sábado, 27 de junho de 2026

Pedro & Paulo

Combatamos o bom combate e guardemos a fé.

1125 | Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo | Mateus 16,13-19

O livro dos Atos dos Apóstolos nos lembra que Pedro, o primeiro Papa, foi presidiário. As chaves prometidas por Jesus Cristo não serviram para abrir a porta que o prendia. E Paulo, depois de ter sido um fariseu zeloso e acumulado muitos méritos e honras, foi conquistado por Jesus Cristo e, como muitos outros da sua geração, foi denunciado, perseguido, encarcerado e finalmente executado. Ele assimilou o que Jesus dissera ao enviar os Doze: “Não tenham medo de nada!”

Pedro e Paulo eram membros de comunidades cristãs, e o vínculo se mostra de modo comovente no relato dos Atos dos Apóstolos. “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja orava continuamente por ele”. Um pouco antes, quando Pedro e João haviam sido liberados da prisão, a comunidade pedia em oração: “Agora, Senhor, olha as ameaças que fazem, e concede que teus servos anunciem corajosamente a tua Palavra” (At 4,29). Diante da perseguição, as comunidades pedem coragem, e não tranquilidade. O que as sustenta é o encontro com Deus em Jesus Cristo.

Jesus faz uma pergunta decisiva aos discípulos: “Quem sou eu para vocês?” Pedro o reconhece e proclama Messias, e é o primeiro discípulo a fazê-lo. Porém, Jesus chama a si mesmo ‘Filho do Homem’, e não Filho de Deus (cf. Mt 11,19; 12,8; 12,32), acentuando assim seu vínculo com a humanidade. Isso significa que somente quem está aberto e sintonizado com a lógica e a vontade de Deus pode reconhecer sua presença nas ações e palavras deste filho da humanidade e irmão de todos os seres humanos. Esta é a base sólida sobre a qual Jesus Cristo constrói a comunidade cristã, literalmente, a assembleia dos chamados, e contra a qual nada prevalece.  

Crer, confiar, partilhar e anunciar: estes são os verbos essenciais da gramática dos cristãos. Só chega à meta da caminhada de discípulo quem conjuga estes verbos em todos os tempos, modos e pessoas. É nesta perspectiva que, escrevendo na cela da prisão, Paulo faz um balanço de sua vida e suas palavras são eloquentes: “Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”

 

Sugestões para a meditação

Responda à pergunta de Jesus a Pedro, descrevendo o lugar que ele ocupa na sua vida, e como ele influi nas suas relações, ações e opções, grandes ou pequenas

Recorde as consequências que esta resposta de Pedro tem na vida dele, de Paulo e dos discípulos que vieram depois deles

Deixe ressoar em você a palavra de Jesus: “Feliz és tu, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai!”

Você deseja que Jesus entre na sua casa e faça as mudanças que o Evangelho pede, tome você pela mão e faça de você um servidor dos outros?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Dois reinos, duas classes

Jesus não ignora a humilhação dos pobres

1124 | Tempo Comum | Semana XII | Sábado | Mateus 8,5-17

Depois da primeira etapa do processo de “formação na ação” que Jesus oferece aos seus discípulos (purificação e cura de um leproso), entramos na fase narrativa, que descreve a novidade do Reino de Deus em ação naquilo que Jesus faz. Também nisso ele forma, educa e orienta seus discípulos missionários. Ontem, vimos como ele desmascara a ideologia que taxa os leprosos como impuros.

Uma leitura atenta do início do capítulo 8 do evangelho segundo Mateus ajuda-nos a perceber que Jesus derruba os muros e atravessa as fronteiras políticas, étnicas, religiosas e sociais, enfrentando o sofrimento das pessoas rejeitadas, oprimidas, isoladas, doentes, paralíticas, etc. E faz isso evitando os centros e deslocando-se para as margens. Usa como meios eficazes a Palavra e o toque, a compaixão e a misericórdia, sem recorrer a ações poderosas e capazes de impressionar, seduzir e provocar medo. São ações que beneficiam os necessitados, e não subjugam ninguém.

Na cena de hoje se confrontam dois reinos (o império romano e o Reino de Deus), duas etnias (os judeus e os pagãos) e duas classes (um chefe militar e uma mulher sem nome). O escravo e a sogra de Pedro não têm voz, não contam para nada. Diante desses dois sujeitos sociais, Jesus faz o que império romano não faz, e corrige aquilo que a dominação provoca. A possessão era a expressão da completa destruição da pessoa, e Jesus põe fim a esse mal que fere tanta gente.

A figura do oficial romano é ambivalente, pois ele faz parte da estrutura de dominação e de violência do império romano, mas, ao mesmo tempo, é um pagão, e, como tal, é desprezado pelos judeus. Pela confiança radical na força libertadora da pessoa e da Palavra de Jesus para curar alguém tratado por ele como simples propriedade, este oficial chama a atenção e atrai o elogio de Jesus.

A atitude e as palavras desse pagão inspiram a vida cristã. Sua fé é exemplo até para os judeus mais piedosos. Em cada celebração eucarística, repetimos suas palavras, e queremos assimilar sua atitude. “Senhor, eu não sou digno que entres em minha casa, mas uma palavra tua basta para curar-me!”

 

Sugestões para a meditação

Preste atenção nos gestos e nas palavras do oficial romano: ele pede em favor de um escravo, sua propriedade, uma pessoa que talvez ele mesmo tivesse torturado

O oficial expressa sua fé na força da Palavra e da compaixão de Jesus de Nazaré por aqueles que não tem voz nem vez

Jesus se interessa pela sogra de Pedro, vai ao encontro dela no reduto doméstico, ajuda-a a superar a enfermidade e recoloca-a de pé

Você deseja que Jesus entre na sua casa e faça as mudanças que o Evangelho pede, tome você pela mão e faça de você um servidor dos outros?

Auxílio e preconceito

O Brasil será uma nação de imprestáveis?

O Papa Leão XIV começa sua carta encíclica assinalando que “cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade” (n. 1). E em todo o texto, afirma e reafirma a grandeza da humanidade.

Somos herdeiros de punhado de tribos escravizadas e consideradas “imprestáveis”, que, congregadas pela mesma fé e lideradas por Moisés, enganaram o faraó e fugiram, depois de roubar algo de quem lhes haviam roubado quase tudo. E Deus as sustentou com uma “bolsa maná” e uma “bolsa codorna” no deserto, por 40 anos (cf. Ex 12,35; 16,1-36).

Mil anos se passaram, e um certo Jesus, carpinteiro em Nazaré, deixou seu ofício para anunciar a chegada dos Novos Céus e da Nova Terra (cf. Is 65,17-25), sonhados por muitas gerações. Reuniu um grupo de gente “imprestável”, desprovida de todo refinamento cultural. E ensinava uma doutrina que, aos olhos das elites, era uma afronta.

Ele ensinava, por exemplo, que, aos olhos de Deus, as pessoas colocadas em último lugar na escala social são as que merecem mais atenção; que saciar a fome dos miseráveis é tarefa daqueles que nele acreditam; que as prostitutas e os publicanos são mais dignos e honrados que as “pessoas de bem”; que as pessoas vulneráveis são a sua imagem, trabalhem ou não; que não é possível, ao mesmo tempo, servir a Deus e ao dinheiro.

Paulo, judeu, fariseu e cidadão romano, foi seduzido por este homem, que os cristãos creem ser o filho e enviado de Deus. Trancafiado no cárcere por prosseguir a plataforma de Jesus, Paulo conheceu um homem que trazia no próprio nome a tarja de “imprestável”: Onésimo, que fora escravo de um cristão chamado Filemon, e havia fugido.

Depois de causar prejuízo ao seu antigo senhor, Onésimo se encontrou com Paulo no cárcere, e se tornou cristão. E Paulo o convenceu a voltar, e mandou com ele um bilhete ao amigo Filemon. É um dos mais comoventes testemunhos das mudanças que a fé provoca na vida pessoal e social. Paulo diz que envia Onésimo como se fosse o seu próprio coração, como se fosse ele mesmo. E pede que Filemon o receba como irmão.

Hoje, “a idolatria do mercado” ainda trata milhões de pessoas como “imprestáveis”. Um candidato a presidente, herdeiro de grande fortuna, fala e repete, sob aplausos de uma elite de empresários, que um Estado que socorre as pessoas vulneráveis, acaba produzindo uma “geração de imprestáveis”.  Será que modernizar a economia significaria apenas aperfeiçoar os mecanismos de expropriação e deixar os pobres à própria sorte?

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Missão e Compaixão

A compaixão é a força da transformação

1123 | Tempo Comum | Semana XII | Sexta-feira | Mateus 8,1-4

Depois de concluir a primeira etapa da formação dos discípulos e discípulas, feita na montanha e concluída com o chamado a construir a casa sobre a rocha (ouvindo e praticando a Boa Notícia de Deus), Jesus desce da montanha para continuar o processo formativo, agora na ação, mediante o testemunho. Jesus ensina por aquilo que faz, e age de forma transformadora com aquilo que anuncia.

Ele havia afirmado que são felizes, entre outras, as pessoas que choram compartilhando a dor do próximo, assim como as pessoas misericordiosas. Uma multidão de gente marcada pela dor e pela esperança o seguia, porque só podiam contar com ele. Na cena de hoje, um leproso, que não poderia estar com a multidão nem com sua própria família, se aproxima de Jesus, transgredindo os preceitos, que o obrigavam a tomar distância e anunciar sua maldição.

O leproso demonstra sua reverência e dependência, se ajoelha diante de Jesus e lhe faz um pedido: “Senhor, se queres, tu tens o poder de me purificar”. Como a lepra, sendo uma contagiosa doença de pele, era vista como impureza que excluía a pessoa da convivência social, o leproso não pede apenas para ser curado, mas para ser “purificado”. A purificação (ou o perdão) é a ação interior e espiritual que se expressa na cura exterior ou física.

Jesus realiza o querer e o agir de Deus, por isso afirma que ele quer sim purificar/curar aquela pessoa sofrida e excluída, quer que ela fique totalmente “limpa”, e possa frequentar todos os espaços sociais e religiosos antes absolutamente interditados a ela. “Purificado”, o leproso é reinserido na convivência social, e tem o direito de ser tratado como ser humano e como cidadão.

Pode parecer estranho que, fazendo algo que não poderia fazer segundo a lei judaica e denunciando a incapacidade do templo de fazê-lo em nome de Deus, Jesus tenha enviado o homem “purificado” justamente ao templo. Mas Jesus o faz por dois motivos: mostrando-se aos sacerdotes e apresentando sua oferta, o homem adquire o “passaporte” que lhe permite frequentar o templo e a sociedade; ao mesmo tempo, demonstra “ao vivo e a cores” a incompetência do pessoal do templo.

 

Sugestões para a meditação

Participe desta cena e interaja com os personagens, descendo com Jesus da montanha, misturando-se à multidão, observando o leproso

Quem são hoje as pessoas e grupos sociais cuja presença e circulação na sociedade não é bem vista, é indesejada ou é até proibida?

Quais são os critérios que hoje a sociedade elitista e consumista estabelece para excluir uma pessoa dos seus círculos?

Há algo em você ou em sua família ou em sua comunidade que você vê como impureza, que lhe tira a dignidade e a alegria de viver e conviver?


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Crer e agir

É a prática que dá consistência à fé cristã

1122 | Tempo Comum | Semana XII | Quinta-feira | Mateus 7,21-29

A encarnação do Evangelho na vida cotidiana é a luz que ilumina com cores especiais os textos bíblicos deste tempo litúrgico. Ela ajusta nosso olhar para reconhecermos os sinais da permanência de Deus “no meio de nós”, nos tempos comuns, em trajes humanos de pobreza, simplicidade, proximidade e coerência. E nos sensibiliza ao sonho, à esperança, à generosidade.

O texto de hoje é a conclusão da “catequese da montanha”, o primeiro anúncio de Jesus às multidões e a primeira de uma série de lições aos discípulos missionários. Jesus nos adverte sobre uma forma deficiente de acolher o Evangelho de Jesus: reduzi-lo a um motivo para exultação, cânticos e linguagens estranhas. Jesus nos encoraja a levar o Evangelho para a vida, como dinamizador de ações.

Acolher Jesus e seguir seus passos e suas lições significa fazer-se seu discípulo, ser seu companheiro de caminhada, assumir seus sentimentos e pensamentos, participar da sua missão. A ação evangélica do discípulo missionário nasce da escuta atenta da Palavra, que nos fala pela Bíblia e pela Vida. Ler, escutar ou meditar o Evangelho e não agir de acordo com ele equivale a desobedecer.

Tanto no tempo de Jesus como hoje, há quem queira ser cristão sem uma prática correspondente. Tem o nome de Jesus sempre nos lábios, mas usa-o para promoção pessoal ou das suas igrejas. E há instituições que embelezam seus espaços com afrescos e móveis caros, mas não querem saber do Evangelho. Infelizmente também não faltam cristãos que querem reduzir a fé a uma moral mesquinha.

A autenticidade do discípulo missionário se evidencia numa vida centrada em Jesus e no Reino de Deus. No discipulado missionário, não há espaço para as fachadas. Não é aceitável o uso do nome de Jesus como fórmula mágica e afirmação de poder. Isso seria insensatez ou falta de juízo, como diz Jesus: seria como tentar construir um edifício sobre terreno movediço.

 

Sugestões para a meditação

O evangelho de hoje nos chama e orienta para uma atitude madura e adequada em todas as esferas da vida cotidiana

Será que alguns movimentos religiosos muito em moda não caíram na tentação de reduzir a vida cristã à invocação do nome de Jesus?

Perceba a advertência de Jesus às pessoas aparentemente piedosas, porém más em suas relações?

Será que, diante das exigências do Evangelho, alguns setores cristãos estão buscando ensinamentos em outros “mestres”, menos radicais?


terça-feira, 23 de junho de 2026

João Batista

A vizinhança se alegra com a misericórdia

1121 | Solenidade da Natividade de João Batista | Lucas 1,57-80

Este belo texto nos convida a valorizar os pequenos fatos da vida, como o nascimento de uma criança, os encontros de amigos, a superação de uma enfermidade, pois é o relato do nascimento de João Batista. É Deus presente no meio de nós, Deus que continua cumprindo suas promessas. No nascimento do filho esperado, as promessas começam a se cumprir.

O filho que foi prometido a Zacarias nasce e traz alegria, não apenas a ele, mas a todo o povo. Chegou o tempo estabelecido, o tempo da graça. O anjo já havia anunciado que muita gente se alegraria com este nascimento. A vinda do pequeno João à luz do dia é um sinal de esperança para todo o povo do qual fará parte. Nele, Deus é misericórdia e graça, e o caminho que leva a Deus é endireitado, e Zacarias solta a língua e louva a Deus.

Os vizinhos queriam dar ao bebê o nome do pai, inserindo-o na tradição da família e do clã. Mas o nome será aquele sugerido a Zacarias pelo anjo: João, que significa “o Senhor é favorável”. Este nome amplia o desejo da vizinhança, e diz que João é uma graça de Deus para todos. A este nome a tradição acrescenta ‘Batista’, como referência à sua prática profética. Que nenhuma tradição festiva ou redução intimista apague sua profecia!

