sábado, 19 de setembro de 2026

Os últimos são os primeiros

Justo é quem trata todos com igualdade

1210 | Tempo Comum | Semana XXV | Domingo | Mateus 20,1-16

Quem quiser ser discípulo de Jesus precisa ter sabedoria e decisão para encarnar o reino de Deus em todas as suas relações. No horizonte da utopia de Jesus, justiça e a bondade não estão no mérito e na aplicação da lei do “cada um recebe o que merece”. A lógica do Reino de Deus inverte os valores, e estabelece a prioridade dos últimos e desprezados sobre os ricos e privilegiados.

Na parábola de hoje, o personagem central é um chefe de família patriarcal. A primeira cena trata da contratação de diaristas para trabalhar no seu campo. Mas tudo está focado na segunda cena, ou seja, no acerto de contas pelo trabalho realizado pelos trabalhadores contratados em diferentes horas do dia. A todos o chefe da família prometera pagar o que seria justo, e não um valor estabelecido.

As pessoas contratadas na primeira hora assistem ao pagamento das que foram contratadas no fim do dia, que recebem, por poucas horas de trabalho, um valor que permite a subsistência diária, e isso alimenta a expectativa de que receberiam bem mais, pois haviam feito por merecer. Mas o contratante não se orienta pela meritocracia, e sim pela justiça e pela bondade, e retribui a todas igualmente.

O grupo que se julga merecedor de uma retribuição maior se irrita por ter sido igualado aos demais. De fato, o pai de família não age conforme o costume, não reforça a competição e a distinção de classes. A irritação brota da inconformidade por terem sido igualados aos mais necessitados. Eles protestam contra a igualdade fundamental de todos os trabalhadores!

Com esta parábola, Jesus nos convoca a tomar uma posição radical, como ele mesmo o fez: assumir um estilo de vida alternativo também na economia, agindo na perspectiva do Reino de Deus, guiando-nos pela necessidade das pessoas e pela gratuidade, ou pela economia do dom, como a chamou o Papa Francisco.

Será que também nós, depois de dois mil anos de cristianismo, caímos na armadilha de nos sentir melhores que os outros? Em que medida ainda tratamos as pessoas, grupos, religiões e classes sociais a partir daquilo que achamos que ‘merecem”? Será que ainda defendemos a velha moral econômica que recomenda dar a cada um o que merece? Chegamos a perceber que a lógica de Deus é outra, é diferente?

 

Sugestões para a meditação

Com esta parábola, Jesus provoca fortemente as pessoas, tanto os judeus como seus discípulos, a superar a lógica do mérito

Deixe ressoar em você a afirmação clara e provocativa de Jesus mediante a parábola do patriarca generoso e solidário

Peça a Jesus a graça de se comprometer e se alegrar com os pequenos e grandes sinais de emancipação dos pobres


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Semear sempre

Escutar, praticar e anunciar o Evangelho

1209 | Tempo Comum | Semana XXIV | Sábado | Lucas 8,4-15

No trecho do Evangelho proposto hoje à nossa meditação, Jesus se dirige à multidão que chega a ele vindo de várias cidades. Mas, ao narrar esse acontecimento, Lucas tem presente também sua comunidade, que, 50 anos depois da páscoa de Jesus, se pergunta pelas razões do aparente fracasso da missão que está a desenvolver.

No texto, Jesus chama a atenção dos seus ouvintes e interlocutores: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” Ele propõe e sublinha o modo correto de ouvir a Boa Notícia do Reino de Deus. A parábola do semeador, especialmente a interpretação que Jesus mesmo dá da parábola, ajuda a ilustrar exatamente isso.

Na verdade, o centro da parábola não é o semeador, nem a semente, mas a qualidade do terreno que a recebe, a diferente sorte da semente do reino de Deus misturada na história humana. Com isso, fica bastante claro que Jesus propõe uma séria reflexão sobre as condições para uma autêntica escuta do Evangelho e para que ele chegue a produzir frutos bons e abundantes.

Jesus deixa claro que o que impede que o Evangelho frutifique não são apenas a perseguição e as pressões externas, mas também a falta de uma decisão firme de alguns discípulos e a intercorrência de outros interesses que não são os de Deus: as rotinas cotidianas, a falta de aprofundamento, a ambição de riquezas, etc.

Além de pedir de nós uma escuta atenta e generosa, um aprofundamento maduro e responsável, e uma sólida perseverança na escuta da Palavra, Jesus pede também que não deixemos de anunciar (semear) o Evangelho a todas as pessoas e grupos, em todos os tipos de terreno. Também pede que façamos isso sempre com absoluta confiança na força da semente e com esperança de que frutifique.

Como imagina o profeta Ezequiel, somente quem “come, mastiga e digere” a palavra de Deus, repleta de clamores, dores e cantos de vitória do povo de Deus, está em condições de anunciá-la, praticá-la e testemunhá-la. Quando o Evangelho que ouvimos germina, lança raízes e frutifica em nós, então poderá ser anunciado eficazmente, confirmando e fortalecendo os ouvintes.

 

Sugestões para a meditação

Retome, com todas nuances, a parábola de Jesus e a cena descrita por este trecho do evangelho segundo Lucas

Você já viveu, ou vive, a sensação de que a luta pela justiça e o testemunho de uma vida ética e coerente não produzem nada?

Que tipo de terreno você tem sido, como você tem ouvido o Evangelho, especialmente neste tempo de pandemia?

Que frutos o Evangelho tem produzido em você e sua família? Há algo que o está sufocando e impedindo os frutos?

Confiar no bom Deus

CONFIAR NA BONDADE DE DEUS

Cada vez estou mais convencido de que muitos dos que se dizem ateus são homens e mulheres que, ao rejeitarem Deus, estão na verdade rejeitando um ídolo mental que construíram quando eram crianças. A ideia de Deus que carregam dentro de si e com a qual viveram durante alguns anos tornou-se pequena. A certa altura, esse Deus tornou-se uma figura tão estranha, incômoda e desagradável que decidiram prescindir dele.

Não me custa nada compreender essas pessoas. Dialogando com algumas delas, recordei mais de uma vez aquelas palavras certeiras do patriarca Máximus IV durante o Concílio: «Eu também não acredito no deus em que os ateus não acreditam». Na verdade, o deus que alguns eliminaram das suas vidas é uma caricatura que formaram falsamente dele. Se esvaziaram a alma desse deus falso, não será para deixar espaço, um dia, ao Deus verdadeiro?

Mas como pode hoje uma pessoa encontrar-se com Deus? Se se aproxima dos que nos dizemos crentes, é fácil que nos encontre a rezar, não ao Deus verdadeiro, mas a um pequeno ídolo sobre o qual projetamos os nossos interesses, medos e obsessões. Um Deus de que pretendemos apropriar-nos e usar para nosso proveito, esquecendo a sua imensa e incompreensível bondade para com todos.

Jesus quebra todos os nossos esquemas quando nos apresenta, na parábola do senhor da vinha, esse Deus que dá a todos a diária de que necessitam, mereçam ou não, e diz aos que protestam: «Tens inveja porque eu sou bom?»

Deus é bom com todos, mereçam ou não, sejam crentes ou ateus. A sua bondade misteriosa está para além da fé dos crentes e da incredulidade dos ateus. O que devemos fazer é esquecer os nossos esquemas, fazer silêncio no nosso interior, escutar até ao fundo a vida que pulsa em nós… e esperar, confiar, deixar o nosso ser aberto. Deus não se oculta indefinidamente a quem o procura com coração sincero.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Iguais

Jesus aceita mulheres como suas discípulas

1208 | Tempo Comum | Semana XXIV | Sexta | Lucas 8,1-3

Os três versos do trecho do evangelho de hoje nos apresentam Jesus anunciando a boa notícia do Reino de Deus, missão na qual é acompanhado e auxiliado pelo “grupo dos doze” e por um bom número de mulheres. A maioria delas fora libertada de um passado de dominação, medo e exclusão e beneficiada pela misericórdia de Jesus Cristo. Não se trata de pecadoras no sentido moral, mas de pessoas que, por motivos diversos, eram tratadas como pouco importantes, de segunda categoria.

Que Jesus tenha admitido mulheres como discípulas é algo bastante claro nos evangelhos, mas também muito inusitado. Os pais escolhiam mestres e educadores para seus filhos, mas não para suas filhas. Por mais importantes que fossem na dimensão afetiva e na educação dos filhos, as mulheres eram confinadas ao mundo doméstico. Nesse aspecto, Jesus representa uma novidade e uma ruptura. A novidade do Reino de Deus gera relações de partilha, serviço e autonomia.

As mulheres que acompanham Jesus, nomeadas pelas escrituras ou não, não são explicitamente chamadas de discípulas, mas o são de fato. Elas “caminham atrás de Jesus”, seguem seu caminho, e aparecem em nível de igualdade com o grupo dos doze. As mulheres aparecem nos evangelhos como servidoras eficazes – como diaconisas! – e são modelos daquilo que se espera de todo discípulo missionário de Jesus e do Reino de Deus. O que poderíamos esperar mais que isso?

O que congrega e caracteriza este grupo amplo e diversificado de pessoas que seguem Jesus é a plena dedicação a ele, a disposição de deixar-se educar e formar na sua “escola”, a dedicação ao anúncio da boa notícia do Reino de Deus e o testemunho de abertura, acolhida, partilha e fraternidade. A novidade de Jesus se mostra na comunidade que o segue, e esta é uma comunidade sem fronteiras, que acolhe mulheres e outras tantas categorias de excluídos!

Que belo exemplo, e que provocação contundente, Jesus faz às nossas igrejas, ainda tão masculinas e resistentes ao pleno reconhecimento do jeito feminino de viver a missão! E isso deve ser dito mais incisivamente a respeito da nossa velha e amada Igreja Católica Apostólica Romana. As diferenças entre homem e mulher não podem implicar em hierarquização e exclusão. Não podemos mudar aquilo que Jesus nos deixou como herança e mandamento.

 

Sugestões para a meditação

Você tem se esforçado para reconhecer a plena dignidade das mulheres e não tem impedido que tenham lugar e importância como os homens?

Por que a igreja católica ainda não consegue incluir plenamente as mulheres nos seus ministérios e postos de direção e decisão?

O que fazer para que a Igreja seja coerente com Jesus no tratamento inclusivo das mulheres e outras categorias de pessoas menosprezadas ou excluídas?

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O fariseu e a pecadora

Jesus critica e condena as posturas farisaicas

1207 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quinta | Lucas 7,36-50

No final da parábola que antecede o texto de hoje Jesus sentenciava: “A sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. Os filhos e filhas da sabedoria são as pessoas que entendem e seguem Jesus, os pobres e pecadores, e não os mestres da lei ou os fariseus. Isso é reforçado no episódio de hoje.

Estamos diante de uma obra-prima da arte narrativa que usa de forma exuberante tons de simpatia e delicadeza. O fariseu Simão recebe Jesus em sua própria casa, e está cercado de gente do seu círculo de amizade, num clima de cumplicidade e confraternização. Mas eis que aparece do nada uma visita embaraçante, que se dirige a Jesus com um gesto profundamente desconcertante.

Uma mulher conhecida como pecadora (não quer dizer que o seja de fato!) entra na sala, se coloca atrás de Jesus chorando, lava os pés dele com suas lágrimas, enxuga-os com seus próprios cabelos, beija-os e unge-os com perfume. Jesus aparentemente não faz caso disso, e até aprova o gesto da mulher. Ele entende o sentido do gesto, mas Simão abre a boca contra Jesus, mesmo sem pronunciar palavras. Ele se pergunta que tipo de profeta é Jesus se aceita coisas desse tipo.

O mais surpreendente e eloquente da cena é que Jesus não se preocupa com a situação da mulher, mas com a atitude preconceituosa e excludente de Simão e seus colegas. Enquanto os fariseus e doutores da lei consideram o gesto da mulher inoportuno e ambíguo, para não dizer condenável, Jesus o vê positivamente, como reconhecimento da misericórdia que Deus vem manifestando nas suas ações. Este da mulher é um gesto de amor agradecido. Ela diz tudo sem palavras.

O pensamento crítico de Simão é próprio de quem esquece ou esconde que é pecador, e revela que seu conceito de profecia não é correto. Para Jesus, o gesto da mulher não tem nada de ambíguo, e, mediante a parábola dos dois devedores perdoados, afirma que quem está em pecado e não foi perdoado é o próprio fariseu e aqueles que pensam e agem como ele: são mais preconceituosos que religiosos.

Simão não reconhece sua condição de pecador e, com isso, se fecha ao perdão e à gratidão. E a mulher, porque perdoada, expressa sua confiança e gratidão a Jesus. O modelo a ser imitado não é o fariseu, mas a mulher pecadora. É ela que vive uma fé que tem força libertadora e regeneradora. E nós, com quem nos parecemos?

 

Sugestões para a meditação

Retome, em todos os delicados detalhes e nuances, a cena que se desenvolve na casa do fariseu Simão

Visualize as reações dos diferentes sujeitos, entre na parábola de Jesus, e deixe-se ensinar por seu gesto e sua palavra

Você se reconhece como pecador perdoado, como profundamente amado por Deus, se relaciona com as pessoas sem preconceitos, e é capaz de mostrar gratidão?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Chorar ou dançar?

Como você reage à proposta libertária de Jesus?

1206 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quarta | Lucas 7,31-35

A cena que estamos meditando hoje está literariamente situada depois do elogio de Jesus ao soldado romano que pediu sua intervenção em favor de um empregado seu (7,1-10) e da devolução da vida ao filho da viúva de Naim (7,11-17), e em seguida às perguntas de João Batista sobre Jesus e do seu comentário elogioso a ele (7,18-30), episódio omitido pela sequência da liturgia diária.

Para desmascarar as resistências e contradições daqueles que resistem à sua proposta (principalmente os fariseus e mestres da lei), Jesus apresenta uma cena pitoresca e muito popular em pequenas cidades interioranas: um grupo de crianças que brincam na praça, umas tocando música e outras indiferentes ao que as primeiras fazem e transmitem. As crianças-artistas tocam músicas alegres e as outras não dançam; tocam músicas tristes, e ninguém chora ou entoa lamentações.

Os dois estilos de música são uma alusão aos diferentes caminhos de salvação oferecidos por João Batista e por Jesus. As crianças indiferentes que brincam na praça são os judeus, que nunca estão satisfeitos ou de acordo com aquilo que ouvem. A referência é clara: a mensagem de João Batista não foi aceita porque era muito dura e exigente (jejum e penitência); e Jesus é criticado por parecer-lhes muito permissivo (come e bebe, partilhando a mesa com pecadores e gente suspeita). São duas perspectivas diversas que enfrentam a mesma resistência à mudança.

Mas essa resistência não é exclusividade dos fariseus e doutores da lei, nem eventualmente dos cristãos das primeiras gerações. Os discípulos resistem à novidade anunciada e inaugurada por Jesus, e até se atrevem a propor reparos. Pensam que o amor aos inimigos seria uma proposta inocente e inadequada, e que há gente que não merece o perdão, ao menos um perdão sem limites, como nos lembrava a pergunta de Pedro a Jesus no evangelho do último domingo.

Jesus arremata seu questionamento em linguagem parabólica com uma afirmação um pouco obscura: “Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. O sentido pode ser que os filhos da sabedoria, as pessoas que ouvem e compreendem Jesus, são os pobres e pecadores, e não os fariseus, os doutores da lei ou a casta sacerdotal. E nós, como reagimos hoje ao ensino libertário de Jesus? Podemos dizer que reconhecemos e aceitamos de fato à sua proposta do Reino de Deus?

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena pitoresca proposta por Jesus e procure relacioná-la com os diferentes grupos de cristãos que você conhece

Você não se vê, às vezes, desejando propor reparos em aspectos essenciais da proposta de Jesus? Quais?

Leia algo sobre a vida dos santos Cornélio e Cipriano, cuja memória celebramos hoje, e procure relacioná-la com o evangelho de hoje

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

As dores de Maria

Maria, Mãe dos aflitos que estão junto à cruz

1205 | Memória de Nossa Senhora das Dores | Lucas 2,33-35

Ao que parece, a devoção e a festa de Nossa Senhora das Dores remonta ao século XV, e tem origem na cidade de Colônia (Alemanha). Segundo a tradição, as dores de Maria seriam infinitas, mas podem ser ilustradas em sete: a profecia de Simeão a respeito dela e de Jesus; o exílio no Egito, com José e Jesus; e perda de Jesus no templo; o encontro com Jesus no caminho da cruz; a crucificação de Jesus; a morte de Jesus; o sepultamento de Jesus.

No encontro do velho Simeão com o casal José e Maria e o filho recém-nascido resplandece uma convicção: a bondade e a misericórdia de Deus brilham no mundo para todos os povos, sem nenhuma exclusão. Jesus e a salvação de Deus não pertencem exclusivamente ao povo de Israel. E essa é uma boa notícia que permite que Simeão, representante de um povo que esperou por este anúncio séculos e séculos, conclua sua caminhada e parta em paz.

Mas, como luz que brilha para as nações (e não só para Israel), Jesus acaba também definindo a sorte de todas as pessoas que o encontram: ele provoca discernimento, evidencia as ambiguidades, torna-se fator de contradição, pedra de alicerce e, ao mesmo tempo, pedra de tropeço. Diante dele e por ele, uns caem, outros se levantam; uns são rebaixados, outros são elevados. A luz sempre mostra tanto o que há de belo como o que há de feio em nós e ao nosso redor.

Esta profecia de Simeão sobre Jesus recém-nascido causa admiração em José e Maria, que são abençoados por ele. Simeão bendiz a Deus e abençoa os pais de Jesus, para que eles possam contribuir positivamente na realização dessa missão. Mas, dirigindo-se a Maria, Simeão adverte que ela sofrerá com o filho que trouxe no ventre, carrega nos braços e apresenta ao templo.

O sofrimento de Maria não tem nada de particular e tudo de comunitário e eclesial, pois antecipa o sofrimento que muitos discípulos e discípulas provarão no futuro. Suas dores não se resumem àquela que sentiu ao ver o filho pregado na cruz. É também a dor de ver que o filho é um profeta rejeitado; de ver um povo cansado, abatido e sem rumo; é também a dor que compartilha com os discípulos missionários humilhados e perseguidos. 

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra, imagem ou expressão usadas por Simeão na sua bela e exigente profecia sobre Jesus, Maria e José

O que significa celebrar Nossa Senhora das Dores no contexto de medo, polarização, desmandos, taxações e desmantelamento dos organismos multilaterais que asseguravam um certo equilíbrio internacional?

Quais são os pensamentos, sentimentos e projetos secretos ou disfarçados por nós que um Deus crucificado traz à luz? 

domingo, 13 de setembro de 2026

Exaltação da Cruz

Deus ama o mundo e tudo o que nele existe

1204 | Exaltação da Santa Cruz | Domingo | João 3,13-17

O texto que é proposto à nossa meditação está relacionado com a festa litúrgica de hoje: a exaltação da Santa Cruz. Esta é uma celebração que vem desde o ano 335, quando foi celebrada a dedicação de duas basílicas, na colina do Gólgota, em Jerusalém: a basílica da Santa Cruz e basílica da Ressurreição.

Não deixa de ser estranho, ao menos do ponto de vista histórico e sociológico, exaltar a cruz, recorrente instrumento de tortura e morte usado pelo império romano contra seus “inimigos”. Seria como exaltar e expor no centro dos nossos templos, ou carregar no peito ou estampadas em nossas camisas, imagens do “pau de arara”, de um fuzil ou de um revólver. (Alguns até gostariam, como nos revelam as imagens que marcaram as últimas campanhas eleitorais no Brasil.)

Para os cristãos, mesmo que pareça paradoxal, a cruz não é memória da violência, do sofrimento ou da derrota, mas uma expressão clara e contundente do amor sem limites de Deus pela humanidade. Pregado na cruz, Jesus é a imagem de um Deus apaixonado pelas suas criaturas, o protótipo do ser humano maduro e livre como Deus o quis, criado à sua imagem e semelhança, dinamizado pelo seu Sopro Vital.

Na cruz é como que assinada a aliança de Deus com a humanidade: sua vontade é totalmente positiva (que todos tenham vida em abundância), universal (inclui todas as pessoas e todos os grupos humanos) e irreversível (ele não volta atrás em sua paixão pela humanidade). Um Deus crucificado exclui todo resquício ou ameaça de indiferença ou de punição, mesmo contra errantes e pecadores.

Na vida de Jesus, mesmo sendo uma imposição dos poderes constituídos, a cruz é a efusão da compaixão de Deus, e não um acontecimento inesperado ou passageiro. Ela toma o lugar da lei, torna-se ponto de partida e de convergência da vida cristã, e expressa a presença permanente e libertadora de Deus no mundo, e não apenas no coração das pessoas. “Nossa glória é a cruz”, exclama São Paulo.

A cruz traz a assinatura de Deus: ele continua amando o mundo e o que nele existe, e exclui de seu horizonte punições e castigos. Aderir a um Deus crucificado por amor significa afirmar o amor, e não o poder, o sucesso ou as armas, como princípio, como meta e como caminho, custe o que custar. Fora disso, nossa fé seria vazia, e nossos símbolos seriam falsos, ou então armas letais disfarçadas de piedade.

 

Sugestões para a meditação

Retome cada palavra e expressão, em forma negativa ou em forma positiva, e deixe que ressoem em você

Você ainda só consegue ver na cruz dor, abandono e sofrimento, ou consegue fixar nela seu olhar e contemplar o amor de Deus?

O que significa a expressão “Deus amou tano o mundo” (organização humana, humanidade), em vez de “Deus amou tanto os indivíduos”?

Romaria da Santa Cruz

25ª Romaria Diocesana de Santa Cruz do Sul

(Palavras de Dom Itacir msf)

Chegando

Queridas irmãs e irmãos, vindos dos mais diversos lugares da Diocese para esta romaria jubilar: Bem-vindos, bem-vindas! A graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo (Rm 1,3).

Jesus, o Príncipe da Paz; Jesus, aquele que, na cruz, derrubou os muros que separam e opõem pessoas, igrejas, povos e nações e estabelece a paz duradoura e sem fronteiras; esse Jesus está de verdade aqui, no meio de nós!

O que ele quer nos dizer nessa 25ª Romaria Diocesana da Santa Cruz? Vendo em nossos rostos a tensão e o medo de novas enchentes; entrando em nossos lares e enxugando as lágrimas das mulheres e crianças que sofrem violências daqueles que deveriam ser seus protetores; contemplando as manifestações de intolerância e de violência que se espalham, do Planalto Central aos compôs e fronteiras; voltando seus olhos severos aos arrogantes que impõem taxas e promovem guerras de extermínio pelo mundo afora; e fixando seu olhar misericordioso sobre esta numerosa assembleia aqui reunida e sobre cada um de vocês ministros, catequistas, diáconos, padres e demais lideranças sociais e comunitárias, incansáveis e generosas no seu serviço cotidiano, Jesus proclama, com voz forte como um sino: “A paz esteja com vocês!” (Jo 20,21) “Felizes e bem-aventurados os que promovem a paz!” (Mt 5,9)

Aqui estamos em busca de paz, de relações de confiança, acolhida, colaboração e solidariedade que assegurem a cada pessoa e à sociedade como um todo, o pleno bem-estar, aquele “tudo de bom” ou “paz e bem” que gostamos de desejar uns aos outros.

Buscamos nesta romaria a paz verdadeira, que nos vem de Jesus Cristo crucificado por amor, e é vacina contra o ódio e a vingança, contra a dominação e a violência, contra a indiferença e a intolerância.

Essa paz é dom gratuito de Jesus Cristo, e precisa ser acolhido com gratidão. Mas ela é também uma tarefa da qual ninguém pode se dispensar. “Em qualquer lugar que vocês chegarem, digam primeiro: ‘Paz a esta casa!’ (Lc 10,6). “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês!’ (Jo 20,21).

Caminhemos juntos, lado a lado e ao lado de Jesus, atentos às lições que ele nos dará sobre a urgente missão de promover a paz. A via-sacra de Jesus é um caminho concreto no qual aprendemos a construir uma paz profunda, duradoura e sem fronteiras.

