver despreocupados ou apenas resignados, esperando o tempo passar. Assim, viveremos vigilantes na medida em que damos em tudo o melhor de nós mesmos, e não abandonamos o que de melhor nos deixaram as pessoas que partiram.

 

Sugestões para a meditação

Acolha deste texto as luzes e estímulos que você necessita para viver responsavelmente e esperar realisticamente

Recorde agradecido o nome, o rosto, a história e a melhor herança deixada pelas pessoas queridas que partiram

Tendo presente esta herança e o testemunho de tantos cristãos, como você honrar a vida e não apenas sobreviver, honrar seus falecidos e não apenas lamentar?

Como não reduzir o “dia dos finados” a um dia de tristeza, lamento e revolta contra Deus ou o destino?

sábado, 31 de outubro de 2026

Santos e Santas

Deus é Santo e fonte de toda santidade!

1252 | Solenidade de Todos os Santos | Mateus 5,1-12

Buscamos nas bem-aventuranças, que fazem parte da primeira grande pregação catequética de Jesus no evangelho segundo Mateus, luzes para iluminar a solenidade de todos os santos e santas. Depois da experiência forte por ocasião do batismo e da experiência crucial das tentações no deserto, Jesus inicia sua pregação na Galileia, e chama os primeiros discípulos. Ele percorre a região “pregando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo” (Mt 4,23).

A cena começa mostrando que Jesus vê diante de si as multidões e age como mestre e formador de seguidores. Tendo os discípulos e o povo diante dos olhos, ele fala da novidade jubilosa do Reino de Deus, que reverte a situação de sofrimento e dominação na qual eles vivem, da felicidade ou santidade que buscamos. Ao mesmo tempo, pede o engajamento daqueles que desejam segui-lo. E não se trata, obviamente, de cumprir leis minuciosas, mas de assumir um novo estilo de vida.

Jesus evita apresentar um simples manual de procedimentos ou um conjunto de mandamentos, e prefere indicar uma direção, esboçar em traços gerais um mundo bom e alternativo, uma comunidade-semente, um caminho de felicidade compartilhada e duradoura. E oferece várias ilustrações para nos ajudar a entender como podemos acolher a vontade de Deus, o Reino de Deus. Mas precisamos sublinhar que não se trata de uma descrição de diferentes virtudes a serem exercitadas, mas apenas de alguns exemplos das prioridades do Reino de Deus.

Estas ilustrações podem ser divididas em dois grupos de quatro: as primeiras (v. 3-6) abordam situações de opressão (pobreza, aflição, impotência e ausência de justiça) que são simplesmente revogadas com a chegada do reino de Deus; o segundo grupo (v. 7-12) apresenta um conjunto de ações humanas que brotam da acolhida da novidade de Jesus (misericórdia, integridade, promoção da paz e luta firme pela justiça). Estas são a razão e o caminho da santidade, que é a verdadeira felicidade.

Para Jesus, pobreza, opressão, injustiça e humilhação não são situações que devemos aceitar, mas algo que devemos deplorar, denunciar e superar. E a misericórdia, a pureza, a pacificação e a luta perseverante são atitudes a serem cultivadas. O Reino de Deus que ele anuncia e inicia provoca essa mudança, e não há caminho de felicidade fora do engajamento nessa mudança.

 

Sugestões para a meditação

Retome as bem-aventuranças uma a uma, observando o porquê da felicidade apresentada em cada aspecto

Podemos dizer que é nisso que reside nosso sonho, nossas aspirações, a meta de tudo o que fazemos e buscamos?

Em qual desses oito aspectos do caminho da santidade você precisa crescer mais? E qual deles lhe dá mais alegria?


Todos os santos e santas

É BOM ACREDITAR

Muitas vezes pensa-se que a fé é algo que tem a ver com a salvação eterna do ser humano, mas não com a felicidade concreta de cada dia, que é o que nos interessa agora. Mais ainda: há quem suspeite que sem Deus e sem religião seríamos mais felizes. Por isso, é saudável recordar algumas convicções cristãs que podem ter ficado esquecidas ou encobertas por uma apresentação inadequada ou insuficiente da fé. Eis algumas delas.

Deus criou-nos apenas por amor, não para seu próprio proveito ou pensando no seu interesse, mas procurando a nossa felicidade. A Deus só interessa o nosso bem.

Deus quer a nossa felicidade não apenas depois da morte, naquilo a que chamamos «vida eterna», mas já agora, nesta vida. Por isso está presente na nossa existência, promovendo o nosso bem, nunca o nosso mal.

Deus respeita as leis da natureza e a liberdade do ser humano. Não força nem a liberdade humana nem a criação. Mas está ao nosso lado, apoiando a nossa luta por uma vida mais humana e atraindo a nossa liberdade para o bem. Por isso, em cada momento, contamos com a graça de Deus para sermos o mais felizes possível.

A moral não consiste em cumprir leis impostas arbitrariamente por Deus. Se Ele quer que escutemos as exigências morais que trazemos no coração, é porque é bom para nós. Deus não proíbe o que é bom para o ser humano nem obriga ao que pode ser prejudicial. Só quer o nosso bem.

Converter-se a Deus não significa optar por uma vida mais infeliz e penosa, mas orientar a própria liberdade para uma existência mais humana, mais sã e, no fundo, mais feliz, mesmo que isso exija sacrifícios e renúncia. Ser feliz tem sempre as suas exigências.

Ser cristão é aprender a «viver bem» seguindo o caminho aberto por Jesus. As bem-aventuranças são o núcleo mais significativo e «escandaloso» desse caminho. Caminha-se para a felicidade com coração simples e transparente, com fome e sede de justiça, trabalhando pela paz com entranhas de misericórdia, suportando o peso do caminho com mansidão. Este caminho desenhado nas bem-aventuranças leva a conhecer, já nesta terra, a felicidade vivida e experimentada pelo próprio Jesus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Os primeiros lugares

Deus age para humilhar quem se exalta

1251 | Tempo Comum | 30ª Semana | Sábado | Lucas 14,7-11

Ontem vimos que, para Jesus, o reino de Deus e a defesa da vida ameaçada tem absoluta prioridade, em qualquer circunstância. A lei visa garantir o repouso e assegurar a dignidade dos seus filhos e filhas de Deus, e isso não pode ir contra o mandamento de defender ou resgatar a vida. Se deixamos tudo de lado para salvar um animal, não há razão aceitável para opor-nos à cura de uma pessoa necessitada.

O texto de hoje dá prosseguimento à cena de Jesus na casa do líder dos fariseus. Eles vigiam Jesus, e Jesus não tira o olho deles. Por isso, a Jesus não passa despercebida a busca dos primeiros lugares e da relevância que contamina aquele grupo como o Corona vírus se dissemina hoje. Sem papas na língua, Jesus critica essa atitude, na própria casa de um deles. E faz isso recorrendo a uma pequena parábola. Fiquemos atentos aos detalhes e ao alcance da narrativa de Jesus.

Evidentemente, Jesus não está preocupado com o bom comportamento dos judeus ou dos seus discípulos numa festa, ao estilo dos manuais de boas maneiras, bem ao gosto da burguesia. Jesus dirige sua crítica à doença que contagia líderes religiosos e todas as pessoas que se consideram “gente de bem”, em todos os tempos e lugares: a atitude de imaginar-se melhor ou superior aos demais e comportar-se como tal. Há quem se imagine inaugurando sua própria estátua em praça pública ou nos altares...

