Na Eucaristia, Jesus
ensina a lição do servo
1038 | Quaresma | Semana
Santa | Quinta | João 13,1-15
Com o lava-pés iniciamos a segunda
parte do evangelho de João, que põe em cena a paixão, morte e ressurreição de
Jesus. Este mistério é introduzido pela última ceia, e a narração se estende
por cinco capítulos, recheados de diálogos entre Jesus e seus discípulos sobre
questões absolutamente centrais na vida cristã.
Aproxima-se a festa da páscoa, e Jesus
sabe que a sua hora chegou. Então, se
reúne com seus discípulos numa refeição cálida e amistosa que, no costume judaico,
precede a ceia pascal. Jesus tem plena consciência daquilo que está para
acontecer. Ele não é um profeta ou um mestre surpreendido por acontecimentos
inesperados, mas caminha soberano, consciente e livre para a entrega da própria
vida.
Um novo personagem entra em cena e
atua em Judas: o diabo. Então o amor de Jesus pela humanidade se torna duro e
exigente combate. É neste momento que Jesus se despoja do manto da divindade e
se reveste do linho da humanidade para conduzi-la e mantê-la na sua
amizade. O despojamento que se
manifestou na encarnação em Belém e em Nazaré se radicaliza na ceia e na cruz
em Jerusalém.
Abaixando-se para lavar os pés dos
discípulos, Jesus antecipa o movimento da paixão e morte, sua descida “aos
infernos”. De certo modo, ele repete o gesto de acolhida que Maria de Betânia
havia feito a ele. Jesus se despoja da sua condição divina para nos acolher, e
retoma à sua gloria na manhã da ressurreição.
Lavar os pés era um ofício degradante,
um trabalho reservado aos escravos pagãos. Jesus lava nossos pés para que
participemos da sua vida e missão de servo. Assim, entende-se a resistência
insistente de Pedro, que quer manter as coisas na “ordem” de sempre. Mas,
diante da insistência de Jesus, Pedro consente, inclusive pedindo com excesso.
Mas o faz por obediência a um chefe, não por consciência.
Jesus não quer
simplesmente demonstrar humildade. O que ele faz é rejeitar de forma
contundente toda forma de superioridade e hierarquia que não valorize a
dignidade de cada pessoa e perpetua a desigualdade. O amor e o serviço
fraterno, especialmente aos mais vulneráveis, é o ensaio da vida cristã, a
“prova dos nove” do amor a Deus. Reivindicar superioridades equivale a
colocar-se acima de Deus.
Sugestões para a
meditação
Acompanhe o gesto de Jesus, permita
que ele lave seus pés, e, principalmente, entenda o que ele quer transmitir com
isso
Por que Pedro resiste ao gesto de
Jesus? Será que ele não quer defender sua própria superioridade e seu futuro
lugar na hierarquia?
Por que nos custa tanto reconhecer a
dignidade e os direitos humanos, a absoluta igualdade de todos os seres
humanos?