terça-feira, 24 de março de 2026

Uma Boa Notícia

Alegra-te! Encontraste graça diante de Deus!

1029 | Festa da Anunciação | 25 de Março | Lucas 1,26-38

Hoje a Igreja católica nos propõe a solenidade da anunciação do nascimento de Jesus, celebrada exatamente nove meses antes do Natal. E a Igreja indica o texto do evangelho de Lucas para iluminar esta solenidade cristológica. Com os discípulos e discípulas de Jesus proclamamos que Maria é uma mulher cheia de graça. Ela é agraciada pela presença de Jesus, que compartilha conosco.

Na cena da anunciação, o papel central fica para o Anjo Gabriel. O clima geral é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão que significa “Esteja bem! Tudo de bom!” E diz que o “charme” dela encantou o próprio Deus. Mas isso terá consequências, pois Maria terá que mudar os planos que traçara.

É claro que o anjo Gabriel não está se referindo apenas à eventual e imaginável formosura física de Maria de Nazaré, mas à sua humanidade, original e sem pecado, como a criação tal como foi sonhada e imaginada por Deus. Ela é a imagem da pessoa humana livre, criativa e acolhedora, na qual brilha a imagem de Deus.

Sendo acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é, de modo algum, uma mulher passiva e sem personalidade. Antes, mostra-se uma mulher atenta e reflexiva. Ela pede explicações, interroga o Anjo, quer compreender. Graças aos seus teimosos questionamentos, Maria descobrirá a misteriosa ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá abrirá o caminho de uma para uma nova terra, na qual floresce o cuidado, a liberdade e a fraternidade.

E o próprio anjo antecipa alguns traços do filho que vem anunciar: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, será santo por sua ação profética, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi, o parceiro dos pobres. No nome que lhe será dado, está escondida sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, imaginando-se presente e ativo na anunciação, naquele lugar perdido e obscuro da Galileia

Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado que nascerá de Maria

Tome como dirigidas a você as palavras do Mensageiro de Deus: “Alegra-te, cheio de graça! O Senhor está contigo!

Procure inserir seu projeto de vida no projeto que Deus tem para a humanidade e para você nesta fase da sua vida

segunda-feira, 23 de março de 2026

A cruz nos atrai

O amor crucificado continua nos atraindo

1028 | Quaresma | 5ª Semana | Terça-feira | João 8,21-30

Depois de fazer a defesa pública da mulher prestes a ser apedrejada pelos defensores da lei, e depois de questionar insistentemente os seus acusadores, o diálogo de Jesus com os fariseus vai ficando difícil e vira confronto aberto. Mais ainda depois de Jesus se apresentar como luz do mundo, aquela que vence as trevas e orienta os homens e mulheres de boa vontade. Ele quer tomar o lugar da Lei!

No texto que refletimos hoje, Jesus fala de um modo enigmático: diz que vai partir, que os fariseus não poderão acompanhá-lo, que eles vão procurá-lo mas não vão encontrá-lo. E faz uma clara advertência: os fariseus não acreditam nele, e, por isso, morrerão no pecado. Na verdade, segundo o evangelho de João, os fariseus e demais lideranças religiosas pertencem ao mundo, têm interesses rasteiros, orientam-se por um deus feito à imagem e semelhança deles.

A má vontade que os impede de compreender Jesus e aderir a ele nasce de um preconceito teológico. Para eles, Deus é aquele que submete e limita a liberdade e a autonomia das pessoas. Fazendo o que faz e ensinando o que ensina, Jesus estaria usurpando o poder de Deus, e isso eles não conseguem tolerar. Eles não percebem nenhuma relação entre Jesus e o deus deles. Mas, para Jesus, Deus é sempre a favor do ser humano, e o prioriza acima das leis.

São duas cosmovisões distintas e contrastantes. Estas lideranças jamais conseguirão aceitar um Messias despojado de poder e crucificado por amor, a vida como dom entregue livremente. Por isso, quando Jesus fala em “partir”, eles ironizam, perguntando se ele vai suicidar-se. Não há preocupação por Jesus. Mas Jesus mostra-se livre e altivo; não se acovarda, pois sabe que não está sozinho.

Se, por um lado, os fariseus se fecham cada vez mais e aceitam cada vez menos Jesus e seu ensino, por outro, acolhendo o testemunho de liberdade, ousadia e generosidade dele, muitos acreditam e aderem à sua proposta. Estes entram na lógica “de cima”, dos valores humanos universais, e abandonaram a lógica dos interesses “baixos”. Para estes, Jesus fala com sabedoria e ensina com amor.

 

Sugestões para a meditação

Nesta última semana da quaresma, o apelo a mudar de olhar e de atitude se torna cada vez mais contundente e urgente

Ao aproximar-se do desfecho da sua vida, decretado pelas próprias autoridades, Jesus fala claramente de “entrega” e cruz

Que imagem de Deus nos orienta e está presente em nossa catequese, nossos cânticos e nossa espiritualidade?

Será que estamos sendo capazes de refazer e corrigir nossa imagem de Deus a partir de Jesus crucificado por amor?

domingo, 22 de março de 2026

Jesus e a nossa ressurreição

Você acredita em vida após o nascimento?

No próximo domingo, as comunidades cristãs meditarão sobre o capítulo 11 do evangelho segundo João. Ele nos apresenta o drama da morte de Lázaro, amigo querido de Jesus e irmão das amigas Marta e Maria. Este texto não fala propriamente sobre a nossa ressurreição, mas sobre o dinamismo da fé em Jesus e a amizade dele conosco.

Entretanto, a cena nos é proposta enquanto caminhamos para a Páscoa, e a Páscoa tem a ver com a ressurreição de Jesus. A fé na ressurreição não significa “passar panos quentes” na tragédia da morte, mas afirmar com vigor e proclamar com eloquência a força da Vida. À medida em que se faz dom, a Vida é como a semente que cai na terra e germina.

Sei que a ressurreição é vista como algo insólito por uma cultura que canoniza o presente, o sensível e o rentável e nega ou considera desprezível tudo o que não cabe nestes estreitos limites. Talvez se possa dizer que, na pós-modernidade liberal, a religião e o monoteísmo não desapareceram, mas foram substituídos pelo “moneyteísmo”.

A propósito da ressurreição dos que morrem, recordo uma conhecida parábola. No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês gêmeos: Fidélis e Nilo. Nilo perguntou se Fidélis acreditava em “vida após o nascimento”, ao que ele respondeu: “Certamente! Algo tem que haver após o nascimento. Talvez a vida aqui nesse lugar apertado e escuro seja apenas uma preparação para o que seremos mais tarde...”

Em tom irônico, Nilo perguntou se o irmão saberia dizer como seria a outra vida, e Fidélis respondeu: “Eu não sei exatamente como será essa outra vida, mas acho que nela haverá mais luz e espaço do que aqui. Nessa nova fase da vida talvez caminhemos com nossos próprios pés, nos alimentemos pela boca e possamos conhecer muitas outras pessoas...”

Nilo gritou que isso tudo é absurdo, que caminhar é coisa impossível, que o cordão umbilical é o único modo de se alimentar e que ninguém voltou depois do parto para dizer como é essa suposta vida. E completou: “O parto encerra a vida, e ponto final. A vida é apenas uma angústia prolongada numa escuridão sem sentido e sem fim”.

Mas Fidélis prosseguiu: “Não sei bem como será a vida depois do nascimento. Mas eu acho que veremos o rosto da nossa Mamãe, e ela cuidará de nós. Sei que você não acredita em Mamãe, mas ela nos envolve e nos sustenta. É nela e através dela que vivemos. No silêncio já podemos ouvi-la cantando e senti-la afagando nosso pequeno mundo...”

