quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O fariseu e a pecadora

Jesus critica e condena as posturas farisaicas

1207 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quinta | Lucas 7,36-50

No final da parábola que antecede o texto de hoje Jesus sentenciava: “A sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. Os filhos e filhas da sabedoria são as pessoas que entendem e seguem Jesus, os pobres e pecadores, e não os mestres da lei ou os fariseus. Isso é reforçado no episódio de hoje.

Estamos diante de uma obra-prima da arte narrativa que usa de forma exuberante tons de simpatia e delicadeza. O fariseu Simão recebe Jesus em sua própria casa, e está cercado de gente do seu círculo de amizade, num clima de cumplicidade e confraternização. Mas eis que aparece do nada uma visita embaraçante, que se dirige a Jesus com um gesto profundamente desconcertante.

Uma mulher conhecida como pecadora (não quer dizer que o seja de fato!) entra na sala, se coloca atrás de Jesus chorando, lava os pés dele com suas lágrimas, enxuga-os com seus próprios cabelos, beija-os e unge-os com perfume. Jesus aparentemente não faz caso disso, e até aprova o gesto da mulher. Ele entende o sentido do gesto, mas Simão abre a boca contra Jesus, mesmo sem pronunciar palavras. Ele se pergunta que tipo de profeta é Jesus se aceita coisas desse tipo.

O mais surpreendente e eloquente da cena é que Jesus não se preocupa com a situação da mulher, mas com a atitude preconceituosa e excludente de Simão e seus colegas. Enquanto os fariseus e doutores da lei consideram o gesto da mulher inoportuno e ambíguo, para não dizer condenável, Jesus o vê positivamente, como reconhecimento da misericórdia que Deus vem manifestando nas suas ações. Este da mulher é um gesto de amor agradecido. Ela diz tudo sem palavras.

O pensamento crítico de Simão é próprio de quem esquece ou esconde que é pecador, e revela que seu conceito de profecia não é correto. Para Jesus, o gesto da mulher não tem nada de ambíguo, e, mediante a parábola dos dois devedores perdoados, afirma que quem está em pecado e não foi perdoado é o próprio fariseu e aqueles que pensam e agem como ele: são mais preconceituosos que religiosos.

Simão não reconhece sua condição de pecador e, com isso, se fecha ao perdão e à gratidão. E a mulher, porque perdoada, expressa sua confiança e gratidão a Jesus. O modelo a ser imitado não é o fariseu, mas a mulher pecadora. É ela que vive uma fé que tem força libertadora e regeneradora. E nós, com quem nos parecemos?

 

Sugestões para a meditação

Retome, em todos os delicados detalhes e nuances, a cena que se desenvolve na casa do fariseu Simão

Visualize as reações dos diferentes sujeitos, entre na parábola de Jesus, e deixe-se ensinar por seu gesto e sua palavra

Você se reconhece como pecador perdoado, como profundamente amado por Deus, se relaciona com as pessoas sem preconceitos, e é capaz de mostrar gratidão?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Chorar ou dançar?

Como você reage à proposta libertária de Jesus?

1206 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quarta | Lucas 7,31-35

A cena que estamos meditando hoje está literariamente situada depois do elogio de Jesus ao soldado romano que pediu sua intervenção em favor de um empregado seu (7,1-10) e da devolução da vida ao filho da viúva de Naim (7,11-17), e em seguida às perguntas de João Batista sobre Jesus e do seu comentário elogioso a ele (7,18-30), episódio omitido pela sequência da liturgia diária.

Para desmascarar as resistências e contradições daqueles que resistem à sua proposta (principalmente os fariseus e mestres da lei), Jesus apresenta uma cena pitoresca e muito popular em pequenas cidades interioranas: um grupo de crianças que brincam na praça, umas tocando música e outras indiferentes ao que as primeiras fazem e transmitem. As crianças-artistas tocam músicas alegres e as outras não dançam; tocam músicas tristes, e ninguém chora ou entoa lamentações.

Os dois estilos de música são uma alusão aos diferentes caminhos de salvação oferecidos por João Batista e por Jesus. As crianças indiferentes que brincam na praça são os judeus, que nunca estão satisfeitos ou de acordo com aquilo que ouvem. A referência é clara: a mensagem de João Batista não foi aceita porque era muito dura e exigente (jejum e penitência); e Jesus é criticado por parecer-lhes muito permissivo (come e bebe, partilhando a mesa com pecadores e gente suspeita). São duas perspectivas diversas que enfrentam a mesma resistência à mudança.

Mas essa resistência não é exclusividade dos fariseus e doutores da lei, nem eventualmente dos cristãos das primeiras gerações. Os discípulos resistem à novidade anunciada e inaugurada por Jesus, e até se atrevem a propor reparos. Pensam que o amor aos inimigos seria uma proposta inocente e inadequada, e que há gente que não merece o perdão, ao menos um perdão sem limites, como nos lembrava a pergunta de Pedro a Jesus no evangelho do último domingo.

Jesus arremata seu questionamento em linguagem parabólica com uma afirmação um pouco obscura: “Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. O sentido pode ser que os filhos da sabedoria, as pessoas que ouvem e compreendem Jesus, são os pobres e pecadores, e não os fariseus, os doutores da lei ou a casta sacerdotal. E nós, como reagimos hoje ao ensino libertário de Jesus? Podemos dizer que reconhecemos e aceitamos de fato à sua proposta do Reino de Deus?

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena pitoresca proposta por Jesus e procure relacioná-la com os diferentes grupos de cristãos que você conhece

Você não se vê, às vezes, desejando propor reparos em aspectos essenciais da proposta de Jesus? Quais?

Leia algo sobre a vida dos santos Cornélio e Cipriano, cuja memória celebramos hoje, e procure relacioná-la com o evangelho de hoje

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

As dores de Maria

Maria, Mãe dos aflitos que estão junto à cruz

1205 | Memória de Nossa Senhora das Dores | Lucas 2,33-35

Ao que parece, a devoção e a festa de Nossa Senhora das Dores remonta ao século XV, e tem origem na cidade de Colônia (Alemanha). Segundo a tradição, as dores de Maria seriam infinitas, mas podem ser ilustradas em sete: a profecia de Simeão a respeito dela e de Jesus; o exílio no Egito, com José e Jesus; e perda de Jesus no templo; o encontro com Jesus no caminho da cruz; a crucificação de Jesus; a morte de Jesus; o sepultamento de Jesus.

No encontro do velho Simeão com o casal José e Maria e o filho recém-nascido resplandece uma convicção: a bondade e a misericórdia de Deus brilham no mundo para todos os povos, sem nenhuma exclusão. Jesus e a salvação de Deus não pertencem exclusivamente ao povo de Israel. E essa é uma boa notícia que permite que Simeão, representante de um povo que esperou por este anúncio séculos e séculos, conclua sua caminhada e parta em paz.

Mas, como luz que brilha para as nações (e não só para Israel), Jesus acaba também definindo a sorte de todas as pessoas que o encontram: ele provoca discernimento, evidencia as ambiguidades, torna-se fator de contradição, pedra de alicerce e, ao mesmo tempo, pedra de tropeço. Diante dele e por ele, uns caem, outros se levantam; uns são rebaixados, outros são elevados. A luz sempre mostra tanto o que há de belo como o que há de feio em nós e ao nosso redor.

Esta profecia de Simeão sobre Jesus recém-nascido causa admiração em José e Maria, que são abençoados por ele. Simeão bendiz a Deus e abençoa os pais de Jesus, para que eles possam contribuir positivamente na realização dessa missão. Mas, dirigindo-se a Maria, Simeão adverte que ela sofrerá com o filho que trouxe no ventre, carrega nos braços e apresenta ao templo.

O sofrimento de Maria não tem nada de particular e tudo de comunitário e eclesial, pois antecipa o sofrimento que muitos discípulos e discípulas provarão no futuro. Suas dores não se resumem àquela que sentiu ao ver o filho pregado na cruz. É também a dor de ver que o filho é um profeta rejeitado; de ver um povo cansado, abatido e sem rumo; é também a dor que compartilha com os discípulos missionários humilhados e perseguidos. 

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra, imagem ou expressão usadas por Simeão na sua bela e exigente profecia sobre Jesus, Maria e José

O que significa celebrar Nossa Senhora das Dores no contexto de medo, polarização, desmandos, taxações e desmantelamento dos organismos multilaterais que asseguravam um certo equilíbrio internacional?

Quais são os pensamentos, sentimentos e projetos secretos ou disfarçados por nós que um Deus crucificado traz à luz? 

domingo, 13 de setembro de 2026

Exaltação da Cruz

Deus ama o mundo e tudo o que nele existe

1204 | Exaltação da Santa Cruz | Domingo | João 3,13-17

O texto que é proposto à nossa meditação está relacionado com a festa litúrgica de hoje: a exaltação da Santa Cruz. Esta é uma celebração que vem desde o ano 335, quando foi celebrada a dedicação de duas basílicas, na colina do Gólgota, em Jerusalém: a basílica da Santa Cruz e basílica da Ressurreição.

Não deixa de ser estranho, ao menos do ponto de vista histórico e sociológico, exaltar a cruz, recorrente instrumento de tortura e morte usado pelo império romano contra seus “inimigos”. Seria como exaltar e expor no centro dos nossos templos, ou carregar no peito ou estampadas em nossas camisas, imagens do “pau de arara”, de um fuzil ou de um revólver. (Alguns até gostariam, como nos revelam as imagens que marcaram as últimas campanhas eleitorais no Brasil.)

Para os cristãos, mesmo que pareça paradoxal, a cruz não é memória da violência, do sofrimento ou da derrota, mas uma expressão clara e contundente do amor sem limites de Deus pela humanidade. Pregado na cruz, Jesus é a imagem de um Deus apaixonado pelas suas criaturas, o protótipo do ser humano maduro e livre como Deus o quis, criado à sua imagem e semelhança, dinamizado pelo seu Sopro Vital.

Na cruz é como que assinada a aliança de Deus com a humanidade: sua vontade é totalmente positiva (que todos tenham vida em abundância), universal (inclui todas as pessoas e todos os grupos humanos) e irreversível (ele não volta atrás em sua paixão pela humanidade). Um Deus crucificado exclui todo resquício ou ameaça de indiferença ou de punição, mesmo contra errantes e pecadores.

Na vida de Jesus, mesmo sendo uma imposição dos poderes constituídos, a cruz é a efusão da compaixão de Deus, e não um acontecimento inesperado ou passageiro. Ela toma o lugar da lei, torna-se ponto de partida e de convergência da vida cristã, e expressa a presença permanente e libertadora de Deus no mundo, e não apenas no coração das pessoas. “Nossa glória é a cruz”, exclama São Paulo.

A cruz traz a assinatura de Deus: ele continua amando o mundo e o que nele existe, e exclui de seu horizonte punições e castigos. Aderir a um Deus crucificado por amor significa afirmar o amor, e não o poder, o sucesso ou as armas, como princípio, como meta e como caminho, custe o que custar. Fora disso, nossa fé seria vazia, e nossos símbolos seriam falsos, ou então armas letais disfarçadas de piedade.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e expressão, em forma negativa ou em forma positiva, e deixe que ressoem em você

Você ainda só consegue ver na cruz dor, abandono e sofrimento, ou consegue fixar nela seu olhar e contemplar o amor de Deus?

O que significa a expressão “Deus amou tano o mundo” (organização humana, humanidade), em vez de “Deus amou tanto os indivíduos”?

Romaria da Santa Cruz

25ª Romaria Diocesana de Santa Cruz do Sul

(Palavras de Dom Itacir msf)

Chegando

Queridas irmãs e irmãos, vindos dos mais diversos lugares da Diocese para esta romaria jubilar: Bem-vindos, bem-vindas! A graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Rm 1,3).

Jesus, o Príncipe da Paz; Jesus, aquele que, na cruz, derrubou os muros que separam e opõem pessoas, igrejas, povos e nações e estabelece a paz duradoura e sem fronteiras; esse Jesus está de verdade aqui, no meio de nós!

O que ele quer nos dizer nessa 25ª Romaria Diocesana da Santa Cruz? Vendo em nossos rostos a tensão e o medo de novas enchentes; entrando em nossos lares e enxugando as lágrimas das mulheres e crianças que sofrem violências daqueles que deveriam ser seus protetores; contemplando as manifestações de intolerância e de violência que se espalham, do Planalto Central aos compôs e fronteiras; voltando seus olhos severos aos arrogantes que impõem taxas e promovem guerras de extermínio pelo mundo afora; e fixando seu olhar misericordioso sobre esta numerosa assembleia aqui reunida e sobre cada um de vocês ministros, catequistas, diáconos, padres e demais lideranças sociais e comunitárias, incansáveis e generosas no seu serviço cotidiano, Jesus proclama, com voz forte como um sino: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,21) “Felizes e bem-aventurados os que promovem a paz!” (Mt 5,9)

Aqui estamos em busca de paz, de relações de confiança, acolhida, colaboração e solidariedade que assegurem a cada pessoa e à sociedade como um todo, o pleno bem-estar, aquele “tudo de bom” ou “paz e bem” que gostamos de desejar uns aos outros.

Buscamos nesta romaria a paz verdadeira, que nos vem de Jesus Cristo crucificado por amor, e é vacina contra o ódio e a vingança, contra a dominação e a violência, contra a indiferença e a intolerância.

Essa paz é dom gratuito de Jesus Cristo, e precisa ser acolhido com gratidão. Mas ela é também uma tarefa da qual ninguém pode se dispensar. “Em qualquer lugar que vocês chegarem, digam primeiro: ‘Paz a esta casa!’ (Lc 10,6). “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês!’ (Jo 20,21).

Caminhemos juntos, lado a lado e ao lado de Jesus, atentos às lições que ele nos dará sobre a urgente missão de promover a paz. A via-sacra de Jesus é um caminho concreto no qual aprendemos a construir uma paz profunda, duradoura e sem fronteiras.

Ouvindo (João 20,19-23)

Naquela noite de domingo, depois da crucificação, morte e ressurreição de Jesus, os discípulos estavam assustados diante do poder e da violência dos inimigos. O medo demonstra a insegurança. Pensavam que haviam perdido para sempre aquele que tinha palavras de vida eterna.

Mas a noite já é o início do Dia esperado, como na libertação do Egito. Jesus se manifesta presente no meio deles. Ele vem para os libertar do medo de perder a vida. Ele vem para ficar no meio deles, e continuar sendo fonte de vida, ponto de referência, videira da qual os ramos recebem força e vitalidade, caminho seguro para a paz.

“A paz esteja convosco!” Esta é a saudação daquele que venceu o mundo, que derrotou as forças da morte e a própria morte. É uma paz que abre portas, abre caminhos, abre as mentes, abre os corações. É a paz daquele que está vivo no meio de nós e nos envia para promover a fraternidade e a paz com todas as criaturas, a justiça social para os pobres e o desenvolvimento integral da pessoa humana, a política como dedicação corajosa ao bem comum.

A mensagem da Santa Cruz é a paz verdadeira, a paz vivida como missão corajosa, duradoura, sem fronteiras. São Paulo nos diz que, “de fato, Cristo é nossa paz” (Ef 2,11-22). Pois a cruz de Jesus reúne povos diferentes e adversários em uma família de irmãos. A cruz de Jesus derruba os muros que separam e a inimizade que fere. Do corpo de Jesus crucificado por amor nascem homens e mulheres novos, irmãos e irmãs de verdade, diferentes, mas iguais em dignidade.

A cruz de Jesus reestabelece a igual dignidade e a paz entre o corpo e o espírito, entre homens e mulheres, entre cidadãos e estrangeiros, entre heterossexuais e homossexuais, entre adultos e jovens, entre católicos e protestantes, entre crentes e ateus, entre desenvolvimento e meio ambiente, entre partidos e projetos políticos diferentes.

Não se trata de uma paz superficial, interior ou psicológica. É uma paz assumida como tarefa, como empenho árduo e perseverante, que dispensa o recurso aos poderes que se impõem pela força. É uma paz desarmada e desarmante, que construímos de mãos abertas e estendidas, como ovelhas indefesas em meio a lobos famintos e violentos. Uma paz que ninguém poderá nos roubar.

