sábado, 6 de junho de 2026

Ressignificar o domingo

O NOVO DOMINGO

O domingo já não é o que era há alguns anos. Em pouco tempo cresceu e tornou-se o fim de semana, que começa já na sexta-feira à tarde e no qual a maioria pode viver de forma diferente, escapando às obrigações do trabalho, aos horários impostos e à rotina diária.

Nem todos vivem o fim de semana da mesma maneira. Para alguns é uma verdadeira sorte: têm iniciativa, possibilidades e amigos para desfrutar desses dias. Para outros é um tempo cruel, pois sentem com mais força a sua solidão, doença ou velhice; o domingo só desperta neles tristeza e nostalgia. Outros temem o domingo, não sabem o que fazer com ele, aborrecem-se; se não houvesse futebol, seria insuportável.

Teólogos e liturgistas perguntam-se hoje como será no futuro o domingo cristão. Reduzir-se-á a uma celebração da missa isolada e sem qualquer ligação com o fim de semana das pessoas? Pelo contrário, não será possível uma integração dinâmica dos valores humanos do fim de semana na mística do domingo?

O domingo cristão pode ser a alma do fim de semana, ajudando os crentes a experimentar melhor a sua liberdade de filhos de Deus, sem imposições nem fins utilitaristas. A eucaristia poderia ajudar a recuperar a serenidade e reavivar o alento interior. No fim de semana podemos ser mais nós mesmos.

Por outro lado, poderia recuperar-se o sábado como festa da criação. Desta forma, o domingo prosseguiria com a celebração da salvação. Assim pensam alguns liturgistas. A fé ajudaria então a viver o fim de semana como uma celebração ao Criador e um encontro com a natureza, não através do trabalho, mas do desfrute e da contemplação.

Por fim, a celebração da assembleia eucarística pode dar um sentido mais profundo a essa outra dimensão do fim de semana, que é a comunicação íntima e gratificante com amigos e familiares, ou o encontro com outras pessoas e outros povos. O fim de semana pode ser uma experiência de encontro e comunhão entre irmãos. Crescerá o domingo cristão até ser fermento e sal do fim de semana da cultura atual? Em todo o caso, podemos fazer uma pergunta: sabemos nós, cristãos, extrair da eucaristia dominical alento e alegria para viver o novo domingo?

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pão & Corpo

Eucaristia: memória, expectativa e compromisso

Desde muito cedo na sua história, o cristianismo recordou, ritualizou e celebrou a vida, a morte e ressurreição de Jesus. A identidade, a organização e a missão da Igreja foi se constituindo em torno de celebrações simples, populares e permeadas de memória agradecida e de expectativas de algo novo e grandioso que ainda vai acontecer.

Assim “nasce” a Eucaristia, sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Ou melhor: ação simbólica e memorial da aliança definitiva de Deus com a humanidade peregrina, selada no pão partilhado, no vinho abençoado e no gesto de um Mestre e Senhor que lava os pés, inclusive de quem o nega e trai. A Eucaristia é uma lição profunda e atual!

Aquela ceia de despedida, celebrada no clima cálido e tenso que antecedeu a prisão de Jesus e sua condenação à pena de morte, está ligada às inúmeras ceias que Jesus compartilhou, seja para saciar um povo faminto no deserto, seja sentado à mesa onde acolheu pecadores e proscritos. Não podemos excluir da mesa aqueles que Jesus acolheu!

É verdade que, nesta ceia, Jesus diz com amargura que um dos Doze, daqueles que come o pão com ele, irá traí-lo. E acrescenta: “Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido” (Marcos 14,17-21). Mas não se trata de alguém que se sente culpado e pecador, mas de alguém que participa da sua intimidade. E Jesus não o expulsa da mesa!

Na ceia de despedida, Jesus abençoa o pão e o distribui dizendo: “Isto é meu corpo, que é dado por vós”. E tomando nas mãos o cálice com vinho, dá graças e o serve aos discípulos declarando: “Tomai este cálice e partilhai entre vós”. E acrescenta, em forma de mandamento e de testamento: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22,14-23).

Este mandamento não se refere apenas à repetição de um ritual, mas ao prosseguimento do modo de vida que ele expressa: fazer da vida um dom generoso e incondicional aos irmãos e irmãs, especialmente aos mais pobres. E sempre na expectativa de que o Reino de Deus, a vida plena e abundante para todos, se realize na história (cf. Lucas 22,18).

