sábado, 1 de agosto de 2026

Mesa é partilha

COMO ABENÇOAR A MESA?

Quase sem nos darmos conta, e empurrados por diversos fatores, fomos desumanizando pouco a pouco esse gesto tão íntimo e humano que é sentar-se à mesa para comer juntos.

A refeição tornou-se, para muitos, algo puramente funcional que é necessário organizar de forma rápida e precisa dentro do dia de trabalho. Cada vez é mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar à volta da mesa. Em muitos lares, essa mesa feita para ser rodeada já não serve para que pais e filhos se encontrem, partilhem as suas vidas, conversem e descansem juntos.

Outros vão-se habituando a alimentar o organismo em refeições impessoais de restaurantes ou no canto do self-service de turno. Muitos são obrigados a participar em refeições protocolares ou de trabalho, onde o gesto amistoso de comer juntos é substituído pelo interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus ao convidar as pessoas a recostarem-se para partilhar uma refeição simples, bendizendo a Deus pelo pão recebido, pode ser um apelo para nós. Como expõe com riqueza Xabier Basurko no seu estudo “Partilhar o pão”, comer é muito mais do que introduzir uma determinada dose de calorias no organismo.

A necessidade de nos alimentarmos é, antes de mais, sinal da nossa indigência radical. De forma obscura, os seres humanos percebem que não se sustentam a si mesmos. Na verdade, vivemos recebendo, nutrindo-nos de uma vida que, através da terra, nos é oferecida dia após dia. Por isso é um gesto profundamente humano recolher-se antes de comer para agradecer a Deus esses alimentos, fruto do esforço e trabalho do homem e, ao mesmo tempo, dom originário do Deus criador que sustenta a vida.

Mas, além disso, comer não é apenas um ato individualista de caráter biológico. O ser humano está feito para comer com outros, partilhando a mesa com familiares e amigos. Comer juntos é confraternizar, dialogar, crescer em amizade, partilhar o dom da vida.

Por isso é tão difícil dar graças a Deus quando se tem mais comida do que a necessária enquanto outros sofrem miséria e fome. Sentimo-nos acusados por aquelas palavras de Gandhi: «Tudo o que comes sem necessidade estás roubando ao estômago dos pobres».

Talvez nos países do bem-estar tenhamos de aprender a benzer a mesa de outra forma: dando graças a Deus, mas, ao mesmo tempo, pedindo perdão pela nossa falta de solidariedade e tomando consciência da nossa responsabilidade perante os famintos da Terra.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O profeta e o Rei

 

Os profetas revelam a fraqueza dos poderosos

1159 | Tempo Comum | Semana XVII | Sábado | Mateus 14,1-12

A notícia sobre a trama que levou o profeta João Batista à morte não é uma espécie de parênteses sem relevância na descrição da pregação e da missão de Jesus, embora possa parecer isso. O episódio é uma antecipação daquela que seria a sorte de Jesus e um alerta aos discípulos: eles precisam ser lúcidos e corajosos, não fechar os olhos frente à prepotência e não ter medo.

Herodes é um político judeu que exerce um poder limitado, concedido ou, pelo menos, tolerado pelo imperador de Roma e a serviço dele. É um príncipe pequeno e insignificante, que entra em colisão com o Reino de Deus anunciado por Jesus e age com prepotência contra seu irmão, se apossando de sua esposa. É contra essa prepotência, e contra outros desmandos e injustiças que reinavam na corte, na sociedade e no judaísmo, que João Batista se levanta corajosamente.

Mateus deixa claro que Herodes deseja eliminar o incômodo profeta. Ele teme que a pregação de João acabe provocando uma revolta popular, e, dada a popularidade que desfruta, tem que esperar a ocasião perfeita, para não perder completamente o apoio do povo. E a ocasião se lhe oferece numa festa que reúne a elite masculina do seu reino e chama mulheres como parte da diversão e das orgias. Dançar no meio dos homens significava insinuar-se o oferecer serviços sexuais.

