terça-feira, 7 de abril de 2026

Emaús é aqui!

Que o Evangelho aqueça nosso coração

1044 | Páscoa do Senhor | Quarta-feira | Lucas 24,13-35

Os evangelhos não escondem as dificuldades e a lentidão com que os discípulos vão fazendo a experiência da ressurreição de Jesus Cristo e assumindo-a como caminho de vida. O episódio de hoje é paradigmático: os discípulos estão desolados, e caminham como cegos; para eles, o fracasso de Jesus fora completo e arrasador; eles não conseguem conciliar a esperança suscitada por Jesus com ele pregado na cruz.

Mas o próprio Jesus se aproxima deles e toma a iniciativa na conversa. Começa perguntando pelo assunto sobre o qual falam e pelo motivo da tristeza estampada no rosto. Com sabedoria de mestre, Jesus conduz os discípulos ao coração da própria dor e ao aspecto central dos acontecimentos. E faz isso caminhando, voltando ao passado, ao secreto e misterioso lugar onde dormiam as esperanças deles.

Caminhando e dialogando com os discípulos, Jesus provoca a abertura a um Deus despojado. Sua catequese paciente acaba abrindo algumas pequenas brechas na terra seca dos pensamentos e sentimentos deles. Então, eles percebem que é tarde, e que um caminho sem esperanças não leva a lugar nenhum. E convidam o inesperado companheiro a desfrutar da hospitalidade e a dividir com eles o pão seco da dor.

A sede de companhia, somada ao desejo de partilhar o pouco de sentido de vida que lhes resta, acaba abrindo-lhes portas e acendendo luzes. Acolhendo o forasteiro e partilhando com ele a vida e o pão, os discípulos passam da cegueira à visão, da escuridão à luz. E isso ocorre no mesmo momento em que Jesus escapa aos olhos deles. Quando a luz da fé começa a brilhar, algumas experiências são dispensáveis.

A hospitalidade e a partilha abrem aos discípulos a possibilidade de uma releitura daquilo que viveram, à compreensão daquilo que sentem e à descoberta do significado do que acontecera. Só então eles dão atenção ao que ocorrera na estrada: “Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho?” Que o Evangelho de Jesus aqueça nosso coração!

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, esta cena dos discípulos de Emaús

Preste atenção na atitude de Jesus, nas perguntas que faz, na sua forma de conduzir ao entendimento da vida e das escrituras

Como entender a cegueira e falta de discernimento para entender a realidade de Jesus por parte dos discípulos de Emaús e de hoje?

O que significa para nós hoje, voltar a Jerusalém, mesmo no escuro? Apenas encontrar os irmãos, ou também enfrentar riscos?

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Madalena, a perseverante

Anunciemos aos desanimados que ele vive

1043 | Páscoa do Senhor | Domingo | João 20,11-18

Junto à sepultura de Jesus, Maria Madalena chora sua pena e sua desorientação. Para ela, a única coisa certa e palpável é a morte de Jesus. Está disposta a levá-lo consigo, mesmo morto. Vê anjos que a interrogam sobre a dor. Não pronuncia ao Jardineiro o nome de Jesus, e o chama de Senhor. Não reconhece Jesus pela voz, nem pela aparência. A tumba vazia é insuficiente para sustentar a fé na ressurreição de Jesus.

As vestes brancas e a pergunta dos anjos insinuam que não há motivo para o luto. Mas é somente quando Jesus chama Madalena pelo nome, quando ela se volta a ele e deixa de olhar para a tumba que seus olhos se abrem. É a voz do Pastor que caminha à frente e é reconhecido pelas ovelhas, que chama pelo nome a acolhe cada pessoa, nas suas dores e nos seus sonhos. Madalena se vê esposa da nova aliança.

Esta experiência de Maria de Magdala é apenas o começo da missão, do testemunho aos irmãos, à comunidade dos iguais instituída na ceia e no lava-pés. Depois de tê-lo desejado, buscado, conhecido, seguido e amado em vida, ela precisa se inclinar para dentro de si mesma, para a profundidade do próprio desejo, para reconhecê-lo e amá-lo sem retê-lo. Sem isso, seus olhos continuariam fechados à novidade.

É no movimento de voltar-nos para nossa interioridade mais profunda, de superar um certo realismo ou cinismo desmobilizador, que identificamos os sinais de vida e encontramos Jesus vivo e chamando-nos pelo nome. Crer em Jesus crucificado e ressuscitado é mais que constatar que a sepultura está vazia. Significa encontrá-lo, reconhece-lo, escutá-lo e segui-lo de modo pessoal e renovado na missão.

Que o Espírito Santo abra os nossos olhos e nos ajude a ver a presença escondida, solidária e transformadora de Jesus neste mundo tão contraditório. E possamos reconhecer, com o olhar lúcido e apaixonado da fé, que ele está em comunhão conosco, com o amado Papa Francisco e todos os que partiram, com todos os sofredores e vítimas, dialogando, chamando e enviando.

 

Sugestões para a meditação

Preste atenção nas palavras de envio de Maria aos discípulos. Com que palavra Jesus se refere àqueles que o abandonaram?

Como entender a aparente cegueira e falta de discernimento de Maria, incapaz de reconhecer Jesus que está vivo e lhe fala?

O que faz com que tantos cristãos não vivam a fé na ressurreição de Jesus como imperativo para continuar sua missão libertadora?

O testemunho que damos com nossa vida é ajuda ou empecilho para que as pessoas de hoje acreditem na ressurreição de Jesus?

domingo, 5 de abril de 2026

Ele vai à nossa frente!

Deus ressuscitou Jesus, e disso somos testemunhas

1042 | Páscoa do Senhor | Domingo | Mateus 28,8-15

Crer na ressurreição de Jesus Cristo não é um ato de submissão intelectual. Crer é caminhar, e crer em Jesus crucificado e ressuscitado significa percorrer com ele os caminhos do Reino de Deus, tornando-se semente que não teme desfazer-se no ventre da terra, em gestos e sinais sempre frágeis, mas potentes e eloquentes.

As mulheres da aurora não viram um anjo rolando a pedra em meio a um terremoto que derrubou os guardas, mas souberem que a sepultura não reteve Jesus e que ele ia à frente delas para a Galileia.  Mas já antes de iniciarem a volta para o lugar onde começaram a seguir Jesus, ele se manifesta e confere a elas um mandato: “Vão avisar meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Aí eles me verão”.

Em clara oposição a esta notícia e percurso do centro à periferia, os guardas vão à chefia do templo. E lá selam a mentira que acompanhou o processo contra Jesus: a elite suborna os guardas para que divulguem a falsa notícia de que Jesus continua morto e que seu corpo foi roubado pelos discípulos. Mas a memória viva de Jesus havia “tomado corpo” no testemunho corajoso dos discípulos.

Aquelas duas mulheres madrugadoras haviam intuído os dois pilares fundamentais da fé em Jesus Cristo: ele não faz parte do clube dos mortos, eliminados e anulados pelos poderosos; ele se deixa encontrar nas periferias e nas fronteiras, onde a dominação assume mil formas e os sinais do Reino de Deus avançam de forma discreta e, ao mesmo tempo, irreversível.

Os discípulos e discípulas de Jesus não se deixam intimidar nem derrotar pela execução patrocinada pelos poderes estabelecidos, enquanto estes tremem, mentem e subornam para não aceitar a reviravolta. Contra tudo e contra todos, estas mulheres, sustentadas pelos sutis fios da esperança, confiam plenamente naquilo que ouvem, e se tornam peregrinas e alegres testemunhas, reúnem os discípulos e “refundam” a Igreja dispersa.

 

Sugestões para a meditação

Por que elas, os fios mais frágeis do tecido social e eclesial, são as primeiras a saber, a ver e a anunciar a ressurreição?

Terá o corpo masculino da Igreja caído sob a influência dos “podres poderes”, esquecido a força criadora e desconfiado delas?

Como podemos resgatar hoje o papel essencial das mulheres no testemunho da ressurreição e na reconstrução da Igreja?

O que significa hoje afirmar que Jesus “vai à nossa frente” e poderemos vê-lo na Galileia, onde iniciara sua missão?

