domingo, 6 de setembro de 2026

Um grito por soberania

Gritos por uma nação fraterna e soberana

O Papa Leão XIV iniciou sua primeira encíclica com uma afirmação programática, fruto de uma lúcida visão da história: “Cada geração recebe em herança a tarefa de fazer da história um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada.  Sobre cada época paira também o risco de construir um mundo desumano e mais injusto” (Magnifica Humanitas, § 1).

Isso significa que, tanto como cristãos como enquanto cidadãos, precisamos evitar duas posturas igualmente inconsequentes: viver recordando as conquistas do passado e venerando heróis nem sempre veneráveis; dispensar-nos da responsabilidade de projetar e construir um país e um mundo humano e justo, como se isso fosse algo impossível ou uma tarefa que pode ser delegada a alguns poucos cidadãos.

A celebração da Semana da Pátria é um programa legítimo e pedagogicamente oportuno, na medida em que ajuda a cimentar a unidade do povo brasileiro a partir de um dos seus eventos fundacionais. Mas torna-se perigosamente vazia e até nociva se nos induz a pensar a independência e a soberania do país como se fosse um fato já consolidado, e a isolar Dom Pedro, o filho do rei colonizador, da plêiade de interesses aos quais servia.

O que ressoou no longínquo 7 de setembro de 1822, já sabemos, não foi apenas o “heroico brado de um povo retumbante”, e o “sol da liberdade” e da soberania está hoje encoberto por nuvens tenebrosas que vêm do Norte e contam com a colaboração escancarada e inconfidente de outros Calabar e outros Silvério dos Reis. A independência, a democracia e a soberania nacional são conquistas sempre precárias e inacabadas.

Por isso, mesmo que não seja possível ver claramente o que está acontecendo no Planalto Central e nas instituições lá domiciliadas, é mais do que necessário juntar ao grito do Ipiranga a voz de um povo lucidamente indignado que proclama, como Sepé, um dos heróis da pátria: “Alto lá! Esta terra tem dono!” Se outrora sacudimos o domínio de Portugal e, depois, da Inglaterra, não podemos voltar a ser quintal de ninguém.

Longe de nós a cômoda e criminosa passividade diante da sanha dos prepotentes, sejam eles ianques ou tupiniquins. É verdade que as fronteiras nacionais não são alfândega para o Povo que nasce do lado esquerdo de Jesus Cristo. Mas, como cristãos, não podemos desviar, como fizeram o sacerdote e o levita da parábola (Lucas 10,25-37), diante de um povo que pode sofrer a rapina de poderes que se julgam divinos.

Outra vez!

O cuidado da vida não depende de agendas

1197 | Tempo Comum | Semana XXIII | Segunda | Lucas 6,6-11

Em plena semana da pátria, no dia em que recordamos a transição da nossa condição de colônia para nação independente, a cena do evangelho de hoje apresenta-nos Jesus desafiando as leis e instituições e colocando a pessoa e suas necessidades acima de tudo. Acima das prioridades desse ou daquele governo, acima do teto ou do arcabouço fiscal, acima dos sacramentos e das diversas normas e orientações morais e administrativas da Igreja está a pessoa humana concreta.

Jesus está na sinagoga, em dia de sábado: lugar sagrado, dia sagrado, espaço do império absoluto da lei e das tradições. Mas nada disso consegue reabilitar um homem anônimo impedido de agir, de fazer algo bom. A sinagoga, os fariseus e as tradições o ignoram, não podem ou não querem tomar conhecimento da sua marginalização, nem reabilitá-lo. O legalismo e o formalismo!

Embora necessitado de ajuda, o homem não pede nada. É Jesus que toma a iniciativa, chama aquele homem vulnerável para o centro da roda e interpela os líderes religiosos que o espreitam: “O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” Eles sabiam que a lei permitia agir em caso de necessidade, mas preferiam calar e permanecer indiferentes. Para Jesus, ser omisso e indiferente já significa fazer o mal!

A ação de Jesus, assim como sua pergunta, é claramente provocatória. Ele não espera qualquer resposta, mas um exame de consciência daqueles que o criticam e condenam. Curando o homem em dia de sábado, Jesus desmonta a sustentação ideológica dos escribas e fariseus, acusa-os de fazer o mal no dia sagrado e mostra a esterilidade das instituições que eles defendem. O que tem prioridade é o cuidado, a defesa e a promoção da vida, e não as tradições, o cuidado de si mesmo.

“A vida em primeiro lugar!”, e não a economia, o teto fiscal, o equilíbrio das contas, a louca vontade de um misterioso mercado, que é o nome usado para encobrir os especuladores. Ser discípulo de Jesus significa agir como ele, fazer a sua vontade, ser responsável pelo seu Reino, fazer o bem sempre, o máximo bem possível.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se nela, e observe atentamente o que dizem e o que fazem Jesus, os fariseus e o homem doente

Você é capaz de perceber como algumas instituições defendem mais as leis e seus interesses que a dignidade das pessoas?

Você percebe que, colocando a pessoa no centro, Jesus desvela a esterilidade do tradicionalismo, do legalismo e do patriotismo?

Em que medida você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades das pessoas?

sábado, 5 de setembro de 2026

Pedagogia da correção fraterna

A intolerância e a ofensa são coisas sérias!

1196 | Tempo Comum | Semana XXIII | Domingo | Mateus 18,15-20

Mateus dedica os capítulos 16 a 18 do seu evangelho para nos apresentar o empenho de Jesus na formação dos seus discípulos no modo de vida inspirado no Reino de Deus. Temos aqui as orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida liminar: alternativo, inovador, profético e crítico aos estilos então culturalmente habituais e politicamente predominantes.

Embora seja chamada a ser alternativa, a comunidade dos discípulos não é perfeita. As tensões e conflitos são inevitáveis. Às vezes, as lideranças são intolerantes em relação aos erros dos seus irmãos. Para evitar que os membros da comunidade fiquem à mercê do humor das autoridades, Jesus traça um caminho pedagógico. O objetivo é ajudá-los a tomar consciência dos erros e mudar de atitude.

O ponto de partida é a convicção de que a ofensa recíproca é algo sério, algo que precisa ser resolvido, e não ser posto “embaixo do tapete”. O primeiro passo é um diálogo pessoal e fraterno, para que o ofensor reconheça seu deslize. Se isso não resolve, volta-se a conversar com ele na presença de testemunhas. Se também isso resultar em fracasso, a questão é levada à comunidade dos discípulos.

Mas nem assim o êxito está garantido! Se as três tentativas resultarem em nada, a ruptura pode ser declarada publicamente. Mas a missão reconciliadora dos cristãos fiéis não termina com esta declaração. Colocando os ofensores no grupo dos publicanos e pecadores, Jesus está dizendo que eles são campo de missão, como ele mesmo o demonstrou. Longe de Jesus ratificar práticas de exclusão definitiva!

Jesus pede paciência e lucidez na relação com as pessoas que erram, ou seja, com todos os membros da comunidade. A comunidade cristã (e não apenas Pedro!) tem a faculdade de atar e desatar, ou seja: de discernir quem está dentro e quem se coloca fora dela. Mas é sempre o próprio Jesus que manifesta sua incondicional inesgotável misericórdia através da sua presença e ação na comunidade dos discípulos e discípulas que se deixam reconciliar.

 

Sugestões para a meditação

Retome esta lição de Jesus, passo a passo, frase por frase; se possível, leia também os versículos anteriores (v. 1-14)

Como você, sua família e sua comunidade enfrentam os conflitos e tensões de relacionamento e convivência?

Por que é sempre mais fácil queixar-se das pessoas que nos ofendem ou prejudicam a terceiros, evitando falar com elas?

Reflita sobre o que significa, na perspectiva de Jesus, tratar os ofensores como gentios ou cobradores de impostos?

Abrir-se

SAIR DO ISOLAMENTO

A solidão tornou-se uma das pragas mais graves da nossa sociedade. Os homens constroem pontes e autoestradas para se comunicarem com mais rapidez. Lançam satélites para transmitir todo tipo de ondas entre os continentes. Desenvolve-se a telefonia móvel e a comunicação pela Internet. Mas muitas pessoas estão cada vez mais sozinhas.

O contato humano arrefeceu em muitos âmbitos da nossa sociedade. As pessoas já não se sentem responsáveis pelos outros. Cada um vive encerrado no seu mundo. Não é fácil o dom da verdadeira amizade

Há quem tenha perdido a capacidade de chegar a um encontro caloroso, cordial e sincero. Já não são capazes de acolher e amar ninguém com sinceridade, e não se sentem compreendidos nem amados por ninguém. Relacionam-se todos os dias com muitas pessoas, mas na realidade não se encontram com ninguém. Vivem com o coração bloqueado, fechado a Deus e fechado para os outros.

Segundo o relato evangélico, para libertar o surdo da sua doença, Jesus pede a sua colaboração: «Abre-te!» Não é este o convite que devemos escutar também hoje para resgatar o nosso coração do isolamento?

Sem dúvida, as causas desta falta de comunicação são muito diversas, mas com frequência têm sua raiz no nosso pecado. Quando agimos de forma egoísta afastamo-nos dos outros, separamo-nos da vida e encerramos em nós mesmos. Querendo defender a nossa própria liberdade e independência, corremos o risco de viver cada vez mais sozinhos.

Sem dúvida é bom aprender novas técnicas de comunicação, mas devemos aprender, antes de mais nada, a nos abrirmos à amizade e ao amor verdadeiro. O egoísmo, a desconfiança e a falta de solidariedade são também hoje o que mais nos separa e isola uns dos outros.

Por isso, a conversão ao amor é um caminho indispensável para escapar à solidão. Quem se abre ao amor ao Pai e aos irmãos não está sozinho. Vive de forma solidaria.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alimento ou propriedade?

A vida e os direitos humanos em primeiro lugar

1194 | Tempo Comum | Semana XXII | Sábado | Lucas 6,1-5

Na cena imediatamente anterior que meditamos ontem, Jesus afirma que seus discípulos devem viver a alegre e boa novidade do Reino de Deus, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos” rigorosos, que levam a formar guetos de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais. Hoje, Jesus volta à questão: a pessoa e suas necessidades estão acima de toda lei, inclusive do culto.

É sábado e, desta vez, Jesus se deslocando com seus discípulos no campo. Sentindo fome, eles colhem e comem trigo de uma plantação que não é deles. Os fariseus observam que eles caminham num dia que não é permitido fazê-lo. E notam que eles não respeitam o “sagrado direito” da propriedade privada. Não se trata apenas de costumes religiosos, mas de leis econômicas que causam insegurança alimentar.

Segundo a mentalidade dos fariseus, os discípulos de Jesus cometem dois pecados: não respeitam as proibições da lei que impõe repouso no sábado; “invadem” uma propriedade privada. A segunda acusação não aparece claramente, mas é aludida no fato citado por Jesus para sua própria defesa: Davi e seus companheiros, estando com fome, se apossam e comem do pão reservado aos sacerdotes. A vida tem prioridade sobre tudo, inclusive sobre a “sagrada” lei da propriedade privada!

Jesus responde à acusação dos fariseus com duas críticas à postura deles: embora se apresentem como defensores da tradição e da lei de Deus, eles desconhecem o sentido mais profundo das escrituras (“acaso vós não lestes?”); eles resistem a reconhecer Jesus como o enviado autorizado e Filho de Deus, que é o legislador e, por isso, está acima das leis (“o Filho do Homem é Senhor também do sábado”).

Algumas leis e costumes, por mais importantes que pareçam aos nossos olhos, se são contrárias ao Evangelho, são como tecido velho irrecuperável ou como barril danificado. Neste momento da história do Brasil, com polarizações e mentiras que enganam e embrutecem, há quem insista que a lei do equilíbrio e o princípio do arcabouço fiscal são intocáveis. Se, por causa disso, o povo não tem acesso à cultura, morre de fome ou por falta de atendimento médico, isso pouco importa a eles.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se na caminhada de Jesus com seus discípulos, sob o olhar crítico dos fariseus

Procure entender com exatidão a crítica que as lideranças religiosas (fariseus) fazem aos discípulos e a Jesus

Como você se sente diante da afirmação de Jesus, de que ele é senhor das leis e instituições, e está acima delas?

Você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades e a dignidade das pessoas?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Mesa pronta e toalha limpa

Vinho e roupa nova para a festa da aliança

1193 | Tempo Comum | Semana XXII | Sexta | Lucas 5,33-39

Depois da pesca frutuosa e do chamado de Pedro e seus companheiros de trabalho, nas cenas que a sequência litúrgica trata noutras oportunidades, Jesus cura um leproso (v. 12-16) e um paralítico (v. 17-26), chama o publicano Mateus a segui-lo e vai à casa dele se confraternizar com outros cobradores de impostos e pecadores (v. 27-32). Isso provoca desconforto nos fariseus, que começam a questionar as práticas religiosas de Jesus e o comportamento dos seus discípulos.

Ao interpelar Jesus a respeito do comportamento dos discípulos, os fariseus querem atingir o próprio Jesus. O ponto de discordância é o jejum praticado pelos fariseus e também por João Batista e seus seguidores. Jesus e seus discípulos fazem pouco caso do jejum e priorizam a festa e a confraternização. Levi se converte ao Evangelho de Jesus e, ao invés de fazer jejum, organiza uma festa, para a qual convidou outros cobradores de impostos. É quase uma provocação às tradições dos judeus.

Na sua resposta, Jesus não despreza o jejum, mas justifica a alegria e a esperança que nascem da chegada do Reino de Deus. E faz isso recorrendo a duas sentenças que contrapõem uma realidade velha e uma novidade. A palavra “novo” aparece quatro vezes nestes versículos, e se refere ao Reino de Deus, à nova Aliança assinada por Jesus. Nesta aliança-casamento, Jesus é o noivo da humanidade, e o vinho e o vestido apontam para a festa e a alegria.

Quem entra na lógica do Reino de Deus assume um estilo de vida alternativo àquele vivido como fachada e de modo superficial: a purificação que agrada a Deus e faz bem às pessoas é interior, e não exterior. Para alguns judeus, mormente os mais piedosos, a abertura à novidade do Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus é difícil, e eles preferem remendos numa roupa velha ou o vinho velho.

Os discípulos de Jesus são convidados a perceber e viver essa novidade, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos”, rigorosos e excludentes, que levam a formar guetos fechados de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais, e tratam as outras com desprezo, chegando até a atitudes e palavras violentas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, começando pelo chamado de Levi e pela festa na casa dele (v. 27-32)

Perceba o escândalo e o desconcerto dos fariseus diante da troca da austeridade e do jejum pela confraternização à mesa

Deixe-se inspirar pelas imagens do Reino de Deus: o remendo novo em roupa velha, o vinho novo em pipas antigas e a festa da Aliança

Você percebe, em você e sua comunidade, sinais da tentação de usar o Evangelho para remendar práticas que nada tem a ver com eles?

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele sobe no nosso barco vazio

O Evangelho nos abre novas possibilidades

1192 | Tempo Comum | Semana XXII | Quinta | Lucas 5,1-11

São João Paulo II buscou no episódio do evangelho de hoje a inspiração com a qual provocou os cristãos na entrada do terceiro milênio: “Avancem para águas mais profundas!” Com isso, quis exorcizar o medo que alguns grupos e setores eclesiais espalhavam entre os cristãos e, ao mesmo tempo, convocar as comunidades a tornar sua fé e sua vida mais profundas e fecundas.

A aldeia de Nazaré havia rejeitado Jesus, e a cidade de Cafarnaum quis se apossar dele. Jesus sai para outros lugares, e o povo, cansado e abatido, procura Jesus, porque encontra nele acolhida, compaixão e uma Palavra de esperança. Para eles, Jesus é um mestre e um guia confiável, em quem depositavam o que restava de esperança. Cercado de gente, Jesus se afasta da praia para poder falar a todos.

Pedro acolhe Jesus em seu barco, cheio de frustrações depois de uma noite de trabalho infrutífero. Depois de ensinar ao povo a Boa Notícia do Reino de Deus de dentro do barco de Pedro, Jesus lhe dá ordens para que lance de novo as redes, deixando as águas superficiais e avançando para águas mais profundas. Mesmo na contracorrente das evidências, Pedro recomeça o trabalho, por causa da Palavra ou do mandato de Jesus. É a Palavra de Jesus que lhe abre novas possibilidades.

Com o resultado surpreendente e inesperado da pesca, inicia-se entre Pedro e Jesus um diálogo que antes parecia truncado. Pedro reage assustado, como acontece com alguém diante de uma manifestação divina. Reconhecendo-se pecador, passa de pescador sabido e autossuficiente a discípulo e aprendiz de Jesus. Pedro não entra sozinho neste processo, porque outros companheiros são chamados e o acompanham, movidos por uma experiência igualmente inesquecível.

O chamado e a missão não são acontecimentos individuais e interiores, mas acontecem no interior de um povo que se reúne para escutar a Palavra. Os discípulos de Jesus precisam superar a tentação da segurança e da rotina. Precisam ousar, inovar, ir mais fundo, superar a tentação da acomodação e da superficialidade. Precisam se tornar especialistas em capturar gente para a vida (‘pescar’). É a Palavra de Jesus, que garante a fecundidade da missão e a nossa realização como pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, com atenção à relação de Jesus com o povo, com Pedro e com os demais pescadores

Permita que Jesus entre no barco dos seus afazeres, quem sabe vazio de expectativas e cheio de decepções e falências

Escute o convite de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lança as redes para a pesca...” O que isto significa para você hoje?

Como está sua sede da Palavra de Deus? Ela é suficiente para levar você a começar de novo quando nada parece promissor?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Dar as mãos para elevar

Deus se inclina para levantar a humanidade

1191 | Tempo Comum | Semana XXII | Quarta | Lucas 4,38-44

Na cena que meditamos ontem, vimos que Jesus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Ao mesmo tempo, Jesus devolve a palavra e a autonomia às pessoas socialmente e psicologicamente anuladas. Hoje, Lucas nos mostra a continuação desse ministério da compaixão, um ministério que não reconhece os limites de lugar ou de destinatários. Jesus tem diante dos olhos a humanidade e o mundo todo, e desconhece nacionalismos e discriminações.

A cura da sogra de Pedro, que está acometida de forte febre, demonstra que Jesus não está preocupado com gestos espetaculares, mas com ações que possibilitam o resgate da vida das pessoas oprimidas e marginalizadas. Deus não se compraz nos espetáculos, mas na libertação e emancipação das vítimas! Jesus entra numa casa de pescadores e vai ao encontro de uma mulher. A missão de Jesus é superar o mal e suas raízes. Ele se recusa a ser um simples curador.

Na casa da sogra de Pedro ocorre a manifestação silenciosa de uma Palavra que cura. Inclinando-se sobre a sogra de Pedro, Jesus se inclina sobre a humanidade oprimida e ameaça as forças que a colocam de joelhos. Através desse gesto restaurador, as pessoas não reconhecidas em sua dignidade passam a contar, e se tornam servidoras da vida. É isso que acontece com a sogra de Pedro, e conosco: quem experimenta a bondade de Deus em Jesus torna-se discípulo missionário.

Jesus não é um burocrata ou doutor da lei fixado na sinagoga, mas um profeta e um mestre itinerante. Ele é movido pela convicção de que o Reino de Deus não é monopólio de meia dúzia de pessoas. Curando e anunciando o Evangelho de Deus dia e noite e onde quer que seja necessário e oportuno, no final do episódio Jesus se retira e vai ao encontro de outras pessoas noutros lugares. É para isso que se sente enviado. Essa é a vontade do Pai a respeito dele.

Essa atitude de Jesus nos convoca a ser uma comunidade eclesial sempre “em saída”, rumo às periferias, ao encontro das pessoas e suas necessidades. Não podemos ficar na simples e fácil proclamação de que Jesus é o filho de Deus, pois isso até os demônios fazem, e Jesus os cala. Precisamos estar com Jesus, aprender dele e participar da sua missão, carregando também suspeitas que se voltam contra ele.

 

Sugestões para a meditação

Retome o episódio, acompanhando a presença de Jesus na casa de Pedro, sua ação incansável em favor do povo e sua saída para outros lugares para lá colocar sinais do Reino de Deus

Permita que Jesus se incline sobre você, cure suas enfermidades e faça de você um servidor da vida dos outros

Onde e a quem Jesus está pedindo que você sirva hoje? Que males que se hospedam em você ele ameaça e elimina com sua Palavra?

Ganhar ou perder?

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

No próximo domingo, as comunidades católicas celebram o ministério das catequistas, a quem somos gratos. E o evangelho do dia (Mateus 16,21-27) lembra que, antes de serem “professoras de doutrina”, elas são aprendizes na escola de Jesus, pessoas seduzidas pela Boa Notícia do Reino de Deus, dispostas a seguir seus passos e a viver suas opções, sem cair na tentação de colocar-se à frente de Jesus, como ocorreu com Pedro.

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido correta, mas incompleta: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Por isso, assim que Pedro termina sua profissão de fé, Jesus o elogia, muda o tom e começa a falar do seu futuro próximo: ele subirá a Jerusalém, apesar dos riscos; lá sofrerá muito nas mãos das autoridades religiosas; será morto, e ressuscitará. Trata-se claramente da imagem e do caminho de um Deus despojado.

Com estas palavras, Jesus corrige os resquícios de um messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos. Ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. Mas Pedro, com uma ousadia sem precedentes, leva Jesus para um lado e o repreende. “Que isso nunca te aconteça!” Pedro não consegue admitir nem imaginar um Messias sem poder e crucificado, pobre e rejeitado, humano e servidor.

Reagindo e falando assim, Pedro faz-se porta-voz dos discípulos de todos os tempos, e demonstra pessoalmente a dificuldade de pensar as coisas ao modo de Deus e a tentação de pensar as coisas ao modo dos homens. Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. Este é o discernimento que desafiada permanentemente os discípulos e discípulas de Jesus.

A cruz não é simplesmente uma intercorrência inesperada ou uma imposição à qual Jesus não pode escapar, mas a um caminho que todos devemos percorrer se quisermos ser cristãos. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. E tomar a cruz significa assumir a condição das pessoas colocadas à margem, assim como daquelas que resistem e enfrentam os poderes que marginalizam e oprimem.

A expressão “renuncie a si mesmo” não agrada muito aos homens e mulheres de hoje. Mas é claro que não se trata de negar o que há de mais original e precioso em cada indivíduo, mas de libertar-se da ideologia de sucesso. Eis a escolha a ser feita: negar os interesses mesquinhos, os sonhos infantis de sucesso e onipotência, ou negar o Messias, a compaixão, a solidariedade. Eis a lição mais preciosa que se espera das catequistas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Que ensinamento é esse?

O ensinamento de Jesus suscita admiração

1190 | Tempo Comum | Semana XXII | Terça | Lucas 4,31-37

Depois da estreia aparentemente malsucedida em Nazaré, Jesus deixa sua terra natal e volta a Cafarnaum, onde já havia atuado e causara forte impressão. Como pregador itinerante, ele prioriza o ensino aos sábados, nas sinagogas, que são lugares de encontro do povo que vive nas aldeias e pequenas cidades. Na sinagoga ele crescera e aprendera, mas também testemunhara a hipocrisia dos líderes religiosos.

As sinagogas são o lugar da Palavra, um espaço controlado de modo quase absoluto pelos doutores da lei e pelos fariseus. E é ali, em dia de sábado, que Jesus realiza o primeiro sinal ou milagre narrado por Lucas. E é também ali, e por causa desse sinal, que Jesus começa a ser hostilizado pelos líderes religiosos, e onde ressoa pela primeira vez a pergunta: “Que palavra é essa? Quem é esse homem?”

O primeiro sinal miraculoso realizado por Jesus, que faz parte do seu ministério de emancipação e libertação das pessoas dominadas pelas forças que oprimem e escravizam, é a cura de uma pessoa dominada por um “espírito impuro”. Trata-se de uma pessoa despersonalizada, de alguém que perdeu sua identidade e é conduzida por poderes e forças misteriosas, exteriores a si mesma.

A cena narrada por Lucas deixa transparecer uma luta de mensagens ou uma disputa de espaços entre o Ungido pelo Espírito e os Doutores da Lei. No grito do homem doente não ecoa a voz da sua alma, mas a percepção e a voz dos doutores da lei: “Viestes para nos destruir?” A reação do povo não é o medo, mas a admiração diante de uma palavra eficaz e libertadora, de uma palavra que tem autoridade.

O Evangelho da misericórdia e da compaixão de Deus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Jesus não vem insistir no cumprimento da lei e no pagamento das dívidas contraídas pelo pecado, mas anunciar e inaugurar um tempo de graça e compaixão. E é isso que incomoda a elite religiosa e impressiona e causa admiração e esperança no povo cansado e abatido.

Grande notícia e belo desafio para os discípulos missionários é este: experimentar, anunciar e testemunhar a boa e alentadora notícia. A resposta de fé suscitada pelo encontro com Jesus não se reduz ao culto e ao louvor, mas pede um engajamento cotidiano na tarefa de libertar os irmãos e irmãs e fazer este mundo melhor.

 

Sugestões para a meditação

Sua compreensão sobre o Evangelho do Reino é essa de Jesus: uma boa notícia libertadora para todos os tipos de vítima?

Qual é o lugar e a força de transformação que o Evangelho, a Boa Notícia de Jesus, tem na sua vida?

O que o Evangelho de Jesus provoca em você: admiração e entusiasmo ou medo e inquietação?