Zacarias havia ficado mudo, mas, com o nascimento do filho, volta a falar. Como um homem justo, começa a bendizer a Deus. A liturgia que ele dirigia no templo no dia do anúncio e fora interrompida é agora retomada, em clima de louvor e festa. À medida em que a notícia se espalha, todo o povo fica sabendo o que Deus está fazendo pelo povo, e todos se enchem de admiração e respeito pelo que estava acontecendo. O medo faz calar, a admiração faz proclamar, crer e caminhar.

A vizinhança se pergunta o que vai ser do menino. E o Evangelho diz que ele falará e agirá em nome de Deus, chamando à conversão, endireitando caminhos, propondo a reconciliação e a justiça. E terá a grata satisfação de mostrar o Messias presente no mundo, Jesus de Nazaré. Não nos cansemos de celebrar os sinais da grandeza do amor misericordioso de Deus na fragilidade, na pequenez e aparente insignificância tanto das pessoas como dos acontecimentos.

 

Sugestões para a meditação

Participe desta cena e interaja com Isabel, Zacarias, a vizinhança e os parentes, que se reúnem para participar da alegria de Isabel

O que aconteceu com as nossas liturgias, que expulsaram a alegria para hospedar a seriedade, o comedimento, a doutrina e a moral?

O que a alegria e a simplicidade que marcam as festas juninas podem nos ensinar sobre a vivência cotidiana da fé cristã?

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Estradas e portas

O discípulo escolhe uma vida alternativa

1120 | Tempo Comum | Semana XII | Terça-feira | Mateus 7,6-14

Continuamos frequentando as lições de Jesus, Mestre da vida, para que possamos avançar, cada dia um pouco mais, na nossa formação como discípulos missionários. Para hoje, a Igreja nos propõe um versículo (v. 6) que parece mais ligado ao trecho que meditamos ontem (crítica e autocrítica), omite os versos que ressaltam a eficácia da oração (v. 7-11) e nos convida a meditar sobre a regra de ouro, que mede a avalia todas as nossas relações.

Façam às pessoas o mesmo que vocês desejam que elas façam a vocês. Esta é, de fato, a lei e os profetas”. É isso que Jesus jamais anulou, e deseja destacar e concretizar com sua vida e seu ensinamento. Esta é a lei que permanece para sempre, o corolário das leis, a régua ou a balança que avalia a qualidade da vida dos discípulos do reino. Este imperativo dá primazia ao outro, sublinha o apreço e o respeito por ele, afasta e supera as relações de indiferença, raiva e violência.

Aqui Jesus alarga o horizonte das relações dos discípulos entre si e para fora da comunidade. O foco não é unicamente a comunidade interna (os irmãos e irmãs), mas as pessoas em geral. E não se trata de ser justo e bom com as pessoas esperando que elas nos retribuam na mesma moeda. Ao seguidor de Jesus basta ser lucidamente bom e em tudo amar e servir, e o retorno não entra no orçamento, nem na contabilidade. Essa é a novidade do Reino de Deus. Jesus é realista, e adverte que são poucas as pessoas que ousam este modo de viver e nele perseveram.

Por isso, Jesus recorre às imagens da porta e da estrada, que, no ambiente do império romano, eram meios de propaganda e espaços de controle militar, de exploração econômica (cobrança de impostos) e de dominação violenta sobre os cidadãos hebreus. Porta e estrada são também imagens que expressam direção ou opção escolhida, e entrada ou acolhida. Jesus fala de porta estreita e de estrada estreita.

Falando do caminho estreito e da porta apertada do Reino, Jesus não se refere à carroçada de prescrições morais que padres e pastores costumamos impor ao povo, mas à necessidade de seguir seu estilo de vida, de ser uma comunidade alternativa, que antecipa o sonho do Reino de Deus. Não é verdade que essa é uma estrada estreita e supõe empenho? Para os cristãos, não há outro caminho que possa levar à vida, à felicidade. Não há como ser bom e justo sem isso.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você cada palavra e cada frase dessa lição sobre a regra de ouro que deve inspirar nossas ações e relações

Detenha-se na imagem da estrada e da porta, e tente compreender seu sentido à luz do Evangelho vivido e anunciado por Jesus

Também você tende às vezes a fazer o bem focado prioritariamente na expectativa da retribuição, do aplauso e do reconhecimento?

domingo, 21 de junho de 2026

O cisco e o entulho

Crítica sem autocrítica pode ser hipocrisia

1119 | Tempo Comum | Semana XII | Segunda-feira | Mateus 17,1-5

Continuamos na primeira etapa de formação que Jesus oferece a seus discípulos missionários. Ele é realista, e sabe que somos comunidades de homens e mulheres imperfeitos, de pessoas que ainda têm muito caminho pela frente. Quando Jesus nos pede que sejamos perfeitos como o Pai é perfeito, na verdade está pedindo que nos empenhemos e perseveremos no caminho de crescimento, e não propriamente uma perfeição. Hoje ele ilustra o que significa ter coração puro.

Tendo escolhido Jesus como mestre, precisamos desenvolver relações e práticas coerentes com a novidade do Reino de Deus, tanto no âmbito social como no interior da comunidade. Partindo da convicção de que todos somos pecadores e limitados, precisamos conjugar a correção das faltas dos com uma serena e profunda capacidade de autocrítica. A crítica sem autocrítica, sem o cultivo de um olhar e um coração puros, pode virar hipocrisia e descambar para a intolerância e a exclusão.

Jesus não diz que devemos “fechar o olho” diante das faltas que marcam a vida comunitária, mas pede que nosso olhar sobre os outros seja correto. Precisamos equilibrar nossos juízos, evitando criminalizar os outros para declarar-nos inocentes. E não podemos cair na tentação de ocupar o lugar de Deus, a quem compete o julgamento final. Privar os outros de misericórdia é impedir a misericórdia de Deus para conosco mesmos. A balança ou a trena com que medimos os outros serão aplicadas também a nós.

Com o exemplo do cisco no olho do irmão e da trave no nosso próprio olhar, Jesus oferece um critério fundamental: julgar e condenar os outros sem autocrítica é ridículo e hipócrita, e isso é inaceitável para um discípulo missionário. Na revisão de vida, o “eu” vem antes que o “tu” e o “eles”. Se invertemos a prioridade, deixaremos de ser comunidades alternativas, capazes de fecundar a história com a novidade do Reino de Deus, com sementes de justiça, de acolhida e de fraternidade.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você cada palavra e cada frase dessa lição sobre a correção fraterna na comunidade familiar e cristã

Detenha-se na imagem do cisco e da medida (balança ou régua) que Jesus propõe como metáfora na prática da correção fraterna

Você também tende às vezes a ceder a um julgamento implacável, a uma crítica sem autocrítica, a um olhar condenatório sobre os outros?

sábado, 20 de junho de 2026

Não há espaço para o medo

Quem se confia a Deus está em boas mãos!

1118 | Tempo Comum | Semana XII | Domingo | Mateus 10,26-33

O evangelho deste domingo é uma contundente exortação a não ter medo das dificuldades oriundas da fidelidade à vocação e à missão que nos é confiada. Os versículos de hoje estão inseridos no contexto da escolha, instrução e envio dos doze discípulos como colaboradores da missão de Jesus, com a competência de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade (cf. Mt 10,1-4).

Antes de enviá-los, Jesus dá aos discípulos uma série de instruções fundamentais e orientações práticas. Pede-lhes absoluta confiança nas inspirações do Espírito Santo, especialmente para a autodefesa diante das perseguições. Jesus não esconde nada daqueles que escolhe e envia, e sublinha que a reação persecutória é mais que uma possibilidade, e pode-lhes vir inclusive da própria família de sangue. Eles são ovelhas em meio a lobos (cf. v 16-25).

Jesus inscreve a ação dos discípulos missionários no próprio processo de desvelamento das promessas de Deus e da iniquidade humana que se lhe opõe. A missão que eles desenvolvem colabora na revelação daquilo que está escondido e na descoberta aquilo que está oculto no coração humano, no seio da história e nas instituições sociais. Mas também alerta seus enviados em relação ao medo paralisador que as perseguições podem provocar.

Os discípulos missionários não podem sucumbir ao medo de ser descartado. A própria perseguição não está fora do conhecimento de Deus. Ele é pai carinhoso que conhece e protege seus filhos e filhas. Ele se desdobra em cuidados e carinhos até dos pássaros que não gozam de importância alguma, e nem o detalhe da queda dos cabelos lhe passa despercebida. Seus enviados valem muito mais que alguns pardais ou um chumaço de cabelo!

O poder das pessoas e estruturas que perseguem e matam é limitado, enquanto que o cuidado do Pai pelos seus enviados não tem limites. É preciso temer mais a Deus que aos podres poderes. A confiança absoluta na sua Sabedoria e na sua Vontade sustenta a fidelidade. Com os olhos fixos em Jesus, o Profeta contestado, e sem largar a mão de ninguém que compartilha a missão, enfrentaremos serenamente as contrariedades. E que ninguém ouse dizer que ser missionário nos tempos atuais é muito difícil e complexo! A cada tempo seus próprios desafios.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você cada palavra e cada frase desta exortação missionária de Jesus, e procure deter-se naquela que lhe fala mais alto

Quais são hoje os medos que inibem a força e o dinamismo da missão pública dos cristãos? Você também os sente?

Onde, em que e com quem você busca encorajamento para viver a missão profética que lhe é confiada, com serenidade e firmeza?

Não tenha medo!

LIBERTAR AS COMUNIDADES DO MEDO

As fontes cristãs apresentam Jesus dedicado a libertar as pessoas do medo. Deixava-o triste ver as pessoas aterrorizadas pelo poder de Roma, intimidadas pelas ameaças dos mestres da lei, afastadas de Deus pelo medo da sua ira, culpabilizadas pela sua pouca fidelidade à lei. Do seu coração, cheio de Deus, só podia brotar um desejo: «Não tenhais medo». São palavras de Jesus que se repetem uma e outra vez nos evangelhos. As que mais se deveriam repetir também hoje na sua Igreja.

O medo apodera-se de nós quando no nosso coração cresce a desconfiança, a insegurança ou a falta de liberdade interior. Este medo é o problema central do ser humano, e só podemos libertar-nos dele enraizando a nossa vida num Deus que só procura o nosso bem.

Foi assim que Jesus o viu. Por isso dedicou-se, antes de mais, a despertar a confiança no coração das pessoas. A sua fé profunda e simples era contagiante: se Deus cuida com tanta ternura dos pardais do campo, os pássaros mais pequenos da Galileia, como não há de cuidar de vós? Para Deus sois mais importantes e queridos do que todos os pássaros do céu. Um cristão da primeira geração recolheu bem esta mensagem: “Entregai a Deus toda a vossa preocupação, que a Ele lhe interessa o vosso bem”.

Com que força falava Jesus a cada doente: «Tem fé. Deus não se esqueceu de ti». Com que alegria os despedia quando via que estavam curados: «Vai em paz. Vive bem». Era o seu grande desejo. Que as pessoas vivessem com paz, sem medos nem angústias: “Não vos julgueis, não vos condeneis mutuamente, não vos façais mal. Vivei de forma amistosa”.

São muitos os medos que fazem as pessoas sofrer em segredo. O medo faz mal, muito mal. Onde cresce o medo, perde-se de vista Deus e sufoca-se a bondade que há no coração das pessoas. A vida apaga-se, a alegria desaparece.

Uma comunidade de seguidores de Jesus deve ser um lugar onde as pessoas se libertam dos seus medos e aprendem a viver confiando em Deus. Uma comunidade onde se respira uma paz contagiante e se vive uma amizade profunda que torna possível escutar hoje o apelo de Jesus: «Não tenhais medo».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez