quarta-feira, 13 de maio de 2026

São Matias, "patrono do banco de reservas"

Jesus dá frutos na missão dos discípulos

1080 | Festa do Apóstolo São Matias | João 15,9-17

O texto de hoje tem a função de iluminar a festa de São Matias, o 13° apóstolo, escolhido para substituir Judas Iscariotes. Estes versículos são a segunda parte da meditação de Jesus, inspirada na alegoria da videira e dos ramos. O tema da fecundidade missionária da adesão a Jesus é o fio condutor desse diálogo pascal, mas Jesus nos convida a deslocar o olhar da videira às relações de amor e amizade. O que ele destacava com a imagem da união do ramo à cepa agora é enfatizado como vínculo e relação de amor e amizade com ele e com os condiscípulos.

Para o cristão, o amor de Jesus está garantido, não depende disso ou daquilo. Não há lugar para o medo, e nada precisa ser feito para merecê-lo. O que Jesus pede é que sejamos capazes e estejamos dispostos a amar o próximo da mesma maneira. Se é verdade que ninguém é constituído senhor, para estar acima dos outros, também ninguém está em condição inferior, e deve se comportar como escravo. Jesus jamais tratou seus discípulos como servos, sempre os teve como amigos.

A união com Jesus e a assimilação da sua mensagem se revelam na entrega à missão e nos frutos de solidariedade, que devem durar no tempo. Do vínculo de amizade com Jesus brota a liberdade de doar-se sem medida, de amar incondicionalmente os irmãos. Esta é a glória do Pai e a alegria indestrutível do discípulo. O amor constitui a comunidade cristã e fundamenta a missão. Mas somente a entrega amorosa aos outros pode nos dar a certeza de que somos interlocutores do amor de Deus.

A alegria cristã não é apenas o resultado final do sucesso, da vitória sobre as adversidades, mas o dinamismo que nos livra da necessidade de vencer e obter sucesso, que nos capacita a esquecer-nos de nós mesmos para ser tudo para todos. A alegria cristã não vem no fim da missão, é o dinamismo que a deflagra e alimenta. Mesmo que, num momento, estejamos no “banco de reservas” e esperando ser escalados no time, como São Matias!

 

Sugestões para a meditação

Tome consciência das incompreensões e resistências que os cristãos enfrentam nesse grave momento da conjuntura política nacional

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o anúncio da oposição que sofreriam para continuar a missão de Jesus

Repita calmamente, respirando fundo: “Eu não quero que você seja meu servo, mas meu amigo! Eu escolhi você!”

Peça a Jesus a alegria permanecer nele, de dar muitos frutos, de amar como ele ama você

Jornada Mundial das Comunicações Sociais (1)

Preservar vozes e rostos humanos

MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O LX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto”, que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino “persona” inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Conhecimento completo

O Espírito nos guia ao conhecimento pleno

1079 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Quarta-feira | João 16,12-15

O evangelho que nos ilumina faz parte do diálogo exortativo com o qual Jesus prepara os discípulos para a sua Hora, sua paixão e morte. Pouco a pouco, Jesus vai sublinhando a boa e desejável novidade: o envio do seu Espírito como dinamismo de comunhão com ele, com o Pai e com os irmãos e irmãs e, ao mesmo tempo, base e força das comunidades de discípulos em permanente saída missionária.

Nos versículos de hoje, Jesus atribui ao Espírito da Verdade o papel de guiar os discípulos na compreensão das consequências da aceitação da sua mensagem, num processo de interpretação que evolui de acordo com os acontecimentos. O Espírito é Mestre experimentado que explica e aplica o Evangelho na vida concreta das comunidades imersas num mundo extremamente hostil à novidade cristã.

A voz do Espírito é a voz de Jesus, ele fala aquilo que “ouve” de Jesus, assim como Jesus compartilha Palavra e Ação com o Pai. Eles têm em comum o amor fiel, incondicional e generoso pelo ser humano. Por isso, assim como guiou e sustentou Jesus na sua missão histórica, o Espírito guia a comunidade cristã na sua atividade em favor da libertação dos cativos dos seus próprios temores e do domínio das instituições que oprimem e discriminam.

É quando Jesus, por amor, desce aos lugares mais inferiores que se possa imaginar que ele honra o amor do Pai e consuma a vocação de todo ser humano. E isso só é possível para os discípulos mediante a abertura à ação regeneradora e transformadora do Espírito Santo, que estabelece a relação de comunhão de tudo com tudo: do Pai com o Filho; do Pai e do Filho conosco; a nossa relação com os outros e com todas as criaturas.

É esse o sentido da afirmação aparentemente estranha de Jesus, quando diz que “todas as coisas do Pai são minhas” e que “ele vai receber do que é meu”. Não obstante serem três e conservarem sua “personalidade”, Pai, Filho e Espírito são “uma só coisa” na qualidade e na intensidade do amor. Eles compartilham do mesmo espírito: o amor incondicional.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o gesto do lava-pés, com o anúncio da sua morte e com a previsão da oposição que eles mesmos sofreriam

Você percebe, também hoje, sinais de oposição e resistência à missão dos seguidores de Jesus?

Quem implicações tem na vida a nossa fé num Deus que sustenta a originalidade de cada ser e dinamiza a unidade pela comunhão?


segunda-feira, 11 de maio de 2026

À espera do Defensor

O Espírito é luz que esclarece todas as coisas

1078 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Terça-feira | João 16,5-11

Na semana que antecede a solenidade da Ascensão, meditaremos trechos do diálogo de Jesus com seus discípulos depois da última ceia com eles, e antes da traição e prisão. Pressentindo a iminência da sua condenação à morte, Jesus faz questão de sublinhar que sua “saída” para o Pai, por quem foi enviado e em cujo nome fala e age, fará bem para os discípulos. Ele vai para voltar como inspiração, força e defesa.

Os discípulos não entendem como a paixão e morte de Jesus pode ser sua volta ao Pai e a plena presença do Pai nas dores da humanidade e nas encruzilhadas da história. Toda explicação parece-lhes vazia. A separação continua a ser vista como escandalosa e definitiva, e, por isso, são acossados pelo medo e pela tristeza. Eles não conseguem entender o mistério da semente.

Precisamos entender que o envio do Espírito de Deus e a sua assimilação na caminhada de discípulos missionários depende da paixão e morte de Jesus. Sem a cruz, o Espírito Santo seria entendido apenas em parte, pois estaria privado do seu núcleo vivo que é o amor extremo, que desce aos infernos para regenerar o Humano em nós. O Espírito é, em si mesmo, entrega generosa de si, sem “se” e sem “mas”.

Recebendo o Espírito Santo e deixando-nos guiar por ele, passamos de uma visão de Jesus como simples “modelo de vida” a ser admirado, e o assumimos como fonte dinâmica da vida que se manifesta nele e nos vem dele. Nele, por ele e com ele somos capazes de reconhecer no mistério da cruz tanto a manifestação da violência destruidora como do amor infinito e apaixonado de Deus Pai e do “Filho do Homem”. Esse entendimento não é conceitual e essa força vem de dentro.

O Espírito/Defensor que recebemos do Pai por Jesus move um processo contrário àquele que vitimou Jesus e condena seus discípulos: os condenados são declarados inocentes, e os juízes que os condenam são denunciados como os verdadeiros criminosos. O chefe deste mundo – personificado no grupo que dirige o judaísmo, condena Jesus e excomunga seus discípulos – não tem nenhum poder sobre os seguidores de Jesus. Eles são livres para amar e servir.

 

Sugestões para a meditação

Coloque-se em meio aos discípulos, perturbados com o gesto de amor extremo de Jesus, com o anúncio da sua morte e a previsão da oposição que sofreriam

Você percebe sinais de oposição e resistência à missão dos seguidores de Jesus? Como e onde estes sinais aparecem?

Tome consciência das incompreensões, resistências e oposições que os cristãos coerentes enfrentam na atual conjuntura política nacional

domingo, 10 de maio de 2026

Matar em nome de Deus?

Alguns matam pensando prestar culto a Deus

1077 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Segunda-feira | João 15,26-16,4

Neste afetuoso e tenso diálogo profético com seus discípulos na noite em que seria preso, com a colaboração traiçoeira de um deles, Jesus faz questão de sublinhar o caráter exigente e conflituoso da vida e da missão de quem o segue. O discípulo que participa da mesa do Pão e da Palavra, que toma a toalha e lava os pés da humanidade, não pode imaginar que tudo acontecerá pacificamente, que o Reino não encontrará oposição, que o caminho será pavimentado de flores e de aplausos.

Jesus garante aos seus discípulos que enviará um Defensor permanente, um “Outro Advogado” (o primeiro foi ele mesmo!), que prosseguirá sua missão, e que sempre atestará a inocência de quem se mantém no caminho do seu Evangelho. No tribunal da história, os cristãos jamais ficarão desassistidos tanto na defesa como na acusação dos “podres poderes”. O Espírito da verdade e da fidelidade testemunhará a autenticidade messiânica de Jesus e será o fundamento seguro do testemunho público dos discípulos, especialmente quando sofrerem oposição.

Trata-se do Supro de Deus, que sustenta a criação, que dá dinamismo, direção e meta à caminhada da humanidade, e suscita o testemunho profético dos cristãos, chamados a criticar e orientar os movimentos históricos conforme a vontade de Deus, a serviço da libertação da humanidade. Nisso, é preciso estar com Jesus desde o começo, passando pela sua paixão e morte, e não apenas na fase da ressurreição. É nesta comunhão com o Filho enviado pelo Pai que os discípulos encontrarão força e consolo para ir até onde Jesus foi e estar com ele onde quer que ele estiver.

Para um judeu era impensável e terrível ser excluído da sinagoga ou barrado no templo. Mas Jesus previne seus discípulos e discípulas de que isso acontecerá, pois a instituição religiosa do templo está pervertida, participa de uma fraude e faz parte das hostilidades impostas a Jesus e seus seguidores pelo “príncipe deste mundo”. O templo fora transformado numa instituição que cultua um “deus” que aceita e até patrocina a morte violenta do ser humano. Seus chefes não conhecem o Pai e não estão ao lado ser humano. Que isso soe advertência a todas as instituições!

 

Sugestões para a meditação

Perceba a perplexidade dos discípulos diante do anúncio da morte de Jesus e da previsão da oposição que sofreriam para continuar a missão

Você percebe manifestações de oposição e resistência à missão dos seguidores de Jesus?  Como e onde estes sinais aparecem mais?

Qual seria a atitude mais adequada de quem pede, clama e espera o ajuda do “Advogado” para defende-lo das ameaças da missão?


sábado, 9 de maio de 2026

Não estamos órfãos!

Prontos a dar as razões da nossa Esperança

1076 | Tempo Pascal | 6ª Semana | Domingo | João 14,15-21

Naquela misteriosa noite de despedida de Jesus, os apóstolos começaram a sentir-se órfãos. Eles haviam recebido o pão e o vinho partilhados e visto Jesus se inclinar e lavar seus pés. Haviam ouvido da sua própria boca que um deles o trairia, outro o negaria e todos o abandonariam. É neste contexto que Jesus promete-lhes um outro Advogado ou Defensor: alguém que falará por eles e em lugar deles nas acusações apresentadas contra eles nos tribunais.

Segundo as palavras de Jesus, este Defensor agirá como os pais, que, além de serem o fio que liga as novas gerações ao passado e os indivíduos a uma família, assumem a defesa e a tutela dos filhos menores e em situação de vulnerabilidade. Este Advogado de Defesa – o Espírito prometido! – agirá como Jesus, que assumiu esta dupla missão junto aos discípulos: ser o advogado de defesa e o irmão primogênito que revela e torna presente o Pai.

Daí a promessa consoladora e encorajadora de Jesus aos discípulos: “O pai dará a vocês outro Defensor. Eu não vos deixarei órfãos!” O Espírito da Verdade-Fidelidade nos ajuda a superar a orfandade e nos faz filhos e filhas de Deus, herdeiros do Reino anunciado e iniciado por Jesus Cristo. Ele também nos faz perseverantes no dinamismo do Amor a Jesus Cristo e ao próximo, especialmente àqueles que padecem as maiores necessidades e, por isso, tem mais necessidade da nossa proximidade amiga e solidária.

Mediante o amor solidário não é apenas o ser humano que está em Deus, mas o próprio Deus vem habitar nesta sua amante criatura e suas comunidades para fazer delas sua morada definitiva. O amor é uma atitude, uma relação, uma ação que reconhece e afirma o outro em sua dignidade. Se tivermos dúvida sobre o que significa amar, olhemos para o que fez Jesus no seu louco amor pela humanidade.

Estamos nos aproximando do fim do tempo litúrgico da Páscoa. Os Atos dos Apóstolos testemunham a “caminhada da Palavra”, a expansão da Boa Notícia de Deus. E Pedro nos pede prontidão para darmos testemunho da nossa esperança, mas com mansidão a respeito. Afinal, não podemos calar sobre aquilo que ouvimos e vemos desde que brilhou a luz do círio em meio à escuridão da noite da vigília pascal. E abrimos as portas da vida para receber o Espírito, que fará novas todas as coisas.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se junto aos discípulos, perturbados com o gesto extremo de Jesus, com o anúncio da sua morte e com a previsão de que seria traído

Tome consciência das incompreensões, resistência e até oposições que os cristãos coerentes vem enfrentando nesse grave momento da conjuntura política nacional

Renove seu compromisso de permanecer em Jesus, de crescer como seu amigo, de amar os irmãos e irmãs como ele amou você

A promessa

NÃO ESTAMOS ÓRFÃOS!

Uma Igreja formada por cristãos que se relacionam com um Jesus mal conhecido, pouco amado e apenas recordado de forma rotineira é uma Igreja que corre o risco de desaparecer. Uma comunidade cristã reunida em torno de um Jesus apagado, que não seduz nem toca os corações, é uma comunidade morta, sem futuro.

Na Igreja de Jesus precisamos urgentemente de uma nova qualidade na nossa relação com Ele. Precisamos de comunidades cristãs marcadas pela experiência viva de Jesus. Todos podemos contribuir para que na Igreja se sinta e se viva Jesus de forma nova. Podemos fazer com que seja mais de Jesus, que viva mais unida a Ele. Como?

João recria no seu evangelho a despedida de Jesus na última ceia. Os discípulos intuem que dentro de muito pouco tempo Ele lhes será tirado. O que será deles sem Jesus? A quem seguirão? Onde alimentarão a sua esperança? Jesus fala-lhes com uma ternura especial. Antes de os deixar, quer mostrar-lhes como poderão viver unidos a Ele, mesmo depois da sua morte.

Antes de mais, deve ficar gravado no seu coração algo que nunca devem esquecer: «Não vos deixarei órfãos. Voltarei». Nunca devem sentir-se sós. Jesus fala-lhes de uma nova presença que os envolverá e os fará viver, pois os alcançará no mais íntimo do seu ser. Não os esquecerá. Virá e estará com eles.

Jesus já não poderá ser visto com a luz deste mundo, mas poderá ser captado pelos seus seguidores com os olhos da fé. Não devemos cuidar e reavivar muito mais esta presença de Jesus ressuscitado no meio de nós? Como poderemos trabalhar por um mundo mais humano e uma Igreja mais evangélica se não o sentimos junto de nós?

Jesus fala-lhes de uma experiência nova que os seus discípulos ainda não conheciam, enquanto o seguiam pelos caminhos da Galileia: «Sabereis que eu estou com o Pai e vós comigo». Esta é a experiência básica que sustenta a nossa fé. No fundo do nosso coração cristão sabemos que Jesus está com o Pai e nós estamos com Ele. Isto muda tudo.

Esta experiência é alimentada pelo amor: «A quem me ama... eu também o amarei e me revelarei a ele». É possível seguir Jesus tomando a cruz cada dia sem o amar e sem nos sentirmos profundamente amados por Ele? É possível evitar a decadência do cristianismo sem reavivar este amor? Que força poderá mover a Igreja se o deixarmos apagar? Quem poderá preencher o vazio de Jesus? Quem poderá substituir a sua presença viva no meio de nós?

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O discípulo não está mais seguro que o Mestre!

Jesus promete companhia e não facilidades!

1075 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Sábado | João 15,18-21

Na sequência da alegoria da videira verdadeira e dos ramos, Jesus conclui a seção de catequese advertindo os discípulos sobre as consequências da adesão a ele e ao Reino de Deus: ao lado dos frutos e da alegria por fazer o bem a todos, ódio e perseguição. E não é a primeira vez que Jesus alerta seus discípulos sobre isso. Ele não quer enganar ninguém, e o que ele mesmo enfrenta não deixa dúvidas. Olhando para o Mestre e Senhor, todos devem avaliar muito bem os riscos.

Aquilo que Jesus faz e ensina, mesmo sendo objetivamente bom para todos, mas especialmente para as pessoas mais penalizadas, é visto com suspeita e ódio pelo “mundo”, porque se opõe à sua lógica de dominação e exclusão, denunciando-a e enfrentando-a. A perseguição implacável dirigida contra ele não o afeta, e ele vive sereno e destemido, e jamais recua na sua missão de resgatar a vida das garras de um sistema social e religioso opressor e excludente.

No evangelho segundo João, “mundo” é a palavra usada para designar o sistema de dominação que odeia e maltrata o ser humano, especialmente os mais vulneráveis. Este sistema/mundo é radicalmente injusto e falso, e persegue quem o desmascara e enfrenta, mesmo que o faça de modo pacífico. Porque tanto Jesus como seus discípulos romperam com ele e suas imposições, são vigiados e tratados como suspeitos. Não romper com o “mundo” significa ser refém do pecado.

O alerta de Jesus aos que, em todos os tempos, se propõem a segui-lo é claro: “Se perseguiram a mim, perseguirão também a vós”. E os escravos do “príncipe deste mundo” perseguem os cristãos porque não conhecem Deus, a quem, mentindo, dizem servir. Eles têm uma ideia falsa de Deus, servem a outro senhor.

O realismo de Jesus não é cínico, nem pessimista. Ele sabe que a semente que cai na terra e morre, não fica só. Há um “pequeno rebanho” que conhece sua voz, um broto que nasce de um toco seco, que guarda sua palavra e segue seus passos. Este punhado de gente também reconhecerá seus discípulos, acolherá a Palavra de Deus que se fez carne e tornará o fértil o deserto do mundo.

 

Sugestões para a meditação

Recorde no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste alerta de Jesus aos discípulos que ele ama e cuida

Procure recordar algumas entre as inúmeras cenas de ódio e violência contra Jesus, e busque a origem e a lógica desta reação

Será que há cristãos que pensam crer em Jesus e anunciar seu Evangelho sem romper com o sistema que oprime e domina?

Você acha que as pessoas que fazem isso conhecem de fato o Deus em quem dizem acreditar, ou falsificaram a imagem de Deus?

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Uma relação de amizade

Quem ama dá a sua vida pelos amigos

1074 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Sexta-feira | João 15,12-17

Depois de propor a alegoria da videira e dos ramos, Jesus continua seu diálogo formativo com os discípulos, extraindo as consequências da metáfora da videira: como a circulação da seiva mantém a união vital entre a videira e os ramos, o amor generoso assegura a permanência do discípulo em Jesus e de Jesus nele.

Se, para o judeu daquele tempo, os mandamentos eram muitos e pesados (os escribas e doutores da lei haviam colecionado mais de 600 mandamentos!), Jesus não fica nem nos dez, e reduz tudo a um único mandamento: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Este é o mandamento que resume toda a lei, a herança deixada por Jesus em testamento e o distintivo da comunidade cristã.

O verbo amar é mais que mera expressão de um vago sentimento de bem-querer ou uma inofensiva filantropia: é uma relação interativa baseada na confiança e focalizada na afirmação da dignidade e no atendimento das necessidades do outro. O amor também não tem como movente o cumprimento de uma ordem, mas um desejo profundo e intrínseco de dar-se, de ser generoso, de buscar a felicidade sendo fiel e fazendo feliz o outro.

Jesus propõe a si mesmo como medida do amor: ele começa nos escolhendo e nos chamando pelo nome, passa a dedicar-se à nossa formação, prepara-nos para as dificuldades, alerta-nos em relação aos riscos, e acompanha-nos “primeireando” no caminho que conduz à felicidade verdadeira e duradoura. Em síntese: é nosso amigo, e vive conosco a comunhão no amor.

Na ceia e no lava-pés, Jesus deixou claro que não aceita uma relação senhor-servo, e estabeleceu a igualdade ética de todas as pessoas, para além das funções e diferenças. Por isso, ele volta a declarar que nos trata como a amigos, e o vértice da relação de amizade é o dom de si mesmo sem nenhuma garantia ou obrigação. Mas o faz “de olho” na continuidade da sua missão, com o desejo de que, vivendo uma relação de amizade, seus discípulos deem frutos que permaneçam.

 

Sugestões para a meditação

Recorde no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste “discurso catequético” de Jesus

Medite as diversas passagens da vida de Jesus e procure identificar as expressões mais concretas e fortes do seu amor pelos discípulos

Em relação a Jesus, você sente-se mais como servo (que obedece por medo) ou como amigo, que se relaciona com base na confiança e na estima recíproca?

Quais são os frutos mais duradouros da prática do amor na sua família, na sua comunidade e no lugar onde você vive?

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Como ele nos amou

O ensino de Jesus nos conduz à plena alegria

1073 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Quinta-feira | João 15,9-11

Depois da alegoria da videira e dos ramos, Jesus continua desenvolvendo sua catequese, extraindo as consequências da imagem que usou: como o Pai me amou, eu também amei vocês; eu permaneci no amor do Pai levando a sério seus mandamentos; vocês permanecerão no meu amor se guardarem meu mandamento.

Eis como Jesus concretizou o amor: acolheu pecadores e resgatou a dignidade deles; compadeceu-se dos famintos e multiplicou pães para eles; comoveu-se com o sofrimento dos doentes e deu-lhes condições de plena cidadania; aproximou-se das pessoas excluídas e sentou-se com elas à mesa; tomou a defesa de mulheres condenadas pelos homens que as usavam; perdoou e acolheu os pecadores...

Jesus diz que nos ama na mesma dinâmica e com a mesma intensidade com que é amado pelo seu e nosso Pai. E é nessa força que somos chamados e capacitados para amar. O amor de Deus, que se tornou visível em Jesus Cristo, se torna, em nós, dom e mandamento. “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês”. Ele não pede que nosso amor se dirija a ele, mas aos semelhantes.

Mas o amor não se confunde com um simples sentimento, sempre involuntário, e se impõe sobre a vontade. O amor é uma decisão, e está no horizonte da vontade e da ação que nos faz próximos e solidários de quem é diferente e precisa de nós. Amar implica em bem-querer, bem-dizer e bem-fazer, tudo ao mesmo tempo.

Jesus apresenta a si mesmo como medida e referência do amor: “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês”. Com isso, ele quer nos libertar da tentação de colocar nossos desejos, caprichos e interesses como referência para todas as relações. O amor se concretiza no relacionamento de igual para igual, na abolição das hierarquias, senhorios e servidões, no serviço gratuito e irrestrito. O próprio Jesus não nos trata como servos, mas como iguais.

 

Sugestões para a meditação

Recorde tranquilamente no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste breve discurso de Jesus

Medite as diversas passagens da vida de Jesus e procure identificar quando e como Deus manifesta seu amor por Jesus

O que fazemos para vencer a instabilidade e permanecer no amor de Jesus, e para que ele permaneça em nós?

Quando e como experimentamos aquela alegria que não se opõe ao cansaço e à dor, mas realiza aquilo que somos chamados a ser?