segunda-feira, 23 de junho de 2014

Dia do Sol

O sol

Hoje, desde que amanheceu, é celebrada a Festa do Sol, o Inti Raymi, nos cerrados e nas montanhas dos Andes.

No começo dos tempos, a terra e o céu estavam na escuridão. Só havia noite.

Quando a primeira mulher e o primeiro homem emergiram das águas do lago Titicaca, nasceu o Sol.

O Sol foi inventado por Viracocha, o deus dos deuses, para que a mulher e o homem pudessem se ver.

(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 204)

domingo, 22 de junho de 2014

Festa do Nascimento de São João Batista (Ano A - 2014)

A verdadeira profecia devolve ao mundo a alegria.
A festa de São João está arraigada na cultura do povo brasileiro, e só aparentemente se distanciou do seu nascedouro bíblico e profético: a alegria simples e inocente que a caracteriza brota da certeza de que Deus não esquece sua aliança conosco, visita e liberta seu povo, e envia profetas e profetizas que preparam os caminhos qued nos levam a uma humanidade nova. Por isso, celebramos este dia com trajes e comidas que nos fazem parte do povo simples, com a alegria que brota da liberdade que virá e com a coragem profética que João nos deixa como herança.
A alegria, assim como a irreverência, têm raízes bíblicas e força revolucionária. Não falo da alegria forçada pelas drogas, nem da felicidade histérica daqueles que se deleitam com os bens subtraídos aos homens e mulheres que os produzem. E também não me refiro à alegria produzida artificialmente por líderes religiosos sequiosos de domínio e de riqueza, ou por estrelas políticas e midiáticas que seduzem incautos mas duram pouco mais que uma noite. Esta é uma alegria nem merece este nome, e mais parece gozação que alegria.
Estou falando da alegria que brota da descoberta de que Deus olha para as mãos calejadas, para os rostos sofridos, para os corpos vergados e os corações partidos e os proclama cheios de graça, plenos de charme. “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está contigo! Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,28.42). A notícia de que Deus nos ama desde sempre e para sempre faz pular de alegria até os bebês que ainda escondidos nos úteros de suas mães. “Feliz aquela que acreditou!”, proclama a jubilosa Isabel à jovem e corajosa Maria.
A alegria inocente e despojada das festas juninas têm raízes na história da salvação, que atravessa e supera a história da opressão e que está ainda hoje em curso. O nascimento de João Batista sacramentaliza a delicadeza de um Deus que levanta o manto da vergonha e da dor que, numa sociedade machista, pesa sobre uma mulher idosa e sem filhos (cf. Lc 1,25), faz brilhar o Sol da justiça para aqueles que sobrevivem ameaçados pelas sombras da morte. Quando o menino nasce, a vizinhança toda se alegra com esta demonstração da misericordia de Deus.
A razão dessa alegria aparece no próprio nome que a mãe Isabel lhe dá, nome que significa ‘Deus age com misericórdia’. Ao conferirem este nome ao filho, Zacarias e Isabel rompem com a tradição e renunciam a fazer do filho um simples espelho dos próprios desejos. João não será sacerdote, como o pai, mas profeta! Nas palavras de Zacarias ele será ‘profeta do Altíssimo’, porque irá à frente do Senhor, ‘preparando os seus caminhos, dando a conhecer ao seu povo a salvação, com o perdão dos pecados, graças ao coração misericordioso do nosso Deus’ (cf. Lc 1,76-78).
É verdade que inicialmente Zacarias parece não entender ou aceitar a vocação profética do filho. Seu ouvido se fecha e sua boca se cala. Mas sua língua se solta e seus ouvidos se abrem quando ele se liberta das malhas da tradição sacerdotal e reconhece que a vocação de filho da sua velhice é mostrar a misericórdia de Deus em favor do povo e defendê-los dos inimigos. Oxalá todos os pais e mães dêem o melhor de si para que seus filhos e filhas descubram e realizem sua vocação na Igreja e no mundo de hoje, antecipando isso no próprio nome que escolhem para eles!
O perdão gratuito dos pecados que João pregará será uma senha a abrir as portas da vida a todos os excluídos, tanto judeus como pagãos. À luz de Isaías, podemos dizer que a profecia autêntica não se deixa limitar pelas paixões nacionalistas. “É muito pouco seres o meu servo só para resutaurar as tribos de Jacó, só para trazer de volta os israelitas que escaparam. Quero fazer de ti uma luz para as nações, para que minha salvação chegue até os confins do mundo.” Não é digno de crédito um profeta que defende apenas as ovelhas do seu próprio rebanho...
Deus dos humildes, pai e mãe dos profetas, razão da nossa alegria: te agradecemos pelos homens e mulheres que continuas enviando para transformar desertos em jardins e acender teu fogo no mundo. Eles se chamam João, Adelaide, Pedro, Oscar, Ezequiel, Sepé, Dorothy. Mas seus irmãos e irmãs menos famosos se chamam José, Tião, Rosa, Maria, Tonico, Zeca, Antônio, Josefa..., gente que faz parte da imensa caravana de homens e mulheres que vivem uma alegria autêntica e simples, inocente e solidária, despojada e profética, um precioso tesouro do povo brasileiro. Bendito sejas! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Isaías 49,1-6 * Salmo 138 (139) * Atos dos Apóstolos 13,22-26 * Lucas 1,57-66.80)

sábado, 21 de junho de 2014

Fatos & Personagens: Eratóstenes

A cintura do mundo

No ano de 234 aC, um sábio chamado Eratóstenes cravou uma vara, ao meio-dia, na cidade de Alexandria, e mediu a sua sombra.

Um ano depois, exatamente na mesma hora do mesmo dia, cravou a mesma vara na cidade de Assuam, e comprovou que não havia sombra alguma.

Eratóstenes deduziu que a diferença entre uma sombra e sombra alguma confirmava que o mundo era uma esfera e não um prato.

Então, fez medir a distância entre as duas cidades, a passo de homem, e a partir dessa informação tentou calcular quanto media a cintura do mundo. Errou por (apenas) noventa quilômetros...


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 202)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Décimo Segundo Domingo Comum (Ano A - 2014)

Se os profetas se calarem, as pedras falarão!
Seus nomes são bem conhecidos: Dorothy Stang, Hélder Câmara, Oscar Romero, Chico Mendes, Martin Luther King, Pedro Casaldáliga, Erwim Kreutler, Rigoberta Menchú, entre tantos outros. São herdeiros da mais legítima profecia bíblica. Com sua ternura, firmeza e coragem marcaram ou marcam profundamente as Igrejas e a sociedade. Confiados naquele que “cuida de cada cabelo que vamos perdendo sem mesmo notar” estes irmãos e irmãs não se deixaram amordaçar pelo medo e proclamam com a própria que é para a liberdade que Cristo nos libertou.
Testemunhar Jesus Cristo é algo muito mais profundo do que simplesmente tornar seu nome conhecido. A missão dos cristãos, inerente à fé em Jesus Cristo, consiste em dar continuidade à sua dupla paixão: pelo reino do Pai e pela vida dos pobres. E isso significa prosseguir e alimentar as práticas e os movimentos que resgatam a vida de todos os grupos oprimidos e questionam as práticas de dominação e de exclusão. A profecia é também e sempre uma ação transformadora.
É natural que sintamos medo diante das ameaças e tristeza frente às mentiras e calúnias que recebemos por causa de um engajamento que brota da intimidade com Deus e do amor pelo seu povo. Os próprios discípulos e discípulas da primeira hora provaram o medo, e não é por acaso que, no evangelho deste domingo, Jesus pede três vezes: “Não tenham medo!” Quem não se vê representado no desabafo de Jeremias, que chega a amaldiçoar o dia em que nasceu?
O problema surge quando o medo – que geralmente vem de mãos dadas com o desejo de uma vida longa e tranquila – coloca viseiras nos olhos, mordaças na boca e correntes nas mãos, quando o cala a a voz profecia e esteriliza a força da fé. E isso começa com o simples medo de pensar e de viver diferente do nosso círculo de amigos e de família, e termina no medo de desagradar ou ser mal visto pelas autoridades políticas ou eclesiásticas.
A fé é o oposto do medo. Quem age movido pelo medo faz de tudo para encontrar uma segurança que, para nós cristãos, é dada gratuitamente por Deus. É estasegurança que faz com que os profetas e profetizas sejam firmes como pessoas que vêem o invisível. Elas sabem em quem acreditam, em quem depoistam a confiança. Sabem que é perdendo a vida que a podem conservar para sempre. Aquele que as chamou é fiel! O próprio Jesus Cristo as defende.
Jesus nos ensina a desenvolver esta confiança radical chamando a nossa atenção para os insignificantes pardais e para os cabelos. Deus cuida até dos pardais e dos cabelos, quanto mais daqueles que ama e chama! “Vocês valem mais do que muitos pardais!... Até os vossos cabelos estão contados!” Deus toma conta da vida dos seus filhos e filhas chamados à profecia porque é pai terno e bondoso, sempre e já no presente de suas criaturas. Então, medo de quê?
Mais que consolação intimista, a experiência do coração materno de um Deus que se supera nas delicadezas pelos frutos do seu ventre é luz que afugenta o medo e força que sustenta a profecia. Podemos dizer, com São Paulo, que muito mais forte que as privações e a morte, e mais abundante que nossos pecados, é a graça que Deus derramou sobre nós. E ainda temos a promessa de que o próprio Jesus será testemunha de defesa daqueles que dele dão testemunho neste mundo.
Afinal, como nos ensina Paulo, a fé que nos alimenta e sustenta nossa profecia brota de uma experiência de ser reconciliado e regenerado por Deus em Jesus Cristo. Vivemos em paz com Deus e nossa condição é marcada pelo sinal da Vida. O mal e a morte não nos amedrontam nem dominam.  Cristo venceu as forças destruidoras e desagregadoras e nos resgatou para a liberdade. Sua força é muito maior que a de Adão, e não há razão para olhar para o mundo e para o futuro com medo.
Jesus de Nazaré, destemido profeta da Galiléia: envia testemuhas autênticas da liberdade e da solidariedade. Suscita profetas que, despertos pela tua Palavra, anunciem com palavras e ações a verdade sobre a dignidade de todas e de cada criatura; denunciem as estruturas que excluem, mesmo aquelas que se apresentam em meio a luzes coloridas e fumaça de incenso; que renunciem às ações e contaminadas pelo espetáculo, pela indiferença, pela violência e pelo medo; que prenunciem, em seu modo de viver, um mundo em cuja mesa haja lugar para todas as criaturas. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Jeremias 20,10-13 * Salmo 68 (69) * Carta aos Romanos 5,12-15 * Mateus 10,26-33)

Fatos & Personagens: Joaquina Lapinha

Este inconveniente

Sua voz de soprano, capaz de dar cor a cada sílaba, havia despertado ovações no Rio de Janeiro.

Pouco depois, no final do século XVIII, Joaquina Lapinha foi a primeira cantora brasileira a conquistar a Europa.

Carl Ruders, um viajante sueco apreciador de óperas, escutou-a no ano de 1800, num teatro de Lisboa, e elogiou, entusiasmado, “sua boa voz, sua figura imponente e seu grande sentimento dramático”.

“Lamentavelmente, Joaquina tem a pele escura”, avisou Ruders, “mas este inconveniente pode ser remediado com cosméticos...”


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 200)

terça-feira, 17 de junho de 2014

Fatos & Personagens: Susan Anthony

Susan também não pagou

Os Estados Unidos da América versus Susan Anthony, Distrito de Nova York, 18 de junho de 1873.

Promotor distrital Richard Crowley: “No dia 5 de novembro de 1872, Susan B. Anthony votou num representante no Congresso dos Estados Unidos da América. Naquele momento ela era mulher, e suponho que não haverá dúvidas em relação a isso. Ela não tinha direito de voto. É culpada de violar a lei.”

Juiz Ward Hunt: “A prisioneira foi julgada de acordo com o estabelecido na lei.”

Susan Anthony: “Sim, Senhoria, mas são leis feitas pelos homens, interpretadas pelos homens e contra as mulheres.”

Juiz Ward Hunt: “Que a prisioneira fique de pé. A sentença desta Corte manda que ela pague uma multa de cem dólares mais as custas do processo.”

Susan Anthony: “Não pago nenhum tostão!...”


(Eduardo Galeano, Os filhos dos dias, L&PM, 2012, p. 198)

Meditando com os astecas

CONSELHO DOS VELHOS SÁBIOS ASTECAS


Agora que já olhas com teus olhos, percebe. Aqui é assim: não há alegria, não há felicidade. Aqui na terra é o lugar de muito pranto, o lugar onde se rende o fôlego e onde bem se concebe o abatimento e a amargura. Um vento de pedra sopra e se abate sobre nós. A terra é lugar de alegria penosa, de alegria que fere.

Mas ainda que assim fosse, ainda que fosse verdade que só se sofre, ainda que fossem assim as coisas da terra, haverá que estar sempre com medo? Haverá que estar sempre tremendo?  Haverá que viver sempre chorando?

Para que não andemos sempre gemendo para que nunca nos sature a tristeza, o Senhor Nosso nos deu o riso, o sonho, os alimentos, nossa força, e finalmente o ato de amor que semeia gentes.

Lembranças de um Amigo

O meu amigo de Cafarnaum

O meu Amigo era daqueles que não conhecem o cansaço.
Ele chegou de sua cidadezinha num dia de setembro, 
quando as pessoas começam a dizer: 
“Parece que está esquentando”.
É quando as flores se abrem e os passarinhos cantam.
Meu amigo tinha trinta anos de vida e de carpinteiro
E deu aos pescadores a impressão de uma nova primavera.
A cidade de Cafarnaum fedia a suor e a peixe podre. 
Somente as prostitutas perfumavam a rua de jasmim e manjerona
Ao passarem as tardes apregoando seu corpo.
Cafarnaum vivia com resignada raiva por estar condenada
Perpetuamente a nunca ser nada.
E lá estavam os doentes, mistura de febre e pó;
Lá estavam os leprosos, mistura de feridas e morte;
Lá estavam os injustos, lá estavam os romanos,
Como ianques odiados, num Vietnã sem bombas.
Quase todos estavam pescando num lago quando,
Num dia de setembro, chegou o meu amigo.
E não foi só falar, não. Foi também demonstrar:
Demonstrar que até o último pobre,
Da mais pobre choupana, 
Trazia nos olhos o sinal dos príncipes
Pois era filho predileto do rei, que se chamava Pai.
Floresceram, então, naquela primavera, as almas:
Houve sol com fartura, andaram os aleijados 
e os presos fizeram arados com seus grilhões
Enquanto carneiros e leões se apaixonavam.
E dessa alegria gratuita, com embriaguez sem ressaca,
Saiu um grupo de amigos que fez um juramento de sangue
Para que o mundo inteiro ficasse contente.
O chefe, Pedro, foi colocado como a pedra base
Que sustenta as vigas e que, por sua vez, sustentam a casa.
Saíram então, pelas ruas de todas as cidades
Anunciando essa boa nova chamada Evangelho.
E como as pessoas ficavam contentes ao se olharem no espelho
E reconhecerem, sem medo, a marca dos príncipes.
Assim começou a Igreja
Como os arautos que passam pelas cidades
Levando a música e a festa,
De manhã, de tarde, sempre.
O Amor nos fez surgir o seu Filho
Originando, assim, o primeiro dia.

(Poema postado pelo Fr. Thiago; desconheço o autor)

Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor (Ano A - 2014)

O corpo de Cristo é vida partilhada na mesa do mundo

O povo de Israel gostava de lembrar que Deus sempre dá o melhor de si. Ele alimenta o povo peregrino com a melhor farinha produzida pelo trigo e com o melhor mel oferecido pelas abelhas.  Por sua vez, as comunidades cristãs se rejubilam na experiência e no anúncio de que, em Jesus Cristo, Deus assume definitivamente a fragilidade da carne humana. E proclamam que Deus tem corpo feito de carne e sangue, amor e vulnerabilidade, que sua carne é verdadeiro alimento que sacia todas as fomes, e seu sangue é bebida que desaltera todas as sedes.
Aprendemos na catequese e continuamos acreditando que a comunidade cristã é o corpo vivo que tem Cristo como cabeça. Paulo sublinha que somos um corpo porque partilhamos de um único pão, e que, num corpo vivo os membros são solidários: quando um membro sofre, todos os demais sofrem com ele; quando um membro é honrado, os demais participam de sua alegria; e os membros mais frágeis são os que necessitam de maior cuidado e proteção.
A festa do Corpo de Cristo quer nos lembrar enfaticamente que Deus tem um corpo, e que este corpo é o nosso corpo individual, mas principalmente o corpo da comunidade, formado por homens e mulheres que dão o melhor de si pela Igreja, e ainda por pessoas acostumados ao sofrimento e que nem sempre estão em nossas celebrações e festas. O corpo de Deus é este corpo composto de membros livres e diferentes, mas unidos no mesmo espírito, na mesma dor e no mesmo sonho.
Este é um dos sentidos mais profundos da Eucaristia: compartilhar o mesmo pão na mesa eucarística nos compromete a viver a solidariedade e a comunhão com o corpo vivo de Cristo, com todos os membros, sem exceção, começando pelos últimos, aqueles nos quais Jesus disse que estaria presente; beber do mesmo cálice leva a comungar com o sangue de Cristo que circula nas veias daqueles que ele elegeu como irmãos, inclusive com o sangue dos mártires, reconhecidos ou não.
Porém, estamos tão acostumados a participar da missa e ‘receber a comunhão’ que, ouvindo Jesus Cristo dizer que é Ele “o pão vivo que desceu do céu”, fazemos um grande esforço para crer que ele está presente naquela partícula de pão que chamamos hóstia. Nossos olhos teimam em ver somente pão, e então nos esforçamos para ver ali o próprio Cristo. Com isso esquecemos que a primeira e mais decisiva passagem não é do pão para Cristo, mas de Cristo para o pão!
Jesus fala de sua vida em termos de carne e sangue, e estas palavras sublinham, ao mesmo tempo, a concretude de sua vida histórica e a vulnerabilidade que compartilha com todos os seres humanos. Os discípulos acham isso difícil demais... A questão decisiva é reconhecer as ações e opções concretas de Jesus Cristo, sua comunhão solidária com a humanidade sofredora, como algo que motiva e sustenta, como um caminho que vale a pena ser continuado.
Mas para muitas pessoas isso não faz sentido nenhum. Pensam que é irrelevante ou impossível que Deus tenha assumido a carne humana. Isso não as toca, não as alimenta, não mexe com elas. Entretanto, as palavras de Jesus Cristo são claras: “A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.” O pão do céu se fez carne e terra, se oferece como alimento para aqueles que têm fome e sede de justiça. É a humanidade de Jesus que sacia nossa fome e nossa sede!
Jesus Cristo dá o melhor e tudo de si  para que o mundo tenha vida. É para isso que ele se fez carne e se oferece como verdadeira comida e sangue servido como verdadeira bebida. A Ceia Eucarística que celebramos comunitariamente pretende ser sacramento – sonho e caminho! – de uma vida plena para todos. Por isso, a Eucaristia está longe de ser uma prática religiosa privada e misteriosa, repetida unicamente para cumprir uma lei ou para salvar individualmente a própria a alma.
Deus Pai e Mãe, que nos alimentas com o melhor do trigo e com o mel que sai da rocha. Queremos celebrar a ceia do teu Filho, memória e esperança, com o coração agradecido e com os rins cingidos para o caminho que nos espera. Dá-nos teu Filho, Pão para a vida do mundo! Dá-nos teu Espírito, fogo de comunhão que regenera o mundo na comunhão sustentada pelo dom. Não somos dignos que entres em nossa casa, mas diz uma Palavra e recuperaremos a dignidade e a liberdade, e assim viveremos a verdadeira comunhão. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf

(Deuteronômio 8,2-3.14-16 * Salmo 146 (147 B) * Primeira Carta Aos Coríntios 10,16-17 *João 6,51-58)

domingo, 15 de junho de 2014

O gemido se faz oraçao

Meu Deus, não sei o que pedir. Procurei o meu desejo mais ardente e não o encontrei. Não sei o que me fará feliz. 

Inquieto está o meu coração, sem descanso, e não sei que nome dar às minhas nostalgias. Sem saber para onde ir, sem saber o que fazer, sem saber que batalhas travar, sinto intensamente a tentação dos ídolos e dos vazios. É fácil entrar pelos caminhos falsos, preferir o poder ao amor, a força à mansidão, a reação violenta à mansa afirmação da bondade.

Mas eu sei que, a despeito da minha estupidez, o teu Espírito me ama, freqüenta os meus sonhos, as minhas entranhas, os desejos que não sei dizer... e intercede por mim e por meus irmãos, neste mundo que criaste, com gemidos profundos demais para as palavras...
Aceita, meu Pai, os meus gemidos inarticulados como expressão da minha prece... Mas, na minha fome, tenho necessidade de sinais visíveis da tua graça invisível.
Serve­-me os teus sacramentos, os primeiros frutos deste Reino, nostalgia da nossa alma... Tenho sede de sorrisos, de olhares mansos, de palavras brandas, de gestos firmes pela verdade e pela bondade; de vitórias, por pequenas que sejam, da justiça...
Tu sabes, ó Pai, que é muito difícil sobreviver no cativeiro, sem a esperança da Cidade Santa. "Pelos rios da Babilônia nos assentamos e choramos, lembrando-­nos de Sião..." Canta­-nos, ó Deus, as canções da terra prometida. Serve­-nos no deserto o maná. E concede-­nos a graça de brincar e saltar nos teus dias de descanso, como expressão de confiança...
E que haja, em algum lugar, uma comunidade de homens, mulheres, velhos, crianças e nenezinhos de peito que seja um primeiro fruto, um aperitivo, uma carícia do futuro. Amém!

(Rubem Alves)