domingo, 19 de julho de 2026

Espetáculo X Compaixão

Jesus age por compaixão e não dá espetáculo

1147 | Tempo Comum | Semana XVI | Segunda | Mateus 12,38-42

Na ação missionária de Jesus não faltavam sinais da misericórdia de Deus em favor do povo cansado e abatido. Ele havia acabado de curar uma pessoa cuja personalidade estava destruída por um poder incontrolável. Mas, em vez de acreditar nele e se alegrar com os sinais do Reino de Deus tão esperado, os fariseus o acusaram de agir em nome do pai da maldade. E Jesus respondera que é pelos frutos que se conhece a árvore, pelas ações que conhecemos as pessoas.

Agora, os mestres da lei voltam a insistir, pedindo a Jesus um sinal que ateste que ele veio e age em nome de Deus. Eles já têm suficientes, mas se recusam a aceitar os sinais que beneficiam os sofredores e excluídos. Esperam e exigem sinais mais poderosos, capazes de impressionar, de assustar e provocar submissão. Mas Jesus só faz sinais para fazer o bem a quem está em situação de necessidade, e se recusa a fazer algo apenas para mostrar seu poder ou para satisfazer a curiosidade deles.

Na verdade, Jesus acena para um sinal futuro e inusitado: como o profeta Jonas ficara três dias no ventre de um peixe, como que sepultado no mar, o enviado do Pai e Filho do Homem compartilhará a condição dos humanos condenados e será morto e sepultado no ventre da terra. O sinal da sua divindade é sua plena humanidade. E como os pagãos de Nínive acreditaram na pregação de Jonas e se converteram, também os judeus devem aceitar seu anúncio e seu testemunho e mudar de vida.

Essa resposta de Jesus se torna denúncia, provocação e insulto às lideranças do judaísmo quando diz que povos pagãos que se converteram com a pregação dos profetas julgarão os orgulhosos mestres da lei. Jesus diz que eles, autoridades religiosas, são maus (agem por força do demônio) e adúlteros (sem nenhuma honra).

Além de recordar o exemplo do povo ninivita, Jesus também propõe o exemplo da rainha de Sabá, que fez de tudo para visitar Salomão, e, mesmo sendo pagã, reconheceu sua sabedoria. E, de fato, Jesus é muito mais que Jonas e muito mais que Salomão. Ele é a encarnação da Sabedoria e da Profecia, e o sinal maior que ele nos dá é a compaixão e a misericordiosa acolhida, levada ao extremo na cruz.

 

Sugestões para a meditação

Que sinais você costuma pedir ou esperar para confirmar o amor e a presença de Deus na sua vida?

Você leva em conta que é a fé que torna os sinais grandes e animadores, que não são os milagres que fortalecem a fé?

O que significa hoje o sinal de Jonas, o profeta que passou três dias desaparecido, no intestino de um grande peixe?

Como o exemplo do povo de Nínive e da rainha de Sabá podem estimular nossa adesão a Jesus Cristo e ao seu Evangelho?

sábado, 18 de julho de 2026

Paciência e rersponsabilidade

Eu creio na força das pequenas sementes!

1146 | Tempo Comum | Semana XVI | Domingo | Mateus 13,24-43

O zelo pelo projeto de Deus às vezes provoca em nós uma santa ira, e nosso desejo é pegar foices e facões e extirpar da sociedade a injustiça e da Igreja a ambiguidade, acusando pessoas e “cortando o mal pela raiz”. Esta seria uma solução relativamente fácil se o joio estivesse apenas fora de nós, nas estruturas, e se fôssemos pessoas incorruptíveis, sem ambivalências e sem contradições. Mas o integrismo costuma se mostrar burro, irracional e violento.

A propósito, Jesus propõe duas outras parábolas, nas quais contrapõe a notável pequenez da semente de mostarda e do fermento ao arbusto frondoso e à massa levedada que produzem. Estas parábolas à perguntas que nos fazemos: será que a bondade e a compaixão não são ações insignificantes, pequenas e demasiadamente frágeis frente à injustiça e à opressão? Teremos que nos contentar em ser sempre uma minoria que age apenas para reparar danos, sem nunca chegar à vitória plena?

Para os grandes Roma, de Jerusalém e de todos os centros de poder, a semente ou o fermento do Reino de Deus é insignificante e não tem futuro. Não faltam pessoas e grupos que, em nome da eficácia histórica, propõem uma Igreja mais forte, centralizada e potente, capaz de medir forças ou negociar com os impérios. Mas a proposta de Jesus é outra: crer e confiar na força dos fracos, na fecundidade do amor solidário, no dinamismo revolucionário da profecia e do testemunho.

A pergunta, porém, ressurge insistente: isso não é apenas romantismo inconsequente, sonho de adolescente? Jesus responde chamando nossa atenção para o mundo doméstico e feminino. Precisamos aprender da ação silenciosa, escondida e demorada do fermento que a cozinheira mistura à farinha. Ninguém ousaria afirmar que a ação do fermento é ineficaz! Mas, para ser eficaz, o fermento do Reino de Deus precisa entrar em contato com a farinha, perder-se na massa, esperar.

Esta parábola do Reino completa o que falta às anteriores. Cada parábola quer evidenciar um aspecto do dinamismo do Reino de Deus. Aquela do trigo e do joio e a outra da rede nos chamam à paciência e ao discernimento. A história da semente de mostarda nos ensina a confiança nos meios pequenos e frágeis. E a parábola do fermento nos interpela ao engajamento lúcido e transformador, a gastar-se na ação de solapar as bases dos impérios que ameaçam, intimidam, excluem e matam.

 

Sugestões para a meditação

Qual tem sido a força do testemunho de compaixão e solidariedade que vivemos em nosso ambiente familiar e comunitário?

Por onde começar para superar o pessimismo de quem pensa apenas no fracasso ou só acredita no poder das grandes iniciativas e instituições?

Eu creio na força da semente

FERMENTO DE UMA VIDA MAIS HUMANA

Surpreende ver com que frequência Jesus se dirige aos seus discípulos para os alertar contra uma certa impaciência messiânica que não sabe respeitar o ritmo da ação discreta, mas vigorosa, de Deus.

Aos que esperam dele o início de um movimento contundente e arrasador, capaz de eliminar outras correntes e alternativas, Jesus fala de uma ação de Deus mais humilde e respeitosa. O mundo é um campo de sementeiras concorrentes. E o reino de Deus cresce aí, na densidade dessa vida por vezes tão ambígua e complexa.

É aí que Deus está salvando o ser humano. Nesses comportamentos coletivos, animados ora por grandes ideais, ora por egoísmos obscuros. Nesses mil gestos que fazemos todos os dias e onde se mistura generosidade com mesquinharias mais inconfessáveis.

Aos que esperam o surgimento de algo espetacular e poderoso, Jesus fala de um reinado de Deus mais simples e discreto. Algo que não está feito para desencadear movimentos grandiosos de massas. O reino de Deus já está atuando, mas à maneira de um grão de mostarda minúsculo e quase irrisório que germina com humildade, ou como um pedaço imperceptível de fermento que se perde na massa, transformando-a por dentro.

Não abriremos caminho para o reino de Deus lançando excomunhões sobre outros grupos, partidos ou ideologias, nem condenando tudo o que não coincide com o nosso pensamento. Não o implantaremos na sociedade concentrando grandes massas ou conquistando o aplauso passageiro das multidões.

O reino de Deus é um fermento de humanidade, e cresce em qualquer canto obscuro do mundo onde se ama o ser humano e onde se luta por uma humanidade mais digna. Ao reino de Deus abriremos caminho deixando que a força do evangelho transforme o nosso modo de viver, amar, trabalhar, desfrutar, lutar e ser.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Jesus, o Servidor da vida

Jesus é o enviado para levantar os oprimidos

1145 | Tempo Comum | Semana XV | Sábado | Mateus 12,14-21

Jesus havia questionado fortemente o ensino e a prática dos fariseus, orgulhosos da sua piedade ostensiva, afirmando a prioridade da vida sobre a lei. Isso ficou muito claro nos episódios dos discípulos que colhem trigo para comer em dia de sábado e na cura do homem com mão seca (cf. 12,1-8 e 12,9-13), o primeiro dos quais lemos e comentamos ontem. Os fariseus sentem o golpe, mas não desistem. Na verdade, por causa disso decidem tramar a morte de Jesus.

Sabendo disso, Jesus se retira do ambiente da sinagoga. Uma multidão de gente necessitada, mesmo sem conhecer bem Jesus, vai atrás dele em busca de alívio para seus fardos. E Mateus diz que ninguém volta sem ser beneficiado. O que a religião oficial do judaísmo e seus agentes não conseguem ou não querem fazer, Jesus faz, sem descanso e sem impor condições. Mas ele rejeita toda forma de publicidade pelo bem que faz, e isso é bem diferente de alguns pregadores que conhecemos.

Nesse momento, o evangelista busca na profecia de Isaías a chave para bem entender a identidade e o modo de agir de Jesus. Jesus é o Servo anunciado pelo profeta, uma realização plena e superior do resto humilde e fecundo do povo deportado. Sendo Servo, Jesus não assusta nem oprime, mas traz vida e bem-viver. O Servo (a palavra hebraica é a mesma para dizer “servo” e “criança”) é aquele que faz em tudo a vontade de Deus, e não a sua vontade ou a vontade das instituições.

Jesus é também o filho Amado do Pai, aquele que realmente o agrada, pois o amor compassivo e misericordioso é a base e a motivação de tudo o que ele diz e faz. Jesus é o ‘escolhido a dedo’ por Deus Pai para realizar sua missão libertadora da humanidade e, para isso, foi ungido e recebeu o dinamismo do Espírito de Deus. Ele recupera a sociedade e o mundo decaídos e diminuídos pelas mais diversas forças de opressão, e os faz como Deus os sonhou.

Sendo o Servo, o Amado e o Escolhido, Jesus evita gastar tempo em discussões teóricas e não se ocupa com a própria defesa. Ele não grita nas praças, como faziam os mensageiros dos imperadores. Ele não é peso ou ameaça para quem está atribulado e fragilizado, como pavio que vai se apagando. Ele não quebra quem já está ‘moído’ e arrasado pela dominação, como a cana. Ele é a esperança de todos povos, a visita de Deus que estabelece sua morada definitiva na humanidade.

 

Sugestões para a meditação

Acolha e deixe ressoar em você as imagens eloquentes do profeta Isaías: Servo, Amado, Escolhido, Enviado.

Como poderemos testemunhar um Jesus Cristo que não grita para se impor, não quebra quem já está machucado, que não esmaga quem já está arrasado?

Você não acha que gastamos muito tempo e energia defendendo-nos e em discussões estéreis com quem se opõe ao Evangelho?

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A lei e o alimento

Deus é um oceano de misericórdia e compaixão

1144 | Tempo Comum | Semana XV | Quinta-feira | Mateus 12,1-8

Nesta cena a questão central que Jesus discute com os fariseus parece ser a obediência à Lei. Porém, sobressai outra questão, mais importante: as leis e costumes que controlam a comida e o acesso a ela. A recorrente menção ao campo de trigo, aos grãos e à fome, ao ato de comer, tanto dos discípulos como de Davi e seus companheiros, não deixa dúvidas. O sistema econômico limitava o direito à alimentação, e os fariseus agiam para limitar aos discípulos o acesso ao alimento. O império da legalidade impedia a segurança alimentar do povo mais pobre.

O ensinamento e a prática de Jesus são alternativos, e confrontam e desafiam as leis e sistemas, e não apenas as leis religiosas. Jesus revoluciona o papel da lei, do templo e a própria imagem de Deus. Ele é o filho do homem, o Senhor, o enviado pelo Pai, para revelar e realizar a sua vontade, anunciada nas escrituras, mas esvaziada pelo templo. Deus é misericórdia, e de nós ele espera misericórdia, e não cultos vazios e duros legalismos que penalizam os que já enfrentam tantas penas. A questão não se resume em admitir a existência de Deus, mas em afirmar que ele é compaixão, e demonstrar essa compaixão das próprias relações.

A misericórdia é a essência e o modo permanente do relacionamento de Deus com suas criaturas, a forma da justiça divina na relação com o ser humano, e praticá-la significa reconhecer Deus assim como ele é e enfrentar as práticas restritivas que limitam ou impedem o acesso dos seus filhos e filhas aos direitos humanos básicos, como a alimentação. A misericórdia é o dinamismo que brota da internalização das misérias do próximo, e esse dinamismo torna impossível a indiferença, a dominação e a opressão. É isso que Jesus faz, com a maior liberdade, e fazem seus discípulos. A fome tem prioridade sobre as leis e instituições.

Jesus questiona a interpretação restritiva e fria das escrituras ensinada e praticada pelos fariseus, que se mostram sempre tão corretos. Por duas vezes Jesus questiona: “Nunca lestes?” E adverte: “Se tivesses compreendido o que significa...” Na verdade, a interpretação que eles fazem das escrituras é limitada e interesseira. Jesus é maior que o templo e a lei, a superação de ambos e a chave-de-leitura da verdadeira religião. Para ele, a lei, o templo e o alimento pertencem a Deus, e crer é fazê-los acessíveis a todos. Tudo isso e tudo o mais está abaixo do querer de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Você identifica também hoje sinais de uso da fé para se dispensar da atenção à vida das pessoas?

E o que dizer da economia liberal, que faz da comida, da água, da saúde e de tudo o mais uma simples mercadoria, limitando o acesso a ela?

Como colocar em prática hoje a vontade de um Deus que prioriza a misericórdia e não a lei, o culto e os sacrifícios?

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Nossa Senhora do Carmo

Quem faz a vontade do Pai é da família de Jesus

1143 | Tempo Comum | Festa de Nossa S. do Carmo | Mateus 12,46-50

Jesus acabara de acusar as autoridades religiosas de serem incapazes de discernir sua identidade de Messias, enviado pelo Pai para anunciar e inaugurar seu Reino. Depois, Jesus deixa a sinagoga. Na cena de hoje, ele está em uma casa com seus discípulos. Essa casa é um lugar de encontro e convivência de uma nova família, uma família alternativa, que relativiza os tradicionais laços de raça e de sangue.

Mateus diz que alguém avisa Jesus que sua mãe e seus irmãos estão lá fora, e desejam falar com ele. Eles se aproximam respeitosamente, sem interromper a ação missionária de Jesus. Estariam movidos pela saudade? Pelo desejo de que ele volte para casa? Pela vontade de segui-lo? Estar dentro ou fora dessa casa delimita claramente a pertença ao “círculo” de Jesus e do Reino ou a auto exclusão dele.

A novidade do Reino de Deus, esperada há séculos e trazida por Jesus, implica em uma mudança nas relações sociais, econômicas, religiosas, políticas, mas também das relações familiares. É no horizonte do Reino de Deus que Jesus questiona e supera o modelo de família patriarcal, baseada nos laços de sangue e na submissão ao homem e senhor, sempre funcional aos sistemas estruturados sobre a dominação.

Jesus responde ao aviso da chegada dos familiares com uma pergunta, uma declaração e um gesto. Ele pergunta quem são seus irmãos, suas irmãs e sua mãe. Dirigindo-se aos discípulos e discípulas que o circundam, afirma, como que indicando com a mão: “Eis minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade do meu Pai, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” Os discípulos são a sua família: nova, aberta, não sujeita aos vínculos de sangue, de raça, de gênero, de religião. Nela, só Deus é Pai, e todos são iguais em dignidade!

Nós cremos que Maria também está neste círculo, nessa nova família, pois ninguém mais que ela viveu para realizar prontamente a vontade do Pai. Nisso ela é modelo de mãe, irmã e discípula. Mas é importante também que nos sintamos incluídos por Jesus no âmbito da sua família. Somos seus irmãos, irmãs e sua mãe, se fazemos a vontade do Pai. Mais que poderosa intercessora por nossos pedidos nem sempre evangélicos, Nossa Senhora do Carmo nos guia na busca de Deus e na escuta de Jesus. A verdadeira homenagem que podemos prestar a Maria é alargar a tenda da nossa família, acolher todos como irmãos e entrar no círculo de Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Procure inserir-se na cena relatada pelo evangelista e interagir com os diversos personagens que aparecem

Como ressoa em você o questionamento de Jesus aos que falam em nome de sua família e sua resposta a eles?

Você se sente efetivamente e com alegria irmão ou irmã de Jesus e de todos aqueles que vivem seu Evangelho?

terça-feira, 14 de julho de 2026

Doutores X Pequenos

Jesus se alegra por ser acolhido pelos pequenos

1142 | Tempo Comum | Semana XV | Quarta-feira | Mateus 11,25-27

Ontem, ouvimos a advertência de Jesus às cidades que se fecham aos sinais que pedem uma mudança profunda, rejeitam a oportunidade que lhes abre com seu anúncio e suas ações. No breve texto de hoje, Jesus muda radicalmente seu tom, e se dirige carinhosamente a um novo interlocutor: aos discípulos e discípulas, como que para consolar e fortalecer quem se sente ameaçado e inseguro.

Jesus não ignora a divisão e a rejeição que seu Evangelho provoca. Mas, a partir da sua intimidade com o Pai, percebe que há gente generosa que o acolhe, adere a ele, muda o rumo da própria vida. Ele sabe que essa é a vontade do Pai: que o Reino de Deus, que pertence aos pequenos, humildes e pobres, seja por eles levado adiante, não obstante a extrema limitação dos meios ao alcance deles. Nisso, os sábios das academias e os poderosos entronados contam pouco.

Os sábios e entendidos que se fecham à Boa Notícia do Reino de Deus são as elites culturais, políticas e religiosas, todos os grupos que se sentem superiores, sabidos e seguros, e não conseguem admitir nada além dos próprios interesses de classe. Mas, entre eles, há também outros menos elitizados, que se deixam influenciar por essa mentalidade, e se fecham à novidade libertadora de Deus: algumas cidades, gente do povo e até parentes de Jesus. Tanto ontem como hoje!

Os “pequeninos” dos quais Jesus fala são as pessoas humildes, sem segurança, receptivas ao Evangelho e à pessoa de Jesus, aquelas que o seguem como discípulas, dispostas e aprender sempre. São as pessoas mais vulneráveis, às vezes iludidas pelos doutores da lei, e até vistas como tolas. São as pessoas que entram para a comunidade dos discípulos, convictas de que mestre não é quem sabe tudo, mas quem aprende sempre, que vive como eterno aprendiz.

Mas, atenção! Não é pelo fato de sermos contados entre os batizados ou frequentadores dos sacramentos que somos automaticamente discípulos e estamos livres da arrogância de quem pensa saber tudo. A experiência demonstra o contrário! Na relação no interior das nossas comunidades, e na postura diante das demais confissões cristãs e outras religiões, é frequente sentirmo-nos melhores, superiores e entendidos. Quando agimos assim, acabamos nos afastando da compreensão dos mistérios do Reino de Deus e nos portamos como guias cegos.

 

Sugestões para a meditação

Em quais circunstâncias você se percebe agindo como sábio e entendido, que tem tudo a ensinar e nada a aprender?

Como poderíamos traduzir, com palavras e para as situações de hoje, essa belíssima alocução de Jesus?

O que fazer para deixar-se surpreender pelas delicadezas de um Deus que tem prazer em ser acolhido pelas pessoas humildes e afirmar a dignidade das vítimas?

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A hora é agora

O discípulo não vive de créditos ou méritos

1141 | Tempo Comum | Semana XV | Terça-feira | Mateus 11,20-24

Mateus nos diz que Jesus, no final da sua primeira formação missionária, parte para pregar e anunciar o Evangelho do Reino de Deus nas cidades da redondeza. Ele é procurado pelos discípulos de João Batista, que não conseguem entender os sinais que Jesus realiza (cf. 11,2-15). E Jesus lamenta o fato de que, fechadas em si mesmas, as pessoas rejeitam tanto pregação de João Batista, por sua rigidez, quanto o ensino de Jesus, por seu liberalismo (cf. 11,16-19). Eles querem que Deus dance conforme a música que eles mesmos tocam!

Nesse contexto, podemos entender a reação dura de Jesus descrita na cena de hoje. Ele censura e repreende a cidade onde mora (Cafarnaum), e as vizinhas cidades de Corazim e Betsaida. Para Jesus, a atitude do povo de Cafarnaum é mais grave que a maldade de Sodoma, e a postura das duas outras, é pior que o comportamento reprovável de Tiro e Sidônia, duas cidades pagãs conhecidas no Antigo Testamento pela ostentação e pelas injustiças.

Estas cidades às quais Jesus dirige suas advertências são importantes centros regionais, e nelas vivem as elites que estendem seu domínio no entorno, inclusive na Galileia. Estas cidades se fecham aos sinais que Jesus realiza, sinais que pedem uma mudança profunda; rejeitam a oportunidade que Jesus lhes abre com seu anúncio e suas ações, e isso é mais grave que a rejeição dos profetas ou o não cumprimento dos mandamentos do decálogo.

Esta é a primeira vez que, no evangelho segundo Mateus, Jesus fala em condenação. Na verdade, ele não ameaça, mas lembra que as escolhas e decisões do povo e das lideranças destas cidades têm suas consequências. Se é verdade que em Cafarnaum há algumas respostas positivas (o paralítico e seus amigos, Mateus e seus colegas, um chefe e uma mulher anônima), a atitude majoritária da população local, especialmente das lideranças religiosas e políticas, é de indiferença.

O verdadeiro discípulo missionário, que precisa estar em contínua formação para assimilar e viver de modo coerente a novidade do Reino de Deus, não pode perder a chance de se converter. Conversão é tarefa que se renova a cada dia! No seguimento de Jesus ninguém vive dos créditos do passado, nem dos merecimentos dos parentes e dos amigos! De nada vale reivindicar a pertença formal a um povo ou a uma Igreja.

 

Sugestões para a meditação

Sublinhe ou se detenha na frase ou afirmação de Jesus que lhe parece mais forte e surpreendente

Procure confrontar essa palavra com a vida e missão de Jesus, especialmente sua entrega na cruz

Quais são as dimensões da sua vida e da sua prática que mais carecem de mudança para se assemelhar à de Jesus?

domingo, 12 de julho de 2026

A paz que divide

O Evangelho do Reino provoca divisões

1140 | Tempo Comum | Semana XV | Segunda | Mateus 10,34-11,1

O final da catequese missionária de Jesus segundo o evangelho de Mateus é surpreendente e, para alguns, pode inclusive soar como estranho. Ele, cujo nascimento foi celebrado como paz na terra, que disse que são felizes os fazedores de paz, que pediu que seus enviados saudassem a todos desejando a paz, diz agora que não veio trazer a paz, mas a espada e a divisão, inclusive a divisão no interior da própria família. O que aconteceu com Jesus e como podemos interpretar esse ensino de forma coerente com o restante do Evangelho?

De fato, o que provoca divisão não é uma vontade deliberada nossa ou de Jesus, mas a novidade e o dinamismo transformador do Reino de Deus. O que Jesus quer é que o Reino de Deus ganhe espaço e força, revolucionando as relações humanas, sociais, políticas, culturais e econômicas. E, diante disso, ninguém pode ficar indiferente. O projeto do Reino de Deus e a lógica predominante na sociedade, segundo a qual “quem pode mais chora menos”, se opõem radicalmente. O Reino de Deus é como uma espada que divide e pede uma lealdade sem meias palavras.

A lealdade a Jesus e aos valores do Reino de Deus deve estar inclusive acima dos valores da família patriarcal, por mais que haja, também hoje, quem deseje mantê-la e promovê-la em nome da civilização cristã. Amar mais a Jesus que aos familiares significa colocar ele e o Reino de Deus, a fraternidade sem fronteiras, acima de todos os outros valores e vínculos. Neste sentido, Jesus é uma espada que divide!

É na adesão ao Reino de Deus que encontramos felicidade e vida abundante. A acomodação e as alianças com o “cada um para si” conduzem à frustração. Tomar a cruz e seguir Jesus significa aceitar a humilhação e a rejeição, mas não necessariamente o sofrimento. Implica em subverter a ordem, em permanecer leal a Jesus, vivendo e testemunhando a vida nova do Reino, até ao martírio.

Se isso tudo nos parece estranho e nos assusta, como assustou aos discípulos daquele tempo, Jesus nos consola: ele e o Pai estarão presentes nos seus discípulos, e quem receber um dos seus discípulos missionários estará acolhendo o próprio Jesus. Nenhum gesto de hospitalidade e solidariedade, por menor que seja, cairá no vazio. Eis o modo de ganhar a vida, de não perder o dom que recebemos. Tudo o mais que não queremos perder pode levar nossa vida à ruína.

 

Sugestões para a meditação

Como você tem escutado e acolhido a Boa Nova do Reino de Deus nestes tempos de mudanças profundas, de transição e de crise?

A Palavra de Deus ressoa mais vivamente em você, provoca eco, germina, produz frutos? Quais?

O que ainda impede que você seja terreno bom, no qual a semente da Palavra produz cem, sessenta ou trinta por um?

sábado, 11 de julho de 2026

Vitória de um a três

Importa semear sempre, e ser terra boa e fértil

1139 | Tempo Comum | Semana XV | Domingo | Mateus 13,1-23

Como sabemos, a compreensão das parábolas engaja os ouvintes, provoca uma tomada de posição. Jesus apresentou à multidão a parábola do semeador, ao que parece, originalmente focalizada no personagem que faz a semeadura. Era uma ilustração da própria missão de Jesus. Jesus é quem espalha a semente do Reino de Deus, de mão aberta, e sem excluir nenhum tipo de terreno. Posteriormente, a interpretação da parábola passa a depender tanto do contexto literário original como do contexto existencial, social e eclesial do leitor.

No texto de hoje, o evangelho de Mateus nos apresenta, na sequência da parábola, também uma das suas possíveis interpretações. Essa releitura é feita no contexto da rejeição do Evangelho do Reino de Deus experimentada pela Igreja nascente. Por isso, o foco se desloca do semeador para o destino das sementes, para a qualidade do terreno que recebe a semeadura, vale dizer, do evangelizador para a atitude dos ouvintes do Evangelho do Reino.

Um primeiro grupo de ouvintes é aquele dos que ouvem o anúncio do Reino sem se envolver e entender, e a novidade desaparece sem sequer ter germinado. Um segundo grupo de interlocutores recebe o anúncio do Reino com alegria, intuiu seu valor, mas não o aprofunda, não reflete, fica na superficialidade, e, diante da perseguição, tropeça, definha e abandona o seguimento de Jesus. Há um terceiro grupo que acolhe e compreende o Reino de Deus, mas é a ambição e não Deus quem comanda suas decisões, de modo que o reino de Deus acaba asfixiado.

Na explicação que oferece sobre o dinamismo do Reino expresso na parábola, Jesus é muito realista, e constata que três quartos (ou 75%!) dos seus interlocutores não compreendem adequadamente e, consequentemente, não aderem à novidade do reino de Deus. Mas ele não deixa de se alegrar com a adesão dos 25%, os pequenos e humildes que compreendem, se comprometem, e se fazem discípulos.

Estes últimos são os discípulos missionários que dão uma resposta generosa e fecunda de 100, 60 e 30 por 1! É verdade que três sobre quatro ouvintes desistem e fracassam no caminho, mas, por causa de apenas um, a semeadura do Reino não fracassará! Por isso, importa tanto semear sempre como ser terreno bom, que acolhe a semente e dá o melhor para que os frutos sejam abundantes e bons.

 

Sugestões para a meditação

Como você tem escutado e acolhido a Boa Nova do Reino de Deus nestes tempos de mudanças profundas, de transição e de crise?

A Palavra de Deus ressoa mais vivamente em você, provoca eco, germina, produz frutos? Quais?

O que ainda impede que você seja terreno bom, no qual a semente da Palavra produz cem, sessenta ou trinta por um?