O presbítero é um construtor de unidade e de paz
Queridos irmãos no ministério, queridos irmãos e irmãs, peregrinos
de esperança! Na oração da coleta desta missa da unidade presbiteral, pensando
especialmente nos presbíteros, fazíamos dois pedidos: a graça de participarmos
da unção e consagração de Jesus Cristo pelo Espírito Santo; e a graça de sermos
constituídos testemunhas e colaboradores da sua obra de regeneração da
humanidade. O ministério que exercemos não é mérito, mas graça; não é honraria,
mas serviço.
A unção
profética de Jesus de Nazaré
Iniciando sua missão de anunciar e espalhar
sinais da chegada do Reino de Deus, Jesus busca inspiração no profeta Isaías.
Mergulhando na experiência desse profeta, Jesus amadurece a percepção de que
fora ungido e enviado pelo Espírito Santo para uma missão bela e exigente:
anunciar a Boa Notícia do Reino aos pobres; para proclamar a libertação aos
cativos; para devolver a visão a quem não consegue ver; para libertar os
oprimidos; enfim, para proclamar um ano de graça e júbilo.
Esse discernimento Jesus não o fez durante um
retiro solitário, mas num encontro comunitário, junto dos seus conterrâneos, na
Sinagoga de Nazaré. Ele estava rodeado de gente cansada de receber más notícias
e ameaças; de gente que tateava como cegos e não conseguia compreender o mal
que os cercava; de gente que se sentia como prisioneira por medo do império
romano; de gente que não suportava mais ouvir da boca dos sacerdotes e doutores
da lei mandamentos e proibições.
Para Jesus, esta unção e envio é algo tão real, tão forte e tão
urgente que, percebendo a expectativa que pulsava no olhar de todos, ele só
ousa acrescentar uma frase: Hoje se cumpre essa passagem da escritura! O tempo
de espera chega ao fim e começa o tempo da graça. Doravante ele não fará outra
coisa que demonstrar isso nas pregações que faz, nas ações que realiza e na
formação que dispensa aos discípulos.
Profetas da
gratuidade e alegria
Caros irmãos presbíteros! Participar da unção
profética de Jesus Cristo e da missão que dela deriva nos coloca na linha de
frente das grandes lutas na qual se encontram os construtores de uma nova
humanidade. Nossa vida e nossa missão adquire sentido e consistência na
multiplicação de gestos de cuidado e atenção que contribuem para diminuir o
sofrimento, amadurecer a liberdade e trazer alegria à vida daqueles que vivem
cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor.
Como presbíteros, não somos uma espécie de executivos
de uma grande empresa que espalha seus tentáculos pelo mundo afora e tem como
objetivo de aumentar seus clientes e seus dividendos. Também não somos um tipo
de legisladores que se esmeram em multiplicar leis impositivas ou proibitivas
que aumentam o peso do fardo que os pobres carregam. Também não somos juízes que
fecham os olhos às vítimas e proferem sentenças frias que, como as serpentes,
ferem quase sempre os pés dos descalços.
Somos membros de um povo peregrino e discípulos de um homem ungido
pelo Espírito, que veio morar entre nós e passou pelo mundo fazendo o bem; que
não teve onde reclinar a cabeça e frequentemente não encontrou repouso nem
mesmo na sua própria casa. A missão de fazer o bem e distribuir o óleo da
alegria o consumiu inteiramente, e disso que ele extraiu forças. Ele não
convocou ninguém para o jejum, mas para a festa; não estimulou a competição,
mas a cooperação e o serviço recíproco. Eis nosso modelo! Eis nosso caminho!
Configurar-se
a Jesus, Cabeça do Corpo e Pastor do rebanho
São João Paulo II nos ensina
que os presbíteros são chamados a ser uma representação sacramental de Jesus
Cristo enquanto Cabeça e Pastor. Recebemos a missão de “prolongar a presença de
Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o seu estilo de vida” e tornando-nos sua
transparência no meio do rebanho que nos é confiado (cf. Pastores Dabo Vobis, §
15). Isso é imensamente belo, e terrivelmente comprometedor. Nossa inspiração é
o Cristo Cabeça e Pastor, que sempre agiu como servidor.
Enquanto cabeça do
corpo e pastor do rebanho, Jesus não age promulgando ordens ou despachando no
escritório. Ele se aproxima de todos e chega aos que estão mais longe. Ele abre
os braços a todos, consolando os aflitos, ungindo os doentes, ensinando os
errantes, formando discípulos, percorrendo caminhos e chegando às casas,
fazendo-se tudo para todos. Enquanto Cordeiro, ele dá sua vida para vencer o
pecado do mundo.
São estas ações que o presbítero prolonga,
é esse o estilo de vida que ele atualiza, e esse o rosto do qual ele é reflexo.
Somos herdeiros de homens e mulheres que,
diante das ameaças dos chefes de plantão, respondiam que deviam obediência a
Deus, e não aos homens; de gente que extraiu força da própria fraqueza, que se
manteve firme como se visse o invisível, que sabia em quem tinha depositado sua
confiança.
Nossas
promessas são também nossos desejos
Hoje renovaremos, diante do povo de Deus ao
qual temos a alegria de pertencer, as promessas que fizemos no dia em que a
Igreja nos ordenou. Mais que promessas, são desejos sinceros, metas que
estabelecemos e buscamos. É porque conhecemos nossas fragilidades e desvios que
as renovamos, confiando na ação da graça de Deus.
A primeira promessa e desejo é viver
estreitamente unidos ao Senhor Jesus, renunciando a interesses egoístas,
superando atitudes agressivas e evasivas e cultivando um amor maduro, concretizado
no cuidado e na condescendência do Bom Pastor. Quem não desejaria isso? Que o
Senhor complete em nós a obra que ele começou!
A segunda promessa e desejo é ser dirigentes criativos e fiéis das
celebrações litúrgicas e da oração do Povo de Deus, agir inspirados no Cristo
Cabeça e Pastor, que age como Servo, guiados sempre pelo amor e jamais pela
ambição. Quem não desejaria isso? Que o Senhor complete em nós a obra que ele
começou!
Artesãos de
consensos
As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam
que os presbíteros têm uma tarefa central na busca e encontro de
consensos pastorais, tão importantes para uma caminhada sinodal (cf. DGAE, §
179). Os consensos nem
sempre coincidem com a opinião da maioria, e são um tremendo desafio na tomada
de decisões, pois supõem abandonar as divisões e diferenças e encontrar um
ponto de concordância que possa unir a todos na missão comum.
Todos os segmentos e membros do Povo de Deus devem
participar da formação dos consensos, para que possam assumi-lo em
corresponsabilidade. Mas, no caminho da escuta e do diálogo em vista do
encontro desse consenso, a atuação firme e respeitosa dos ministros ordenados é
indispensável. Eles participam e, ao mesmo tempo, guiam os demais membros do
povo de Deus nessa busca. A Igreja diocesana conta com essa qualidade na
execução do novo Plano Diocesano de Evangelização.
Memória e
missão
Fazer memória da graça da vocação presbiteral neste dia da Ceia do
Senhor significa, como afirma Santo Agostinho, entrar num santuário amplo e sem
limites. Não é a mesma coisa que conservar algo do passado, pois significa tornar
sempre novo e atual o que aí está guardado. Somente fazendo esta memória é que podemos
viver e reviver o que o Senhor nos entregou, diz o Papa Leão XIV.
E o Papa Leão continua: “A memória unifica o nosso
coração no Coração de Cristo e a nossa vida na vida de Cristo, para que nos
tornemos capazes de levar a Palavra e os Sacramentos da salvação ao povo santo
de Deus, a fim de termos um mundo reconciliado no amor. Só no Coração de Jesus
encontramos a nossa verdadeira humanidade de filhos de Deus e de irmãos entre
nós”.
Construtores de unidade e de paz
Num mundo marcado por crescentes tensões, inclusive no seio das
comunidades eclesiais, o presbítero é chamado a promover a reconciliação e a
gerar comunhão. Ser construtor de unidade e de paz significa servir sem
impor-se. “A fraternidade sacerdotal torna-se um sinal crível da presença do
Senhor Ressuscitado entre nós quando caracteriza o caminho comum dos nossos
presbitérios”, diz o Papa.
“Ser
construtores de unidade e de paz significa ser pastores hábeis na arte de
compor os fragmentos de vida que lhes são confiados; ajudar as pessoas a
encontrar a luz do Evangelho no meio das tribulações da existência; ser
leitores sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos
e das modas; oferecer propostas pastorais que regeneram a fé, construindo boas
relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da
fraternidade”.