quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Traição e soberania

Quando a soberania de um povo corre perigo

Três dos quatro evangelhos narram a cena polêmica que envolve Jesus e as autoridades, e termina com uma sentença: “Devolvam a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12,17). A interpretação mais comum ensina que, com esta sentença, Jesus separa radicalmente a fé cristã e a política. Na verdade, é uma contundente afronta ao poder invasor dominador do império romano e uma defesa da soberania do povo judeu.

A aceitação da legitimidade do imposto seria o reconhecimento do domínio romano sobre o povo de Deus e a negação da sua soberania. Ao mandar devolver a César a moeda que traz sua efígie, Jesus assegura aos hebreus a sua pertença a Deus, o que equivale a afirmar sem meias palavras a sua soberania cultural, existencial e espiritual. E estas palavras adquirem especial relevância no contexto das nossas disputas eleitorais.

Segundo a Constituição de 1988 (Art. 1º), a República Federativa do Brasil tem como fundamento e base a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político. A ausência ou o atentado contra qualquer um desses fundamentos coloca em risco a estabilidade da República e pode ser qualificado como ameaça à soberania e à dignidade do povo brasileiro.

Antes e para além de eventuais polêmicas eleitorais, tenhamos claro que o Magistério católico reconhece de forma inequívoca a importância da soberania dos povos, pois ela é expressão do respeito que deve regular as relações entre os Estados. A soberania é a subjetividade de uma nação sob o aspecto político, econômico e também cultural, uma espécie de extensão dos direitos humanos (Compêndio de Doutrina Social, § 435).

Podem os cristãos católicos, que são também cidadãos brasileiros, aceitar passivamente as movimentações e maquinações de agentes políticos para facilitar ou pedir a ingerência de outras nações em decisões próprias das nossas instituições? Não seria o caso de “dar a elas o que é delas” e de um levante popular contra estes senhores, de levar isso em conta nas eleições e de chamar as instituições democráticas à ação que lhes corresponde?

É claro que Jesus não se identificou com um grupo político específico, e é verdade que os cristãos não podem fazê-lo em nome da fé. Mas Jesus Cristo não se omitiu nem se acovardou quando se tratou de defender a soberania dos seus conterrâneos e de todos os grupos que tinham sua dignidade ameaçada pelas elites nacionais ou pelos poderes externos. E, aqui, os Jesuítas fizeram o mesmo para defender os povos nativos.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A mesa e as migalhas

A fé dos pequenos provoca grandes mudanças

1163 | Tempo Comum | Semana XVIII | Quarta | Mateus 15,21-28

O texto proposto para a meditação de hoje pula os versículos que registram a explicação que Jesus oferece aos discípulos que o interrogam sobre o sentido da parábola com a qual fala daquilo que realmente torna a pessoa impura (v. 15-20). Depois da crítica aos mestres da lei e aos fariseus e da instrução ao povo e aos discípulos, Jesus desembarca, com seus discípulos, em pleno território pagão.

Ali Jesus é procurado por uma mulher desprezada e marginalizada por ser pagã, por ser mulher, por ser estrangeira e por ser mãe solteira, viúva ou abandonada pelo marido (pois não há nenhuma referência a irmãos e marido). Essa mulher faz parte de um povo que a tradição judaica trata como amaldiçoado por Deus, mas ela se aproxima de Jesus e pede sua ajuda em favor de sua filha psiquicamente perturbada. É a primeira mulher a falar no evangelho de Mateus!

Inicialmente, mesmo sendo invocado como filho de Davi, o defensor ideal dos indefesos, Jesus não se importa com o grito da mulher que pede socorro, e a trata no horizonte da ideologia da supremacia dos judeus sobre os demais povos. Jesus dá a entender que foi enviado prioritariamente aos judeus, e é isso que ele se sente obrigado a fazer. Ou essa seria a ideologia que tentava os discípulos missionários na época em que Mateus escreve seu evangelho?

