sábado, 20 de junho de 2026

Não há espaço para o medo

Quem se confia a Deus está em boas mãos!

1118 | Tempo Comum | Semana XII | Domingo | Mateus 10,26-33

O evangelho deste domingo é uma contundente exortação a não ter medo das dificuldades oriundas da fidelidade à vocação e à missão que nos é confiada. Os versículos de hoje estão inseridos no contexto da escolha, instrução e envio dos doze discípulos como colaboradores da missão de Jesus, com a competência de expulsar os espíritos maus e de curar todo tipo de doença e enfermidade (cf. Mt 10,1-4).

Antes de enviá-los, Jesus dá aos discípulos uma série de instruções fundamentais e orientações práticas. Pede-lhes absoluta confiança nas inspirações do Espírito Santo, especialmente para a autodefesa diante das perseguições. Jesus não esconde nada daqueles que escolhe e envia, e sublinha que a reação persecutória é mais que uma possibilidade, e pode-lhes vir inclusive da própria família de sangue. Eles são ovelhas em meio a lobos (cf. v 16-25).

Jesus inscreve a ação dos discípulos missionários no próprio processo de desvelamento das promessas de Deus e da iniquidade humana que se lhe opõe. A missão que eles desenvolvem colabora na revelação daquilo que está escondido e na descoberta aquilo que está oculto no coração humano, no seio da história e nas instituições sociais. Mas também alerta seus enviados em relação ao medo paralisador que as perseguições podem provocar.

Os discípulos missionários não podem sucumbir ao medo de ser descartado. A própria perseguição não está fora do conhecimento de Deus. Ele é pai carinhoso que conhece e protege seus filhos e filhas. Ele se desdobra em cuidados e carinhos até dos pássaros que não gozam de importância alguma, e nem o detalhe da queda dos cabelos lhe passa despercebida. Seus enviados valem muito mais que alguns pardais ou um chumaço de cabelo!

O poder das pessoas e estruturas que perseguem e matam é limitado, enquanto que o cuidado do Pai pelos seus enviados não tem limites. É preciso temer mais a Deus que aos podres poderes. A confiança absoluta na sua Sabedoria e na sua Vontade sustenta a fidelidade. Com os olhos fixos em Jesus, o Profeta contestado, e sem largar a mão de ninguém que compartilha a missão, enfrentaremos serenamente as contrariedades. E que ninguém ouse dizer que ser missionário nos tempos atuais é muito difícil e complexo! A cada tempo seus próprios desafios.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você cada palavra e cada frase desta exortação missionária de Jesus, e procure deter-se naquela que lhe fala mais alto

Quais são hoje os medos que inibem a força e o dinamismo da missão pública dos cristãos? Você também os sente?

Onde, em que e com quem você busca encorajamento para viver a missão profética que lhe é confiada, com serenidade e firmeza?

Não tenha medo!

LIBERTAR AS COMUNIDADES DO MEDO

As fontes cristãs apresentam Jesus dedicado a libertar as pessoas do medo. Deixava-o triste ver as pessoas aterrorizadas pelo poder de Roma, intimidadas pelas ameaças dos mestres da lei, afastadas de Deus pelo medo da sua ira, culpabilizadas pela sua pouca fidelidade à lei. Do seu coração, cheio de Deus, só podia brotar um desejo: «Não tenhais medo». São palavras de Jesus que se repetem uma e outra vez nos evangelhos. As que mais se deveriam repetir também hoje na sua Igreja.

O medo apodera-se de nós quando no nosso coração cresce a desconfiança, a insegurança ou a falta de liberdade interior. Este medo é o problema central do ser humano, e só podemos libertar-nos dele enraizando a nossa vida num Deus que só procura o nosso bem.

Foi assim que Jesus o viu. Por isso dedicou-se, antes de mais, a despertar a confiança no coração das pessoas. A sua fé profunda e simples era contagiante: se Deus cuida com tanta ternura dos pardais do campo, os pássaros mais pequenos da Galileia, como não há de cuidar de vós? Para Deus sois mais importantes e queridos do que todos os pássaros do céu. Um cristão da primeira geração recolheu bem esta mensagem: “Entregai a Deus toda a vossa preocupação, que a Ele lhe interessa o vosso bem”.

Com que força falava Jesus a cada doente: «Tem fé. Deus não se esqueceu de ti». Com que alegria os despedia quando via que estavam curados: «Vai em paz. Vive bem». Era o seu grande desejo. Que as pessoas vivessem com paz, sem medos nem angústias: “Não vos julgueis, não vos condeneis mutuamente, não vos façais mal. Vivei de forma amistosa”.

São muitos os medos que fazem as pessoas sofrer em segredo. O medo faz mal, muito mal. Onde cresce o medo, perde-se de vista Deus e sufoca-se a bondade que há no coração das pessoas. A vida apaga-se, a alegria desaparece.

Uma comunidade de seguidores de Jesus deve ser um lugar onde as pessoas se libertam dos seus medos e aprendem a viver confiando em Deus. Uma comunidade onde se respira uma paz contagiante e se vive uma amizade profunda que torna possível escutar hoje o apelo de Jesus: «Não tenhais medo».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Deus X Dinheiro

Não é possível servir a Deus e ao dinheiro

1117 | Tempo Comum | Semana XI | Sábado | Mateus 6,24-34

A parte do evangelho de Mateus chamada “sermão da montanha” é um processo de formação dos discípulos na novidade do Reino de Deus. Depois de dar exemplos de uma nova interpretação da antiga lei, e depois de criticar as práticas de piedade (esmola, oração e jejum), Jesus adverte seus discípulos em relação à tentação do acúmulo doentio e desmedido de bens.

Para falar deste tema, aliás, sempre espinhoso, Jesus recorre à relação entre senhor e escravo, uma relação estruturante no império escravocrata de Roma sob o qual viviam Jesus e seu povo: o escravo faz parte da propriedade do senhor; quando não serve mais, não se dedica exclusivamente ou despreza seu senhor, é simplesmente descartado. Assim, a riqueza se converte num chefe tirano: não está a serviço da pessoa, mas se apropria da vida dela e não admite nenhum concorrente.

Para Jesus, o problema não está na necessidade de comer, de vestir, de ter uma moradia. Estas não são preocupações desprezíveis, mas necessidades profundamente humanas, que a sociedade deve garantir até para quem não tem meios próprios. O problema é o materialismo, a busca de ter sempre mais. Este desejo insaciável é gerado por uma ansiedade que nunca consegue se acalmar, e nos leva de preocupação a preocupação, numa ansiedade indestrutível e destruidora.

O problema é exatamente esta “necessidade” de ter sempre mais, de dominar as condições da existência, e de conseguir isso unicamente para si, competindo impiedosamente com tudo e com todos. Este desejo de açambarcar tudo e todos, com a maior rapidez possível, acaba fazendo-nos senhores implacáveis e nos transformando em escravos, invertendo a relação entre as pessoas e as coisas.

Para Jesus, esta preocupação de satisfazer as necessidades através do acúmulo e da competição é coisa de gente sem fé. E é um caminho sem fim, porque cada dia impõe uma nova preocupação, cada meta atingida pede mais. Para o discípulo, o reino de Deus – a fraternidade, a justiça, a misericórdia – é a única preocupação legítima, e deve ser pedida na oração, buscada na vida e testemunhada na sociedade. O verdadeiro rico é quem precisa se poucas coisas para viver.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você este ensino inovador de Jesus, que ele viveu em primeira pessoa: confiar no Pai como uma criança, buscar o Reino de Deus, deixando o resto nas mãos do Pai

Preste atenção às metáforas que Jesus busca na vida cotidiana: a relação entre patrão e empregado; a beleza das flores; a liberdade e a confiança dos pássaros; as preocupações que nunca acabam...

Que sentido fazem estas palavras de Jesus num mundo que reduz os sonhos de muita gente à simples sobrevivência biológica?

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O coração e o tesouro

Nosso coração está onde está nosso tesouro

1116 | Tempo Comum | Semana XI | Sexta-feira| Mateus 6,19-23

A parte do evangelho de Mateus que conhecemos como “sermão da montanha” é uma iniciação dos discípulos à novidade do Reino de Deus. Depois de dar exemplos de uma nova interpretação da antiga Lei, e depois de falar criticamente das práticas de piedade (esmola, oração e jejum), Jesus adverte seus discípulos sobre os compromissos do coração, sobre a opção fundamental que unifica todas as ações.

Hoje Jesus adverte os discípulos e demais ouvintes sobre a insensatez e a imprudência da cobiça. Os “tesouros na terra” são a obsessão de possuir sempre mais, o consumo desmedido, o sucesso a qualquer custo. Apesar da sua aparência e promessa, estas são coisas instáveis cuja posse nunca está garantida, coisas sem valor verdadeiro, sempre sujeitas à deterioração. Tratar isso como essencial equivale a negligenciar a vontade de Deus.

Jesus propõe a busca de “tesouros no céu”, que são os valores do Reino de Deus: a misericórdia, a compaixão, a partilha solidária e a fraternidade como bens imperdíveis e indestrutíveis. Sobre isso Jesus já falara, de algum modo, nos trechos anteriores. Trata-se então de ter isso como desejo sincero, preponderante, profundo e permanente. Em outras palavras: transformar isso em uma “opção fundamental”, que baseia e orienta tudo.

Jesus ilustra a diferença entre estes dois projetos com a metáfora do olho. Na cultura do povo do seu tempo, os olhos eram considerados uma espécie de faróis que projetam para fora a luz que vem de dentro. Então, se nossos olhos faíscam cobiça, são faróis que só projetam escuridão doentia, e tornam nossa vida algo tenebroso. Se nossos olhos estão fixos no reino de Deus, projetam luz clara, suave e benfazeja.

O foco sincero e profundo no reino de Deus significa: para os ricos, ruptura com a cobiça, renúncia à acumulação, partilha solidária; para os pobres, confiança profunda em Deus, que cuida de nós como o faz um pai; cooperação solidária com os iguais ou mais necessitados; superação da tentação de imitar os ricos e poderosos. O seguimento de Jesus é uma aventura bela, mas, igualmente exigente.

 

Sugestões para a meditação

Quais são os valores que “brilham aos nossos olhos”, que mobilizam e potencializam nossas energias e nossas buscas?

Como entender que a busca da prosperidade a qualquer custo tenha ocupado o lugar da justiça em muitas pregações?

Que pedidos ou súplicas costumam ocupar os primeiros lugares nas “listas de desejos” que diariamente apresentamos a Deus?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Rezar como cristãos

Ao rezar, não multipliquemos as palavras

1115 | Tempo Comum | Semana XI | Quinta-feira| Mateus 6,7-15

Nestes versículos, omitidos no trecho maior que meditamos ontem, Jesus prossegue sua formação aos discípulos, deslocando nossa atenção das prescrições legais para a prática da oração. Não faltemos a esta importante lição da nossa formação permanente, mantenhamo-nos atentos e sintonizados com aquilo que é essencial, e não nos deixemos distrair por nada.

Em alguns versículos de ontem, Jesus já chamava a nossa atenção para a atitude correta na oração. Por mais que tenha também uma marca comunitária e um caráter público, o que move a oração cristã não é o desejo de impressionar os outros ou o próprio Deus, de receber aplausos, de ostentar piedade. No horizonte da novidade de Jesus e do advento do Reino de Deus, a oração tem marcas e exigências próprias.

Jesus não pretende ensinar aos seus discípulos e discípulas uma fórmula de oração a ser repetida em todas as ocasiões, mas uma atitude a ser assimilada com profundidade e um horizonte capaz de inspirar nossa vida de oração. Jesus sublinha que a nossa oração deve estar focada no Pai, na vinda do seu Reino e na sua Vontade (a quem se referem três frases) e nos irmãos, nas relações com eles, nas suas necessidades e nas ameaças que sofremos (quatro referências).

Para Jesus, o desejo que deve mover nossa oração é, antes de tudo, que o nome de Deus seja universalmente e concretamente honrado na afirmação da dignidade dos seus filhos e filhas; que seu Reino venha para demolir as estruturas injustas e instaurar uma ordem social mais humana e solidária; que sua vontade seja a inspiração de todos os projetos e ações pessoais, eclesiais e sociais, e seja levada em conta tanto na terra como o é no céu.

Em segundo lugar, Jesus nos ensina a apresentar a Deus nossas necessidades mais pungentes, e não qualquer desejo ou capricho de menor importância: que não falte a ninguém o pão de cada dia; que tratemos nossas tensões e curemos as feridas relacionais mediante o perdão, sinal do Ano da Graça; que vençamos a tentação de desistir diante do desafio de viver como comunidade alternativa no meio do mundo; que sejamos mais fortes que o maligno, que às vezes se disfarça de anjo bom; enfim, que nossos desejos tenham a grandeza do desejo de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você este ensino de Jesus, que ele viveu em primeira pessoa: colocar-se inteiramente nas mãos do Pai e realizar plenamente sua vontade

Como você e sua comunidade tem exercitado a oração? Em que ela está focada nestes tempos de crise política, moral, ambiental, social e econômica?

Há algo a ser revisto ou ser melhorado na sua forma de rezar e no conteúdo da sua oração? Há algo a mudar ou melhorar no foco das nossas celebrações comunitárias, que são basicamente orações coletivas?

terça-feira, 16 de junho de 2026

Viver com discrição

Não façam as coisas para buscar aplausos!

1114 | Tempo Comum | Semana XI | Quarta-feira| Mateus 6,1-6.16-18

Nas últimas meditações, vimos refletindo sobre a proposta inovadora de Jesus frente aos costumes e leis do judaísmo, em seis exemplos concretos. No evangelho de hoje Jesus prossegue seu ensino, deslocando a atenção das prescrições legais para as práticas de piedade: a esmola, a oração e o jejum. É uma nova etapa na formação dos discípulos. Não faltemos a mais esta lição da nossa formação permanente!

Nos exemplos anteriores, o tema era a justiça maior e plena que aquela praticada pelos fariseus, a justiça que antecede e ultrapassa as prescrições e proibições. Este tema continua na presente seção, como, de resto, em todo o evangelho de Mateus. Para alguns setores importantes do judaísmo, tudo se resumia em aparecer, ser visto e reconhecido, em granjear a fama aos olhos do povo, inclusive com práticas morais muito minuciosas. Em vista do reconhecimento eles faziam qualquer coisa, e a isso subordinavam até as práticas religiosas.

Jesus começa sua exortação catequética de hoje com uma advertência contundente: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente das pessoas, só para serdes vistos por elas!” Jesus não é uma espécie de pregador ingênuo e sonhador, e percebe que esta busca de evidência e de relevância pode contaminar até aquilo que parece mais piedoso e religioso, como a partilha mediante a esmola, a intimidade com Deus mediante a oração, e o jejum como privação de algo bom em vista de algo superior. A hipocrisia pode contaminá-las e destituí-las de valor evangélico!

Por isso, Jesus propõe um princípio prático, geral e efetivo para evitar esse risco: evitar a busca do aplauso e da publicidade, deslocando o foco de nós mesmos e nossas instituições para Deus e o Outro. É isso que nos faz bons e nos justifica! O resto é teatro e espetáculo para impressionar as pessoas incautas. O que vale todas as penas é a aprovação de Deus, que vê o que é discreto e secreto, aquilo que ninguém vê, aqueles que ninguém quer ver, reconhecer e valorizar.

A ostentação e a aparência têm pouco a ver com Deus, com sua vontade e com sua ação no mundo. Muito ao contrário, este tipo de piedade é capaz de irritar em vez de agradar a Deus. Não podemos usar as práticas de piedade e o culto solene como estratégias para seduzir o povo e tentar o próprio Deus. “Fé cega é faca amolada”, e “quando a promessa é grande o santo desconfia”, ensina nosso povo.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você este ensino inovador de Jesus, que ele mesmo viveu em primeira pessoa: fazer o bem sem olhar a quem

Como você e sua comunidade tem vivido as práticas de partilha solidária? Há algo a ser revisto e melhorado nelas?

E o que pensamos hoje em relação ao jejum? Vemos sentido? Com que sentido o praticamos, ou com que argumentos o contestamos?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O amor nos leva longe

Amar os inimigos é testemunho e profecia.

1113 | Tempo Comum | Semana XI | Segunda | Mateus 5,43-48

A parte do evangelho de Mateus que conhecemos como “sermão da montanha” é uma espécie de iniciação dos discípulos à novidade do Reino de Deus inaugurada e vivida por Jesus de Nazaré, o Enviado do Pai. Se é verdade que Jesus não quer simplesmente descartar a Lei e os costumes do judaísmo, também não há dúvidas de que ele opera uma mudança substancial nas tradições sagradas, e se apresenta como seu intérprete e consumador.

Hoje temos o sexto exemplo de releitura da Lei: o mandamento de amar o próximo. Para a tradição judaica, originalmente faziam parte do conceito de “próximo” os familiares de sangue e de casa e os membros do judaísmo, mas o conceito se estendia também, ao menos em parte, aos doentes, aos pobres e aos estrangeiros. Na prática, no tempo de Jesus, este círculo era bem mais estreito e se restringia a poucas pessoas. Por outro lado, faziam parte do grupo dos “inimigos” os oponentes pessoais, os adversários nacionais, os estrangeiros e infiéis, mas também gente da própria casa, quando se comportava de modo considerado imoral ou inaceitável.

Para Jesus está muito claro que Deus não orienta sua relação conosco pelos parâmetros do gênero, da aparência, da riqueza, da condição social ou religiosa, do sangue ou da nação. Deus, porque ele é bom, não olha apenas para as “pessoas de bem”. Todos somos pecadores necessitados da misericórdia do Pai. Por isso, Jesus de seus discípulos a disposição de amar até os inimigos e de rezar pelos que os perseguem. É assim que manifestam que são filhos de Deus.

Mas é também claro que amar o próximo não é a mesma coisa que ser gentil ou ter bons sentimentos. Amar é reconhecer e afirmar, por decisão e por ação, a dignidade de cada pessoa, para além da sua condição humana, social ou moral. E o amor, por sua própria natureza, não é da parte dos sentimentos, mas da ordem da vontade, das decisões. Ninguém ama por instinto, por sentimento ou por natureza, mas por decisão e compromisso. A medida do amor é amar sem medida, pois o amor calculado e mensurável não passa de egoísmo e de acordo de cavalheiros. Atenção, pois, no uso desse verbo!

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você este ensino inovador que Jesus viveu: não pagar com a mesma moeda, não ser uma pessoa reativa, mas inovadora, revolucionária

Recorde cenas e acontecimentos da vida de Jesus que demonstram que ele viveu isso que ensina aos seus discípulos

O que significa hoje oferecer a outra face, dar o manto a quem quer se apropriar da túnica, andar o dobro daquilo que nos impõem?

Como poderíamos praticar este ensinamento de Jesus nas relações violentas que infestam as redes sociais, especialmente quando o assunto é política?

domingo, 14 de junho de 2026

O cristão vai além da reação

Crer é mais que reagir, é tomar a iniciativa

1112 | Tempo Comum | Semana XI | Segunda | Mateus 5,38-42

No sermão da montanha, que é uma espécie de minicurso de iniciação dos discípulos ao Evangelho do Reino de Deus, Jesus se apresenta como o intérprete e consumador da lei e dos costumes do judaísmo. Hoje nos deteremos no quinto exemplo de releitura da Lei que Jesus desenvolve, como Mestre que ensina com autoridade e ousadia. Não domestiquemos a novidade do Evangelho!

A vingança, que nasce no ventre do medo, parece fazer parte da história das sociedades. O judaísmo quis limitar este princípio ao “olho por olho e dente por dente”. Isso já representa um avanço diante da violência ilimitada que a vingança desencadeava. Mas Jesus pede aos seus discípulos e discípulas muito mais que isso. Ele pede que quebremos o círculo ou a lógica da violência, que passemos da simples reação contra a violência sofrida à iniciativa positiva e à gratuidade. “Não enfrenteis quem é malvado” (com a mesma prática), diz Jesus.

Jesus dá alguns exemplos de como podemos fazer isso na prática. Num contexto em que o tapa no rosto era um insulto e uma violência física de uma pessoa superior contra outra pessoa tratada como inferior, oferecer a outra face a quem bate é expressão inequívoca de dignidade e superioridade, de capacidade de iniciativa, de uma atitude fundamental de não-violência ativa. Não é sinal de submissão.

Num ambiente no qual era comum um proprietário rico penhorar judicialmente a túnica de um pobre endividado, entregar também o manto, ou seja, todas as vestes, era uma forma de expor a humanidade nua que iguala a todos os seres humanos, um jeito de protestar e de desmascarar a violência dos prepotentes.

Num contexto em que os soldados romanos, que garantiam com violência a ocupação colonialista, obrigavam o povo nativo a caminhar com eles e carregar as armas que serviam para intimidá-los, caminhar o dobro do que lhes era imposto significava não entrar no jogo dos opressores, tomar a iniciativa e ser mais digno que eles. Não há qualquer sombra de dúvidas! O ensinamento de Jesus não tem nada de submissão, e tudo de alternativo, de maturidade humana.

 

Sugestões para a meditação

Deixe ressoar em você este ensino inovador que Jesus viveu: não pagar com a mesma moeda, não ser uma pessoa reativa, mas inovadora, revolucionária

Recorde cenas e acontecimentos da vida de Jesus que demonstram que ele vive isso que ensina aos seus discípulos

O que significa hoje oferecer a outra face, dar o manto a quem quer se apropriar da túnica, andar o dobro daquilo que nos impõem?

Como poderíamos praticar este ensinamento de Jesus nas relações violentas que infestam as redes sociais, especialmente quando o assunto é política?

sábado, 13 de junho de 2026

De traições e de traidores

Melhor seria que não tivessem nascido?

Traição é quebra de uma relação de confiança, lealdade ou acordo prévio de fidelidade. É uma violação de expectativas mútuas e gerar sentimentos profundos de frustração, raiva e revolta. Na história da humanidade, é tão antiga quanto as alianças. O mundo da política que o diga. A relação conjugal é apenas um dos campos onde ela acontece.

A bíblia registra traições memoráveis e destruidoras: Caim traiu a confiança de Abel e o matou (cf. Gn 4,8); Jacó e sua mãe Rebeca enganaram Isaac, traíram e roubaram os direitos de Esaú (cf. Gn 27,1-40); Dalila traiu Sansão e revelou aos inimigos filisteus o segredo da sua Sansão (cf. Jz 16,4-31); Ananias e Safira traíram a comunidade, mentindo e escondendo parte dos bens a ela destinados (cf. At 5,1-11).

Mas o patrono de todos os traidores é Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Jesus, seu mestre, e o entregou em troca de dinheiro (cf. Lc 22,1-6). É a ele e sua triste e devastadora decisão que Jesus se refere quando diz: “Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido” (Mt 26,24). É uma das sentenças mais duras que Jesus pronunciou.

É certo que as traições que ocorrem nas relações conjugais e amizades são doloridas e podem arruinar muitas vidas. Mas as traições políticas, as infidelidades ao voto do povo são simplesmente avassaladoras. Seus efeitos nocivos ferem a vida de milhares de cidadãos e podem comprometer o desenvolvimento de uma nação por várias décadas.

Chega a ser aviltante a desfaçatez com que candidatos de um amplo espectro de partidos assediam os cidadãos, apresentando-se como servidores voluntários do povo e turbinando suas invisíveis virtudes civis. E se evitassem o caminho da traição futura, e simplesmente falassem a verdade: que estão à caça de carreira e de bons dividendos?

Como estão longe da Política com “P” maiúsculo, da dedicação ao bem de todos! Como é revoltante ver a “Casa do Povo” sendo transformada num birô no qual o bem-estar do povo é negociado a preço vil! Como é aviltante ver o poder que “emana do povo” ser usado como poder decidir contra o povo! Como é deprimente conviver com a empáfia de traidores da nação que prestam fidelidade a bandeiras e potências alienígenas!

Infelizmente, o culto a Judas tem uma longa história e muitos adeptos e no Brasil. Vai de Martim Tibiriçá, passa por Calabar e Silvério dos Reis, e chega aos seus acólitos atuais. Seria melhor que não tivessem nascido? Cecília Meireles sentencia: “Vossa glória, nesta vida, é morrerdes escondidos, podres de pavor e remorsos”.

Rosto da Misericórdia do Pai

Jesus Humano, Compassivo e Misericordioso

1111 | Tempo Comum | Semana XI | Domingo | Mateus 9,36-10,8

Em Jesus, Deus não quis fazer um simples passeio pelo mundo, visitar os lugares e as pessoas mais atraentes e agradáveis, mas assumir a fundo nossa condição humana. Vemos Jesus caminhando sem pressa pela Galileia: ele vê e contempla a realidade e as pessoas; olha de frente e a partir de dentro a realidade humana e social. Seu olhar não tem nada de passividade, indiferença ou julgamento. Como o samaritano, ele vê e, movido pela compaixão, socorre.

O olhar de Jesus não identifica apenas doentes terminais, mortes inexplicáveis ou cegueiras causadas por espíritos maus. Ele não vê também apenas uma multidão sem rosto e sem nome. Jesus vê gente cansada e abatida, um povo sem líder e sem guia.  Diante dessa gente, as entranhas maternas de Deus se contorcem, e ele revela sua capacidade de sofrer com seus filhos e filhas. Deus rejeita como indigna e pecaminosa toda forma de indiferença frente à dor das suas criaturas, qualquer que seja sua condição moral.

E esta compaixão que está na origem da missão de Jesus, e a sustenta até o fim. Ela é o dinamismo permanente que leva adiante e sustenta sua ação humanizadora. Ele não se comporta como as pessoas que, ao invés de usar máscaras protetoras usam venda nos olhos e, diante de mortes que contamos aos milhares, e das violências, que somam milhões, perguntam: “E daí? O que vocês querem que eu faça?”.

Diante da imensa tarefa de anunciar a Boa Notícia de um Deus misericordioso e mostrar sua presença através de ações libertadoras que denotam a chegada do Reino de Deus, Jesus se vê pequeno, sente necessidade de mais gente nessa missão. Por isso, ele insiste que devemos pedir ao Pai mais operários para essa colheita, e ele mesmo escolhe alguns para enviar exemplarmente em seu nome.

Jesus divide com seus discípulos capazes de compaixão a responsabilidade de curar enfermidades e dissipar espíritos que escravizam as pessoas. São seguidores que ele escolhe para permanecer mais próximos e aprender mais profundamente, e para colaborar com sua missão. Esta é uma missão que convoca e compromete todos os cristãos, e todos os homens e mulheres de boa vontade, aqueles que sentem uma devoradora fome e sede de justiça.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se na cena, acompanhe Jesus, observe suas ações, contemple os discípulos, sinta-se também chamado pelo nome e acolha o envio

Deixe ressoar em você a atitude de Jesus: percorrer cidades e vilarejos, anunciar a Boa Notícia do Reino, curar o povo de tudo o que o fere, agir com compaixão

Jesus forma seus discípulos e os envia pedindo-lhes prioridade às “ovelhas perdidas da casa de Israel”, às pessoas e grupos excluídos da cidadania e da religião: o que essa prioridade significa para você e para a Igreja hoje?