Conquistemos nossa vida gastando-a!
995 | Quaresma | Cinzas| Lucas 9,22-25
As cinzas que recebemos ontem reforçam
o chamado à conversão ao Evangelho do Reino de Deus. Como todas as criaturas,
os seres humanos somos vulneráveis, e a vida escapa ao nosso controle. Hoje, no
segundo dia da quaresma, Jesus nos fala do seu caminho de encarnação radical na
condição humana humilhada, e o propõe como regra de vida para aqueles que,
crendo nele, seguem seu caminho.
Esta lição de Jesus no processo de formação
dos discípulos ocorre num momento importante. Os discípulos são tentados a
voltar atrás, resistem à proposta de Jesus, têm dificuldades de mudar o modo de
pensar e de agir. É nesse contexto que Jesus diz claramente quem ele é e a que
veio. E, com a mesma clareza, fala que sua proposta e sua pessoa serão
rejeitadas, perseguidas e eliminadas em nome da religião e dos bons costumes. A
violência pode se esconder no pequeno intervalo entre um canto e um rito.
Estamos diante do “coração” da fé cristã: a
realização do Reino de Deus, a construção da unidade num mundo polarizado e
intolerante, passa pela doação da própria vida. É claro que Jesus não está
falando de uma espécie de suicídio premeditado, nem de uma morte acidental. Ele
diz que esse é o caminho de quem é enviado por Deus como sinal inequívoco do
seu amor por todas as pessoas, sem olhar para sua condição moral ou religiosa.
É difícil legitimar nossas violências com o álibi da autodefesa.
Mas Jesus não é uma espécie de herói
solitário, como aqueles que estrelam os filmes norte-americanos. Nem alguém a
ser apenas admirado e imitado. Seu caminho é o caminho de toda pessoa que nele
crê e busca um mundo habitável: o boicote, a perseguição e a exclusão por parte
das elites que dominam. Para Jesus, a cruz, ou o dom radical de si mesmo, não é
um martírio espetacular e admirável, nem uma solução de emergência, mas a
lógica predominante e permanente da fé.
Por isso, Jesus
coloca seus discípulos diante de uma encruzilhada, e pede que escolhamos entre
dois caminhos alternativos: focar nossa caminhada antes de tudo em nossos
interesses, salvar nossa vida a qualquer custo e viver mediocramente; doar a
vida sem reservas pelos outros e pelo cuidado da casa comum, acessando, assim, uma
vida plena e fecunda, que nada e ninguém pode aprisionar.
Sugestões para a meditação
Leia atentamente,
palavra por palavra, frase por frase, este ensino no qual Jesus apresenta o
“miolo” do seu Evangelho
Se possível, leia
também o episódio que antecede estas palavras (9,18-21), onde Jesus pergunta:
“Quem vocês dizem que eu sou?”
O que significa
propriamente salvar ou perder a própria vida? Como Jesus nos mostra isso no seu
próprio modo de viver?