Os discípulos querem se livrar da mulher, mas ela não desiste, e questiona a ideologia do privilégio de Israel diante de Deus e da supremacia diante dos demais povos! Então Jesus se dirige diretamente a ela, mas para reforçar a prioridade do seu povo sobre os pagãos. E a mulher, que surge na cena como uma pessoa frágil e necessitada, manifesta explicitamente sua fé, se aventura a discutir teologia, e reinterpreta a afirmação excludente de Jesus. Segura da sua própria dignidade, atreve-se a desobedecer às repreensões dos discípulos e até a discutir com Jesus.

Jesus acaba reconhecendo na luta persistente daquela mulher contra a exclusão étnica e religiosa uma clara manifestação de fé. Esta fé produz frutos, e a necessidade daquela mulher é atendida. Graças à persistência de um personagem considerado excluído e tratado como inferior, o cristianismo se abriu aos diversos povos e suas culturas. Acolhamos agradecidos o testemunho inquieto das mulheres numa Igreja de ministros masculinos, e arregacemos as mangas para “desmasculinizar” a Igreja.

 

Sugestões para a meditação

Participe da cena: o desembarque de Jesus, os gritos da mulher, a indiferença de Jesus, a insistência da mulher e a reação de Jesus

Será que também nossa Igreja ainda prioriza setores privilegiados e descarta pessoas e grupos por preconceitos diversos?

Somos capazes de reconhecer na luta perseverante e até raivosa de algumas pessoas e grupos sinais de fé aguerrida? 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Evangelho e tradições

Por que não seguimos as tradições antigas?

1162 | Tempo Comum | Semana XVIII | Terça | Mateus 15,1-14

No capítulo 15, Mateus apresenta vários episódios focalizados no reconhecimento ou confirmação de Jesus como enviado pelo Pai para realizar seu reinado no mundo O texto de hoje omite os v. 3 a 9, nos quais Jesus acusa os fariseus e doutores da lei de substituir e esterilizar a Lei de Deus por tradições humanas que eles inventaram e ensinam, e de crer e louvar a Deus apenas da boca para fora.

O episódio começa com a aproximação dos fariseus e escribas para acusar os discípulos de Jesus de desrespeitar as tradições do judaísmo. Por trás dessa acusação, está a crítica ao próprio Jesus, que subordina as tradições e o legalismo frio à misericórdia. Jesus responde aos doutores da lei priorizando a pureza ética (purificação do coração) à pureza cultual, e insiste que seus discípulos devem compreender e assimilar essa novidade e essa mudança.

Os representantes do judaísmo oficial se escandalizam com a liberdade ensinada e praticada por Jesus e desaparecem. Eles não reconhecem a autoridade de Jesus diante das tradições que lhes conferem segurança e poder. Na continuidade e na ausência deles, Jesus volta sua “catequese” aos discípulos, mas não deixa de criticar dura a abertamente as práticas dos fariseus e doutores da lei.

Além de citar o profeta Isaías para acusá-los de falsidade e engano, Jesus diz que as tradições que eles defendem não são inspiradas por Deus, não são plantas de Deus e, por isso, serão arrancadas e não ficará nada. E conclui pedindo que ninguém os leve em consideração: os doutores da lei são cegos que se propõe a guiar outros cegos, e essa pretensão acabará seguramente em desastre para ambos.

Este episódio ressoa como ensino e advertência aos discípulos e à Igreja como um todo. Todos precisamos escutar e compreender o ensino de Jesus. Nada deve ser colocado acima ou em lugar desse ensino. E devemos estar muito atentos para não colocarmos os nossos planos, costumes e tradições acima do Evangelho da compaixão e do serviço a vida. A vida de uma pessoa vulnerável vale mais que noventa e nove missas e mil ave-marias...

 

Sugestões para a meditação

Procure participar mentalmente das cenas: o questionamento feito a Jesus pelos escribas e fariseus, a resposta de Jesus, a retirada desiludida deles, o ensino incisivo às multidões e aos discípulos

Como ressoa em você, e consequências tem para a vida eclesial, a afirmação de Jesus de que “é o que sai da boca das pessoas que as torna impuras” e que aqueles que substituem a Palavra de Deus pelas suas tradições “são cegos guiando cegos”?

Em que medida alguns costumes e tradições da sua família e da sua comunidade correm o risco de anular a vontade de Deus colocando-se acima da Palavra de Deus? Quais?

domingo, 2 de agosto de 2026

Medo é falta de fé

Jesus segura a mão de quem a estende ao pobre

1161 | Tempo Comum | Semana XVIII | Segunda | Mateus 14,22-36

Depois de saciar a multidão faminta com a partilha solidária de pão e peixe, Jesus envia os discípulos à sua frente e se retira para rezar durante toda uma noite, sozinho, como ensinara aos seus discípulos. Em oração, ele renova seu compromisso para que o nome do Pai seja santificado, que que venha seu reino, sua vontade seja feita, e que o pão chegue a todas as mesas.

Paralelamente, já no meio do mar e da noite, o barco dos discípulos é agitado pelo vento e pelas ondas. Certamente a agitação é também interior, frente à compaixão de Jesus pelo povo e à convocação de todos a colaborarem com o atendimento às suas necessidades essenciais. O mar representa todas as forças adversas, tanto interiores como exteriores, inclusive a pressão do império romano.

A aproximação de Jesus em meio ao mar agitado e ameaçador não resolve a situação, e até a torna mais grave, pois, pensando que ele fosse um fantasma, os discípulos começam a gritar de pavor e medo. Por isso, as primeiras palavras de Jesus são para acalmar e encorajar seus seguidores, insistindo que eles estão vendo ele mesmo, que ele não é uma fantasia deles. Ao fazer seu pedido, Pedro deixa entrever que a dúvida sobre quem é que se aproxima continua.

A aparente fé e submissão de Pedro a Jesus denota um certo desejo de participar do poder que é próprio de Jesus, mas não consegue disfarçar o medo e a fragilidade que o envolvem e são mais profundas que a própria fé. Quando ele grita de medo, temendo mais as ondas e o vento, Jesus lhe estende a mão e adverte: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” E, assim que ele entra no barco, tudo se acalma, e Jesus é reconhecido pelos seus discípulos como Filho de Deus.

As tribulações e riscos fazem parte da vida dos discípulos de Jesus: medo, cansaço, incompreensão, vontade de abandonar tudo. Mas precisamos deixar sua palavra ressoar forte em nossos ouvidos e em nosso coração e segurar a mão que ele nos estende. É assim que teremos condições de prosseguir, com e como ele, o ministério de restaurar a vida dos pobres, predominante para os ministros ordenados, mas comum a todas as vocações e ministérios eclesiais.

 

Sugestões para a meditação

Procure participar das três cenas: Jesus retirando-se para uma noite de oração; os discípulos no meio do mar agitado pelas ondas, gritando de pavor no meio da noite; a aproximação de Jesus, seu diálogo com Pedro e a calmaria que se fez

Tente perceber o conteúdo do diálogo orante de Jesus com o Pai: certamente ele faz menção à morte de João Batista, à sua compaixão pelo povo, ao pão tornado acessível a todos, aos discípulos que ele havia enviado à sua frente

Recorde situações de aperto e desespero pelas quais você passou, e como a fé na presença de Jesus lhe ajudou

sábado, 1 de agosto de 2026

Uma operação matemática surpreendente

Que o pão da vida chegue a todas as mesas!

1160 | Tempo Comum | Semana XVIII | Domingo | Mateus 14,13-21

Depois de ter provocado escândalo na sua própria terra e de ter tomado conhecimento da prisão e do martírio de João Batista, Jesus parte para uma região deserta e afastada, tomando distância dos lugares onde o poder mostra mais sua ferocidade. Não quer entrar num jogo de cartas marcadas e assume conscientemente a margem. Sente necessidade de outros ares e de buscar inspiração junto ao Pai.

As multidões cansadas e abatidas deixam as cidades e seguem Jesus a pé. Têm a intuição de que é da periferia que pode nascer uma alternativa. Sabem que os centros de poder são como uma figueira estéril. Jesus vê a multidão e, movido pela compaixão, cura e reinsere na sociedade muitas pessoas doentes e marginalizadas. Para ele, socorrer seu povo não é um apêndice da missão, mas sua razão de ser!

No entardecer das possibilidades de ajuda, os discípulos percebem a fome do povo, mas não conseguem vislumbrar uma solução fora da lógica do império. E pedem que Jesus despeça a multidão para que cada se vire. Querem entregar os famintos às leis do mercado, bem ao estilo do “cada um para si e Deus por todos”. “Eles não precisam ir embora. Vocês é que têm de lhes dar de comer”.

Os discípulos tentam disfarçar seu descompromisso sublinhando os exíguos recursos disponíveis frente a tão grande necessidade. Mas está longe do pensamento de Jesus uma Igreja feita apenas de doutrina e de ritos religiosos, uma comunidade que se compraz em lavar as mãos diante das tragédias que se abatem sobre o povo. Ele não tolera instituições que entregam seus membros à lógica dos impérios!

“Tragam isso aqui”, diz Jesus. Ele quer deixar bem claro que a saída não é nem cada um pensar em para si, nem considerar o povo faminto um simples objeto de caridade. Para Jesus, o povo é soberano, e as autoridades religiosas e políticas devem estar a seu serviço. Mas não é cristão um amor que se preocupa apenas com a vida dos membros da sua denominação eclesial ou dos seus compatriotas!

O alimento suficiente para saciar a multidão faminta aparece quando Jesus assume o protagonismo e os discípulos colaboram com ele. Hoje, o cumprimento da ordem “deem vocês mesmos de comer” começa com a adoção de um estilo de vida sóbrio pelos setores sociais e povos ricos e com a erradicação da exploração comercial dos países ricos sobre os pobres. É para isso que a Eucaristia nos remete e conduz.

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe Jesus e os discípulos na sua retirada para o deserto, alertado pelo martírio de João Batista e a “procissão” de pessoas necessitadas que os seguem

O que significa, para você, sua família e sua comunidade a ordem de Jesus: “Deem-lhes vocês mesmos de comer”?

Como poderíamos evitar o desperdício de alimentos em nossa própria casa, e destiná-los a quem deles necessita?

Mesa é partilha

COMO ABENÇOAR A MESA?

Quase sem nos darmos conta, e empurrados por diversos fatores, fomos desumanizando pouco a pouco esse gesto tão íntimo e humano que é sentar-se à mesa para comer juntos.

A refeição tornou-se, para muitos, algo puramente funcional que é necessário organizar de forma rápida e precisa dentro do dia de trabalho. Cada vez é mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar à volta da mesa. Em muitos lares, essa mesa feita para ser rodeada já não serve para que pais e filhos se encontrem, partilhem as suas vidas, conversem e descansem juntos.

Outros vão-se habituando a alimentar o organismo em refeições impessoais de restaurantes ou no canto do self-service de turno. Muitos são obrigados a participar em refeições protocolares ou de trabalho, onde o gesto amistoso de comer juntos é substituído pelo interesse, pragmatismo ou ostentação.

O gesto de Jesus ao convidar as pessoas a recostarem-se para partilhar uma refeição simples, bendizendo a Deus pelo pão recebido, pode ser um apelo para nós. Como expõe com riqueza Xabier Basurko no seu estudo “Partilhar o pão”, comer é muito mais do que introduzir uma determinada dose de calorias no organismo.

A necessidade de nos alimentarmos é, antes de mais, sinal da nossa indigência radical. De forma obscura, os seres humanos percebem que não se sustentam a si mesmos. Na verdade, vivemos recebendo, nutrindo-nos de uma vida que, através da terra, nos é oferecida dia após dia. Por isso é um gesto profundamente humano recolher-se antes de comer para agradecer a Deus esses alimentos, fruto do esforço e trabalho do homem e, ao mesmo tempo, dom originário do Deus criador que sustenta a vida.

Mas, além disso, comer não é apenas um ato individualista de caráter biológico. O ser humano está feito para comer com outros, partilhando a mesa com familiares e amigos. Comer juntos é confraternizar, dialogar, crescer em amizade, partilhar o dom da vida.

Por isso é tão difícil dar graças a Deus quando se tem mais comida do que a necessária enquanto outros sofrem miséria e fome. Sentimo-nos acusados por aquelas palavras de Gandhi: «Tudo o que comes sem necessidade estás roubando ao estômago dos pobres».

Talvez nos países do bem-estar tenhamos de aprender a benzer a mesa de outra forma: dando graças a Deus, mas, ao mesmo tempo, pedindo perdão pela nossa falta de solidariedade e tomando consciência da nossa responsabilidade perante os famintos da Terra.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O profeta e o Rei

 

Os profetas revelam a fraqueza dos poderosos

1159 | Tempo Comum | Semana XVII | Sábado | Mateus 14,1-12

A notícia sobre a trama que levou o profeta João Batista à morte não é uma espécie de parênteses sem relevância na descrição da pregação e da missão de Jesus, embora possa parecer isso. O episódio é uma antecipação daquela que seria a sorte de Jesus e um alerta aos discípulos: eles precisam ser lúcidos e corajosos, não fechar os olhos frente à prepotência e não ter medo.

Herodes é um político judeu que exerce um poder limitado, concedido ou, pelo menos, tolerado pelo imperador de Roma e a serviço dele. É um príncipe pequeno e insignificante, que entra em colisão com o Reino de Deus anunciado por Jesus e age com prepotência contra seu irmão, se apossando de sua esposa. É contra essa prepotência, e contra outros desmandos e injustiças que reinavam na corte, na sociedade e no judaísmo, que João Batista se levanta corajosamente.

Mateus deixa claro que Herodes deseja eliminar o incômodo profeta. Ele teme que a pregação de João acabe provocando uma revolta popular, e, dada a popularidade que desfruta, tem que esperar a ocasião perfeita, para não perder completamente o apoio do povo. E a ocasião se lhe oferece numa festa que reúne a elite masculina do seu reino e chama mulheres como parte da diversão e das orgias. Dançar no meio dos homens significava insinuar-se o oferecer serviços sexuais.

E João Batista, que não come nem bebe, acaba tendo o seu destino definido numa festa com comida, bebida e dança. Atendendo ao pedido de sua mulher, Herodes valoriza mais os códigos de honra da família patriarcal que os mandamentos de Moisés. Herodes é o responsável pela morte de João, pois há tempos desejava matá-lo. Sua mulher não tinha poder para tanto. Herodes se aproveita da situação, inclusive do pedido dela, para eliminar um crítico incômodo e assegurar a benevolência do império romano.

Jesus é informado do desfecho da vida do profeta e amigo, mas isso não o intimida, nem diminui sua fidelidade no anúncio e na construção do Reino de Deus. Antes, ele colhe essa ocasião para perceber e sublinhar a urgência e a relevância da sua missão. Por mais belas e estimulantes que sejam as parábolas do Reino de Deus, a sua realização encontra violenta resistência.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esse relato, e perceba o papel de cada personagem na execução de João Batista

Recorde o nome de profetas e profetizas que marcaram a vida dos cristãos nos últimos tempos

Deixe-se estimular e motivar pelo testemunho de João Batista e dos profetas e profetizas que você recordou

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O poder do preconceito

O preconceito impede as ações libertadoras

1158 | Tempo Comum | Semana XVII | Sexta | Mateus 13,54-58

Depois de uma longa seção dedicada ao anúncio do Reino de Deus às multidões em forma de parábolas, e depois de algumas catequeses especiais dirigidas aos discípulos, Jesus volta à sua terra e vai à sinagoga de Nazaré, onde seus amigos e familiares costumavam se reunir. A notícia da sua ação emancipadora, assim como a clareza e a pertinência do seu ensino, impressionara a todos.

Mas também nessa ocasião e nesse episódio emerge a dificuldade que os diversos grupos de interlocutores têm de reconhecer na ação e no ensino libertário de Jesus a ação libertadora de Deus. Essa dificuldade para discernir a identidade de Jesus é abordada por Mateus do capítulo 11 ao capítulo 16 da sua versão do Evangelho, mas o que surpreende é que ela se estende também aos seus conterrâneos e familiares.

O povo da cidade de Nazaré, mesmo se encantando e admirando com ensino e com o poder transformador das ações de Jesus, acaba tropeçando nos preconceitos próprios das pequenas cidades e das pessoas que o conhecem de perto. Seus conterrâneos começam a se perguntar onde ele teria encontrado tal sabedoria e tal poder, já que tem uma origem humilde e não pertence a uma elite cultural ou religiosa. Eles não conseguem defini-lo fora do seu contexto familiar. Para eles, o enviado de Deus deveria vir de cima, e não de baixo; do centro, e não da periferia.

Para o senso comum, no qual se moviam o povo de Nazaré e a família de Jesus, a origem humilde e o fato de ser filho de carpinteiro impede que Jesus possa ser o ungido e enviado por Deus. A sinagoga acaba sendo o joio no meio do trigo, e a querida Nazaré acaba se comportando como Corazim, Betsaida e Cafarnaum, povoados que se fecharam à novidade escandalosa e provocativa do Reino de Deus.

Jesus interpreta a rejeição dos seus familiares e conterrâneos no horizonte da histórica resistência e perseguição que se voltam contra todos os profetas. E esta notória falta de fé do povo de Nazaré acaba impedindo a ação libertadora de Jesus na sua própria cidade. Como sabemos, a fé não é uma reação de convencimento diante de um fato miraculoso, mas uma atitude de abertura que precede o milagre.

 

Sugestões para a meditação

Em que medida, e em que ocasiões, você também foi vítima do preconceito das pessoas mais próximas e conhecidas?

Não aconteceu de você se escandalizar diante da Palavra ou da ação de Jesus? Nestas circunstâncias, o que você faz?

Como Jesus Cristo e seu Evangelho podem nos ajudar a não reduzir as pessoas aos seus erros, à profissão que exerce ou à origem familiar?

Será que a mentalidade fechada e o preconceito às vezes também não nos impedem de crer em processos de mudança?

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A história dos peixes na rede

O Reino de Deus é belo, precioso e exigente

1157 | Tempo Comum | Semana XVII | Quinta | Mateus 13,47-53

Jesus termina a sessão das parábolas do Reino de Deus demonstrando sua preocupação em ser entendido pela multidão e com uma boa formação para os discípulos: “Compreendestes tudo isso?” “Tudo isso” se refere às parábolas e ao dinamismo do Reino de Deus e ao seu ensino como um todo. Ele sabe que entre a escuta e a compreensão há um longo caminho de conversão a ser percorrido. E nós também sabemos que a conversão é um dinamismo belo, mas exigente.

Compreender significa aderir à Boa Notícia do Reino de Deus e colocá-la em prática, e Jesus tem plena consciência do risco de que seus ouvintes não consigam ou não queiram mudar sua mentalidade e visão de Deus e do mundo. E os fatos posteriores mostrarão as dificuldades reais dos discípulos em compreender e mudar. O caminho da conversão de mentalidade é longo e exigente!

Com a explicação da parábola da rede que pega uma grande diversidade de peixes, peixes bons e peixes ruins, Jesus volta à questão das práticas de vida contrastantes, tanto na sociedade como na comunidade dos discípulos e discípulas. Os peixes maus ou inaproveitáveis são as pessoas, grupos e setores que resistem aos propósitos de Deus manifestados por Jesus; os bons são os discípulos que perseveram no longo e complexo caminho do amadurecimento.

A tentação do fundamentalismo e da separação dos discípulos, que se julgam bons e puros, dos outros, considerados maus, é permanente, assim como o risco de ficar nas velhas tradições herdadas, nas “antigas lições de viver pela pátria e viver sem razões”. Cada nova geração precisa entender claramente a dinâmica do Reino de Deus na história, que comporta tensões, ambivalências, imperfeições, crescimento. Mas, no final, o mal e os malvados não terão a última palavra.

