Lá na praia eu deixei o
meu barco...
(Is 61,18-21; Sl 116/117; Hb
12,5-7.11-13; Lc 13,22-30)

Escutando algumas pregações ou lendo
certos escritos teológicos e espirituais, às vezes tenho a impressão de que algumas
pessoas ainda pensam que os leigos e leigas são gente sem vocação alguma, uma maioria que é paradoxalmente um resto
que não foi chamado a nada e, por isso, deve apenas escutar e obedecer. Os
leigos e leigas viveriam nos mares deste mundo, e não lhes caberia buscar
outros mares. Deveriam esperar uma salvação que só lhes pode vir da oração das
pessoas consagradas e dos sacramentos administrados pelos ministros ordenados. Nada
contariam na missão de salvar e de libertar. Jamais alcançariam a maturidade
espiritual. Seriam os últimos da pirâmide
eclesial, uma base sem importância sobre a qual recai todo o peso institucional.
Daí que, quando queremos dizer que não entendemos de algo, dizemos que ‘somos
leigos’ no assunto... Pobre Igreja aquela que pensa assim e age conforme
pensa... Meditemos um pouco sobre isso à luz da Palavra e da prática de Jesus
Cristo.
“Senhor, abre-nos a porta!”
Todos os seres humanos aspiram a
salvação, mesmo que dela falem usando nomes diversos, ou silenciem. O ponto de
partida é a experiência de uma
inadequação entre o que somos e o que deveríamos ser, entre as
contingências do presente e a plenitude desejada e sonhada para o futuro.
Aquilo que a bíblia e a teologia chamam ‘salvação’ ou ‘Reino de Deus’ recebe
hoje o nome de liberdade, segurança, realização, plenitude, maturidade, emancipação,
paz, bem viver, etc.
Mas, além desta diversidade de
nomes, há também duas concepções fundamentalmente distintas sobre a forma de
chegar a esta situação descrita como salvação: o caminho da confiança absoluta
nas próprias forças e recursos, da submissão servil aos próprios interesses e
ambições, do fechamento em si mesmo ou nos grupos limitados; ou o caminho da
abertura aos outros, da escuta de outras vozes e do reconhecimento da dignidade
dos outros, da acolhida do dom que nos vêm de fora.
“É verdade que são poucos os que se salvam?”
É durante o caminho para Jerusalém,
a cidade que persegue e mata os profetas, que um anônimo provoca Jesus sobre a
questão do número das pessoas que se salvam. Parece que este sujeito não está
interessado no caminho que leva à
salvação, mas no número dos que são
beneficiados por ela. Estaria preocupado em reservar isso a uma minoria (da
qual obviamente ele faria parte)? Estaria interessado em confirmar uma
perspectiva elitista e discriminatória presente em alguns setores do judaísmo?
Jesus desloca a questão do número dos que se salvam para as mediações da salvação. Sem desconhecer
que a liberdade que cria comunhão e a maturidade que nos faz dom é uma graça
que não vem apenas de nós mesmos, Jesus sublinha que ela não dispensa o esforço pessoal contínuo. O caminho da salvação passa
pela exigente conversão de uma postura estreita e exclusiva a uma visão aberta
e inclusiva, do iate seguro e restrito dos nossos interesses para o barco
amplo e frágil do bem comum.
Além de enfatizar a necessidade de
empenho pessoal no processo de amadurecimento e libertação, Jesus sublinha que este engajamento é tarefa para o tempo
presente, e não pode ser adiado indefinidamente. Comparando o processo de
salvação com uma porta estreita, Jesus diz que chegará o tempo em que o dono da
casa fechará a porta e não será mais possível entar. Portanto, é preciso desfrutar responsavelmente das
possibilidades de crescimento que cada momento nos oferece.
“Comemos e bebemos na tua presença...”
Para muitos, a religião é o caminho
mais seguro para a salvação. As pessoas maduras, realizadas, plenamente humanas
ou santas seriam aquelas que rezam bastante, que observam as prescrições
religiosas, que regem a vida por uma moralidade estrita (especialmente na área sexual
e familiar), que vivem no tempo suspirando pela eternidade. Frequentemente são
pessoas que, tendo na terra tudo o que desejam, querem garantir antecipadamente
uma propriedade no céu. Mas Jesus é a única porta!
Na verdade, a religião não existe em
função disso. Esta é uma caricatura ou uma versão empobrecida e ideologizada da
religião que, em termos antropológicos e culturais, é uma tentativa de
responder às perguntas fundamentais do ser humano e oferecer-lhe indicações de
como alcançar o bem-viver. A religião não se divorcia da ética, inclusive da
ética social, nem do mundo, inclusive das coisas materiais. A religião propõe uma forma específica de
viver no mundo e se relacionar com as pessoas e coisas.
Para aqueles/as que reduzem a
religião a um conjunto de prescrições miúdas a serviço do isolamento e da
indiferença, Jesus adverte: “Não sei de onde sois...” E não adianta apresentar
a lista dos bons comportamentos, da frequência aos sacramentos e prédicas.
Infelizmente, estas pessoas demonstram uma imaturidade e uma mediocridade
humana e espiritual decepcionantes e, muitas vezes, irrecuperáveis. As práticas religiosas infantis e
interesseiras acabam impedindo a salvação.
“Tornai retas as trilhas para os vossos pés...”
Mas há também o caminho da ética, a via
da prática da justiça, que pode vir
conjugada ou não com a religião. Uma
religião sem ética compromete a maturidade humana, enquanto que a prática da
justiça, mesmo sem uma perspectiva religiosa, é sinal e caminho de plenitude
humana. Apresentando os profetas e patriarcas como plenos cidadãos do Reino
de Deus, Jesus reforça o princípio de que a
prática da justiça é dimensão instrínseca da religião e expressão de uma
humanidade madura.
Justiça é um conceito que descreve a
correta relação com Deus, com as pessoas e com as coisas, e está intimamente
relacionado à compaixão, à misericórdia e à autêntica piedade. No âmbito da
relação com as pessoas, a justiça
prioriza a relação com os pobres e oprimidos, de forma que, do ponto de
vista bíblico, ser justo significa
defender publicamente a dignidade dos pobres, proclamar seu direito a viver
dignamente, mesmo quando a lei positiva não reconhece esse direito. Nisso,
Jesus é exemplo.
E aqui podemos lembrar, entre
muitíssimos outros, o testemunho de Santa Rosa de Lima, a primeira santa das
Américas, cuja memória celebramos no dia 23 de agosto. Segundo o Catecismo da
Igreja Católica (n° 2449), ela acolhia e atendia em sua casa os pobres e
enfermos de Lima, o que provocou a advertência de sua mãe. E Rosa respondeu: “Quando servimos os pobres e os enfermos,
servimos a Jesus. Não podemos nos cansar de ajudar o nosso próximo, pois nele
servimos o próprio Jesus.”
“Virão muitos do oriente e do ocidente, do norte e do
sul...”
A Igreja é a congregação de todos os
homens e mulheres apaixonados pelo sonho de uma humanidade redenta e liberta. Os
membros do povo de Deus – esta imensa caravana de homens e mulheres salvos e
humanamente maduros – não trazem necessariamente este título estampado no rosto
ou nos documentos. No caminho da salvação não funcionam as recomendações, os
privilégios acumulados, os ‘estados de vida’. A salvação de Deus não conhece
fronteiras políticas, religiosas ou culturais.
Respondendo à pergunta sobre o
número dos que se salvam, Jesus diz que “virão muitos do oriente e do ocidente,
do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa do Reino de Deus”. Em outras palavras:
alguns daqueles que as religiões e instituições descartam ou colocam em último
lugar, aos olhos de Deus são os mais importantes e ocupam os primeiros lugares.
Todos os homens e mulheres são chamados à
salvação e, de um modo que só o Espírito de Deus sabe, participam do mistério
pascal de Jesus Cristo.
“Há últimos que serão primeiros e primeiros que serão
últimos.”
Será que os leigos e leigas,
frequentemente considerados uma maioria desprezível e sem função relevante na
Igreja, não são os mais importantes do ponto de vista do Reino de Deus? Será
que, imersos/as no mundo sem renunciar ao fermento do Evangelho, eles/as não
revelam uma liberdade mais consequente e uma maturidade humana mais que
surpreendente? Eles/as recordam, mais com a vida que com discursos, que a
encarnação no mundo é uma dimensão irrenunciável da vida cristã.
Jesus de Nazaré, porta aberta pela qual passamos da escravidão à
liberdade, do estreito mundo do nosso eu ao fraterno e solidário mundo do
Outro: ajuda-nos a reconhecer que a vocação e a missão dos leigos e leigas é
essencial. São eles/as que abrem a complexa realidade social à solidariedade e
à justiça e testemunham e anunciam com a vida um outro mundo possível. Que
sejam sempre mais numerosos os leigos e leigas que, passando por ti, a exigente
porta do discipulado missionário, deixam na praia o barco da comodidade e dos
privilégios e se lançam heroicamente noutros mares. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf