quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Conhecer = seguir

Só conhecemos Jesus seguindo seus passos

1214 | Tempo Comum | Semana XXV | Quinta | Lucas 9,7-9

Pelo que ele mesmo fazia e falava, ou pelo anúncio dos seus enviados, Jesus acabou despertando a atenção de Herodes, um “reizinho” arbitrário e violento, que não respeita ninguém, nem seu próprio irmão de sangue. Ele deseja conhecer Jesus, mas como um expectador cético, como um curioso que deseja ver uma exibição particular e exclusiva de milagres. Afinal, ele é rei, e faz por merecer!

Herodes fica intrigado com a pregação e a missão de Jesus. Seu desejo de vê-lo não nasce da busca da vontade de Deus ou do propósito de percorrer o caminho de um bom governo. Ele não sabe, ou não quer saber, que só conhece Jesus de verdade quem o segue, quem acolhe o anúncio do Reino de Deus e entra num caminho de conversão. Acabará se encontrando com Jesus mais tarde, na farsa do seu processo de condenação e morte, do qual ele é um dos protagonistas.

Herodes se questiona sobre a identidade de Jesus. Levanta hipóteses, e, nisso, é acompanhado pelo povo. Mas, enquanto o seu povo tenta interpretar Jesus no horizonte da prática profética, que conhece muito bem, Herodes, atordoado pela própria violência e pelos fantasmas do medo que dela nascem, imagina que Jesus é a reencarnação do profeta João Batista, que ele mandara matar.

Tanto a mentalidade religiosa popular como as elucubrações de Herodes não levam em conta que Jesus, embora se pareça com os profetas de Israel, não cabe nos modelos proféticos antigos. Jesus é diferente e maior que todos os profetas conhecidos. Por isso, a resposta madura e honesta à pergunta pela identidade de Jesus só será esclarecida no seguimento dos seus passos, até à sua morte. Quem perseverar até o fim conhecerá Jesus, e nele será libertado dos enganos e dominações.

Os discípulos farão este caminho de crescimento e amadurecimento da fé. Mas Herodes, mesmo se encontrando com Jesus como parte interessada do processo que o condenou à morte, e mesmo tendo oportunidade de fazer-lhe diversas perguntas a (cf. Lc 23,8-12), não o conhecerá de fato. Ele só deseja ver um milagre e se divertir. Por isso, trata-o com desprezo, caçoa dele e se alia à hipocrisia mortal de Pilatos.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus, ativando seu desejo sincero de encontrar Jesus e compreender sua Palavra

Deixe-se surpreender pelo encontro vivo com Jesus e seu Evangelho, abandonando a busca de eventos grandiosos e miraculosos

Que perguntas você se faz sobre Jesus, e em que grupo de personagens você o coloca? O que você diz dele?

O que precisamos melhorar na escuta e na leitura da Palavra de Deus para que não nos seja tirado o que pensamos saber?

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Amados, chamados e enviados

Somos enviados para anunciar o Reino de Deus

1213 | Tempo Comum | Semana XXV | Quarta | Lucas 9,1-6

Hoje somos convidados a meditar o episódio do envio missionário do “grupo dos doze”. Estamos diante da crônica de uma nomeação solene, onde cada nome é citado com ênfase. Isso acontece pouco antes de Jesus iniciar sua peregrinação a Jerusalém, e sabemos que, entre o chamado (cf. 5,1-12) e o envio dos discípulos, Jesus se dedica à formação diligente daqueles que doravante o precederiam e u representariam.

Lucas não nos apresenta propriamente o conteúdo doutrinal da missão, nem uma descrição pormenorizada das atividades, mas nos oferece uma espécie de “estatuto da missão” e descreve o estilo de vida daqueles que Jesus envia à sua frente. O foco da missão é claramente pressuposto: o anúncio do Reino de Deus, mostrando através de ações e sinais (curas e exorcismos) que Deus chega para nos libertar de todas as escravidões. Jesus envia seus escolhidos para fazer o mesmo que ele faz.

Quanto ao estilo de vida dos missionários, Jesus enfatiza alguns poucos elementos: eles devem ir a todo canto, fronteira ou periferia, sem demora e sem exclusões ou omissões; não devem levar nada em termos de apoio poderoso e ostensivo, e confiar plenamente na hospitalidade dos interlocutores; não devem esperar sucesso ou reconhecimento pela missão realizada; precisam contar com a incompreensão e a rejeição; por fim, precisam manter-se desapegado e livre de tudo.

Sem prometer facilidades nem prosperidade a quem é enviado em seu nome, Jesus assegura, entretanto, a mesma força e o mesmo dinamismo que sustenta ele mesmo na missão que Pai lhe confiou. Lucas chama este dinamismo de poder e autoridade. Mas se trata de força e autoridade que brotam da fidelidade e da coerência de vida, e têm como finalidade anunciar o Evangelho do Reino de Deus, acolher, curar e libertar com eficácia, como faz o próprio.

O despojamento que Jesus pede dos seus enviados não significa desprezo pelos bens materiais ou recursos culturais e tecnológicos, mas reforça a necessidade de focalizar tudo no anúncio e no testemunho das novas relações suscitadas pelo reino de Deus. Jesus também deixa claro que não nos envia para multiplicar louvores e invocações, para simplesmente purificar o coração, nem para ensinar doutrinas e impor uma certa moral. No início, na meta e na prática da missão estão o anúncio de um novo tempo, e essa nova era chamada Reino de Deus, é antecipada pelo testemunho.

 

Sugestões para a meditação

Coloque sua experiência de vida eclesial e social, aquilo que você faz, sob a luz desse envio de Jesus

Em que consiste sua prática missionária? Qual é o conteúdo e quais são os gestos? Eles traduzem uma boa notícia aos pobres e sofredores?

Como está sua confiança na hospitalidade daqueles a quem você é enviado em missão?

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A família de Jesus

Quem pratica o Evangelho é da família de Jesus

1212 | Tempo Comum | Semana XXV | Terça | Lucas 8,19-21

Os três versículos de hoje estão inseridos numa seção literária maior, na qual Jesus sublinha a importância de ouvir corretamente o Evangelho do Reino. Noutros textos ele sublinha que escutar a Palavra de Deus implica em guardá-la, praticá-la, fazê-la frutificar na vida (cf. 6,46-49; 11,27-28).  Esta palavra de Deus compreende o conjunto do antigo testamento, assim como a vida e o ensinamento de Jesus. Maria já fora apresentada pelo evangelista como a ouvinte e servidora da Palavra de Deus.

No breve texto de hoje, Lucas nos informa que Jesus está ensinando seus discípulos e o povo, e que sua mãe e seus irmãos se aproximam dele, mas não conseguem chegar perto por causa da multidão. Podemos imaginar que também eles, especialmente a mãe, querem ouvi-lo e aprender como acolher a novidade revolucionária do Reino de Deus. Então, um mensageiro avisa Jesus da chegada dos seus familiares.

“Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem te ver”, diz o mensageiro a Jesus. Sem ressentimento em relação a ninguém, e mostrando profundo apreço àqueles que o circundam e escutam, Jesus dá uma resposta um pouco estranha, com aparência de desprezo à sua própria mãe. Ele afirma claramente que seus irmãos e sua mãe são as pessoas que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática. É a escuta e a prática do Evangelho do Reino que cria e sustenta a relação com ele.

Os discípulos são sua grande e nova família, e a escuta e a prática da Palavra de Deus é o dinamismo que a congrega. Para Jesus, as exigências dessa Palavra são claras: relacionamento fraterno e igualitário; perdão recíproco; prioridade aos pequenos e pobres; superação dos estreitos laços de sangue, de nação e de etnia; tratamento dos últimos como primeiros. Não é possível ser discípulo e ignorar ou menosprezar estes imperativos.

Jesus não se deixa prender por laços de sangue, nem cai na tentação de formar guetos ou seitas fechadas. Ele propõe uma mudança profunda e total nas relações humanas, sociais, espirituais e políticas, e nem as relações familiares ficam de fora. Também a família deve entrar na lógica do reino de Deus. É claro que podemos imaginar, sem perder o foco, que Maria e os parentes que a acompanham se agregarão, pouco a pouco, ao círculo daqueles que “ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”. Mas, não esqueçamos: os laços de sangue não estão acima do vínculo de fé.

 

Sugestões para a meditação

Retome a breve cena, procurando interagir com a mãe e os irmãos de Jesus; o mensageiro; a atitude e a palavra de Jesus; os discípulos que o circundam

Como você vive concretamente a relação entre os vínculos familiares e os vínculos com Jesus e com a comunidade?

Como está a escuta e a prática – sua, da sua família e da sua comunidade – da Palavra de Deus, especialmente neste mês?

domingo, 20 de setembro de 2026

São Mateus Apóstolo

Mateus é modelo de discípulo e apóstolo

1211 | Festa de São Mateus, Apóstolo | Mateus 9,9-13

Na cena que antecede a de hoje, depois de curar uma pessoa paralítica, que contou com o auxílio de pessoas amigas, Jesus não reivindica para si mesmo os créditos do perdão e da cura. Ele passa do perdão – ação interior, cujos frutos não são visíveis – à cura, que é o lado visível da mesma ação. Diante do que viu, o povo ficou com medo e glorificou a Deus por ter dado tal poder a Jesus e aos seus discípulos.

Na cena de hoje, escolhida para iluminar a festa de São Mateus, Jesus se encontra com Levi, ou Mateus, que era cobrador de impostos e colaborador do império romano e, por isso, era também considerado pecador, execrado e banido da convivência social e religiosa pelos judeus. Mas Jesus não se orienta por preconceitos que excluem, pelas aparências. Partindo da base e da periferia social, Jesus chama as pessoas de boa vontade para, com elas, iniciar uma comunidade alternativa.

Mateus responde prontamente ao chamado de Jesus, abandona o malvisto e rentável ofício que desempenha e entra no seu caminho. Como não exclui ninguém da mesa do Reino, desde que a pessoa entre no dinamismo do Reino de Deus, Jesus se confraterniza com Levi, seus colegas e muitas outras pessoas tratadas pelo judaísmo como pecadoras. Pecador é o termo que costumamos usar para designar e identificar quem desaprova e não vive de acordo com as normas de um grupo.

Esta prática acolhedora e inclusiva de Jesus desestabiliza a ordem social, religiosa e política do judaísmo, e é criticada pelos fariseus e mestres da lei. Essa manifestação da misericórdia de Deus é por eles vista como estando em desconformidade com a vontade de Deus. A condescendência e a justiça de Deus, assim como é entendida e praticada por Jesus, deslegitima as práticas excludentes do judaísmo e seus representantes, particularmente, os fariseus e saduceus.

Mateus tomará parte desta comunidade, compartilhará com elas seus recursos, estabelecerá relações estáveis de acolhida e inclusão, e passará a ser visto como modelo de discípulo e apóstolo. Ele entendeu que Deus quer misericórdia, e não o legalismo que sacrifica os mais fracos, que Jesus veio para quem está necessitado, e não para quem se considera perfeito e justo. Além de discípulo, Mateus será um dos doze apóstolos, e escreverá sua versão do Evangelho de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Neste dia da festa de São Mateus, retome esta cena que mostra ele trabalhando, sendo chamado por Jesus, deixando tudo e seguindo-o

Contemple a vida de Jesus e, com Mateus, acolha e aprenda essa lição fundamental: Deus quer misericórdia e não sacrifícios

Como nós e nossas igrejas acolhemos e praticamos esse princípio fundamental que orienta toda a vida e a missão de Jesus?

sábado, 19 de setembro de 2026

Os últimos são os primeiros

Justo é quem trata todos com igualdade

1210 | Tempo Comum | Semana XXV | Domingo | Mateus 20,1-16

Quem quiser ser discípulo de Jesus precisa ter sabedoria e decisão para encarnar o reino de Deus em todas as suas relações. No horizonte da utopia de Jesus, justiça e a bondade não estão no mérito e na aplicação da lei do “cada um recebe o que merece”. A lógica do Reino de Deus inverte os valores, e estabelece a prioridade dos últimos e desprezados sobre os ricos e privilegiados.

Na parábola de hoje, o personagem central é um chefe de família patriarcal. A primeira cena trata da contratação de diaristas para trabalhar no seu campo. Mas tudo está focado na segunda cena, ou seja, no acerto de contas pelo trabalho realizado pelos trabalhadores contratados em diferentes horas do dia. A todos o chefe da família prometera pagar o que seria justo, e não um valor estabelecido.

As pessoas contratadas na primeira hora assistem ao pagamento das que foram contratadas no fim do dia, que recebem, por poucas horas de trabalho, um valor que permite a subsistência diária, e isso alimenta a expectativa de que receberiam bem mais, pois haviam feito por merecer. Mas o contratante não se orienta pela meritocracia, e sim pela justiça e pela bondade, e retribui a todas igualmente.

O grupo que se julga merecedor de uma retribuição maior se irrita por ter sido igualado aos demais. De fato, o pai de família não age conforme o costume, não reforça a competição e a distinção de classes. A irritação brota da inconformidade por terem sido igualados aos mais necessitados. Eles protestam contra a igualdade fundamental de todos os trabalhadores!

Com esta parábola, Jesus nos convoca a tomar uma posição radical, como ele mesmo o fez: assumir um estilo de vida alternativo também na economia, agindo na perspectiva do Reino de Deus, guiando-nos pela necessidade das pessoas e pela gratuidade, ou pela economia do dom, como a chamou o Papa Francisco.

Será que também nós, depois de dois mil anos de cristianismo, caímos na armadilha de nos sentir melhores que os outros? Em que medida ainda tratamos as pessoas, grupos, religiões e classes sociais a partir daquilo que achamos que ‘merecem”? Será que ainda defendemos a velha moral econômica que recomenda dar a cada um o que merece? Chegamos a perceber que a lógica de Deus é outra, é diferente?

 

Sugestões para a meditação

Com esta parábola, Jesus provoca fortemente as pessoas, tanto os judeus como seus discípulos, a superar a lógica do mérito

Deixe ressoar em você a afirmação clara e provocativa de Jesus mediante a parábola do patriarca generoso e solidário

Peça a Jesus a graça de se comprometer e se alegrar com os pequenos e grandes sinais de emancipação dos pobres


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Semear sempre

Escutar, praticar e anunciar o Evangelho

1209 | Tempo Comum | Semana XXIV | Sábado | Lucas 8,4-15

No trecho do Evangelho proposto hoje à nossa meditação, Jesus se dirige à multidão que chega a ele vindo de várias cidades. Mas, ao narrar esse acontecimento, Lucas tem presente também sua comunidade, que, 50 anos depois da páscoa de Jesus, se pergunta pelas razões do aparente fracasso da missão que está a desenvolver.

No texto, Jesus chama a atenção dos seus ouvintes e interlocutores: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” Ele propõe e sublinha o modo correto de ouvir a Boa Notícia do Reino de Deus. A parábola do semeador, especialmente a interpretação que Jesus mesmo dá da parábola, ajuda a ilustrar exatamente isso.

Na verdade, o centro da parábola não é o semeador, nem a semente, mas a qualidade do terreno que a recebe, a diferente sorte da semente do reino de Deus misturada na história humana. Com isso, fica bastante claro que Jesus propõe uma séria reflexão sobre as condições para uma autêntica escuta do Evangelho e para que ele chegue a produzir frutos bons e abundantes.

Jesus deixa claro que o que impede que o Evangelho frutifique não são apenas a perseguição e as pressões externas, mas também a falta de uma decisão firme de alguns discípulos e a intercorrência de outros interesses que não são os de Deus: as rotinas cotidianas, a falta de aprofundamento, a ambição de riquezas, etc.

Além de pedir de nós uma escuta atenta e generosa, um aprofundamento maduro e responsável, e uma sólida perseverança na escuta da Palavra, Jesus pede também que não deixemos de anunciar (semear) o Evangelho a todas as pessoas e grupos, em todos os tipos de terreno. Também pede que façamos isso sempre com absoluta confiança na força da semente e com esperança de que frutifique.

Como imagina o profeta Ezequiel, somente quem “come, mastiga e digere” a palavra de Deus, repleta de clamores, dores e cantos de vitória do povo de Deus, está em condições de anunciá-la, praticá-la e testemunhá-la. Quando o Evangelho que ouvimos germina, lança raízes e frutifica em nós, então poderá ser anunciado eficazmente, confirmando e fortalecendo os ouvintes.

 

Sugestões para a meditação

Retome, com todas nuances, a parábola de Jesus e a cena descrita por este trecho do evangelho segundo Lucas

Você já viveu, ou vive, a sensação de que a luta pela justiça e o testemunho de uma vida ética e coerente não produzem nada?

Que tipo de terreno você tem sido, como você tem ouvido o Evangelho, especialmente neste tempo de pandemia?

Que frutos o Evangelho tem produzido em você e sua família? Há algo que o está sufocando e impedindo os frutos?

Confiar no bom Deus

CONFIAR NA BONDADE DE DEUS

Cada vez estou mais convencido de que muitos dos que se dizem ateus são homens e mulheres que, ao rejeitarem Deus, estão na verdade rejeitando um ídolo mental que construíram quando eram crianças. A ideia de Deus que carregam dentro de si e com a qual viveram durante alguns anos tornou-se pequena. A certa altura, esse Deus tornou-se uma figura tão estranha, incômoda e desagradável que decidiram prescindir dele.

Não me custa nada compreender essas pessoas. Dialogando com algumas delas, recordei mais de uma vez aquelas palavras certeiras do patriarca Máximus IV durante o Concílio: «Eu também não acredito no deus em que os ateus não acreditam». Na verdade, o deus que alguns eliminaram das suas vidas é uma caricatura que formaram falsamente dele. Se esvaziaram a alma desse deus falso, não será para deixar espaço, um dia, ao Deus verdadeiro?

Mas como pode hoje uma pessoa encontrar-se com Deus? Se se aproxima dos que nos dizemos crentes, é fácil que nos encontre a rezar, não ao Deus verdadeiro, mas a um pequeno ídolo sobre o qual projetamos os nossos interesses, medos e obsessões. Um Deus de que pretendemos apropriar-nos e usar para nosso proveito, esquecendo a sua imensa e incompreensível bondade para com todos.

Jesus quebra todos os nossos esquemas quando nos apresenta, na parábola do senhor da vinha, esse Deus que dá a todos a diária de que necessitam, mereçam ou não, e diz aos que protestam: «Tens inveja porque eu sou bom?»

Deus é bom com todos, mereçam ou não, sejam crentes ou ateus. A sua bondade misteriosa está para além da fé dos crentes e da incredulidade dos ateus. O que devemos fazer é esquecer os nossos esquemas, fazer silêncio no nosso interior, escutar até ao fundo a vida que pulsa em nós… e esperar, confiar, deixar o nosso ser aberto. Deus não se oculta indefinidamente a quem o procura com coração sincero.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Iguais

Jesus aceita mulheres como suas discípulas

1208 | Tempo Comum | Semana XXIV | Sexta | Lucas 8,1-3

Os três versos do trecho do evangelho de hoje nos apresentam Jesus anunciando a boa notícia do Reino de Deus, missão na qual é acompanhado e auxiliado pelo “grupo dos doze” e por um bom número de mulheres. A maioria delas fora libertada de um passado de dominação, medo e exclusão e beneficiada pela misericórdia de Jesus Cristo. Não se trata de pecadoras no sentido moral, mas de pessoas que, por motivos diversos, eram tratadas como pouco importantes, de segunda categoria.

Que Jesus tenha admitido mulheres como discípulas é algo bastante claro nos evangelhos, mas também muito inusitado. Os pais escolhiam mestres e educadores para seus filhos, mas não para suas filhas. Por mais importantes que fossem na dimensão afetiva e na educação dos filhos, as mulheres eram confinadas ao mundo doméstico. Nesse aspecto, Jesus representa uma novidade e uma ruptura. A novidade do Reino de Deus gera relações de partilha, serviço e autonomia.

As mulheres que acompanham Jesus, nomeadas pelas escrituras ou não, não são explicitamente chamadas de discípulas, mas o são de fato. Elas “caminham atrás de Jesus”, seguem seu caminho, e aparecem em nível de igualdade com o grupo dos doze. As mulheres aparecem nos evangelhos como servidoras eficazes – como diaconisas! – e são modelos daquilo que se espera de todo discípulo missionário de Jesus e do Reino de Deus. O que poderíamos esperar mais que isso?

O que congrega e caracteriza este grupo amplo e diversificado de pessoas que seguem Jesus é a plena dedicação a ele, a disposição de deixar-se educar e formar na sua “escola”, a dedicação ao anúncio da boa notícia do Reino de Deus e o testemunho de abertura, acolhida, partilha e fraternidade. A novidade de Jesus se mostra na comunidade que o segue, e esta é uma comunidade sem fronteiras, que acolhe mulheres e outras tantas categorias de excluídos!

Que belo exemplo, e que provocação contundente, Jesus faz às nossas igrejas, ainda tão masculinas e resistentes ao pleno reconhecimento do jeito feminino de viver a missão! E isso deve ser dito mais incisivamente a respeito da nossa velha e amada Igreja Católica Apostólica Romana. As diferenças entre homem e mulher não podem implicar em hierarquização e exclusão. Não podemos mudar aquilo que Jesus nos deixou como herança e mandamento.

 

Sugestões para a meditação

Você tem se esforçado para reconhecer a plena dignidade das mulheres e não tem impedido que tenham lugar e importância como os homens?

Por que a igreja católica ainda não consegue incluir plenamente as mulheres nos seus ministérios e postos de direção e decisão?

O que fazer para que a Igreja seja coerente com Jesus no tratamento inclusivo das mulheres e outras categorias de pessoas menosprezadas ou excluídas?

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O fariseu e a pecadora

Jesus critica e condena as posturas farisaicas

1207 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quinta | Lucas 7,36-50

No final da parábola que antecede o texto de hoje Jesus sentenciava: “A sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. Os filhos e filhas da sabedoria são as pessoas que entendem e seguem Jesus, os pobres e pecadores, e não os mestres da lei ou os fariseus. Isso é reforçado no episódio de hoje.

Estamos diante de uma obra-prima da arte narrativa que usa de forma exuberante tons de simpatia e delicadeza. O fariseu Simão recebe Jesus em sua própria casa, e está cercado de gente do seu círculo de amizade, num clima de cumplicidade e confraternização. Mas eis que aparece do nada uma visita embaraçante, que se dirige a Jesus com um gesto profundamente desconcertante.

Uma mulher conhecida como pecadora (não quer dizer que o seja de fato!) entra na sala, se coloca atrás de Jesus chorando, lava os pés dele com suas lágrimas, enxuga-os com seus próprios cabelos, beija-os e unge-os com perfume. Jesus aparentemente não faz caso disso, e até aprova o gesto da mulher. Ele entende o sentido do gesto, mas Simão abre a boca contra Jesus, mesmo sem pronunciar palavras. Ele se pergunta que tipo de profeta é Jesus se aceita coisas desse tipo.

O mais surpreendente e eloquente da cena é que Jesus não se preocupa com a situação da mulher, mas com a atitude preconceituosa e excludente de Simão e seus colegas. Enquanto os fariseus e doutores da lei consideram o gesto da mulher inoportuno e ambíguo, para não dizer condenável, Jesus o vê positivamente, como reconhecimento da misericórdia que Deus vem manifestando nas suas ações. Este da mulher é um gesto de amor agradecido. Ela diz tudo sem palavras.

O pensamento crítico de Simão é próprio de quem esquece ou esconde que é pecador, e revela que seu conceito de profecia não é correto. Para Jesus, o gesto da mulher não tem nada de ambíguo, e, mediante a parábola dos dois devedores perdoados, afirma que quem está em pecado e não foi perdoado é o próprio fariseu e aqueles que pensam e agem como ele: são mais preconceituosos que religiosos.

Simão não reconhece sua condição de pecador e, com isso, se fecha ao perdão e à gratidão. E a mulher, porque perdoada, expressa sua confiança e gratidão a Jesus. O modelo a ser imitado não é o fariseu, mas a mulher pecadora. É ela que vive uma fé que tem força libertadora e regeneradora. E nós, com quem nos parecemos?

 

Sugestões para a meditação

Retome, em todos os delicados detalhes e nuances, a cena que se desenvolve na casa do fariseu Simão

Visualize as reações dos diferentes sujeitos, entre na parábola de Jesus, e deixe-se ensinar por seu gesto e sua palavra

Você se reconhece como pecador perdoado, como profundamente amado por Deus, se relaciona com as pessoas sem preconceitos, e é capaz de mostrar gratidão?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Chorar ou dançar?

Como você reage à proposta libertária de Jesus?

1206 | Tempo Comum | Semana XXIV | Quarta | Lucas 7,31-35

A cena que estamos meditando hoje está literariamente situada depois do elogio de Jesus ao soldado romano que pediu sua intervenção em favor de um empregado seu (7,1-10) e da devolução da vida ao filho da viúva de Naim (7,11-17), e em seguida às perguntas de João Batista sobre Jesus e do seu comentário elogioso a ele (7,18-30), episódio omitido pela sequência da liturgia diária.

Para desmascarar as resistências e contradições daqueles que resistem à sua proposta (principalmente os fariseus e mestres da lei), Jesus apresenta uma cena pitoresca e muito popular em pequenas cidades interioranas: um grupo de crianças que brincam na praça, umas tocando música e outras indiferentes ao que as primeiras fazem e transmitem. As crianças-artistas tocam músicas alegres e as outras não dançam; tocam músicas tristes, e ninguém chora ou entoa lamentações.

Os dois estilos de música são uma alusão aos diferentes caminhos de salvação oferecidos por João Batista e por Jesus. As crianças indiferentes que brincam na praça são os judeus, que nunca estão satisfeitos ou de acordo com aquilo que ouvem. A referência é clara: a mensagem de João Batista não foi aceita porque era muito dura e exigente (jejum e penitência); e Jesus é criticado por parecer-lhes muito permissivo (come e bebe, partilhando a mesa com pecadores e gente suspeita). São duas perspectivas diversas que enfrentam a mesma resistência à mudança.

Mas essa resistência não é exclusividade dos fariseus e doutores da lei, nem eventualmente dos cristãos das primeiras gerações. Os discípulos resistem à novidade anunciada e inaugurada por Jesus, e até se atrevem a propor reparos. Pensam que o amor aos inimigos seria uma proposta inocente e inadequada, e que há gente que não merece o perdão, ao menos um perdão sem limites, como nos lembrava a pergunta de Pedro a Jesus no evangelho do último domingo.

Jesus arremata seu questionamento em linguagem parabólica com uma afirmação um pouco obscura: “Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”. O sentido pode ser que os filhos da sabedoria, as pessoas que ouvem e compreendem Jesus, são os pobres e pecadores, e não os fariseus, os doutores da lei ou a casta sacerdotal. E nós, como reagimos hoje ao ensino libertário de Jesus? Podemos dizer que reconhecemos e aceitamos de fato à sua proposta do Reino de Deus?

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena pitoresca proposta por Jesus e procure relacioná-la com os diferentes grupos de cristãos que você conhece

Você não se vê, às vezes, desejando propor reparos em aspectos essenciais da proposta de Jesus? Quais?

Leia algo sobre a vida dos santos Cornélio e Cipriano, cuja memória celebramos hoje, e procure relacioná-la com o evangelho de hoje