Quanto nos dispomos a
pagar por nossa coerência?
982 | Tempo Comum | 4ª Semana | Marcos 6,14-29
Ontem meditamos sobre o episódio do envio dos doze
apóstolos e o ensino sobre o que é essencial na missão, em qualquer tempo e
lugar: sair ao encontro como peregrinos e hóspedes; confiar na força
libertadora dos meios frágeis; manter a abertura e o diálogo; fazer bem e fazer
bem sem olhar a quem. E, na cena de amanhã, refletiremos sobre o retorno e a
partilha da experiência missionária.
É
aparentemente estranho que o evangelista coloque, entre o envio e o retorno dos
apóstolos, o relato sobre a condenação e morte de João Batista. Parece uma
espécie de parêntesis na história central, mas não é! Inserindo aqui este
episódio, o evangelista quer dar a entender que os apóstolos herdam tanto a
missão como o destino de Jesus. Ele inicia sua missão com a prisão de João, é
comparado a ele, e terá o mesmo destino dele. Assim também os discípulos
enviados em seu nome.
Na
história contada hoje temos uma crítica mordaz às elites que controlam Israel, um
registro do conluio incestuoso entre interesses políticos, militares e
comerciais, e uma denúncia vigorosa dos seus caprichos assassinos. Herodes
convida para sua festa a nobreza, o exército e as lideranças regionais. O
juramento de um Herodes bêbado, prometendo dar à bailarina, sua enteada, a
metade dos seus bens, registra e denuncia o modo estranho como as elites tomam
suas decisões políticas.
Mesmo
que aparentemente deseje conhecer Jesus, Herodes não o conseguirá, pois
silenciou a Voz que anuncia o Verbo, e sem voz não há palavra. Seu casamento com
a cunhada, que era também uma aliança política e diplomática, era criticada por
João. Imaginando que Jesus seria João Batista que havia retornado, Herodes
reconhece seu fracasso na tentativa de calar a voz dos profetas que o
criticavam.
Nessa espécie de crônica policial percebemos o
recorrente confronto entre reis arrogantes e enfraquecidos e profetas que não
calam a verdade, mesmo quando têm que pagar sua coerência com a própria vida.
Jesus seguirá por esse mesmo caminho, e terá semelhante destino. E os
discípulos missionários que ele envia também devem se preparar para isso. Os
cristãos serão sempre luz que revela o que costuma ser escondido, e podem pagar
um alto preço por sua fidelidade.
Sugestões para a meditação
Releia o
texto com atenção, observando bem as nuances do relato e participando da cena
que ele descreve
Você percebe
a crítica irônica do evangelista às elites da Galileia, assim como a denúncia
vigorosa da violência delas?
O que
explica o arrefecimento da profecia das lideranças cristãs nos tempos atuais, e
como poderemos resgatá-la?
Como
desenvolver nos discípulos missionários de hoje a coragem da verdade e a
ousadia do testemunho?