sábado, 12 de setembro de 2026

Perdoados que perdoam

Somos pecadores perdoados e agentes do perdão

1203 | Tempo Comum | Semana XXIV | Domingo | Mateus 18,21-35

No domingo passado, acolhíamos o ensinamento de Jesus que nos oferecia uma verdadeira pedagogia da correção fraterna. Hoje, nesta parte da quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. De resto, o rei da parábola é igualzinho a todos os demais: ele age oprimindo os mais fracos. Imagina como conseguiu a fortuna que lhe possibilitou emprestar ao seu empregado aquela fortuna. A compaixão e o perdão concedidos ao empregado endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude deste empregado. Tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do empregado perdoado, que mostra mais crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

A cultura na qual nos movemos nos convenceu de que o outro é um estranho que precisa ser temido, um inimigo que precisa ser combatido, um incapaz que só pode ser desprezado, um incômodo que deve ser afastado, um devedor que deve ser sempre cobrado, que deve fazer por merecer. Perdoar é conceder ao outro a chance de ser alguém, de ter dignidade, de recomeçar e amadurecer.

 

Sugestões para a meditação

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?

O perdão liberta

APOLOGIA DO PERDÃO

Quase sempre que escrevi sobre o perdão, recebi cartas, geralmente anônimas, acusando-me de esquecer o sofrimento das vítimas do terrorismo, de não compreender a humilhação de quem foi traído pelo cônjuge, de não ter os pés no chão, e coisas semelhantes.

Não me é difícil compreender essa resistência ao perdão. Como não hei de intuir a raiva, impotência e dor de quem foi vítima da violência, do desprezo ou da traição? Mas, precisamente, o ressentimento e a agressividade que se percebem nessas palavras fazem-me ver com mais clareza o que seria um mundo sem perdão.

Há um mecanismo de defesa bem conhecido pelos psicólogos. Por um mimetismo misterioso, quem foi vítima de uma agressão tende, de alguma forma, a imitar o agressor. Trata-se de uma reação quase instintiva que se desencadeia no inconsciente individual ou coletivo e pode até transmitir-se de geração em geração.

Se, em algum momento, não surgir uma reação de sinal contrário, o mal tende a perpetuar-se. Quando a vítima não quer ou não consegue perdoar, permanece nela uma ferida mal curada que lhe causa dor, pois a prende negativamente ao passado. Da mesma forma, o ressentimento instalado numa sociedade dificulta a lucidez para procurar caminhos de convivência e pode bloquear todo o esforço por encontrar soluções para os conflitos.

O desejo de vingança é, sem dúvida, a resposta mais instintiva à ofensa. A pessoa precisa defender-se da ferida recebida, mas, como adverte o conhecido especialista Jacques Pohier, quem pretende curar a sua ferida infligindo sofrimento ao agressor, engana-se. O sofrimento não tem poder mágico para curar a humilhação ou a agressão sofrida. Pode produzir uma breve satisfação, mas a pessoa precisa de algo mais para voltar a viver de forma saudável. Já o dizia há muito Henri Lacordaire: «Queres ser feliz por um momento? Vinga-te. Queres ser feliz para sempre? Perdoa».

Às vezes esquece-se que o processo do perdão é mais benéfico para o ofendido, pois liberta-o do mal, faz crescer a sua dignidade e nobreza, dá-lhe forças para recriar a sua vida, permite-lhe iniciar novos projetos. Quando Jesus convida a perdoar setenta vezes sete, está a convidar-nos a seguir o caminho mais saudável e eficaz para erradicar o mal da nossa vida. As suas palavras ganham ainda mais profundidade para quem acredita em Deus como fonte última do perdão: «Perdoai e sereis perdoados».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Em nome de Deus

Nem ímpios, nem ungidos

Estamos avançando nas campanhas eleitorais para os parlamentos e governos estaduais e federal. As pessoas que têm consciência cidadã e política, mesmo num nível muito básico, têm o direito de esperar que este seja um tempo de debate sobre perspectivas e projetos para um país soberano e solidário e propostas que melhorem a vida do povo, reduzam as desigualdades ou imponham limites à sanha rapinadora dos mais fortes.

Em vez disso, estamos sendo bombardeados por levas de acusações recíprocas entre os sujeitos que estão inscritos nas disputas, e enganados por empresas de comunicação que dirigem a nossa atenção sobre aspectos periféricos e jogam no esquecimento as questões que realmente importam. Mais grave ainda é o recurso à linguagem religiosa para ungir com o óleo da santidade alguns personagens e rotular outros como ímpios incuráveis.

Neste contexto, um bispo católico, muito ativo nas redes digitais, vem afirmando que estamos sendo governados por ímpios. Ímpios são pessoas sem fé, que não acreditam em Deus, que não levam em conta ou se opõem às suas leis, ou fazem o mal sem remorsos. No horizonte religioso, os ímpios são pecadores típicos, pessoas que merecem nosso desprezo e precisamos combater e eliminar. De gente ímpia não pode vir nada de bom.

Por outro lado, segmentos políticos e religiosos apresentam candidatos e ministros do seu campo ideológico como ungidos de Deus. Ungida é a pessoa escolhida ou eleita, purificada e consagrada pelo Espírito para ser seu agente e representante no governo ou no tribunal. Na perspectiva religiosa, não reconhecer ou contrariar uma pessoa ungida e escolhida por Deus significa opor-se a Ele e à sua vontade, ou seja, tornar-se ímpio...

O recurso à linguagem religiosa para cabrestear o voto dos cidadãos, impor ou blindar candidatos e juízes, ou para disfarçar ideologias que, na prática, se opõem a Deus e ao seu povo, é pernicioso e condenável. É manipulação da ideia de Deus, esvaziamento da fé uma limitação à liberdade de escolha, uma ação que acaba destruindo a credibilidade da religião e abrindo as portas à intolerância, ao fanatismo e ao autoritarismo.

E, quando uma liderança religiosa usa sua autoridade para distribuir acusações sem se dar ao tempo de analisar a realidade e sem levar em conta a complexidade da política e dos tribunais, se arvora em juiz contra o qual não cabe recurso. A profecia é legítima e necessária, mas não pode prescindir do discernimento lúcido e responsável. Somente os pobres e as vítimas têm o poder de nos julgar em nome de Deus (Mateus 25,31-46).

A verdade está nos frutos

Nada pode abalar uma vida coerente

1202 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sábado | Lucas 6,43-49

Somente quem tem um olhar limpo e um coração puro está em condições de ajudar e criticar o próprio irmão. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos é o horizonte que nos inspira e a regra primeira. Nessa perspectiva, Jesus hoje nos oferece critérios para reconhecer o autêntico discípulo do Reino. Não basta reconhecer Jesus como Senhor!

Como a razão de ser da árvore é produzir sombra, flores ou frutos, espera-se que o discípulo demonstre o que é naquilo que faz, nas relações que estabelece com pessoas e com as coisas. E este fruto não é apenas uma canção, uma oração, uma invocação ou um determinado ato de piedade. Como vimos ontem, revelamos que somos discípulos de Jesus sendo misericordiosos como Deus o é conosco.

É pelos frutos que produzimos em nossas relações que revelamos em quem acreditamos e demonstramos a qualidade da árvore que somos. Não podemos esperar coisa boa de gente que se orienta pelo ódio ou pela indiferença, que se manifesta pela eliminação daqueles que julga errado ou incômodo, mas gosta de publicar frases e imagens de piedade e de pessoa devota em suas redes sociais.

As relações são exteriores, mas revelam os princípios e as decisões interiores, os valores que nos orientam e consideramos preciosos. Se nossa consciência é bem formada, se assumimos a escala de valores do Evangelho, se pautamos nossas ações pela prática e pelo ensino de Jesus, sempre tiraremos desse tesouro decisões boas e construtivas. Não há como tirar dele o ódio e a defesa do porte de armas.

O que se espera de nós é coerência entre a fé que professamos e aquilo que praticamos: seguir Jesus implica em levar a sério sua palavra e colocá-la em prática em todas as dimensões da vida. Caso contrário, seremos como as belas mansões construídas sem alicerce, sobre a areia: não resistem diante da menor prova ou força contrária; ou como as belas sepulturas que escondem carne em decomposição.

Que a incoerência e a superficialidade não façam de nós videiras estéreis ou que produzem frutos venenosos. Que Deus nos livre de sermos como aquelas casas que, de bonito e bom, só têm a fachada. Dentro delas vigora intolerância, violência, indiferença e a lei do “cada um para si e deus para todos”.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida a fé que você demonstra em nossa família e comunidade carecem de coerência?

Quais são os frutos bons que a escuta e meditação da Palavra e o cultivo da fé em Jesus tem produzido em você, sua família e sua comunidade?

Você não acha que corremos o risco de inflacionar novenas, adorações e ritos, mas deixamos anêmica nossa ação e nossos compromissos?

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma medida

Que o amor com justiça seja a nossa medida

1201 | Tempo Comum | Semana XXIII | Sexta | Lucas 6,39-42

Um pouco antes desta cena, Jesus deixara claro que a misericórdia do Pai, expressa concretamente na vida e ação de Jesus, é a referência e o dinamismo que orienta e move a ação dos cristãos. Nossa condição no mundo é a de aprendizes, e não de juízes. Estamos na estrada, e não sentados no tribunal. Somos irmãos e irmãs, e não magistrados. Não pode haver crítica legítima sem autocrítica. É nosso amor aos mais vulneráveis que nos julgará no entardecer da vida.

No trecho de hoje, Jesus não se dirige aos fariseus ou doutores da lei, mas à comunidade de discípulos e discípulas. Para preveni-los do risco da crítica infundada e de assumirem a postura de superiores e juízes, Jesus recorre a dois provérbios ou sentenças: aquele do cego que se oferece nesciamente como guia; aquele do cisco no olho que impede de ver claramente a sujeira externa.

A advertência de Jesus é clara: todos nós podemos ser cegos e levar os outros a tropeçar e a cair; ninguém está em condições de julgar ninguém; não podemos criticar ninguém se não exercitarmos a autocrítica diante de Jesus e do seu Evangelho; em relação aos outros, somos irmãos, e não juízes. Quando esquecemos isso, acabamos sendo hipócritas, iguais aos criticáveis fariseus e doutores da lei. Não há lugar para a soberba e para tribunais penais no interior da comunidade cristã!

E a regra também é meridianamente clara: nossas relações devem pautar-se pelas relações de Jesus, único mestre e guia capaz de conduzir à vida e à verdade. Como discípulos do profeta de Nazaré, não somos maiores nem podemos ser diferentes do mestre. “Todo discípulo bem formado será como o mestre”. E Jesus não pautou sua vida pelo julgamento e pela condenação, mas pelo amor que liberta e edifica. É claro que isso não elimina a profecia, que nasce da paixão pela verdade. Aliás, a fraternidade, a acolhida e o respeito aos diferentes não é uma profecia eloquente?

Somente as pessoas que têm o olhar limpo e o coração puro (consciência dos próprios limites) estão em condições de ajudar e criticar os outros, e sempre como irmãos e irmãs. A misericórdia do Pai, que é bondoso tanto para com os bons como para os ingratos e maus, será sempre a nossa medida. Quem somos nós para colocarmo-nos acima dele? Quem teria competência e legitimidade para corrigir o próprio filho de Deus, ele que não foi enviado para julgar e condenar, mas para salvar?

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e cada comparação ou figura usada por Jesus e tente perceber o que significam para você

Você percebe, em você mesmo e na sua comunidade, sinais da tentação de ser como um cego que quer guiar cegos, corrigir os outros sem fazer autocrítica?

Como podemos evitar condenar os outros sem deixar de agir e falar com coragem profética diante das injustiças e mentiras que ferem nossos irmãos e irmãs?

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A primazia da misericórdia

A misericórdia nos faz semelhantes a Deus

1200 | Tempo Comum | Semana XXIII | Quinta | Lucas 6,27-38

O Reino de Deus pede de nós, discípulos e discípulas de Jesus, grandeza de coração. Precisamos espelhar-nos na misericórdia do Pai, cujo rosto é o próprio Jesus, que ama incondicionalmente a “todos, todos, todos”, inclusive as pessoas “ingratas” ou “más”. O amor que se nos pede é mais que estratégia, oportunismo, boa educação ou boas maneiras. As exigências de Jesus são altas, e não é possível ser mesquinho.

Jesus é direto: “A vós que me escutais, eu digo...” Ele fala conosco, que dedicamos um mês especial à Palavra de Deus. Ele fala de modo manso, mas sublinha com ênfase, que as relações de amor recíproco são insuficientes. O amor aos iguais, às pessoas bondosas e agradecidas, é pouco, e não consegue se libertar das correntes do egoísmo de grupo e do paganismo. Deus não nos trata assim!

No evangelho de hoje, Jesus fala de amor aos inimigos, de compreensão com aqueles que nos odeiam, excluem, insultam e amaldiçoam. Não são apenas aqueles que odiamos ou que nos odeiam, mas aqueles que nos fizeram ou nos fazem mal, aqueles que a sociedade torna invisíveis, aqueles dos quais não queremos nos aproximar e que, quando os ignoramos, nos sentimos bem.

Jesus faz questão de deixar bem claro o que significa amar os inimigos: fazer o bem a quem nos odeia; abençoar os que nos amaldiçoam; rezar por aqueles que nos caluniam; oferecer a outra face a quem nos bate; dar também a túnica a quem nos penhora o manto; emprestar a quem pede; dar sem cobrar retribuição. Não é apenas hoje que surgem pessoas que pensam que Jesus foi longe demais.

Mas Jesus não ensina a passividade, a submissão ou a ingenuidade. O que ele pede é que sejamos como ele e como o Pai dele e nosso, que “é bondoso também para com os ingratos e maus”. Ele espera que não sejamos apenas reagentes, mas capazes de inovar, de tomar a iniciativa, de fazer aos outros o que desejamos que nos façam.

A misericórdia é a profundidade e a generosidade de Deus, e também a balança na qual nossa fé, nossa esperança e nossa caridade são medidas. A medida de Jesus e do Pai deve ser a nossa medida. É assim que brilhará em nosso rosto e em tudo o que fazemos e somos o rosto do Pai e assim demonstraremos que somos filhos do Pai.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada afirmação ou prescrição de Jesus, identificando quem são os seus “inimigos” ou “adversários”

Você acha isso tudo praticável ou impossível de levar em conta em nossas relações? Por onde você poderia começar, hoje, evitando querer fazer tudo de uma vez e acabando por desanimar?

O que podemos fazer para ajudar nossas comunidades a levar a sério a proposta de Jesus em tempos de intolerância?

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Quem é feliz?

O Reino de Deus abre as portas da felicidade

1199 | Tempo Comum | Semana XXIII | Quarta | Lucas 6,20-26

No “sermão” de hoje, Jesus fala aos discípulos que ele mesmo chamou ou que o buscaram espontaneamente. Na sinagoga de Nazaré, ele já havia deixado claro que, com ele e com o advento do Reino de Deus, inaugurava-se um tempo de gratuidade e felicidade no qual os pobres e oprimidos ocupam o primeiro lugar.

No seu anúncio de hoje, Jesus distingue claramente dois grupos de pessoas: um grupo que ele declara feliz, e um grupo que ele caracteriza como maldito. As pessoas felizes são os discípulos verdadeiros, coerentes, solidários, colaboradores de Deus no mundo. As pessoas malditas são as que não permitem que Deus interfira nas suas escolhas e, assim, impedem que ele reine na sociedade.

Os pobres (literalmente, as pessoas carentes e dependentes) são felizes porque são os destinatários e beneficiados pela vinda do Reino de Deus. E os ricos (que em Lucas são representados pelo homem indiferente e avarento da parábola do rico e de Lázaro) devem se lamentar porque não descobriram o tesouro da partilha e da solidariedade, e se detêm em satisfações egoístas e fugazes.

Aos famintos (toda caracterização é dispensável!) Jesus opõe os satisfeitos (orgulhosos com o que têm). Felizes são também as pessoas que choram (aquelas que lamentam a morte de uma pessoa querida ou um erro cometido), enquanto que grupo dos que riem (pessoas seguras de si mesmas, que se sentem melhores e superioras) é declarado maldito.

Felizes são também os discípulos que sofrem ódio, insultos e perseguições por causa de Jesus e do Reino de Deus, enquanto que as pessoas despreocupadas, badaladas e estimadas como os falsos profetas merecem a reprovação de Jesus e não chegam a experimentar a verdadeira felicidade.

Não se trata de um desejo vazio de Jesus, nem de uma promessa para depois da morte, mas de uma declaração que tem a força de quem a pronuncia. Nessas palavras, Jesus desmascara as ilusões dos ricos e satisfeitos e assegura a reviravolta, já iniciada pela instauração do Reino de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada proclamação e cada lamentação correspondente e as deixe repercutir em você, mantendo os pés no chão

Para você é difícil concordar com o que Jesus diz e faz? Você tem vontade de amenizar sua fala, de adocicar suas palavras?

Experimente inverter o que Jesus diz: ai dos pobres, ai dos que choram, ai dos que têm fome... Isso é humano e aceitável?

Você continua disposto a seguir este caminho especial de felicidade proposto por Jesus, e está consciente das exigências que comporta?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Nascimento de Maria

Maria, filha de um povo de fé indomável

1198 | Festa da Natividade de Maria | Mateus 1,1-23

Recordamos o nascimento de Maria para destacar a longa preparação e o início da realização da promessa de Deus, da nova e eterna aliança selada na vida, morte e ressurreição de Jesus. As Sagradas Escrituras não estão interessadas na origem de Maria. O que sabemos é que sua história lança raízes na história de um povo marcado pela opressão e pela esperança inabalável. Maria é filha do seu povo e, através dela e do filho, o amor de Deus alcança toda a humanidade, sem nenhuma exclusão. Maria é a “arca da aliança”, e nela se unem a antiga e a nova aliança.

Os relatos de genealogia, como esse de Jesus, nos parecem hoje enfadonhos e inúteis. Mas, para a cultura do oriente antigo, as genealogias eram um modo de assegurar e demonstrar a pertença a um povo, de estabelecer heranças e promessas. No caso de Mateus, mesmo sem apresentar uma genealogia completa de Jesus (ele não cita Moisés nem os profetas), fica claro que Jesus pertence ao povo hebreu, que é um israelita legítimo, um descendente de Davi, encarnação do bom governante.

Normalmente as genealogias apresentam apenas figuras masculinas, pois são narrativas essencialmente patriarcais. Mas Mateus inclui na genealogia de Jesus cinco mulheres: Tamar (filha de uma prostituta), Raab (uma prostituta cananéia), Rute (mulher estrangeira, pertencente a um povo acusado pelos judeus de ter nascido de uma relação incestuosa), e a “mulher de Urias” (mulher sem nome, abusada pelo rei Davi, no auge do seu poder) e Maria de Nazaré.

Incluindo estas mulheres nas origens de Jesus, Mateus deslegitima o patriarcado e sublinha a providência misericordiosa de Deus e a inclusão de pessoas e povos marginalizados nos seus planos e intervenções. Silenciando sobre o pai biológico de Jesus (“José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus”), Mateus sublinha a independência de Deus na sua ação libertadora e nos agentes que escolhe.

Maria é incluída no grupo das outras quatro mulheres (ela é filha da humanidade marginalizada), mas, ao mesmo tempo, representa uma diferença, uma novidade: nela e por ela se manifesta a encarnação de um Deus que intervém na história mediado pelo ser humano, elevando os humilhados e relativizando os poderes e ideologias. Por isso, a aclamamos: “Maria de Deus, Maria da gente!”

 

Sugestões para a meditação

Retome a genealogia, prestando muita atenção nas figuras femininas e na mudança da lógica do texto quando fala da geração de Jesus em Maria

Contemple demoradamente o drama enfrentado por José diante da inaudita e inexplicável gravidez da sua noiva

Qual é a relevância, e o que significa, para você, lembrar que Maria também nasceu, pertence a um povo e faz parte do grupo de mulheres olhadas com desprezo pelos homens?

domingo, 6 de setembro de 2026

Um grito por soberania

Gritos por uma nação fraterna e soberana

O Papa Leão XIV iniciou sua primeira encíclica com uma afirmação programática, fruto de uma lúcida visão da história: “Cada geração recebe em herança a tarefa de fazer da história um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.  Sobre cada época paira também o risco de construir um mundo desumano e mais injusto” (Magnifica Humanitas, § 1).

Isso significa que, tanto como cristãos como enquanto cidadãos, precisamos evitar duas posturas igualmente inconsequentes: viver recordando as conquistas do passado e venerando heróis nem sempre veneráveis; dispensar-nos da responsabilidade de projetar e construir um país e um mundo humano e justo, como se isso fosse algo impossível ou uma tarefa que pode ser delegada a alguns poucos cidadãos.

A celebração da Semana da Pátria é um programa legítimo e pedagogicamente oportuno, na medida em que ajuda a cimentar a unidade do povo brasileiro a partir de um dos seus eventos fundacionais. Mas torna-se perigosamente vazia e até nociva se nos induz a pensar a independência e a soberania do país como se fosse um fato já consolidado, e a isolar Dom Pedro, o filho do rei colonizador, da plêiade de interesses aos quais servia.

O que ressoou no longínquo 7 de setembro de 1822, já sabemos, não foi apenas o “heroico brado de um povo retumbante”, e o “sol da liberdade” e da soberania está hoje encoberto por nuvens tenebrosas que vêm do Norte e contam com a colaboração escancarada e inconfidente de outros Calabar e outros Silvério dos Reis. A independência, a democracia e a soberania nacional são conquistas sempre precárias e inacabadas.

Por isso, mesmo que não seja possível ver claramente o que está acontecendo no Planalto Central e nas instituições lá domiciliadas, é mais do que necessário juntar ao grito do Ipiranga a voz de um povo lucidamente indignado que proclama, como Sepé, um dos heróis da pátria: “Alto lá! Esta terra tem dono!” Se outrora sacudimos o domínio de Portugal e, depois, da Inglaterra, não podemos voltar a ser quintal de ninguém.

Longe de nós a cômoda e criminosa passividade diante da sanha dos prepotentes, sejam eles ianques ou tupiniquins. É verdade que as fronteiras nacionais não são alfândega para o Povo que nasce do lado esquerdo de Jesus Cristo. Mas, como cristãos, não podemos desviar, como fizeram o sacerdote e o levita da parábola (Lucas 10,25-37), diante de um povo que pode sofrer a rapina de poderes que se julgam divinos.

Outra vez!

O cuidado da vida não depende de agendas

1197 | Tempo Comum | Semana XXIII | Segunda | Lucas 6,6-11

Em plena semana da pátria, no dia em que recordamos a transição da nossa condição de colônia para nação independente, a cena do evangelho de hoje apresenta-nos Jesus desafiando as leis e instituições e colocando a pessoa e suas necessidades acima de tudo. Acima das prioridades desse ou daquele governo, acima do teto ou do arcabouço fiscal, acima dos sacramentos e das diversas normas e orientações morais e administrativas da Igreja está a pessoa humana concreta.

Jesus está na sinagoga, em dia de sábado: lugar sagrado, dia sagrado, espaço do império absoluto da lei e das tradições. Mas nada disso consegue reabilitar um homem anônimo impedido de agir, de fazer algo bom. A sinagoga, os fariseus e as tradições o ignoram, não podem ou não querem tomar conhecimento da sua marginalização, nem reabilitá-lo. O legalismo e o formalismo!

Embora necessitado de ajuda, o homem não pede nada. É Jesus que toma a iniciativa, chama aquele homem vulnerável para o centro da roda e interpela os líderes religiosos que o espreitam: “O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” Eles sabiam que a lei permitia agir em caso de necessidade, mas preferiam calar e permanecer indiferentes. Para Jesus, ser omisso e indiferente já significa fazer o mal!

A ação de Jesus, assim como sua pergunta, é claramente provocatória. Ele não espera qualquer resposta, mas um exame de consciência daqueles que o criticam e condenam. Curando o homem em dia de sábado, Jesus desmonta a sustentação ideológica dos escribas e fariseus, acusa-os de fazer o mal no dia sagrado e mostra a esterilidade das instituições que eles defendem. O que tem prioridade é o cuidado, a defesa e a promoção da vida, e não as tradições, o cuidado de si mesmo.

“A vida em primeiro lugar!”, e não a economia, o teto fiscal, o equilíbrio das contas, a louca vontade de um misterioso mercado, que é o nome usado para encobrir os especuladores. Ser discípulo de Jesus significa agir como ele, fazer a sua vontade, ser responsável pelo seu Reino, fazer o bem sempre, o máximo bem possível.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se nela, e observe atentamente o que dizem e o que fazem Jesus, os fariseus e o homem doente

Você é capaz de perceber como algumas instituições defendem mais as leis e seus interesses que a dignidade das pessoas?

Você percebe que, colocando a pessoa no centro, Jesus desvela a esterilidade do tradicionalismo, do legalismo e do patriotismo?

Em que medida você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades das pessoas?