Voltando

“Bem-aventurados os que promovem a paz! Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês! Por onde vocês passarem, nas casas em que vocês entrarem, nas comunidades às quais vocês se reunirem, nas celebrações que vocês realizarem, nas ruas que vocês percorrerem, nos trabalhos que vocês realizarem, nas redes sociais que vocês usarem, sejam fazedores da paz! Como são belos os pés dos mensageiros que anunciam, semeiam e cultivam a paz!” (cf. Mt 5; Jo 20,21; Lc 10,5-6; Is 52,7).

sábado, 12 de setembro de 2026

Perdoados que perdoam

Somos pecadores perdoados e agentes do perdão

1203 | Tempo Comum | Semana XXIV | Domingo | Mateus 18,21-35

No domingo passado, acolhíamos o ensinamento de Jesus que nos oferecia uma verdadeira pedagogia da correção fraterna. Hoje, nesta parte da quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. De resto, o rei da parábola é igualzinho a todos os demais: ele age oprimindo os mais fracos. Imagina como conseguiu a fortuna que lhe possibilitou emprestar ao seu empregado aquela fortuna. A compaixão e o perdão concedidos ao empregado endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude deste empregado. Tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do empregado perdoado, que mostra mais crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

A cultura na qual nos movemos nos convenceu de que o outro é um estranho que precisa ser temido, um inimigo que precisa ser combatido, um incapaz que só pode ser desprezado, um incômodo que deve ser afastado, um devedor que deve ser sempre cobrado, que deve fazer por merecer. Perdoar é conceder ao outro a chance de ser alguém, de ter dignidade, de recomeçar e amadurecer.

 

Sugestões para a meditação

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?

O perdão liberta

APOLOGIA DO PERDÃO

Quase sempre que escrevi sobre o perdão, recebi cartas, geralmente anônimas, acusando-me de esquecer o sofrimento das vítimas do terrorismo, de não compreender a humilhação de quem foi traído pelo cônjuge, de não ter os pés no chão, e coisas semelhantes.

Não me é difícil compreender essa resistência ao perdão. Como não hei de intuir a raiva, impotência e dor de quem foi vítima da violência, do desprezo ou da traição? Mas, precisamente, o ressentimento e a agressividade que se percebem nessas palavras fazem-me ver com mais clareza o que seria um mundo sem perdão.

Há um mecanismo de defesa bem conhecido pelos psicólogos. Por um mimetismo misterioso, quem foi vítima de uma agressão tende, de alguma forma, a imitar o agressor. Trata-se de uma reação quase instintiva que se desencadeia no inconsciente individual ou coletivo e pode até transmitir-se de geração em geração.

Se, em algum momento, não surgir uma reação de sinal contrário, o mal tende a perpetuar-se. Quando a vítima não quer ou não consegue perdoar, permanece nela uma ferida mal curada que lhe causa dor, pois a prende negativamente ao passado. Da mesma forma, o ressentimento instalado numa sociedade dificulta a lucidez para procurar caminhos de convivência e pode bloquear todo o esforço por encontrar soluções para os conflitos.

O desejo de vingança é, sem dúvida, a resposta mais instintiva à ofensa. A pessoa precisa defender-se da ferida recebida, mas, como adverte o conhecido especialista Jacques Pohier, quem pretende curar a sua ferida infligindo sofrimento ao agressor, engana-se. O sofrimento não tem poder mágico para curar a humilhação ou a agressão sofrida. Pode produzir uma breve satisfação, mas a pessoa precisa de algo mais para voltar a viver de forma saudável. Já o dizia há muito Henri Lacordaire: «Queres ser feliz por um momento? Vinga-te. Queres ser feliz para sempre? Perdoa».