Ouvindo (João 20,19-23)

Naquela noite de domingo, depois da crucificação, morte e ressurreição de Jesus, os discípulos estavam assustados diante do poder e da violência dos inimigos. O medo demonstra a insegurança. Pensavam que haviam perdido para sempre aquele que tinha palavras de vida eterna.

Mas a noite já é o início do Dia esperado, como na libertação do Egito. Jesus se manifesta presente no meio deles. Ele vem para os libertar do medo de perder a vida. Ele vem para ficar no meio deles, e continuar sendo fonte de vida, ponto de referência, videira da qual os ramos recebem força e vitalidade, caminho seguro para a paz.

“A paz esteja convosco!” Esta é a saudação daquele que venceu o mundo, que derrotou as forças da morte e a própria morte. É uma paz que abre portas, abre caminhos, abre as mentes, abre os corações. É a paz daquele que está vivo no meio de nós e nos envia para promover a fraternidade e a paz com todas as criaturas, a justiça social para os pobres e o desenvolvimento integral da pessoa humana, a política como dedicação corajosa ao bem comum.

A mensagem da Santa Cruz é a paz verdadeira, a paz vivida como missão corajosa, duradoura, sem fronteiras. São Paulo nos diz que, “de fato, Cristo é nossa paz” (Ef 2,11-22). Pois a cruz de Jesus reúne povos diferentes e adversários em uma família de irmãos. A cruz de Jesus derruba os muros que separam e a inimizade que fere. Do corpo de Jesus crucificado por amor nascem homens e mulheres novos, irmãos e irmãs de verdade, diferentes, mas iguais em dignidade.

A cruz de Jesus reestabelece a igual dignidade e a paz entre o corpo e o espírito, entre homens e mulheres, entre cidadãos e estrangeiros, entre heterossexuais e homossexuais, entre adultos e jovens, entre católicos e protestantes, entre crentes e ateus, entre desenvolvimento e meio ambiente, entre partidos e projetos políticos diferentes.

Não se trata de uma paz superficial, interior ou psicológica. É uma paz assumida como tarefa, como empenho árduo e perseverante, que dispensa o recurso aos poderes que se impõem pela força. É uma paz desarmada e desarmante, que construímos de mãos abertas e estendidas, como ovelhas indefesas em meio a lobos famintos e violentos. Uma paz que ninguém poderá nos roubar.

Voltando

“Bem-aventurados os que promovem a paz! Assim como o Pai me enviou, eu envio vocês! Por onde vocês passarem, nas casas em que vocês entrarem, nas comunidades às quais vocês se reunirem, nas celebrações que vocês realizarem, nas ruas que vocês percorrerem, nos trabalhos que vocês realizarem, nas redes sociais que vocês usarem, sejam fazedores da paz! Como são belos os pés dos mensageiros que anunciam, semeiam e cultivam a paz!” (cf. Mt 5; Jo 20,21; Lc 10,5-6; Is 52,7).

sábado, 12 de setembro de 2026

Perdoados que perdoam

Somos pecadores perdoados e agentes do perdão

1203 | Tempo Comum | Semana XXIV | Domingo | Mateus 18,21-35

No domingo passado, acolhíamos o ensinamento de Jesus que nos oferecia uma verdadeira pedagogia da correção fraterna. Hoje, nesta parte da quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. De resto, o rei da parábola é igualzinho a todos os demais: ele age oprimindo os mais fracos. Imagina como conseguiu a fortuna que lhe possibilitou emprestar ao seu empregado aquela fortuna. A compaixão e o perdão concedidos ao empregado endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude deste empregado. Tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do empregado perdoado, que mostra mais crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

A cultura na qual nos movemos nos convenceu de que o outro é um estranho que precisa ser temido, um inimigo que precisa ser combatido, um incapaz que só pode ser desprezado, um incômodo que deve ser afastado, um devedor que deve ser sempre cobrado, que deve fazer por merecer. Perdoar é conceder ao outro a chance de ser alguém, de ter dignidade, de recomeçar e amadurecer.

 

Sugestões para a meditação

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?