Tonar-se discípulo de Jesus implica em compromisso real e consequente com ele e na disposição para aprender sempre, para mudar e alargar a visão e os padrões de avaliação. Jesus é o próprio modelo do especialista na Palavra, que sabe tirar coisas velhas e novas desse tesouro, mais coisas novas que coisas velhas. Os valores precisam manter a capacidade de iluminar os novos problemas e os novos desafios. O que é velho, bom, permanente e não muda é somente a misericórdia e a compaixão de Deus. Nisso, Deus continua sempre o mesmo, e não muda!

 

Sugestões para a meditação

Como o sentido dado por Jesus à parábola da rede ilumina nossas urgências e estimula nossa paciência com quem se mostra lento ou resistente às mudanças?

Que luzes a imagem da rede que recolhe peixes bons e ruins traz para nossa convivência familiar, comunitária e social?

Como conjugar paciência com urgência, evitando criminalizar ou excluir quem diverge ou se opõe a nós?

terça-feira, 28 de julho de 2026

Marta, Maria e Lázaro

Betânia é a casa dos pobres e dos amigos

1156 | Memória de Marta, Maria e Lázaro | João 11,19-27

Marta, discípula e amiga de Jesus, é mais conhecida pela passagem de Lucas, onde ela aparece atazanada com os afazeres domésticos e reclamando da passividade de Maria, sua irmã, empenhada na escuta de Jesus. Ambas moram em Betânia e são irmãs de Lázaro. Este núcleo de amizade fraterna é frequentado com gosto por Jesus. O texto ilumina a memória dos três santos, que o Papa Francisco propôs à Igreja.

A cena de hoje faz parte de um conjunto literário maior, que relata a enfermidade, a morte e o reerguimento de Lázaro. O pequeno fragmento oferecido à meditação de hoje começa com um clima de desolação e lamentação. A desolação é ainda maior porque todos sabem que Jesus fora avisado da enfermidade do amigo, e não quis mudar sua agenda a tempo de chegar para curá-lo. Os judeus se mostram amigos de Marta e Maria, e chegam para consolar as duas irmãs pela morte de Lázaro.

Marta sai ao encontro de Jesus ainda na estrada, e começa o diálogo manifestando sua dor e censurando-o: “Se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido...” Ela espera de Jesus um benefício, pois o considera um potente curador. Não sabe o que significa o seu amor, e vê Jesus como apenas um mediador poderoso da ação de Deus. Sua crença na ressurreição é para o final dos tempos. Sua adesão a Jesus é imatura, parcial e insuficiente, como a dos demais discípulos.

A passagem da morte para a vida se dá no encontro pessoal e profundo com Jesus e na adesão de fé a ele. Porque Jesus é Vida, a morte não tem poder sobre ele e sobre quem acredita nele. O “último dia” é antecipado na cruz, do alto da qual ele abraça a humanidade sem excluir ninguém, e derrama seu Espírito de vida. Quem recebe o Espírito de Deus e se deixa mover por ele não conhecerá a morte nem o medo.

Marta percebe que a crença tradicional não é suficiente e pronuncia uma bela profissão de fé: Jesus é vida e ressurreição, o Ungido e Filho de Deus, enviado para que todos tenham vida. Assim, ela chega à maturidade da fé, e não lamenta mais a morte, porque conhece a Vida. E, como discípula missionária que chegou à maioridade, ela nos ensina o valor da acolhida fraterna no seguimento de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Você se reconhece no lamento de Marta, que se interroga porque Jesus não evita ou remedia certas situações dolorosas?

Você crê firmemente que aderir a Jesus é passar da morte para vida já agora? Como você expressa essa fé e essa adesão a ele?

Como acolher a fé na ressurreição como dinamismo de esperança e compromisso histórico, e não como desprezo da história concreta?

O que você está disposto a colocar hoje nas mãos de Jesus para que ele ajude a diminuir o sofrimento do seu povo?