segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

1 vale mais que 99?

Deus não cansa de sair e v ir ao nosso encontro

922 | 09 de dezembro de 2025 | Mateus 18,12-14

Já escrevi isso várias vezes, mas não custa lembrar de novo: o tempo litúrgico e a perspectiva espiritual do Advento nos oferecem um contexto especial que deve ser levado em conta na escuta e na meditação dos textos do Evangelho. Não é a mesma coisa ler a parábola da ovelha perdida no tempo comum, na quaresma ou no Advento. E hoje é essa parábola que ressoa aos nossos ouvidos.

Os três versículos de hoje estão no capítulo 18 do evangelho segundo Mateus. O contexto temático é uma descrição sumária das novas relações e novas práticas que sustentam a comunidade cristã, semente e antecipação parcial, mas real e profética, do Reino de Deus. Pouco antes, Jesus sublinhara que é absolutamente importante não escandalizar nem desprezar os sujeitos pequenos e vulneráveis. Mesmo sendo inevitável, ai de quem provoca escândalo.

No contexto do império romano e do sistema judaico, os discípulos de Jesus de Nazaré são equiparados às categorias sociais desprezadas e vulneráveis, como as crianças, as mulheres, os migrantes, os doentes (os “pequeninos”). Eles são parte do povo, e, aos olhos de Deus, são preciosos, têm valor, são os primeiros no pensamento e nas prioridades de Deus. Que ninguém atrapalhe o caminho deles, colocando-lhes pedras de tropeço.

Jesus ordena que esta seja a atitude das lideranças cristãs em relação aos demais membros das comunidades. E ilustra isso com uma parábola, com a qual chama seus interlocutores a participar da reflexão. Na tradição judaica, o pastor lembra as lideranças (políticas ou religiosas), e o rebanho/ovelha lembra o povo. A ovelha perdida representa o discípulo que não conseguiu perseverar no caminho do Reino de Deus por causa dos outros, ou a pessoa que corre risco de vida por estar à parte, sem amparo de ninguém.

Ressaltando o desmedido cuidado “pastoral” do pastor, que deixa as 99 ovelhas seguras e protegidas em segundo plano, sai ansioso em busca de uma única que se perdeu e corre risco, fala sobre como Deus Pai trata seus filhos e filhas: ele não é como os líderes religiosos e políticos, e é mais cuidadoso que os pastores que o povo conhece. Deus se alegra mais com um do que com 99. Jesus espera que, em nossa relação de líderes com os demais membros da Igreja, façamos como ele. Não tenhamos medo de ser uma Igreja em saída...

 

Sugestões para a meditação

§  O evangelho de hoje nos orienta para uma atitude madura e adequada em relação aos irmãos e irmãs mais frágeis e falíveis

§  Em que medida e em que circunstâncias, por nossas atitudes, estamos sendo motivo de tropeço aos nossos irmãos mais fracos?

§  O que fazemos, como lideranças eclesiais, quando um irmão ou irmã tropeça, cai no erro e se afasta, por vergonha ou por resistência?

§  Nossa comunidade se sente realmente comprometida com o dinamismo e saída ao encontro de quem está em situação de risco?

§  Experimentamos alegria quando pessoas e grupos vulneráveis são assistidos e promovidos, e se integram na comunidade?

domingo, 7 de dezembro de 2025

Cheia de graça

Exultemos de Alegria, pois o Senhor está conosco!

921 | 08 de dezembro de 2025 | Lucas 1,26-38

Faltando 16 dias para o Natal do Senhor, celebramos a solenidade da imaculada concepção de Maria. E o texto do evangelho segundo Lucas é o escolhido para iluminar esta solenidade mariana. Poderíamos chamar Maria de Nazaré hoje nos é apresentada como cheia de graça, que ela a recebe do Pai e reparte conosco.

Nesta cena, o papel central é reservado ao Mensageiro de Deus, e o clima é de intenso júbilo, assim como o são inteiramente os capítulos 1 e 2 do evangelho segundo Lucas. O Anjo saúda Maria com uma expressão que significa “Esteja bem! Tudo de bom!” E diz que o “charme” dela encantou o próprio Deus. É claro que essa é uma boa notícia, mas isso terá consequências, pois Maria deverá mudar seus planos e participar da dor e da glória do seu filho.