A páscoa de Jesus e seus significados

A pedra rejeitada tornou-se a principal

O Salmo 118 (117) é uma solene e festiva celebração de ação de graças que inclui até uma procissão ao templo para agradecer a Deus pela libertação dos inimigos e opressores. É nele que se encontra uma imagem que os cristãos usaram para interpretar a ressurreição de Jesus: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular” (v. 22-23).

Além desta metáfora da pedra rejeitada que se tornou essencial, os primeiros cristãos usaram várias outras imagens para falar da ressurreição de Jesus: exaltação daquele que foi humilhado (cf. At 2,32; 5,30; Fil 2,9); glorificação daquele que foi apagado (cf. Tm 3,16; Hb 1,3); subida ao céu de quem desceu aos infernos (cf. 1Pd 3,22); ser colocado à direita do Pai (1Pd 3,22; Hb 1,3); nomeação de juiz universal (cf. At 0,42).

Sem desprezar a infindável discussão sobre como foi de fato a ressurreição de Jesus, o mais importante é entender o que ela significa. Nesse aspecto, o primeiro significado é a reabilitação humana, social e religiosa daquele que fora descartado e rebaixado. A ressurreição coloca Jesus como o primeiro dos humanos e afirma a validade da sua causa.

Uma segunda perspectiva de sentido é aquela que considera quem detém o poder de assegurar a vida plena para todos. A ressurreição de Jesus é a proclamação de que o verdadeiro poder e a última palavra não estão com quem manda, proíbe, oprime, violenta e mata, mas com aqueles que a eles se opõem, dando a própria vida, se for preciso.

Outro significado da ressurreição de Jesus é o reconhecimento de que ele é o Filho de Deus que se fez carne e mergulhou na história humana. Não que a ressurreição seja uma espécie de prova da sua divindade. Mas, acolhendo sua compaixão e seu amor sem fronteiras, afirmamos que, embora ostente as feridas da cruz, ele é divino e continua vivo.

E, para aqueles que cremos em Jesus e por ele vivemos, a sua ressurreição é muitíssimo mais que a crença numa nossa ressurreição após a morte. Afirmando que Jesus ressuscitou, comprometemo-nos em prosseguir o sonho e a missão que deram sentido à sua vida. A fé na sua ressurreição nos constitui testemunhas vivas daquilo que ele fez.

Ao mesmo tempo, aprendemos com Jesus que passamos da morte para a vida porque amamos nossos irmãos e irmãs (cf. 1Jo 3,14). Na certeza de nossa vida está nas boas mãos de Deus Pai, não temos medo dos poderes que matam, e cremos na fraqueza e na morte dos poderes. Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, nos tornou livres para amar e servir.

sábado, 4 de abril de 2026

Ressurreição já!

Nenhuma mulher e nenhum homem a menos!

1041 | Páscoa do Senhor | Domingo | João 20,1-9

A cena da paixão e morte de Jesus que meditamos na sexta-feira terminou laconicamente: ele morre abandonado pelos discípulos, e acompanhado somente por dois outros executados com ele; José de Arimatéia, numa ação ambígua, compra um lençol, enrola nele e corpo sem vida de Jesus, deposita-o num túmulo e fecha o túmulo com uma grande pedra, como que dizendo que tudo estava terminado.

Na cena de hoje, Maria Madalena faz algo diferente de José de Arimatéia: sai de casa de madrugada e vai ao túmulo, movida pela inconformidade com o destino imposto pelos dirigentes do judaísmo a Jesus de Nazaré, com a conivência criminosa de Pilatos. Caminhando com essa dor, Maria dá-se conta de que a pedra fora rolada e que a sepultura estava aberta. Assustada, ela dá meia-volta e vai correndo ao encontro de Pedro e de João, dizendo que alguém havia tirado Jesus do túmulo.

Eles dão crédito ao anúncio de Madalena, mas partem correndo em direção à sepultura. João chega primeiro e espera Pedro. Olha para dentro da sepultura aberta, vê os panos da mortalha no chão, mas não entra. Pedro chega depois, entra na sepultura e vê o pano que cobrira o rosto de Jesus cuidadosamente dobrado. Os sinais apontam para algo inusitado, e não para uma fuga apressada ou um roubo do corpo.

