segunda-feira, 9 de março de 2026

A compaixão e o perdão

Não devemos nós também ter compaixão?

1014 | Quaresma | 3ª Semana | Terça | Mateus 18,21-35

Na meditação de ontem vimos que Deus não está sujeito aos interesses e expectativas de pequenos grupos, pois sua lógica é diferente: ele prioriza as pessoas e grupos sociais mais necessitados, aqueles que não contam e não valem aos olhos de quem controla o poder, aqueles que são “diferentes” e, por isso, menosprezados. Cabe-nos fazer nossa essa compaixão sem fronteiras que Deus nos revela em Jesus.

Hoje, neste ensino inserido na quarta “cartilha de formação dos discípulos”, Jesus sublinha a necessidade do perdão recíproco. Depois de ter falado sobre a “pedagogia evangélica” para corrigir quem vive fora dos parâmetros e da ética do Reino de Deus, Jesus é interrogado por Pedro, em nome dos discípulos, e responde com uma parábola e uma declaração muito incisiva.

A atitude do rei é sempre problemática, e ele não representa propriamente a ação de Deus, a não ser em um único aspecto. O rei da parábola é igualzinho aos demais: ele age oprimindo os mais fracos. A compaixão e o perdão concedidos ao escravo endividado “até o pescoço” não é incondicional nem definitivo, tanto que foi logo revogado, e o escravo foi torturado impiedosamente.

Nossa atenção deve focar a atitude do escravo. Este, tendo sido perdoado e reestabelecido em sua dignidade, mostra-se incapaz de fazer o mesmo com seu companheiro, cuja dívida é infinitamente menor, age com crueldade inesperada e acaba provocando a violência do rei, que estava momentaneamente esquecida. Esta atitude do escravo perdoado, que mostra mais autoridade e crueldade que o próprio rei, acaba desvelando a “fraqueza” do rei, e é isso que o irrita e faz voltar atrás.

É apenas nisso – na intolerância com a falta de perdão e reconciliação entre os iguais – que Deus se assemelha ao rei. Deus é pai, sua compaixão é eterna e seu perdão é irrevogável, mas “perde a estribeira” quando seus filhos e filhas se mostram incapazes de compaixão e perdão, deixando de ser semelhantes a ele. Seu amor incondicional por nós tem consequências! Numa situação de relações frágeis, o perdão é absolutamente indispensável.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente a descrição desse episódio, especialmente a parábola com a qual Jesus ilustra seu ensino aos discípulos

Em que exatamente a atitude permanente e fundamental de Deus Pai se assemelha ao comportamento do rei?

Por que nos custa tanto perdoar os outros? Será que falta-nos consciência da enormidade dos débitos que nos são perdoados?

Quem são as pessoas a quem você deve pedir perdão, e quem são aquelas a quem você deve perdoar hoje?

Sinodalidade

Apaixonados e renovados por uma experiência sinodal

Caminhando com a Igreja

Ontem, na abertura da terceira etapa da 14ª Assembleia Diocesana da Ação Evangelizadora trazíamos à memória a recomendação do último Sínodo: Que se realizem assembleias eclesiais a todos os níveis com certa regularidade, pois elas são um modo privilegiado de escuta, consulta e discernimento eclesial (cf. Documento Final, § 107).

Recordávamos também que “as Assembleias sinodais são acontecimentos que celebram a união de Cristo com a sua Igreja através da ação do Espírito. É Ele que assegura a unidade do Corpo eclesial de Cristo, tanto na assembleia eucarística como na assembleia sinodal”. Ambas são espaços para ouvir a Palavra, discernir a vontade de Deus e responder a ela (cf. Idem, § 27).

Nos caminhos de Emaús

No início da manhã de hoje fomos iluminados pelo encontro de Jesus com os discípulos de Emaús. Jesus caminha conosco, e nos pede um olhar retrospectivo sobre a Assembleia: O que esperávamos e não aconteceu?  O que aconteceu que não esperávamos? Sua Palavra mexeu com o nosso coração, e nós abrimos nossas portas trancadas.

Uma vez escancaradas as portas, ele entra e senta à mesa conosco. Mas com ele entra também a Igreja diocesana como um todo, e a tenda da nossa pequena casa se alarga. E todos sentimo-nos acolhidos e hospedados pela Igreja diocesana. Isso é maravilhoso: a Igreja inteira habita e vive em nós, e nós somos plenamente acolhidos na Igreja.

Anunciar e testemunhar o Evangelho

Ontem, São Paulo (cf. 1Cor 9,16-20) nos ajudou a vislumbrar o horizonte que nos atrai, congrega e ilumina: Anunciar e testemunhar a Boa Notícia de Jesus Cristo a todos e sempre. É isso que sonhamos como Igreja diocesana: anunciar o Evangelho com a vida, sendo uma Igreja acolhedora, sinodal, enraizada em Jesus Cristo e na sua Palavra.

Por isso mesmo, fizemos nossa a prioridade pastoral que Jesus indicou ao enviar os apóstolos (cf. Mt 10,5-11): iremos primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel, a quem está mais exposto à vulnerabilidade. E o faremos anunciando a Boa Notícia do Reino de Deus e multiplicando gratuitamente ações que resgatam a cidadania que lhes é negada.

Renascidos em Jesus

No evangelho de hoje (Mt 20,17-28), Jesus nos antecipa o modo como nos revelará e entregará o amor de Deus: mantendo-se fiel e servidor, mesmo quando isso atraia humilhação despojamento, condenação e zombaria pública dos grandes, entrega plena de si mesmo, confiança absoluta no Pai. E é isso que ele espera daqueles que o seguem, da sua Igreja.

Num contexto terrivelmente assustador, diante de imperadores que impõem taxas e semeiam guerras, que governam como autocratas, proclamam que seus bombardeios são bem-sucedidos se definem sempre como os melhores, Jesus manda claramente: “Entre vocês não seja assim!” O maior é o mais humilde, e o primeiro é aquele que serve.

Atraídos e guiados pelo horizonte

Ao iniciar sua missão, Jesus não disse: “Tenho um programa bem elaborado para vocês!”, mas“O Reino de Deus está próximo, acreditem nessa Boa Notícia!” (cf. Mc 1,15). Dois mil anos depois, Martin Luther King também proclamou aos negros norte-americanos e aos homens e mulheres de boa vontade: “Eu tenho um sonho!”

É isso que desperta consciências adormecidas, atrai discípulos e lhes dá forças para ser eternos peregrinos de esperança. Saint-Exupéry dizia que, se queremos construir um barco, não devemos começar chamando engenheiros, madeireiros e profissionais diversos. É preciso antes ensinar um povo a desejar a misteriosa imensidão do amar.

Queridas irmãs e irmãos! O Plano de Evangelização que nascerá das decisões desta Assembleia será apenas um barco, um meio. Ele não passará de letra morta se não nos apaixonamos pela imensidão bela e libertadora do Reino de Deus. É essa paixão envolvente que nos dará forças e alegria para lançar-nos no trabalho do Senhor.

Partilhemos aquilo que descobrimos

Logo mais estaremos voltando para as comunidades que nos enviaram. Voltaremos como viemos? Os discípulos voltavam para Emaús desolados, sem entender o que estava acontecendo. Era dia, mas tudo lhes parecia escuro. Depois de reconhecer Jesus na partilha do pão, eles voltaram a Jerusalém de noite, e tudo estava claro como o dia.

Oxalá possamos voltar alegres e cheios de esperança, e partilhar com os irmãos e irmãs aquilo que vimos, ouvimos e construímos juntos. E – Quem sabe?! – ouviremos deles algo semelhante àquilo que os dois jovens de Emaús ouviram ao chegar ofegantes em Jerusalém: “O Senhor está vivo de verdade e apareceu a Simão” (cf. Lc 24,34).

+ Itacir Brassiani msf

Homilia na conclusão da Assembleia Diocesana

04 de março de 2026

domingo, 8 de março de 2026

Sem fronteiras

Deus prioriza sempre os mais necessitados

1013 | Quaresma | 3ª Semana | Segunda | Lucas 4,24-30

Depois de termos refletido ontem sobre a cena na qual Jesus se apresenta como fonte de água viva que sacia nossa sede de infinito, hoje somos levados à estreia da sua vida pública em Nazaré. E ele começara “demarcando o campo”, lendo um trecho do profeta Isaías e terminando com uma breve e explosiva “homilia”: “Hoje se cumpriu essa passagem da escritura que vocês acabaram de ouvir”.

A reação dos seus conterrâneos e coetâneos é contraditória: por um lado, admiração e aplausos; por outro, escândalo, críticas e até ameaças. Enquanto uns se impressionam pela coragem e sabedoria das suas palavras, outros tropeçam na sua origem humilde e pobre. Ademais, sua postura não supremacista e pouco nacionalista por alargar as fronteiras da sua missão para todos os pobres começa a causar estranheza e incômodo inclusive aos mais próximos.

Jesus conhece a história da profecia. Deus não considera a primazia dos vínculos étnicos, tribais e nacionais na sua ação libertadora. E os profetas, quando autênticos, se movem na mesma direção e com a mesma liberdade. Por isso, sofrem rejeição por parte daqueles que se consideram melhores, superiores, mais merecedores, começando pelos que lhes são mais próximos ou parecem mais piedosos.

Jesus não realiza nenhum milagre em benefício exclusivo dos seus conterrâneos e, com isso, frustra suas expectativas. Ele não se submete aos interesses de pequenos grupos. Os caminhos de Deus seguem outra lógica: Deus prioriza as pessoas e grupos sociais mais necessitados, aqueles que não contam e não valem aos olhos dos grupos que controlam o poder, aqueles que são “diferentes” ou “estão longe” e, por isso, são tornados invisíveis e são menosprezados.

Jesus busca como prova dessa lógica de Deus dois fatos antigos. Mesmo que existissem muitas viúvas pobres em Israel, o profeta Elias socorreu apenas uma viúva estrangeira. Mesmo diante de muitos leprosos hebreus, Eliseu priorizou a cura de um leproso estrangeiro. Cabe-nos assimilar e viver o amor sem fronteiras de Deus. É este o caminho da conversão nesta quaresma.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente a narração desta primeira manifestação e rejeição pública de Jesus na cidade de onde se criara

Dá para entender que, recordando Elias e Eliseu, Jesus está pedindo que a Igreja abra suas portas às pessoas discriminadas?

Em que medida também nós estaríamos alimentando a ideia de que Deus deve beneficiar primeiro os “nossos”?

No horizonte da Campanha da Fraternidade, quem faria parte desses grupos considerados desprezíveis e “estrangeiros”?

Indiferença

“Que a guerra não me seja indiferente...”

O compositor argentino León Gieco compôs, em 1978, a canção "Sólo le pido a Dios”, que se tornaria uma das suas canções mais conhecidas e lhe daria reconhecimento internacional. A canção é uma espécie de manifesto contra toda espécie de indiferença, desde a sua forma mais inocente e inimputável até a sua forma mais cínica e culpável.

Começa com uma sinceridade comovente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia solitário sem ter feito o que eu queria”. E prossegue, questionando até o mandamento de oferecer a outra face a quem nos agride impunemente: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente”.

Creio que seria de esperar que essa canção ressoasse hoje em várias traduções nos rádios e nas redes sociais. Não sei exatamente qual foi o vírus que infectou o mundo e destruiu uma das características humanas mais fundamentais: a capacidade de indignar-se. A indiferença se globalizou e passou a ser receitada como estratégia para sobreviver.

As guerras e os destroços humanos e materiais que elas multiplicam nos são servidos diariamente enquanto jantamos placidamente. Quem teria conseguido a façanha de nos convencer de que são normais e aceitáveis? “Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente; é um monstro grande e pisa forte toda pobre inocência desta gente”.

Os chefes do mundo promovem guerras apelando a desculpas defensivas, preventivas e até humanitárias. Mas a guerra é sempre injustificável. “Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal” (Papa Francisco).

Para os cristãos, as razões da paz devem ser sempre mais fortes do que os interesses particulares (econômicos ou políticos) e a ingênua confiança na força das armas. Apostar na guerra denota a falta de uma visão de futuro e de uma consciência compartilhada sobre o nosso destino comum, diz o Papa Francisco (cf. Fratelli tutti, § 261).

Aceitemos o pedido do Papa, e não disfarcemos nossa indiferença pecaminosa com cínicas discussões teóricas. Toquemos a carne de quem sofre os danos das guerras. Consideremos a verdade das vítimas, olhemos a realidade com os seus olhos e escutemos as suas histórias com o coração aberto. Assim poderemos reconhecer a monstruosidade da guerra, e faremos pouco caso se nos tratam como ingênuos por defendermos a paz.

sábado, 7 de março de 2026

A sede e a fonte

Na busca da Fonte quem nos guia é a sede

1012 | Quaresma | 3ª Semana | Sexta | João 4,5-42

Jesus se aproxima cansado, sedento, pedinte. O mesmo Deus que, na travessia do deserto, fez brotar água da rocha, aparece agora percorrendo nossas estradas e pedindo água. E assim o faz, terno e cuidadoso, para suscitar e sustentar um profundo intercâmbio de dons, para nos ajudar a descobrir nossas próprias sedes, nosso Desejo mais profundo, que é conhecê-lo e viver plenamente.

Como aquela mulher da Samaria, frequentemente imaginamo-nos poderosos e autossuficientes, e nos entregamos cegamente às regras e doutrinas, tradições e leis, sem desejar nem esperar nada de novo. Cavamos poços e inventamos muros que separam povos, religiões e culturas, e eliminamos nossa própria Sede, negamos aquilo que nos falta. Fazemos de conta que as instituições que criamos nos bastam, e que fora delas não há vida possível ou desejável.

Jesus aparece de repente, e entra em nossa vida para nos lembrar que as religiões e culturas, as tradições e leis não têm forças para, por si mesmas, saciar as mais profundas sedes humanas. A função da religião não é estancar, mas manter viva aquela Sede que dinamiza a vida do ser humano, que convida a trilhar caminhos não conhecidos, que ajuda a descobrir novas modos de organizar o mundo e a sociedade.

Como a samaritana, também nós fazemos alianças e buscamos muletas na ilusão de que elas sustentem nossos interesses estreitos e egoístas: a pátria, a raça, a religião, a igreja, o partido, o livre mercado, etc. Acreditamos cegamente que eles nos ajudam a crer de modo correto e a viver com segurança. Fora disso, no máximo, ensaiamos uma pobre oração pelos que sofrem, mas permanecemos indiferentes a tudo e todos.

Deus procura verdadeiros adoradores, pessoas que correspondam a ele em ação e fidelidade. Estes são os discípulos e discípulas que, como o Mestre, têm como alimento o desejo de fazer a vontade de Deus, participam da sua obra e a completam: produzem vida abundante para seu povo, geram mais solidariedade que divisão, valorizam e cuidam da vida nas suas diversas expressões, exercitam mais acolhida que a doutrina, propõem mais ações que palavras.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente esta cena, considerando os lugares, os nomes, os símbolos, o que diz a mulher e o que diz Jesus

Feche os olhos e tente visualizar Jesus se inclinando e sentando ao seu lado e ao lado de tanta gente cansada de ser desprezada

Procure descobrir o dom precioso que Jesus oferece a você e à humanidade, e não deixe que se perca

Perceba sua autossuficiência e as diversas muletas (“maridos”) que você tem usado para descobrir e guardar sua preciosa dignidade

Uma fé com sabor

NÃO SABEMOS SABOREAR A FÉ

Talvez uma das maiores desgraças do cristianismo contemporâneo seja a falta de experiência religiosa. São muitos os que se dizem cristãos e, no entanto, não sabem o que é desfrutar da sua fé, sentir-se bem com Deus e saborear a sua adesão a Jesus. Como se pode ser crente sem nunca gozar do amor acolhedor de Deus?

O desenvolvimento de uma teologia marcadamente racional e a importância que se deu no Ocidente à formulação conceitual levou frequentemente a entender e viver a fé como uma adesão doutrinal a Jesus Cristo. Muitos cristãos acreditam em coisas sobre Jesus, mas não sabem comunicar-se com ele de forma jubilosa.

Algo semelhante acontece nas celebrações litúrgicas. Observam-se corretamente os ritos externos e pronunciam-se palavras belas, mas tudo parece acontecer fora das pessoas. Canta-se com os lábios, mas o coração está ausente. Recebe-se o Corpo do Senhor, mas não se produz uma comunicação viva com Ele.

É significativo também o que acontece com a leitura da Bíblia. Os avanços da exegese moderna permitiram-nos conhecer como nunca a composição dos livros sagrados, os gêneros literários ou a estrutura dos evangelhos. No entanto, não aprendemos a saborear o evangelho de Jesus como uma boa notícia atual.

Tudo isso produz uma sensação estranha. Dir-se-ia que nos movemos na epiderme da fé. Na Igreja não faltam palavras nem sacramentos. Pregam-se todos os domingos. Celebra-se a eucaristia. Também há batismos, primeiras comunhões e crismas. Mas falta algo, e não é fácil dizer exatamente o quê. Isto não é o que viveram os primeiros crentes.

Precisamos de uma nova experiência do Espírito que nos faça viver por dentro e nos ensine a sentir e saborear as coisas internamente, como dizia Inácio de Loyola. Falta-nos saborear aquilo que dizemos crer; saborear em nós a presença silenciosa, mas real, de Deus. Falta-nos espontaneidade com Ele, confiança jubilosa no seu amor.

Essa experiência de Deus não é fruto dos nossos esforços e trabalhos. É preciso dar espaço ao Espírito na vida e no coração, nas nossas celebrações e na comunidade cristã. A Igreja dos nossos dias deve escutar também hoje as palavras de Jesus à samaritana: «Se conhecesses o dom de Deus...». Só quando se abre à ação do Espírito é que o crente descobre essa água prometida por Jesus, que se transforma dentro de nós em «manancial que jorra para a vida eterna».

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 6 de março de 2026

O pai e seus dois filhos

Deus se alegra com cada pessoa recuperada

1011 | Quaresma | 2ª Semana | Sexta  | Lucas15,1-3.11-32

Avançando na caminhada quaresmal, a Igreja nos brinda hoje com uma das mais belas e conhecidas páginas dos evangelhos: a parábola do filho pródigo, que seria mais justo designar como parábola do pai misericordioso. Explico: partindo das tensões descritas nos versos 1-3, fica claro que o personagem central da cena não é o filho mais novo. Os protagonistas são o pai e o filho mais velho.

Enquanto os publicanos e outros grupos considerados “pecadores” se aproximam e confraternizam com Jesus, os fariseus o acusam de se misturar e aliar com gente suspeita. Evidentemente, quem critica e acusa se sente melhor que os outros, superior, com mais méritos que aqueles que são acolhidos por Jesus. E a parábola tem exatamente o objetivo de ilustrar como Deus costuma tratar seus filhos e filhas.

Observemos que o pai tem dois filhos: o filho mais novo cai na miséria mais extrema, vivendo como estrangeiro e forçado a se alimentar da ração dada aos porcos (imagem dos publicanos e demais pecadores); o filho mais velho, cumpridor minucioso das leis e costumes, tem tudo e mais do que necessita (figura dos fariseus). O primeiro tem a sensação de não ser filho de Deus; o segundo, se vê cheio de direitos e não aceita a misericórdia.

O pai, que é figura e imagem do Deus do Reino, em nome de quem Jesus vem e age, trata a ambos como filhos necessitados de acolhida e amparo, mesmo que não o mereçam. O pai não se interessa pela contrição do filho, mas pela sua condição miserável. Por isso, nem deixa que ele termine seu “ato de contrição”. Deus é Pai, e não juiz! Ele não trata ninguém como empregado, pois todos são seus filhos, e jamais deixam de sê-lo. Ele não aceita que uns fiquem com tudo e outros fiquem sem nada.

Esta parábola é um chamado contundente à conversão, mas é dirigido ao filho mais velho! Pois é ele que não reconhece o amor do pai, não dialoga com o irmão, não o reconhece, nega a fraternidade que torna todos iguais, e defende a primazia do mérito, que nos separa e nos coloca uns acima dos outros. O filho mais novo, mais necessitado, entra para a festa. E o filho mais velho, será capaz de entrar?

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente essa parábola, considerando os versículos iniciais e a atitude do pai e do irmão mais velho

Qual é hoje a reação dos cristãos diante do chamado da Igreja e do Papa a uma fraternidade sem fronteiras?

Como você se sente diante dessa parábola? Você concorda e aceita tranquilamente a atitude e as palavras do pai?

Com qual dos três personagens você se sente identificado? Com qual deles precisa se identificar para seguir Jesus de verdade?

quinta-feira, 5 de março de 2026

Pedras e pessoas descartadas

Jesus transforma os últimos em primeiros

1010 | Quaresma | 2ª Semana | Sexta  | Mateus 21,33-46

Voltamos ao enfrentamento entre Jesus e a elite religiosa, no templo. O trecho de hoje explicita a tensão crescente inconciliável entre esta elite e a pessoa e o ensino de Jesus. Também neste caso, a parábola dispensa uma nova narração. No final, com sua habilidade, Jesus leva seus adversários a pronunciar a própria autocondenação.

Jesus sublinha as consequências fatais da indiferença ou da rejeição de sua pessoa e missão, visceralmente ligadas ao Reino de Deus. A identidade e a missão de Jesus estão na linha dos grandes profetas enviados por Deus para defender seus direitos estabelecidos na aliança, que são os direitos dos mais pobres diante dos prepotentes. Com isso, os profetas acabam atraindo sobre si mesmos a ira e a violência.

Os chefes dos sacerdotes e outras lideranças políticas e religiosas de Jerusalém agem como se fossem senhores da vida e da morte do povo, e como se fossem os únicos mediadores e intérpretes autorizados da vontade de Deus. Eles receberam uma uma missão, mas agem em causa própria, torcem a vontade de Deus, legitimam as violências perpetradas contra os pobres e indefesos, e eliminam quem ousa criticá-los. E Jesus percebe que será certamente a próxima vítima.

Jesus denuncia e deslegitima os “vinhateiros” e “doutores” que se apossaram da vinha e se assentaram na cátedra de Moisés. Rejeitando Jesus e interpondo dificuldades à vida dos pobres, eles descartam o próprio Deus e sacralizam o que lhes assegura vantagens. A advertência é clara: Deus não se deixa enganar por uma adesão puramente externa, e, menos ainda, por uma pretensa “supremacia” étnica. A lógica de Deus é transformar os excluídos e descartados em cidadãos plenos.

São os próprios líderes criticados que se qualificam como “canalhas” e “perversos”, e afirmam não serem dignos de confiança. A insistência de Jesus numa fé que produza frutos de misericórdia e justiça enfatiza que a autenticidade da fé não consiste na estética (gestos, ritos e palavras bonitas e corretas) e não é étnica (pertencer a um povo específico ou a uma “raça superior”), mas essencialmente ética: produzir frutos de diálogo, de misericórdia, de solidariedade e de acolhida.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente essa parábola, com atenção aos vários enviados pelo dono e às ações típicas e perversas dos vinhateiros

Observe o julgamento que os próprios líderes religiosos fazem sobre os vinhateiros, sem dar-se conta de que se autocondenam

Qual é a sentença de Jesus sobre eles? Que sentido tem o que Jesus diz? Que sentença você daria?

Qual é a base que sustenta e legitima sua fé em Jesus? Uma pertença apenas exterior e por tradição? Que frutos você produz?

quarta-feira, 4 de março de 2026

Não cavar abismos

A indiferença é caminho aberto para a ruína

1009 | Quaresma | 2ª Semana | Quinta  | Lucas 16,19-31

No capítulo 15 do evangelho, Lucas nos apresenta o elogio de Jesus a uma mulher que “desperdiça” tempo procurando uma moeda, a um pastor que “esbanja” cuidado com uma ovelha e deixa as outras noventa e nove de lado, e a um pai que “gasta” seus bens para festejar o retorno do filho. O próprio Jesus é uma espécie de “filho pródigo” que abre a festa do Reino a todos os que eram dela excluídos.

No início do capítulo 16, no qual se encontra a parábola de hoje, Jesus elogia um administrador que usa o dinheiro do seu patrão para criar vínculos de amizade e fraternidade, e, ao mesmo tempo, critica os fariseus, porque preferem ser “amigos do dinheiro”. A parábola do rico e do pobre Lázaro está neste contexto de busca e acolhida solidária dos marginalizados e do uso correto dos bens materiais.

A parábola é bem conhecida, o que torna desnecessário descrevê-la. Ela apresenta dois personagens que não estabelecem nenhuma relação um com o outro: estão próximos – o pobre Lázaro está à porta da casa do rico! – mas não têm nada em comum. Na verdade, a indiferença do rico cavou um abismo que os separa, apesar da proximidade física. Apenas a experiência da morte os atinge por igual.

O foco da parábola é a urgência da conversão, e a atenção ao presente. A polêmica que Jesus levanta não se dirige apenas contra os ricos, mas ressoa como alerta a todos aqueles que seguem Jesus. Jesus chama a atenção para o lugar que a posse e o uso bens ocupa no Reino de Deus. Não é sábio desfrutar dos bens de forma egoísta vivendo uma olímpica indiferença. Não é prudente esperar um milagre para se converter. Não é cristão viver de qualquer jeito, “de olho” na vida eterna.

E não há como ignorar o papel que a Palavra de Deus ocupa na orientação da nossa vida e do processo de conversão. Quando muitos deliram com milagres ostentados como espetáculo ao vivo e a cores, ou esperam desesperadamente um grande sinal, Jesus diz que o alerta das Escrituras é suficiente. Não há milagre capaz de mudar a vida de quem não se abre à Palavra de Deus, não exercita o diálogo, vive indiferente a tudo e a todos, e se recusa a acolher o outro como irmão.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente as duas cenas dessa parábola, percebendo as características de cada um dos dois personagens

Evite resvalar para a tentação de interpretar essa parábola como uma ilustração de como será a vida depois da morte

Como você se comporta em relação aos pobres e necessitados, especialmente aos que se organizam e lutam por seus direitos?

Por que os cristãos de hoje, mesmo tendo as escrituras e o testemunho de Jesus, não levamos a sério a solidariedade?

terça-feira, 3 de março de 2026

Os primeiros e os últimos

Quem quiser ser grande torne-se servidor!

1008 | Quaresma | 2ª Semana | Quarta  | Mateus 20,17-28

Estamos vivendo o tempo de Quaresma. Como discípulos de Jesus, nesse tempo especial e em todas as fases da nossa caminhada cristã e missionária, devemos tomar distância da sede de aparecer que devora os fariseus. Todos somos irmãos e servidores uns dos outros, iguais em dignidade, filhos do Pai, guiados por Jesus. A igualdade, a fraternidade e o serviço mútuo e a compaixão com os pobres configuram nossa identidade de discípulos missionários de Jesus.

Essa foi a lição que aprendemos ontem. Cronologicamente, a cena do evangelho de hoje ocorre antes daquela de ontem: está situada no meio do caminho de Jesus e seus discípulos a Jerusalém. Estamos diante de um “diálogo pedagógico”, cheio de tensões. A família de Tiago e João age no horizonte dos interesses de uma família patriarcal, tentando assegurar precedência e privilégios, mas Jesus propõe uma família alternativa, contracorrente.

Enquanto os filhos de Zebedeu fazem lobby para assegurar um lugar de honra no seu reinado, Jesus se coloca na base e percorre o caminho da margem: será zombado e açoitado, como era habitual fazer com os escravos. Enfatizando o caminho da cruz, Jesus põe por terra os mitos do poder e da glória, e é por isso que os demais discípulos se irritam. Como Pedro na montanha da transfiguração, eles não sabem o que estão pedindo e têm enormes dificuldades de entender o que Jesus diz.

Jesus insinua que os grandes e poderosos não realizam a vontade de Deus, pois mandam e oprimem. Ele sim, o Filho do Homem, faz a vontade do Pai, pois assume a condição do servidor, do menor, do último. A lógica de Deus é inversa à lógica do poder e da honra. O Reino de Deus segue um dinamismo contrário à lógica das instituições e dos reinos deste mundo.

A passagem da atitude de chefe à postura de irmão, de primeiro a último, é a prova de fogo do discipulado. O reino de Deus não tem nem senhores nem chefes, tem apenas irmãos, iguais e servidores. Tornar-se discípulo é percorrer um caminho marginal, é ensaiar uma família unida na diversidade, dialogante e acolhedora.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, a pretensão de Tiago e João, o questionamento e o ensino de Jesus

Observe a ordem que Jesus dá aos discípulos: “Entre vocês não deve ser assim... Quem quiser ser grande, deve ser o servidor!”

Em que tipo de líderes e autoridades podemos ver hoje um exemplo de quem realmente é maior, na ótica de Jesus?

Podemos afirmar com sinceridade que não corremos a mesma tentação dos discípulos João e Tiago, que são até invejados pelos outros?