A parábola de hoje, e aquela que se segue a ela, estão unidas pelo tema comum a ambas: a festa. Jesus oferece critérios novos e originais para ocupar os lugares e fazer a lista de convidados. É claro que ele se refere a quem precisa ser tratado com prioridade na Igreja e na sociedade, e ao papel das lideranças na perspectiva do Reino de Deus. Quem “merece” participar da festa da vida? Quem tem “direito” de ser tratado como cidadão? A quem a administração pública deve dar prioridade?

A vida de Jesus deixa claro quem são os “últimos” e quem são os “primeiros” no querer de Deus. É o inverso daquilo que estabelecem as regras e prioridades políticas, religiosas e econômicas. Deus não se orienta pelo corporativismo, pela meritocracia, pela demagogia ou pelo assistencialismo. A vida e a missão de Jesus revelam de modo inequívoco que o dom de si, a partilha a generosidade radical e a generosidade são as linhas mestras da vida cristã. Fora da solidariedade não há salvação!

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe Jesus à casa do chefe dos fariseus, seu olhar vigilante sobre os fariseus e seu ensino provocador

Procure relacionar essa afirmação de Jesus com aquilo que ele demonstrou durante toda a sua vida e com o cântico de Maria

Faça uma revisão de seus pensamentos e comportamentos: você se considera melhor e mais meritório que outros?

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A lei permite?

A vida de uma pessoa está acima das leis

1250 | Tempo Comum | 30ª Semana | Sexta | Lucas 14,1-6

Fiel à herança profética, Jesus não muda sua prática, seu anúncio e o rumo da sua caminhada, mesmo diante da ameaça de Herodes. Segue intrépido, corajoso e generoso, sem fazer nada para se proteger. Ele se situa na linha dos profetas, e é o Pai, e não Herodes ou seus asseclas, quem vai dizer quando e como deve dar sua missão por terminada. Por enquanto, ele é quem decide, e, como sempre, não toma decisões pensando em sua própria segurança.

Dito e feito! Em pleno sábado Jesus desrespeita – de novo! – a lei e, numa refeição na casa de um dos chefes dos fariseus, cura um homem doente sem que ele tenha sequer pedido. Ignorando o olhar vigilante dos piedosos e ardilosos fariseus, Jesus os provoca a tomar uma posição. Essa é a questão que atravessa a cena de hoje, cena que inaugura a seção das refeições simbólicas de Jesus apresentadas pelo evangelista São Lucas (cf. Lc 14,1-24).

A pergunta de Jesus é direta: “A lei permite curar em dia de sábado, ou não?” E os fariseus guardam silêncio. Para Jesus, o reino de Deus e a defesa da vida se impõem, e não estão condicionados ao tempo e lugar. A lei inspirada por Deus visa garantir o repouso e assegurar a liberdade e a dignidade dos seus filhos e filhas de Deus. Se os piedosos judeus descumprem a lei para salvar um animal, não há razão aceitável para se opor à cura de uma pessoa necessitada num dia proibido pela lei.

Na verdade, Jesus não nega a legitimidade das leis e dos ordenamentos religiosos ou civis, mas os coloca em uma nova perspectiva. Segundo Jesus, o que fazemos sem problemas quando estão em jogo nossos interesses (evitar o prejuízo com a morte de um animal) devemos fazê-lo, mais ainda, em benefício dos seres humanos que estão em dificuldades. Nada de fossilizar ou reduzir a vontade de Deus a princípios e esquemas abstratos, afastando-os da vida concreta!

Não nos defendamos da interpelação de Jesus relegando-a ao passado. É permitido ou não aprovar as uniões homoafetivas? É lícito ou não ocupar latifúndios improdutivos? É possível compartilhar a eucaristia com cristãos de outras Igrejas? É aceitável defender a admissão de mulheres ao ministério? É possível “furar” o teto de gastos ou o “arcabouço fiscal” para atender a população desempregada, doente e sem escola? E as perguntas podem continuar ainda por muitas linhas...