A miséria humana e a misericórdia divina

Com Jesus, todos os pecadores têm futuro

1027 | Quaresma | 5ª Semana | Segunda | João 8,1-11

No dia mais solene da festa, de madrugada, vai ao templo. Era a Festa das Tendas, que recordava o tempo em que viveram em tendas e o início do Yom Kippur, o tempo especial de perdão e remissão todas as dívidas. E eis que chegam à praça do templo alguns fariseus arrastando uma mulher e acusando-a de adultério.

Os mestres da lei e os fariseus transgredem o espírito dessas festas, tramam a prisão e morte de Jesus e condenam tacitamente uma mulher ao apedrejamento, sem o mínimo sinal de misericórdia. Eles pretendem apresentar uma armadilha a Jesus: colocam ele entre a lei judaica, a lei romana e seu próprio ensino.

Jesus começa respondendo com um gesto corporal: inclina-se, e coloca-se no nível de mulher; abaixa-se diante do um bando de homens que esperam seu sinal para liberar sua violência machista. Jesus se aproxima da humanidade ferida e busca uma avaliação e uma palavra justa. Para desmobilizar a violência dos acusadores, Jesus evita o olhar dos agressores. Abandonando o combate, ele o acaba vencendo.

Os fariseus insistem. Então, a resposta de Jesus é extremamente simples, uma única frase, que chama ao discernimento: quem nunca pecou, que comece o apedrejamento! Os fariseus conhecem a Lei, e sabem que ela chama à conversão, à atenção a Deus e ao seu povo. Eles se dão conta da ilusão de serem superiores. Jesus e a mulher acabam ficando sozinhos na praça, miséria diante da misericórdia.

A mulher permanece ali, cercada e algemada pela própria culpa. Então Jesus se dirige a ela, com uma pergunta que a ajuda a tomar consciência de que todos os seus acusadores são pecadores, como ela, que todos são membros da mesma e única humanidade que ele veio libertar. Por fim, declara que ele também não a condena, e pede que a mulher não volte a pecar.

Jesus não defende o laxismo nem rigorismo, mas a misericórdia, que não legitima o pecado, mas também se recusa a reduzir e identificar a pessoa com seu pecado.  A pessoa jamais pode ser reduzida aos seus atos!  Diante de Deus todos temos chance. Não é verdade que para conhecer e experimentar Deus não podemos ser pecadores! Ser pecador é uma chance para conhecer o coração de Deus! É porque ele nos ama e perdoa incondicionalmente que precisamos viver cada vez melhor.

 

Sugestões para a meditação

Retome esta cena atentamente, situando-se entre os três personagens: os fariseus, a mulher e Jesus

Tome como dirigidas a você as palavras de Jesus: “Eu também não te condeno... Vai em paz e não tornes a pecar...”

Por que nos custa tanto superar a atitude de acusadores e assumir, de verdade, nossa realidade de pecadores e iguais?


sábado, 21 de março de 2026

Ninguém vive para morrer

Senhor, que a morte não nos seja indiferente!

1026 | Quaresma | 5ª Semana | Domingo | João 11,1-45

A experiência de fracasso pode nos levar a repetir o refrão acusatório contra Deus e contra o destino, como o fazem Marta e de Maria: “Senhor, se tivesses vindo, meu irmão não teria morrido...” Muitas vezes temos esta mesma sensação diante de doenças incuráveis, de acidentes trágicos, ou de pandemias arrasadoras como esta que a humanidade vive hoje. Na revolta, gerada no ventre dor, chegamos a acusar Deus, pois, nessas circunstâncias, ele nos parece ausente, desinteressado ou sem coração. “Onde está Deus em meio a tanto sofrimento?”

 “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro”, assim como ama cada um de nós. Somos sua família, seus amigos e amigas, ainda que ele não se deixe prender aos nossos desejos, nem se submeta às urgências do nosso calendário. Jesus sempre chega, no tempo oportuno, para nos ajudar a mudar as coisas, para chorar as dores que nos afligem, e não passa adiante sem se desdobrar em iniciativas de cuidado. Compassivo e terno, seu coração também sofre! “E Jesus estremeceu interiormente, ficou muito comovido e chorou”, testemunha João.                      

Jesus nono é nem pse comove não é indiferente aos sofrimentos de ninguém, e participa da dor de Marta e Maria, como o faz também hoje com todos aqueles que choram, impotentes e inconsoláveis. É mediante sua compaixão que ele nos faz experimentar seu amor. Eis aqui a porta que abre a possibilidade de mudança: o amor e a compaixão, tão divinos e tão humanos, essenciais no enfrentamento das tragédias que nos arrasam.

Acreditar em Jesus Cristo implica em confiar na força do seu amor. Da parte de Jesus, o amor que se compadece; da nossa parte, a confiança que abre horizontes e possibilidades. Da fé e da abertura ao amor compassivo e solidário de Jesus brotam as novas possibilidades de vida e a força da ressurreição. “Se você acreditar, verá a glória de Deus”. Esta é a glória de Deus: seu amor pela humanidade. A fé ilumina nossa inteligência na busca de soluções humanas para os problemas humanos.

Jesus convida Maria a ultrapassar a dor e o medo que obscurecem o olhar da sua fé. E Lázaro, no escuro da morte e no fundo da sepultura, também é interpelado: “Vem para fora!” Este grito de Jesus, pronunciado como oração, chama-nos todos à vida, a um novo olhar e um novo agir. É apelo a sair dos nossos interesses e projetos, geralmente nascidos e nutridos no ventre do medo e da indiferença.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, identifique-se com os personagens, preste atenção àquilo que dizem e fazem

Perceba o limite da fé de Marta e de Maria, o teor e o conteúdo existencial da promessa de Jesus e o salto de qualidade que ela pede de nós

Como você vive a morte inesperada de um familiar ou amigo? Você se sente injustiçado e incompreendido por Deus?

Vem para fora!

OS NOSSOS MORTOS VIVEM!

A despedida definitiva de um ser muito querido mergulha-nos inevitavelmente na dor e na impotência. É como se toda a vida ficasse destruída. Não há palavras nem argumentos que nos possam consolar. Em que se pode esperar?

O relato de João não tem apenas como objetivo narrar a ressurreição de Lázaro, mas sobretudo despertar a fé, não para que acreditemos na ressurreição como um acontecimento distante que ocorrerá no fim do mundo, mas para que vejamos desde já que Deus está a infundir vida àqueles que enterrámos.

Jesus chega profundamente comovido, ou soluçando, ao túmulo do seu amigo Lázaro. O evangelista diz que está coberto com uma laje. Essa laje fria fecha-nos o caminho. Não sabemos nada dos nossos amigos mortos. Uma laje separa o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Só nos resta esperar o dia final para ver se algo acontece.

Esta é a fé judaica de Marta: «Sei que o meu irmão ressuscitará na ressurreição do último dia». A Jesus isso não basta. «Tirai a laje». Vamos ver o que acontece com aquele que enterraram. Marta pede a Jesus que seja realista. O morto já começou a decompor-se e cheira mal. Jesus responde: «Se creres, verás a glória de Deus». Se em Marta despertar a fé, poderá ver que Deus está a dar vida ao seu irmão.

Tiram a laje e Jesus levanta os olhos ao alto, convidando todos a elevar o olhar até Deus, antes de penetrar com fé no mistério da morte. Ele deixa de soluçar e dá graças ao Pai porque ele sempre o escuta. O que ele deseja é que os que o rodeiam acreditem que é o Enviado do Pai para introduzir no mundo uma nova esperança.

Depois, Jesus grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” Quer que ele saia para mostrar a todos que está vivo. A cena é impactante. Lázaro tem «os pés e as mãos atados com ligaduras» e «o rosto envolto em um sudário». Lázaro traz os sinais e as ataduras da morte. No entanto, «o morto sai» por si mesmo. Ele está vivo!

Esta é a fé de quem acredita em Jesus: os que enterramos e deixamos na morte entre lágrimas vivem. Deus não os abandona. Afastemos a laje com fé. Chamemos os nossos mortos para fora, pois eles estão vivos!

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 20 de março de 2026

A beleza do Evangelho

Haverá mensagem mais bela que o Evangelho?

1025 | Quaresma | 4ª Semana | Sábado | João 7,40-53

O contexto existencial e social no qual se situa o episódio de hoje é especialmente difícil e conflituoso para Jesus. Seus parentes querem que ele vá a Jerusalém para se tornar famoso. Eles parecem indiferentes e resistentes ao caminho de despojamento e solidariedade que Jesus estava propondo e vivendo. João diz que nem sua própria família acreditava nele (cf. Jo 7,1-15).

Jesus vai a Jerusalém para a Festa das Tendas, que celebrava a difícil e longa travessia do povo pelo deserto, fugindo da escravidão de Egito e buscando uma terra livre e partilhada. Mas vai meio sozinho, discretamente. Mesmo assim, sua fala chama a atenção. “Ninguém jamais falou como este homem”, dizem os policiais do templo, para escândalo dos fariseus. Mas as opiniões se dividem e se contrapõem.

A chefia do templo já havia decidido prender Jesus, mas até os guardas ficam impressionados ao ouvi-lo. E muita gente se pergunta se ele não seria o Profeta ou o Messias esperado. Mas o preconceito do povo da capital contra as pessoas oriundas da Galileia é uma catarata que os impede de ver. E esse preconceito se volta também contra os pobres e pouco letrados que se deixam atrair por Jesus. “Essa gente que não conhece a lei é maldita”, dizem os fariseus, ecoando o preconceito de todos.

Sobram críticas e ataques pouco fraternos até para Nicodemos, simpatizante discreto de Jesus que desfruta de uma posição de liderança entre os fariseus. Quando ele lembra aos seus pares que a Lei que eles defendem e ensinam proíbe julgar alguém antes de ouvi-lo, é taxado de analfabeto em relação às escrituras e acusado de fazer parte da massa presumivelmente iludida por Jesus. Faltou dizer, como repetem alguns patriotas pouco afeitos à pátria que dizem amar e aos direitos humanos: “Você gosta dele? Vai com ele para Cuba ou Venezuela!”

O preconceito sempre distorce a visão de quem se julga melhor e superior. O medo faz com que vejamos demônios e terror por todo lado. A intolerância nos fecha no estreito círculo da “nossa verdade”, que geralmente não tem sustentação na realidade, e impossibilita a fraternidade e a conversão ao Evangelho de Jesus. Precisamos levar Jesus realmente a sério, pois ele revela nossa verdade e nos conduz à autêntica liberdade. Ele veio morar entre nós, e quer abrir nossos olhos ao drama da moradia que tira o sono e aborta o futuro de muitos irmãos e irmãs.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no coração deste debate sobre Jesus, escute com atenção as opiniões divergentes que diferentes grupos têm sobre ele, e note a intolerância e o fechamento ao diálogo

Em que medida nossos preconceitos nos impedem de ver e reconhecer hoje a dignidade dos “diferentes” (migrantes, evangélicos, negros, indígenas, ateus, LGBTIQ+)?

Será que o medo, o fechamento e o preconceito não estão levando alguns grupos religiosos a negar com suas práticas o Evangelho que anunciam com suas palavras?

quinta-feira, 19 de março de 2026

Quem vê Jesus vê o Pai

Jesus nos revela todos os ‘segredos’ de Deus

1024 | Quaresma | 4ª Semana | Sexta-feira | João 7,1-30

A proposta litúrgica da Quaresma não obedece à sequência literária nem ao progresso temporal dos textos dos evangelhos. Segue uma lógica temática, enfatizando o progresso na conversão pessoal e social. O texto de hoje está localizado em plena ação apostólica de Jesus, num momento especialmente crítico.

Estando na Galileia, Jesus é abordado por seus familiares, que fazem pressão para que ele suba a Jerusalém para ampliar sua influência sobre o povo e aumentar sua fama. Isso revela que seus parentes esperam usufruir das vantagens de ter um familiar famoso. Este não é o projeto de Jesus, e nem seus familiares acreditam nele.

Diante da recusa de Jesus, seus parentes sobem sozinhos a Jerusalém para a festa das tendas, que celebra a memória da travessia do deserto. Jesus mais tarde, discreto e, ao mesmo tempo, absolutamente convicto de que o templo e suas instituições não têm nada a dizer sobre os novos tempos do Reino de Deus que ele inaugurava com suas ações, anunciava com sua pregação e explicava com sua catequese.

Mas a discrição de Jesus não impede que sua presença seja percebida. E as pessoas se questionam, já que ele não apresenta nenhum traço especial que o identifique com o profeta esperado, a não ser suas ações de emancipação e libertação. Aliás, estas ações são fortemente questionadas pelas lideranças religiosas. E os peregrinos se perguntam por que as autoridades não o prendem.

Os cidadãos de Jerusalém, mergulhados na ideologia veiculada pelo templo e seus ministros, refutam a identidade messiânica de Jesus e afirmam que sabem de onde ele vem: seu sotaque indica que é galileu, mas a tradição ensinava que ninguém saberia de onde viria o Messias. Mas Jesus responde a eles com ironia e coragem: eles não sabem de onde virá o Messias, e também não conhecem Aquele que o envia.

Na verdade, Jesus questiona o saber usado como muro protetivo contra as surpresas de Deus e como álibi para evitar a necessária conversão. Não podemos falar de Deus ou imaginá-lo passando ao largo de Jesus, seu filho amado e enviado. Ninguém chega ao Pai sem passar por Jesus Crucificado, presente nos pobres e nas vítimas.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no coração do debate entre Jesus, seus familiares e os cidadãos da capital, lendo o texto inteiro

Você conhece pessoas, grupos ou igrejas que “usam” o nome de Jesus para levar algum tipo de vantagem?

Você é capaz de perceber o alcance político e social da pregação e da prática de Jesus, ou vê nele apenas um líder espiritualista?

Você tem levado a sério Jesus (seu ensino e sua prática) para fazer uma ideia de Deus e falar dele?

quarta-feira, 18 de março de 2026

O marido de Maria

José, esposo de Maria e educador de Jesus

1023 | Solenidade de São José | 19 de março | Lucas 2,41-52

Maria e José levam Jesus, ainda adolescente, a Jerusalém e, como família, participam, com o povo todo, da festa que recorda e atualiza a superação da escravidão e a constituição de um povo solidário e livre. É uma família normal, uma família entre outras famílias em meio à caravana de romeiros que peregrinam cheios de boas memórias e dinamizados pela esperança.

Mas nessa peregrinação, José e Maria descobrem que precisam superar o simples e costumeiro cumprimento das tradições, por mais relevantes que sejam, assim como o estreito limite da convivência e da educação familiar. Mesmo sem entender tudo, eles precisam ajudar o filho a crescer na sua vocação e missão, a se dedicar ao Reino de Deus, às coisas do seu e nosso Pai.

Unidos pelos laços de um amor profundamente humano, e dentro do horizonte das tradições do povo que lhes dava memória e identidade, José e Maria avançam na fé. Como Abraão, eles se lançam na estrada da fé sem saber claramente onde chegarão. Também eles ousam acreditar, caminhar orientados apenas pela fé, e isso lhes é creditado como justiça. Eles não andam a esmo, são peregrinos de esperança.

Nesta peregrinação existencial e espiritual, Maria e José tiveram que se abrir sempre mais à novidade que Deus manifestava através do filho que lhes fora confiado. José, o fiel e generoso esposo de Maria, teve que renunciar aos privilégios que o patriarcalismo conferia ao pai: o filho deve obedecer mais a Deus que ao pai.

Para a Sagrada Família, depois do brilho de Jesus no templo, a volta a decisão de “descer” a Nazaré não é algo casual. É uma escolha de continuar ligado ao “resto de Israel”. Nazaré é o lugar onde Jesus cresce, se fortalece e adquire a sabedoria do Reino. José e Maria educam o filho longe do ambiente glorioso e sedutor do templo, e Jesus cresce na medida em que lança raízes na história do seu povo.

A sábia e profética escolha de José impede que Jesus se afaste das raízes populares, do vínculo com os pobres. Significa assumir resolutamente o caminho que leva à periferia e privilegiar a encarnação no cotidiano que tece a vida normal de todas as pessoas. Em Nazaré, Jesus absorve a seiva das esperanças do seu povo a partir da periferia. Aprende a ser Filho do Pai e peregrino de esperança.

 

Sugestões para a meditação

Releia e reconstrua a cena da Sagrada Família no templo e no caminho, observe as ações de Jesus e as reações de Maria, José e dos doutores

Qual poderia ser o sentido da expressão “por quê me procuravam? Não sabiam que devo ocupar-me da casa/coisas do meu Pai”?

Em Jerusalém Jesus brilhou e se distanciou dos pais, mas foi em Nazaré que ele cresceu: o que isso significa?

terça-feira, 17 de março de 2026

O Filho e o Pai

A missão de Jesus atualiza a ação do Pai

1022 | Quaresma | 4ª Semana | Quarta-feira | João 5,17-30

A cena do evangelho de ontem terminava com um paralítico curado e caminhando livre, carregando sua cama em pleno dia de sábado, e com as autoridades decidindo prender e condenar Jesus à morte. Eles estavam interessados apenas em defender o aparato legal e religioso, sem a mínima empatia com o povo cansado e abatido.

No texto de hoje, que segue a cena de ontem, Jesus enfrenta as acusações levantadas pelas autoridades do templo. Para Jesus, o sexto dia da criação ainda não terminou, e Deus não descansa enquanto suas criaturas não chegam à vida plena. Jesus ousa chamar Deus de pai, sublinhando que é ele a origem e o fundamento da sua ação, que tem com ele uma relação que os escribas nem imaginam.

A reação do templo e suas lideranças se torna cada vez mais violenta. Jesus não deixa por menos, e repete, de diversas formas, que o Pai é a base, o fundamento e a origem do seu ser e das suas ações. Apelando à experiência comum, Jesus diz que o filho só faz o que aprende do pai; que quem honra o filho honra, na verdade, seu pai; que ele dá realismo à profecia de Ezequiel, que faz os ossos secos recobrarem vida.

Jesus se apresenta como o único mediador da vontade e da ação de Deus. Assim, desmascara a pretensão dos doutores da lei e dos sacerdotes, e solapa a autoridade deles junto ao povo. O que eles fazem e impõem não tem nada a ver com a vontade de Deus. O que Jesus faz, na emancipação do mendigo à beira da piscina e em diversas outras ações libertadoras, pode ser comparada à ressurreição dos mortos.

Por fim, Jesus acusa as autoridades de julgar os outros a partir dos interesses deles mesmos e do templo. Enquanto isso, o julgamento de Jesus (intervenção libertadora em favor das pessoas vulneráveis) não é expressão da sua vontade e dos seus interesses, mas da vontade de Deus, seu e nosso pai. Amanhã, voltaremos à lição que Jesus passa às autoridades do templo. Por hoje, fiquemos com o alerta de que a conversão ao Evangelho é mais difícil que a simples mudança dos costumes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus e a raiva que ele suscita nas autoridades religiosas

Deixe-se levar, envolver e iluminar pela metáfora da relação entre pai/mãe e filho/filha, que Jesus usa para justificar suas ações

Você percebe na Igreja e na sociedade de hoje pessoas que estão mais interessadas na defesa das leis que na defesa das pessoas?

Como podemos pôr hoje em prática a empatia, a compaixão e o compromisso de Jesus com a defesa das pessoas vulneráveis?

Porque muitos de nós ainda acham que agrada mais a Deus a defesa das leis e dos costumes que a defesa dos direitos humanos?