São Paulo entendeu isso muito bem e o expressou na Carta aos Romanos: “Eu vos exorto, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo (hóstias vivas), santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (12,1-2). Nosso culto não se resume a um rito, mas se realiza no engajamento para que venha o Reino de Deus.

As viúvas e os escribas

Que nossa piedade e doação não sejam fingidas

1103 | Tempo Comum | Semana IX | Sábado | Marcos 12,38-44

Depois de ter calado os adversários e desmascarado a ideologia nacionalista e triunfalista dos que pregavam a restauração messiânica do império de Davi, Jesus continua por algum tempo no templo de Jerusalém. Ali, ele ensina as multidões e os seus discípulos a respeito da novidade do Reino de Deus, e se mostra implacável com os mestres ou doutores da Lei. Para Jesus, eles estão muito longe da novidade ética e religiosa do Reino de Deus inaugurado por ele.

Na cena de hoje, Jesus começa pedindo ao povo que se cuide e tenha muita cautela diante dos doutores da Lei: eles buscam apenas e sempre distinção, status e privilégios, enquanto que Jesus propõe que ocupemos o lugar do servo e do último. Por causa da aparência de piedade, os doutores da Lei haviam conseguido o direito legal de cuidar da herança das viúvas, e eram muito bem pagos para fazer isso. Entretanto, mesmo sendo pagos, eles acabavam “devorando” os bens delas, fazendo o contrário do que pedia a própria Lei: proteger os órfãos e as viúvas.

Mas não é apenas isso. O próprio templo, que Jesus lembra que deve ser um lugar de oração, acaba sendo uma estrutura que explora e empobrece ainda mais o povo. E Jesus não aceita isso de modo nenhum. Sentado, diante do cofre das esmolas, ele observa como os ricos alardeiam suas ofertas, que são enganosas, e como a viúva é explorada, obrigada a dar mais que eles, a dar “tudo o que possuía para viver”.

Esta cena não é um elogio à “doação forçada” da viúva, mas uma denúncia pelo que ela sofre. Jesus não compara a esmola dos ricos com a “oferta” que a viúva é obrigada a dar, que não passa de uma extorsão inaceitável, mas ilustra aos seus discípulos como é que os doutores da Lei agem para “devorar” as casas das viúvas. A piedade ostentada pelos escribas é um véu que mal esconde oportunismo e exploração.

Esta passagem não quer apresentar um exemplo de generosidade, e não deve ser oferecida como motivação para o dízimo. Nela ressoa o clamor dos pobres, explorados até em nome de Deus. Jesus nunca poupou críticas e denúncias contra o templo e seus controladores. É por isso que, depois de chamar os discípulos e criticar a exploração travestida de piedade, Jesus se afasta templo definitivamente.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se dentro da cena, no templo, com Jesus e os escribas, e observe, com Jesus, a descarada ostentação dos ricos e piedosos, que com suas migalhas disfarçam e legitimam o que acumulam injustamente

Perceba a coragem de Jesus ao desmascarar os doutores da lei, pois eles dão legitimidade teológica à exploração dos pobres: “Tomai cuidado com eles!”

Fique atento aos sentimentos e pensamentos que esta palavra e esta atitude de Jesus desperta em você 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Escutar com prazer

Escutemos Jesus com prazer e maturidade.

1102 | Tempo Comum | Semana IX | Sexta-feira | Marcos 12,35-37

Na cena de hoje, Jesus continua no espaço do templo, centro ideológico, político e religioso do judaísmo daquele tempo. A cena imediatamente anterior terminava demonstrando que Jesus havia vencido todos os seus opositores: expulsou os comerciantes, não caiu nas ciladas dos fariseus e saduceus, questionou a legitimidade dos chefes, assumiu seu papel de mestre, enfim: amarrou os “homens fortes”, deslegitimou sua ideologia e reconquistou sua casa.

Na cena de hoje, Jesus volta a investir contra os escribas ou mestres da lei, enfrentando sem “panos quentes” a ideologia messiânica triunfalista e nacionalista que eles veiculavam e alcançara grande aceitação popular. “Como é que os mestres da lei dizem que o Messias é filho de Davi? Como é que ele pode ser seu filho?” É o confronto claro e direto entre o projeto do Reino de Deus e o ensinamento dos mestres da lei, entre o mundo solidário e inclusivo proposto por Jesus e a esperança da restauração da dinastia política do rei Davi.

Jesus não está interessado em discutir sua genealogia (se é, e como é descendente de Davi), mas a ideologia dos mestres da lei. Quem propaga o messianismo monárquico acaba legitimando o templo e suas práticas de extorsão e discriminação, assim como o Estado teocrático que nele tem sua validação e sua sustentação. Definitivamente, Jesus toma distância dessa ideologia e nega seus vínculos com o messianismo identificado com a monarquia. O Messias não deve nada a ninguém, é anterior e superior a Davi e sua dinastia.

Talvez isso nos traga desconforto, pois estamos acostumados a afirmar (nos hinos, na catequese, nas pregações) que Jesus é filho e descendente de Davi. Que isso não seja problema! O que precisamos é distanciar-nos de Davi enquanto autoridade política e voltar às suas origens, ao filho discriminado pelo pai e pelos irmãos, ao organizador e líder de um bando de marginalizados, tratado como bandido perigoso pelo rei Saul. Mas é importante evitar todo e qualquer sinal de adesão a ideologias políticas e religiosas eivadas de autoritarismo, nacionalismo, totalitarismo e exclusivismo que gravitam em torno do seu nome. É isso que o texto ensina.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, no templo, diante de Jesus e dos escribas que pregavam um messianismo com caraterísticas monárquicas

Perceba a novidade corajosa da proposta de Jesus: ele encarna um messianismo despojado, compassivo, inclusivo e solidário

Será que a cultura republicana e democrática já conseguiu eliminar da nossa imaginação a visão de um Jesus coroado como um rei?

Em que medida templos e algumas alfaias litúrgicas ainda se inspiram na “majestade” dos reis?

Missa do Corpo e Sangue do Senhor

Jesus Cristo, Pão repartido

para a vida do Mundo!

 

Queridos irmãos dom Aloísio, queridos irmãos presbíteros e diáconos! Estimadas religiosas e religiosos, diáconos, ministros! Queridas irmãs e irmãos reunidos nessa bela catedral, orgulho do povo de Santa Cruz do Sul!

Estamos celebrando o memorial da paixão de Jesus, este admirável sacramento de uma vida inteiramente doada. Nesta solenidade, nos reunimos para venerar o sacramento do corpo e sangue de Jesus e experimentar os frutos desse gesto redentor de Jesus.

Memória

No livro do Deuteronômio, Moisés pede que não esqueçamos do caminho percorrido, dos desertos atravessados, dos vales sombrios, da presença discreta e sensível do Senhor como guia que nos orienta nas encruzilhadas, como nuvem que nos protege quando o sol ameaça nos queimar, como luz quando a escuridão nos envolve, como água que sai da rocha, e como alimento que desce do céu e brota da terra.

Mas não esqueçamos também da lição mais importante: ninguém vive somente de pão! A tecnologia, a prosperidade econômica e os estudos e não são suficientes. A Palavra ou Promessa de Deus é que nos mantém de pé e a caminho, que alarga a tenda do nosso coração, que ajusta o nosso olhar para que vejamos em cada pessoa um irmão e visualizemos a beleza do Novo Céu e da Nova Terra que o Senhor nos promete e assegura.

Sublime sacramento da vida de Jesus

Não é possível dissociar a Eucaristia, o sacramento do corpo e sangue de Jesus, da sua vida e missão. A Eucaristia perde sua riqueza e sua força transformadora se a isolamos da ceia original na qual ela foi celebrada. A Eucaristia perde em significado se ignoramos sua relação com todas as demais ceias das quais Jesus participou, sentando ao lado de homens e mulheres malvistos.

Porém, o maior dano que podemos fazer a este “tão sublime sacramento” é esquecer que ele nos remete à relação de compaixão e à aliança solidária que Jesus viveu com os discípulos e com todas as pessoas “esquecidas à sombra da morte”. Na ceia eucarística, Jesus antecipa de forma ritual e simbólica aquilo que ele faria no dia seguinte: entregaria sua vida, seu corpo e seu sangue, para que todos os Homens tenham vida.

