sábado, 26 de setembro de 2026

Sim ou não?

Que nossa fé seja firme, duradoura e amorosa

1217 | Tempo Comum | Semana XXVI | Domingo | Mateus 21,28-32

Jesus está em Jerusalém, no espaço do templo, e discute enfaticamente com a elite religiosa e social (chefes dos sacerdotes e anciãos). Esta é a primeira de três parábolas que Jesus dirige à elite religiosa que o persegue, nas imediações do templo, destino de todas as romarias populares, em Jerusalém. Ele começa com uma pergunta, convocando os interlocutores a tomarem posição, e é Jesus mesmo quem propõe uma interpretação da parábola.

A ênfase da parábola está claramente colocada na figura do pai e na prática concreta da sua vontade. Os dois filhos mencionados na parábola são personagens que correspondem, por um lado, aos pecadores, que aceitam a pregação de João Batista e de Jesus e se tornam discípulos, e, por outro lado, à elite religiosa, que se fecha tanto a João como a Jesus. Ambos são chamados a trabalhar na vinha. Um se nega, mas depois vai; o outro responde sim, e depois não faz nada.

A interpretação de Jesus não deixa dúvidas. Convocados a emitir um juízo sobre a atitude contrastante dos personagens, os sacerdotes e anciãos se autocondenam. A sentença de Jesus é clara e provocadora: os cobradores de impostos e as prostitutas (dois grupos sociais catalogados pelos judeus piedosos entre os piores pecadores) precedem (no presente!) a elite religiosa no Reino de Deus, porque aceitaram o caminho da justiça e da conversão pregado por João. A elite, em vez disso, não acreditou em João, e, nem mesmo vendo o testemunho deles, mudou de atitude.

Nossa adesão à vontade do Pai deve ser firme e duradoura, e precisa ser demonstrada em ações concretas. Trata-se de um “caminho de justiça”, ou seja, de ação coerente com a pauta de justiça, solidariedade e transformação do Reino de Deus. E jamais podemos esquecer que a lógica de Deus não coincide necessariamente com a nossa. Os pensamentos de Deus costumam não coincidir com os nossos, dizem os profetas.

Como no texto que refletimos no último domingo, a ação de Deus em relação ao ser humano não se orienta pelo mérito, mas pela necessidade. Ele não dá a cada pessoa aquilo que ela merece, mas aquilo que ela necessita. A prática e o anúncio de Jesus questionam de forma radical a ideologia da meritocracia, que atribui o sucesso econômico unicamente ao mérito individual e cobre as vítimas e vulneráveis com os andrajos da incompetência e da culpa.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus no evangelho de hoje, com a avalanche de pregadores e fiéis que tem fome e sede de prosperidade, e não de justiça

Deixe-se surpreender pelo encontro com Jesus e com seu ensino e sabedoria, abandonando as expectativas de coisas grandes

Como você acolhe o caminho de despojamento solidário em favor da humanidade que Jesus viveu e nos propõe?

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Primeiros e últimos

PARA JESUS, OS ÚLTIMOS SÃO OS PRIMEIROS

Jesus conheceu uma sociedade dividida por barreiras de separação e atravessada por complexas discriminações. Nela encontramos judeus que podem entrar no templo e pagãos excluídos do culto; pessoas puras com quem se pode conviver e pessoas impuras que se devem evitar; próximos que se devem amar e não-próximos que se podem abandonar; homens piedosos observantes da lei e gente maldita que nem conhece nem cumpre o que é prescrito; pessoas sãs abençoadas por Deus e doentes malditos que não têm acesso ao templo; pessoas justas e homens e pessoas pecadoras.

A atuação de Jesus nesta sociedade é tão surpreendente que ainda hoje resistimos a aceitá-la. Não adota a postura dos grupos fariseus, que evitam todo contato com impuros e pecadores. Não segue a atitude elitista de Qumran, onde se redigem listas precisas dos que ficam excluídos da comunidade.

Jesus aproxima-se precisamente dos mais discriminados. Senta-se à mesa com publicanos. Deixa-se beijar os pés por uma pecadora. Toca com a mão os leprosos. Procura salvar «o que está perdido». A população chama-lhe «amigo dos pecadores». Com insistência provocadora, repete que «os últimos serão os primeiros», e que os publicanos e as prostitutas vão à frente dos escribas e sacerdotes no caminho do reino de Deus.

Quem suspeita hoje, de verdade, que os alcoólicos, vagabundos, mendigos e todos os que formam o refugo da sociedade podem ser, diante de Deus, os primeiros? Quem se atreve a pensar que as prostitutas, os toxicodependentes ou os afetados pela sida podem preceder muitos eclesiásticos de vida irrepreensível?

No entanto, mesmo que já quase ninguém lhes diga, vocês, os indesejados e anatematizados, devem saber que o Deus revelado em Jesus Cristo continua realmente a ser amigo de vocês. Vocês podem compreender e acolher o perdão de Deus melhor do que muitos cristãos que não sentem necessidade de se arrepender de nada.

Quando nós evitamos vocês, Deus aproxima-se de vocês. Quando os humilhamos, Ele os defende. Quando os desprezamos, Ele os acolhe. No mais escuro da vossa noite, vocês não estão sós. No mais profundo da humilhação, vocês não estão abandonados. Não há lugar para vocês na nossa sociedade nem no nosso coração. Por isso mesmo, vocês têm um lugar privilegiado no coração de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Qual é a tua fome?

Sede de sucesso e prosperidade ou de Justiça?

1216 | Tempo Comum | Semana XXV | Sábado | Lucas 9,43-45

Depois do diálogo formativo e revelador de Jesus com seus discípulos (9,18-22), Lucas descreve a transfiguração de Jesus e relata a cura de uma criança epilética (cf. 9,23-42), passagens omitidas na sequência semanal porque são indicadas para a solenidade da transfiguração. Nos três versículos de hoje, Jesus volta a falar aos discípulos sobre seu destino como messias.

Como já vimos anteriormente, quando o povo manifesta um certo consenso sobre sua identidade profética, Jesus faz questão de insistir no caminho da paixão na cruz, manifestando sua certeza nada ingênua sobre o futuro. Como os discípulos nada percebem e têm dificuldades de entender, Jesus pede que eles “coloquem na cabeça” este seu anúncio. Jesus está, sim, na linha dos profetas, mas a sua profecia não é exatamente a mesma dos seus antecessores.

Jesus quer estimular nos seus discípulos e discípulas a coragem frente às hostilidades que seguramente enfrentariam, mas aqueles que o seguem mais de perto continuam obcecados e iludidos com um messianismo político e poderoso, e não conseguem entender nem aceitar o que Jesus lhes diz, especialmente as consequências. Não há seguimento sem enfrentamento das dificuldades, não há fidelidade ao Evangelho sem discernimento das exigências das circunstâncias!

Com esse anúncio, e com a sua insistência num messianismo de compaixão e despojamento, Jesus quer “jogar um balde de água fria” no fogo do entusiasmo popular e nas aspirações desencontradas dos seus próprios discípulos. Ele baixa a ideia de um messias glorioso para a de um messias despojado, compassivo e contrário à violência. Os discípulos e discípulas não entendem e têm medo de perguntar porque resistem a este caminho escolhido por Jesus, que seria também o caminho deles. A dificuldade deles não é intelectual, mas espiritual.

Não é dificuldade de entender, mas resistência e recusa a aceitar. Essa dificuldade é claramente ressaltada por Lucas nestes versículos. A ambição de sucesso e de prosperidade deixa seus discípulos cegos e os aprisiona. Quando, ao se referir a si mesmo, Jesus troca o substantivo “messias” por “filho do homem” não pretende outra coisa senão desfazer essa ilusão que alimentam sobre ele, e preveni-los em relação ao que os esperaria no futuro. Será que nós assimilamos essa lição?

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus no evangelho de hoje, com a avalanche de pregadores e fiéis que tem fome e sede de prosperidade, e não de justiça

Deixe-se surpreender pelo encontro com Jesus e com seu ensino e sabedoria, abandonando as expectativas de coisas grandes

Como você acolhe o caminho de despojamento solidário em favor da humanidade que Jesus viveu e nos propõe?

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Um messias muito particular

Qual é a imagem de Deus que apresentamos?

1215 | Tempo Comum | Semana XXV | Sexta | Lucas 9,18-22

Ontem refletimos sobre o trecho do evangelho no qual Lucas nos apresenta as perguntas e hipóteses que Herodes levantava sobre a identidade e a missão de Jesus. Perseguido pelo medo de enfrentar um concorrente, e de represálias por ter assassinado João Batista, o pequeno e impotente e violento rei da Galileia desejava ver Jesus por pura curiosidade, sem nenhuma vontade de levá-lo a sério.

Depois da multiplicação dos pães para os famintos, o próprio Jesus dá voz à pergunta sobre quem ele é, pedindo que seus discípulos o coloquem a par das opiniões que circulam no povo, e isso não porque estivesse preocupado com uma possível baixa do seu índice de popularidade. As opiniões convergem para sua identidade profética, de que ele é algum profeta importante que voltou à vida. Mas, pelo testemunho dos evangelistas, já sabemos que ele é mais que um profeta.

Jesus interroga os próprios discípulos, esperando deles uma resposta nova, pessoal, envolvente. Tomando a palavra em nome dos demais, Pedro embarca na ideia de que a chegada do messias esperado seria precedida pelo retorno do profeta Elias, e declara que Jesus é o messias/ungido de Deus. Sua resposta é formalmente correta, mas Jesus proíbe que isso seja anunciado ao povo, pois sente necessidade de corrigir e esclarecer o que significa reconhecer e proclamar que ele é o Messias (pois temos outros messias, inclusive um que sentou na cadeira presidencial!).

Para evitar mal-entendidos, Jesus evita falar de si mesmo como “Messias”, e prefere autodenominar-se “Filho do Homem”. Com isso, sublinha várias coisas: sua consciência da necessidade de enfrentar a violência e passar pela cruz; que a fidelidade e a coerência com a vontade do Pai desembocam na perseguição; que isso tudo faz parte do plano de Deus, mas não é uma espécie de suicídio premeditado; que o mistério de Deus e da salvação está profundamente imbricado na condição humana; que Deus mostra sua força na fragilidade, na pobreza e no despojamento.

Para Jesus, a vontade do Pai é absolutamente soberana, e não passa necessariamente pela religião e seus espaços e agentes, tanto que faz questão de ressaltar que é nas mãos deles que irá sofrer. Isso pede obviamente uma revisão da nossa ideia de Deus e uma crítica avaliação das práticas das Igrejas e seus agentes. Será que o querer de Deus é a multiplicação de dízimos, orações, cultos e novenas?

 

Sugestões para a meditação

Deixe-se surpreender pelo encontro vivo com Jesus e com seu Evangelho, seu exercício diário de Leitura Orante

Procure superar a expectativa de que em Jesus seremos beneficiados por eventos grandiosos e miraculosos

Contemple a compaixão e a presença ativa de Jesus junto do povo, inclusive na perseguição e na morte na cruz

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Conhecer = seguir

Só conhecemos Jesus seguindo seus passos

1214 | Tempo Comum | Semana XXV | Quinta | Lucas 9,7-9

Pelo que ele mesmo fazia e falava, ou pelo anúncio dos seus enviados, Jesus acabou despertando a atenção de Herodes, um “reizinho” arbitrário e violento, que não respeita ninguém, nem seu próprio irmão de sangue. Ele deseja conhecer Jesus, mas como um expectador cético, como um curioso que deseja ver uma exibição particular e exclusiva de milagres. Afinal, ele é rei, e faz por merecer!

Herodes fica intrigado com a pregação e a missão de Jesus. Seu desejo de vê-lo não nasce da busca da vontade de Deus ou do propósito de percorrer o caminho de um bom governo. Ele não sabe, ou não quer saber, que só conhece Jesus de verdade quem o segue, quem acolhe o anúncio do Reino de Deus e entra num caminho de conversão. Acabará se encontrando com Jesus mais tarde, na farsa do seu processo de condenação e morte, do qual ele é um dos protagonistas.

Herodes se questiona sobre a identidade de Jesus. Levanta hipóteses, e, nisso, é acompanhado pelo povo. Mas, enquanto o seu povo tenta interpretar Jesus no horizonte da prática profética, que conhece muito bem, Herodes, atordoado pela própria violência e pelos fantasmas do medo que dela nascem, imagina que Jesus é a reencarnação do profeta João Batista, que ele mandara matar.

Tanto a mentalidade religiosa popular como as elucubrações de Herodes não levam em conta que Jesus, embora se pareça com os profetas de Israel, não cabe nos modelos proféticos antigos. Jesus é diferente e maior que todos os profetas conhecidos. Por isso, a resposta madura e honesta à pergunta pela identidade de Jesus só será esclarecida no seguimento dos seus passos, até à sua morte. Quem perseverar até o fim conhecerá Jesus, e nele será libertado dos enganos e dominações.

Os discípulos farão este caminho de crescimento e amadurecimento da fé. Mas Herodes, mesmo se encontrando com Jesus como parte interessada do processo que o condenou à morte, e mesmo tendo oportunidade de fazer-lhe diversas perguntas a (cf. Lc 23,8-12), não o conhecerá de fato. Ele só deseja ver um milagre e se divertir. Por isso, trata-o com desprezo, caçoa dele e se alia à hipocrisia mortal de Pilatos.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus, ativando seu desejo sincero de encontrar Jesus e compreender sua Palavra

Deixe-se surpreender pelo encontro vivo com Jesus e seu Evangelho, abandonando a busca de eventos grandiosos e miraculosos

Que perguntas você se faz sobre Jesus, e em que grupo de personagens você o coloca? O que você diz dele?

O que precisamos melhorar na escuta e na leitura da Palavra de Deus para que não nos seja tirado o que pensamos saber?

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Amados, chamados e enviados

Somos enviados para anunciar o Reino de Deus

1213 | Tempo Comum | Semana XXV | Quarta | Lucas 9,1-6

Hoje somos convidados a meditar o episódio do envio missionário do “grupo dos doze”. Estamos diante da crônica de uma nomeação solene, onde cada nome é citado com ênfase. Isso acontece pouco antes de Jesus iniciar sua peregrinação a Jerusalém, e sabemos que, entre o chamado (cf. 5,1-12) e o envio dos discípulos, Jesus se dedica à formação diligente daqueles que doravante o precederiam e u representariam.

Lucas não nos apresenta propriamente o conteúdo doutrinal da missão, nem uma descrição pormenorizada das atividades, mas nos oferece uma espécie de “estatuto da missão” e descreve o estilo de vida daqueles que Jesus envia à sua frente. O foco da missão é claramente pressuposto: o anúncio do Reino de Deus, mostrando através de ações e sinais (curas e exorcismos) que Deus chega para nos libertar de todas as escravidões. Jesus envia seus escolhidos para fazer o mesmo que ele faz.

Quanto ao estilo de vida dos missionários, Jesus enfatiza alguns poucos elementos: eles devem ir a todo canto, fronteira ou periferia, sem demora e sem exclusões ou omissões; não devem levar nada em termos de apoio poderoso e ostensivo, e confiar plenamente na hospitalidade dos interlocutores; não devem esperar sucesso ou reconhecimento pela missão realizada; precisam contar com a incompreensão e a rejeição; por fim, precisam manter-se desapegado e livre de tudo.

Sem prometer facilidades nem prosperidade a quem é enviado em seu nome, Jesus assegura, entretanto, a mesma força e o mesmo dinamismo que sustenta ele mesmo na missão que Pai lhe confiou. Lucas chama este dinamismo de poder e autoridade. Mas se trata de força e autoridade que brotam da fidelidade e da coerência de vida, e têm como finalidade anunciar o Evangelho do Reino de Deus, acolher, curar e libertar com eficácia, como faz o próprio.

O despojamento que Jesus pede dos seus enviados não significa desprezo pelos bens materiais ou recursos culturais e tecnológicos, mas reforça a necessidade de focalizar tudo no anúncio e no testemunho das novas relações suscitadas pelo reino de Deus. Jesus também deixa claro que não nos envia para multiplicar louvores e invocações, para simplesmente purificar o coração, nem para ensinar doutrinas e impor uma certa moral. No início, na meta e na prática da missão estão o anúncio de um novo tempo, e essa nova era chamada Reino de Deus, é antecipada pelo testemunho.

 

Sugestões para a meditação

Coloque sua experiência de vida eclesial e social, aquilo que você faz, sob a luz desse envio de Jesus

Em que consiste sua prática missionária? Qual é o conteúdo e quais são os gestos? Eles traduzem uma boa notícia aos pobres e sofredores?

Como está sua confiança na hospitalidade daqueles a quem você é enviado em missão?

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A família de Jesus

Quem pratica o Evangelho é da família de Jesus

1212 | Tempo Comum | Semana XXV | Terça | Lucas 8,19-21

Os três versículos de hoje estão inseridos numa seção literária maior, na qual Jesus sublinha a importância de ouvir corretamente o Evangelho do Reino. Noutros textos ele sublinha que escutar a Palavra de Deus implica em guardá-la, praticá-la, fazê-la frutificar na vida (cf. 6,46-49; 11,27-28).  Esta palavra de Deus compreende o conjunto do antigo testamento, assim como a vida e o ensinamento de Jesus. Maria já fora apresentada pelo evangelista como a ouvinte e servidora da Palavra de Deus.

No breve texto de hoje, Lucas nos informa que Jesus está ensinando seus discípulos e o povo, e que sua mãe e seus irmãos se aproximam dele, mas não conseguem chegar perto por causa da multidão. Podemos imaginar que também eles, especialmente a mãe, querem ouvi-lo e aprender como acolher a novidade revolucionária do Reino de Deus. Então, um mensageiro avisa Jesus da chegada dos seus familiares.

“Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”, diz o mensageiro a Jesus. Sem ressentimento em relação a ninguém, e mostrando profundo apreço àqueles que o circundam e escutam, Jesus dá uma resposta um pouco estranha, com aparência de desprezo à sua própria mãe. Ele afirma claramente que seus irmãos e sua mãe são as pessoas que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. É a escuta e a prática do Evangelho do Reino que cria e sustenta a relação com ele.

Os discípulos são sua grande e nova família, e a escuta e a prática da Palavra de Deus é o dinamismo que a congrega. Para Jesus, as exigências dessa Palavra são claras: relacionamento fraterno e igualitário; perdão recíproco; prioridade aos pequenos e pobres; superação dos estreitos laços de sangue, de nação e de etnia; tratamento dos últimos como primeiros. Não é possível ser discípulo e ignorar ou menosprezar estes imperativos.

Jesus não se deixa prender por laços de sangue, nem cai na tentação de formar guetos ou seitas fechadas. Ele propõe uma mudança profunda e total nas relações humanas, sociais, espirituais e políticas, e nem as relações familiares ficam de fora. Também a família deve entrar na lógica do reino de Deus. É claro que podemos imaginar, sem perder o foco, que Maria e os parentes que a acompanham se agregarão, pouco a pouco, ao círculo daqueles que “ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Mas, não esqueçamos: os laços de sangue não estão acima do vínculo de fé.

 

Sugestões para a meditação

Retome a breve cena, procurando interagir com a mãe e os irmãos de Jesus; o mensageiro; a atitude e a palavra de Jesus; os discípulos que o circundam

Como você vive concretamente a relação entre os vínculos familiares e os vínculos com Jesus e com a comunidade?

Como está a escuta e a prática – sua, da sua família e da sua comunidade – da Palavra de Deus, especialmente neste mês?

domingo, 20 de setembro de 2026

São Mateus Apóstolo

Mateus é modelo de discípulo e apóstolo

1211 | Festa de São Mateus, Apóstolo | Mateus 9,9-13

Na cena que antecede a de hoje, depois de curar uma pessoa paralítica, que contou com o auxílio de pessoas amigas, Jesus não reivindica para si mesmo os créditos do perdão e da cura. Ele passa do perdão – ação interior, cujos frutos não são visíveis – à cura, que é o lado visível da mesma ação. Diante do que viu, o povo ficou com medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder a Jesus e aos seus discípulos.

Na cena de hoje, escolhida para iluminar a festa de São Mateus, Jesus se encontra com Levi, ou Mateus, que era cobrador de impostos e colaborador do império romano e, por isso, era também considerado pecador, execrado e banido da convivência social e religiosa pelos judeus. Mas Jesus não se orienta por preconceitos que excluem, pelas aparências. Partindo da base e da periferia social, Jesus chama as pessoas de boa vontade para, com elas, iniciar uma comunidade alternativa.

Mateus responde prontamente ao chamado de Jesus, abandona o malvisto e rentável ofício que desempenha e entra no seu caminho. Como não exclui ninguém da mesa do Reino, desde que a pessoa entre no dinamismo do Reino de Deus, Jesus se confraterniza com Levi, seus colegas e muitas outras pessoas tratadas pelo judaísmo como pecadoras. Pecador é o termo que costumamos usar para designar e identificar quem desaprova e não vive de acordo com as normas de um grupo.

Esta prática acolhedora e inclusiva de Jesus desestabiliza a ordem social, religiosa e política do judaísmo, e é criticada pelos fariseus e mestres da lei. Essa manifestação da misericórdia de Deus é por eles vista como estando em desconformidade com a vontade de Deus. A condescendência e a justiça de Deus, assim como é entendida e praticada por Jesus, deslegitima as práticas excludentes do judaísmo e seus representantes, particularmente, os fariseus e saduceus.

Mateus tomará parte desta comunidade, compartilhará com elas seus recursos, estabelecerá relações estáveis de acolhida e inclusão, e passará a ser visto como modelo de discípulo e apóstolo. Ele entendeu que Deus quer misericórdia, e não o legalismo que sacrifica os mais fracos, que Jesus veio para quem está necessitado, e não para quem se considera perfeito e justo. Além de discípulo, Mateus será um dos doze apóstolos, e escreverá sua versão do Evangelho de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Neste dia da festa de São Mateus, retome esta cena que mostra ele trabalhando, sendo chamado por Jesus, deixando tudo e seguindo-o

Contemple a vida de Jesus e, com Mateus, acolha e aprenda essa lição fundamental: Deus quer misericórdia e não sacrifícios

Como nós e nossas igrejas acolhemos e praticamos esse princípio fundamental que orienta toda a vida e a missão de Jesus?

sábado, 19 de setembro de 2026

Os últimos são os primeiros

Justo é quem trata todos com igualdade

1210 | Tempo Comum | Semana XXV | Domingo | Mateus 20,1-16

Quem quiser ser discípulo de Jesus precisa ter sabedoria e decisão para encarnar o reino de Deus em todas as suas relações. No horizonte da utopia de Jesus, justiça e a bondade não estão no mérito e na aplicação da lei do “cada um recebe o que merece”. A lógica do Reino de Deus inverte os valores, e estabelece a prioridade dos últimos e desprezados sobre os ricos e privilegiados.

Na parábola de hoje, o personagem central é um chefe de família patriarcal. A primeira cena trata da contratação de diaristas para trabalhar no seu campo. Mas tudo está focado na segunda cena, ou seja, no acerto de contas pelo trabalho realizado pelos trabalhadores contratados em diferentes horas do dia. A todos o chefe da família prometera pagar o que seria justo, e não um valor estabelecido.

As pessoas contratadas na primeira hora assistem ao pagamento das que foram contratadas no fim do dia, que recebem, por poucas horas de trabalho, um valor que permite a subsistência diária, e isso alimenta a expectativa de que receberiam bem mais, pois haviam feito por merecer. Mas o contratante não se orienta pela meritocracia, e sim pela justiça e pela bondade, e retribui a todas igualmente.

O grupo que se julga merecedor de uma retribuição maior se irrita por ter sido igualado aos demais. De fato, o pai de família não age conforme o costume, não reforça a competição e a distinção de classes. A irritação brota da inconformidade por terem sido igualados aos mais necessitados. Eles protestam contra a igualdade fundamental de todos os trabalhadores!

Com esta parábola, Jesus nos convoca a tomar uma posição radical, como ele mesmo o fez: assumir um estilo de vida alternativo também na economia, agindo na perspectiva do Reino de Deus, guiando-nos pela necessidade das pessoas e pela gratuidade, ou pela economia do dom, como a chamou o Papa Francisco.

Será que também nós, depois de dois mil anos de cristianismo, caímos na armadilha de nos sentir melhores que os outros? Em que medida ainda tratamos as pessoas, grupos, religiões e classes sociais a partir daquilo que achamos que ‘merecem”? Será que ainda defendemos a velha moral econômica que recomenda dar a cada um o que merece? Chegamos a perceber que a lógica de Deus é outra, é diferente?

 

Sugestões para a meditação

Com esta parábola, Jesus provoca fortemente as pessoas, tanto os judeus como seus discípulos, a superar a lógica do mérito

Deixe ressoar em você a afirmação clara e provocativa de Jesus mediante a parábola do patriarca generoso e solidário

Peça a Jesus a graça de se comprometer e se alegrar com os pequenos e grandes sinais de emancipação dos pobres


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Semear sempre

Escutar, praticar e anunciar o Evangelho

1209 | Tempo Comum | Semana XXIV | Sábado | Lucas 8,4-15

No trecho do Evangelho proposto hoje à nossa meditação, Jesus se dirige à multidão que chega a ele vindo de várias cidades. Mas, ao narrar esse acontecimento, Lucas tem presente também sua comunidade, que, 50 anos depois da páscoa de Jesus, se pergunta pelas razões do aparente fracasso da missão que está a desenvolver.

No texto, Jesus chama a atenção dos seus ouvintes e interlocutores: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” Ele propõe e sublinha o modo correto de ouvir a Boa Notícia do Reino de Deus. A parábola do semeador, especialmente a interpretação que Jesus mesmo dá da parábola, ajuda a ilustrar exatamente isso.

Na verdade, o centro da parábola não é o semeador, nem a semente, mas a qualidade do terreno que a recebe, a diferente sorte da semente do reino de Deus misturada na história humana. Com isso, fica bastante claro que Jesus propõe uma séria reflexão sobre as condições para uma autêntica escuta do Evangelho e para que ele chegue a produzir frutos bons e abundantes.

Jesus deixa claro que o que impede que o Evangelho frutifique não são apenas a perseguição e as pressões externas, mas também a falta de uma decisão firme de alguns discípulos e a intercorrência de outros interesses que não são os de Deus: as rotinas cotidianas, a falta de aprofundamento, a ambição de riquezas, etc.

Além de pedir de nós uma escuta atenta e generosa, um aprofundamento maduro e responsável, e uma sólida perseverança na escuta da Palavra, Jesus pede também que não deixemos de anunciar (semear) o Evangelho a todas as pessoas e grupos, em todos os tipos de terreno. Também pede que façamos isso sempre com absoluta confiança na força da semente e com esperança de que frutifique.

Como imagina o profeta Ezequiel, somente quem “come, mastiga e digere” a palavra de Deus, repleta de clamores, dores e cantos de vitória do povo de Deus, está em condições de anunciá-la, praticá-la e testemunhá-la. Quando o Evangelho que ouvimos germina, lança raízes e frutifica em nós, então poderá ser anunciado eficazmente, confirmando e fortalecendo os ouvintes.

 

Sugestões para a meditação

Retome, com todas nuances, a parábola de Jesus e a cena descrita por este trecho do evangelho segundo Lucas

Você já viveu, ou vive, a sensação de que a luta pela justiça e o testemunho de uma vida ética e coerente não produzem nada?

Que tipo de terreno você tem sido, como você tem ouvido o Evangelho, especialmente neste tempo de pandemia?

Que frutos o Evangelho tem produzido em você e sua família? Há algo que o está sufocando e impedindo os frutos?