Deus dispensa o templo e mora na fraternidade
1095 | Tempo Comum |
8ª Semana | Sexta-feira | Marcos 11,11-26
Depois do episódio do cego e mendigo
que recupera a visão e se torna discípulo, Jesus entra em Jerusalém montado num
jumento – uma cena de teatro político de rua! – e é aclamado pelo povo como o
messias e herdeiro de Davi. Esta passagem é omitida na liturgia semanal, pois é
meditada no Domingo de Ramos. Hoje contemplamos a cena que vem na sequência
desse modo inusitado de entrar na capital: o
questionamento do sistema ideológico articulado em torno do templo.
Além do gesto claramente provocador
da expulsão dos comerciantes do interior do templo, tanto a figueira como a
montanha são alegorias que nos remetem ao templo. As diversas cenas deste texto
são uma contundente crítica ao templo como centro simbólico da ordem social
judaica, claramente injusta em relação aos pobres. Na sua ação mais direta,
Jesus expulsa os vendedores, derruba as mesas dos cambistas, proíbe qualquer movimento e ensina. Na prática, Jesus paralisa toda atividade de culto,
pois ela está eivada de violência.
O foco da ação de Jesus não é
propriamente o comércio realizado no interior do templo, pois naquele tempo,
por causa da prática dos sacrifícios, simplesmente não havia templo sem
comércio. Jesus mostra sua indignação
contra os interesses e lucros dos dirigentes do templo, e pede o fim deste
sistema de culto que penaliza e exclui os mais pobres e deixa de ser a casa
da acolhida inclusiva desejada por Deus.
No final, Jesus recorre a um exagero
de linguagem para sublinhar sua lição: como a “legião” de demônios (exército
romano), a “montanha” (outro nome do templo) pode ser eliminada e lançada no
mar. O sistema do templo deve e pode ser
mudado, por mais que apareça como sólido e monolítico; o mundo deve e pode ser
refeito, por mais que as elites digam que é o melhor dos mundos possíveis.
Nesta
cena, a oração expressa a força da
utopia e da imaginação profética. Não se trata de uma simples ideologia, de
uma força mecânica e mensurável, nem de coisa do outro mundo, mas de teimosia utópica. A oração é o suspiro vital no qual os oprimidos clamam e refazem as
forças. E o perdão recíproco é exatamente uma alternativa ao templo: Deus dispensa o templo, e prefere habitar
na fraternidade.
Sugestões para a meditação
Preste
bem a atenção nas imagens da figueira e da montanha, e procure perceber como
ambas simbolizam o templo (esterilidade e estabilidade)
Você
crê realmente que a oração tem a força que Jesus lhe atribui no final deste
episódio? Como você compreende isso?
Você
concorda que um templo ou um sistema religioso construído e mantido em nome de
Deus pode ser uma negação de Deus?
Você
acredita que a oração e a utopia têm força para mudar o que parece imutável,
tornar possível um outro mundo?