É bastante evidente que, ao dizer que Maria é “cheia de graça”, o anjo Gabriel não está se referindo apenas à eventual formosura física de Maria de Nazaré, nem à sua virgindade. Ele fala da sua humanidade, original e sem pecado, como a criação sonhada e saída perfeita das mãos de Deus. Ela é a imagem da humanidade como Deus a imaginou, a pessoa humana na qual brilha a imagem de Deus. Mas a graça que a todos encanta ela a recebe de Deus.

Acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é uma mulher passiva, sem personalidade, “recatada e do lar”. Antes, mostra-se atenta e reflexiva. Muito longe de se calar e se retirar, ela pede explicações ao próprio Anjo, quer compreender, interroga. E descobrirá lentamente a bela ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade e honra aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo (uma imagem do Espírito de Deus que dirige e fortalece o povo hebreu no seu caminho), e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá – o fruto “bendito do seu ventre” – abrirá o caminho de um novo êxodo.

E o próprio Mensageiro Divino antecipa traços do filho de Maria: ele será “grande”, será chamado “filho do altíssimo”, “santo”, “filho de Deus”, e herdará o espírito do pastor Davi. Nesses títulos e no nome que lhe será dado, está sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará primariamente juiz ou legislador, mas libertador dos oprimidos.

 

Sugestões para a meditação

§  Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado a Maria, razão de ser da nossa espera e da nossa alegria

§  Tome como dirigidas a você as palavras do Mensageiro de Deus: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

§  Acolha estas palavras como horizonte da sua vocação de ser íntegro e irrepreensível e da missão na Igreja e no mundo

§  Procure inserir seu projeto de vida no projeto que Deus tem para a humanidade e para você

sábado, 6 de dezembro de 2025

O machado, o fogo e as sandálias

Acolhei-vos como Jesus Cristo vos acolheu!

920 | 07 de dezembro de 2025 | Mateus 3,1-12

João Batista retoma o sonho de fraternidade de Isaías e diz que a realização dessa utopia não está longe. “O Reino dos céus está próximo!” Na verdade, o reinado de Deus já está em ação. É por isso que precisamos converter-nos. A conversão parte da boa notícia de que Deus continua dando seu aval aos grandes anseios da humanidade. No Advento, a conversão se expressa na alegre descoberta de que algo estupendo está acontecendo e pede a nossa colaboração!

Por isso, a preparação para o Natal vai muito além de uma bela decoração das casas, ruas e templos. A esperança que nos anima não se baseia nos privilégios de classe ou raça, nem se reduz a algumas preces a mais ou a uma confissão rápida e superficial. Às elites religiosas, desejosas de manter a aparência de piedade e de correção sem mudar as práticas opressoras, João Batista grita: “Produzi fruto que mostre vossa conversão. O machado está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não der fruto bom será cortada e jogada no fogo”.

Preparar os caminhos do Senhor em tempos de direitos humanos e sociais ameaçados significa afirmar o direito de toda pessoa à vida e à segurança, à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; proclamar que nenhuma pessoa pode ser mantida em escravidão, submetida à tortura ou tratada ou castigada de forma cruel; garantir que toda pessoa possa participar da vida cultural da comunidade, fruir as artes e participar do processo científico e de seus benefícios; assegurar aos trabalhadores uma remuneração justa.

Ancorado na própria experiência, Paulo a Palavra de Deus foi escrita para que sejamos fortalecidos e mantenhamo-nos firmes na esperança, considerando que de Deus nos vem a concórdia e a harmonia. Permanecer firme na esperança tem pouco a ver com a crença numa utopia intimista ou escapista. Nas palavras ousadas de Jesus, Deus reina quando os últimos se tornam os primeiros e os primeiros passam para o fim da fila. A firmeza da esperança que nos mantém constantes é sustentada pela fé em Jesus Cristo crucificado e no Reino que ele anunciou, celebrou e realizou.

 

Sugestões para a meditação

§  Qual é a palavra que ecoa hoje nos desertos, fronteiras e periferias existenciais e sociais?

§  Como podemos demonstrar hoje com atitudes e gestos claros nossa conversão ao Reino de Deus?

§  Quais os caminhos que o mundo dos negócios prepara e escancara para que tenhamos um natal e uma vida feliz?

§  A quem o profeta João Batista recriminaria hoje chamando-os de falsos e de cobras venenosas?

§  Quais são os males que precisam ser aparados pelas raízes para que todos tenham vida em abundância?


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Jesus, o peregrino

Recebemos tudo de graça para sermos generosos

919 | 06 de dezembro de 2025 | Mateus 9,35-10,8

Jesus está em plena peregrinação ao santuário das dores e esperanças humanas, anunciando o Reino de Deus, ensinando como acolhê-lo e curando os enfermos para sinalizar que o reino chegou de verdade. Ele é um peregrino que ativa a esperança. Através do que faz e das relações que estabelece, ele é sinal da “visita de Deus” que estamos preparando no Advento e celebraremos no Natal. Não é uma visita passageira, pois ele veio para ficar!

Jesus se deixa tocar pelo sofrimento dos pobres e marginalizados, mas não fica no simples sentimento. Diante de um povo abandonado à própria sorte pelas autoridades políticas e religiosas, em meio a um povo cansado e abatido, espoliado e abandonado, Jesus é tomado de profunda compaixão e toma iniciativas concretas para devolver a plena cidadania às pessoas. A compaixão, essa capacidade de se importar profundamente com a dor dos outros, é o segredo dinâmico da sua missão.

Mas Jesus percebe claramente que esta missão é grande e ultrapassa suas forças e possibilidades. Ele não dará conta de fazer tudo sozinho, e precisa contar com muito mais gente nesse ministério da compaixão, que vence a indiferença e reconstrói a vida. Diante da exiguidade de recursos e da pequenez da comunidade dedicada a esta missão, Jesus não desiste nem se desespera: antes, ele nos estimula e ensina a pedir a Deus Pai com insistência mais operários. E, ao mesmo tempo, a buscar e preparar gente que colabore generosamente nela.

Mas pedir ao Pai que suscite e sustente pessoas generosas que se dediquem à imensa e urgente tarefa de tornar esse mundo melhor, e de anunciar esta possibilidade, não é algo a ser feito sem empenho pessoal. Antes de tudo, ele mesmo nos ensina a compaixão. E, a partir disso, nos chama e nos envia como discípulos missionários para fazer exatamente o que ele veio fazer: anunciar, ensinar, libertar. E tudo de graça, sem exigências nem imposições, como de graça é o que somos e o que dele recebemos.

É desde uma humilde casa de família em Nazaré e do estábulo de Belém que Jesus nos envia com uma só prioridade: as ovelhas perdidas, as pessoas vulneráveis, os povos ameaçados. E não apenas para rezar e abençoar, mas para curar todo tipo de doenças e resgatar a cidadania plena dos seus amados e preferidos. E sem omitir o anúncio jubiloso: “O reino de Deus está próximo! Deus está conosco e armou sua tenda entre nós!”

 

Sugestões para a meditação

§  Também hoje, o trabalho de construir uma humanidade única e fraterna é imenso e precisa de muita gente generosa

§  Sozinhos, nós, nossas comunidades e nossas Igrejas não dão conta e podem ceder ao cansaço e ao desânimo

§  Quem compartilha a visceral compaixão de Jesus sabe reconhecer e congregar gente de fora das nossas igrejas nesse caminho

§  Muitos são os chamados e enviados a trabalhar com generosidade e gratuidade em favor das “ovelhas perdidas”

Abrir caminhos

RECUPERAR OS CAMINHOS PARA DEUS

É muito fácil ficar na vida «sem caminhos» para Deus. Não é preciso ser ateu. Não é necessário rejeitar Deus conscientemente. Basta seguir a tendência geral dos nossos dias e instalar-se na indiferença religiosa. Aos poucos, Deus desaparece do horizonte. Interessa cada vez menos. Será possível recuperar hoje caminhos para Deus?

Talvez o primeiro passo seja recuperar a humanidade da religião. Abandonar caminhos ambíguos que conduzem a um Deus interesseiro e dominador, zeloso apenas da sua glória e poder, para nos abrirmos a um Deus que procura e deseja, desde agora e para sempre, o melhor para nós. Deus não é o Ser Supremo que oprime e humilha, mas o Amor Santo que atrai e dá vida. As pessoas de hoje voltarão a Deus não empurradas pelo medo, mas atraídas pelo seu amor.

É necessário, ao mesmo tempo, alargar o horizonte da nossa vida. Estamos enchendo a nossa existência de coisas, e estamos ficando vazios por dentro. Vivemos informados de tudo, mas já não sabemos para onde orientar a nossa vida. Achamo-nos as gerações mais inteligentes e progressistas da história, mas não sabemos entrar no nosso coração para adorar ou agradecer. Aproximamo-nos de Deus quando começamos a procurar um espaço novo para existir.

É importante, além disso, procurar um fundamento sólido para a vida. Em que podemos apoiar-nos em meio a tanta incerteza e desconcerto? A vida é como uma casa: é preciso cuidar da fachada e do telhado, mas o importante é construir sobre alicerces seguros. No fim, sempre precisamos de colocar a nossa confiança última em algo ou alguém. Não será que precisamos de Deus?

Para recuperar caminhos para ele, precisamos aprender a calar. Ao mais íntimo da existência chega-se não quando vivemos agitados e cheios de medo, mas quando fazemos silêncio. Se a pessoa se recolhe e permanece calada diante de Deus, mais cedo ou mais tarde o seu coração começa a abrir-se.

Pode-se viver fechado em si mesmo, sem caminhos para nada novo e criador. Mas também se pode procurar novos caminhos para Deus. É isso que nos convida a fazer o Batista.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Um novo olhar

O seguimento de Jesus nos dá um novo olhar

918 | 05 de dezembro de 2025 | Mateus 9,27-31

Na caminhada do Advento, que inaugura um novo tempo espiritual, a alegre expectativa pelo que está sendo gestado e logo nascerá é a luz que ilumina os textos bíblicos propostos para cada dia. Precisamos ajustar o nosso olhar para que sejamos capazes de reconhecer os sinais da chegada do Reino de Deus e da “visita” de Deus em trajes de pobreza, de simplicidade, de proximidade, e nos abre ao sonho, à esperança, à generosidade ativa.

O texto de hoje está situado numa etapa de plena e intensa atividade missionária de Jesus, conjugada com uma esmerada formação para os discípulos. Neste movimento guiado pela compaixão, Jesus multiplica fecundos sinais da chegada do reino de Deus. Não são demonstrações de poder, mas ações concretas que vêm em socorro aos pobres, doentes e desvalidos. Entre estes estão os cegos, socialmente vulneráveis e objetos de chacota de muitas “pessoas de bem”. Mas Jesus abre a eles as portas da sua casa e do Reino de Deus.

Não sem dificuldades, os cegos seguem Jesus em seu movimento missionário. Esta atitude de pessoas marginalizadas, como é o caso deles, expressa a dinâmica do discipulado cristão: mesmo sem “ver” Jesus, eles o seguem, movidos pelo desejo; querem alcançar a visão, para saber o caminho e ver as pessoas e acontecimentos como Deus os vê. Jesus valoriza este desejo profundo como sinal de uma fé pura e profunda. Essa fé tem força, e rompe com a inércia e com o fatalismo e põe a caminho.

Os cegos invocam Jesus como “filho de Davi”, como o fazem todas as pessoas e categorias cansadas e abatidas, que anseiam por mudanças radicais na ordem social. Eles pedem “piedade” (misericórdia), que não é um mero sentimento, mas atitude e ação capaz de mudar de modo efetivo e palpável a difícil condição que vivem. Assim, mesmo cegos, reconhecem Jesus como o Messias ou Enviado de Deus para instaurar uma nova ordem social, favorável aos pobres.

O pedido dos cegos é atendido por Jesus. Como todas as pessoas que se encontram de fato com Jesus, os cegos curados não se calam, e se tornam discípulos e testemunhas. Quem encontra Jesus e prova sua compaixão não pode calar-se ou cruzar os braços. Caminhando para o Natal, como José e Maria e como os pastores, movidos pelo sincero desejo de ver o nascimento de “um outro mundo possível”, deixemos que o Deus Menino nos toque, abra nossos olhos e guie nossos passos.

 

Sugestões para a meditação

§  O evangelho de hoje nos orienta para uma atitude madura e adequada na preparação do Natal: o desejo de ver bem

§  Acompanhando Maria e José, não basta olhar para Maria ou para Jesus Menino; precisamos olhar com ele, com o olhar dele

§  Nossa fé em Jesus ajusta nosso olhar ao dele, chama-nos ao testemunho e ao engajamento humanitário

§  Que nossos olhos se abram aos múltiplos sinais de solidariedade que sobrevivem e se multiplicam em tempos complexos e sombrios

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Areia ou rocha?

Sábio é quem ouve e pratica o Evangelho

917 | 04 de dezembro de 2025 | Mateus 7,21-27

A espiritualidade do advento é a luz que ilumina com cores especiais os textos bíblicos deste tempo litúrgico. Ela ajusta nosso olhar para podermos reconhecer os sinais da “visita” de Deus em trajes humanos, trajes de pobreza, de simplicidade, de proximidade. E nos estimula e sensibiliza ao sonho, à esperança, à generosidade.

Hoje, a Palavra de Deus nos adverte sobre uma forma deficiente e imatura de ouvir e acolher o Evangelho de Jesus: reduzi-lo a um motivo de exultação, suspiros e gemidos, cânticos e linguagens estranhas. Jesus provoca e encoraja seus discípulos missionários a levar o Evangelho para a vida, como dinamizador de ações, iniciativas, decisões e relações concretas, em todos os âmbitos.

Acolher Jesus significa fazer-se seu discípulo, companheiro de caminhada; assumir seus sentimentos e pensamentos; tornar-se membro da sua família; participar da sua missão. A ação verdadeiramente evangélica nasce da escuta atenta da Palavra, que nos fala pela Bíblia e pela Vida. Ler, escutar ou meditar o Evangelho e não agir de acordo com ele equivale a desobedecer.

Infelizmente, tanto no tempo de Jesus como hoje, há quem queira ser cristão sem uma ação correspondente. Tem o nome de Jesus sempre nos lábios, mas usa-o para promoção pessoal ou dos seus negócios religiosos. Ou até para condenar e excluir pessoas que não coincidem com sua ideologia. E há instituições que embelezam seus espaços e ambientes com símbolos e canções natalinas, mas não querem saber do Evangelho de Jesus.

A autenticidade do discípulo se faz patente e evidente numa vida centrada em Jesus e no Reino de Deus. No discipulado cristão não há espaço para as fachadas (humanas e comerciais), tão enfeitadas quanto falsas. Não é aceitável usar o nome de Jesus como fórmula mágica e como afirmação de poder. Isso é insensatez ou falta de juízo, como diz Jesus. Ou é como construir um edifício sobre terreno movediço: não terá estabilidade, nem vida longa.

Chega a causar revolta ver a fé sendo usada por alguns setores para não assumir a causa ambiental e não enfrentar as urgências climáticas. Há quem prefira culpar Deus ao invés de assumir as responsabilidades como pessoa e como sociedade. Evitemos essa hipocrisia. Tenhamos isso presente em nossa caminhada para o Natal! A fé em Jesus nos dá e nos pede muito mais.

 

Sugestões para a meditação

§  O evangelho de hoje nos orienta para uma atitude madura e adequada na preparação do Natal

§  Esta festa não pode se resumir em comida e bebida abundantes ou em presentes, em músicas e cartões, em luzes e pinheiros

§  Celebraremos o Natal como família e discípulos de Jesus vivendo a compaixão e a fraternidade em todas as nossas relações

§  O verdadeiro presépio – lugar da manifestação de Jesus – deve ser edificado com fundamento: nossas atitudes de amor solidário

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Pães e peixes

A compaixão move montanhas resgata a vida

916 | 03 de dezembro de 2025 | Mateus 15,29-37

A espiritualidade do advento é a lente que devemos usar para ler e meditar os textos bíblicos deste tempo litúrgico. Ela ajusta nosso ouvido e nosso olhar para reconhecermos a “visita” de Deus em trajes humanos de pobreza, de simplicidade, de proximidade. E aguça nossa sensibilidade em relação ao sonho, à esperança, à generosidade. Em meio a mil solicitações do consumo e do comércio, precisamos manter o foco naquilo que é essencial.

No trecho que meditamos hoje, o evangelista nos apresenta Jesus em missão, antecipando a festa dos pequenos, a festa que celebra a preciosidade da vida dos pobres. Na montanha, lugar de reunião e de encontro, Jesus cura as pessoas machucadas pela sociedade e pela vida, e alimenta os famintos. Ali se concretiza a “filantropia” de Deus, sinalizada e antecipada no Natal de Jesus. Afinal, as cenas da gruta e do calvário se parecem, e ambas são atravessadas pela partilha.

Nesta cena, o evangelista nos mostra que a festa da vida, sonhada e esperada, não se realiza no templo, como apregoavam os sacerdotes, mas no encontro com Jesus. E os protagonistas não são as pessoas piedosas ou poderosas, mas aquelas que são jogadas nas margens da convivência social e do espaço religioso. Mas o objetivo de Jesus é ajustar nosso olhar para que sejamos capazes de ver as necessidades dos outros e ser compassivos.

De fato, o que move Jesus em seu falar e em seu agir é a compaixão. Esta não é um sentimento ocasional, mas uma força que coloca a dor e a vida dos outros acima e antes de tudo. É esta compaixão vivida por Jesus em todas as relações que atrai a ele as pessoas pobres e “estropiadas”. É esta compaixão que ele quer despertar em todos os seus discípulos e enviados, pois é ela que nos ajuda a encontrar soluções para os problemas. A erradicação da fome no mundo não depende de tecnologia, mas de uma decisão política movida pela compaixão.

O pão que alimenta a multidão é resultado da superação do egoísmo. Quem o possui, mesmo em pouca quantidade, cede a prioridade aos necessitados. O pouco com Deus é muito, e o muito sem Deus é nada. É esse o sentido mais profundo do Natal: Deus vê a angústia dos sofredores, assume suas dores e suscita soluções para suas dificuldades. Em princípio ele não chega trazendo nada, mas oferecendo a si mesmo, assumindo nossa condição e nossas fragilidades. Que a montanha do egoísmo seja rebaixada.

 

Sugestões para a meditação

§  Faça um esforço para recriar a cena, colocando-se entre os personagens, contracenando e dialogando com eles

§  Como repercute em você a declaração de Jesus “Tenho compaixão desse povo que não tem nada para comer”?

§  Participe das ações de Jesus e da alegria incontida e do louvor a Deus que brota da boca das pessoas curadas e alimentadas

§  O que isso tem a ver conosco, com a preparação e a celebração do Natal que se aproxima?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Os pequenos e os grandes

Só os humildes reconhecem um Deus despojado

915 | 02 de dezembro de 2025 | Lucas 10,21-24

A espiritualidade do advento é a lente que usamos para ler e entender os textos bíblicos sugeridos à nossa meditação e oração neste período tão intenso da vida litúrgica. E estes óculos dirigem nosso olhar para os pequenos sinais, para os grandes sonhos, para a preparação e a acolhida de algo novo e determinante para nossa vida e para a história, que está acontecendo sutilmente no mundo.

O pequeno trecho do evangelho de Lucas que hoje nos ilumina e alimenta é o coração da sua obra: a reação jubilosa e calorosa de Jesus à breve ação missionária dos setenta e dois discípulos e discípulas. Neles, Jesus vê a abertura e a disponibilidade do povo à novidade libertadora de Deus. Com isso, Jesus nos chama à simplicidade, à abertura e ao discernimento que nos fazem capazes de reconhecer e acolher o “Deus Pequeno” que nos vem visitar, morar entre nós e ser nosso companheiro e libertador.

Jesus se defrontou com a arrogância e a autossuficiência dos líderes religiosos e das elites culturais, sociais e econômicas do seu tempo. Elas tendiam a manipular o nome e a imagem de Deus em benefício deles mesmos e contra as pessoas simples. Por isso, Jesus diz que o Deus verdadeiro, o seu Pai e nosso pai, decidiu conscientemente não se revelar aos membros dessas elites. Mais ainda, Jesus que Deus esconde a eles seu rosto.

Jesus conhecia também a profundidade e a sinceridade da fé das pessoas simples e humildes. Elas não são eticamente superiores ou melhores que ninguém, mas estão em condições de reconhecer e acolher com alegria a revelação de Deus, porque essa revelação não é um saber, mas uma capacidade de amar e servir. Essa revelação não nos faz mais sabidos, mas nos torna mais dóceis e generosos. E se a docilidade e a generosidade vêm de Deus, não são mérito de ninguém e não conhecem limites.

Jesus exulta profundamente diante desse duplo movimento conscientemente desejado por Deus: revelar seu rosto e o mistério da sua vontade aos pequenos e humildes e escondê-los aos sábios e arrogantes. E associa seus discípulos a essa revelação, pois eles o seguem e nele acreditam. Jesus sabe tudo dos mistérios do Pai, e o Pai o ama e confia nele. E é no encontro vivo e missionário com Jesus, e não com a lei ou com o templo, que alcançamos a salvação, que chegamos a ser pessoas plenamente livres e realizadas. Sigamos de modo sereno e confiante no caminho dos pequenos e humildes.

 

Sugestões para a meditação

§  Leia atentamente esta cena e estas palavras de Jesus, relacionando-as com o conjunto do seu ensinamento

§  A espiritualidade do advento nos oferece uma perspectiva muito própria para a escuta e a compreensão do Evangelho

§  Este tempo nos convida à vigilância do porteiro, à escuta despojada, à atenção aos pequenos sinais

§  Quem conhece suas atitudes, dirá que você está entre os sábios e doutores ou entre os simples e humildes?