sábado, 21 de março de 2026

Ninguém vive para morrer

Senhor, que a morte não nos seja indiferente!

1026 | Quaresma | 5ª Semana | Domingo | João 11,1-45

A experiência de fracasso pode nos levar a repetir o refrão acusatório contra Deus e contra o destino, como o fazem Marta e de Maria: “Senhor, se tivesses vindo, meu irmão não teria morrido...” Muitas vezes temos esta mesma sensação diante de doenças incuráveis, de acidentes trágicos, ou de pandemias arrasadoras como esta que a humanidade vive hoje. Na revolta, gerada no ventre dor, chegamos a acusar Deus, pois, nessas circunstâncias, ele nos parece ausente, desinteressado ou sem coração. “Onde está Deus em meio a tanto sofrimento?”

 “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro”, assim como ama cada um de nós. Somos sua família, seus amigos e amigas, ainda que ele não se deixe prender aos nossos desejos, nem se submeta às urgências do nosso calendário. Jesus sempre chega, no tempo oportuno, para nos ajudar a mudar as coisas, para chorar as dores que nos afligem, e não passa adiante sem se desdobrar em iniciativas de cuidado. Compassivo e terno, seu coração também sofre! “E Jesus estremeceu interiormente, ficou muito comovido e chorou”, testemunha João.                      

Jesus nono é nem pse comove não é indiferente aos sofrimentos de ninguém, e participa da dor de Marta e Maria, como o faz também hoje com todos aqueles que choram, impotentes e inconsoláveis. É mediante sua compaixão que ele nos faz experimentar seu amor. Eis aqui a porta que abre a possibilidade de mudança: o amor e a compaixão, tão divinos e tão humanos, essenciais no enfrentamento das tragédias que nos arrasam.

Acreditar em Jesus Cristo implica em confiar na força do seu amor. Da parte de Jesus, o amor que se compadece; da nossa parte, a confiança que abre horizontes e possibilidades. Da fé e da abertura ao amor compassivo e solidário de Jesus brotam as novas possibilidades de vida e a força da ressurreição. “Se você acreditar, verá a glória de Deus”. Esta é a glória de Deus: seu amor pela humanidade. A fé ilumina nossa inteligência na busca de soluções humanas para os problemas humanos.

Jesus convida Maria a ultrapassar a dor e o medo que obscurecem o olhar da sua fé. E Lázaro, no escuro da morte e no fundo da sepultura, também é interpelado: “Vem para fora!” Este grito de Jesus, pronunciado como oração, chama-nos todos à vida, a um novo olhar e um novo agir. É apelo a sair dos nossos interesses e projetos, geralmente nascidos e nutridos no ventre do medo e da indiferença.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, identifique-se com os personagens, preste atenção àquilo que dizem e fazem

Perceba o limite da fé de Marta e de Maria, o teor e o conteúdo existencial da promessa de Jesus e o salto de qualidade que ela pede de nós

Como você vive a morte inesperada de um familiar ou amigo? Você se sente injustiçado e incompreendido por Deus?

Vem para fora!

OS NOSSOS MORTOS VIVEM!

A despedida definitiva de um ser muito querido mergulha-nos inevitavelmente na dor e na impotência. É como se toda a vida ficasse destruída. Não há palavras nem argumentos que nos possam consolar. Em que se pode esperar?

O relato de João não tem apenas como objetivo narrar a ressurreição de Lázaro, mas sobretudo despertar a fé, não para que acreditemos na ressurreição como um acontecimento distante que ocorrerá no fim do mundo, mas para que vejamos desde já que Deus está a infundir vida àqueles que enterrámos.

Jesus chega profundamente comovido, ou soluçando, ao túmulo do seu amigo Lázaro. O evangelista diz que está coberto com uma laje. Essa laje fria fecha-nos o caminho. Não sabemos nada dos nossos amigos mortos. Uma laje separa o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Só nos resta esperar o dia final para ver se algo acontece.

