terça-feira, 20 de outubro de 2026

Esperança e engajamento

Quem recebeu mais, tem mais responsabilidade

1241 | Tempo Comum | 29ª Semana | Quarta | Lucas 12,39-48

O Reino de Deus virá, e nenhum discípulo de Jesus pode duvidar, nem esperar “jogando-se nas cordas”. Precisamos ser como o pessoal encarregado do cuidado de uma casa, que espera o chefe voltar de uma festa: viver uma fé vigilante, acendendo luzes na escuridão, para que todos possamos caminhar com segurança. Esta é a lição do texto imediatamente anterior ao que acabamos de ler.

No texto de hoje, Jesus amplia essa lição, comparando a irrupção do Reino de Deus à ação de um ladrão esperto: ele chega improvisamente, e num momento inesperado. Em outras palavras: precisamos esperar Jesus e a irrupção do Reino de Deus vigilantes, como quem não quer ser surpreendido por um ladrão que invade a casa na calada da noite. A caminhada de fé é uma existência aberta ao futuro, à espera de um encontro. O dia e a hora, porém, ninguém sabe, e isso pouco importa.

Em nome de todos os discípulos, Pedro pergunta se Jesus está dizendo isso somente a eles ou a todo o povo. Jesus não responde diretamente à inquietação de Pedro, mas deixa entender que a espera vigilante e militante é a marca de toda pessoa que nele crê e se dispõe a seguir seus passos, mas quem recebeu mais, quem o segue mais de perto, tem maior responsabilidade. Estes são como o administrador fiel a quem Jesus confia o cuidado de todo o “pessoal da casa”.

A comunidade cristã é a “casa de Deus”, abrigo seguro do povo de Deus, e os administradores (ministros e líderes) não podem deixar-se levar pela preguiça, pelas comodidades, pela lei do menor esforço, abusando do poder e descuidando-se daquilo que é essencial. Como a tarefa do administrador da parábola, os ministérios e estruturas são transitórios, e, na Igreja, todos são servos e irmãos, ninguém é chefe.

Não aconteça que nós, a quem a Igreja ou a sociedade confiou alguma função, mesmo conhecendo a vontade de Deus, vivamos “na sombra e água fresca”, não preparemos nada e atuemos como chefes sem compromisso e violentos, prontos a encher a cara, dominando e discriminando. Tempo de espera é tempo de missão, e missão é, antes de tudo, testemunho de vida nova e fraterna!

 

Sugestões para a meditação

Acolha as palavras incisivas de Jesus, deixe-se inspirar pelas parábolas do ladrão e do administrador

Imagine-se dentro das parábolas, vigilante para não ser surpreendido dormindo, ativo e serviçal aos iguais

Você percebe situações em que você e a comunidade estão “baixando a guarda” ou agindo como se não fôssemos todos iguais?

O que podemos dizer dos líderes religiosos que, movidos por medos e interesses, assustam o povo com fantasmas, como o comunismo?

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Felicidade é perseverar

A Esperança faz a hora, não espera acontecer

1240 | Tempo Comum | 29ª Semana | Terça | Lucas 12,35-38

Depois de falar sobre a relação com os bens materiais, subordinando-os à lógica do Reino de Deus, Jesus fala sobre a beleza imerecida e gratuita dos lírios do campo (texto omitido na sequência que estamos refletindo). E adverte os ouvintes: ninguém pode acrescentar nada, por esforço ou preocupação, à própria vida. Por fim, pede que os discípulos invistam em “fundos seguros”, ou seja, no Reino de Deus. Este é o tesouro que os ladrões não roubam e a ferrugem não come. E é essa a atitude esperada daqueles a quem foi oportunizada uma grande colheita.

No texto de hoje, o assunto do ensino de Jesus é a espera vigilante e ativa do Reino de Deus, especialmente quando ele parece demorar ou ser uma simples ilusão. Jesus se dirige aos discípulos, e sua fala está marcada pelo tempo pós-pascal, com a crise da espera e da confiança que os discípulos enfrentavam com o adiamento do “retorno” de Jesus. A espera vigilante é sempre essencial para quem segue os passos de Jesus. Ninguém pode, sob nenhum pretexto, “baixar a guarda”. Viver esperando significa viver de espera, mas vigilantes; significa esperançar as buscas e a espera.

Jesus ilustra esta espera ativa com duas imagens (o cinto que cinge os quadris e as lâmpadas sempre acesas) e com três parábolas (das quais hoje meditamos apenas a primeira). Para esperar adequadamente o retorno do patrão da festa de casamento, o pessoal da casa deve estar preparado: acordado, com as lâmpadas da casa acesas e com o cinto bem ajustado, para que as vestes não impeçam os movimentos necessários para acolher e servir. E isso mesmo que a hora for adiantada e o sono começar a pesar no corpo. Assim, podem abrir a porta, sem demora nem obstáculos. Isso é viver de modo sábio e responsável.

Relendo a parábola no horizonte do discipulado, entendemos que, se Jesus partiu, ele não disse adeus, e voltará. Disso não podemos duvidar, nem esperar “atirando-nos nas cordas”. Precisamos ser como o “pessoal da casa” da parábola. Jesus foi celebrar a aliança, e crer nele significa mover-se numa fé vigilante, ativa e perseverante no serviço. É ela que acende luzes na escuridão e ajuda a caminhar com segurança, pois a noite está no fim, mas a aurora ainda não raiou. A recompensa é a participação na mesa dos amados de Deus, do povo que ele ama, escolhe, educa e envia. O próprio Jesus, Servo bom e fiel, os servirá à mesa.

 

Sugestões para a meditação

Retome e reconstrua o fato, a parábola e a conclusão de Jesus, acolha suas palavras e incisivas, deixe-se levar pelas imagens do cinto e da luz

Imagine-se dentro da parábola do pessoal da casa que espera a volta do patrão, ansiosos e atentos

Identifique as situações em que você cede à tentação de “baixar a guarda”, de simplesmente “levar a vida”

domingo, 18 de outubro de 2026

A insesatez

Onde está o seu tesouro e a sua segurança

1239 | Tempo Comum | 29ª Semana | Segunda | Lucas 12,13-21

Chamando Jesus de mestre, o personagem sem nome da cena do evangelho de hoje não está expressando sua adesão a ele. Jesus percebe a ironia da saudação e as contradições do demandante, tanto que, respondendo, dá a entender que, se não for aceito como mestre, também não pode ser buscado como juiz. No fundo, Jesus percebe que este indivíduo não é uma pessoa em necessidade e nem candidato a discípulo. Trata-se de alguém queimado pela ganância. Mas essa situação proporciona a Jesus a oportunidade de falar sobre a relação do discípulo com os bens.

“Atenção! Guardai-vos contra todo tipo de ganância, pois mesmo que se tenha muitas coisas, a vida não consiste na abundância de bens”. Esta é a reação de Jesus ao perceber que, por trás de muitos pedidos de “justiça”, não está uma necessidade, nem uma sede de justiça, mas o desejo de possuir bens. E, para sublinhar a seriedade da sua exortação, propõe uma parábola na qual o protagonista é uma pessoa radicalmente voltada para si mesma, extremamente ambiciosa, que fala e decide tudo sozinha e não se interessa por mais ninguém.

No final de uma safra bem-sucedida, o personagem diz a si mesmo: “Meu caro, tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe e goza da vida”. Como não lembrar aqui a parábola do rico que festeja indiferente à miséria de Lázaro que jaz à sua porta (Lc 16,19-31)? Segundo Jesus, as pessoas que agem assim são desprovidas de qualquer resquício de razão, vazias de qualquer valor humano, e passam longe da piedade cristã. São o tipo de indivíduos que, com suas decisões, cavam abismos que os separam dos demais “simples humanos”.

Mas, se o acúmulo desmedido de bens é tolice e pobreza humana, o que significa ‘ser rico diante de Deus’? Está claro que, para Jesus, o problema não está nos bens em si mesmos. O mal dos bens está no obstáculo que podem interpor à liberdade radical e ao engajamento no movimento do Reino de Deus, que passa pela partilha solidária.

O Reino de Deus é a pérola preciosa e o tesouro que vale mais que tudo, o terreno no qual brota o trigo que vai para a mesa dos pobres, o ventre no qual é gerada a nova humanidade. Aos ricos, o que falta não são armazéns novos, mas uma visão mais solidária e um coração mais generoso. A pessoa rica diante de Deus aumenta o tamanho da mesa, para acolher, e não as dimensões do celeiro!

 

Sugestões para a meditação

Preste atenção nas palavras do protagonista da parábola: o “eu” está no centro de tudo, ocupa todo o seu pensamento

Quais as luzes que a parábola e o ensino de Jesus trazem para quem só pensa em acumular, e para quem não tem nem o necessário?

O que significar hoje ser “rico diante de Deus” e “não ajuntar tesouros para si mesmo”?

sábado, 17 de outubro de 2026

Não ao medo de tomar posição

A fé em Jesus Cristo pede que tomemos posição

1238 | Tempo Comum | 29ª Semana | Domingo | Mateus 22,15-21

Com ironia, hipocrisia e cinismo, os doutores da lei, escribas e herodianos preparam uma armadilha para surpreender Jesus e, assim, obter as provas que necessitam para a condenação que já está decidida. A ironia e o cinismo ficam evidentes nos elogios dirigidos a Jesus pelos seus emissários. Mesmo sem querer, seus adversários apresentam o perfil verdadeiro e inatacável de Jesus.

Jesus é um profeta que não se sente inibido na sua opção pelos pobres, nem frente à pressão dos poderosos; não abandona os caminhos de Deus, mesmo diante das alternativas que oferecem sucesso e êxito; não foge das questões espinhosas, nem apela à neutralidade política, a uma indefinida vida interior ou às coisas da alma; ele sabe distinguir o reconhecimento e a adesão humilde à sua proposta dos elogios falsos, interesseiros e enganadores.

O que está em discussão na cena de hoje não é a simplória questão de pagar ou não pagar impostos. O que as elites querem saber é se, diante do poder opressivo do império romano, Jesus e seus discípulos são colaboradores ou subversivos; se mantêm sua profecia ou abaixam a cabeça e calam a boca, deixando os fracos à sua própria sorte; se o projeto de Deus entra na história e provoca mudanças corajosas ou se dirige apenas ao coração e a uma fé privatizada e intimista.

O imposto cobrado dos povos colonizados pelo império romano era um meio de subjugá-los, e a própria moeda servia como estratégia de propaganda do imperador e de afirmação do status divino que ele reivindicava. Diante da prova da moeda, Jesus não se submete à fácil solução de separar fé e política, poder temporal e crítica profética. Sua resposta sábia e corajosa é mais um caminho que uma evasiva: “Devolvam a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Em outras palavras, Jesus pede que se devolva ao imperador a moeda, instrumento de propaganda e de exploração, e que se reserve a Deus a vida, a dignidade e a soberania do seu povo. Assim, Jesus contextualiza e relativiza o poder colonialista e a lealdade às autoridades. Sem recorrer à violência, e falando em nome de Deus, Jesus exercita a profecia e subverte a ordem estabelecida. E isso não tem nada a ver com a separação da fé da política. Precisamos desenvolver a atitude de discípulos missionários que não se furtam a tomar posições coerentes próximas nas eleições.

 

Sugestões para a meditação

Retome e reconstrua o texto, percebendo a bajulação interesseira e a armadilha maliciosa que os fariseus e herodianos preparam para Jesus

Procure entender o sentido profundo e atual da ordem de “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”

Evite a tentação da ideologia burguesa, que pretende separar a fé e a política, como se a fé não fosse sal e fermento, pois Jesus demonstra exatamente o contrário

Deus é maior que os imperadores

SÓ A DEUS PERTENCEMOS

«Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Estas palavras de Jesus foram frequentemente usadas para estabelecer uma fronteira clara entre o político e o religioso, defendendo assim a autonomia absoluta do Estado perante qualquer interpelação feita a partir da fé.

Segundo essa interpretação, Jesus teria colocado o ser humano, por um lado, perante obrigações de caráter cívico-político e, por outro, perante uma interpelação religiosa. Como se o homem tivesse de responder pelos assuntos sociopolíticos perante o poder político e pelos assuntos religiosos perante Deus.

Mas a intenção de Jesus não é essa. O acento das suas palavras está na parte final. Perguntaram-lhe maliciosamente sobre o problema dos tributos, e Jesus resolve prontamente a questão. Se usam moeda que pertence a César, devem aceitar as consequências que isso implica. Mas Jesus introduz uma ideia nova que não aparecia na pergunta dos adversários.

De forma inesperada, Jesus introduz Deus na equação. A imagem da moeda pertence a César, mas os homens não devem esquecer que trazem em si a imagem de Deus e, portanto, pertencem apenas a Ele. Assim afirmava a tradição bíblica. É então que podemos captar o pensamento de Jesus: «Dai a César o que lhe pertence, mas não esqueçais que vós mesmos pertenceis a Deus».

Para Jesus, César e Deus não são duas autoridades de igual nível que repartem a submissão dos homens. Deus está acima de qualquer César, e este nunca pode exigir o que pertence a Deus.

Num tempo em que cresce o poder do Estado e em que os cidadãos têm cada vez mais dificuldade em defender a sua liberdade numa sociedade onde quase tudo é dirigido e controlado, os crentes não devem deixar que nenhum poder lhes roube a consciência e a liberdade.

Devemos cumprir com honestidade os nossos deveres cívicos, mas não devemos deixar-nos moldar nem dirigir por nenhum poder que nos afaste das exigências fundamentais do reino de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A força do testemunho

Sem lenço, sem documento, e sem medo...

1237 | Tempo Comum | 28ª Semana | Sábado | Lucas 12,8-12

O núcleo da perícope do evangelho de hoje é o testemunho da pessoa de Jesus e do seu Evangelho que o discípulo deve dar. Ela prossegue o trecho previsto de ontem, no qual Jesus sublinhava a necessidade de vencer o fermento da hipocrisia, de confiar no amor e no socorro do Pai, de não ter medo, de anunciar o Evangelho com clareza e sem nenhuma restrição.

É como se a vida do discípulo missionário se inscrevesse num processo judicial, no qual Jesus é sua testemunha. Jesus sublinha que não temos nada a temer, e que precisamos testemunhar a verdade do amor compassivo de Deus pela humanidade ferida e oprimida. Quem fizer isso, com liberdade, generosidade e perseverança, pode contar com o testemunho do próprio Cristo a seu favor. Ele dará depoimento em nosso favor nos juízos históricos e nos receberá no juízo final.

É neste contexto que pode ocorrer a blasfêmia contra o Espírito Santo, dinamismo divino presente na encarnação e na missão de Jesus. Blasfemar contra o Espírito Santo significa não testemunhar, ou negar publicamente a ação libertadora de Deus em Jesus Cristo e no mundo. Ou, pior ainda, culpar Deus pelos males que ferem seus filhos e filhas, usando o nome de Deus em vão ou contra seus filhos e filhas.

Este medo de testemunhar quase sempre está ligado ao medo diante daqueles que matam o corpo, ao amor próprio e arrogante que nos leva a um fechamento consciente e grave à vontade do Pai e ao dinamismo transformador do Reino de Deus. Mais que uma palavra maldita ou um pensamento irresponsável, a blasfêmia é expressão de uma atitude consciente que restringe ou contraria o testemunho corajoso e público de Jesus e seu caminho de vida.

Quem segue Jesus e se deixa guiar por seu Espírito não precisa se preocupar com a autodefesa diante das críticas e dos tribunais, palanques e redes sociais. O Espírito inspira e sustenta seu testemunho lúcido, maduro e corajoso. As pessoas que se entregam com plena confiança ao Pai acabam encontrando palavras e soluções que jamais poderiam imaginar ou planejar. Quando a fé dá as mãos ao amor, nossa fantasia criativa explode em iniciativas, a serenidade faz em nós sua morada e nos sentimos como se fôssemos gente nova, renascida e recriada no Espírito.

 

Sugestões para a meditação

Identifique situações concretas nas quais, por medo ou acomodação, os cristãos não dão testemunho do Evangelho

Já ocorreu com você que, por medo ou comodismo, você diminuiu a força do seu testemunho ou descaracterizou o Evangelho de Jesus?

Você já fez a experiência de encontrar palavras e soluções inesperadas para resolver questões conflitivas que envolviam você?

Vote pelo Brasil

Não vote pela servidão voluntária!

No evangelho do próximo domingo temos mais uma cena da tensão entre Jesus e os fariseus, sacerdotes e demais autoridades do templo. Eles preparam uma armadilha a Jesus: “É lícito ou não pagar imposto a César?” (Mateus 22,15-22). O que eles não esperavam é que Jesus, respondendo de modo politicamente correto e cauteloso, acrescentasse Deus na história: “Devolvam a Deus o que é de Deus”. A vida e a liberdade do povo não pertencem a César!

Como defensora de uma ordem social injusta, a elite de Jerusalém estava interessada em manter os próprios privilégios, concedidos pelo poder invasor. Ela age em oposição a Jesus e aos seus, dissimulando seu caráter malicioso e violento. Cinicamente, usam moedas nas quais está escrito que o imperador romano é o filho ou escolhido de Deus. Na sua resposta, Jesus pede que não prestem lealdade incondicional aos impérios e a seus comandantes.

Num contexto eleitoral marcado pela violência verbal e física, pela intolerância e pela mentira usadas sistematicamente, a prática do discernimento recomendado por Jesus é fundamental. Atenção com o uso político da religião e com o uso religioso da política! Atenção com a pressão dos chefes, patrões, comunicadores e líderes religiosos para cabrestear o seu voto! Atenção com a mentira interesseira de quem diz que “fé e política não se discutem”!

No segundo turno das eleições não vamos simplesmente escolher o candidato “da nossa preferência”, nem apenas optar entre “direita ou esquerda”. Vamos decidir o presente e o futuro da nossa nação: escolheremos um governo democrático ou um governo autoritário; aqueles que celebram a imposição de taxas e prometem entregar aos EUA as riquezas e a autonomia, conquistada em 1822 e defendida com enormes dificuldades, suor e sangue?

Mas o que está em jogo não é apenas a soberania política. Há também o risco de abrirmos as portas ao fascismo, que não vem de rosto descoberto, mas fantasiado de liberdade. Podemos tolerar que crianças celebrem uma vitória com uma arma (real ou falsa, pouco importa) na mão? Pode um fiel cristão esclarecido e um cidadão lúcido dar seu apoio a um candidato que mente sobre tudo, que homenageia torturadores, e que pretende limitar os direitos sociais, dar anistia aos golpistas legitimamente condenados e enrijecer a lei penal para adolescentes?

Não pretendo tolher a liberdade de ninguém, mas o ministério que exerço pede de mim um posicionamento lúcido e responsável em questões tão relevantes como estas. Você é quem decide o seu voto, mas, se você é cristão, precisa compreender o que está em jogo, considerar o bem dos mais vulneráveis e levar em conta o jeito de Jesus e seu Evangelho, sem se deixar levar pelo impulso ou pela simpatia. Não escolha servir e defender os próprios algozes!

Dom Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A p´reciosidade do discípulo

O medo não paralisa o discípulo de Jesus

1236 | Tempo Comum | 28ª Semana | Sexta | Lucas 12,1-7

Depois das cinco denúncias dirigidas aos fariseus e mestres ou doutores da lei, Jesus prossegue no seu esforço de delimitar a diferença entre eles e os discípulos que chama, forma e envia. Mas agora fala diretamente àqueles que o seguem, e em tom de exortação, não de crítica ou de denúncia.

No meio de uma multidão que se aproxima atraída por seu ensino e sua ação libertadora, Jesus se dirige aos discípulos chamando-os de amigos. E alerta para que estejam sempre atentos ao fermento da hipocrisia, característica dos fariseus que pode contaminar a comunidade cristã. As comunidades, e a Igreja como um todo, podem sofrer essa influência. E nós sabemos o quanto isso tem acontecido, em todos os tempos, e alcança setores e personagens da Igreja até hoje.

Este fermento é a perversidade latente, escondida sob uma piedade não mais que aparente. Todos os que seguimos Jesus precisamos levar uma vida transparente, crer e viver de modo coerente, gratuito, solidário e desinteressado. Não se trata de uma adesão meramente formal ou nominal a um sistema religioso ou a uma instituição. Jesus ilustra isso com três conjuntos de sentenças, ligadas entre si e em contraposição às críticas e advertências dirigidas aos fariseus e doutores da lei (mas também aos discípulos e discípulas) que meditamos no capítulo anterior.

Nos poucos versículos do trecho do evangelho de hoje, Jesus fala três vezes sobre o medo. Parece que os discípulos se sentem acossados pelo medo de não estar à altura de cumprir todas as minúcias da lei ensinada pelos mestres do judaísmo, e, ao mesmo tempo, pelo medo de serem rejeitados pelo judaísmo oficial. Mas o que eles devem temer é a perda do sentido da vida, a perda do rumo, é trilhar um caminho que não seja o caminho de Jesus. E é isso que deveríamos temer também nós;

Chamados a evitar uma fé formal e aparente e a anunciar o Evangelho a todas as pessoas e povos, e não apenas às elites e aos judeus, os discípulos e amigos de Jesus devem estar cientes de que podem ter o mesmo destino do Mestre. Por isso, devemos confiar no amor e na assistência permanente do Pai.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua a cena, veja as multidões se apertando em torno de Jesus, sedentos de palavras e gestos de compaixão

Acolha cada uma das sentenças que Jesus pronuncia, procurando dar a elas um significado atual

Quais são os medos que atordoam e desmobilizam nossas famílias, comunidades e a Igreja como um todo?

Entre na metáfora dos pardais e dos cabelos, e deixe-se envolver pela confiança que nos faz livres e fiéis em Cristo

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Incoerência e hipocrisia

As palavras de Jesus não soam como insulto?

1235 | Tempo Comum | 28ª Semana | Quinta | Lucas 11,42-46

A expressão “ai de vós” é própria dos profetas e profetizas de Israel, recorrente nos apelos à conversão em situações de pecado e de injustiça social, já que são essas situações que atraem a ruína da sociedade, especialmente dos mais pobres. São mais lamentações que ameaças, e têm mais força moral e espiritual que poder. Mas não esqueçamos que, segundo Lucas, Jesus pronuncia essa série de advertências aos fariseus estando na casa de um deles!

Jesus começa dirigindo-se aos fariseus. A primeira lamentação, crítica ou denúncia de Jesus voltada aos fariseus põe em evidência a proverbial obsessão deles pelos detalhes insignificantes das leis, ao mesmo tempo em que ignoram olimpicamente aquilo que é transcendente e essencial, ou seja, a prática do amor e da justiça em favor dos setores sociais em situação de vulnerabilidade social e das pessoas desamparadas. Eles se apegam à exterioridade e às coisas secundárias.

A segunda acusação é a constante reivindicação de prioridade, honra e privilégio, uma espécie de gosto pelo exibicionismo. No fundo, segundo Lucas, os fariseus querem ser considerados e reconhecidos como as pessoas e os fiéis mais perfeitos, mais honrados e mais importantes, mas não se preocupam com a incoerência com aquilo que creem e ensinam. Assim, vivem o contrário daquilo que ensinam, e o que fazem é colocar fardos pesados nas costas dos mais pobres.

A terceira crítica dirigida aos fariseus é de falsidade ou hipocrisia, o hábito de demonstrar uma piedade que não vivem, de esconder a podridão interior e os interesses vorazes sob uma roupagem de piedade. É nisso que os fariseus, como grupo religioso e social, se parecem com sepulturas disfarçadas com pinturas e ornamentos, comportamento que leva os fiéis a andar por caminhos errados e a se contaminarem com imundícies sem darem-se conta.

Mais que uma ira santa contra alguns, Jesus expressa aqui seu amor solidário pelas vítimas desses comportamentos contraditórios. Mas, para a elite do judaísmo, essa fala de Jesus ressoa como acusação e insulto, e este chapéu acaba servindo também à cabeça dos mestres da lei. Como eles assumem as dores dos fariseus, Jesus contempla também eles em sua crítica: o pecado deles consiste em impor pesados fardos aos ombros já encurvados, em vez de estender a mão para erguê-los.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua mentalmente a cena na casa do fariseu, participe dela, escute cada acusação que Jesus dirige ao seu grupo

Será que nós, que exercemos alguma liderança, não somos parecidos com os fariseus? Onde nossas hipocrisias se mostram mais claramente?

Em que situações somos como sepulturas que ninguém vê e, por isso, levamos a pessoas a práticas desviantes do Evangelho?

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Atenção e vigilância

Portas abertas e palavras que confirmam

1234 | Tempo Comum | 28ª Semana | Quarta | Lucas 11,47-54

Jesus adverte e acusa os fariseus na própria casa de um deles! No texto que meditamos ontem, Jesus fazia três acusações contra eles: a obsessão pelos detalhes da lei e a consequente relativização da prática do amor e da justiça; a busca desmedida de evidência e honra; a falsidade, ou a incoerência entre o que ensinam e o que fazem. Hoje, Jesus prossegue sua denúncia, dirigindo-se prioritariamente e ao mesmo tempo aos fariseus e aos mestres da lei.

E a quarta acusação de Jesus, que faz parte do texto de hoje, é de que, mesmo aparentemente honrando e elogiando os profetas do passado, os fariseus e doutores da lei são corresponsáveis pelo assassinato da maioria deles, obra executada pelas mãos de seus antepassados. Eles demonstram isso se opondo e armando ciladas a Jesus, e, no futuro, farão o mesmo contra seus discípulos missionários que Jesus enviará para continuar sua missão profética e messiânica.

A quinta e última desta série de acusações dirigidas contra os fariseus e mestres da lei é a de terem se apossado da lei, do caminho que conduz à salvação e à plena humanização, interditando-o à maioria das pessoas. Eles pensam que sabem tudo e, por causa da incoerência intrínseca e incurável, eles mesmos não entram no Reino de Deus e, ao mesmo tempo, impedem que a maioria do povo o faça. Eles se apossam das chaves do Reino de Deus e fecham a porta a eles mesmos e a todos os demais.

Jesus adverte com veemência que Deus não deixará as coisas por isso mesmo. As lideranças religiosas deverão prestar contas de tudo isso, de todas as violências cometidas, de toda palavra mal dita, de todo ensinamento incoerente, de toda omissão em questões relevantes, de todo desvio ao qual induzem o povo. Como dirá Jesus noutro contexto: a quem muito foi confiado, muito será exigido, e esse é o caso deles, mas também o nosso caso!

Como discípulos missionários de Jesus Cristo, não nos enganemos pensando que Jesus denuncia e critica apenas os fariseus e doutores da lei. A advertência vale claramente para todos aqueles que são chamados, estabelecidos e enviados em seu nome, sejam catequistas ou ministros, ordenados ou não, leigos ou consagrados. A incoerência, a hipocrisia e o abuso de autoridade costuma rondar a todos, e mais fortemente quem está à frente das comunidades, organizações e Igrejas.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua a cena na casa do fariseu, participe dela, escute cada acusação que Jesus dirige contra fariseus e mestres da lei

Será que nós não somos parecidos com eles? Onde nossas violências, incoerências e hipocrisia se mostram mais claramente?

Também a nós, Deus pede contas daquilo que estamos fazendo com o tesouro preciosos e libertador do Reino de Deus