domingo, 9 de agosto de 2026

São Lourenço

Quem conhece Jesus dá sua vida livremente

1168 | Festa de São Lourenço, Diácono e Mártir | João 12,24-26

Os breves versículos do evangelho de João propostos para iluminar a festa de São Lourenço (diácono e mártir) e de todos os mártires, nos trazem uma afirmação solene de Jesus. O texto está situado literariamente após a ressurreição de Lázaro e a entrada de Jesus no Templo, e depois que alguns judeus de origem grega pedem que Filipe os leve ao encontro de Jesus. “Queremos conhecer Jesus”, dizem eles, expressando também o desejo dos “buscadores de Deus” de todos os tempos.

Jesus vê nessa busca dos judeus estrangeiros o momento propício para manifestar a “glória” do Filho do Homem, glória à qual são chamados todos seres humanos, particularmente seus discípulos missionários. Ele diz que, para conhecê-lo e descobrir a nossa vocação, devemos olhar para a cruz. Nela se mostra “como sua vida e sua missão, assim como a vida e a missão de quem o segue, produzirá frutos: “dando vida, da própria vida, a própria vida” (São Oscar Romero).

Por mais que se apresente com aparência formosa e desejável, o egoísmo e a indiferença são sempre mortais e estéreis, e semeiam esterilidade e morte. Ao contrário, quem ama e não teme a própria morte é livre para arriscar e gastar a “vida pelas vidas”, comprometer a vida pelo Reino de Deus, como o mártir Jesus, como todos os mártires e todas as testemunhas. Livremente se colocam a serviço do Reino, livremente semeiam liberdade!

Amar é doar-se sem poupar-se. O amor leal nos leva ao esquecimento dos problemas e interesses individuais e a prosseguir no caminho de Jesus, apesar da pressão e da intimidação dos sistemas de poder e coerção. Como a semente, o dom de si é fecundo, vivificador, e a entrega solidária da vida é o ápice do dom de si. Caindo no chão e morrendo, a semente libera sua força, realiza seu destino, não fica só, multiplica-se: eis o mistério da vida e da missão de Jesus e de quem o segue.

Fazer-se discípulo missionário é estar com Jesus onde ele está, no dinamismo do amor do Pai, que ama sem medida, sem “se” e sem “mas”. A honra e a glória dos cristãos não é outra senão a honra e a glória de Jesus: renunciar às honras e vaidades desse mundo, ser filho, irmão ou irmã, amar sem reservas, ser semente! A autoridade das lideranças cristãs se inspira em Jesus crucificado, e não nos “podres poderes”, e se baseiam no serviço aos pobres e não na bajulação dos ricos.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe com a imaginação a aproximação dos judeus de origem grega, a intermediação de Filipe, as palavras de Jesus

Olhe para a cruz, na qual se mostra a proximidade insuperável de Deus e a doação mais generosa e radical do ser humano

Medite o mistério de força, de multiplicação e de vida que se esconde na morte da semente; é essa a glória que você busca?

sábado, 8 de agosto de 2026

Travessias

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa vontade!

1167 | Tempo Comum | Semana XIX | Domingo | Mateus 14,22-33

Jesus revela-se um Deus compassivo com os pobres, um Deus que tem necessidade da nossa colaboração – nem que seja apenas cinco pães e dois peixes! – na sua ação libertadora. E é ele que nos convida a superar o medo e confiar na sua presença em todas as travessias. Os discípulos imaginavam um Deus indiferente às necessidades dos famintos ou poderoso o bastante para resolver todas as dificuldades do povo.

Apesar dos séculos de pregação, as imagens de um Deus poderoso e ameaçador, ou nacionalista e ligado aos interesses de pequenos grupos, ainda não se apagaram da nossa memória. Ensinaram-nos que Deus se revela no poder destruidor dos terremotos, no fogo devorador das ideologias totalitárias, no mistério aterrador dos furacões, nos pesados decretos que condenam, na dura punição aos que erram. Deus seria onipotente, onisciente e onipresente, e quanto mais poder ou saber alguém possui, mais se pareceria com ele.

Diante de um Deus com estas características, caímos por terra ou gritamos de medo. E do ventre do medo não costuma nascer o amor que se faz dom, mas a agressividade da autodefesa ou da dominação. Um Deus com tais traços é um fantasma, uma fantasia que se abriga nas pessoas que não superaram o desejo infantil de onipotência. E este fantasma, via de regra, está a serviço das diversas formas de dominação e de infantilização religiosa, econômica e política. Pedro tenta caminhar sobre as águas, revelando seu desejo de participar do “poder” de Deus...

É o medo dos ventos contrários, das diferenças e dos questionamentos que gera a dúvida e nos leva a afundar, tanto em termos humanos como espirituais. O medo não nasce da verdadeira experiência de Deus, mas de uma imagem parcial ou confusa de Deus. É isso que percebemos nos discípulos no episódio da travessia do mar: a força do vento e das ondas que fustiga a barca como a tirania dos poderosos, somada à ideia de um Deus que caminha indiferente sobre as ondas, arranca-lhes gritos de pavor. E esta dúvida sobre a divindade de um Jesus frágil e compassivo leva Pedro a afundar apavorado.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe Jesus retirando-se; os discípulos gritando de pavor no meio da noite e do mar agitado; a aproximação de Jesus, seu diálogo com Pedro e a calmaria

Tente perceber o conteúdo do diálogo orante de Jesus com o Pai: a menção ao pão tornado acessível a todos, aos discípulos que ele havia enviado à sua frente

Recorde situações de desespero pelas quais você, sua família e sua comunidade passaram, e como a fé lhes ajudou

Será que sua fé também às vezes também se mostra frágil e desconfiada como a fé de Pedro?

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Vocações ao minist´wrio ordenado

Pastores generosos, modelos para o rebanho

As comunidades católicas do Brasil dedicam a primeira semana de agosto à vocação ao ministério ordenado (diáconos, padres e bispos). Neste ano, a diocese de Santa Cruz marcou este tempo com uma celebração eucarística e fraterna em homenagem e gratidão a nove presbíteros que alcançam 50 anos de ministério: Dom Aloísio, Pe. Dionísio, Pe. José Inácio, Pe. Antônio, Pe. Silvino, Pe. Nélson, Pe. Paulinho, Pe. Loreno e Pe. Dario.

Esta ocorrência é uma oportunidade para, como diocese, recordar e agradecer a história e aquilo que o Senhor fez neles e através deles. Mas é importante sublinhar também o lugar do padre na missão da Igreja e a perspectiva na qual esse ministério é vivido hoje. E o primeiro aspecto é o sentido eclesial dessa vocação: os ministros ordenados são membros do povo de Deus e estão a serviço dele, em meio a vários outros ministérios.

Um segundo aspecto do ministério ordenado é o seu caráter comunitário: o padre e o diácono não são uma espécie de livres pensadores ou de agentes solitários e autônomos, mas membros de uma comunidade presbiteral e diaconal diocesana. Eles exercem o ministério que responde ao chamado pessoal de Deus e lhes foi confiado pela autoridade eclesial como membros de um presbitério, que agiu liturgicamente na sua ordenação.

Em terceiro lugar, na missão evangelizadora, no cuidado pastoral e na celebração litúrgica, mesmo em pequenas paróquias, a relação fundamental não é a de um pastor com um rebanho. Hoje, os ministros ordenados atuam como pastores em tempo pleno que coordenam e interagem com muitos outros pastores(as) evangelizadores(as), ministros(as) extraordinárias que colaboram na medida de suas possibilidades.

Além disso, neste tempo em que a Igreja recoloca no centro da sua vida e atividade o espírito e a prática sinodal, a autoridade e competência dos ministros ordenados é irrenunciável, mas nunca incondicional. Nada deve ser feito à revelia deles, mas nada de relevante pode ser decidido sem os Conselhos e sem consulta ao povo. Aquilo que incide sobre a vida de todo o povo de Deus deve ser decidido com a participação dele.

Pedro assimilou bem o espírito de Jesus, o Pastor Supremo, e sua exortação ressoa com relevante atualidade: “Tomem conta do rebanho de Deus que lhes foi confiado, cuidando dele, não por obrigação, mas de livre e boa vontade, como Deus quer; não por vantagens vergonhosas, mas com generosidade; não como donos daqueles que lhes foram confiados, mas como modelos para o rebanho” (1ª Carta de Pedro 5,2-3).

Crer e confiar

CRER A PARTIR DA VIDA

Não é fácil responder com sinceridade à pergunta que Jesus faz a Pedro no momento em que o salva das águas: «Por que duvidaste?» Às vezes, as convicções mais profundas desvanecem-se e os olhos da alma turvam-se sem sabermos exatamente porquê. Princípios até então aceitos como inabaláveis começam a vacilar. E aparece em nós a tentação de abandonar tudo sem reconstruir nada de novo.

Outras vezes, o mistério de Deus torna-se esmagador. A última palavra sobre a minha vida escapa-me e é duro abandonar-me ao mistério: a minha razão continua a procurar, insatisfeita, uma luz clara e evidente que não encontra nem poderá jamais encontrar.

Muitas vezes, a superficialidade e leveza da nossa vida quotidiana e o culto secreto a tantos ídolos mergulham-nos em longas crises de indiferença e ceticismo interior, com a sensação de termos realmente perdido Deus.

Com frequência, é o nosso próprio pecado que enfraquece a nossa fé, pois esta decai e debilita-se quando nos afastamos de Deus. Se formos sinceros, temos de reconhecer que há uma enorme distância entre o crente que professamos ser e o crente que somos de fato. O que fazer ao constatar em nós uma fé por vezes tão frágil e vacilante?

Antes de mais, não desesperar nem assustar-nos ao descobrir em nós dúvidas e vacilações. A busca de Deus vive-se quase sempre na insegurança, na escuridão e no risco. Deus procura-se «às apalpadelas». E não devemos esquecer que muitas vezes «a fé genuína só pode surgir como dúvida superada» (Ladislao Boros). O importante é aceitar o mistério de Deus com o coração aberto. A nossa fé depende da verdade da nossa relação com ele. E não faz falta esperar que as nossas interrogações e dúvidas se resolvam para viver em verdade diante esse Pai.

Por isso, o essencial é saber gritar como Pedro: «Senhor, salva-me». Saber levantar para Deus as nossas mãos vazias, não apenas como gesto de súplica, mas também de entrega confiante de quem se sabe pequeno, ignorante e necessitado de salvação. Não esqueçamos que a fé é «caminhar sobre as águas», mas com a possibilidade de encontrar sempre essa mão que nos salva quando começamos a afundar.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

A força da fé

A fé suscita a ação e garante sua fecundidade

1166 | Tempo Comum | Semana XVIII | Sábado | Mateus 17,14-20

O episódio do Evangelho de hoje está situado após a transfiguração de Jesus. É o último exorcismo narrado por Mateus, e seu foco não é propriamente a cura da epilepsia, mas a fragilidade e a inoperância da fé dos discípulos. Não se sabe claramente se eles haviam se sentido pequenos demais diante da grande missão que haviam recebido, ou haviam esquecido que eram apenas mediadores.

Um homem anônimo se aproxima de Jesus e implora sua misericórdia pelo filho que sofre de epilepsia, doença que o coloca frequentemente em risco de vida. Um detalhe importante é que o homem já havia buscado ajuda junto aos discípulos, que, de fato, haviam recebido de Jesus autoridade e competência para curar enfermidades (Mt 10,8). Mas algo que era fácil para Jesus parecia impossível aos discípulos, e eles haviam fracassado na tentativa de curar o rapaz.

A reação de Jesus diante desse fracasso é extremamente dura: fala dos próprios discípulos como gente fraca na fé e geração perversa, em nada melhor que a multidão. É possível que o fracasso dos discípulos tenha duas causas: eles podem ter esquecido que estavam a serviço do Reino de Deus e quiseram chamar a atenção sobre si mesmos; eles não estão de acordo com a reinserção social dos doentes através da cura. Pensam que Deus não teria poder de mudar a situação através deles.

Advertindo seus discípulos sobre a debilidade da sua fé, Jesus demonstra que entende a fé como colocar em prática a vontade misericordiosa, vivificadora e libertadora de Deus. Quem crê de verdade, busca soluções humanas para os problemas humanos, e, assim, ajuda Deus a remover montanhas de egoísmo, dominação e marginalização. O maior problema não são as montanhas de terra e de rochas, mas de preconceitos e ideologias.

Entretanto, os discípulos missionários não podem esquecer que não são protagonistas destacados, mas apenas humildes mediadores da vontade de Deus e do Reino de Deus. Nada é impossível para o homem ou mulher que vive pela fé. Se não for assim, o fracasso está dado: não conseguem mudar nada, não superam os obstáculos, não se põem em saída, reduzem perigosamente o bem que podem fazer. Sem a fé alimentada pela esperança, pouca mudança é possível.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua na imaginação o fracasso dos discípulos em curar o jovem doente, inseri-lo de novo na sociedade e conferir-lhe nela um papel

Procure entender a dura reação de Jesus diante da dificuldade dos discípulos para se entenderem como mediadores da vontade de Deus

Sua fé é capaz de remover a montanha da indiferença, da intolerância e da exclusão que dominam nossa sociedade?

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guardar ou gastar a vida?

O que você daria em troca da sua vida?

1165 | Tempo Comum | Semana XVIII | Sexta | Mateus 16,24-28

O evangelho de hoje está situado literariamente depois da profissão de fé e dos discípulos em Jesus como “o Messias, o Filho do Deus Vivo”. Vem também depois da cena em que os discípulos revelam dificuldade de aceitar o caminho da cruz (cf. Mt 16,21-28), e imediatamente antes da cena da transfiguração (Mt 17,1-13). É essa dificuldade dos discípulos com a imagem de messias que justifica essa catequese incisiva e delimitadora de Jesus, e a própria transfiguração que a segue.

Jesus estabelece dois pré-requisitos para quem quiser ser seu discípulo: negar a si mesmo, que significa desistir de práticas que impedem o advento do Reino de Deus (abrir mão de projetos pessoais e egoístas, entregar-se inteiramente à vontade do Pai); tomar a própria cruz e seguir Jesus, ou seja: assumir um estilo de vida que pode provocar humilhação, que comporta marginalização, dor e morte. Ou seja: o discípulo deve estar pronto para seguir o caminho de vida percorrido por Jesus.

Esta disposição de “perder a vida” por Jesus e pelo Reino de Deus a fim de entrar na vida verdadeira é uma convocação a identificar-se com o destino dos insignificantes e a aceitar do risco de ser tratado como criminoso pelas elites, aceitando até o martírio por resistir ao status quo. E isso significa, por outro lado, não dar a vida pelo império romano (ou qualquer outro sistema de poder), ou “morrer pela pátria e viver sem razões”. Só Deus é grande e pode pedir o dom da nossa vida.

Jesus assegura que a vinda do Reino de Deus é coisa certa como o sol que nasce todo dia. Mas “ganhar o mundo inteiro” será, para os discípulos, sempre uma tentação (cf. Mt 4,8), e, para salvar a própria vida, a maioria é induzida a escolher o caminho mais seguro, o interesse próprio, o silêncio e a submissão por medo da perseguição. Entretanto, perder a vida para ganhá-la equivale a não se submeter nem ceder ao medo, a ser livre para lutar, amar e servir, como faz Jesus.

A glória que envolverá Jesus na sua volta é a glória da cruz, do amor vivido de forma incondicional e em medida extrema. E é isso que continuamos vendo, também nós, ao nosso lado: homens e mulheres “que se amam mais que a si, e dizem com firmeza: vê, Senhor, estou aqui!” E nós também confirmamos: Conta comigo, Senhor!

 

Sugestões para a meditação

Retome e repita pausadamente cada expressão e cada afirmação de Jesus aos seus seguidores

Compare cada uma dessas afirmações com o seu evangelho e a sua vida como um todo e entenda o sentido

O que significa hoje, na situação sanitária e social do Brasil e do mundo, perder ou ganhar a vida no sentido evangélico?

Você conhece pessoas que ganharam “um mundo de vantagens” mas perderam o sentido e o gosto da vida? 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Transfiguração

O que brilha no rosto de Jesus é sua compaixão

1164 | Festa da Transfiguração do Senhor | Mateus 17,1-9

Na pessoa de Pedro, os discípulos haviam dito que reconheciam Jesus como “o Messias, o Filho do Deus Vivo” (cf. Mt 16,11). Mas discordaram e resistiram fortemente quando Jesus lhes disse que seria perseguido e morto pelas mãos dos anciãos, chefes dos sacerdotes e doutores da Lei (cf. 16,21-23). E fecharam ainda mais os ouvidos quando Jesus colocou como condição para segui-lo tomar a cruz dos excluídos e doar a própria vida (cf. 24-28).

A cena audiovisual que conhecemos como “transfiguração de Jesus” está ligada a essa situação e tem como objetivo superar a resistência dos discípulos ao projeto de Jesus e tornar visível a sua esplendorosa humanidade. O protagonista da cena é o Pai, e a beleza da humanidade de Jesus deixa os discípulos extasiados, tanto que desejam congelar essa visão e prolongar a experiência no tempo. Mas eles não podem esquecer que estão a caminho de Jerusalém, e a experiência é uma espécie de chave que lhes abre o sentido da pregação e da paixão de Jesus.

A montanha e a nuvem são sinais que apontam para uma manifestação divina, uma teofania. O que chama a atenção, é que essa revelação não acontece no templo de Jerusalém nem é dada às elites religiosas, mas num lugar marginal e para três pessoas pouco relevantes. A presença de Moisés e de Elias também lembram que os profetas são perseguidos. A voz imperativa manda escutar e entender o que Jesus disse, diz e dirá na sua vida, morte e ressurreição.

Diante da voz que afirma que Jesus é o filho amando do Pai e deve ser escutado, os três discípulos caem por terra assustados. Eles reconhecem a presença divina e se assustam com a confirmação do caminho da cruz que Jesus percorreria. A voz de Deus faz Pedro calar (como em 16,23), mas o toque de Jesus cura a falta de fé, encoraja e os coloca de pé. E percebem que estão sozinhos com Jesus, pois é a ele e somente a ele que devem escutar e seguir.

O risco de recordar somente o esplendor e as ações miraculosas de Jesus é grande. Por isso, Eles são proibidos de falar do que viram porque sua compreensão do mistério de Jesus é ainda limitada, e devem esperar a sua paixão.

 

Sugestões para a meditação

Procure participar da cena com sua imaginação: veja o desconforto dos discípulos diante do caminho proposto por Jesus, os três escolhidos subindo a montanha com Jesus, seu êxtase frente ao brilho da humanidade de Jesus, o medo que os joga no chão quando ouvem a voz pedem que eles levem Jesus a sério

Veja o testemunho de Elias e Moisés, que lembram a incompreensão e a perseguição sofrida pelos profetas

Ouça a ordem de escutar o que ele diz, e sintam o toque dele encorajando e curando suas resistências e sua falta de fé

Traição e soberania

Quando a soberania de um povo corre perigo

Três dos quatro evangelhos narram a cena polêmica que envolve Jesus e as autoridades, e termina com uma sentença: “Devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12,17). A interpretação mais comum ensina que, com esta sentença, Jesus separa radicalmente a fé cristã e a política. Na verdade, é uma contundente afronta ao poder invasor dominador do império romano e uma defesa da soberania do povo judeu.