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe Jesus entrando na casa do chefe dos fariseus, acompanhe seu olhar voltado ao homem doente

Perceba também o olhar vigilante e reprovador dos fariseus reunidos em torno da mesa e a indignação de Jesus

Será que, de algum modo, não caímos na tentação de “fossilizar” a vontade de Deus ou reduzi-la a abstratos esquemas e princípios fios e impessoais?

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Raposas e ratos

Nenhuma ameaça consegue intimidar Jesus

1249 | Tempo Comum | 30ª Semana | Quinta | Lucas 13,31-35

Jesus acabava de responder a quem perguntava se são muitas as pessoas que se salvam, e alertava que as portas do Reino de Deus estão abertas a todos, mas tem suas exigências. Eis que, inesperadamente, os fariseus comunicam a Jesus que ele está em perigo, que Herodes está querendo matá-lo. Será que viraram defensores e protetores de Jesus? Será que estavam preocupados com os riscos que enfrentava?

A cena está situada literariamente na segunda etapa da caminhada de Jesus a Jerusalém, e ele acabara de acusar o povo Israel de incredulidade e de elogiar ninguém menos que os pagãos. Jesus não é ingênuo. Ele percebe a falsidade dos fariseus, pois são emissários de Herodes e fazem o jogo dele, e pouco estão se “lixando” com o risco que ameaça Jesus. Ele não se deixa intimidar pelo tirano.

Jesus fala de Herodes usando uma metáfora bem conhecida da cultura brasileira. Jesus diz que o rei Herodes se parece a uma raposa, como no Brasil são qualificados os políticos interesseiros. Herodes rosna forte, mas não é um leão: ele não passa de um animal pequeno, mas traiçoeiro, violento e fedorento, cujo domínio não vai além da Galileia e da Peréia. Ele não passa de um reizinho frágil e periférico, por mais que busque o apoio da aristocracia de Israel e bajule o imperador romano.

A imagem da raposa também ajuda a compreender a metáfora da galinha e dos pintinhos. A galinha e seus filhotes são objeto preferido da violência e da voracidade da raposa. Embora Jesus tente defender e proteger o seu povo como uma galinha protege seus pintinhos, usando do seu próprio corpo, a elite de Jerusalém refuta o caminho que Jesus percorre e propõe. Mas ele continua sua missão como “bendito que vem em nome do Senhor”, curando, libertando e anunciando o Reino.

Fiel à herança profética, Jesus não muda o rumo nem o ritmo da sua missão por causa da ameaça de um reizinho decadente. Ele prossegue, intrépido e generoso, sua missão, sem se afastar da vontade do Pai para buscar proteção. Ele se identifica com os profetas, mas não é uma espécie de “kamikaze” que procura a morte como ato redentor do povo e glorificador de si mesmo. É o Pai, e não Herodes ou seus asseclas, quem vai dizer quando e como Jesus deve dar sua missão por terminada. Também hoje, enquanto os cães raivosos e iludidos ladram, a caravana do Reino avança...

 

Sugestões para a meditação

Embarque na sugestiva metáfora da raposa que ameaça a galinha e seus pintinhos, com a qual Jesus fala de Herodes e de si mesmo

Deixe-se impressionar pela firmeza e coragem de Jesus, que continua sua missão até e como o Pai quer

Perceba a hipocrisia e a falsidade dos fariseus de todos os tempos, que defendem apenas “pátria, (sua) família e (sua) propriedade”

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Judas e Simão

Eles são colunas da verdade e setas no caminho

1248 | Festa dos Apóstolos Simão e Judas| Lucas 6,12-19

Voltamos ao capítulo 6 do evangelho segundo Lucas para iluminar a festa de São Judas e São Simão. São Judas Tadeu não é o traidor convertido, como pensam alguns. É um segundo Judas, irmão (ou filho) de Tiago e parente de Jesus. Uma tradição antiga diz que ele era o noivo da festa de Caná, mas não há provas históricas sobre isso. Seu nome significa, literalmente, amigo íntimo, “amigo do peito”, próximo do coração. Este nome já é, por si mesmo, prenhe de significados.

