sábado, 21 de fevereiro de 2026

Tentações, ontem e hoje

FEIÉIS A JESUS EM MEIO ÀS TENTAÇÕES

Os primeiros cristãos interessaram-se muito cedo pelas tentações de Jesus. Não queriam esquecer os conflitos e lutas que ele teve de superar para se manter fiel a Deus. Isso ajudava-os a não se desviar da sua única tarefa: construir um mundo mais humano seguindo os passos de Jesus.

O relato é comovente. No deserto pode-se escutar a voz de Deus, mas também se pode sentir a atração de forças obscuras que nos afastam dele. O diabo tenta Jesus usando a Palavra de Deus e apoiando-se em salmos que se rezam em Israel: até no interior da religião pode esconder-se a tentação de nos afastarmos de Deus.

Na primeira tentação, Jesus recusa usar Deus para transformar as pedras em pão. O primeiro que o ser humano precisa é de comer, mas nem só de pão vive o homem. O anseio humano não se apaga apenas alimentando o corpo. É preciso muito mais.

Precisamente, para libertar da miséria, da fome e da morte os que não têm pão, é necessário despertar a fome de justiça e de amor no mundo desumanizado dos satisfeitos.

Na segunda tentação, o diabo sugere-lhe, do alto do templo, procurar segurança em Deus. Poderá viver tranquilo, sustentado pelas suas mãos, e caminhar sem tropeços nem riscos de nenhum tipo. Jesus reage: «Não tentarás o Senhor, teu Deus».

É diabólico organizar a religião como um sistema de crenças e práticas que garantem segurança. Não se constrói um mundo mais humano refugiando-se na sua própria religião. É preciso assumir compromissos arriscados, confiando em Deus como Jesus.

A última cena é impressionante. Jesus olha o mundo desde uma alta montanha. Aos seus pés estão todos os reinos, com os seus conflitos, guerras e injustiças. Aí quer ele introduzir o reino da paz e da justiça de Deus. O diabo, pelo contrário, oferece-lhe poder e glória se o adorar. A reação de Jesus é imediata: «Ao Senhor, teu Deus, adorarás».

O mundo não se humaniza com a força do poder. Não é possível impor o poder sobre os outros sem servir o diabo. Os que seguem Jesus procurando poder e glória vivem «ajoelhados» diante do diabo. Não adoram o verdadeiro Deus.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Despir as fantasias

Quaresma, um convite a despir fantasias

O tempo festivo dos desfiles, fantasias e diversões que marcam o carnaval brasileiro está terminando. Alguns grupos ainda não enterraram os ossos e insistem em prorrogar este tempo especial, que também tem seu caráter de competição e de faturamento econômico. As comunidades cristãs já puseram o ponto final, reverberando o chamado à conversão.

Não me parecem razoáveis e evangélicas declarações do tipo “precisamos de Deus, e não de carnaval”. É certo que o carnaval midiático tem seus excessos e passa a impressão de um indulto de “liberou geral”. Isso também ocorre em outras festas, como a Semana Farroupilha e a Oktoberfest, mas não é motivo bastante para considerá-las puro pecado.

Há quase cinco décadas, o cristianismo progressista do Rio Grande do Sul marca o último dia do carnaval com a Romaria da Terra. Despido de memórias fantasiosas e descrentes de mitos e heróis fabricados, este “desfile” reverencia os líderes populares e suas lutas, em parte inglórias. E cultiva amorosamente as sementes da indispensável esperança.

“Revolucionário é também saber escolher nossos heróis”, apregoou uma Escola no seu samba-enredo. E nós, peregrinos de esperança, romeiros da terra sem males e contra os males da terra, fazemos nossas escolhas: Sepé Tiaraju, Sérgio Görgen, Dorothy Stang, Pedro Casaldáliga, Luther King, Margarida Alves, Chico Mendes, Roseli Nunes e uma multidão de nomes e rostos, com o mártir Jesus de Nazaré marchando à frente.

Esta Romaria faz ressoar, a seu modo, o chamado profético com o qual iniciamos a Quaresma (que prepara com intensa dedicação a verdadeira ‘festa da alegria’, a Páscoa de Jesus e nossa): “Rasgai o coração e não as vestes!” (Joel 2,13). Rasguemos as fantasias de poder e de grandeza, de supremacia e machismo, de país cordial, pois não o somos.

Na nervura cronológica que faz a passagem do Carnaval para a Quaresma, Jesus pede que abandonemos as práticas que atraem luzes, as atitudes postiças que atraem aplausos. Ele pede autocrítica e conversão, inclusive em relação às práticas de piedade tradicionais e tidas em alto valor: o jejum, a esmola e a oração. Deus vê o que está oculto!

“Ele veio morar entre nós”, lembra o lema da Campanha da Fraternidade. E não veio fantasiado de poder, de saber e de grandeza, mas fez-se um de nós, experimentou o que significa não ter moradia, deu a vida para que os mais pobres tivessem sua dignidade reconhecida e devolvida. Este é o jejum, a esmola e a oração que agradam a Deus.

A alegria de ser acolhido

O Evangelho é notícia boa e gera alegria

997 | Quaresma | Sábado  | Lucas 5,27-32

Estamos nos primeiros dias da Quaresma, tempo forte de conversão ao Evangelho. A Campanha da Fraternidade, promovida pelo Conferência Nacional dos Bispo do Brasil, nos convida a um empenho generoso e lúcido na luta para assegurar a todas as famílias uma moradia digna e acessível.

O episódio do evangelho de hoje ocorre depois da pesca abundante, do chamado dos primeiros discípulos e da cura de um leproso e de um paralítico. Pedro havia dito a Jesus: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador”; o leproso dissera que era impuro e que Jesus, se quisesse, podia purifica-lo; e ao paralítico, Jesus declarara: “Filho, teus pecados estão perdoados”.

Também Levi e os demais cobradores de impostos eram tratados como pecadores e odiados como infames pelos radicais judeus. Mesmo assim, Jesus desconhece as fronteiras e muros que separam, opõem e hierarquizam pessoas e povos, e chama um pecador suspeito e odiado a ser seu discípulo, sob a murmuração e a reprovação dos fariseus, que se autoconsideravam puros, justos e melhores. Não é por nada que um grande número de pecadores e outras pessoas se reuniram na casa de Levi para festejar alegremente com Jesus esta graça inesperada.

Pecador como Pedro, Levi é chamado e responde sem “se” nem “talvez”. Como Jesus, quem aceita seu convite e se torna seu discípulo derruba os muros erguidos pelo sistema de pureza, que classifica as pessoas entre puras e impuras, justas e pecadoras. Jesus questiona e enfrenta essa separação, afirmando que, como o médico se ocupa dos doentes, o Filho de Deus veio para se ocupar dos pecadores, e não dos que se autoproclamam justos. Sua especialidade é ir ao encontro da ovelha perdida.

Hoje, o muro que nos separa é erguido pelas ideologias da meritocracia, do nacionalismo, do machismo, do racismo, do status social, cultural e econômico. São elas que rotulam e excluem dos bens e do prestígio social quem é diferente ou é visto como ameaça. É o medo do outro e do diferente que nos leva a construir muros, fechar portas e destruir pontes.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, e contemple gesto por gesto esta cena memorável na casa de Levi/Mateus

Perceba a alegria agradecida que aquelas pessoas resgatadas em sua dignidade transmitem, e alegre-se com elas

Diante deste eloquente gesto de Jesus, porque alguns cristãos se escandalizam quando defendemos os marginalizados?

Com qual dos grupos você, interiormente, se identifica: com os sadios, “bons” e justos; ou com os doentes, “maus” e pecadores?

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Por que jejuar?

O jejum não se coaduna com a opressão

996 | Quaresma | Sexta-feira | Mateus 9,14-15

No texto que meditamos na quarta-feira das cinzas Jesus já questionava a atitude que pode contaminar o jejum, a esmola e até a oração. E indicava a postura correta e capaz de manter o sentido profundo destas expressões de piedade. Hoje, depois de ser questionado pelos fariseus sobre seu desprezo pelo jejum, Jesus é interrogado pelos discípulos de João Batista sobre o mesmo tema: “Por que razão nós e os fariseus praticamos (muitos) jejuns, mas teus discípulos não?”

Este episódio dos evangelhos, mesmo que pareça contradizer a recomendação da Igreja para o tempo da quaresma (jejum, oração e partilha), resgata o sentido original do jejum: romper com os mecanismos de dominação e de opressão, como ensina o profeta Isaías (cf. 58,1-9). É isso que Jesus faz e ensina. Diversamente dos fariseus, ele acolhe e reintegra as pessoas oprimidas e marginalizadas à convivência social, proclamando sua dignidade, e esse é o jejum que agrada a Deus.

No episódio que antecede o questionamento de hoje, Jesus chamara para junto de si e para ser seu discípulo um cobrador de impostos, terrivelmente odiado e desprezado pelos judeus; perdoara pessoas consideradas publicamente pecadoras; curara e reintegrara doentes. Para essa gente, o jejum que acompanha as situações dolorosas e a luta pelo reconhecimento da indignidade haviam chegado ao fim, e, diante de tamanha graça de Deus, não poderiam não festejar.

O ensino e as atitudes de Jesus desconcertam, mas, para ele, o jejum é luto, e a partilha à mesa é a festa da vida. Com Jesus e com o Reino de Deus, o clamor de dor se transforma em louvor e gratidão. Como “noivo” da Nova Aliança de Deus com seu povo, Jesus tem autoridade para relativizar ou mudar alguns preceitos, por mais sagrados que possam parecer. Ninguém jejua numa festa de casamento!

Quando Jesus é “retirado” do meio de nós e volta a ser crucificado nos seus “irmãos mais pequeninos”, o jejum volta a fazer sentido: jejuaremos para que a festa da vida seja para todos; privar-nos-emos de algo para fazer-nos dom, partilhar, cuidar da Casa Comum, lutar contra a opressão e por moradia digna para todos.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, estes dois breves versículos do evangelho segundo Mateus

Se possível, leia também o episódio que antecede o trecho de hoje, a narração da refeição de Jesus na casa de Mateus (Mt 9,9-13)

O que significa dizer que não podemos fazer jejum enquanto o noivo está conosco, mas somente quando ele nos for tirado?

Por que o jejum encontra hoje tanta resistência entre nós, e qual seria o sentido aceitável e cristão do jejum?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Salvar a vida

Conquistemos nossa vida gastando-a!

995 | Quaresma | Cinzas| Lucas 9,22-25

As cinzas que recebemos ontem reforçam o chamado à conversão ao Evangelho do Reino de Deus. Como todas as criaturas, os seres humanos somos vulneráveis, e a vida escapa ao nosso controle. Hoje, no segundo dia da quaresma, Jesus nos fala do seu caminho de encarnação radical na condição humana humilhada, e o propõe como regra de vida para aqueles que, crendo nele, seguem seu caminho.

Esta lição de Jesus no processo de formação dos discípulos ocorre num momento importante. Os discípulos são tentados a voltar atrás, resistem à proposta de Jesus, têm dificuldades de mudar o modo de pensar e de agir. É nesse contexto que Jesus diz claramente quem ele é e a que veio. E, com a mesma clareza, fala que sua proposta e sua pessoa serão rejeitadas, perseguidas e eliminadas em nome da religião e dos bons costumes. A violência pode se esconder no pequeno intervalo entre um canto e um rito.

Estamos diante do “coração” da fé cristã: a realização do Reino de Deus, a construção da unidade num mundo polarizado e intolerante, passa pela doação da própria vida. É claro que Jesus não está falando de uma espécie de suicídio premeditado, nem de uma morte acidental. Ele diz que esse é o caminho de quem é enviado por Deus como sinal inequívoco do seu amor por todas as pessoas, sem olhar para sua condição moral ou religiosa. É difícil legitimar nossas violências com o álibi da autodefesa.

Mas Jesus não é uma espécie de herói solitário, como aqueles que estrelam os filmes norte-americanos. Nem alguém a ser apenas admirado e imitado. Seu caminho é o caminho de toda pessoa que nele crê e busca um mundo habitável: o boicote, a perseguição e a exclusão por parte das elites que dominam. Para Jesus, a cruz, ou o dom radical de si mesmo, não é um martírio espetacular e admirável, nem uma solução de emergência, mas a lógica predominante e permanente da fé.

Por isso, Jesus coloca seus discípulos diante de uma encruzilhada, e pede que escolhamos entre dois caminhos alternativos: focar nossa caminhada antes de tudo em nossos interesses, salvar nossa vida a qualquer custo e viver mediocramente; doar a vida sem reservas pelos outros e pelo cuidado da casa comum, acessando, assim, uma vida plena e fecunda, que nada e ninguém pode aprisionar.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, frase por frase, este ensino no qual Jesus apresenta o “miolo” do seu Evangelho

Se possível, leia também o episódio que antecede estas palavras (9,18-21), onde Jesus pergunta: “Quem vocês dizem que eu sou?”

O que significa propriamente salvar ou perder a própria vida? Como Jesus nos mostra isso no seu próprio modo de viver?


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

As cinzas e a conversão

Converter-se e lutar por moradia digna

994 | Quaresma | Cinzas| Mateus 6,1-6.16-18

É desconfortável constatar que a fraternidade precisa de uma campanha. Mas esta iniciativa da Igreja do Brasil, que remonta a 1962, tem ajudado as comunidades a viver o espírito quaresmal numa perspectiva comunitária e social. Neste ano, somos interpelados mais uma vez a abrir os olhos para urgência de uma fraternidade que não se restrinja àqueles que são do nosso círculo familiar ou de trabalho. Somos chamados à solidariedade na luta por moradia digna para todos.

O profeta Joel grita: “Voltai para mim com todo o vosso coração! Rasgai o coração e não as vestes! Voltai para o Senhor, vosso Deus! Ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia!” E Jesus, recomenda: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça diante dos homens, só para serdes vistos por eles! Não façais como os hipócritas...” Até a oração, a esmola e o jejum, podem ser corrompidos pelo desejo de causar boa impressão e se deteriorar em perigosas tentações.

Jesus começa sua catequese com uma advertência contundente: “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente das pessoas, só para serdes vistos por elas!” Jesus não é ingênuo, e percebe que a busca de evidência e relevância pode contaminar até aquilo que parece mais piedoso, como a esmola, a oração e o jejum. Estas práticas precisam ser expressão de algo mais profundo: a conversão ao Evangelho, a solidariedade com os necessitados e o cuidado da criação.

Jesus propõe uma atitude fundamental para não correr este risco: evitar a busca do aplausos deslocando o foco de nós mesmos e nossas instituições para Deus e o Outro. É isso que nos justifica! O resto é teatro e espetáculo para impressionar as pessoas incautas. O que vale todas as penas é a aprovação de Deus, que vê o que é discreto e secreto, aquilo que ninguém vê, aqueles que ninguém quer ver e reconhecer.

Quando Jesus fala de “hipócritas”, está se referindo aos fariseus, pois eles se consideram melhores, puros e superiores a todos os outros. Sob a aparência de piedade e de fidelidade à lei de Deus, escondem e praticam a exterioridade, a arrogância, a violência. Falando assim, Jesus não se cansa de prevenir também seus discípulos contra esta permanente tentação que nos ronda quando nossa consideramos melhores e mais piedosos que os outros.

 

Sugestões para a meditação

Como viver a fé de forma dialogante, testemunhal e respeitosa numa situação tão minada e polarizada como essa que o mundo vive hoje?

Como viver o sentido cristão do jejum e da esmola numa sociedade regida pelo mercado e em meio a tanta gente que passa fome?

Que atitudes e compromissos podemos assumir para expressar nossa conversão externa e social em torno da questão da moradia digna para todos?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Sobre os fermentos

Deus nos livre do fermento dos fariseus!

993 | Tempo Comum | 6ª Semana | Marcos 8,14-21

Temos diante de nós o episódio evangélico do duro diálogo entre Jesus e seus discípulos sobre o fermento dos fariseus e de Herodes, enquanto fazem a travessia do mar, voltando à Galilei. Como vimos no último sábado e ontem, isso acontece depois da distribuição de alimentos aos pobres de origem pagã, e após a exigência de um milagre espetacular por parte dos fariseus.

Há vários indícios de que os discípulos continuam sem entender e resistindo à forte interpelação das últimas ações de Jesus: a integração dos pagãos e a justiça social e econômica. Desde o início da sua missão e do chamado dos primeiros discípulos, Jesus vem insistindo, sem muito sucesso, nas características essências do discipulado: compaixão solidária pelos excluídos; austeridade pessoal e desapego dos bens; confiança na hospitalidade do povo; abertura ecumênica a pensa diferente.

A cena de hoje começa com uma constatação: desatentos, os discípulos não haviam levado alimento para a travessia do lago, e tinham consigo apenas um pão. Percebendo que seus discípulos continuavam presos à ideia de uma comunidade pura e fechada, apoiada em meios abundantes e poderosos, Jesus introduz uma questão importante: o risco de que fermento dos fariseus e de Herodes contamine seus discípulos. E os questiona duramente: “Ainda não entendem nem compreendem? Vocês tem olhos e não enxergam, têm ouvidos e não escutam?”

Com estes questionamentos, Jesus provoca a tempestade da qual o mar havia poupado a pequena embarcação. Na verdade, os discípulos resistem em aceitar que o segredo do Reino de Deus está na partilha, e não no acúmulo; que os pagãos gozam da mesma dignidade que os judeus; que o separatismo vivido pelos fariseus não é coisa de Deus; que a ostentação, o poder e a violência de Herodes revelam sua fraqueza e seu distanciamento de Deus.

Nem o pouco alimento na sacola, nem a força do vento que agita as ondas, nem os alimentos contaminados pela impureza são ameaças letais ou mais perigosas aos discípulos. O que os ameaça e torna impuros é o fermento do separatismo e do poder que oprime e mata. Estamos nós livres desse maldito fermento?

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, e perceba o questionamento que Jesus faz aos discípulos pela falta de abertura e entendimento ao seu ensino

Será que nós, no Brasil do século XXI, em plena “ressaca moralista”, entendemos realmente a exigente novidade de Jesus?

Será que nossos pensamentos e iniciativas são realmente fermentadas pelo Reino de Deus? Onde isso se mostra claramente?

O que você acha do bombardeio que alguns grupos católicos dirigem contra a Campanha da Fraternidade e a nossa Conferência Nacional dos Bispos do Brasil?

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os sinais de Jesus

Estamos entendendo os sinais do Reino de Deus?

992 | Tempo Comum | 6ª Semana | Marcos 8,11-13

Os três versículos deste trecho do Evangelho relatam a reação dos fariseus diante da segunda distribuição de alimento à multidão necessitada, provocada, motivada, organizada por Jesus, com a colaboração dos seus discípulos. Eles não se alegram com a multidão satisfeita, nem estão dispostos a reconhecer nas ações de Jesus a irrupção do Reino de Deus. Muito pelo contrário!

Marcos nos diz que os fariseus saíram e começaram a discutir com Jesus e pedir a ele um sinal que comprovasse claramente que ele era enviado de Deus e agia em nome dele. Na verdade, eles querem testar ou tentar Jesus, como Satanás o havia feito no deserto (cf. Mc 1,13). Seria Satanás um nome fictício para os fariseus e outras lideranças de Jerusalém, todos aqueles que se opõem a Jesus e ao Reino de Deus? Em todos os casos, a reação de Jesus aos questionamentos deles é dura e cortante.

O suspiro de Jesus enquanto reage é significativo, e manifesta irritação e indignação. Será que o que faltava eram sinais da parte de Jesus ou fé da parte dos fariseus e doutores da lei? Em seu fechamento e incredulidade, a elite religiosa de Jerusalém exigia de Jesus sinais espetaculares e miraculosos, pois assim eles imaginavam Deus. Acontece que, para Jesus, é preciso desconfiar diante de quem promete mundos e fundos e age para impressionar: eles não buscam nem a Deus nem o bem do povo.

O sinal já estava dado e repetido: a coleta de alimento entre seus seguidores e a distribuição gratuita para saciar a fome do povo. Se, como afirma o Papa Francisco, “a fome é criminosa e a alimentação é um direito inalienável” assegurar que isso aconteça é coisa inspirada por Deus. Mas os fariseus se negam a ver nestes sinais o atestado de que Jesus age em nome de Deus. E os próprios discípulos, como vimos na semana passada e será confirmado amanhã, não conseguem aceitar.

Também nós, discípulos e discípulas de Jesus em terras brasileiras num tempo marcado pela intolerância e pelas notícias falsas espalhadas de rodo, precisamos deixar de provocar Jesus pedindo sinais extravagantes. Ele mesmo, em sua humana e solidária encarnação, amando e dando a vida pelos pequenos, é o sinal mais luminoso de Deus. Estaremos nós à sua altura?

 

Sugestões para a meditação

Por que será que ainda hoje tanta gente, inclusive entre nós, procura e pedem sinais grandiosos para acreditar?

Por que ainda resistimos a ver na compaixão de Jesus e na solidariedade de tanta gente os sinais da mão divina?

O que podemos dizer das igrejas, santuários e pregadores que reduzem a fé à promessa de milagres mirabolantes?

Será que o que provoca o enfraquecimento da fé é a falta de sinais do amor de Deus ou a nossa incapacidade de reconhece-los?

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Ir além do mínimo

A lei é superada pelo amor e pela misericórdia

991 | Tempo Comum | 6ª Semana | Mateus 5,17-37

Mateus nos mostra que, na sua primeira “catequese” mais extensa, Jesus nos propõe uma justiça mais ampla, profunda e humana que aquela ensinada e praticada pelos escribas e fariseus. Sua advertência é clara e inequívoca: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus”. Já diante de João Batista, Jesus já antecipara: “Devemos cumprir toda a justiça”! (3,16)

Jesus oferece alguns exemplos de cumprimento radical da Lei. O primeiro é no campo das tensões nas relações interpessoais, contemplada pelo mandamento “Não matarás”! Na ótica da nova ética do Reino de Deus, o conteúdo desta lei não se resume em evitar o homicídio, mas passa pela pacificação das relações e pela superação das posturas raivosas e da linguagem eivada de desprezo, preconceito e violência, como aquela tão comumente usada hoje nas redes sociais.

O segundo exemplo está situado no campo da espiritualidade e da liturgia. Jesus critica o culto que ignora as tensões e não leva à reconciliação. A vida concreta é mais importante que os ritos religiosos, e a percepção dos conflitos tem primazia sobre a ortodoxia. “Deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão”. Devemos nos reconciliar antes da chegada ao tribunal do incerto fim da vida.

Os dois exemplos seguintes estão no âmbito das relações homem-mulher. O primeiro focaliza a questão do adultério, e afirma que a lei tem a função de educar para uma relação que não seja possessiva. Sabemos que o dinamismo que sustenta comportamentos sexuais descontrolados é sutil: passa do olhar viciado e interesseiro, que não reconhece a dignidade da pessoa, à palavra que humilha e despreza e, enfim, à violência fatal que elimina a vida da parceira.

Jesus também reprova a dominação do homem sobre a mulher, mesmo quando sancionada pela cultura e pela lei. Dizer que a lei permite ou que é costume não desculpa nem justifica ninguém. Este é o horizonte da proposta de Jesus no caso do divórcio. A permissão legal do divórcio legitimava o descompromisso do marido com a mulher, e garantia ele o direito de maltratá-la e execrá-la publicamente, mas a ética do Reino de Deus restringe o poder ilimitado e violento dos homens.

 

Sugestões para a meditação

Releia o relato, dando atenção às palavras e exemplos que Jesus oferece de uma justiça superior àquela dos doutores da lei

Qual é o procedimento que a sociedade de hoje considera justo em relação à violência, ao culto, às relações conjugais e ao sexo?

Concordamos verdadeiramente com a radicalização de Jesus nesses campos, e tiramos as consequências disso?

Procure dar sequência aos exemplos de Jesus em outras áreas da vida, como a economia, a política, as relações internacionais...

Amar com lucidez

Amar os próximos de amanhã como os de hoje!

Vivemos tempos de frequentes eventos climáticos extremos. Todos sentimos isso na pele, mas nem todos querem abrir os olhos à realidade que nos cerca e atravessa. O negacionismo climático ainda seduz a muita gente. Sob o governo Trump, os EUA, responsáveis pela emissão de mais 25% dos gases que poluem a atmosfera do planeta, se recusam a assinar compromissos para reduzir a emissão destes venenos. O argumento é simplesmente simplório: não causar prejuízos à economia norte-americana.

Como cristãos, somos desafiados a compreender a gravidade da questão ambiental na encruzilhada histórica que vivemos. Passou o tempo em que se podia acusar meia dúzia de ambientalistas exagerados pela disseminação de inverdades acerca dos riscos ambientais. Entidades e academias reconhecidamente sérias acumulam informações e divulgam dados que não podem mais ser ignorados. Jesus curou os surdos para que ouvissem, e os cegos para que pudessem ver as coisas como são.

Como cristãos, precisamos também levar a sério o mandamento de amar o próximo. Este amor implica, certamente, o esforço inteligente, perseverante e organizado para garantir condições de vida, de liberdade e de justiça para os irmãos e irmãs que estão ao nosso lado, e para os 2/3 da humanidade que são “invisíveis” para as elites que “habitam os andares superiores” e só têm olhos para si mesmos e seus lucros.

Mas creio que o amor ao próximo hoje exige mais que isso. Ele pede de nós a capacidade de amar os próximos que ainda virão: preservar boas condições ambientais para que as próximas gerações possam viver. É ilusão pensar que fazemos nossa parte lutando e defendendo o direito dos pobres que hoje nos rodeiam e interpelam. Não podemos “salvar” os pobres de hoje colocando em risco aqueles que deverão viver amanhã.

Em nome da fé   em Jesus de Nazaré, em nome dos milhares e milhões de homens e mulheres que lutaram para que pudéssemos viver com liberdade e dignidade, respirando oxigênio e não apenas fumaça, precisamos nos engajar, sem demora nem desculpas, neste mutirão de defesa e conservação da Casa Comum.  E que ninguém venha me dizer que Jesus veio “salvar almas” e não as matas e os rios. Jesus não elogiou o sacerdote e o levita que priorizam a lei e o culto, mas o homem samaritano, que se aproxima para socorrer quem corre risco de vida (cf. Lucas 10,25-37).