A aceitação da legitimidade do imposto seria o reconhecimento do domínio romano sobre o povo de Deus e a negação da sua soberania. Ao mandar devolver a César a moeda que traz sua efígie, Jesus assegura aos hebreus a sua pertença a Deus, o que equivale a afirmar sem meias palavras a sua soberania cultural, existencial e espiritual. E estas palavras adquirem especial relevância no contexto das nossas disputas eleitorais.

Segundo a Constituição de 1988 (Art. 1º), a República Federativa do Brasil tem como fundamento e base a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A ausência ou o atentado contra qualquer um desses fundamentos coloca em risco a estabilidade da República e pode ser qualificado como ameaça à soberania e à dignidade do povo brasileiro.

Antes e para além de eventuais polêmicas eleitorais, tenhamos claro que o Magistério católico reconhece de forma inequívoca a importância da soberania dos povos, pois ela é expressão do respeito que deve regular as relações entre os Estados. A soberania é a subjetividade de uma nação sob o aspecto político, econômico e também cultural, uma espécie de extensão dos direitos humanos (Compêndio de Doutrina Social, § 435).

Podem os cristãos católicos, que são também cidadãos brasileiros, aceitar passivamente as movimentações e maquinações de agentes políticos para facilitar ou pedir a ingerência de outras nações em decisões próprias das nossas instituições? Não seria o caso de “dar a elas o que é delas” e de um levante popular contra estes senhores, de levar isso em conta nas eleições e de chamar as instituições democráticas à ação que lhes corresponde?

É claro que Jesus não se identificou com um grupo político específico, e é verdade que os cristãos não podem fazê-lo em nome da fé. Mas Jesus Cristo não se omitiu nem se acovardou quando se tratou de defender a soberania dos seus conterrâneos e de todos os grupos que tinham sua dignidade ameaçada pelas elites nacionais ou pelos poderes externos. E, aqui, os Jesuítas fizeram o mesmo para defender os povos nativos.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A mesa e as migalhas

A fé dos pequenos provoca grandes mudanças

1163 | Tempo Comum | Semana XVIII | Quarta | Mateus 15,21-28

O texto proposto para a meditação de hoje pula os versículos que registram a explicação que Jesus oferece aos discípulos que o interrogam sobre o sentido da parábola com a qual fala daquilo que realmente torna a pessoa impura (v. 15-20). Depois da crítica aos mestres da lei e aos fariseus e da instrução ao povo e aos discípulos, Jesus desembarca, com seus discípulos, em pleno território pagão.

Ali Jesus é procurado por uma mulher desprezada e marginalizada por ser pagã, por ser mulher, por ser estrangeira e por ser mãe solteira, viúva ou abandonada pelo marido (pois não há nenhuma referência a irmãos e marido). Essa mulher faz parte de um povo que a tradição judaica trata como amaldiçoado por Deus, mas ela se aproxima de Jesus e pede sua ajuda em favor de sua filha psiquicamente perturbada. É a primeira mulher a falar no evangelho de Mateus!

Inicialmente, mesmo sendo invocado como filho de Davi, o defensor ideal dos indefesos, Jesus não se importa com o grito da mulher que pede socorro, e a trata no horizonte da ideologia da supremacia dos judeus sobre os demais povos. Jesus dá a entender que foi enviado prioritariamente aos judeus, e é isso que ele se sente obrigado a fazer. Ou essa seria a ideologia que tentava os discípulos missionários na época em que Mateus escreve seu evangelho?

Os discípulos querem se livrar da mulher, mas ela não desiste, e questiona a ideologia do privilégio de Israel diante de Deus e da supremacia diante dos demais povos! Então Jesus se dirige diretamente a ela, mas para reforçar a prioridade do seu povo sobre os pagãos. E a mulher, que surge na cena como uma pessoa frágil e necessitada, manifesta explicitamente sua fé, se aventura a discutir teologia, e reinterpreta a afirmação excludente de Jesus. Segura da sua própria dignidade, atreve-se a desobedecer às repreensões dos discípulos e até a discutir com Jesus.

Jesus acaba reconhecendo na luta persistente daquela mulher contra a exclusão étnica e religiosa uma clara manifestação de fé. Esta fé produz frutos, e a necessidade daquela mulher é atendida. Graças à persistência de um personagem considerado excluído e tratado como inferior, o cristianismo se abriu aos diversos povos e suas culturas. Acolhamos agradecidos o testemunho inquieto das mulheres numa Igreja de ministros masculinos, e arregacemos as mangas para “desmasculinizar” a Igreja.

 

Sugestões para a meditação

Participe da cena: o desembarque de Jesus, os gritos da mulher, a indiferença de Jesus, a insistência da mulher e a reação de Jesus

Será que também nossa Igreja ainda prioriza setores privilegiados e descarta pessoas e grupos por preconceitos diversos?

Somos capazes de reconhecer na luta perseverante e até raivosa de algumas pessoas e grupos sinais de fé aguerrida? 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Evangelho e tradições

Por que não seguimos as tradições antigas?

1162 | Tempo Comum | Semana XVIII | Terça | Mateus 15,1-14

No capítulo 15, Mateus apresenta vários episódios focalizados no reconhecimento ou confirmação de Jesus como enviado pelo Pai para realizar seu reinado no mundo O texto de hoje omite os v. 3 a 9, nos quais Jesus acusa os fariseus e doutores da lei de substituir e esterilizar a Lei de Deus por tradições humanas que eles inventaram e ensinam, e de crer e louvar a Deus apenas da boca para fora.

O episódio começa com a aproximação dos fariseus e escribas para acusar os discípulos de Jesus de desrespeitar as tradições do judaísmo. Por trás dessa acusação, está a crítica ao próprio Jesus, que subordina as tradições e o legalismo frio à misericórdia. Jesus responde aos doutores da lei priorizando a pureza ética (purificação do coração) à pureza cultual, e insiste que seus discípulos devem compreender e assimilar essa novidade e essa mudança.

Os representantes do judaísmo oficial se escandalizam com a liberdade ensinada e praticada por Jesus e desaparecem. Eles não reconhecem a autoridade de Jesus diante das tradições que lhes conferem segurança e poder. Na continuidade e na ausência deles, Jesus volta sua “catequese” aos discípulos, mas não deixa de criticar dura a abertamente as práticas dos fariseus e doutores da lei.

Além de citar o profeta Isaías para acusá-los de falsidade e engano, Jesus diz que as tradições que eles defendem não são inspiradas por Deus, não são plantas de Deus e, por isso, serão arrancadas e não ficará nada. E conclui pedindo que ninguém os leve em consideração: os doutores da lei são cegos que se propõe a guiar outros cegos, e essa pretensão acabará seguramente em desastre para ambos.

Este episódio ressoa como ensino e advertência aos discípulos e à Igreja como um todo. Todos precisamos escutar e compreender o ensino de Jesus. Nada deve ser colocado acima ou em lugar desse ensino. E devemos estar muito atentos para não colocarmos os nossos planos, costumes e tradições acima do Evangelho da compaixão e do serviço a vida. A vida de uma pessoa vulnerável vale mais que noventa e nove missas e mil ave-marias...

 

Sugestões para a meditação

Procure participar mentalmente das cenas: o questionamento feito a Jesus pelos escribas e fariseus, a resposta de Jesus, a retirada desiludida deles, o ensino incisivo às multidões e aos discípulos

Como ressoa em você, e consequências tem para a vida eclesial, a afirmação de Jesus de que “é o que sai da boca das pessoas que as torna impuras” e que aqueles que substituem a Palavra de Deus pelas suas tradições “são cegos guiando cegos”?

Em que medida alguns costumes e tradições da sua família e da sua comunidade correm o risco de anular a vontade de Deus colocando-se acima da Palavra de Deus? Quais?