São Judas nos deixou uma breve carta, que faz parte do Novo Testamento. Nela, o apóstolo sublinha os valores da vida comunitária e mostra-se muito preocupado com algumas falsas lideranças que causam danos às comunidades cristãs do seu tempo. São Judas diz que essas lideranças são como nuvens que anunciam chuva que não vêm, como árvores sem raízes, como ondas revoltosas e violentas, como astros errantes, como os seguidores de Caim. São imagens muito fortes!

Na carta, ele também pede aos fiéis que edifiquem a si mesmos sobre o alicerce da fé e perseverem no amor de Deus. E manda que conjuguem a compaixão com a cautela, e fortaleçam os cristãos vacilantes. Por isso, precisamos sublinhar que, mais que um socorro nas causas difíceis, São Judas Tadeu é, com os outros apóstolos, lâmpada da fé e coluna da verdade, como diz São Cirilo de Alexandria.

Mesmo que alguns dos Doze Apóstolos escolhidos e enviados sejam pouco conhecidos, Jesus os escolheu “a dedo”. Antes de os escolher, passa uma noite em oração, para não se enganar na escolha, e para que eles sejam símbolo do novo povo de Deus. Portanto, nenhum deles simplesmente aparece na lista para completar o número. Ser Apóstolo significa ser enviado como porta-voz, delegado, embaixador. E os Doze participam da missão do próprio Jesus Cristo, fazem o que ele fez, têm a sua dignidade, assumem sua meta e trilham seu caminho.

Celebrando a festa de São Simão (que não é Pedro) e São Judas (que não é o Iscariotis) no finalzinho do mês dedicado às missões, a comunidade cristã é convocada a renovar seu ardor missionário, a potencializar seu testemunho, a dar sua resposta ao Senhor que chama através dos clamores e esperanças do nosso povo e nos envia como peregrinos de esperança entre todos os povos. Estamos respondendo a este envio para dar testemunho num círculo cada vez mais amplo?

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe passo a passo o retiro orante, a escolha nominal e o envio dos Doze Apóstolos, embaixadores do Reino de Deus

Deixe que ressoe também em você e hoje o chamado e a escolha de Jesus: “Eu te amo, te chamo, te formo e te envio!”

Dirija sua prece pessoal a estes dois apóstolos e santos, apresentando-lhes aquilo que nossas comunidades mais necessitam hoje.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Como a semente e o fermento

Com que compararemos o Reino de Deus?

1247 | Tempo Comum | 30ª Semana | Terça | Lucas 13,18-21

Para Jesus, o amor atento às necessidades e ao bem das pessoas está acima da lei, e manifesta o querer de Deus. O sentido do sábado é manter viva a memória e o sonho da criação e da libertação. É isso que resume, e é disso que depende toda a Escritura. A religião deve partir daqui, e os ritos, cultos e doutrinas devem conduzir a isso. O Evangelho de Jesus estabelece a comunhão de corpo e alma, matéria e espírito, indivíduo e comunidade, religião e sociedade, fé e política.

Depois da cura da mulher encurvada na sinagoga em dia de sábado, Jesus conclui a primeira parte do seu ensino, enquanto se dirige a Jerusalém, com duas minúsculas parábolas sobre o Reino de Deus: a parábola da semente de mostarda e a parábola do fermento na massa. Ambas sublinham a importância do início e a força daquilo que é pequeno. Meditemos sobre elas com a devida atenção.

As ações de compaixão e libertação que Jesus e seus discípulos espalham e misturam a uma imensa massa inerte parecem, aos olhos de muitos, irrelevante e sem futuro. “Vale a pena ser bom e justo?”, perguntam. “Isso não tem futuro!”, repetem outros. “Não passa de uma gota de água frente ao fogo criminoso que devora o Pantanal e o Cerrado”, diríamos nós. O mistério do Reino de Deus seria um sonho inútil, ou, na melhor das hipóteses, apenas uma gota de água no oceano?

Para Jesus, o “pequeno rebanho” de discípulos é uma minoria ativa, capaz de “fazer a diferença”. Eles não se perdem indiferentes e inócuos na massa, mas agem como fermento, como minoria ativa e transformadora, ou “minorias abraâmicas”, como gostava de dizer Dom Helder Camara. Como a pequena semente de mostarda, são relevantes e terão um futuro exitoso, beneficiarão a muitos. O fermento do Reino de Deus, como Jesus, se “esconde” na massa. Mas vai fazendo seu trabalho transformador a partir de dentro, em silêncio.

Como a mostarda, que é semeada na horta doméstica mas abriga nos seus ramos gente que vem de todas as partes da terra (cf. Ez 17,23-24; Dn 4,20-21), o dinamismo do Reino de Deus progride na inclusão de todas as pessoas, grupos e povos. E como a pequena medida de fermento misturada na farinha, o Evangelho corrói as estruturas injustas e as transforma de dentro para fora. Ninguém ousaria duvidar da força transformadora do fermento, nem da força escondida na semente...

 

Sugestões para a meditação

Em que medida também nós, Igreja de hoje, desconfiamos da força do testemunho e do êxito do Reino de Deus?

Recorde e visualize situações e acontecimentos que demonstram o dinamismo do Reino de Deus atuando através de meios frágeis

Como você, sua família e sua comunidade cristã, podem viver e agir como semente de mostarda e fermento na massa hoje?

domingo, 25 de outubro de 2026

A vida em primeiro lugar

Os vulneráveis são o primeiro sacramento

1246 | Tempo Comum | 30ª Semana | Segunda | Lucas 13,10-17

Jesus ensina que, quando as leis ajudam a viver o amor a Deus e ao próximo, são importantes e boas. Mas quando já não servem para gerar e proteger a vida, ou quando se opõem à vida e à dignidade dos pobres, devem ser abandonadas, como ele mesmo o fez. Nesse amor, que tem dois destinatários, mas uma mesma direção – a saída de si para priorizar o outro – se resumem as Escrituras. O socorro das pessoas em suas necessidades vem antes e está acima das leis.

Hoje, Lucas nos apresenta Jesus na sinagoga. Enquanto mestre, Jesus de Nazaré ensina como “boca de Deus” e vai ao lugar especialmente destinado ao ensino da Palavra de Deus. E, mais uma vez, enfrenta a esclerose do formalismo religioso e a violenta e cínica tirania religiosa representada e exercida pelas lideranças que controlam o ensino da lei, especialmente mediante a Sinagoga. Jesus mostra sua inconformidade com isso, e não se cala nem se acomoda.

Na sinagoga, Jesus vê uma mulher duplamente excluída: por ser doente e por ser maneada por um espírito maligno. Ninguém dos mestres ali presentes dá a mínima atenção a ela, com exceção de Jesus. Jesus toma a iniciativa: sem que ela peça qualquer coisa, ele a chama, cura e liberta, estendendo a mão num solene e inequívoco gesto que denota a ação e a proteção de Deus. Para Jesus, é inaceitável prorrogar o sofrimento daquela mulher por causa de uma interdição legal.

Jesus curou a mulher num dia de sábado, e a lei que mandava guardá-lo fechava os olhos de todos a tudo o mais que não fosse o estrito cumprimento daquilo que era proibido ou mandado. Por isso, a iniciativa de Jesus suscita a louvor intenso e agradecido da mulher e, ao mesmo tempo, a fúria do chefe da sinagoga, que se volta contra ela, evitando atacar Jesus diretamente. Para ele, os encurvados podem esperar, a lei não! E se instaura a controvérsia e o debate. Como Jesus se atreve?

Jesus desmascara a hipocrisia de quem usa a religião para se dispensar do compromisso com o próximo ou para oprimi-lo. Para Jesus, a atenção às necessidades e ao bem das pessoas concretas está acima da lei, e manifesta o querer claro e inequívoco de Deus. O sentido e a finalidade de todas as leis e instituições é manter viva a memória e o sonho da criação e da libertação. É daqui que brota a alegria e o louvor. Fora disso, só resta a vergonha.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, os gestos, perguntas e palavras de Jesus, as reações da mulher encurvada, dos chefes da sinagoga e do povo

Por quê nos custa tanto colocar a dignidade e a necessidade das pessoas à frente das leis e ritos?

Como educar e formar nossos fiéis e comunidades da liberdade solidária do Evangelho de Jesus?

sábado, 24 de outubro de 2026

O amor é único

O amor ao próximo demonstra o amor a Deus

1245 | Tempo Comum | 30ª Semana | Domingo | Mateus 22,34-40

Os capítulos 21 e 22 de Mateus apresentam o confronto permanente entre, por um lado, Jesus e o reino de Deus e, por outro, a elite dirigente do judaísmo e a lógica excludente do templo. No trecho anterior (v. 15-33), Jesus discute com os saduceus sobre a ressurreição e a legitimidade do imposto exigido pelo império romano. Com suas respostas e argumentos, Jesus calou a boca dos saduceus.

Mas o silêncio dos saduceus não é vergonha nem inércia. Eles se aliam aos fariseus e mestres da lei para colocar Jesus novamente à prova. Desta vez, provocam Jesus a distinguir entre os mandamentos aqueles que seriam grandes e relevantes e aqueles que poderiam ser tratados como secundários. Jesus responde sublinhando a unidade dos mandamentos, e não a hierarquização. As leis da aliança e a perspectiva profética se entrelaçam na prática do amor e na fome de justiça.

Jesus responde acenando àquilo que o livro do Deuteronômio apresenta no capítulo 6: o horizonte dos mandamentos é o amor profundo e integral a Deus, inseparável do amor social e cotidiano ao próximo, materializado na pessoa vulnerável. Não se trata de atos ocasionais de amor, e, muito menos, de simples sentimentos, mas de uma visão social e estrutural, que conjuga o amor ao próximo ao amor a Deus, do qual decorre. São os dois trilhos por onde corre o trem da salvação.

Como havia anunciado no capítulo 5 de Mateus, a Lei e os Profetas, ou seja, todas as escrituras, dependem disso! Em outras palavras: o maior, o primeiro, e o mais importante dos mandamentos é a fidelidade e a perseverança integral e diária na prática da compaixão ativa, humanizadora e libertadora. E isso não é um entre outros mandamentos, mas o coração pulsante da inteira experiência e vontade de Deus na história. Deus é o amor, e onde há amor ao próximo, Deus está presente, salvando e libertando.

Em outras palavras, isso constitui o núcleo ou fio de ouro da pregação de Jesus. Sem esse amor, a fé se torna moralismo e legalismo vazio. É nesse amor, na afirmação prática da dignidade do outro e no serviço solidário e perseverante às suas necessidades, que se revela e sustenta a verdade e a solidez da fé. Nada vem antes nem está acima disso! Os sacramentos são celebrações que nos inserem nesse oceano de graça. A catequese e a pregação recolocam isso sempre de novo no centro.

 

Sugestões para a meditação

Você leva a sério a centralidade do amor integral e fiel a Deus e ao próximo no qual está presente como a síntese da lei e da profecia?

Você percebe em você e na sua comunidade a tentação de acentuar a obediência a Deus e a moral em detrimento do amor ativo e compassivo ao próximo?

Como a Igreja poderia ensinar e explicitar melhor esse fio vermelho em seu ensino e em sua prática pastoral?