quinta-feira, 7 de junho de 2012

10° Domingo do Tempo Comum


Pertence à família de Jesus quem faz a vontade de Deus.
(Gen 3,9-15; Sl 129/130; 2Cor 4,13-5,1; Mc 3,20-35)

Depois de quase três meses marcados por liturgias muito especiais, dinamizadas pelo espírito da quaresma e da páscoa, voltamos ao tempo comum, ao belo e exigente desafio da vida cotidiana. E a Igreja propõe que retomemos a escuta do Evangelho de Marcos mais ou menos no ponto em que o deixamos no 7° domingo comum (19 de fevereiro). Abramos a mente e o coração ao ensinamento de Jesus, mesmo que inicialmente nos choque e escandalize. Jesus não tem prazer em colocar pedras na estrada do nosso amadurecimento na fé, mas quer ajudar a perceber as lutas que este percurso exige e as amarras que precisamos desfazer, inclusive aquelas inconscientes ou que assumem a aparência de piedade. O caminho da libertação está longe de ser um passeio de fim-de-semana, e pede que tenhamos a coragem de repensar criticamente a própria imagem de família que elaboramos.
“Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi de comer?”
A narrativa do livro do Gênesis e o Salmo 129(130) que antecedem e preparam a escuta do evangelho podem confundir ou desviar nossa atenção do núcleo da Boa Nova proclamada neste domingo. Efetivamente, o capítulo 3 do livro do Gênesis é um dos mais teologizados do primeiro testamento, e é muito difícil ver nele outra coisa senão o mito do pecado original e originante de todos os demais pecados. E, com ele, a imagem de um Deus inimigo da nossa liberdade, irado e castigador.
Por sua vez, os versos do Salmo 129, recitados como meditação, em que pese o tom agradecido do refrão e a convicção de que em Deus encontramos misericórdia e perdão, enfatiza o profundo pesar e o sentimento de culpa que marca nossa condição humana. Juntos, estes dois textos da verdadeira Palavra de Deus correm o risco de focalizar nossa atenção nos pecados que Deus perdoa e no pecado imperdoável ao qual Jesus se refere de passagem no evangelho de hoje.
“Ele tem um espírito impuro!”
Mesmo se partirmos da leitura do texto do Evangelho, o atual inesperado ressurgimento das práticas de exorcismo, acompanhadas de um indisfarçável desejo de amedrontar e dominar, podem nos levar a pensar que o núcleo temático seja o combate ao diabo. Na verdade, o que temos na narração de Marcos é a radicalização e a explicitação do conflito entre a prática libertária de Jesus e o fechamento ideológico das elites religiosas, agarradas à defesa do seu poder de domínio.
Curando um paralítico e declarando-o sem culpa diante de Deus, calando e expulsando o expírito que fazia calar um doente, purificando um leproso e enviando-o aos sacerdotes, curando os doentes que se aproximavam, Jesus havia desmascarado a escravidão mantida pela ideologia do templo. Vendo que uma grande multidão aderia a Jesus, os escribas contra-atacam e tentam neutralizar sua ação desestabilizadora, identificando-o com o protótipo dos inimigos do ser humano, o diabo.
Precisamos distinguir entre a realidade e a linguagem. A linguagem usada nessa passagem é apocalíptica, mas a realidade é um conflito político e social. Como os escribas e doutores da lei se apresentam como representantes de Deus, vêem um espírito diabólico em quem os desmascara. Jesus entra neste jogo de linguagem e fala do reino de satanás como a acentuação simbólica das experiências negativas da sociedade judaica. Jesus se defende atacando com as próprias armas dos adversários!
“Quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado!”
Este trecho do Evangelho mostra Jesus cara-a-cara com seus adversários mais renhidos, numa luta de mitos, ou melhor, num confronto de interpretações sobre os dramas e aspirações humanas: Jesus e os pobres libertados interpretam sua ação como obra libertadora e regeneradora de Deus; os escribas e doutores da lei vêm nela a ruína da ordem estabelcida e o espírito diabólico. Não é por menos: com seu perdão indiscriminado Jesus cancelava os débitos do povo e, com isso, diminuía os lucros do templo.
É interessante perceber que Jesus entra no jogo linguístico dos seus opositores para “puxar o tapete” e mostrar a contradição em que estão atolados. Ironicamente, Jesus diz que se agisse mesmo em nome do diabo, o reino de satanás estaria dividido e fadado à ruína. Seguindo nessa linguagem, Jesus compara sua missão com a ação de um criminoso:  um ladrão que queira roubar a casa de uma pessoa forte deve ser capaz de amarrá-la, deve ser mais poderoso que ela. Jesus é mais forte que a ideologia do templo!
Mas o clímax da disputa vem a seguir. Jesus afirma que os verdadeiros pecadores, aqueles que estão irremediavelmente condenados, são os próprios escribas e doutores da lei, o grupo que controla e dificulta o perdão aos pobres e doentes, a elite que desqualifica a ação divinamente libertadora de Jesus acusando-a de diabólica. Esse grupo é réu de um pecado eterno, está coberto de impureza e envolvido numa cegueira que não permite que veja um palmo à frente do nariz.
“Quando seus familiares souberam disso, vieram para detê-lo...”
O confronto que acabamos de comentar está no miolo da narrativa e vem inserido num quadro de discussão sobre os limites e possibilidades das relações familiares. Os familiares de Jesus haviam tomado conhecimento daquilo que ele fazia e dizia, sentiam-se importunados pela multidão que invadia sua casa até nas sagradas refeições e começaram a temer pela integridade de Jesus e pelo bom nome da família. Eles têm a nítida impressão de que Jesus enloqueceu, e decidem pôr um fim nisso tudo.
O movimento dos familiares de Jesus é interrompido pela discussão com os escribas, mas é retomada em seguida. A mãe e os irmãos sequer ousam ultrapassar o círculo dos discípulos e chegar perto de Jesus: mandam chamá-lo. Eles parecem compartilhar da visão dos escribas, e tentam fazer Jesus interromper ou desistir da sua missão. Mas o distanciamento é mútuo: a família não aceita a vocação de Jesus, e ele não a reconhece como sua família. A ruptura parece radical e total.
Aqui Jesus dá mais um passo na superação do sistema de opressão que impede a vida e a liberdade do povo. A família patriarcal, centrada na figura masculina e nos laços de sangue, era um dos eixos da sociedade antiga, um dos anéis da corrente da dominação. Ela determinava a identidade e a personalidade, controlava a vocação e facilitava a socialização. Mas era também a célula de reprodução de uma sociedade excludente e intolerante. Por isso, precisava ser criticada e superada.
“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”
Jesus não se detém na crítica destruidora das instituições, dos modelos de relacionamento. Ao culto no templo ele antepõe a solidariedade com os que sofrem. Coloca Deus no lugar da autoridade patriarcal. Substitui a estreiteza dos laços de sangue pelos vínculos que brotam da condição humana compartilhada. Propõe uma nova família, caracterizada pela prática da vontade de Deus – que é sempre uma vontade de vida abundante para todos! – e não pela submissão a um chefe qualquer.
A célula humana fundamental, aquela que traça a linha que define nossa identidade, desenvolve nossa vocação e viabiliza nossa sociealização, é a comunidade dos discípulos e discípulas, uma comunidade de iguais ordenada à construção do Reino de Deus, ou seja, ao resgate do bem viver e conviver aberto a todas as criaturas. Do ponto de vista do Evangelho de Jesus, todas as demais instituições e autoridades são transitórias e relativas. Só Deus e o seu Reino são critérios absolutos.
Isso nos leva a recordar o Encontro Mundial das Famílias, realizado em Milão (Itália), no último fim-de-semana. Uma das mensagens mais repetidas foi que o mundo é uma grande família e a família é um pequeno mundo. Sim, mas com todas as contradições inerentes ao mundo. A família é, muitas vezes, o ecossistema no qual as células da indeferença e da exclusão encontram ambiente favorável para se multiplicar. Do ponto de vista do Evangelho, a família não é tudo. Ela deve se rever e refazer em Deus.
“Minha alma aguarda o Senhor mais que as sentinelas a aurora.”
A ti, Jesus de Nazaré, irmão de todos os homens e mulheres que se regeneram à luz do Reino, dirigimos nosso olhar e nossa prece. Fortalece nossa vontade, a fim de que tenhamos a coragem de romper com os laços que nos amarram a nós mesmos/as e aos sistemas que oprimem. Amplia o círculo da nossa comunhão, para que inclua todos/as, começando pelas vítimas da seca de nordeste, passando pelos que pagam o preço das crises econômicas da Europa e pelos povos ribeirinhos atingidos pela cheia do rio Amazonas, chegando a todas as criaturas ameaçadas por um código florestal criminoso e anacrônico. E faz com que nossas comunidades sejam família de homens e mulheres iguais. Assin seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

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