Às vezes esquece-se que o processo do perdão é mais benéfico para o ofendido, pois liberta-o do mal, faz crescer a sua dignidade e nobreza, dá-lhe forças para recriar a sua vida, permite-lhe iniciar novos projetos. Quando Jesus convida a perdoar setenta vezes sete, está a convidar-nos a seguir o caminho mais saudável e eficaz para erradicar o mal da nossa vida. As suas palavras ganham ainda mais profundidade para quem acredita em Deus como fonte última do perdão: «Perdoai e sereis perdoados».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Em nome de Deus

Nem ímpios, nem ungidos

Estamos avançando nas campanhas eleitorais para os parlamentos e governos estaduais e federal. As pessoas que têm consciência cidadã e política, mesmo num nível muito básico, têm o direito de esperar que este seja um tempo de debate sobre perspectivas e projetos para um país soberano e solidário e propostas que melhorem a vida do povo, reduzam as desigualdades ou imponham limites à sanha rapinadora dos mais fortes.

Em vez disso, estamos sendo bombardeados por levas de acusações recíprocas entre os sujeitos que estão inscritos nas disputas, e enganados por empresas de comunicação que dirigem a nossa atenção sobre aspectos periféricos e jogam no esquecimento as questões que realmente importam. Mais grave ainda é o recurso à linguagem religiosa para ungir com o óleo da santidade alguns personagens e rotular outros como ímpios incuráveis.

Neste contexto, um bispo católico, muito ativo nas redes digitais, vem afirmando que estamos sendo governados por ímpios. Ímpios são pessoas sem fé, que não acreditam em Deus, que não levam em conta ou se opõem às suas leis, ou fazem o mal sem remorsos. No horizonte religioso, os ímpios são pecadores típicos, pessoas que merecem nosso desprezo e precisamos combater e eliminar. De gente ímpia não pode vir nada de bom.

Por outro lado, segmentos políticos e religiosos apresentam candidatos e ministros do seu campo ideológico como ungidos de Deus. Ungida é a pessoa escolhida ou eleita, purificada e consagrada pelo Espírito para ser seu agente e representante no governo ou no tribunal. Na perspectiva religiosa, não reconhecer ou contrariar uma pessoa ungida e escolhida por Deus significa opor-se a Ele e à sua vontade, ou seja, tornar-se ímpio...

O recurso à linguagem religiosa para cabrestear o voto dos cidadãos, impor ou blindar candidatos e juízes, ou para disfarçar ideologias que, na prática, se opõem a Deus e ao seu povo, é pernicioso e condenável. É manipulação da ideia de Deus, esvaziamento da fé uma limitação à liberdade de escolha, uma ação que acaba destruindo a credibilidade da religião e abrindo as portas à intolerância, ao fanatismo e ao autoritarismo.

E, quando uma liderança religiosa usa sua autoridade para distribuir acusações sem se dar ao tempo de analisar a realidade e sem levar em conta a complexidade da política e dos tribunais, se arvora em juiz contra o qual não cabe recurso. A profecia é legítima e necessária, mas não pode prescindir do discernimento lúcido e responsável. Somente os pobres e as vítimas têm o poder de nos julgar em nome de Deus (Mateus 25,31-46).

A verdade está nos frutos

Nada pode abalar uma vida coerente

1202 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sábado | Lucas 6,43-49

Somente quem tem um olhar limpo e um coração puro está em condições de ajudar e criticar o próprio irmão. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos é o horizonte que nos inspira e a regra primeira. Nessa perspectiva, Jesus hoje nos oferece critérios para reconhecer o autêntico discípulo do Reino. Não basta reconhecer Jesus como Senhor!

Como a razão de ser da árvore é produzir sombra, flores ou frutos, espera-se que o discípulo demonstre o que é naquilo que faz, nas relações que estabelece com pessoas e com as coisas. E este fruto não é apenas uma canção, uma oração, uma invocação ou um determinado ato de piedade. Como vimos ontem, revelamos que somos discípulos de Jesus sendo misericordiosos como Deus o é conosco.

É pelos frutos que produzimos em nossas relações que revelamos em quem acreditamos e demonstramos a qualidade da árvore que somos. Não podemos esperar coisa boa de gente que se orienta pelo ódio ou pela indiferença, que se manifesta pela eliminação daqueles que julga errado ou incômodo, mas gosta de publicar frases e imagens de piedade e de pessoa devota em suas redes sociais.

