quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Evangelho dominical - 24.09.2017

NÃO DESVIRTUAR A BONDADE DE DEUS

Ao longo da Sua trajetória profética, Jesus insistiu uma e outra vez em comunicar a Sua experiência de Deus como «um mistério de bondade insondável» que quebra todos os nossos cálculos. A Sua mensagem é tão revolucionaria que, depois de vinte séculos, há todavia cristãos que não se atrevem a leva-la a sério.
Para contagiar a todos com a Sua experiência desse Deus bom, Jesus compara a Sua atuação com a conduta surpreendente do senhor de um vinhedo. Até cinco vezes sai ele mesmo em pessoa a contratar trabalhadores para o Seu vinhedo. Não parece preocupá-lo muito o seu rendimento no trabalho. O que não quer é que nenhum trabalhador fique um dia mais sem trabalho.
Por isso mesmo, no final da jornada, não lhes paga ajustando-se ao trabalho realizado por cada grupo. Embora o seu trabalho tenha sido muito desigual, a todos lhes dá «um denário»: simplesmente, o que necessitava cada dia uma família camponesa da Galileia para poder sobreviver.
Quando o porta-voz do primeiro grupo protesta porque tratou os últimos, igual que a eles, que trabalharam mais do que ninguém, o senhor da vinhedo respondeu-lhes com estas palavras admiráveis: «Vão ter inveja porque eu sou bom?» Vais impedir-me com os teus cálculos mesquinhos de ser bom com quem necessita de pão para comer?
Que está a sugerir Jesus? Deus não atua com os critérios de justiça e igualdade que nós manejamos? Será verdade que Deus, mais do que estar a medir os méritos das pessoas, como faríamos nós, procura sempre responder a partir da Sua bondade insondável à nossa necessidade radical de salvação?
Confesso que sinto uma pena imensa quando me encontro com pessoas boas que imaginam a Deus dedicado a anotar cuidadosamente os pecados e os méritos dos humanos, para retribuir um dia exatamente a cada um segundo o Seu merecimento. É possível imaginar um ser mais inumano que alguém entregue a este trabalho por toda a eternidade?
Acreditar num Deus Amigo incondicional pode ser a experiência mais libertadora que se poda imaginar, a força mais vigorosa para viver e para morrer. Pelo contrário, viver ante um Deus justiceiro e ameaçador pode converter-se na neurose mais perigosa e destruidora da pessoa.
Temos de aprender a não confundir Deus com os nossos esquemas limitados e mesquinhos. Não temos de desvirtuar a Sua bondade insondável misturando os traços autênticos que proveem de Jesus com os traços de um Deus justiceiro tomados daqui e dali. Ante o Deus bom revelado em Jesus, o único que resta é a confiança.
José Antonio Pagola

Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

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