sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Martírio de João Batista

João vai à frente de Jesus também no Martírio

1187 | Martírio de São João Batista | Marcos 6,17-29

A presença de João Batista nos evangelhos evidencia seus vínculos com Jesus Cristo. Além de preparar os caminhos para a missão de Jesus, o profeta do deserto e do rio Jordão antecipa em si mesmo o desfecho da missão de Jesus. Suas posições claras contra os desvios éticos do seu tempo, e a coragem com que enfrenta os poderosos de plantão, valeram-lhe a perseguição, a prisão e a decapitação.

No texto de hoje, o protagonista é Herodes. Ele é judeu, mas, como todas as elites sociais e políticas, cumpre a Lei da sua religião apenas quando lhe convém. Ele tem medo de Jesus, e pensa que ele é uma espécie de reencarnação de João Batista, a quem havia mandado matar. O delito de Herodes vai além do roubo da mulher do seu irmão e da conivência com a morte de João Batista. A presença dos grandes da Galileia na sua festa de aniversário revela a quem ele serve, e de quem depende.

Marcos nos apresenta uma caricatura deveras sarcástica de Herodes e das elites que o apoiam. As festas que promoviam davam asas às paixões incontroláveis e aos seus caprichos assassinos. Entre eles, como em toda a realeza, o casamento tinha fortes conotações de aliança para adquirir sustentação política. O juramento ou promessa de Herodes à filha da sua concubina revela o modo escuso como as elites tomam suas decisões políticas: matam para salvar a própria honra.

Diante de Herodes e seus bajuladores, João não se intimida, nem se cala, mas não é um homem apenas preocupado com o culto ou com a moralidade dos costumes. Uma leitura atenta dos evangelhos nos mostra um profeta engajado num movimento de mudança, no corte raso das instituições que encobrem injustiças e violências, e numa partilha radical. É nesse horizonte que ele enfrenta Herodes.

A narração do martírio de João Batista está inserida no capítulo 6 do evangelho de Marcos, onde a discussão é sobre a identidade de Jesus. Com isso, o evangelista evidencia o destino de todo aquele que anuncia e testemunha uma nova ordem social e religiosa. E, além de uma antecipação do destino de Jesus, o destino de João Batista soa aos discípulos de todos os tempos e latitudes como um forte alerta.

 

Sugestões para a meditação

Perceba a força política, social e religiosa da atuação corajosa de João Batista, profeta da Judeia que estende sua missão à Galileia

Como você e sua comunidade cristã tem se posicionado diante de um governo belicista e contrário aos avanços sociais no Brasil?

Como podemos evitar polêmicas religiosas parciais e estéreis, mas sem abandonar a necessária dimensão política da fé?

Você tem medo dos conflitos provocados pela atuação profética dos cristãos em nome do Evangelho? Por que?

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Lúcidos e vigilantes

A noite é escura, mas a madrugada está perto

1186 | Tempo Comum | Semana XXI | Sexta | Mateus 25,1-13

Na meditação sobre o evangelho de ontem, vimos que os discípulos sensatos são aqueles que ouvem e praticam o Evangelho, e, assim, constroem suas casas sobre a rocha. E isso significa importar-se com a vida e o bem-estar do próximo, mantendo acesa a chama da esperança, mesmo quando parece que nada acontece.

Com a parábola do evangelho de hoje, Jesus continua sua insistência na preparação e na prontidão para acolher e promover o Reino de Deus, mesmo quando ele parece demorar. O caminho do discipulado tem uma duração indeterminada, um fim imprevisível e um desfecho desconhecido. Supõe ânimo e disposição para perseverar na luta até o fim, sem a ânsia de que este fim aconteça logo.

A parábola das dez moças põe diante dos olhos da nossa imaginação dois grupos contrastantes de pessoas, ou duas atitudes contrastantes: o grupo das moças sensatas e prudentes; o grupo das moças desligadas e insensatas. Estes grupos representam todos os discípulos, homens e mulheres, de origem judia e de origem pagã. O foco da parábola são as moças, e não o noivo. Estranho é que a noiva não aparece...

Com o atraso do noivo para celebrar suas bodas, todas as dez moças dormem. Mas cinco delas, as moças sensatas, providenciam uma reserva de óleo. Estas representam o discipulado fiel, obediente e perseverante. As outras cinco são insensatas: ouvem o Evangelho e não o colocam em prática ou não o levam a sério. Com a demora ou a aparente insignificância dos sinais do Reino de Deus, o grupo das moças insensatas perde o foco e se perde no caminho. São como terreno ruim, no qual o Evangelho não consegue criar raízes nem frutificar.

Diante da complexidade do mundo e da lentidão dos processos de mudança, um falso realismo nos aconselha a “largar de mão” e deixar isso para os profissionais da política ou, pior ainda, aos tecnocratas da economia. E ocupar-nos da nossa saúde mental ou das práticas devocionais. É um sono tentador, e sem reserva de óleo...

A exortação de Jesus é que estejamos sempre prontos a encontrá-lo, reconhecê-lo e acolhê-lo, vigilantes no sonho do Reino e no serviço solidário aos irmãos e irmãs. Jesus e o Reino de Deus podem tardar, mas estão vindo! Que nada nos distraia diante da absoluta primazia da fraternidade e da solidariedade. “Ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora!”

 

Sugestões para a meditação

Retome calmamente as duas comparações que Jesus oferece sobre a correta atitude em tempos de espera e demora

O que você pode fazer para evitar que as comunidades cristãs fujam da responsabilidade com a transformação do mundo e se refugiem no moralismo?

Qual é o “óleo” que tem ajudado vocês a permanecer lúcidos e atenciosos, sal e fermento do Reino em tempos difíceis? 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Vigilância e solidariedade

A vida plena desejada por Deus depende de nós

1185 | Tempo Comum | Semana XXI | Quinta | Mateus 24,42-51

Estamos refletindo sobre as críticas e denúncias de Jesus contra os dirigentes do templo e do judaísmo como um todo. Depois de uma longa e dura crítica aos fariseus e mestres da lei, circulando e pregando em Jerusalém, nas proximidades do templo, Jesus anuncia a total destruição do templo e do poder dos impérios, assim como dos sinais e sofrimentos que a acompanham (23,33 a 24,35).

Mas Jesus não cede às especulações, e não fala da data em que isso acontecerá. Em vez disso, Jesus chama seus discípulos à vigilância e a fazer o possível para estarem sempre devidamente preparados. Parece que, com o passar do tempo e com a demora do esperado retorno de Jesus e da consequente consolidação do Reino de Deus, a comunidade dos discípulos corria o risco de cair na penitência rigorosa e excessiva, ou então desanimar e abandonar toda e qualquer esperança.

Por isso, Jesus insiste que é preciso viver o dinamismo discreto, mas efetivo, do Reino de Deus em meio a situações complexas e difíceis. Ele jamais deu a entender que a aventura de seguir seus passos e de participar da sua missão de edificar o mundo a partir do seu Evangelho seria um mar de rosas. Esperar com lucidez o reino de Deus significa vigiar mantendo a atitude de serviço, inspirada no seu próprio modo de viver, fecundada e sustentada por essa utopia.

Para ilustrar a atitude correta, Jesus recorre à metáfora do ladrão e à parábola do servo fiel. Como o ladrão, o reino de Deus e Jesus chegam quando ninguém espera. Por isso, os discípulos precisam se comportar como o servo fiel e sensato, que, na ausência do patrão, cumpre fielmente sua missão de servir seus companheiros.

Ao mesmo tempo, Jesus reprova a postura do empregado que, diante da demora do patrão, pensa unicamente em seus próprios interesses e age com descaso ou violência em relação aos demais. Tais discípulos são equiparados aos hipócritas (fariseus e mestres da lei) que Jesus denunciara anteriormente.

Os discípulos sensatos são aqueles que ouvem e praticam o Evangelho, e, assim, constroem suas casas sobre a rocha. E isso significa importar-se com a vida e o bem-estar do próximo – pois todas as vidas importam! –, mantendo acesa a chama da esperança, mesmo quando parece que nada acontece ou nada vale a pena.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Retome calmamente as duas comparações que Jesus oferece sobre a correta atitude em tempos de espera e demora

O que você pode fazer para ajudar a evitar que as comunidades cristãs fujam da sua responsabilidade de mudar o mundo e antecipar o reinado de Deus?

Lembre o exemplo de tantas pessoas, de ontem e de hoje, que esperaram e preparam responsavelmente o futuro esperado

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hipocrisia

O cristão precisa ser coerente e transparente

1184 | Tempo Comum | Semana XXI | Quarta | Mateus 23,27-32

Nos últimos dias, estamos refletindo sobre as críticas e denúncias de Jesus contra os mestres da lei e fariseus. O evangelista fala dos fariseus, mas pensa nos discípulos de Jesus e nas comunidades dos anos 80 da era cristã. Ele quer alertar e chamar à conversão e à coerência os discípulos de todos os tempos. No texto de ontem, Jesus já apresentou uma série de “ais” ou maldições contra os líderes religiosos.

No texto de hoje, temos a sexta e a sétima “maldições”, que dão continuidade e completam as cinco primeiras. Na primeira das duas, Jesus denuncia a incoerência entre a aparência que ostentam e a realidade concreta da vida dos escribas e fariseus. Na segunda, afirma que, mesmo maquiando e buscando mil disfarces, eles continuam a tradição assassina dos seus antepassados, perseguindo e eliminando os profetas para depois chorar na sepultura deles ou incensa-los cinicamente.

Jesus usa uma imagem bem conhecida dos seus conterrâneos e contemporâneos. Acuados pela busca da quase impossível pureza cultual, os judeus pintavam as sepulturas para que ninguém corresse o risco de se contaminar pisando inadvertidamente sobre os cadáveres. Mas Jesus muda um pouco o sentido dessa imagem, e diz que os fariseus e mestres da lei são como sepulturas enfeitadas para esconder o mal e a podridão que eles mesmos alimentam e guardam dentro de si.

Além disso, ao enfeitar as tumbas dos profetas e recordar o destino deles, em vez de fazê-lo para honrar os profetas fazem-no para esconder a violência com a qual perseguem os profetas do seu tempo, João Batista e Jesus à frente, e os discípulos depois. Para Jesus, com esta prática eles não apenas continuam a história de violência dos antepassados, mas a completam e levam ao ponto mais alto. Por isso, Jesus associa as suas cidades aos lugares mais detestados pela memória histórica do judaísmo, símbolos de fechamento e violência: Tiro, Sidônia e Sodoma.

Ser cristão é ser discípulo de Jesus, assimilar sua escala de valores e seu modo de viver. A preocupação fundamental de quem se põe atrás de Jesus não pode ser a pureza ritual e exterior, mas a pureza de mente e de coração, a retidão nas decisões e projetos que assume. Afinal, Jesus não pede mais orações, sacrifícios e cultos, mas uma justiça maior que a dos fariseus. Ser cristão é ser diferente, transparente e coerente com Jesus Cristo e seu Evangelho. O alerta está dado!

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure ler ao contrário: o que Jesus e o Reino de Deus pedem ou esperam daqueles que seguem este caminho

Seguindo o que fala Jesus, você seria capaz de identificar as principais incoerências e contradições dos líderes cristãos e políticos de hoje?

Você seria capaz de identificar e dar nome às contradições e incoerências que rondam você, sua família e sua comunidade em relação ao Evangelho de Jesus?

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Misericórdia acima dos interesses

Nada pode estar acima da misericórdia

1183 | Tempo Comum | Semana XXI | Terça | Mateus 23,23-26

Estamos acompanhando a atuação de Jesus em Jerusalém, onde ele se confronta com o templo e é atacado pelos sacerdotes, pelos mestres da lei e pelos fariseus. Jesus faz uma série de críticas aos fariseus e escribas, que começa no versículo 1º do capítulo 23: eles não fazem o que ensinam e, além disso, impõem pesados fardos ao povo e estão atrás de reconhecimento e notoriedade.

O texto de hoje faz parte de uma série de sete “maldições” ou críticas que Jesus dirige a eles por excluírem o povo do Reino de Deus, por fazerem dos convertidos cidadãos e crentes piores que eles mesmos, por serem guias cegos e por falsificarem a Palavra de Deus em benefício de seus interesses. No pequeno texto de hoje temos a quarta, a quinta e a sexta maldições ou críticas de Jesus a eles.

Na quarta maldição, Jesus acusa os escribas e fariseus de praticar e ensinar uma visão parcial da vontade de Deus, pois eles fazem e ensinam muitas pequenas coisas, mas ignoram a justiça e a misericórdia, que estão no centro do coração de Deus. Assim, eles não são como cegos que se oferecem para guiar outros cegos. Dão importância aos detalhes e fazem menos caso da compaixão.

A quinta e a sexta maldição acusam esses líderes de incoerência e hipocrisia, pois vivem de aparências e disfarçam a ambição, o roubo e a violência que se escondem dentro deles que movem tudo o que fazem. Roubo significa pilhagem violenta, e cobiça é descontrole na posse, no sexo e nas acusações injustas. Segundo Jesus, o centro da vida dos fariseus e doutores da lei está nas coisas e não nas pessoas.

A dura crítica de Jesus é originalmente dirigida aos fariseus e mestres da lei, mas, muitos anos depois, quando Mateus escreve o evangelho, quem está em questão são os discípulos e discípulas de Jesus. É uma crítica recordada e atualizada “para o consumo interno” da comunidade, visando a conversão e a coerência de vida dos discípulos do final do primeiro século e de hoje.

Na condição de discípulos missionários, precisamos estar atentos ao risco da incoerência e da hipocrisia, pois elas não são privilégio dos fariseus. Ou será que às vezes, por trás de palavras formais e gentis, não se esconde um arrogante desprezo? E será que tantas picuinhas e regras que apregoamos não matam a compaixão?

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure ler ao contrário: o que Jesus e o Reino de Deus pedem ou esperam daqueles que seguem este caminho

Seguindo o que fala Jesus, você seria capaz de identificar as principais incoerências e contradições dos líderes cristãos e políticos de hoje?

Você seria capaz de identificar e dar nome às contradições e incoerências que rondam você, sua família e sua comunidade em relação ao Evangelho de Jesus?

domingo, 23 de agosto de 2026

Nosso grito

Mulheres vivas e soberania, eis nosso grito!

No dia 18 de agosto aconteceu, em Porto Alegre, o lançamento da 32ª edição do Grito dos Excluídos e do Manifesto por um Rio Grande Decente. O evento esteve sob a responsabilidade da Comissão das Pastorais Sociais da CNBB Sul 3, em parceria com os movimentos populares e algumas Igrejas. O espaço escolhido foi a Assembleia Legislativa, e a sala que nos acolheu não poderia ter um nome mais sugestivo: Espaço Democrático.

O Grito dos Excluídos nasceu da sensibilidade social de algumas Igrejas Cristãs e organismos que cuidam da dimensão social da fé. Desde sua primeira edição, vem sendo realizado no dia 7 de setembro. A data não é uma escolha fortuita, pois lembra que, ao grito de Dom Pedro I pela independência política e administrativa do Brasil, somam-se muitos gritos que clamam pelo resgate das dívidas sociais do Estado brasileiro.

Aos cristãos e cidadãos que estranham ou questionam o que chamam de “indevida intromissão” das Igrejas nas questões sociais”, lembramos que o judaísmo, do qual somos herdeiros, nasceu do grito dos hebreus oprimidos que clamaram a Deus e foram por ele ouvidos. E permaneceu vivo e se renovou na medida em que os profetas e profetizas emprestaram suas vozes aos gritos dos pobres, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros.

O cristianismo também nasceu em torno do Enviado de Deus que, na cruz cravada fora dos muros que protegiam os “cidadãos de bem”, juntou seu grito ao de dois condenados e ao clamor de milhões de homens e mulheres não reconhecidos como cidadãos e sujeitos de direitos. Leprosos, cegos, leprosos, mendigos, crianças e pessoas de boa vontade se reconheceram no grito de Jesus e fizeram dele um grito de vitória coletiva: o Evangelho!

Nossas Igrejas precisam ser fiéis ao seu DNA cristão, fazendo ressoar os gritos das vítimas de hoje, abrindo-lhes espaços nos templos, ruas, parlamentos e praças. Elas nasceram para incomodar, para sacudir o comodismo. Afinal, o Filho de Deus a quem seguimos é sinal de contradição e veio para incomodar (Lucas 2,34). Não podemos ignorar ou silenciar os gritos dos excluídos, esperando que as pedras gritem por eles (Lucas 19,4).

Na Semana da Pátria nosso grito será “Vida em primeiro lugar!” Na defesa da paz e da moradia, façamos ressoar a nossa voz: “Mulheres vivas e soberania!” Esse grito adquire maior relevância no contexto de um estado machista e violento (80 feminicídios em 2025 e 60 em 2026), e de um momento nacional em que líderes despudorados querem sacrificar a soberania de um povo no altar de um poder fugaz e vantajoso para poucos.

Uma pergunta decisiva

UMA PERGUNTA DECISIVA

«E vós, quem dizeis que eu sou?» Esta pergunta de Jesus não se dirige apenas aos seus primeiros seguidores. É a questão fundamental à qual devemos responder sempre os que nos confessamos cristãos.

A nossa primeira reação pode ser encontrar rapidamente uma resposta doutrinal e confessar de forma rotineira que Jesus é o «Filho de Deus encarnado», o «Redentor» do mundo, o «Salvador» da humanidade. Títulos todos eles muito solenes e ortodoxos, sem dúvida, mas que podem ser pronunciados sem qualquer conteúdo vital.

A pergunta de Jesus não nos pede simplesmente a nossa opinião. Interpela-nos, sobretudo, sobre a nossa atitude perante Ele. E esta não se reflete apenas nas nossas palavras, mas sobretudo no nosso seguimento concreto. Como escreveu um teólogo: «A breve proposição: “Eu creio que Jesus é o Filho de Deus”, significa algo completamente diferente se for pronunciada por Francisco de Assis ou por um dos atuais ditadores sul-americanos. O Deus desses homens não é o mesmo, ou, pelo menos, o Deus que cada um invoca para orientar a sua conduta».

As palavras de Jesus exigem uma opção radical. Ou Jesus é para nós apenas mais uma figura entre tantas da história, ou é a Pessoa decisiva que nos oferece a compreensão última da existência, dá a orientação fundamental à nossa vida e nos oferece a esperança definitiva.

A pergunta «quem dizeis que eu sou?» adquire então um novo conteúdo. Já não é uma questão sobre Jesus, mas sobre nós mesmos. Quem sou eu? Em quem acredito? A partir de onde oriento a minha existência? Em que se resume a minha fé?

Todos devemos recordar que a fé não se identifica com as fórmulas que pronunciamos. Para compreender melhor o alcance do «que eu creio», é necessário verificar como vivo, o que aspiro, em que me comprometo.

Por isso, a pergunta de Jesus, mais do que um exame da nossa ortodoxia, deveria ser um apelo a um estilo de vida cristão. Evidentemente, não se trata de dizer ou acreditar qualquer coisa sobre Cristo. Mas também não se trata de fazer solenes profissões de fé ortodoxa para depois viver muito longe do espírito que essa mesma proclamação exige e implica.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Apóstolo Bartolomeu

Jesus é o abraço eterno entre Deus e o Homem

1182 | Festa de São Bartolomeu, Apóstolo | João 1,45-51

A tradição cristã sempre viu em Natanael a figura de Bartolomeu, cuja festa celebramos hoje, e que é um dos discípulos e apóstolos de Jesus. A cena conta o final de uma corrente de encontros e testemunhos que reúne em torno de Jesus o primeiro grupo de discípulos. A notícia da novidade de Jesus corre como um fio de pólvora e incendeia a imaginação utópica dos mais pobres.

É assim que Filipe procura Natanael para lhe comunicar sua marcante experiência no encontro com Jesus. Ele fala em nome da pequena comunidade, e suas palavras revelam que ainda não conhecem Jesus em profundidade. Mas são movidos pelo desejo de entrar na vida de Jesus e desvendar o mistério de sua pessoa. E esse desejo os leva a arriscar tudo pelo tesouro de uma vida plena de sentido.

Filipe apresenta Jesus como “o filho de José, de Nazaré”, em quem reconhece “Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e também os profetas”. A vila de Nazaré é uma região periférica da Palestina de então, habitada por um povo mestiço, tanto do ponto de vista étnico como religioso. Por isso, como judeu, Natanael não consegue conectar o Messias com essa região. De Nazaré só pode vir coisa ruim.

Filipe convida Natanael a fazer a experiência de conviver com Jesus, e ele se aproxima. Mas Jesus o havia visto e fixado seu olhar nele bem antes, e elogia sua autenticidade, inclusive na atitude preconceituosa que compartilha como judeu. Natanael representa o resto fiel do povo de Israel, que só consegue ver em Jesus um mestre ao estilo dos fariseus e um messias nos moldes de rei.

Aqui temos a primeira declaração solene de Jesus sobre si mesmo no evangelho segundo João: ele é o humano (“Filho do Homem”) que possibilita o encontro e a comunicação plena e permanente de Deus com a humanidade. Ele se apresenta como presença de Deus no Ser humano, enquanto que Natanael ainda separa Homem e Deus. Deus não se manifesta na realeza de Davi, mas na plenitude humana.

Com Natanael e os demais discípulos, somos convidados a fazer a experiência do olhar de Jesus fixado amorosamente em nós e de caminhar com ele, aprendendo e participando da sua vida. Dele e de quem nos apresenta ele, somos convidados a “ir e ver”. Como ele, nunca mais esqueceremos o momento do encontro!

 

Sugestões para a meditação

Participe afetivamente da cena: do comunicado de Filipe, da reação de Natanael, do encontro com Jesus

Acolha uma a uma as palavras e comparações de Jesus, e penetre no sentido profundo e espiritual que elas têm

Aceite o olhar fixo e amoroso de Jesus, convidando a fazer a passagem dos lugares comuns a uma experiência transformadora

sábado, 22 de agosto de 2026

Quem sou eu para você?

Que lugar Jesus Cristo ocupa na sua vida?

1181 | Tempo Comum | Semana XXI | Sexta | Mateus 16,13-20

O nome da cidade Cesaréia é uma homenagem de um rei vassalo ao imperador e colonizador César Augusto e mexia com a questão da soberania e da submissão política dos judeus nacionalistas. E a primeira pergunta que Jesus dirige aos discípulos, justamente neste lugar carregado de significado político.

Jesus pergunta: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” A expressão com a qual Jesus se refere a si mesmo destaca os vínculos de Jesus com humanidade, e é o título que ele prefere e usa com mais frequência. Conhecedor da ambiguidade dos conceitos, Jesus evita referir-se a si mesmo como Filho de Deus ou Messias.

A resposta dos discípulos vincula Jesus claramente ao movimento profético. O povo identifica a ação e a pregação de Jesus com a missão dos grandes profetas da sua tradição, aqueles homens e mulheres que falavam e agiam em nome de Deus e defendiam os direitos dos sem-direitos: Elias, Jeremias, João Batista.

Jesus escuta a resposta dos discípulos, mas não comenta. Ele olha os discípulos nos olhos e pergunta-lhes enfaticamente: “E vocês, quem dizem que eu sou?” O que interessa a Jesus são as ideias, fantasias e expectativas que povoam a mente e o coração dos homens e mulheres que seguem seus passos e escutam suas palavras.

A pergunta toca direto nas expectativas que eles alimentam sobre Jesus, e coloca em questão a relação que tem com ele. No fundo, Jesus pergunta “que lugar eu ocupo na vida, no projeto e nas opções de vocês?” A resposta deve vir da vida pessoal e eclesial; está inscrita nas nossas práticas, relacionamentos, opções e utopias.

Pedro rompe o silêncio e fala em nome de todos: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. É uma afirmação de fé, que reconhece que aquele ser humano concreto que se compadece da multidão faminta e elogia a fé de uma mulher pagã, é o Ungido pelo Espírito Santo, o enviado de Deus para realizar seu projeto.

A resposta de Pedro não nasce dos medos ou desejos infantis de onipotência, nem é ensinada pelos doutores de plantão. O reconhecimento e a fé num Deus presente na carne humana é dom de Deus aos pequenos. Jesus reage chamando Pedro de rocha, pois é sobre essa adesão de fé que ele confia a continuidade da sua missão. Esta adesão se torna chave que abre e fecha portas.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Procure esquecer as respostas aprendidas e responda à pergunta de Jesus dizendo o lugar que ele ocupa na sua vida, e como ele influi nas suas relações, ações e opções

Recorde as consequências e incidências que esta resposta tem na sua vida e na vida da sua comunidade

Deixe ressoar em você a palavra de Jesus: “Feliz és tu, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai!”

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Rainha?

Maria é uma Mulher humana, madura e livre

1180 | Bem-aventurada Virgem Maria Rainha | Lucas 1,26-38

No contexto da caminhada do tempo comum, poucos dias depois da solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebramos a festa de Nossa Senhora Rainha, mesmo que o título ressoe estranho e ultrapassado. E o texto do evangelho segundo Lucas ilumina esta solenidade mariana. Maria é cheia de graça, mas essa graça ela a recebe do Filho que protege e alimenta no seu ventre e compartilha conosco.

Nesta cena, o papel central é desempenhado pelo Anjo Gabriel, e o clima é de intenso júbilo. O Mensageiro de Deus saúda Maria com uma expressão que pode ser traduzida por “Esteja bem!” ou “Tudo de bom!” O anjo prossegue dizendo que o “charme” (graça) dela encantou o próprio Deus, e que ele gosta de estar com ela. Mas isso terá suas consequências, pois Maria terá que mudar os planos que traçara, e participará da dor e da glória do seu filho.

É claro que o anjo Gabriel não está se referindo à eventual formosura física de Maria de Nazaré. Ele fala da sua humanidade, original e sem pecado, como a criação perfeita sonhada e saída das mãos de Deus. Ela é a imagem da humanidade como Deus imaginou, a pessoa humana na qual brilha a sua imagem: uma pessoa sem dobras, sem ambiguidades, inteira e íntegra, sempre e em tudo o que faz.

Acolhedora, disponível e serviçal, Maria não é mulher passiva, um ser humano sem personalidade e sem iniciativa. Antes, mostra-se uma pessoa atenta e reflexiva. Ela pede explicações, quer compreender, interroga até o próprio mensageiro de Deus. E descobrirá lentamente a bela ação que Deus realiza nela e através dela, dando prioridade e grandeza aos humildes e marginalizados.

Dizendo que “o poder do altíssimo a cobrirá com sua sombra”, o Anjo se refere à nuvem que escondia e manifestava a glória de Deus no êxodo, e apresenta Maria como tenda da presença de Deus no mundo. E o filho que dela nascerá – o fruto bendito do seu ventre – abrirá o caminho de um novo êxodo para uma nova terra.

E o próprio anjo antecipa traços do filho de Maria: ele será grande, será chamado filho do altíssimo, santo, filho de Deus, e herdará o espírito do pastor Davi. No nome que lhe será dado, está sua missão: Deus é salvação. Isso significa que, em Jesus, Deus não se mostrará juiz ou legislador, mas libertador dos oprimidos.

                                                                        

Sugestões para a meditação

Observe o que o anjo antecipa sobre Jesus de Nazaré, o filho recém-anunciado a Maria, razão de ser da nossa espera e da nossa alegria

Deixe ressoar em você as palavras do Mensageiro: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Não tenhas medo! Encontraste graça diante de Deus!”

Acolha estas palavras como fundamento da sua vocação de ser íntegro e irrepreensível e da missão na Igreja e no mundo