As relações são exteriores, mas revelam os princípios e as decisões interiores, os valores que nos orientam e consideramos preciosos. Se nossa consciência é bem formada, se assumimos a escala de valores do Evangelho, se pautamos nossas ações pela prática e pelo ensino de Jesus, sempre tiraremos desse tesouro decisões boas e construtivas. Não há como tirar dele o ódio e a defesa do porte de armas.

O que se espera de nós é coerência entre a fé que professamos e aquilo que praticamos: seguir Jesus implica em levar a sério sua palavra e colocá-la em prática em todas as dimensões da vida. Caso contrário, seremos como as belas mansões construídas sem alicerce, sobre a areia: não resistem diante da menor prova ou força contrária; ou como as belas sepulturas que escondem carne em decomposição.

Que a incoerência e a superficialidade não façam de nós videiras estéreis ou que produzem frutos venenosos. Que Deus nos livre de sermos como aquelas casas que, de bonito e bom, só têm a fachada. Dentro delas vigora intolerância, violência, indiferença e a lei do “cada um para si e deus para todos”.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida a fé que você demonstra em nossa família e comunidade carecem de coerência?

Quais são os frutos bons que a escuta e meditação da Palavra e o cultivo da fé em Jesus tem produzido em você, sua família e sua comunidade?

Você não acha que corremos o risco de inflacionar novenas, adorações e ritos, mas deixamos anêmica nossa ação e nossos compromissos?

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma medida

Que o amor com justiça seja a nossa medida

1201 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sexta | Lucas 6,39-42

Um pouco antes desta cena, Jesus deixara claro que a misericórdia do Pai, expressa concretamente na vida e ação de Jesus, é a referência e o dinamismo que orienta e move a ação dos cristãos. Nossa condição no mundo é a de aprendizes, e não de juízes. Estamos na estrada, e não sentados no tribunal. Somos irmãos e irmãs, e não magistrados. Não pode haver crítica legítima sem autocrítica. É nosso amor aos mais vulneráveis que nos julgará no entardecer da vida.

No trecho de hoje, Jesus não se dirige aos fariseus ou doutores da lei, mas à comunidade de discípulos e discípulas. Para preveni-los do risco da crítica infundada e de assumirem a postura de superiores e juízes, Jesus recorre a dois provérbios ou sentenças: aquele do cego que se oferece nesciamente como guia; aquele do cisco no olho que impede de ver claramente a sujeira externa.

A advertência de Jesus é clara: todos nós podemos ser cegos e levar os outros a tropeçar e a cair; ninguém está em condições de julgar ninguém; não podemos criticar ninguém se não exercitarmos a autocrítica diante de Jesus e do seu Evangelho; em relação aos outros, somos irmãos, e não juízes. Quando esquecemos isso, acabamos sendo hipócritas, iguais aos criticáveis fariseus e doutores da lei. Não há lugar para a soberba e para tribunais penais no interior da comunidade cristã!

E a regra também é meridianamente clara: nossas relações devem pautar-se pelas relações de Jesus, único mestre e guia capaz de conduzir à vida e à verdade. Como discípulos do profeta de Nazaré, não somos maiores nem podemos ser diferentes do mestre. “Todo discípulo bem formado será como o mestre”. E Jesus não pautou sua vida pelo julgamento e pela condenação, mas pelo amor que liberta e edifica. É claro que isso não elimina a profecia, que nasce da paixão pela verdade. Aliás, a fraternidade, a acolhida e o respeito aos diferentes não é uma profecia eloquente?

Somente as pessoas que têm o olhar limpo e o coração puro (consciência dos próprios limites) estão em condições de ajudar e criticar os outros, e sempre como irmãos e irmãs. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos e maus, será sempre a nossa medida. Quem somos nós para colocarmo-nos acima dele? Quem teria competência e legitimidade para corrigir o próprio filho de Deus, ele que não foi enviado para julgar e condenar, mas para salvar?

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e cada comparação ou figura usada por Jesus e tente perceber o que significam para você

Você percebe, em você mesmo e na sua comunidade, sinais da tentação de ser como um cego que quer guiar cegos, corrigir os outros sem fazer autocrítica?

Como podemos evitar condenar os outros sem deixar de agir e falar com coragem profética diante das injustiças e mentiras que ferem nossos irmãos e irmãs?