Será que Jesus Cristo
deveria voltar à escola?
Está
no evangelho segundo Lucas (15,1-7): “Haverá mais alegria no céu por um só
pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de
conversão”. É como o caso de um pastor dedicado: ele deixa as 99 ovelhas no
campo e vai atrás de uma que se perdeu. E, quando a encontra, toma ela no colo,
volta para casa e reúne os vizinhos para festejar e participar da sua alegria.
Será que 1 vale mais que 99?
Está
no evangelho segundo João (6,1-13). Uma multidão segue Jesus na travessia do
mar para escutá-lo. Vendo toda aquela gente, Jesus pergunta aos discípulos como
alimentá-la. Eles fazem um rápido orçamento e concluem que custaria a renda de
sete meses. Mas, com cinco pães e dois peixes que lhe são entregues, cinco mil
cidadãos se alimentam o quanto querem, e a sobra enche doze cestos. Será que
essa divisão é possível?
Está
no evangelho segundo Mateus (20,1-16). Alguns assalariados começam a trabalhar
para o mesmo patrão bem cedo, outros às nove horas, ao meio-dia e à tarde.
Todos recebem o mesmo valor como pagamento: o necessário para viver um dia. Os
primeiros murmuraram porque foram igualados aos últimos. Mas o patrão responde
que a justiça considera a necessidade e não o mérito. Será que Jesus desconhece
as leis?
Está
em todos os evangelhos: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os
últimos”; “o primeiro e maior é o último e aquele que serve” (cf. Lc 13,30; 22,26;
Mc 10,31.43; Mt 19,30; 20,16; 23,11; Jo 13,14). Isso é estranho, pois os
primeiros sempre são os vencedores e bem-sucedidos, e os perdedores, condenados
a servir e se submeter, são os imprestáveis. Será que Jesus não conhece os
valores que garantem a ordem social?
Jesus
não ignora o funcionamento das religiões e das instituições. Mas ele as critica
com radicalidade, e propõe outra escala de valores e outros paradigmas de
justiça. Não o representam as igrejas e comunidades que se fecham como gueto
dos 99 justos, como seita que reúne os cidadãos mais honrados, ou as sociedades
que premiam os vencedores por terem mérito e punem os empobrecidos porque os
consideram fracassados.
Edifiquemos
comunidades eclesiais que se alegram com cada pessoa que é protegida e supera a
vulnerabilidade, porque “todas as vidas importam”. Elaboremos arcabouços legais
que deem prioridade aos setores sociais que pagam com uma vida precária o
desenvolvimento do país. E trabalhemos sem tréguas por estruturas econômicas e
judiciais que assegurem a todos os cidadãos as condições básicas para uma vida
digna.