Pão para a vida do mundo

Em Jesus Cristo, Deus se aproxima do ser humano de um modo insuperável e estabelece uma aliança, uma comunhão de vida e destino com a humanidade. Ele desce, estabelece sua morada entre nós, faz-se carne e fragilidade. É a isso que Jesus se refere quando insiste sete vezes nas palavras “carne” e “sangue” no pequeno trecho do evangelho de hoje. Em Jesus, Deus se faz carne e fraqueza, sangue derramado pela violência. É a isso que o pão distribuído e o vinho partilhado estão referidos.

“Comer a carne” e “beber o sangue” de Jesus significa aceitar a humanidade de Deus sem se escandalizar; aderir conscientemente ao caminho da fraqueza e da minoridade; tomar distância das ideologias que nos pedem para apostar “todas as fichas” na meritocracia; não cair na armadilha das diversas expressões de supremacia; perceber a loucura do fechamento num individualismo mortal. Está muito claro que Jesus não tem nada a ver com isso.

Comunhão e permanência

Tomar parte na ceia eucarística e receber a “hóstia branca no altar consagrada” reconhecendo nela o memorial da vida, morte e ressurreição de Jesus nos impulsiona a permanecer em Jesus e faz Jesus permanecer em nós. Trata-se de viver em comunhão com Jesus, prosseguindo sua missão e revivendo sua compaixão, para que ele viva em nós, dirija nossos passos, motive nossas decisões e faça frutificar as nossas ações.

O principal fruto da Eucaristia é introduzir-nos no céu já aqui na terra; perdoar nossos pecados e redimir nossas culpas; congregar-nos num povo a caminho, composto de homens e mulheres diferentes, mas absolutamente iguais na dignidade. São Paulo não cansa de lembrar que nossa comunhão com Cristo, a participação no único e mesmo pão, nos torna membros do corpo de Cristo.

Dito de outra forma, a Eucaristia nos faz renascer no amor, como homens e mulheres novos, semelhantes a Jesus Cristo no amor e no serviço, especialmente aos mais vulneráveis. A eucaristia torna-se fermento de novos céus e nova terra, suscitando o amor de todos e de cada um/a por todos/as, um amor gratuito, puro dom que não cobra nada. Ela nos transforma em dom, nos faz livres para amar e servir.

Ação de graças e adoração

Sabemos o significado da palavra “Eucaristia”: ação de graças, ação de louvor pelos bens recebidos sem nenhum merecimento. Afinal, quem ousaria dizer que Deus se entregou por nós porque fizemos por merecer? Jesus deu sua vida por nós não porque somos bons, mas porque ele é bom; não porque tenhamos algum mérito, mas porque ele nos precedeu no amor.

É aqui que a adoração eucarística encontra seu sentido. Ajoelhamo-nos diante do mistério do Filho de Deus que se faz carne e vem habitar entre nós; do mistério de um Deus que aceita a morte para não se afastar da humanidade sofredora; de um simples pedaço de pão que se torna sinal e sacramento de um amor incondicional e sem medida. E permanecemos calados, parados e agradecidos, para que o dinamismo deste sacramento nos envolva e nos abrace, nos atravesse e nos renove.

Jamais esqueçamos, entretanto, que a Eucaristia, este “tão sublime sacramento”, não é algo a ser contemplado e adorado, mas algo a ser comido, para que Cristo viva e ame em nós. É por isso que participamos da eucaristia, que fazemos parte do sacramento, memorial da comunhão e da aliança de Deus com a Humanidade. E assim nos tornamos hóstias vivas, “amor a fundo perdido” para a salvação do mundo.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Sacramento do Corpo e do Sangue

É o amor incondicional que dá vida ao mundo

1101 | Tempo Comum | Solenidade de Corpus Christi | João 6,51-58

Nos versículos da catequese de Jesus sobre o Pão da Vida propostos para a Solenidade de Corpus Christi, o diálogo de Jesus se desloca das multidões (interlocutores dos versos anteriores) para os líderes do judaísmo. No centro, está a questão do caminho que leva para a vida plena e abundante: esse caminho seria a Lei (o ditado de Deus) ou seria a adesão à pessoa ou a humanidade de Jesus (o enviado do Pai) e o prosseguimento da sua prática?

Para o judaísmo, Lei era conjunto de valores e práticas (atitudes, mandamentos, proibições) que garantiam que uma pessoa chegasse a ser e fosse considerada boa, ou seja, os meios que asseguravam a salvação. É o que hoje chamamos de ideologia: o conjunto de fins e meios, valores e práticas que nos tornam “pessoas de bem”, pessoas pacíficas: viver “cada um para si”; ensinar que “quem pode mais chora menos”; afirmar que “direitos humanos são para os humanos direitos”; etc.

Os líderes do judaísmo consideraram incompreensível e inaceitável que Jesus, em sua concretude e fragilidade humana (carne e sangue) pudesse ser esse caminho. Para eles, não existia outro caminho senão o poder, a separação, a supremacia de uns sobre outros, a distância em relação àqueles “que não rezam pela sua cartilha”, enfim, não poderia haver outro caminho que não fosse a Lei. O que Jesus fizera alimentando uma multidão faminta carecia de importância.

Jesus insiste que não há outro caminho para a vida abundante que não seja a assimilação da compaixão que nos faz irmãos e servidores da humanidade, a ponto de dar a própria vida. Isso fica claro na expressão “carne e sangue”, que Jesus repete cinco vezes nesse breve texto. Na sua paixão, antecipada simbolicamente na ceia e no lava-pés, ele dá seu corpo e sangue e se torna pão para a vida do mundo. Ele é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo.

Jesus de Nazaré, o Enviado do Pai para dar vida ao mundo, o Filho do Homem que encarna a compaixão de Deus, supera a Lei. O amor incondicional vivido por ele e assimilado pelos discípulos é o que dá vida ao mundo. Quem come deste pão, viverá eternamente. É disso que a Eucaristia, corpo e sangue de Jesus, é sacramento! É diante desse mistério que nossos joelhos se dobram e nossos lábios cantam.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar em você o ensino de Jesus em relação à Lei e aos costumes judaicos e o caminho para a vida plena

Que luzes esta catequese de Jesus nos oferece para uma correta compreensão do mistério da presença de Jesus na Eucaristia?

O que fazer para não separar a Eucaristia da ação concreta de Jesus e da missão de reconciliar e fraternizar o mundo?

Como passar da ideia de uma “hóstia branca”, presa no sacrário ou exposta no ostensório, a um Jesus caminhando com o povo nas estradas e lutas da vida?


terça-feira, 2 de junho de 2026

Sem patriarcalismo

Conhecemos as Escrituras e a força de Deus?

1100 | Tempo Comum | 9ª Semana | Quarta-feira | Marcos 12,18-27

Depois da armadilha apresentada a Jesus pelos fariseus e herodianos, são os saduceus que “pegam em armas”. Trata-se de um grupo social composto pela aristocracia sacerdotal e leiga, gente que detém o poder econômico, político e religioso, e que divulga uma ideologia conservadora e pragmática. Em geral, são eles que comandam o templo, e, do ponto de vista político, são aliados romanos.

Os saduceus não estão interessados em discutir com Jesus a questão da ressurreição dos mortos, que eles negam. Eles estão interessados na manutenção da posse dos bens (mediante a descendência) e das tradições e costumes da família patriarcal. Na história ridícula que eles imaginam e apresentam a Jesus não transparece um pingo de preocupação com a figura da mulher, ferida pela esterilidade, que eles consideram uma maldição. O problema deles não é teológico, mas econômico.

Chama a atenção a repetida afirmação de Jesus de que eles estão enganados, que eles não sabem ler nem interpretar as escrituras. E isso não se refere apenas ao tema específico da ressurreição dos mortos, mas também à leitura ideológica e interesseira das escrituras praticada por eles para defender o patriarcalismo e o patrimonialismo. Para Jesus, a ressurreição, que eles negam, é uma afirmação de novas e possíveis relações igualitárias. Deus se recusa a perpetuar as relações desiguais do patriarcado!

Jesus abandona a questão e o debate suscitado pelos saduceus para recolocar a libertação e o respeito à dignidade das pessoas no centro da revelação de Deus e da vida de fé. Para Jesus, Deus é um Deus dos vivos, dos humanos, dos iguais, do homem e da mulher que se unem e formam uma só carne, sem predomínio de um sobre o outro. E tanto o homem como a mulher são chamados a colaborar com a obra criadora e libertadora de Deus, cuidando da criação e das gerações humanas, deixando em segundo plano as questões da propriedade e da herança.

No projeto de Deus não há espaço para o patriarcalismo e para o patrimonialismo. Aquilo que sempre foi não será, precisa ser mudado, transformado. Quem se propõe a seguir Jesus não pode permanecer refém de preocupações unicamente morais ou espirituais, mas deve, como ele, engajar-se em todas as legítimas causas proféticas emancipadoras. Não há como conjugar seguimento de Jesus e defesa da supremacia de quem quer que seja.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, diante de Jesus e em meio aos saduceus e seus indisfarçáveis interesses

Você consegue perceber hoje, por detrás dos discursos que defendem a família tradicional e a “pureza” da fé, interesses ideológicos e projetos de violência?

Estaríamos nós sendo tentados a uma identificação cômoda do Evangelho com o patriarcalismo e com o capitalismo?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Deus ou César?

Jesus rejeita a submissão dos dominadores

1099 | Tempo Comum | 9ª Semana | Terça-feira | Marcos 12,13-17

Chegando a Jerusalém, depois de uma longa e exigente viagem, que foi também um percurso formativo dos discípulos, Jesus vai ao suntuoso templo e toma uma atitude claramente provocativa. Para ele, o sistema do templo deve ser mudado, por mais piedoso que pareça, e o mundo podem ser refeitos, por mais que as elites digam que é o melhor dos mundos possíveis e que a fé nada tem a ver com a política e a organização social. Então as autoridades decidem matar Jesus.

Uma das estratégias para fazer isso é revelada no episódio de hoje. A classe dirigente do templo manda um grupo de fariseus e de capachos de Herodes para aprontar a Jesus uma armadilha. Começam elogiando (ou ironizando?) Jesus, dizendo que ele fala sem medir as consequências. E apresentam-lhe duas questões: o pagamento do imposto ao imperador romano é legal ou ilegal? Eles (e Jesus) devem ou não pagar?

Pagar impostos equivale a reconhecer a legitimidade do invasor, prestar-lhe lealdade. Essa era a postura defendida pelos herodianos. Jesus percebe a hipocrisia subjacente às perguntas, rejeita à tentativa de “fabricar provas” contra si mesmo, e responde dizendo que esse não é um problema seu, mas um problema deles, que aceitam passivamente o invasor. Eles perguntam se “devemos” (inclui Jesus) pagar o imposto, e Jesus responde “dai” (vós!).

Jesus não carrega moedas, e pede que eles as apresentem e digam qual é a figura e a inscrição que contém. A figura é do imperador romano, e a inscrição afirma que ele é o “Filho Augusto de Deus”. Um judeu fiel jamais poderia admitir isso! E o próprio soldado romano, no final do Evangelho, dirá, confirmando a inscrição colocada na cruz (Rei dos Judeus), afirmando: “Realmente este homem era o Filho de Deus”. Jesus, e não o imperador, é o “Filho Augusto de Deus”.

Mandando devolver ao imperador o que é dele (as moedas) e a Deus o que a ele pertence (o povo e o culto), Jesus não estabelece uma equivalência entre os dois. Também não afirma a separação entre fé e política, entre Igreja e o mundo. No mundo, os cristãos devem ser sal, luz e fermento! O que Jesus rejeita é a submissão aos invasores. Não há lugar nem para a acomodação, nem para a deserção.

 

Sugestões para a meditação

Perceba como, ao longo de sua vida e neste caso, Jesus não reconhece nenhuma submissão ou lealdade ao imperador e dominador romano

Observe atentamente, e veja como Jesus também não opõe política e fé, nem separa a Igreja do Mundo

Você concorda que os donos do poder, seja ele “Augusto” ou “Capitão”, não têm direitos sobre a vida do povo, não são donos das pessoas?

Como evitar interpretações que manipulam este texto, ensinando que Jesus separa fé e política e reconhece o poder dos dominadores? 

domingo, 31 de maio de 2026

Proprietários ou cuidadores?

Nada nos pertence, somos arrendatários!

1098 | Tempo Comum | 9ª Semana | Segunda-feira | Marcos 12,1-12

Este texto está situado no contexto da presença tensa e provocativa de Jesus em Jerusalém, para onde peregrinou lúcida e decididamente. Ele havia sido recebido com júbilo na periferia da capital, entrado no templo e expulsado os comerciantes que exploravam os peregrinos. A classe dirigente pedira explicações, mas era apenas um ardil para ganhar tempo, pois haviam decidido acabar com Jesus (cf. Mc 11,18).

Então, Jesus retoma o debate com os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos – os grupos que detinham o controle religioso, ideológico, político e econômico a partir do templo – recorrendo a algumas parábolas. Longe de ser apenas uma simplificação da linguagem e uma comunicação próxima à experiência do povo simples, as parábolas são uma espécie de armadilha para pegar o interlocutor desprevenido, “no contrapé”, como dizemos hoje.