Mais tarde, João também entra na sepultura, “vê e acredita”. Vê o quê, e a credita em que? Vê o vazio da sepultura, a impotência das autoridades que se impõem pela força e pela violência, a invencibilidade das causas mais nobres e mobilizadoras. E acredita na Palavra de Jesus, acredita que o amor é mais forte que as águas impetuosas; que o amor não pode ser limitado ou derrotado pela morte, não pode ser comprado ou vendido, mas oferecido incondicionalmente (cf. Ct 8,6-7).

A cena termina com uma nota estranha: “Então, os discípulos voltaram para casa” (v. 10). Como assim? Acreditam na ressurreição e seguem como se nada relevante tivesse acontecido? É a mesma Madalena, aquela que fora ao encontro dos discípulos desolados, que permanece teimosamente próxima ao sepulcro. Ela suspeita que um amor tão generoso e uma dor tão pungente não podem terminar assim.

 

Sugestões para a meditação

Observe a teimosa inconformidade de Maria Madalena, suas buscas, suas intuições, mas também sua dependência do passado

Observe com atenção os movimentos, gestos e atitudes de João e de Pedro, e procure entender o que eles dizem

Que forças e que atitudes a ressurreição de Jesus desperta em você hoje? É possível crer na ressurreição e viver indiferente à causa que o levou à morte?

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ressuscitou!

O Senhor está vivo e nos espera fora dos muros

1040 | Quaresma | Semana Santa | Sábado | Mateus 28,1-10

Na sepultura vazia, mulheres e anjos ensinam que o caos do lixo pode dar lugar a uma criação harmoniosa, que o mar ameaçador pode ser atravessado a pé enxuto, que os grupos dispersos podem ser reunidos, que as pandemias podem ser vencidas, que os crucificados caminham rumo às fronteiras, onde novas possibilidades estão em gestação. O vazio da sepultura não é prova da ressurreição, mas sinal.

O dia ainda não amanheceu plenamente, a liberdade não alcançou todos os seres humanos, mas os guardas do sistema tremem diante de mulheres e homens que caminham destemidos. O poder sobre a vida e a morte não está nas mãos deles! Precisamos nos abrir às novas possibilidades escondidas nas pessoas e nos caminhos da história, vibrar de alegria e sair correndo para anunciar aos outros esta Boa Notícia: “Ele não está aqui! Ressuscitou!”

As mulheres da aurora nos ensinam que os sinais palpáveis da ressurreição só podem ser tocados na periferia ou numa Igreja em saída. É neste caminho missionário que iniciam a partir da sepultura vazia que as duas mulheres reconhecem o Ressuscitado que vem ao encontro delas pedindo que não tenham medo. Não importam mais os lugares onde ele esteve; importa onde ele disse que estará nos esperando.

Como cristãos, somos chamados a completar em nossos corpos os sofrimentos de Cristo, a prolongar os sinais do esvaziamento por amor e a fazer germinar as sementes do Reino de Deus. A ressurreição se multiplica no testemunho e nas iniciativas dos discípulos, comunidades e Igrejas, grupos e movimentos. Os sinais são pequenos, mas reais e promissores.

Jesus é como uma pedra que os construtores descartaram e foi por Deus transformada em pedra de ângulo, em pedra que sustenta todo o teto em forma de abóbada. Por isso, a Páscoa pede que abramos os olhos e as portas às pessoas e grupos sociais que são descartados pelas elites e pelos poderosos. Se não os tivermos no coração das nossas preocupações e projetos, nossa fé é construção sobre a areia, nosso amor pode virar patologia e nossa utopia se deteriora.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto com calma, prestando atenção aos personagens, ao que eles fazem e ao que eles dizem

O que nos ensinam as “mulheres madrugadeiras”, que, graças à sua ousada coragem, tornam-se testemunhas da ressurreição?

Sua fé na ressurreição de Jesus tem força para mobilizar suas forças e colocá-las a serviço da mesma causa vivida por Jesus?

Com que palavras e com quais gestos podemos hoje anunciar e testemunhar a validade da vida e do caminho de Jesus?

Páscoa, quando tudo adquire sentido

MISTÉRIO DE ESPERANÇA

Acreditar no Ressuscitado é resistir a aceitar que a nossa vida é apenas um pequeno parêntesis entre dois imensos vazios. Apoiando-nos em Jesus, ressuscitado por Deus, intuímos, desejamos e acreditamos que Deus está conduzindo à sua verdadeira plenitude o anseio de vida, de justiça e de paz que se encerra no coração da humanidade e de toda a criação.

Acreditar no Ressuscitado é rebelar-nos com todas as nossas forças contra o fato de que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que só conheceu nesta vida miséria, humilhação e sofrimento, fique esquecida para sempre.

Acreditar no Ressuscitado é confiar numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste, ninguém terá de chorar. Finalmente poderemos ver os que chegam em embarcações precárias alcançar a sua verdadeira pátria.

Acreditar no Ressuscitado é aproximar-nos com esperança de tantas pessoas sem saúde, doentes crônicos, deficientes físicos e psíquicos, pessoas mergulhadas na depressão, cansadas de viver e de lutar. Um dia conhecerão o que é viver com paz e saúde total. Ouvirão as palavras do Pai: «Entra para sempre na alegria do teu Senhor».

Acreditar no Ressuscitado é não resignar-nos a que Deus seja para sempre um «Deus oculto» de quem não podemos conhecer o olhar, a ternura e os abraços. Encontrá-lo-emos encarnado para sempre gloriosamente em Jesus.

Acreditar no Ressuscitado é confiar que os nossos esforços por um mundo mais humano e feliz não se perderão no vazio. Num dia feliz, os últimos serão os primeiros e as prostitutas nos precederão no reino.

Acreditar no Ressuscitado é saber que tudo o que aqui ficou ao meio, o que não pôde ser, o que estragamos com a nossa torpeza ou pecado, tudo alcançará em Deus a sua plenitude. Nada se perderá do que vivemos com amor ou do que renunciámos por amor.

Acreditar no Ressuscitado é esperar que as horas alegres e as experiências amargas, as pegadas que deixamos nas pessoas e nas coisas, o que construímos com amor, será transfigurado. Já não conheceremos a amizade que termina, a festa que acaba nem a despedida que entristece. Deus será tudo em todos.

Acreditar no Ressuscitado é acreditar que um dia ouviremos estas palavras incríveis que o livro do Apocalipse coloca nos lábios de Deus: «Eu sou o princípio e o fim de tudo. Ao que tiver sede, eu darei gratuitamente da fonte da água da vida». Já não haverá morte nem haverá choro, não haverá gritos nem fadiga, porque tudo isso terá passado.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Eis o Homem!

Aos pés do Crucificado a humanidade renasce

1039 | Quaresma | Semana Santa | Sexta | João 18,1-19,42

Conhecemos bem as tramas que levaram à prisão e condenação de Jesus. São opções e atitudes que revelam o mistério da iniquidade e sua força nas pessoas e estruturas sociais, políticas e religiosas. É um processo que assume feições de cinismo, como quando as autoridades, tendo decidido matar Jesus, não entram no palácio para não se tornarem impuras. Suprema hipocrisia!

Jesus não faz nada para se defender. Ele tem consciência de que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para tornar digno de crédito o amor fiel de Deus. Fixemos o olhar neste homem que realiza em grau pleno a vocação de todo ser humano. Nele descobrimos que a pessoa humana atinge sua plenitude quando não recua no propósito de dar a vida, quando se faz solidário com todos os humanos.

O ser humano maduro não é o ‘amigo de César’, nem a autoridade religiosa que ignora o sofrimento das pessoas, mas Aquele que transcende os interesses individuais e se põe a serviço de Deus e do seu projeto. Por isso, do alto da cruz, Jesus diz que a criação chega ao seu ápice: “Tudo está consumado”. Nele Deus se supera no esvaziamento e o ser humano se faz semente fecunda nas mãos de Deus.

Em Jesus crucificado por amor à humanidade peregrina e ferida buscamos forças para peregrinar na esperança e seguir Cristo servidor da humanidade. Do alto da cruz ele se dirige a Maria e lhe confia João: “Mulher, eis aí teu filho” E, dirigindo-se ao discípulo, diz: “Eis aí tua mãe!” Ali nasce uma nova família, cuidadora e servidora de todos os humanos seres, para além dos vínculos de sangue.

É por isso que nesta santa sexta-feira a nossa oração se abre numa universalidade que deveria estar presente em toda celebração autenticamente cristã. Diante de Jesus crucificado, aprendemos que os muros e fronteiras religiosas, políticas, econômicas e culturais não fazem o menor sentido e virarão ruínas. Pertencemos à humanidade, e temos um destino comum que compartilhamos com todas as criaturas.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, sem pressa e com todos os sentidos, palavra por palavra, gesto por gesto, o caminho da cruz percorrido por Jesus

Observe as dificuldades dos discípulos em reconhecer Jesus e permanecer com ele, especialmente Pedro e Judas

Siga com atenção a atitude do Discípulo Amado e de um pequeno grupo de discípulas, que permanecem fielmente próximos de Jesus

Procure visualizar em Jesus o rosto de todas as pessoas que sofrem, que são perseguidas e excluídas

Missa dos Santos Óleos

O presbítero é um construtor de unidade e de paz


Queridos irmãos no ministério, queridos irmãos e irmãs, peregrinos de esperança! Na oração da coleta desta missa da unidade presbiteral, pensando especialmente nos presbíteros, fazíamos dois pedidos: a graça de participarmos da unção e consagração de Jesus Cristo pelo Espírito Santo; e a graça de sermos constituídos testemunhas e colaboradores da sua obra de regeneração da humanidade. O ministério que exercemos não é mérito, mas graça; não é honraria, mas serviço.

A unção profética de Jesus de Nazaré

Iniciando sua missão de anunciar e espalhar sinais da chegada do Reino de Deus, Jesus busca inspiração no profeta Isaías. Mergulhando na experiência desse profeta, Jesus amadurece a percepção de que fora ungido e enviado pelo Espírito Santo para uma missão bela e exigente: anunciar a Boa Notícia do Reino aos pobres; para proclamar a libertação aos cativos; para devolver a visão a quem não consegue ver; para libertar os oprimidos; enfim, para proclamar um ano de graça e júbilo.

Esse discernimento Jesus não o fez durante um retiro solitário, mas num encontro comunitário, junto dos seus conterrâneos, na Sinagoga de Nazaré. Ele estava rodeado de gente cansada de receber más notícias e ameaças; de gente que tateava como cegos e não conseguia compreender o mal que os cercava; de gente que se sentia como prisioneira por medo do império romano; de gente que não suportava mais ouvir da boca dos sacerdotes e doutores da lei mandamentos e proibições.

Para Jesus, esta unção e envio é algo tão real, tão forte e tão urgente que, percebendo a expectativa que pulsava no olhar de todos, ele só ousa acrescentar uma frase: Hoje se cumpre essa passagem da escritura! O tempo de espera chega ao fim e começa o tempo da graça. Doravante ele não fará outra coisa que demonstrar isso nas pregações que faz, nas ações que realiza e na formação que dispensa aos discípulos.

Profetas da gratuidade e alegria

Caros irmãos presbíteros! Participar da unção profética de Jesus Cristo e da missão que dela deriva nos coloca na linha de frente das grandes lutas na qual se encontram os construtores de uma nova humanidade. Nossa vida e nossa missão adquire sentido e consistência na multiplicação de gestos de cuidado e atenção que contribuem para diminuir o sofrimento, amadurecer a liberdade e trazer alegria à vida daqueles que vivem cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor.

Como presbíteros, não somos uma espécie de executivos de uma grande empresa que espalha seus tentáculos pelo mundo afora e tem como objetivo de aumentar seus clientes e seus dividendos. Também não somos um tipo de legisladores que se esmeram em multiplicar leis impositivas ou proibitivas que aumentam o peso do fardo que os pobres carregam. Também não somos juízes que fecham os olhos às vítimas e proferem sentenças frias que, como as serpentes, ferem quase sempre os pés dos descalços.

Somos membros de um povo peregrino e discípulos de um homem ungido pelo Espírito, que veio morar entre nós e passou pelo mundo fazendo o bem; que não teve onde reclinar a cabeça e frequentemente não encontrou repouso nem mesmo na sua própria casa. A missão de fazer o bem e distribuir o óleo da alegria o consumiu inteiramente, e disso que ele extraiu forças. Ele não convocou ninguém para o jejum, mas para a festa; não estimulou a competição, mas a cooperação e o serviço recíproco. Eis nosso modelo! Eis nosso caminho!

Configurar-se a Jesus, Cabeça do Corpo e Pastor do rebanho

São João Paulo II nos ensina que os presbíteros são chamados a ser uma representação sacramental de Jesus Cristo enquanto Cabeça e Pastor. Recebemos a missão de “prolongar a presença de Cristo, único e sumo Pastor, atualizando o seu estilo de vida” e tornando-nos sua transparência no meio do rebanho que nos é confiado (cf. Pastores Dabo Vobis, § 15). Isso é imensamente belo, e terrivelmente comprometedor. Nossa inspiração é o Cristo Cabeça e Pastor, que sempre agiu como servidor.

Enquanto cabeça do corpo e pastor do rebanho, Jesus não age promulgando ordens ou despachando no escritório. Ele se aproxima de todos e chega aos que estão mais longe. Ele abre os braços a todos, consolando os aflitos, ungindo os doentes, ensinando os errantes, formando discípulos, percorrendo caminhos e chegando às casas, fazendo-se tudo para todos. Enquanto Cordeiro, ele dá sua vida para vencer o pecado do mundo.

São estas ações que o presbítero prolonga, é esse o estilo de vida que ele atualiza, e esse o rosto do qual ele é reflexo. Somos herdeiros de homens e mulheres que, diante das ameaças dos chefes de plantão, respondiam que deviam obediência a Deus, e não aos homens; de gente que extraiu força da própria fraqueza, que se manteve firme como se visse o invisível, que sabia em quem tinha depositado sua confiança.

Nossas promessas são também nossos desejos

Hoje renovaremos, diante do povo de Deus ao qual temos a alegria de pertencer, as promessas que fizemos no dia em que a Igreja nos ordenou. Mais que promessas, são desejos sinceros, metas que estabelecemos e buscamos. É porque conhecemos nossas fragilidades e desvios que as renovamos, confiando na ação da graça de Deus.

A primeira promessa e desejo é viver estreitamente unidos ao Senhor Jesus, renunciando a interesses egoístas, superando atitudes agressivas e evasivas e cultivando um amor maduro, concretizado no cuidado e na condescendência do Bom Pastor. Quem não desejaria isso? Que o Senhor complete em nós a obra que ele começou!

A segunda promessa e desejo é ser dirigentes criativos e fiéis das celebrações litúrgicas e da oração do Povo de Deus, agir inspirados no Cristo Cabeça e Pastor, que age como Servo, guiados sempre pelo amor e jamais pela ambição. Quem não desejaria isso? Que o Senhor complete em nós a obra que ele começou!

Artesãos de consensos

As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora afirmam que os presbíteros têm uma tarefa central na busca e encontro de consensos pastorais, tão importantes para uma caminhada sinodal (cf. DGAE, § 179). Os consensos nem sempre coincidem com a opinião da maioria, e são um tremendo desafio na tomada de decisões, pois supõem abandonar as divisões e diferenças e encontrar um ponto de concordância que possa unir a todos na missão comum.

Todos os segmentos e membros do Povo de Deus devem participar da formação dos consensos, para que possam assumi-lo em corresponsabilidade. Mas, no caminho da escuta e do diálogo em vista do encontro desse consenso, a atuação firme e respeitosa dos ministros ordenados é indispensável. Eles participam e, ao mesmo tempo, guiam os demais membros do povo de Deus nessa busca. A Igreja diocesana conta com essa qualidade na execução do novo Plano Diocesano de Evangelização.

Memória e missão

Fazer memória da graça da vocação presbiteral neste dia da Ceia do Senhor significa, como afirma Santo Agostinho, entrar num santuário amplo e sem limites. Não é a mesma coisa que conservar algo do passado, pois significa tornar sempre novo e atual o que aí está guardado. Somente fazendo esta memória é que podemos viver e reviver o que o Senhor nos entregou, diz o Papa Leão XIV.

E o Papa Leão continua: “A memória unifica o nosso coração no Coração de Cristo e a nossa vida na vida de Cristo, para que nos tornemos capazes de levar a Palavra e os Sacramentos da salvação ao povo santo de Deus, a fim de termos um mundo reconciliado no amor. Só no Coração de Jesus encontramos a nossa verdadeira humanidade de filhos de Deus e de irmãos entre nós”.

 Construtores de unidade e de paz

Num mundo marcado por crescentes tensões, inclusive no seio das comunidades eclesiais, o presbítero é chamado a promover a reconciliação e a gerar comunhão. Ser construtor de unidade e de paz significa servir sem impor-se. “A fraternidade sacerdotal torna-se um sinal crível da presença do Senhor Ressuscitado entre nós quando caracteriza o caminho comum dos nossos presbitérios”, diz o Papa.

“Ser construtores de unidade e de paz significa ser pastores hábeis na arte de compor os fragmentos de vida que lhes são confiados; ajudar as pessoas a encontrar a luz do Evangelho no meio das tribulações da existência; ser leitores sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos e das modas; oferecer propostas pastorais que regeneram a fé, construindo boas relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da fraternidade”. 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Uma lição formidável

Na Eucaristia, Jesus ensina a lição do servo

1038 | Quaresma | Semana Santa | Quinta | João 13,1-15

Com o lava-pés iniciamos a segunda parte do evangelho de João, que põe em cena a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Este mistério é introduzido pela última ceia, e a narração se estende por cinco capítulos, recheados de diálogos entre Jesus e seus discípulos sobre questões absolutamente centrais na vida cristã. 

Aproxima-se a festa da páscoa, e Jesus sabe que a sua hora chegou. Então, se reúne com seus discípulos numa refeição cálida e amistosa que, no costume judaico, precede a ceia pascal. Jesus tem plena consciência daquilo que está para acontecer. Ele não é um profeta ou um mestre surpreendido por acontecimentos inesperados, mas caminha soberano, consciente e livre para a entrega da própria vida.

Um novo personagem entra em cena e atua em Judas: o diabo. Então o amor de Jesus pela humanidade se torna duro e exigente combate. É neste momento que Jesus se despoja do manto da divindade e se reveste do linho da humanidade para conduzi-la e mantê-la na sua amizade.  O despojamento que se manifestou na encarnação em Belém e em Nazaré se radicaliza na ceia e na cruz em Jerusalém.

Abaixando-se para lavar os pés dos discípulos, Jesus antecipa o movimento da paixão e morte, sua descida “aos infernos”. De certo modo, ele repete o gesto de acolhida que Maria de Betânia havia feito a ele. Jesus se despoja da sua condição divina para nos acolher, e retoma à sua gloria na manhã da ressurreição.

Lavar os pés era um ofício degradante, um trabalho reservado aos escravos pagãos. Jesus lava nossos pés para que participemos da sua vida e missão de servo. Assim, entende-se a resistência insistente de Pedro, que quer manter as coisas na “ordem” de sempre. Mas, diante da insistência de Jesus, Pedro consente, inclusive pedindo com excesso. Mas o faz por obediência a um chefe, não por consciência.

Jesus não quer simplesmente demonstrar humildade. O que ele faz é rejeitar de forma contundente toda forma de superioridade e hierarquia que não valorize a dignidade de cada pessoa e perpetua a desigualdade. O amor e o serviço fraterno, especialmente aos mais vulneráveis, é o ensaio da vida cristã, a “prova dos nove” do amor a Deus. Reivindicar superioridades equivale a colocar-se acima de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe o gesto de Jesus, permita que ele lave seus pés, e, principalmente, entenda o que ele quer transmitir com isso

Por que Pedro resiste ao gesto de Jesus? Será que ele não quer defender sua própria superioridade e seu futuro lugar na hierarquia?

Por que nos custa tanto reconhecer a dignidade e os direitos humanos, a absoluta igualdade de todos os seres humanos?