sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alimento ou propriedade?

A vida e os direitos humanos em primeiro lugar

1194 | Tempo Comum | Semana XXII | Sábado | Lucas 6,1-5

Na cena imediatamente anterior que meditamos ontem, Jesus afirma que seus discípulos devem viver a alegre e boa novidade do Reino de Deus, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos” rigorosos, que levam a formar guetos de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais. Hoje, Jesus volta à questão: a pessoa e suas necessidades estão acima de toda lei, inclusive do culto.

É sábado e, desta vez, Jesus se deslocando com seus discípulos no campo. Sentindo fome, eles colhem e comem trigo de uma plantação que não é deles. Os fariseus observam que eles caminham num dia que não é permitido fazê-lo. E notam que eles não respeitam o “sagrado direito” da propriedade privada. Não se trata apenas de costumes religiosos, mas de leis econômicas que causam insegurança alimentar.

Segundo a mentalidade dos fariseus, os discípulos de Jesus cometem dois pecados: não respeitam as proibições da lei que impõe repouso no sábado; “invadem” uma propriedade privada. A segunda acusação não aparece claramente, mas é aludida no fato citado por Jesus para sua própria defesa: Davi e seus companheiros, estando com fome, se apossam e comem do pão reservado aos sacerdotes. A vida tem prioridade sobre tudo, inclusive sobre a “sagrada” lei da propriedade privada!

Jesus responde à acusação dos fariseus com duas críticas à postura deles: embora se apresentem como defensores da tradição e da lei de Deus, eles desconhecem o sentido mais profundo das escrituras (“acaso vós não lestes?”); eles resistem a reconhecer Jesus como o enviado autorizado e Filho de Deus, que é o legislador e, por isso, está acima das leis (“o Filho do Homem é Senhor também do sábado”).

Algumas leis e costumes, por mais importantes que pareçam aos nossos olhos, se são contrárias ao Evangelho, são como tecido velho irrecuperável ou como barril danificado. Neste momento da história do Brasil, com polarizações e mentiras que enganam e embrutecem, há quem insista que a lei do equilíbrio e o princípio do arcabouço fiscal são intocáveis. Se, por causa disso, o povo não tem acesso à cultura, morre de fome ou por falta de atendimento médico, isso pouco importa a eles.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, inserindo-se na caminhada de Jesus com seus discípulos, sob o olhar crítico dos fariseus

Procure entender com exatidão a crítica que as lideranças religiosas (fariseus) fazem aos discípulos e a Jesus

Como você se sente diante da afirmação de Jesus, de que ele é senhor das leis e instituições, e está acima delas?

Você ainda defende, ao menos na prática, a prioridade das leis e costumes sobre as necessidades e a dignidade das pessoas?

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Mesa pronta e toalha limpa

Vinho e roupa nova para a festa da aliança

1193 | Tempo Comum | Semana XXII | Sexta | Lucas 5,33-39

Depois da pesca frutuosa e do chamado de Pedro e seus companheiros de trabalho, nas cenas que a sequência litúrgica trata noutras oportunidades, Jesus cura um leproso (v. 12-16) e um paralítico (v. 17-26), chama o publicano Mateus a segui-lo e vai à casa dele se confraternizar com outros cobradores de impostos e pecadores (v. 27-32). Isso provoca desconforto nos fariseus, que começam a questionar as práticas religiosas de Jesus e o comportamento dos seus discípulos.

Ao interpelar Jesus a respeito do comportamento dos discípulos, os fariseus querem atingir o próprio Jesus. O ponto de discordância é o jejum praticado pelos fariseus e também por João Batista e seus seguidores. Jesus e seus discípulos fazem pouco caso do jejum e priorizam a festa e a confraternização. Levi se converte ao Evangelho de Jesus e, ao invés de fazer jejum, organiza uma festa, para a qual convidou outros cobradores de impostos. É quase uma provocação às tradições dos judeus.

Na sua resposta, Jesus não despreza o jejum, mas justifica a alegria e a esperança que nascem da chegada do Reino de Deus. E faz isso recorrendo a duas sentenças que contrapõem uma realidade velha e uma novidade. A palavra “novo” aparece quatro vezes nestes versículos, e se refere ao Reino de Deus, à nova Aliança assinada por Jesus. Nesta aliança-casamento, Jesus é o noivo da humanidade, e o vinho e o vestido apontam para a festa e a alegria.

Quem entra na lógica do Reino de Deus assume um estilo de vida alternativo àquele vivido como fachada e de modo superficial: a purificação que agrada a Deus e faz bem às pessoas é interior, e não exterior. Para alguns judeus, mormente os mais piedosos, a abertura à novidade do Reino de Deus anunciado e inaugurado por Jesus é difícil, e eles preferem remendos numa roupa velha ou o vinho velho.

Os discípulos de Jesus são convidados a perceber e viver essa novidade, deixando de lado “velhas lições” e “velhos hábitos”, rigorosos e excludentes, que levam a formar guetos fechados de pessoas que se consideram perfeitas e superioras às demais, e tratam as outras com desprezo, chegando até a atitudes e palavras violentas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, começando pelo chamado de Levi e pela festa na casa dele (v. 27-32)

Perceba o escândalo e o desconcerto dos fariseus diante da troca da austeridade e do jejum pela confraternização à mesa

Deixe-se inspirar pelas imagens do Reino de Deus: o remendo novo em roupa velha, o vinho novo em pipas antigas e a festa da Aliança

Você percebe, em você e sua comunidade, sinais da tentação de usar o Evangelho para remendar práticas que nada tem a ver com eles?

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Ele sobe no nosso barco vazio

O Evangelho nos abre novas possibilidades

1192 | Tempo Comum | Semana XXII | Quinta | Lucas 5,1-11

São João Paulo II buscou no episódio do evangelho de hoje a inspiração com a qual provocou os cristãos na entrada do terceiro milênio: “Avancem para águas mais profundas!” Com isso, quis exorcizar o medo que alguns grupos e setores eclesiais espalhavam entre os cristãos e, ao mesmo tempo, convocar as comunidades a tornar sua fé e sua vida mais profundas e fecundas.

A aldeia de Nazaré havia rejeitado Jesus, e a cidade de Cafarnaum quis se apossar dele. Jesus sai para outros lugares, e o povo, cansado e abatido, procura Jesus, porque encontra nele acolhida, compaixão e uma Palavra de esperança. Para eles, Jesus é um mestre e um guia confiável, em quem depositavam o que restava de esperança. Cercado de gente, Jesus se afasta da praia para poder falar a todos.

Pedro acolhe Jesus em seu barco, cheio de frustrações depois de uma noite de trabalho infrutífero. Depois de ensinar ao povo a Boa Notícia do Reino de Deus de dentro do barco de Pedro, Jesus lhe dá ordens para que lance de novo as redes, deixando as águas superficiais e avançando para águas mais profundas. Mesmo na contracorrente das evidências, Pedro recomeça o trabalho, por causa da Palavra ou do mandato de Jesus. É a Palavra de Jesus que lhe abre novas possibilidades.

Com o resultado surpreendente e inesperado da pesca, inicia-se entre Pedro e Jesus um diálogo que antes parecia truncado. Pedro reage assustado, como acontece com alguém diante de uma manifestação divina. Reconhecendo-se pecador, passa de pescador sabido e autossuficiente a discípulo e aprendiz de Jesus. Pedro não entra sozinho neste processo, porque outros companheiros são chamados e o acompanham, movidos por uma experiência igualmente inesquecível.

O chamado e a missão não são acontecimentos individuais e interiores, mas acontecem no interior de um povo que se reúne para escutar a Palavra. Os discípulos de Jesus precisam superar a tentação da segurança e da rotina. Precisam ousar, inovar, ir mais fundo, superar a tentação da acomodação e da superficialidade. Precisam se tornar especialistas em capturar gente para a vida (‘pescar’). É a Palavra de Jesus, que garante a fecundidade da missão e a nossa realização como pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio, com atenção à relação de Jesus com o povo, com Pedro e com os demais pescadores

Permita que Jesus entre no barco dos seus afazeres, quem sabe vazio de expectativas e cheio de decepções e falências

Escute o convite de Jesus: “Avança para as águas mais profundas e lança as redes para a pesca...” O que isto significa para você hoje?

Como está sua sede da Palavra de Deus? Ela é suficiente para levar você a começar de novo quando nada parece promissor?

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Dar as mãos para elevar

Deus se inclina para levantar a humanidade

1191 | Tempo Comum | Semana XXII | Quarta | Lucas 4,38-44

Na cena que meditamos ontem, vimos que Jesus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Ao mesmo tempo, Jesus devolve a palavra e a autonomia às pessoas socialmente e psicologicamente anuladas. Hoje, Lucas nos mostra a continuação desse ministério da compaixão, um ministério que não reconhece os limites de lugar ou de destinatários. Jesus tem diante dos olhos a humanidade e o mundo todo, e desconhece nacionalismos e discriminações.

A cura da sogra de Pedro, que está acometida de forte febre, demonstra que Jesus não está preocupado com gestos espetaculares, mas com ações que possibilitam o resgate da vida das pessoas oprimidas e marginalizadas. Deus não se compraz nos espetáculos, mas na libertação e emancipação das vítimas! Jesus entra numa casa de pescadores e vai ao encontro de uma mulher. A missão de Jesus é superar o mal e suas raízes. Ele se recusa a ser um simples curador.

Na casa da sogra de Pedro ocorre a manifestação silenciosa de uma Palavra que cura. Inclinando-se sobre a sogra de Pedro, Jesus se inclina sobre a humanidade oprimida e ameaça as forças que a colocam de joelhos. Através desse gesto restaurador, as pessoas não reconhecidas em sua dignidade passam a contar, e se tornam servidoras da vida. É isso que acontece com a sogra de Pedro, e conosco: quem experimenta a bondade de Deus em Jesus torna-se discípulo missionário.

Jesus não é um burocrata ou doutor da lei fixado na sinagoga, mas um profeta e um mestre itinerante. Ele é movido pela convicção de que o Reino de Deus não é monopólio de meia dúzia de pessoas. Curando e anunciando o Evangelho de Deus dia e noite e onde quer que seja necessário e oportuno, no final do episódio Jesus se retira e vai ao encontro de outras pessoas noutros lugares. É para isso que se sente enviado. Essa é a vontade do Pai a respeito dele.

Essa atitude de Jesus nos convoca a ser uma comunidade eclesial sempre “em saída”, rumo às periferias, ao encontro das pessoas e suas necessidades. Não podemos ficar na simples e fácil proclamação de que Jesus é o filho de Deus, pois isso até os demônios fazem, e Jesus os cala. Precisamos estar com Jesus, aprender dele e participar da sua missão, carregando também suspeitas que se voltam contra ele.

 

Sugestões para a meditação

Retome o episódio, acompanhando a presença de Jesus na casa de Pedro, sua ação incansável em favor do povo e sua saída para outros lugares para lá colocar sinais do Reino de Deus

Permita que Jesus se incline sobre você, cure suas enfermidades e faça de você um servidor da vida dos outros

Onde e a quem Jesus está pedindo que você sirva hoje? Que males que se hospedam em você ele ameaça e elimina com sua Palavra?

Ganhar ou perder?

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

No próximo domingo, as comunidades católicas celebram o ministério das catequistas, a quem somos gratos. E o evangelho do dia (Mateus 16,21-27) lembra que, antes de serem “professoras de doutrina”, elas são aprendizes na escola de Jesus, pessoas seduzidas pela Boa Notícia do Reino de Deus, dispostas a seguir seus passos e a viver suas opções, sem cair na tentação de colocar-se à frente de Jesus, como ocorreu com Pedro.

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido correta, mas incompleta: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Por isso, assim que Pedro termina sua profissão de fé, Jesus o elogia, muda o tom e começa a falar do seu futuro próximo: ele subirá a Jerusalém, apesar dos riscos; lá sofrerá muito nas mãos das autoridades religiosas; será morto, e ressuscitará. Trata-se claramente da imagem e do caminho de um Deus despojado.

Com estas palavras, Jesus corrige os resquícios de um messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos. Ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. Mas Pedro, com uma ousadia sem precedentes, leva Jesus para um lado e o repreende. “Que isso nunca te aconteça!” Pedro não consegue admitir nem imaginar um Messias sem poder e crucificado, pobre e rejeitado, humano e servidor.

Reagindo e falando assim, Pedro faz-se porta-voz dos discípulos de todos os tempos, e demonstra pessoalmente a dificuldade de pensar as coisas ao modo de Deus e a tentação de pensar as coisas ao modo dos homens. Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. Este é o discernimento que desafiada permanentemente os discípulos e discípulas de Jesus.

A cruz não é simplesmente uma intercorrência inesperada ou uma imposição à qual Jesus não pode escapar, mas a um caminho que todos devemos percorrer se quisermos ser cristãos. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. E tomar a cruz significa assumir a condição das pessoas colocadas à margem, assim como daquelas que resistem e enfrentam os poderes que marginalizam e oprimem.

A expressão “renuncie a si mesmo” não agrada muito aos homens e mulheres de hoje. Mas é claro que não se trata de negar o que há de mais original e precioso em cada indivíduo, mas de libertar-se da ideologia de sucesso. Eis a escolha a ser feita: negar os interesses mesquinhos, os sonhos infantis de sucesso e onipotência, ou negar o Messias, a compaixão, a solidariedade. Eis a lição mais preciosa que se espera das catequistas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Que ensinamento é esse?

O ensinamento de Jesus suscita admiração

1190 | Tempo Comum | Semana XXII | Terça | Lucas 4,31-37

Depois da estreia aparentemente malsucedida em Nazaré, Jesus deixa sua terra natal e volta a Cafarnaum, onde já havia atuado e causara forte impressão. Como pregador itinerante, ele prioriza o ensino aos sábados, nas sinagogas, que são lugares de encontro do povo que vive nas aldeias e pequenas cidades. Na sinagoga ele crescera e aprendera, mas também testemunhara a hipocrisia dos líderes religiosos.

As sinagogas são o lugar da Palavra, um espaço controlado de modo quase absoluto pelos doutores da lei e pelos fariseus. E é ali, em dia de sábado, que Jesus realiza o primeiro sinal ou milagre narrado por Lucas. E é também ali, e por causa desse sinal, que Jesus começa a ser hostilizado pelos líderes religiosos, e onde ressoa pela primeira vez a pergunta: “Que palavra é essa? Quem é esse homem?”

O primeiro sinal miraculoso realizado por Jesus, que faz parte do seu ministério de emancipação e libertação das pessoas dominadas pelas forças que oprimem e escravizam, é a cura de uma pessoa dominada por um “espírito impuro”. Trata-se de uma pessoa despersonalizada, de alguém que perdeu sua identidade e é conduzida por poderes e forças misteriosas, exteriores a si mesma.

A cena narrada por Lucas deixa transparecer uma luta de mensagens ou uma disputa de espaços entre o Ungido pelo Espírito e os Doutores da Lei. No grito do homem doente não ecoa a voz da sua alma, mas a percepção e a voz dos doutores da lei: “Viestes para nos destruir?” A reação do povo não é o medo, mas a admiração diante de uma palavra eficaz e libertadora, de uma palavra que tem autoridade.

O Evangelho da misericórdia e da compaixão de Deus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Jesus não vem insistir no cumprimento da lei e no pagamento das dívidas contraídas pelo pecado, mas anunciar e inaugurar um tempo de graça e compaixão. E é isso que incomoda a elite religiosa e impressiona e causa admiração e esperança no povo cansado e abatido.

Grande notícia e belo desafio para os discípulos missionários é este: experimentar, anunciar e testemunhar a boa e alentadora notícia. A resposta de fé suscitada pelo encontro com Jesus não se reduz ao culto e ao louvor, mas pede um engajamento cotidiano na tarefa de libertar os irmãos e irmãs e fazer este mundo melhor.

 

Sugestões para a meditação

Sua compreensão sobre o Evangelho do Reino é essa de Jesus: uma boa notícia libertadora para todos os tipos de vítima?

Qual é o lugar e a força de transformação que o Evangelho, a Boa Notícia de Jesus, tem na sua vida?

O que o Evangelho de Jesus provoca em você: admiração e entusiasmo ou medo e inquietação?

domingo, 30 de agosto de 2026

A promessa de realiza

O Evangelho desconhece fronteiras e muros

1189 | Tempo Comum | Semana XXII | Segunda | Lucas 4,16-30

Sábado passado concluímos a escuta e meditação diária do evangelho segundo Mateus, e iniciamos hoje, prestes a iniciar o mês dedicado à Palavra de Deus, com o evangelho segundo Lucas. E o texto indicado para esta segunda-feira é exatamente o anúncio programático com o qual Jesus inicia e explicita sua missão pública em sua própria terra. Esse contexto confere uma importância especial ao texto.

O enfrentamento das tentações em pleno deserto havia possibilitado a Jesus uma espécie de treinamento na escuta da Palavra de Deus, e isso é confirmado na cena que nos ocupa hoje. Jesus entende e explicita sua missão e seu projeto de vida recorrendo à palavra profética, muito cara ao seu povo. Ele vai à sinagoga para ler a profecia de Isaías. E isso não é casual, mas costumeiro na vida de Jesus. Ele cultiva uma interessante familiaridade com a Palavra de Deus.

Essa é a primeira ação de Jesus sob o impulso do Espírito que repousara sobre ele por ocasião do batismo e o conduzira no deserto. Mas a cena descreve também a primeira rejeição e o primeiro atentado que se abate sobre ele. E isso porque Jesus não se subordina às expectativas e interesses do seu próprio povoado, nem da sua religião e da sua etnia. A Palavra de Deus é como espada que divide.

Com a ajuda do profeta Isaías, Jesus esclarece sua compreensão da missão que Deus confiou a ele: realizar a misericórdia de Deus, e não sua vingança contra o povo. Os verbos do texto citado ilustram claramente isso: anunciar e proclamar uma boa notícia, recuperar e libertar os oprimidos. Depois de ler o texto, Jesus faz um comentário conciso e lapidar: “Hoje se cumpre isso que vocês acabam de ouvir!”

Seus conterrâneos reagem com entusiasmo, mas logo manifestam frustração, quando tomam conhecimento que o seu messianismo não é patriótico nem excludente e constatam sua origem e seus vínculos familiares. O entusiasmo se transforma em decepção, e a decepção se transforma em violência: Jesus é ameaçado e expulso da cidade pelos seus compatriotas.

Desde o início da sua missão Jesus deixa claro que a compaixão de Deus desconhece fronteiras, não se rege pela meritocracia, nem depende de publicidade. Por isso, Jesus recorda dois episódios da história que seus ouvintes conhecem: Elias abençoou uma viúva estrangeira, e Eliseu deu prioridade a um leproso também estrangeiro.

 

Sugestões para a meditação

Retome pacientemente o episódio narrado por Lucas, acompanhando tudo com os olhos da imaginação

Sua compreensão sobre o Evangelho do Reino de Deus é semelhante à de Jesus: uma boa notícia libertadora para todas as vítimas?

Você já conseguiu superar a ideia de que o Evangelho é doutrina que premia quem merece, e protege apenas cristãos, católicos e brancos?

sábado, 29 de agosto de 2026

Ganhar a vida ou perdê-la?

Mudemos nosso modo de pensar e de julgar

1188 | Tempo Comum | Semana XXII | Domingo | Mateus 16,21-27

A atitude contraditória de Pedro, mesmo depois de ter professado sua fé em Jesus e ter sido elogiado por ele, nos previne contra todo e qualquer triunfalismo apostólico, inclusive papal. Como Pedro, muitos de nós desejamos desesperadamente impedir que Jesus realize sua missão pelo caminho do serviço e da cruz e acabamos sendo uma pedra de tropeço na sua missão. 

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido formalmente correta, mas a salvação não depende da formalidade e da ortodoxia. Por isso, assim que Pedro termina sua declaração e recebe o elogio, Jesus aparentemente muda o tom da conversa e começa a falar de forma clara e firme sobre o seu futuro próximo: ele havia tomado a firme decisão de ir a Jerusalém, apesar dos riscos que isso representava; lá sofreria nas mãos das autoridades religiosas; e acabaria sendo morto.

Com este anúncio, Jesus quer corrigir os resquícios de um certo messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos, e mostrar outra imagem de Messias: ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. É aqui que Pedro tropeça e faz tropeçar.

Com uma ousadia sem precedentes, Pedro “levou Jesus para um lado e o repreendeu. Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” Pedro intima, adverte e ameaça Jesus, afirmando que não é essa a vontade de Deus. O que ele não consegue admitir é um Messias sem poder e crucificado, um Messias pobre e rejeitado, humano e servidor, nem uma Igreja sem glórias e sem sucesso; uma Igreja que ao invés de se aliar aos poderes sofre nas mãos deles.

Como é difícil pensar as coisas de Deus e como é fácil, cômodo e atraente pensar as coisas dos homens! Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. A cruz da doação plena não é simplesmente imposta a Jesus, mas a um caminho que todos devemos abraçar. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

E tomar a cruz significa, em primeiro lugar, assumir a condição das pessoas desprezadas e colocadas à margem, e daquelas que enfrentam os poderes que as marginalizam e oprimem; e em segundo lugar, a possibilidade e a disposição de dar a vida pela vida plena dos irmãos e irmãs, de sofrer a morte por amor.

 

Sugestões para a meditação

Retome calmamente o texto desde a cena anterior (v. 13-20) e observe a atitude ambivalente e contraditória de Pedro

Será que postura rígida de Pedro se manifesta hoje em grupos de cristãos que tendem a esvaziar a cruz de Jesus e reduzir a fé a uma busca de benefícios?

O que você e sua comunidade podem fazer para levar a sério esse caminho, sem assumir uma atitude de desprezo pelos bens indispensáveis?

A primazia dos interesses

UMA RELIGIÃO SEM DEUS

Os cristãos da primeira e da segunda gerações recordavam Jesus não tanto como um homem religioso, mas como um profeta que denunciava com coragem os perigos e as armadilhas de toda a religião. Acima de tudo, não era a observância piedosa, mas antes a busca apaixonada da vontade de Deus.

Marcos, o evangelho mais antigo e direto, apresenta Jesus em conflito com os setores mais piedosos da sociedade judaica. Entre as suas críticas mais radicais, há que destacar duas: o escândalo de uma religião vazia de Deus e o pecado de substituir a sua vontade por tradições humanas ao serviço de outros interesses.

Jesus cita o profeta Isaías: «Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim». O culto que me prestam está vazio, porque a doutrina que ensinam são preceitos humanos. Depois denuncia em termos claros onde está a armadilha: «Vocês deixaram de lado o mandamento de Deus para se apegarem à tradição dos homens».

Este é o grande pecado. Uma vez estabelecidas as nossas normas e tradições, colocamo-las no lugar que só Deus deveria ocupar. Colocamo-las acima até da sua vontade: não devemos ignorar a menor prescrição, mesmo que vá contra o amor e prejudique as pessoas.

Nessa religião, o que importa não é Deus, mas outros tipos de interesses. Deus é honrado com os lábios, mas o coração está longe dele; pronuncia-se um credo obrigatório, mas acredita-se no que for conveniente; cumprem-se ritos, mas não há obediência a Deus, mas sim aos homens.

Pouco a pouco esquecemos Deus e depois esquecemos que o esquecemos. Menosprezamos o evangelho para não termos que nos converter muito. Orientamos a vontade de Deus para aquilo que nos interessa e esquecemos a sua exigência absoluta de amor.

Este pode ser o nosso pecado hoje. Apegar-nos como que por instinto a uma religião desgastada e sem poder de transformar nossas vidas. Continuar a honrar a Deus apenas com os lábios. Resistirmos à conversão e viver esquecidos do projeto de Jesus: a construção de um mundo novo segundo o coração de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Martírio de João Batista

João vai à frente de Jesus também no Martírio

1187 | Martírio de São João Batista | Marcos 6,17-29

A presença de João Batista nos evangelhos evidencia seus vínculos com Jesus Cristo. Além de preparar os caminhos para a missão de Jesus, o profeta do deserto e do rio Jordão antecipa em si mesmo o desfecho da missão de Jesus. Suas posições claras contra os desvios éticos do seu tempo, e a coragem com que enfrenta os poderosos de plantão, valeram-lhe a perseguição, a prisão e a decapitação.

No texto de hoje, o protagonista é Herodes. Ele é judeu, mas, como todas as elites sociais e políticas, cumpre a Lei da sua religião apenas quando lhe convém. Ele tem medo de Jesus, e pensa que ele é uma espécie de reencarnação de João Batista, a quem havia mandado matar. O delito de Herodes vai além do roubo da mulher do seu irmão e da conivência com a morte de João Batista. A presença dos grandes da Galileia na sua festa de aniversário revela a quem ele serve, e de quem depende.

Marcos nos apresenta uma caricatura deveras sarcástica de Herodes e das elites que o apoiam. As festas que promoviam davam asas às paixões incontroláveis e aos seus caprichos assassinos. Entre eles, como em toda a realeza, o casamento tinha fortes conotações de aliança para adquirir sustentação política. O juramento ou promessa de Herodes à filha da sua concubina revela o modo escuso como as elites tomam suas decisões políticas: matam para salvar a própria honra.

Diante de Herodes e seus bajuladores, João não se intimida, nem se cala, mas não é um homem apenas preocupado com o culto ou com a moralidade dos costumes. Uma leitura atenta dos evangelhos nos mostra um profeta engajado num movimento de mudança, no corte raso das instituições que encobrem injustiças e violências, e numa partilha radical. É nesse horizonte que ele enfrenta Herodes.

A narração do martírio de João Batista está inserida no capítulo 6 do evangelho de Marcos, onde a discussão é sobre a identidade de Jesus. Com isso, o evangelista evidencia o destino de todo aquele que anuncia e testemunha uma nova ordem social e religiosa. E, além de uma antecipação do destino de Jesus, o destino de João Batista soa aos discípulos de todos os tempos e latitudes como um forte alerta.

 

Sugestões para a meditação

Perceba a força política, social e religiosa da atuação corajosa de João Batista, profeta da Judeia que estende sua missão à Galileia

Como você e sua comunidade cristã tem se posicionado diante de um governo belicista e contrário aos avanços sociais no Brasil?

Como podemos evitar polêmicas religiosas parciais e estéreis, mas sem abandonar a necessária dimensão política da fé?

Você tem medo dos conflitos provocados pela atuação profética dos cristãos em nome do Evangelho? Por que?