A imagem da vinha é muito comum nos escritos do antigo testamento, especialmente nos profetas. O povo de Israel é comparado a uma vinha plantada com carinho e atenção, cercada e protegida pela Lei. Alguns profetas denunciam a vinha, que não produzi frutos bons (cf. Is 5,1-7); outros denunciam os agricultores que deveriam tomar conta dela (cf. Is 5,8-24). Por isso, anunciam que Deus pode tanto destruir a vinha como tomá-la daqueles a quem confiou o cultivo e o cuidado.

Na parábola, fica evidenciada a crescente violência com que são repelidos os enviados do dono da vinha. Eles não só administram mal a vinha que não lhes pertence, como conspiram para se apossarem dela. Por isso compreende-se a violência reativa do dono da vinha: ele elimina os vinhateiros e entrega sua vinha a outros. Os interlocutores de Jesus não demoram a compreender que Jesus se refere a eles. A alegoria política e o discurso subversivo de Jesus provocam na classe dirigente a terceira decisão de prendê-lo.

Deixando de lado a linguagem das parábolas, Jesus cita o Salmo 118 (117), e o aplica a si mesmo (e não a Davi, como era usual): “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Ele é o filho que os vinhateiros querem matar para assumir o domínio absoluto sobre o povo. Não esqueçamos que esse é um dos textos mais citados no novo testamento, uma espécie de “chave de leitura” tanto para o destino de Jesus quanto para o desfecho da vida dos seus seguidores.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo de Jerusalém, próximo a Jesus e à elite dirigente, e observe a liberdade e a coragem com que Jesus a enfrente e desmascara

Se a parábola é de fato uma alegoria política, quais as luzes que ela oferece para uma apreciação das classes dirigentes do nosso país?

Será que as autoridades da Igreja estão realmente imunes à tentação de se apossar da vinha que não lhes pertence?

sábado, 30 de maio de 2026

Trindade: a veste que cobre a nossa nudez

Um Deus enamorado pela beleza da sua criatura

Na tradição judaica e cristã, o Nome de Deus é impronunciável, o Rosto de Deus jamais será plenamente visível e sua Ação será sempre nova e inapreensível. Entretanto, em Jesus de Nazaré Deus nos revelou algo absolutamente essencial sobre si mesmo: Ele é terna proximidade de pai e mãe; ele é amor, misericórdia e compaixão incondicionais.

A partir daquilo que contemplamos em Jesus, proclamemos nossa fé em um Deus que é Pai e Criador, Filho e Salvador, Espírito Santificador. Deus é perfeita comunhão, e não um sujeito solitário e absoluto. Nele temos nossa origem, nele caminhamos enquanto vivemos, nele temos nosso destino e nosso porto. Ele é unidade trina e trindade una.

Falar de Deus como Trindade Santa não é uma charada a ser decifrada, ou uma simples questão de números, de Deus ser um ou três. Um Deus que é Amor Vivo e vivificante não ‘cabe’ num triângulo com três ângulos e três linhas absolutamente iguais, igualmente frias e abstratas. Moisés entendeu bem, prostrou-se por terra e gritou: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico de bondade e fiel!” (Êxodo 34,7)

Cremos numa divindade que é o “Deus do amor e da paz”, que habita nas pessoas e comunidades que vivem a concórdia e a paz, e não nas alturas inacessíveis (cf. 1 Coríntios 13,11-13).  “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (João 3,16). “Deus é amor” resume o apóstolo João (1 João 4,8.16).

A solenidade da Santíssima Trindade é um convite a mergulhar e deixar-se envolver e dinamizar por este insondável mistério de amor, a participar no coral das criaturas que proclamam o amor belo e bom de quem as fez.  Santa Catarina de Sena (Século XIV), compreendeu isso com sua perspicácia feminina, e o expressou numa belíssima oração.

Ó eterna Trindade, tu és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Provei e vi em tua luz e com a luz da inteligência o teu insondável abismo e a beleza de tua criatura. Vendo-me em ti, vi que sou imagem tua, e compreendi que estás enamorado pela tua criatura.

Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da criatura humana. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Tu és a veste que cobre nossa nudez, e alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce, sem amargura alguma, ó Trindade eterna!