quarta-feira, 22 de julho de 2026

Compreender e converter-se

Quem conhece os mistérios do Reino de Deus?

1150 | Tempo Comum | Semana XVI | Quinta| Mateus 13,10-17

Uma leitura atenta dos capítulos 4 a 12 do evangelho de Mateus deixa bastante claro que o anúncio do Reino de Deus e as ações que Jesus faz para demonstrá-lo presente na história encontra muita incredulidade, rejeição e hostilidade. Daí a insistência de Jesus na escuta, na compreensão e na conversão ao seu Evangelho, que ele anuncia recorrendo a diversas linguagens (catequese, parábolas, apocalipse).

Ao povo em geral e, às vezes, às elites dirigentes do judaísmo, Jesus prefere anunciar o mistério do Reino de Deus através de parábolas. É um recurso de comunicação sapiencial e popular que fala do Reino de Deus a partir de imagens e comparações tiradas da experiência comum e cotidiana, o que acaba atraindo e exigindo o engajamento do ouvinte na interpretação. Aos discípulos, mais sintonizados com ele e inseridos no processo de formação, Jesus fala de forma mais objetiva e incisiva.

A parábola do semeador ilustra as diversas reações frente ao anúncio do Reino de Deus. Jesus é realista, e parte da constatação de que 3/4 (ou 75%) dos seus interlocutores não compreendem adequadamente e não aderem de verdade à novidade do reino de Deus. Ver e ouvir significa discernir, compreender e aderir. E isso implica em converter-se, mudar o modo de pensar e de agir. A responsabilidade recai sempre sobre a decisão do ouvinte, e não sobre a qualidade da semente.

Jesus não analisa as causas que concorrem para isso, mas acena para algumas delas. Em geral, elas convergem na insensibilidade e na má vontade para assumir um processo de mudança que pode ser exigente. Por isso, muitos grupos e pessoas, especialmente as elites religiosas, olham sem ver (os sinais de Jesus e a opressão que recai sobre o povo) e ouvem (a pregação de Jesus) sem realmente escutar. Assim, percebem a necessidade de mudar e são curados de sua cegueira e dureza de coração.

Entretanto, Jesus não fica refém das lamentações e acusações. Ele se alegra com a adesão dos pequenos e humildes que acolhem sua mensagem se fazem seus discípulos. Não são muitos, mas são semente, sal e luz. Tornando-se discípulos e entrando na escola itinerante de Jesus, eles são a confirmação da vontade de Deus, e se juntam à grande caravana dos profetas e justos do Antigo Testamento. Por isso, podem e devem participar da alegria de Jesus!

 

Sugestões para a meditação

Usando de imaginação, procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os discípulos e com Jesus

Deixe ressoar em sua mente e em seu coração o elogio de Jesus aos discípulo: “Eu lhes garanto: muitos justos e profetas desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram; desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, e não ouviram!”

Não corremos, como fiéis e como Igreja, o risco de olhar sem ver, de ouvir sem escutar, ou seja: de adaptar o Evangelho de Jesus aos nossos interesses e medos?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Santa Maria Madalena

Madalena, a apóstola amorosa e corajosa

1149 | Tempo Comum | Santa Maria Madalena | João 20,1-18

Na festa de Santa Maria Madalena, retomamos o evangelho segundo João. Já meditamos esta cena por ocasião da páscoa de Jesus, mas hoje a perspectiva é outra. Maria Madalena foi sozinha à sepultura de Jesus, de quem era discípula e amiga, e a encontrou aberta. Então, correu para anunciar o fato a Pedro e João, surpresa e apavorada: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.

Também tomados pela surpresa, os discípulos João e Pedro saem correndo, chegam, veem a sepultura vazia e acreditam, mas voltam para casa calados. Maria Madalena fica sozinha junto à sepultura, chorando por ter perdido aquele que ela amava porque despertara nela a dignidade adormecida e não reconhecida. Inconsolada, Maria Madalena se inclina para dentro da sepultura, como Jesus se inclinara diante da mulher ameaçada de apedrejamento e diante dos discípulos no lava-pés.

E, em vez de panos estendidos no chão, Madalena vê anjos, mensageiros e mensagem de Deus, que a interrogam pela razão do seu pranto. Ela perdera o guia, a referência, o mestre amado. Está desolada porque não sabe que rumo dar à sua vida, não tem mais um amor concreto com o qual possa contar. Os próprios condiscípulos haviam todos desertado e a deixaram ela sozinha.

A desorientação, a solidão e a dor de Maria são tão intensas que ela dá voltas ao redor de si mesma, sem conseguir deslocar seu olhar dos mensageiros para aquele para o qual eles apontam. Ela confunde Jesus, que vem ao seu encontro, com um jardineiro, e até imagina que teria sido ele quem roubara o corpo daquele que ela amava. Para ela, a esperança ficara no passado, e a vida era apenas luto.

Mas, quando Jesus pronuncia o seu nome com a ternura de sempre, os olhos de Maria se abrem. Ela o reconhece mais pelo chamado que pelo olhar. Nesse momento, ela toma consciência de que Jesus não lhe pertence, e que o encontro que lhe abriu os olhos da fé é força que impele à missão. E ela, que já era discípula dedicada, torna-se apóstola e missionária dos apóstolos: vai anunciar a Boa Notícia aos outros discípulos e refunda a comunidade eclesial que se havia dispersado.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Acompanhe Madalena na sua busca dolorida, no seu anúncio apressado, na sua permanência teimosa, na sua dificuldade de ler os sinais

Preste atenção na resposta de Maria Madalena às perguntas dos anjos e de Jesus, e perceba o que ela esconde e revela

Participe da alegria de Maria ao reconhecer Jesus quando dele pronuncia seu nome, o desapego de um amor pessoal e maduro, a prontidão para anunciar

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Que família?

Jesus supera o modelo tradicional de família

1148 | Tempo Comum | Semana XVI | Terça | Mateus 12,46-50

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado do Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Depois disso, Jesus deixa a sinagoga, e, nesta cena, está em uma casa, não necessariamente a sua, com seus discípulos e discípulas. Esta casa é como se fosse o lugar de encontro e convivência de uma nova família, uma família alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém (não diz se é um discípulo ou não) avisa Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Seus familiares aproximam-se respeitosamente, e não querem interromper a ação missionária de Jesus. Seriam movidos pela saudade? Pelo desejo de que ele voltasse para casa? Pela vontade de segui-lo na aventura do Reino de Deus? Estar dentro ou fora dessa casa delimita a clara pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino.

A novidade do Reino de Deus, muito esperada por todos e trazida por Jesus, implica claramente em uma mudança nas relações sociais, econômicas, religiosas, culturais, políticas, mas também das relações familiares. É no horizonte do Reino de Deus que Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão ao homem e senhor, reprodutora das relações de dominação.

Jesus responde de diversos modos. Dirigindo-se aos discípulos e discípulas que o circundam, pergunta quem é sua família, e ele mesmo responde, afirmando e indicando com a mão: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” A comunidade de discípulos é a nova família, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, pois, ninguém mais que ela, viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é nossa mãe, irmã e discípula. Mas é importante também que nos sintamos incluídos por Jesus no âmbito da sua família. Somos seus irmãos, irmãs e sua mãe, se fazemos a vontade do Pai.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Como ressoa em você o questionamento de Jesus aos que falam em nome de sua família e sua resposta a eles?

Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos aqueles que vivem seu Evangelho?

O que nossas comunidades e Igrejas precisam mudar ou melhorar para serem verdadeiras famílias humanas?


domingo, 19 de julho de 2026

Espetáculo X Compaixão

Jesus age por compaixão e não dá espetáculo

1147 | Tempo Comum | Semana XVI | Segunda | Mateus 12,38-42

Na ação missionária de Jesus não faltavam sinais da misericórdia de Deus em favor do povo cansado e abatido. Ele havia acabado de curar uma pessoa cuja personalidade estava destruída por um poder incontrolável. Mas, em vez de acreditar nele e se alegrar com os sinais do Reino de Deus tão esperado, os fariseus o acusaram de agir em nome do pai da maldade. E Jesus respondera que é pelos frutos que se conhece a árvore, pelas ações que conhecemos as pessoas.

Agora, os mestres da lei voltam a insistir, pedindo a Jesus um sinal que ateste que ele veio e age em nome de Deus. Eles já têm suficientes, mas se recusam a aceitar os sinais que beneficiam os sofredores e excluídos. Esperam e exigem sinais mais poderosos, capazes de impressionar, de assustar e provocar submissão. Mas Jesus só faz sinais para fazer o bem a quem está em situação de necessidade, e se recusa a fazer algo apenas para mostrar seu poder ou para satisfazer a curiosidade deles.

Na verdade, Jesus acena para um sinal futuro e inusitado: como o profeta Jonas ficara três dias no ventre de um peixe, como que sepultado no mar, o enviado do Pai e Filho do Homem compartilhará a condição dos humanos condenados e será morto e sepultado no ventre da terra. O sinal da sua divindade é sua plena humanidade. E como os pagãos de Nínive acreditaram na pregação de Jonas e se converteram, também os judeus devem aceitar seu anúncio e seu testemunho e mudar de vida.

Essa resposta de Jesus se torna denúncia, provocação e insulto às lideranças do judaísmo quando diz que povos pagãos que se converteram com a pregação dos profetas julgarão os orgulhosos mestres da lei. Jesus diz que eles, autoridades religiosas, são maus (agem por força do demônio) e adúlteros (sem nenhuma honra).

Além de recordar o exemplo do povo ninivita, Jesus também propõe o exemplo da rainha de Sabá, que fez de tudo para visitar Salomão, e, mesmo sendo pagã, reconheceu sua sabedoria. E, de fato, Jesus é muito mais que Jonas e muito mais que Salomão. Ele é a encarnação da Sabedoria e da Profecia, e o sinal maior que ele nos dá é a compaixão e a misericordiosa acolhida, levada ao extremo na cruz.

 

Sugestões para a meditação

Que sinais você costuma pedir ou esperar para confirmar o amor e a presença de Deus na sua vida?

Você leva em conta que é a fé que torna os sinais grandes e animadores, que não são os milagres que fortalecem a fé?

O que significa hoje o sinal de Jonas, o profeta que passou três dias desaparecido, no intestino de um grande peixe?

Como o exemplo do povo de Nínive e da rainha de Sabá podem estimular nossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Evangelho?

sábado, 18 de julho de 2026

Paciência e rersponsabilidade

Eu creio na força das pequenas sementes!

1146 | Tempo Comum | Semana XVI | Domingo | Mateus 13,24-43

O zelo pelo projeto de Deus às vezes provoca em nós uma santa ira, e nosso desejo é pegar foices e facões e extirpar da sociedade a injustiça e da Igreja a ambiguidade, acusando pessoas e “cortando o mal pela raiz”. Esta seria uma solução relativamente fácil se o joio estivesse apenas fora de nós, nas estruturas, e se fôssemos pessoas incorruptíveis, sem ambivalências e sem contradições. Mas o integrismo costuma se mostrar burro, irracional e violento.

A propósito, Jesus propõe duas outras parábolas, nas quais contrapõe a notável pequenez da semente de mostarda e do fermento ao arbusto frondoso e à massa levedada que produzem. Estas parábolas à perguntas que nos fazemos: será que a bondade e a compaixão não são ações insignificantes, pequenas e demasiadamente frágeis frente à injustiça e à opressão? Teremos que nos contentar em ser sempre uma minoria que age apenas para reparar danos, sem nunca chegar à vitória plena?

Para os grandes Roma, de Jerusalém e de todos os centros de poder, a semente ou o fermento do Reino de Deus é insignificante e não tem futuro. Não faltam pessoas e grupos que, em nome da eficácia histórica, propõem uma Igreja mais forte, centralizada e potente, capaz de medir forças ou negociar com os impérios. Mas a proposta de Jesus é outra: crer e confiar na força dos fracos, na fecundidade do amor solidário, no dinamismo revolucionário da profecia e do testemunho.

A pergunta, porém, ressurge insistente: isso não é apenas romantismo inconsequente, sonho de adolescente? Jesus responde chamando nossa atenção para o mundo doméstico e feminino. Precisamos aprender da ação silenciosa, escondida e demorada do fermento que a cozinheira mistura à farinha. Ninguém ousaria afirmar que a ação do fermento é ineficaz! Mas, para ser eficaz, o fermento do Reino de Deus precisa entrar em contato com a farinha, perder-se na massa, esperar.

Esta parábola do Reino completa o que falta às anteriores. Cada parábola quer evidenciar um aspecto do dinamismo do Reino de Deus. Aquela do trigo e do joio e a outra da rede nos chamam à paciência e ao discernimento. A história da semente de mostarda nos ensina a confiança nos meios pequenos e frágeis. E a parábola do fermento nos interpela ao engajamento lúcido e transformador, a gastar-se na ação de solapar as bases dos impérios que ameaçam, intimidam, excluem e matam.

 

Sugestões para a meditação

Qual tem sido a força do testemunho de compaixão e solidariedade que vivemos em nosso ambiente familiar e comunitário?

Por onde começar para superar o pessimismo de quem pensa apenas no fracasso ou só acredita no poder das grandes iniciativas e instituições?

Eu creio na força da semente

FERMENTO DE UMA VIDA MAIS HUMANA

Surpreende ver com que frequência Jesus se dirige aos seus discípulos para os alertar contra uma certa impaciência messiânica que não sabe respeitar o ritmo da ação discreta, mas vigorosa, de Deus.

Aos que esperam dele o início de um movimento contundente e arrasador, capaz de eliminar outras correntes e alternativas, Jesus fala de uma ação de Deus mais humilde e respeitosa. O mundo é um campo de sementeiras concorrentes. E o reino de Deus cresce aí, na densidade dessa vida por vezes tão ambígua e complexa.

É aí que Deus está salvando o ser humano. Nesses comportamentos coletivos, animados ora por grandes ideais, ora por egoísmos obscuros. Nesses mil gestos que fazemos todos os dias e onde se mistura generosidade com mesquinharias mais inconfessáveis.

Aos que esperam o surgimento de algo espetacular e poderoso, Jesus fala de um reinado de Deus mais simples e discreto. Algo que não está feito para desencadear movimentos grandiosos de massas. O reino de Deus já está atuando, mas à maneira de um grão de mostarda minúsculo e quase irrisório que germina com humildade, ou como um pedaço imperceptível de fermento que se perde na massa, transformando-a por dentro.

Não abriremos caminho para o reino de Deus lançando excomunhões sobre outros grupos, partidos ou ideologias, nem condenando tudo o que não coincide com o nosso pensamento. Não o implantaremos na sociedade concentrando grandes massas ou conquistando o aplauso passageiro das multidões.

O reino de Deus é um fermento de humanidade, e cresce em qualquer canto obscuro do mundo onde se ama o ser humano e onde se luta por uma humanidade mais digna. Ao reino de Deus abriremos caminho deixando que a força do evangelho transforme o nosso modo de viver, amar, trabalhar, desfrutar, lutar e ser.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Jesus, o Servidor da vida

Jesus é o enviado para levantar os oprimidos

1145 | Tempo Comum | Semana XV | Sábado | Mateus 12,14-21

Jesus havia questionado fortemente o ensino e a prática dos fariseus, orgulhosos da sua piedade ostensiva, afirmando a prioridade da vida sobre a lei. Isso ficou muito claro nos episódios dos discípulos que colhem trigo para comer em dia de sábado e na cura do homem com mão seca (cf. 12,1-8 e 12,9-13), o primeiro dos quais lemos e comentamos ontem. Os fariseus sentem o golpe, mas não desistem. Na verdade, por causa disso decidem tramar a morte de Jesus.

Sabendo disso, Jesus se retira do ambiente da sinagoga. Uma multidão de gente necessitada, mesmo sem conhecer bem Jesus, vai atrás dele em busca de alívio para seus fardos. E Mateus diz que ninguém volta sem ser beneficiado. O que a religião oficial do judaísmo e seus agentes não conseguem ou não querem fazer, Jesus faz, sem descanso e sem impor condições. Mas ele rejeita toda forma de publicidade pelo bem que faz, e isso é bem diferente de alguns pregadores que conhecemos.

Nesse momento, o evangelista busca na profecia de Isaías a chave para bem entender a identidade e o modo de agir de Jesus. Jesus é o Servo anunciado pelo profeta, uma realização plena e superior do resto humilde e fecundo do povo deportado. Sendo Servo, Jesus não assusta nem oprime, mas traz vida e bem-viver. O Servo (a palavra hebraica é a mesma para dizer “servo” e “criança”) é aquele que faz em tudo a vontade de Deus, e não a sua vontade ou a vontade das instituições.

Jesus é também o filho Amado do Pai, aquele que realmente o agrada, pois o amor compassivo e misericordioso é a base e a motivação de tudo o que ele diz e faz. Jesus é o ‘escolhido a dedo’ por Deus Pai para realizar sua missão libertadora da humanidade e, para isso, foi ungido e recebeu o dinamismo do Espírito de Deus. Ele recupera a sociedade e o mundo decaídos e diminuídos pelas mais diversas forças de opressão, e os faz como Deus os sonhou.

Sendo o Servo, o Amado e o Escolhido, Jesus evita gastar tempo em discussões teóricas e não se ocupa com a própria defesa. Ele não grita nas praças, como faziam os mensageiros dos imperadores. Ele não é peso ou ameaça para quem está atribulado e fragilizado, como pavio que vai se apagando. Ele não quebra quem já está ‘moído’ e arrasado pela dominação, como a cana. Ele é a esperança de todos povos, a visita de Deus que estabelece sua morada definitiva na humanidade.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar em você as imagens eloquentes do profeta Isaías: Servo, Amado, Escolhido, Enviado.

Como poderemos testemunhar um Jesus Cristo que não grita para se impor, não quebra quem já está machucado, que não esmaga quem já está arrasado?

Você não acha que gastamos muito tempo e energia defendendo-nos e em discussões estéreis com quem se opõe ao Evangelho?

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A lei e o alimento

Deus é um oceano de misericórdia e compaixão

1144 | Tempo Comum | Semana XV | Quinta-feira | Mateus 12,1-8

Nesta cena a questão central que Jesus discute com os fariseus parece ser a obediência à Lei. Porém, sobressai outra questão, mais importante: as leis e costumes que controlam a comida e o acesso a ela. A recorrente menção ao campo de trigo, aos grãos e à fome, ao ato de comer, tanto dos discípulos como de Davi e seus companheiros, não deixa dúvidas. O sistema econômico limitava o direito à alimentação, e os fariseus agiam para limitar aos discípulos o acesso ao alimento. O império da legalidade impedia a segurança alimentar do povo mais pobre.

O ensinamento e a prática de Jesus são alternativos, e confrontam e desafiam as leis e sistemas, e não apenas as leis religiosas. Jesus revoluciona o papel da lei, do templo e a própria imagem de Deus. Ele é o filho do homem, o Senhor, o enviado pelo Pai, para revelar e realizar a sua vontade, anunciada nas escrituras, mas esvaziada pelo templo. Deus é misericórdia, e de nós ele espera misericórdia, e não cultos vazios e duros legalismos que penalizam os que já enfrentam tantas penas. A questão não se resume em admitir a existência de Deus, mas em afirmar que ele é compaixão, e demonstrar essa compaixão das próprias relações.

A misericórdia é a essência e o modo permanente do relacionamento de Deus com suas criaturas, a forma da justiça divina na relação com o ser humano, e praticá-la significa reconhecer Deus assim como ele é e enfrentar as práticas restritivas que limitam ou impedem o acesso dos seus filhos e filhas aos direitos humanos básicos, como a alimentação. A misericórdia é o dinamismo que brota da internalização das misérias do próximo, e esse dinamismo torna impossível a indiferença, a dominação e a opressão. É isso que Jesus faz, com a maior liberdade, e fazem seus discípulos. A fome tem prioridade sobre as leis e instituições.

Jesus questiona a interpretação restritiva e fria das escrituras ensinada e praticada pelos fariseus, que se mostram sempre tão corretos. Por duas vezes Jesus questiona: “Nunca lestes?” E adverte: “Se tivesses compreendido o que significa...” Na verdade, a interpretação que eles fazem das escrituras é limitada e interesseira. Jesus é maior que o templo e a lei, a superação de ambos e a chave-de-leitura da verdadeira religião. Para ele, a lei, o templo e o alimento pertencem a Deus, e crer é fazê-los acessíveis a todos. Tudo isso e tudo o mais está abaixo do querer de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Você identifica também hoje sinais de uso da fé para se dispensar da atenção à vida das pessoas?

E o que dizer da economia liberal, que faz da comida, da água, da saúde e de tudo o mais uma simples mercadoria, limitando o acesso a ela?

Como colocar em prática hoje a vontade de um Deus que prioriza a misericórdia e não a lei, o culto e os sacrifícios?

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Nossa Senhora do Carmo

Quem faz a vontade do Pai é da família de Jesus

1143 | Tempo Comum | Festa de Nossa S. do Carmo | Mateus 12,46-50

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado pelo Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Depois, Jesus deixa a sinagoga. Na cena de hoje, ele está em uma casa com seus discípulos. Essa casa é um lugar de encontro e convivência de uma nova família, uma família alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém avisa Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Eles se aproximam respeitosamente, sem interromper a ação missionária de Jesus. Estariam movidos pela saudade? Pelo desejo de que ele volte para casa? Pela vontade de segui-lo? Estar dentro ou fora dessa casa delimita claramente a pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino ou a auto exclusão dele.

A novidade do Reino de Deus, esperada há séculos e trazida por Jesus, implica em uma mudança nas relações sociais, econômicas, religiosas, políticas, mas também das relações familiares. É no horizonte do Reino de Deus que Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão ao homem e senhor, sempre funcional aos sistemas estruturados sobre a dominação.

Jesus responde ao aviso da chegada dos familiares com uma pergunta, uma declaração e um gesto. Ele pergunta quem são seus irmãos, suas irmãs e sua mãe. Dirigindo-se aos discípulos e discípulas que o circundam, afirma, como que indicando com a mão: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” Os discípulos são a sua família: nova, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais em dignidade!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, nessa nova família, pois ninguém mais que ela viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é modelo de mãe, irmã e discípula. Mas é importante também que nos sintamos incluídos por Jesus no âmbito da sua família. Somos seus irmãos, irmãs e sua mãe, se fazemos a vontade do Pai. Mais que poderosa intercessora por nossos pedidos nem sempre evangélicos, Nossa Senhora do Carmo nos guia na busca de Deus e na escuta de Jesus. A verdadeira homenagem que podemos prestar a Maria é alargar a tenda da nossa família, acolher todos como irmãos e entrar no círculo de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Como ressoa em você o questionamento de Jesus aos que falam em nome de sua família e sua resposta a eles?

Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos aqueles que vivem seu Evangelho?

terça-feira, 14 de julho de 2026

Doutores X Pequenos

Jesus se alegra por ser acolhido pelos pequenos

1142 | Tempo Comum | Semana XV | Quarta-feira | Mateus 11,25-27

Ontem, ouvimos a advertência de Jesus às cidades que se fecham aos sinais que pedem uma mudança profunda, rejeitam a oportunidade que lhes abre com seu anúncio e suas ações. No breve texto de hoje, Jesus muda radicalmente seu tom, e se dirige carinhosamente a um novo interlocutor: aos discípulos e discípulas, como que para consolar e fortalecer quem se sente ameaçado e inseguro.

Jesus não ignora a divisão e a rejeição que seu Evangelho provoca. Mas, a partir da sua intimidade com o Pai, percebe que há gente generosa que o acolhe, adere a ele, muda o rumo da própria vida. Ele sabe que essa é a vontade do Pai: que o Reino de Deus, que pertence aos pequenos, humildes e pobres, seja por eles levado adiante, não obstante a extrema limitação dos meios ao alcance deles. Nisso, os sábios das academias e os poderosos entronados contam pouco.

Os sábios e entendidos que se fecham à Boa Notícia do Reino de Deus são as elites culturais, políticas e religiosas, todos os grupos que se sentem superiores, sabidos e seguros, e não conseguem admitir nada além dos próprios interesses de classe. Mas, entre eles, há também outros menos elitizados, que se deixam influenciar por essa mentalidade, e se fecham à novidade libertadora de Deus: algumas cidades, gente do povo e até parentes de Jesus. Tanto ontem como hoje!

Os “pequeninos” dos quais Jesus fala são as pessoas humildes, sem segurança, receptivas ao Evangelho e à pessoa de Jesus, aquelas que o seguem como discípulas, dispostas e aprender sempre. São as pessoas mais vulneráveis, às vezes iludidas pelos doutores da lei, e até vistas como tolas. São as pessoas que entram para a comunidade dos discípulos, convictas de que mestre não é quem sabe tudo, mas quem aprende sempre, que vive como eterno aprendiz.

Mas, atenção! Não é pelo fato de sermos contados entre os batizados ou frequentadores dos sacramentos que somos automaticamente discípulos e estamos livres da arrogância de quem pensa saber tudo. A experiência demonstra o contrário! Na relação no interior das nossas comunidades, e na postura diante das demais confissões cristãs e outras religiões, é frequente sentirmo-nos melhores, superiores e entendidos. Quando agimos assim, acabamos nos afastando da compreensão dos mistérios do Reino de Deus e nos portamos como guias cegos.

 

Sugestões para a meditação

Em quais circunstâncias você se percebe agindo como sábio e entendido, que tem tudo a ensinar e nada a aprender?

Como poderíamos traduzir, com palavras e para as situações de hoje, essa belíssima alocução de Jesus?

O que fazer para deixar-se surpreender pelas delicadezas de um Deus que tem prazer em ser acolhido pelas pessoas humildes e afirmar a dignidade das vítimas?