Nada nos pertence, somos arrendatários!
1098 | Tempo Comum |
9ª Semana | Segunda-feira | Marcos 12,1-12
Este texto está situado no contexto da presença
tensa e provocativa de Jesus em Jerusalém, para onde peregrinou lúcida e
decididamente. Ele havia sido recebido com júbilo na periferia da capital,
entrado no templo e expulsado os comerciantes que exploravam os peregrinos. A
classe dirigente pedira explicações, mas era apenas um ardil para ganhar tempo,
pois haviam decidido acabar com Jesus (cf. Mc 11,18).
Então, Jesus retoma o debate com os chefes dos
sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos – os grupos que detinham o controle
religioso, ideológico, político e econômico a partir do templo – recorrendo a
algumas parábolas. Longe de ser apenas uma simplificação da linguagem e uma
comunicação próxima à experiência do povo simples, as parábolas são uma espécie
de armadilha para pegar o interlocutor desprevenido, “no contrapé”, como
dizemos hoje.
A imagem da vinha é muito comum nos escritos do
antigo testamento, especialmente nos profetas. O povo de Israel é comparado a
uma vinha plantada com carinho e atenção, cercada e protegida pela Lei. Alguns
profetas denunciam a vinha, que não produzi frutos bons (cf. Is 5,1-7); outros denunciam
os agricultores que deveriam tomar conta dela (cf. Is 5,8-24). Por isso,
anunciam que Deus pode tanto destruir a vinha como tomá-la daqueles a quem
confiou o cultivo e o cuidado.
Na parábola, fica evidenciada a crescente violência
com que são repelidos os enviados do dono da vinha. Eles não só administram mal
a vinha que não lhes pertence, como conspiram para se apossarem dela. Por isso
compreende-se a violência reativa do dono da vinha: ele elimina os vinhateiros
e entrega sua vinha a outros. Os interlocutores de Jesus não demoram a
compreender que Jesus se refere a eles. A alegoria política e o discurso
subversivo de Jesus provocam na classe dirigente a terceira decisão de
prendê-lo.
Deixando de lado a linguagem das parábolas, Jesus
cita o Salmo 118 (117), e o aplica a si mesmo (e não a Davi, como era usual):
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Ele é o
filho que os vinhateiros querem matar para assumir o domínio absoluto sobre o
povo. Não esqueçamos que esse é um dos textos mais citados no novo testamento, uma
espécie de “chave de leitura” tanto para o destino de Jesus quanto para o
desfecho da vida dos seus seguidores.
Sugestões para a meditação
Situe-se
no templo de Jerusalém, próximo a Jesus e à elite dirigente, e observe a
liberdade e a coragem com que Jesus a enfrente e desmascara
Se a
parábola é de fato uma alegoria política, quais as luzes que ela oferece para
uma apreciação das classes dirigentes do nosso país?
Será
que as autoridades da Igreja estão realmente imunes à tentação de se apossar da
vinha que não lhes pertence?