Esta é a fé judaica de Marta: «Sei que o meu irmão ressuscitará na ressurreição do último dia». A Jesus isso não basta. «Tirai a laje». Vamos ver o que acontece com aquele que enterraram. Marta pede a Jesus que seja realista. O morto já começou a decompor-se e cheira mal. Jesus responde: «Se creres, verás a glória de Deus». Se em Marta despertar a fé, poderá ver que Deus está a dar vida ao seu irmão.

Tiram a laje e Jesus levanta os olhos ao alto, convidando todos a elevar o olhar até Deus, antes de penetrar com fé no mistério da morte. Ele deixa de soluçar e dá graças ao Pai porque ele sempre o escuta. O que ele deseja é que os que o rodeiam acreditem que é o Enviado do Pai para introduzir no mundo uma nova esperança.

Depois, Jesus grita com voz forte: “Lázaro, vem para fora!” Quer que ele saia para mostrar a todos que está vivo. A cena é impactante. Lázaro tem «os pés e as mãos atados com ligaduras» e «o rosto envolto em um sudário». Lázaro traz os sinais e as ataduras da morte. No entanto, «o morto sai» por si mesmo. Ele está vivo!

Esta é a fé de quem acredita em Jesus: os que enterramos e deixamos na morte entre lágrimas vivem. Deus não os abandona. Afastemos a laje com fé. Chamemos os nossos mortos para fora, pois eles estão vivos!

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 20 de março de 2026

A beleza do Evangelho

Haverá mensagem mais bela que o Evangelho?

1025 | Quaresma | 4ª Semana | Sábado | João 7,40-53

O contexto existencial e social no qual se situa o episódio de hoje é especialmente difícil e conflituoso para Jesus. Seus parentes querem que ele vá a Jerusalém para se tornar famoso. Eles parecem indiferentes e resistentes ao caminho de despojamento e solidariedade que Jesus estava propondo e vivendo. João diz que nem sua própria família acreditava nele (cf. Jo 7,1-15).

Jesus vai a Jerusalém para a Festa das Tendas, que celebrava a difícil e longa travessia do povo pelo deserto, fugindo da escravidão de Egito e buscando uma terra livre e partilhada. Mas vai meio sozinho, discretamente. Mesmo assim, sua fala chama a atenção. “Ninguém jamais falou como este homem”, dizem os policiais do templo, para escândalo dos fariseus. Mas as opiniões se dividem e se contrapõem.

A chefia do templo já havia decidido prender Jesus, mas até os guardas ficam impressionados ao ouvi-lo. E muita gente se pergunta se ele não seria o Profeta ou o Messias esperado. Mas o preconceito do povo da capital contra as pessoas oriundas da Galileia é uma catarata que os impede de ver. E esse preconceito se volta também contra os pobres e pouco letrados que se deixam atrair por Jesus. “Essa gente que não conhece a lei é maldita”, dizem os fariseus, ecoando o preconceito de todos.

Sobram críticas e ataques pouco fraternos até para Nicodemos, simpatizante discreto de Jesus que desfruta de uma posição de liderança entre os fariseus. Quando ele lembra aos seus pares que a Lei que eles defendem e ensinam proíbe julgar alguém antes de ouvi-lo, é taxado de analfabeto em relação às escrituras e acusado de fazer parte da massa presumivelmente iludida por Jesus. Faltou dizer, como repetem alguns patriotas pouco afeitos à pátria que dizem amar e aos direitos humanos: “Você gosta dele? Vai com ele para Cuba ou Venezuela!”

O preconceito sempre distorce a visão de quem se julga melhor e superior. O medo faz com que vejamos demônios e terror por todo lado. A intolerância nos fecha no estreito círculo da “nossa verdade”, que geralmente não tem sustentação na realidade, e impossibilita a fraternidade e a conversão ao Evangelho de Jesus. Precisamos levar Jesus realmente a sério, pois ele revela nossa verdade e nos conduz à autêntica liberdade. Ele veio morar entre nós, e quer abrir nossos olhos ao drama da moradia que tira o sono e aborta o futuro de muitos irmãos e irmãs.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no coração deste debate sobre Jesus, escute com atenção as opiniões divergentes que diferentes grupos têm sobre ele, e note a intolerância e o fechamento ao diálogo

Em que medida nossos preconceitos nos impedem de ver e reconhecer hoje a dignidade dos “diferentes” (migrantes, evangélicos, negros, indígenas, ateus, LGBTIQ+)?

Será que o medo, o fechamento e o preconceito não estão levando alguns grupos religiosos a negar com suas práticas o Evangelho que anunciam com suas palavras?

quinta-feira, 19 de março de 2026

Quem vê Jesus vê o Pai

Jesus nos revela todos os ‘segredos’ de Deus

1024 | Quaresma | 4ª Semana | Sexta-feira | João 7,1-30

A proposta litúrgica da Quaresma não obedece à sequência literária nem ao progresso temporal dos textos dos evangelhos. Segue uma lógica temática, enfatizando o progresso na conversão pessoal e social. O texto de hoje está localizado em plena ação apostólica de Jesus, num momento especialmente crítico.

Estando na Galileia, Jesus é abordado por seus familiares, que fazem pressão para que ele suba a Jerusalém para ampliar sua influência sobre o povo e aumentar sua fama. Isso revela que seus parentes esperam usufruir das vantagens de ter um familiar famoso. Este não é o projeto de Jesus, e nem seus familiares acreditam nele.

Diante da recusa de Jesus, seus parentes sobem sozinhos a Jerusalém para a festa das tendas, que celebra a memória da travessia do deserto. Jesus mais tarde, discreto e, ao mesmo tempo, absolutamente convicto de que o templo e suas instituições não têm nada a dizer sobre os novos tempos do Reino de Deus que ele inaugurava com suas ações, anunciava com sua pregação e explicava com sua catequese.

Mas a discrição de Jesus não impede que sua presença seja percebida. E as pessoas se questionam, já que ele não apresenta nenhum traço especial que o identifique com o profeta esperado, a não ser suas ações de emancipação e libertação. Aliás, estas ações são fortemente questionadas pelas lideranças religiosas. E os peregrinos se perguntam por que as autoridades não o prendem.

Os cidadãos de Jerusalém, mergulhados na ideologia veiculada pelo templo e seus ministros, refutam a identidade messiânica de Jesus e afirmam que sabem de onde ele vem: seu sotaque indica que é galileu, mas a tradição ensinava que ninguém saberia de onde viria o Messias. Mas Jesus responde a eles com ironia e coragem: eles não sabem de onde virá o Messias, e também não conhecem Aquele que o envia.

Na verdade, Jesus questiona o saber usado como muro protetivo contra as surpresas de Deus e como álibi para evitar a necessária conversão. Não podemos falar de Deus ou imaginá-lo passando ao largo de Jesus, seu filho amado e enviado. Ninguém chega ao Pai sem passar por Jesus Crucificado, presente nos pobres e nas vítimas.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no coração do debate entre Jesus, seus familiares e os cidadãos da capital, lendo o texto inteiro

Você conhece pessoas, grupos ou igrejas que “usam” o nome de Jesus para levar algum tipo de vantagem?

Você é capaz de perceber o alcance político e social da pregação e da prática de Jesus, ou vê nele apenas um líder espiritualista?

Você tem levado a sério Jesus (seu ensino e sua prática) para fazer uma ideia de Deus e falar dele?

quarta-feira, 18 de março de 2026

O marido de Maria

José, esposo de Maria e educador de Jesus

1023 | Solenidade de São José | 19 de março | Lucas 2,41-52

Maria e José levam Jesus, ainda adolescente, a Jerusalém e, como família, participam, com o povo todo, da festa que recorda e atualiza a superação da escravidão e a constituição de um povo solidário e livre. É uma família normal, uma família entre outras famílias em meio à caravana de romeiros que peregrinam cheios de boas memórias e dinamizados pela esperança.

Mas nessa peregrinação, José e Maria descobrem que precisam superar o simples e costumeiro cumprimento das tradições, por mais relevantes que sejam, assim como o estreito limite da convivência e da educação familiar. Mesmo sem entender tudo, eles precisam ajudar o filho a crescer na sua vocação e missão, a se dedicar ao Reino de Deus, às coisas do seu e nosso Pai.

Unidos pelos laços de um amor profundamente humano, e dentro do horizonte das tradições do povo que lhes dava memória e identidade, José e Maria avançam na fé. Como Abraão, eles se lançam na estrada da fé sem saber claramente onde chegarão. Também eles ousam acreditar, caminhar orientados apenas pela fé, e isso lhes é creditado como justiça. Eles não andam a esmo, são peregrinos de esperança.

Nesta peregrinação existencial e espiritual, Maria e José tiveram que se abrir sempre mais à novidade que Deus manifestava através do filho que lhes fora confiado. José, o fiel e generoso esposo de Maria, teve que renunciar aos privilégios que o patriarcalismo conferia ao pai: o filho deve obedecer mais a Deus que ao pai.

Para a Sagrada Família, depois do brilho de Jesus no templo, a volta a decisão de “descer” a Nazaré não é algo casual. É uma escolha de continuar ligado ao “resto de Israel”. Nazaré é o lugar onde Jesus cresce, se fortalece e adquire a sabedoria do Reino. José e Maria educam o filho longe do ambiente glorioso e sedutor do templo, e Jesus cresce na medida em que lança raízes na história do seu povo.

A sábia e profética escolha de José impede que Jesus se afaste das raízes populares, do vínculo com os pobres. Significa assumir resolutamente o caminho que leva à periferia e privilegiar a encarnação no cotidiano que tece a vida normal de todas as pessoas. Em Nazaré, Jesus absorve a seiva das esperanças do seu povo a partir da periferia. Aprende a ser Filho do Pai e peregrino de esperança.

 

Sugestões para a meditação

Releia e reconstrua a cena da Sagrada Família no templo e no caminho, observe as ações de Jesus e as reações de Maria, José e dos doutores

Qual poderia ser o sentido da expressão “por quê me procuravam? Não sabiam que devo ocupar-me da casa/coisas do meu Pai”?

Em Jerusalém Jesus brilhou e se distanciou dos pais, mas foi em Nazaré que ele cresceu: o que isso significa?

terça-feira, 17 de março de 2026

O Filho e o Pai

A missão de Jesus atualiza a ação do Pai

1022 | Quaresma | 4ª Semana | Quarta-feira | João 5,17-30

A cena do evangelho de ontem terminava com um paralítico curado e caminhando livre, carregando sua cama em pleno dia de sábado, e com as autoridades decidindo prender e condenar Jesus à morte. Eles estavam interessados apenas em defender o aparato legal e religioso, sem a mínima empatia com o povo cansado e abatido.

No texto de hoje, que segue a cena de ontem, Jesus enfrenta as acusações levantadas pelas autoridades do templo. Para Jesus, o sexto dia da criação ainda não terminou, e Deus não descansa enquanto suas criaturas não chegam à vida plena. Jesus ousa chamar Deus de pai, sublinhando que é ele a origem e o fundamento da sua ação, que tem com ele uma relação que os escribas nem imaginam.

A reação do templo e suas lideranças se torna cada vez mais violenta. Jesus não deixa por menos, e repete, de diversas formas, que o Pai é a base, o fundamento e a origem do seu ser e das suas ações. Apelando à experiência comum, Jesus diz que o filho só faz o que aprende do pai; que quem honra o filho honra, na verdade, seu pai; que ele dá realismo à profecia de Ezequiel, que faz os ossos secos recobrarem vida.

Jesus se apresenta como o único mediador da vontade e da ação de Deus. Assim, desmascara a pretensão dos doutores da lei e dos sacerdotes, e solapa a autoridade deles junto ao povo. O que eles fazem e impõem não tem nada a ver com a vontade de Deus. O que Jesus faz, na emancipação do mendigo à beira da piscina e em diversas outras ações libertadoras, pode ser comparada à ressurreição dos mortos.

Por fim, Jesus acusa as autoridades de julgar os outros a partir dos interesses deles mesmos e do templo. Enquanto isso, o julgamento de Jesus (intervenção libertadora em favor das pessoas vulneráveis) não é expressão da sua vontade e dos seus interesses, mas da vontade de Deus, seu e nosso pai. Amanhã, voltaremos à lição que Jesus passa às autoridades do templo. Por hoje, fiquemos com o alerta de que a conversão ao Evangelho é mais difícil que a simples mudança dos costumes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus e a raiva que ele suscita nas autoridades religiosas

Deixe-se levar, envolver e iluminar pela metáfora da relação entre pai/mãe e filho/filha, que Jesus usa para justificar suas ações

Você percebe na Igreja e na sociedade de hoje pessoas que estão mais interessadas na defesa das leis que na defesa das pessoas?

Como podemos pôr hoje em prática a empatia, a compaixão e o compromisso de Jesus com a defesa das pessoas vulneráveis?

Porque muitos de nós ainda acham que agrada mais a Deus a defesa das leis e dos costumes que a defesa dos direitos humanos?


segunda-feira, 16 de março de 2026

Cura e emancipação

O encontro vivo com Jesus liberta e emancipa

1021 | Quaresma | 4ª Semana | Terça-feira | João 5,1-16

Segundo o evangelho de João, esta é a segunda viagem de Jesus a Jerusalém, mas desta vez não se diz se ele foi ao templo. João também não diz qual era a festa que se celebrava naquele momento. Mas isso não importa, porque Jesus relativiza tanto o templo como as festas religiosas. O templo não é mais o lugar da memória e da fé.

A piscina conhecida como “casa da misericórdia” (Betesda) não promove misericórdia nenhuma. Em torno dela temos um retrato da multidão de gente excluída que se amontoa em Jerusalém. Somente os “puros”, os “bons” podem entrar no templo, e é o próprio templo que impõe a lei segundo a qual somente “os primeiros” seriam beneficiados com a esperada cura.

O homem paralisado há trinta e oito anos é figura da maioria do povo: excluídos sem piedade do templo e das suas festas. No templo vigora a competição que exclui e a perseguição que mata, como comprovará Jesus. Assim como o templo e suas festas não servem para nada, também a água da piscina, como a água do poço de Jacó, só consolidam e aumentam a discriminação.

Jesus visita Jerusalém sem chamar a atenção, e nem sequer se apresenta à multidão excluída e ao homem paralisado que esperam em torno da piscina. Ele também não dá a mínima importância para o templo e suas leis. Jesus sabe que as festas são ocasionais e que a exclusão é permanente. Sabe também que a Lei e o Templo não libertam ninguém, pois são os próprios causadores da prostração e da exclusão do povo.

Jesus não mergulha o paralítico na água, nem o manda lançar-se na piscina. Ele simplesmente ordena que ele se levante e caminhe por si mesmo, libertando-o das amarras e fardos da lei. A cama na qual estava preso é exatamente o símbolo da Lei! Estimulado por Jesus, o homem, agora emancipado, não leva mais a Lei em conta e se torna um peregrino de esperança.

Por isso, Jesus vai buscar (e não “encontrar”) o homem curado no templo e o tira para fora. Ser libertado à margem da Lei e contra as regras do templo e continuar submisso a elas significaria recair no pecado ou cair na escravidão voluntária. Na Lei e no Templo ninguém encontra confirmação de sua liberdade ou da sua dignidade, mas apenas discriminação, perseguição e morte.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude de Jesus em meio à multidão que se acotovelava para conseguir “uma vaga” na água

Você consegue perceber como o episódio é uma denúncia forte contra o uso das leis e cultos para manter as pessoas dominadas?

O que a palavra e a prática de Jesus nos ensina sobre o uso abusivo da religião para premiar alguns e submeter multidões?

domingo, 15 de março de 2026

A força da Palavra

Senhor, tua palavra tem força para curar-me!

1020 | Quaresma | 4ª Semana | Segunda | João 4,43-54

Esta cena está literariamente situada logo após a cena do encontro e diálogo de Jesus com uma mulher samaritana à beira do poço de Jacó. E nós a contemplamos e acolhemos sua mensagem no contexto litúrgico e espiritual da adesão à Boa Notícia do Reino de Deus e da conversão a ela, como sublinha o tempo quaresmal. Converter-se é acreditar no Evangelho e assumi-lo como regra.

Jesus está voltando para a região onde se criara, passando pela complicada região da Samaria. Era um povo marcado pelo desprezo que recebia do pessoal da Judeia, e era tentado a devolver na mesma moeda. Mesmo sabendo que os profetas são desprezados em sua própria terra, Jesus é recebido pelos seus conterrâneos com boa disposição, pois eles haviam sido informados das ações de Jesus na capital.

Informado sobre os sinais que Jesus realizara no templo (expulsara os vendedores), um funcionário do rei busca em Jesus uma ajuda para seu filho, que está gravemente enfermo. Quer que Jesus o cure, ao que parece, preferencialmente com um milagre grandioso e espetacular. Quem é habituado aos corredores do poder, age como tal e espera que Deus também intervenha no mundo com gestos de poder.

O funcionário se dá conta que imagina Jesus apenas como uma autoridade corajosa, poderosa e reformista, e pede a Jesus que ele “desça”. Esse verbo diz mais que um movimento físico, e alude à descida ao nível humano. Jesus não vai a Cafarnaum, mas “desce”: não realiza um gesto de poder, mas um gesto humano, tão humano que revela sua divindade. Jesus declara que o filho dele vive, e não que ele está curado. O funcionário do rei reconhece a força da Palavra de Jesus e obedece a ela.

É a Palavra de Jesus que devolve a vida. O funcionário precisa ir e ver, mas não há nenhum gesto grandioso. Ele não deve tratar o filho como dependente (“menino”) mas como filho. Jesus atende o pedido desse homem pagão e próximo ao poder sem pedir nada em troca, pois está disposto a ajudar a todos. Mas tudo acontece quando Jesus e o funcionário “descem” da esfera das relações pragmáticas ou de poder à esfera das relações autenticamente humanas, onde todos somos iguais.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, observe a atitude do funcionário do rei, assim como a postura e as palavras de Jesus

Você percebe como o funcionário real demonstra pensar, falar e agir segundo a lógica das funções de poder?

Em que medida também nós esperamos de Jesus gestos e ações espetaculares, que dispensem nossa colaboração?

Que mudanças em nosso modo de pensar e de agir esta cena pede de nós, enquanto caminhamos para a páscoa?

sábado, 14 de março de 2026

A verdadeira cegueira

O fruto da luz é bondade, justiça e verdade

1019 | Quaresma | 4ª Semana | Domingo | João 9,1-41

O pessoal do templo havia ameaçado apedrejar Jesus, o que o leva a sair de fininho daquele espaço religioso. Os discípulos vêm um cego mendigando, e perguntam se a desgraça é fruto do pecado, como pensam. O cego representa as pessoas que vivem sob a opressão, sem imaginar que podem sair dela, sem vislumbrar alternativas. Ele não esperava uma cura, nascera privado da condição e dignidade humana e sempre vivera assim. Jesus não pode dar-lhe nada, porque ele não sabe o que é a vida.

Para Jesus, esse limite não é castigo, e Deus não é indiferente a essa condição limitadora. Jesus convoca os discípulos à ação, e assinala a urgência de fazer algo: sua obra é fazer algo em favor da pessoa humana humilhada. Com o barro, Jesus recria o ser humano, acaba a criação desfigurada e incompleta. A piscina está fora da cidade, e o cego deve caminhar, sair livremente, mas ainda sem ver. Assim ele começa a ver e conhecer o que é o ser humano, o mundo, o caminho da fé.

O cego é como um morto que volta à vida, sendo o mesmo, é outro. Antes ele permanecia imóvel, impotente, dependente, e a mudança repentina deixa os vizinhos perplexos. A cura suscita interesse por Jesus no meio popular, esperança e desejo de encontra-lo. Que os cegos vejam, é sinal dos tempos messiânicos. Os fariseus não se interessam pela cura em si, mas sobre como foi feita. Eles não se alegram com a cura, e exigem respeito à lei, que seria a regra da ação de Deus.

O deus dos fariseus não se interessa pela pessoa humana que tem sua vida limitada. Os judeus se refugiam na incredulidade e suspeitam que o homem jamais havia sido cego. Não encaram o fato evidente, pois contradiz suas convicções. Intimidado pelas autoridades, o povo também não pode expressar a alegria espontânea pela cura. Deve submeter-se à opinião dos dirigentes para continuar sobrevivendo.

Os fariseus querem evitar o testemunho do cego sobre Jesus, e pedem que jure lealdade a eles, para que Jesus seja rotulado como pecador. Não podem negar a cura, mas pensam que podem calar a interpelação e a novidade que ela provoca. Para eles, Deus não pode agir contra a lei e a favor do ser humano necessitado. Eles pensam que sua ideologia é mais verdadeira que a experiência, e se refugiam na tradição para negar a realidade e não encarar a mudança possível e necessária.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se espiritualmente na cena descrita por João, em cada personagem, naquilo que dizem e fazem

Perceba como a iluminação do cego vai crescendo, e passa da cura física à maturidade espiritual e à iluminação da fé

Quais são as ideologias ou cegueiras das quais necessitamos ser libertados, para que nossa adesão a Jesus seja madura e plena?

Nós e as meninas do Irã

Eu choro pelas meninas e demais cidadãos do Irã!

“O Irã é um Estado pária, que massacra seu povo e financia o terror contra o Ocidente. Se o ataque derrubar esse regime criminoso, o mundo agradecerá. Ninguém, no mundo civilizado, vai chorar pelo Irã. Sejam quais forem as motivações da guerra, se esse for o seu resultado, será bom para o mundo inteiro...”  (O Estado de São Paulo, 28/02/2026).

Este é o juízo implacável expresso no editorial do jornal. É uma de declarar que essa guerra é “justa” e “santa”. O que falta é apenas definir o preço que “a civilização ocidental” está disposta a pagar para “derrubar o regime” e implantar à força sua democracia vazia. Para eles, o assassinato de 165 meninas numa escola feminina é um custo aceitável.

Para os senhores da “imprensa hereditária”, a mesma que aplaudiu o início do Terceiro Reich de Hitler, “Israel tem pleno direito de se defender de uma ameaça existencial inequívoca”. Assumindo o papel de juiz, o jornalão diz que a agressão é justa, e os EUA têm o direito de impor o seu “modelo de democracia” e de controlar o petróleo iraniano.

“Se ninguém no mundo civilizado vai chorar pelo Irã”, eu me orgulho de não pertencer a esta “civilização”, que tem mais de violência do que de civilidade. Pertenço aos “povos bárbaros” que choram a morte de inocentes. “Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos, e não quer consolar-se porque os perdeu” (Mt 2,18).

Netanyahu não poderia esquecer o lamento dos seus antepassados: “Consomem-se em lágrimas os meus olhos, fervem as minhas entranhas; derrama-se por terra meu fel ante a ruína da filha do meu povo, quando meninos e crianças de peito desfalecem nas praças da cidade... Jazem por terra nas ruas meninos e velhos...” (Lamentações 2,11.21).

Não me conformo com o fato de que haja quem, proclamando-se cristão e católico, justifique e aplauda guerras, mesmo as mais nefastas e injustificáveis. Neles a indiferença se globalizou e arruinou a alma. Eles confundem o aplauso e a submissão aos vencedores e à rapina com reverência ao Deus da Vida e defesa dos verdadeiros valores humanos.

Recordemos, mais uma vez, a Doutrina Social da Igreja: A Comunidade Internacional se baseia na soberania de cada Estado, e nada pode negar ou limitar a sua independência. “Para resolver os conflitos que comprometem a segurança internacional é preciso renunciar definitivamente à ideia de buscar a justiça mediante o recurso à guerra (cf. §§ 434 e 438). Não há espaço para guerras declaradas diante de “ameaças existenciais”.