E João Batista, que não come nem bebe, acaba tendo o seu destino definido numa festa com comida, bebida e dança. Atendendo ao pedido de sua mulher, Herodes valoriza mais os códigos de honra da família patriarcal que os mandamentos de Moisés. Herodes é o responsável pela morte de João, pois há tempos desejava matá-lo. Sua mulher não tinha poder para tanto. Herodes se aproveita da situação, inclusive do pedido dela, para eliminar um crítico incômodo e assegurar a benevolência do império romano.

Jesus é informado do desfecho da vida do profeta e amigo, mas isso não o intimida, nem diminui sua fidelidade no anúncio e na construção do Reino de Deus. Antes, ele colhe essa ocasião para perceber e sublinhar a urgência e a relevância da sua missão. Por mais belas e estimulantes que sejam as parábolas do Reino de Deus, a sua realização encontra violenta resistência.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esse relato, e perceba o papel de cada personagem na execução de João Batista

Recorde o nome de profetas e profetizas que marcaram a vida dos cristãos nos últimos tempos

Deixe-se estimular e motivar pelo testemunho de João Batista e dos profetas e profetizas que você recordou

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O poder do preconceito

O preconceito impede as ações libertadoras

1158 | Tempo Comum | Semana XVII | Sexta | Mateus 13,54-58

Depois de uma longa seção dedicada ao anúncio do Reino de Deus às multidões em forma de parábolas, e depois de algumas catequeses especiais dirigidas aos discípulos, Jesus volta à sua terra e vai à sinagoga de Nazaré, onde seus amigos e familiares costumavam se reunir. A notícia da sua ação emancipadora, assim como a clareza e a pertinência do seu ensino, impressionara a todos.

Mas também nessa ocasião e nesse episódio emerge a dificuldade que os diversos grupos de interlocutores têm de reconhecer na ação e no ensino libertário de Jesus a ação libertadora de Deus. Essa dificuldade para discernir a identidade de Jesus é abordada por Mateus do capítulo 11 ao capítulo 16 da sua versão do Evangelho, mas o que surpreende é que ela se estende também aos seus conterrâneos e familiares.

O povo da cidade de Nazaré, mesmo se encantando e admirando com ensino e com o poder transformador das ações de Jesus, acaba tropeçando nos preconceitos próprios das pequenas cidades e das pessoas que o conhecem de perto. Seus conterrâneos começam a se perguntar onde ele teria encontrado tal sabedoria e tal poder, já que tem uma origem humilde e não pertence a uma elite cultural ou religiosa. Eles não conseguem defini-lo fora do seu contexto familiar. Para eles, o enviado de Deus deveria vir de cima, e não de baixo; do centro, e não da periferia.

Para o senso comum, no qual se moviam o povo de Nazaré e a família de Jesus, a origem humilde e o fato de ser filho de carpinteiro impede que Jesus possa ser o ungido e enviado por Deus. A sinagoga acaba sendo o joio no meio do trigo, e a querida Nazaré acaba se comportando como Corazim, Betsaida e Cafarnaum, povoados que se fecharam à novidade escandalosa e provocativa do Reino de Deus.

Jesus interpreta a rejeição dos seus familiares e conterrâneos no horizonte da histórica resistência e perseguição que se voltam contra todos os profetas. E esta notória falta de fé do povo de Nazaré acaba impedindo a ação libertadora de Jesus na sua própria cidade. Como sabemos, a fé não é uma reação de convencimento diante de um fato miraculoso, mas uma atitude de abertura que precede o milagre.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida, e em que ocasiões, você também foi vítima do preconceito das pessoas mais próximas e conhecidas?

Não aconteceu de você se escandalizar diante da Palavra ou da ação de Jesus? Nestas circunstâncias, o que você faz?

Como Jesus Cristo e seu Evangelho podem nos ajudar a não reduzir as pessoas aos seus erros, à profissão que exerce ou à origem familiar?

Será que a mentalidade fechada e o preconceito às vezes também não nos impedem de crer em processos de mudança?

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A história dos peixes na rede

O Reino de Deus é belo, precioso e exigente

1157 | Tempo Comum | Semana XVII | Quinta | Mateus 13,47-53

Jesus termina a sessão das parábolas do Reino de Deus demonstrando sua preocupação em ser entendido pela multidão e com uma boa formação para os discípulos: “Compreendestes tudo isso?” “Tudo isso” se refere às parábolas e ao dinamismo do Reino de Deus e ao seu ensino como um todo. Ele sabe que entre a escuta e a compreensão há um longo caminho de conversão a ser percorrido. E nós também sabemos que a conversão é um dinamismo belo, mas exigente.

Compreender significa aderir à Boa Notícia do Reino de Deus e colocá-la em prática, e Jesus tem plena consciência do risco de que seus ouvintes não consigam ou não queiram mudar sua mentalidade e visão de Deus e do mundo. E os fatos posteriores mostrarão as dificuldades reais dos discípulos em compreender e mudar. O caminho da conversão de mentalidade é longo e exigente!

Com a explicação da parábola da rede que pega uma grande diversidade de peixes, peixes bons e peixes ruins, Jesus volta à questão das práticas de vida contrastantes, tanto na sociedade como na comunidade dos discípulos e discípulas. Os peixes maus ou inaproveitáveis são as pessoas, grupos e setores que resistem aos propósitos de Deus manifestados por Jesus; os bons são os discípulos que perseveram no longo e complexo caminho do amadurecimento.

A tentação do fundamentalismo e da separação dos discípulos, que se julgam bons e puros, dos outros, considerados maus, é permanente, assim como o risco de ficar nas velhas tradições herdadas, nas “antigas lições de viver pela pátria e viver sem razões”. Cada nova geração precisa entender claramente a dinâmica do Reino de Deus na história, que comporta tensões, ambivalências, imperfeições, crescimento. Mas, no final, o mal e os malvados não terão a última palavra.

Tonar-se discípulo de Jesus implica em compromisso real e consequente com ele e na disposição para aprender sempre, para mudar e alargar a visão e os padrões de avaliação. Jesus é o próprio modelo do especialista na Palavra, que sabe tirar coisas velhas e novas desse tesouro, mais coisas novas que coisas velhas. Os valores precisam manter a capacidade de iluminar os novos problemas e os novos desafios. O que é velho, bom, permanente e não muda é somente a misericórdia e a compaixão de Deus. Nisso, Deus continua sempre o mesmo, e não muda!

 

Sugestões para a meditação

Como o sentido dado por Jesus à parábola da rede ilumina nossas urgências e estimula nossa paciência com quem se mostra lento ou resistente às mudanças?

Que luzes a imagem da rede que recolhe peixes bons e ruins traz para nossa convivência familiar, comunitária e social?

Como conjugar paciência com urgência, evitando criminalizar ou excluir quem diverge ou se opõe a nós?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Marta, Maria e Lázaro

Betânia é a casa dos pobres e dos amigos

1156 | Memória de Marta, Maria e Lázaro | João 11,19-27

Marta, discípula e amiga de Jesus, é mais conhecida pela passagem de Lucas, onde ela aparece atazanada com os afazeres domésticos e reclamando da passividade de Maria, sua irmã, empenhada na escuta de Jesus. Ambas moram em Betânia e são irmãs de Lázaro. Este núcleo de amizade fraterna é frequentado com gosto por Jesus. O texto ilumina a memória dos três santos, que o Papa Francisco propôs à Igreja.

A cena de hoje faz parte de um conjunto literário maior, que relata a enfermidade, a morte e o reerguimento de Lázaro. O pequeno fragmento oferecido à meditação de hoje começa com um clima de desolação e lamentação. A desolação é ainda maior porque todos sabem que Jesus fora avisado da enfermidade do amigo, e não quis mudar sua agenda a tempo de chegar para curá-lo. Os judeus se mostram amigos de Marta e Maria, e chegam para consolar as duas irmãs pela morte de Lázaro.

Marta sai ao encontro de Jesus ainda na estrada, e começa o diálogo manifestando sua dor e censurando-o: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido...” Ela espera de Jesus um benefício, pois o considera um potente curador. Não sabe o que significa o seu amor, e vê Jesus como apenas um mediador poderoso da ação de Deus. Sua crença na ressurreição é para o final dos tempos. Sua adesão a Jesus é imatura, parcial e insuficiente, como a dos demais discípulos.

A passagem da morte para a vida se dá no encontro pessoal e profundo com Jesus e na adesão de fé a ele. Porque Jesus é Vida, a morte não tem poder sobre ele e sobre quem acredita nele. O “último dia” é antecipado na cruz, do alto da qual ele abraça a humanidade sem excluir ninguém, e derrama seu Espírito de vida. Quem recebe o Espírito de Deus e se deixa mover por ele não conhecerá a morte nem o medo.

Marta percebe que a crença tradicional não é suficiente e pronuncia uma bela profissão de fé: Jesus é vida e ressurreição, o Ungido e Filho de Deus, enviado para que todos tenham vida. Assim, ela chega à maturidade da fé, e não lamenta mais a morte, porque conhece a Vida. E, como discípula missionária que chegou à maioridade, ela nos ensina o valor da acolhida fraterna no seguimento de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Você se reconhece no lamento de Marta, que se interroga porque Jesus não evita ou remedia certas situações dolorosas?

Você crê firmemente que aderir a Jesus é passar da morte para vida já agora? Como você expressa essa fé e essa adesão a ele?

Como acolher a fé na ressurreição como dinamismo de esperança e compromisso histórico, e não como desprezo da história concreta?

O que você está disposto a colocar hoje nas mãos de Jesus para que ele ajude a diminuir o sofrimento do seu povo?

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O trigo e o joio

A História é a arena da esperança e da luta

1155 | Tempo Comum | Semana XVII | Terça | Mateus 13,36-43

Sabemos que as parábolas têm as características da sabedoria popular, usa imagens da experiência cotidiana, e exige o engajamento do ouvinte na interpretação. Nisso, são diferentes das alegorias, que buscam uma certa equivalência ou correspondência e sentido específico para cada um dos termos. Conforme Mateus, na explicação, pedida pelos discípulos, Jesus faz uma leitura alegórica da parábola do trigo e do joio, considerando as demandas e conflitos da sua comunidade.

Notemos que esta é apenas uma entre as diversas interpretações possíveis da parábola, e o interesse está na oposição que o Reino de Deus enfrenta. É uma explicação dada em casa, no espaço das relações pessoais e de aprofundamento do seu ensino. A explicação se detém em oito aspectos, que não são os únicos. Há um fio condutor: o mal e sua oposição à novidade do Reino de Deus faz parte da condição humana mas tem seus dias contados, não se estenderá para sempre.

Jesus, o Filho do Homem, espalha a semente do Reino de Deus, que é boa e se concretiza nos discípulos que o seguem. O campo não se restringe ao coração das pessoas, mas é o mundo (a vida e as estruturas econômicas, políticas, sociais e religiosas cotidianas). O joio representa simbolicamente as elites políticas e religiosas, que Jesus qualifica como filhas do diabo, e são por ele semeadas no mundo (cf. 4,8; 12,33-37). Mas elas não são perpétuas, nem os frutos do mal que provocam.

Portanto, o tempo histórico, medido pelo nosso percurso existencial e pela construção e mudança das sociedades, é o tempo da adversidade e do conflito. Não faz sentido imaginar que um dia as coisas serão isentas de ambiguidades, puras e imaculadas neste mundo. Nem mesmo a Igreja pode imaginar-se assim. Mas, no final, no mundo que há de vir e que inspira o mundo que estamos a construir, o mal e suas causas serão eliminados. Essa é nossa esperança.

Por isso, os discípulos do Reino somos estimulados a manter a esperança, mesmo sendo trigo no meio do joio, e tendo o joio dentro de nós, em nossas ações e instituições. Quando o Mundo Novo florescer plenamente, os filhos do Reino brilharão como o sol, e a noite ficará iluminada como quando o Filho de Deus se fez carne. O tempo atual, entretanto, é de esperança e luta. O que nos anima é saber que tem boa semente que está florescendo e amadurecendo.

 

Sugestões para a meditação

Entre com Jesus e os discípulos em sua casa e peça que ele lhe dê inteligência para compreender sua palavra

Leia atentamente a explicação que Jesus nos oferece sobre a parábola do trigo bom e do joio semeado pelo inimigo

Seria possível atualizar essa interpretação para a situação que vivemos hoje na Igreja e na sociedade do Brasil?

domingo, 26 de julho de 2026

Como a semente e o fermento

A pequenez não limita a força da semente

1154 | Tempo Comum | Semana XVII | Segunda | Mateus 13,31-35

Já vimos que Jesus prefere anunciar o mistério do Reino de Deus mais através de parábolas que de longas exposições e explicações. As parábolas são um recurso sapiencial e popular que usa imagens da experiência cotidiana e exige o engajamento do ouvinte na interpretação. Aos discípulos, Jesus se comunica de modo mais explicativo, mas às multidões ele prefere usar as parábolas.

Nas parábolas de hoje, explicitamente relacionadas com o Reino de Deus, ou Reino dos Céus, na linguagem contida de Mateus, Jesus recorre às imagens da semente de mostrada e do fermento e parte da experiência agrícola e doméstica. Enquanto a parábola do semeador chama a atenção sobre a ação de semear e as condições da terra, as da semente de mostarda e do fermento contrastam o pequeno e o pouco de hoje com a grandeza e a força no futuro.

Jesus tem presente que o aparente fracasso do Reino que ele prega não se deve unicamente à oposição que muitos grupos fazem a ele, mas também à própria natureza do reino de Deus. Ele não cresce ao modo dos impérios, nem se impõe pela força e pela grandeza, mas de modo discreto e escondido, lentamente, corroendo a lógica do poder e do egoísmo como o fermento corrompe a farinha.

As parábolas do Reino de Deus nos chamam a manter os pés e mãos no tempo presente, mas sem deixar de vislumbrar o futuro, com realismo e esperança. Como o fermento escondido pela farinha, o Reino de Deus é invisível aos olhos da elite, mas lentamente vai minando o status quo e, de pequeno e quase invisível como a semente de mostarda, se torna hortaliça frondosa que acolhe as aves vulneráveis.

Às vezes, aquilo que nós e nossas organizações fazemos parece muito pequeno e praticamente sem futuro. Mas, como é difícil medir a força de crescimento contida numa minúscula semente, embora seja real e palpável, é-nos pedida a confiança de que aquilo que é bom perdura e se multiplica. Somos peregrinos de esperança.

O texto termina com frases que nos causam desconforto. Mas o sentido delas pode ser expresso assim: alguns ouvem e entendem a mensagem do Reino de Deus e outros não entendem e rejeitam. Mas a salvação de Deus é oferecida a todos, e está aberta até àqueles que a rejeitam. E isso é bom!

 

Sugestões para a meditação

De que modo estas parábolas, assim como toda a vida e ensino de Jesus, podem nos ensinar a unir realismo e esperança, paciência e urgência?

Você nota alguma “fermentação” evangélica na sua vida desde que você começou a praticar a Leitura Orante do Evangelho?

O que podemos fazer para que o fermento do Evangelho ajude nossas famílias e a Igreja a serem melhores?

Olhando para a cruz

A palavra de um Deus pregado na cruz

Estava eu em Brasília, participando de um encontro pastoral. Um grande crucifixo, fixado na parede atrás da mesa dos dirigentes, começou a chamar minha atenção. Já vi tantos outros, em muitos lugares diferentes (em templos, parlamentos, hospitais, fóruns, casas, bancos), mas, dessa vez, não consegui silenciar alguns questionamentos insistentes:  o que aquele corpo pendurado na cruz estava fazendo ali, e o que ele estaria a nos dizer.

Aprendi ainda criança o significado da cruz e do corpo que pende nela: é a memória visual do destino que alguns filhos da humanidade à qual pertenço impuseram ao enviado de Deus. Mas, olhando bem, na cruz não vejo uma divindade com os traços que nos ensinaram, nem um ser angélico ou um herói vitorioso, mas um corpo humano, despojado das suas vestes, machucado pela tortura, golpeado até à morte.

Senti um tremor ao lembrar que Jesus de Nazaré foi crucificado fora dos muros que protegiam os cidadãos mais importantes e em meio a dois outros condenados à mesma pena. Por isso, a cruz é muito mais que um símbolo daquilo que foi chamado de cristandade, uma civilização construída sobre os alicerces da guerra, da imposição da fé, da meritocracia, das cruzadas, do poder dos mais fortes, da bandeira dos vencedores.

E a pergunta dava voltas na minha cabeça: O que a cruz faz e diz nessa assembleia de lideranças eclesiais que se reúne em nome do crucificado? O que essa vítima do consórcio entre as elites do judaísmo e os colonizadores romanos fala aos parlamentos e tribunais de hoje? Como Jesus se sente ostentado como joia anexada a cordões caríssimos? Será que é possível esquecer que o crucificado nos remete a um corpo humano violentado?

Na cruz, Deus se faz carne para que toda carne seja revelação de Deus. Faz-se vítima em meio às vítimas para que não se faça mais vítimas em nome dele. Faz-se entrega livre e generosa para sustentar todas as entregas solidárias. Derruba os muros que separam e opõem homens e mulheres que têm a mesma origem e o mesmo destino. Revela-nos a humanidade nua e original, que relativiza todos os títulos e grandezas e a todos iguala.

O Papa Leão XIV nos ensina que “a carne do Filho, pobre e vulnerável, remete para a carne de tantos irmãos e irmãs despojados da sua dignidade e reduzidos ao silêncio. Nesta carne ferida e amada, o Pai mostra-nos a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu” (Magnifica Humanitas, § 231). Fala-nos, Senhor!

sábado, 25 de julho de 2026

Pérola e tesouro

O Reino de Deus é um tesouro muito precioso

1153 | Tempo Comum | Semana XVII | Domingo | Mateus 13,44-52

Jesus nos apresenta a imagem de uma pessoa que encontra um tesouro no campo do seu patrão. Ao encontra-lo, é tomada pela surpresa, mantém o tesouro escondido e, cheia de alegria, se desfaz de tudo o que tem e compra o campo que esconde o tesouro. Para um simples empregado diarista, este é um negócio arriscado, que só se justifica pelo valor que o tesouro tem a seus olhos. Ele vende e arrisca perder tudo para ficar com o único bem que vale a pena.

Um segundo personagem é um comerciante de pérolas preciosas. Este sim está procurando uma pérola de grande valor e, quando a encontra, vende todos os seus bens e a compra. Este parece ser um negócio um pouco mais seguro, mas é comparável ao anterior no que diz respeito à necessidade de vender tudo para realizá-lo. Em ambos os casos, a experiência de encontrar algo precioso desestabiliza o equilíbrio dos negócios, relativiza a segurança de quem possui e chama a arriscar.

Eis o nosso desafio: tendo descoberto o valor impagável da liberdade e da vida digna de cada pessoa em sua singularidade, o horizonte deslumbrante de um mundo de irmãos e irmãs de fato, precisamos hipotecar ou subordinar tudo o mais – reputação, carreira, bem-estar individual e até família e religião – em função disso. Deus não tem tempo para tratar de pequenos negócios conosco. Seu projeto é vida abundante, para todos, e isso urge. É tudo ou nada. E é para já!

Jesus ensina que o Reino de Deus é também semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolhe peixes bons e peixes de qualidade questionável. E nós precisamos prestar atenção à sabedoria dos pescadores e não assumir postura de juízes! Um pescador experiente sabe que não é sensato esperar que a rede recolha apenas peixes bons e apropriados para o consumo ou para o comércio.

E o trabalho árduo e criterioso de separar peixes bons e peixes ruins não pode ser feito em alto mar: fica para depois. Estre trabalho de caráter judicial não é de nossa responsabilidade, nem competência de nossas Igrejas e seus hierarcas! Somos apenas peixes, e não estamos seguros da nossa própria qualidade! Deixemos ao fim dos tempos e aos anjos de Deus essa difícil tarefa de separar.

 

Sugestões para a meditação

Você tem consciência da preciosidade inestimável do Reino de Deus, do novo mundo, construído e habitado por homens e mulheres novos?

Você está disposto a investir tudo e ficar apenas com esse tesouro, com esse sonho para guiar sua vida?

Você tem evitado cair na tentação de excluir as pessoas que, no seu modo de ver, não se comportam corretamente, não estão entre “as pessoas de bem”?

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Um precioso tesouro

PROCURAR DEUS

Os estudos sociológicos indicam que a crise religiosa na Europa está a evoluir para uma indiferença cada vez maior. Uma indiferença tranquila, alheia a qualquer reflexão sobre Deus. No entanto, são cada vez mais os que, movidos por uma certa nostalgia de Deus, sentem necessidade de procurar «algo diferente», uma nova forma de acreditar nele. Como procurar Deus hoje?

Sem dúvida, cada um deve partir da sua própria experiência. Não é preciso copiar os outros. Não é necessário fazer nada forçado ou artificial. Cada um conhece os seus próprios desejos e misérias, os seus vazios e medos. Cada um sabe da sua necessidade de Deus. A sua voz nunca se cala. Não grita com os lábios, mas sussurra ao coração.

Por isso mesmo, não basta procurar Deus por fora: nos livros, nas discussões ou nos debates. Uma coisa é discutir religião e outra bem diferente é buscar Deus com coração sincero. Cada um percebe quando está a fugir de Deus e quando o está a procurar de verdade. Santo Agostinho dizia: «Não te disperses. Concentra-te na tua intimidade. A verdade reside no homem interior».

Buscar Deus exige esforço, mas encontrá-lo nunca é fruto de um voluntarismo fanático nem de uma ascese tensa. Deus é um dom, e o importante é acolhê-lo com simplicidade de alma. Recordemos a reflexão da velha priora no Diálogo das Carmelitas de Georges Bernanos: «Depois de sairmos da infância, é preciso sofrer muito para voltar a ela, como só depois de uma longa noite volta a aparecer a aurora. Terei eu voltado a ser criança?».

Não é o mais acertado buscar Deus apoiando-nos apenas nas nossas próprias intuições. Há muitas formas de nos enganarmos ou de andarmos às voltas sobre nós mesmos, sobre os nossos sentimentos e ideias. Por isso é melhor partilhar e confrontar a própria experiência com alguém que nos possa guiar a partir da sua vivência de Deus. Esse partilhar mútuo pode ser o melhor estímulo para continuar a procurá-lo.

Na parábola do tesouro escondido no campo, Jesus fala do homem que, cheio de alegria, vende tudo o que tem para ficar com o tesouro. Buscar Deus não gera tristeza nem amargura; pelo contrário, gera alegria e paz, porque a pessoa começa a descobrir onde está a verdadeira felicidade. Recordemos Santo Agostinho: «Só o que torna o homem bom pode torná-lo feliz».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez