quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Missionários da paz desarmada e desarmante

Anunciem e promovam a paz sem olhar para trás!

1221 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quinta | Lucas 10,1-12

O texto do evangelho hoje, sugerido para a memória de Santa Teresinha do Menino Jesus vem a calhar para o início do mês missionário. Jesus envia um grupo de 72 discípulos para o precederem em todos os lugares para onde ele iria mais tarde, e para antecipar sua missão. Eles não são apenas uma espécie de “batedores”, que anunciam e abrem alas para a chegada do personagem esperado, mas verdadeiros protagonistas da missão, como Jesus e como o grupo dos 12 apóstolos.

Este grupo ampliado de discípulos missionários não substitui, nem simplesmente suplementa, o que os Doze Apóstolos não conseguem fazer. É um envio estável, paralelo e complementar ao grupo dos Doze, com uma missão específica e duradoura. Enquanto os Doze apóstolos são enviados prioritariamente aos judeus, este novo coletivo de discípulos missionários é enviado a todos os povos!

A imagem da colheita – quando chega seu tempo, não se pode demorar ou postergar o trabalho! – sublinha a urgência dessa missão. O conteúdo do anúncio não poderia ser mais claro: “O Reino de Deus está próximo de vocês!” E este anúncio é para todos os povos, e não apenas para os judeus e as pessoas justas. E é boa notícia, sem pedágio, para quem, por alguma razão, é menosprezado ou marginalizado!

Como a colheita, essa missão, que convoca e envia muitos, é real, concreta e necessária. Trata-se de anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus e de libertar ou reabilitar as pessoas. Dizer “paz a esta casa” não é saudação protocolar ou palavra vazia, mas convite eficaz à felicidade e à alegria já no presente, fruto do reinado de Deus em ação. É bem mais que desejar “a paz de Jesus”. Esta paz compartilhada, testemunhada e anunciada pode levar alguns a perder a paz. Trata-se de uma paz desarmada, sem ameaça, e desarmante, como diz o Papa Leão XIV.

Jesus apresenta também uma espécie de cartilha para orientar a ação missionária. A rejeição e a perseguição dão o tom da missão, e estarão sempre na sua agenda; a imagem do cordeio no meio dos lobos deixa isso claro! Os enviados devem partir desarmados e expostos, confiando unicamente em Deus e nos interlocutores. A casa (e não o templo!) é o ponto de apoio da missão, e a pobreza de recursos não é uma dificuldade, mas a garantia da autenticidade do anúncio.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, tendo diante dos olhos a missão que você desenvolve na Igreja e na sociedade

Que palavras ou afirmações iluminam e questionam mais fortemente sua missão e a missão da Igreja?

Santa Teresinha desejava viver todas as vocações na Igreja, mas descobriu que vivendo o amor faria tudo... O que isso nos ensina e nos provoca hoje?

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Para seguir Jesus

O seguimento de Jesus deve ser livre e radical

1220 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quarta | Lucas 9,57-62

A caminho rumo de Jerusalém, onde se daria um confronto decisivo com as autoridades religiosas, Jesus e seus discípulos não haviam sido bem acolhidos por cidadãos de uma vila da Samaria (cf. 9,51-56). Chateados, os discípulos pensam em retaliação, mas Jesus simplesmente procura outro povoado. Pouco a pouco, os discípulos percebem as exigências e consequências de seguir alguém como Jesus.

Neste contexto, o evangelista apresenta três situações típicas de pessoas que se apresentam como candidatas ao seguimento de Jesus, três diferentes experiências de encontro com ele. Um discípulo deve sempre saber que seguir um mestre significa compartilhar seu estilo de vida, seu sonho e seu destino. E Jesus é figura do profeta incômodo, e vive uma vida de refugiado, itinerante, sem alianças que possam-no proteger. E ele faz questão de deixar isso bem claro.

O primeiro exemplo típico de discípulo que Lucas nos apresenta é o de uma pessoa que parece ter tomado a decisão de seguir Jesus sem avaliar profundamente e sem pensar muito nas consequências. A ele, Jesus lembra que a disponibilidade para seguir seus passos supõe plena consciência e compromisso irrenunciável de partilhar o destino de uma pessoa perseguida, sem nenhuma proteção ou promessa de comodidade ou sucesso. “Sem eira nem beira”, diz-se em português.

O segundo exemplo é o de um discípulo que, tendo sido chamado por Jesus, não percebe a necessidade de ruptura radical com alguns costumes, e quer adiar a resposta para quando tiver cumprido suas obrigações familiares. No terceiro exemplo temos um discípulo que parece ceder à nostalgia, à dúvida e à incerteza. Quem quer ser discípulo de Jesus precisa morar no futuro, não no passado; buscar a novidade, não o que sempre foi; olhar para a frente, não para trás.

Nas condições interpostas por Jesus a estes três tipos de candidatos a discípulo temos o estatuto do discípulo consciente e maduro. Tendo descoberto o tesouro do Reino de Deus, o discípulo deixa tudo para viver novas relações e anunciar essa boa notícia sempre e em todo lugar. O Reino de Deus é o projeto de Jesus, mas não há muito sentido em apostar a vida num projeto. É o encontro e a relação com ele que dão sentido a uma decisão que compromete e muda a vida.

 

Sugestões para a meditação

Que tipo de vínculos, apegos e medos limitam sua entrega incondicional à vida nova inaugurada por Jesus e o Reino? O que Jesus diria sobre eles?

Que iniciativas e passos você poderia dar para se tornar um discípulo cada vez mais maduro e generoso de Jesus?

O que poderíamos fazer para que nossas comunidades não se contentam em ser cumpridoras de preceitos e possam romper com práticas que dificultam o Reino?

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Festa dos Arcanjos

Os Anjos simbolizam a proximidade de Deus

1219 | Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel | João 1,47-51

Celebramos hoje a festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Segundo a doutrina católica, os anjos e arcanjos são servidores e comunicadores de Deus. Santo Agostinho nos ensina que o substantivo “anjo” designa mais uma tarefa ou uma missão do que um ser ou uma natureza. Na liturgia eles estão juntos, têm tarefas complementares e não tem o protagonismo que algumas devoções atuais veiculam.

Na língua hebraica, o substantivo mal’ak (que traduzimos por anjo) designa o mensageiro de Javé, uma entidade que fala e age em seu nome. Mas as escrituras não distinguem claramente esse mensageiro do próprio Javé. A bíblia oscila entre a ideia de anjo como personalização da presença e da ação divina e como um ser autônomo. Em todos os casos, mesmo fazendo parte da doutrina da Igreja católica, os anjos e arcanjos não fazem parte da nossa profissão de fé (Credo Apostólico).

A cena e a Palavra do evangelho hoje estão no contexto do encontro de Jesus com os primeiros discípulos. Natanael, membro típico do povo de Israel, experimenta a escolhida e o amor de Jesus, apesar de sua ideologia milenarista. Sua profissão de fé e sua adesão a Jesus estão no horizonte da fé nacionalista do seu povo, e oferece o contexto adequado para a primeira autodeclararão de Jesus.

Apresentando-se como templo, casa ou comunicação de Deus com a humanidade, Jesus nos reporta à imagem da escada que Jacó viu em sonho, uma escada que ligava a terra ao céu (cf. Gn 28,11-17) e que o levou a reconhecer a presença de Javé naquele lugar aparentemente vazio de Deus. Recorrendo a essa passagem, Jesus fala de si como o Anjo do Pai, como o “lugar” ou a mediação da presença divina, como comunicação ou a relação permanente de Deus com a humanidade.

Acenando à imagem dos anjos que descem e sobem sobre o “Filho do Homem”, Jesus dá a entender que nele habita a glória ou o amor cuidadoso e fiel de Deus, e se apresenta como acesso contínuo e permanente a Deus. Jesus não está interessado em provar a existência de anjos, mas em mostrar que ele é essa presença e cuidado que os anjos querem significar. Nele encontramos Deus e Deus vem até nós.

 

Sugestões para a meditação

Que papel você atribui aos anjos no seguimento de Jesus Cristo e na construção do seu Reino, e o que você pede ou espera deles?

O que significa para nós hoje crer que Jesus é o “anjo” de Deus, o humano no qual Deus habita e se comunica de modo pleno e permanente com a Humanidade?

Como viver o encontro com Jesus e seu Evangelho como um caminho para superar nossas visões limitadas de Deus?

Que iniciativas poderíamos tomar para “preparar espaços para Jesus”, mas sem afastá-lo do caminho que o leva à Cruz?

Nós X Eles

Todos os que fazem o bem estão com Deus

1218 | Tempo Comum | Semana XXVI | Segunda | Lucas 9,46-50

Os discípulos enfrentam uma terrível dificuldade de entender e aceitar o caminho de despojamento e compaixão pelo qual Jesus vai realizando sua missão, e que serve de critério e paradigma para a missão futura deles mesmos. Enquanto Jesus sublinha essa “opção não opcional” e se empenha em corrigir as posturas equivocadas dos discípulos, eles gastam preciosas energias discutindo quem deles é o maior.

Isso está estampado no rosto deles, e Jesus não precisa que ninguém o informe o que está acontecendo. Para Jesus, o bom, o melhor entre os humanos é o que se faz igual a todos. Para ele, todas as pessoas têm dignidade e são acolhidas por Deus, inclusive prostitutas e outras pessoas tratadas publicamente como pecadoras. Sendo assim, não há motivo para competições e ciúmes destruidores.

Jesus oferece esta importante lição a seus discípulos recorrendo a duas linguagens: um gesto e uma afirmação fundamental. Primeiro, chama uma criança (sujeito social insignificante e desprezado) para junto de si (lugar cobiçado por aqueles que se consideravam mais importantes). Depois, declara que ele mesmo é igual a esta criança desprezada, e afirma que aquele que faz algo de bom a ela, o faz a Jesus, pois o menor é que deve vir primeiro lugar. Para Jesus, grandes são os pequenos, e aqueles que os acolhem, defendem e se colocam a serviço deles.

Até aqui, Jesus está tratando das relações internas da comunidade, pedindo que seus discípulos e discípulas se relacionem como Jesus se relaciona com cada um deles. Mas, em seguida, Jesus passa à relação entre aqueles que o seguem e fazem parte do grupo definido de discípulos e outras pessoas que o seguem de modo diferente, mas prolongam no mundo a compaixão que ele praticou e pediu.

Como vimos em vários outros textos que já refletimos, os discípulos querem proibir que pessoas que não estão com eles façam o bem em nome de Jesus. Pensam que somente eles podem agir em nome de Jesus. Mas Jesus não pensa assim, e diz um “Não!” claro e contundente à tentação do elitismo e da competição. Quem não está contra os discípulos missionários de Jesus, está a favor do reino de Deus. Todas as pessoas que agem com justiça e equidade pertencem ao Povo de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Como você se sente e que desejos movem você na atuação como liderança da comunidade eclesial?

Como você vê, trata e fala dos cristãos que pertencem a outras igrejas e pregam e agem em nome de Jesus e seu Evangelho?

Qual o sentido atual das afirmações “aquele que entre vocês é o menor, este é o maior” e “quem não está contra vocês, está a favor”?

Que iniciativas poderíamos tomar para “preparar espaços para Jesus”, mas sem afastá-lo do caminho que o leva à Cruz?

sábado, 26 de setembro de 2026

Sim ou não?

Que nossa fé seja firme, duradoura e amorosa

1217 | Tempo Comum | Semana XXVI | Domingo | Mateus 21,28-32

Jesus está em Jerusalém, no espaço do templo, e discute enfaticamente com a elite religiosa e social (chefes dos sacerdotes e anciãos). Esta é a primeira de três parábolas que Jesus dirige à elite religiosa que o persegue, nas imediações do templo, destino de todas as romarias populares, em Jerusalém. Ele começa com uma pergunta, convocando os interlocutores a tomarem posição, e é Jesus mesmo quem propõe uma interpretação da parábola.

A ênfase da parábola está claramente colocada na figura do pai e na prática concreta da sua vontade. Os dois filhos mencionados na parábola são personagens que correspondem, por um lado, aos pecadores, que aceitam a pregação de João Batista e de Jesus e se tornam discípulos, e, por outro lado, à elite religiosa, que se fecha tanto a João como a Jesus. Ambos são chamados a trabalhar na vinha. Um se nega, mas depois vai; o outro responde sim, e depois não faz nada.

A interpretação de Jesus não deixa dúvidas. Convocados a emitir um juízo sobre a atitude contrastante dos personagens, os sacerdotes e anciãos se autocondenam. A sentença de Jesus é clara e provocadora: os cobradores de impostos e as prostitutas (dois grupos sociais catalogados pelos judeus piedosos entre os piores pecadores) precedem (no presente!) a elite religiosa no Reino de Deus, porque aceitaram o caminho da justiça e da conversão pregado por João. A elite, em vez disso, não acreditou em João, e, nem mesmo vendo o testemunho deles, mudou de atitude.

Nossa adesão à vontade do Pai deve ser firme e duradoura, e precisa ser demonstrada em ações concretas. Trata-se de um “caminho de justiça”, ou seja, de ação coerente com a pauta de justiça, solidariedade e transformação do Reino de Deus. E jamais podemos esquecer que a lógica de Deus não coincide necessariamente com a nossa. Os pensamentos de Deus costumam não coincidir com os nossos, dizem os profetas.

Como no texto que refletimos no último domingo, a ação de Deus em relação ao ser humano não se orienta pelo mérito, mas pela necessidade. Ele não dá a cada pessoa aquilo que ela merece, mas aquilo que ela necessita. A prática e o anúncio de Jesus questionam de forma radical a ideologia da meritocracia, que atribui o sucesso econômico unicamente ao mérito individual e cobre as vítimas e vulneráveis com os andrajos da incompetência e da culpa.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus no evangelho de hoje, com a avalanche de pregadores e fiéis que tem fome e sede de prosperidade, e não de justiça

Deixe-se surpreender pelo encontro com Jesus e com seu ensino e sabedoria, abandonando as expectativas de coisas grandes

Como você acolhe o caminho de despojamento solidário em favor da humanidade que Jesus viveu e nos propõe?

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Primeiros e últimos

PARA JESUS, OS ÚLTIMOS SÃO OS PRIMEIROS

Jesus conheceu uma sociedade dividida por barreiras de separação e atravessada por complexas discriminações. Nela encontramos judeus que podem entrar no templo e pagãos excluídos do culto; pessoas puras com quem se pode conviver e pessoas impuras que se devem evitar; próximos que se devem amar e não-próximos que se podem abandonar; homens piedosos observantes da lei e gente maldita que nem conhece nem cumpre o que é prescrito; pessoas sãs abençoadas por Deus e doentes malditos que não têm acesso ao templo; pessoas justas e homens e pessoas pecadoras.

A atuação de Jesus nesta sociedade é tão surpreendente que ainda hoje resistimos a aceitá-la. Não adota a postura dos grupos fariseus, que evitam todo contato com impuros e pecadores. Não segue a atitude elitista de Qumran, onde se redigem listas precisas dos que ficam excluídos da comunidade.

Jesus aproxima-se precisamente dos mais discriminados. Senta-se à mesa com publicanos. Deixa-se beijar os pés por uma pecadora. Toca com a mão os leprosos. Procura salvar «o que está perdido». A população chama-lhe «amigo dos pecadores». Com insistência provocadora, repete que «os últimos serão os primeiros», e que os publicanos e as prostitutas vão à frente dos escribas e sacerdotes no caminho do reino de Deus.

Quem suspeita hoje, de verdade, que os alcoólicos, vagabundos, mendigos e todos os que formam o refugo da sociedade podem ser, diante de Deus, os primeiros? Quem se atreve a pensar que as prostitutas, os toxicodependentes ou os afetados pela sida podem preceder muitos eclesiásticos de vida irrepreensível?

No entanto, mesmo que já quase ninguém lhes diga, vocês, os indesejados e anatematizados, devem saber que o Deus revelado em Jesus Cristo continua realmente a ser amigo de vocês. Vocês podem compreender e acolher o perdão de Deus melhor do que muitos cristãos que não sentem necessidade de se arrepender de nada.

Quando nós evitamos vocês, Deus aproxima-se de vocês. Quando os humilhamos, Ele os defende. Quando os desprezamos, Ele os acolhe. No mais escuro da vossa noite, vocês não estão sós. No mais profundo da humilhação, vocês não estão abandonados. Não há lugar para vocês na nossa sociedade nem no nosso coração. Por isso mesmo, vocês têm um lugar privilegiado no coração de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Qual é a tua fome?

Sede de sucesso e prosperidade ou de Justiça?

1216 | Tempo Comum | Semana XXV | Sábado | Lucas 9,43-45

Depois do diálogo formativo e revelador de Jesus com seus discípulos (9,18-22), Lucas descreve a transfiguração de Jesus e relata a cura de uma criança epilética (cf. 9,23-42), passagens omitidas na sequência semanal porque são indicadas para a solenidade da transfiguração. Nos três versículos de hoje, Jesus volta a falar aos discípulos sobre seu destino como messias.

Como já vimos anteriormente, quando o povo manifesta um certo consenso sobre sua identidade profética, Jesus faz questão de insistir no caminho da paixão na cruz, manifestando sua certeza nada ingênua sobre o futuro. Como os discípulos nada percebem e têm dificuldades de entender, Jesus pede que eles “coloquem na cabeça” este seu anúncio. Jesus está, sim, na linha dos profetas, mas a sua profecia não é exatamente a mesma dos seus antecessores.

Jesus quer estimular nos seus discípulos e discípulas a coragem frente às hostilidades que seguramente enfrentariam, mas aqueles que o seguem mais de perto continuam obcecados e iludidos com um messianismo político e poderoso, e não conseguem entender nem aceitar o que Jesus lhes diz, especialmente as consequências. Não há seguimento sem enfrentamento das dificuldades, não há fidelidade ao Evangelho sem discernimento das exigências das circunstâncias!

Com esse anúncio, e com a sua insistência num messianismo de compaixão e despojamento, Jesus quer “jogar um balde de água fria” no fogo do entusiasmo popular e nas aspirações desencontradas dos seus próprios discípulos. Ele baixa a ideia de um messias glorioso para a de um messias despojado, compassivo e contrário à violência. Os discípulos e discípulas não entendem e têm medo de perguntar porque resistem a este caminho escolhido por Jesus, que seria também o caminho deles. A dificuldade deles não é intelectual, mas espiritual.

Não é dificuldade de entender, mas resistência e recusa a aceitar. Essa dificuldade é claramente ressaltada por Lucas nestes versículos. A ambição de sucesso e de prosperidade deixa seus discípulos cegos e os aprisiona. Quando, ao se referir a si mesmo, Jesus troca o substantivo “messias” por “filho do homem” não pretende outra coisa senão desfazer essa ilusão que alimentam sobre ele, e preveni-los em relação ao que os esperaria no futuro. Será que nós assimilamos essa lição?

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus no evangelho de hoje, com a avalanche de pregadores e fiéis que tem fome e sede de prosperidade, e não de justiça

Deixe-se surpreender pelo encontro com Jesus e com seu ensino e sabedoria, abandonando as expectativas de coisas grandes

Como você acolhe o caminho de despojamento solidário em favor da humanidade que Jesus viveu e nos propõe?

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Um messias muito particular

Qual é a imagem de Deus que apresentamos?

1215 | Tempo Comum | Semana XXV | Sexta | Lucas 9,18-22

Ontem refletimos sobre o trecho do evangelho no qual Lucas nos apresenta as perguntas e hipóteses que Herodes levantava sobre a identidade e a missão de Jesus. Perseguido pelo medo de enfrentar um concorrente, e de represálias por ter assassinado João Batista, o pequeno e impotente e violento rei da Galileia desejava ver Jesus por pura curiosidade, sem nenhuma vontade de levá-lo a sério.

Depois da multiplicação dos pães para os famintos, o próprio Jesus dá voz à pergunta sobre quem ele é, pedindo que seus discípulos o coloquem a par das opiniões que circulam no povo, e isso não porque estivesse preocupado com uma possível baixa do seu índice de popularidade. As opiniões convergem para sua identidade profética, de que ele é algum profeta importante que voltou à vida. Mas, pelo testemunho dos evangelistas, já sabemos que ele é mais que um profeta.

Jesus interroga os próprios discípulos, esperando deles uma resposta nova, pessoal, envolvente. Tomando a palavra em nome dos demais, Pedro embarca na ideia de que a chegada do messias esperado seria precedida pelo retorno do profeta Elias, e declara que Jesus é o messias/ungido de Deus. Sua resposta é formalmente correta, mas Jesus proíbe que isso seja anunciado ao povo, pois sente necessidade de corrigir e esclarecer o que significa reconhecer e proclamar que ele é o Messias (pois temos outros messias, inclusive um que sentou na cadeira presidencial!).

Para evitar mal-entendidos, Jesus evita falar de si mesmo como “Messias”, e prefere autodenominar-se “Filho do Homem”. Com isso, sublinha várias coisas: sua consciência da necessidade de enfrentar a violência e passar pela cruz; que a fidelidade e a coerência com a vontade do Pai desembocam na perseguição; que isso tudo faz parte do plano de Deus, mas não é uma espécie de suicídio premeditado; que o mistério de Deus e da salvação está profundamente imbricado na condição humana; que Deus mostra sua força na fragilidade, na pobreza e no despojamento.

Para Jesus, a vontade do Pai é absolutamente soberana, e não passa necessariamente pela religião e seus espaços e agentes, tanto que faz questão de ressaltar que é nas mãos deles que irá sofrer. Isso pede obviamente uma revisão da nossa ideia de Deus e uma crítica avaliação das práticas das Igrejas e seus agentes. Será que o querer de Deus é a multiplicação de dízimos, orações, cultos e novenas?

 

Sugestões para a meditação

Deixe-se surpreender pelo encontro vivo com Jesus e com seu Evangelho, seu exercício diário de Leitura Orante

Procure superar a expectativa de que em Jesus seremos beneficiados por eventos grandiosos e miraculosos

Contemple a compaixão e a presença ativa de Jesus junto do povo, inclusive na perseguição e na morte na cruz

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Conhecer = seguir

Só conhecemos Jesus seguindo seus passos

1214 | Tempo Comum | Semana XXV | Quinta | Lucas 9,7-9

Pelo que ele mesmo fazia e falava, ou pelo anúncio dos seus enviados, Jesus acabou despertando a atenção de Herodes, um “reizinho” arbitrário e violento, que não respeita ninguém, nem seu próprio irmão de sangue. Ele deseja conhecer Jesus, mas como um expectador cético, como um curioso que deseja ver uma exibição particular e exclusiva de milagres. Afinal, ele é rei, e faz por merecer!

Herodes fica intrigado com a pregação e a missão de Jesus. Seu desejo de vê-lo não nasce da busca da vontade de Deus ou do propósito de percorrer o caminho de um bom governo. Ele não sabe, ou não quer saber, que só conhece Jesus de verdade quem o segue, quem acolhe o anúncio do Reino de Deus e entra num caminho de conversão. Acabará se encontrando com Jesus mais tarde, na farsa do seu processo de condenação e morte, do qual ele é um dos protagonistas.

Herodes se questiona sobre a identidade de Jesus. Levanta hipóteses, e, nisso, é acompanhado pelo povo. Mas, enquanto o seu povo tenta interpretar Jesus no horizonte da prática profética, que conhece muito bem, Herodes, atordoado pela própria violência e pelos fantasmas do medo que dela nascem, imagina que Jesus é a reencarnação do profeta João Batista, que ele mandara matar.

Tanto a mentalidade religiosa popular como as elucubrações de Herodes não levam em conta que Jesus, embora se pareça com os profetas de Israel, não cabe nos modelos proféticos antigos. Jesus é diferente e maior que todos os profetas conhecidos. Por isso, a resposta madura e honesta à pergunta pela identidade de Jesus só será esclarecida no seguimento dos seus passos, até à sua morte. Quem perseverar até o fim conhecerá Jesus, e nele será libertado dos enganos e dominações.

Os discípulos farão este caminho de crescimento e amadurecimento da fé. Mas Herodes, mesmo se encontrando com Jesus como parte interessada do processo que o condenou à morte, e mesmo tendo oportunidade de fazer-lhe diversas perguntas a (cf. Lc 23,8-12), não o conhecerá de fato. Ele só deseja ver um milagre e se divertir. Por isso, trata-o com desprezo, caçoa dele e se alia à hipocrisia mortal de Pilatos.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus, ativando seu desejo sincero de encontrar Jesus e compreender sua Palavra

Deixe-se surpreender pelo encontro vivo com Jesus e seu Evangelho, abandonando a busca de eventos grandiosos e miraculosos

Que perguntas você se faz sobre Jesus, e em que grupo de personagens você o coloca? O que você diz dele?

O que precisamos melhorar na escuta e na leitura da Palavra de Deus para que não nos seja tirado o que pensamos saber?

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Amados, chamados e enviados

Somos enviados para anunciar o Reino de Deus

1213 | Tempo Comum | Semana XXV | Quarta | Lucas 9,1-6

Hoje somos convidados a meditar o episódio do envio missionário do “grupo dos doze”. Estamos diante da crônica de uma nomeação solene, onde cada nome é citado com ênfase. Isso acontece pouco antes de Jesus iniciar sua peregrinação a Jerusalém, e sabemos que, entre o chamado (cf. 5,1-12) e o envio dos discípulos, Jesus se dedica à formação diligente daqueles que doravante o precederiam e u representariam.

Lucas não nos apresenta propriamente o conteúdo doutrinal da missão, nem uma descrição pormenorizada das atividades, mas nos oferece uma espécie de “estatuto da missão” e descreve o estilo de vida daqueles que Jesus envia à sua frente. O foco da missão é claramente pressuposto: o anúncio do Reino de Deus, mostrando através de ações e sinais (curas e exorcismos) que Deus chega para nos libertar de todas as escravidões. Jesus envia seus escolhidos para fazer o mesmo que ele faz.

Quanto ao estilo de vida dos missionários, Jesus enfatiza alguns poucos elementos: eles devem ir a todo canto, fronteira ou periferia, sem demora e sem exclusões ou omissões; não devem levar nada em termos de apoio poderoso e ostensivo, e confiar plenamente na hospitalidade dos interlocutores; não devem esperar sucesso ou reconhecimento pela missão realizada; precisam contar com a incompreensão e a rejeição; por fim, precisam manter-se desapegado e livre de tudo.

Sem prometer facilidades nem prosperidade a quem é enviado em seu nome, Jesus assegura, entretanto, a mesma força e o mesmo dinamismo que sustenta ele mesmo na missão que Pai lhe confiou. Lucas chama este dinamismo de poder e autoridade. Mas se trata de força e autoridade que brotam da fidelidade e da coerência de vida, e têm como finalidade anunciar o Evangelho do Reino de Deus, acolher, curar e libertar com eficácia, como faz o próprio.

O despojamento que Jesus pede dos seus enviados não significa desprezo pelos bens materiais ou recursos culturais e tecnológicos, mas reforça a necessidade de focalizar tudo no anúncio e no testemunho das novas relações suscitadas pelo reino de Deus. Jesus também deixa claro que não nos envia para multiplicar louvores e invocações, para simplesmente purificar o coração, nem para ensinar doutrinas e impor uma certa moral. No início, na meta e na prática da missão estão o anúncio de um novo tempo, e essa nova era chamada Reino de Deus, é antecipada pelo testemunho.

 

Sugestões para a meditação

Coloque sua experiência de vida eclesial e social, aquilo que você faz, sob a luz desse envio de Jesus

Em que consiste sua prática missionária? Qual é o conteúdo e quais são os gestos? Eles traduzem uma boa notícia aos pobres e sofredores?

Como está sua confiança na hospitalidade daqueles a quem você é enviado em missão?