quinta-feira, 20 de agosto de 2015

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B – 23.08.2015)

Qual é a palavra que pode sustentar nossa fome de viver?

O Evangelho de Jesus é, desde sempre e literalmente, boa notícia. Por isso, onde é anunciado e ouvido, produz alegria, como bem insiste o papa Francisco. Mas também provoca crise, e não apenas hoje. Não é possível crer em Jesus e seguir seu caminho sem romper com uma cultura centrada na competição, na experteza, na indiferença e na dominação. Se não acontecer esta ruptura, a fé professada comn os lábios acaba sendo negada pelas atitudes. É como diz Jesus: “As palavras que vos falei são espírito e vida. Mas entre vós há alguns que não creem...”
O evangelho deste domingo é parte do sexto capítulo de João. Tudo começou com a partilha dos pães e dois peixes entregues a Jesus por um jovem e servidos à multidão. Entusiasmada com a abundância de alimento, a multidão quis transformar Jesus em rei, mas ele fugiu de fininho. Diante desta recusa de Jesus, os discípulos ficaram desorientados e pensaram em fugir. Mas Jesus foi ao encontro deles no meio do mar agitado. E, depois disso, Jesus desenvolve uma longa catequese sobre o pão verdadeiro que alimenta de verdadeiramente e merece ser buscado.
Esta longa reflexão sobre o pão da vida não tem nada de inocente, espiritualista ou inofensivo, e os discípulos o entenderam  perfeitamente. Por isso, disseram a Jesus que seu modo de falar era duro demais e que era difícil continuar ouvindo seu ensino. A razão da crise dos discípulos é seguir alguém que não aceita ser rei; que pede para renunciar à ambição individual de estar à sua direita ou à sua esquerda; que propõe a entrega de si mesmo como caminho de realização; que indica a atitude de servo como a mais nobre e digna do ser humano...
Sedentos de triunfo e de sucesso, muitos discípulos, frustrados e rebelados, abandonam o discipulado. Mas Jesus provoca ainda mais os discípulos já escandalizados, enfatizando que é próprio do ser humano descer, que quem desce ou é rebaixado é visto por Deus como o mais nobre e perfeito. A partir disso, muitos discípulos voltam atrás, e não andam mais com Jesus. Eles um Enviado diferente, um Messias feito à medida da ideologia e dos interesses individuais e da própria classe. Sem receio de ficar só, Jesus  enfrenta também os que permanecem: “Vocês também querem ir embora?”
A resposta a esta pergunta, que também é dirigida a nós, não pode ser da boca pra fora, da cabeça para cima; deve ser consciente, engajada e consequente. Pedro, em nome de um bom grupo de discípulos e de forma um pouco resignada, responde com uma pergunta: “A quem iremos, Senhor?” A resposta não vem da boca de Jesus, mas de um discernimento que nós mesmos devemos fazer. De minha parte, como Pedro, fico com Jesus Cristo e sua humanidade, com o Evangelho e sua liberdade, com o serviço aos irmãos e à sua dignidade. Não me reconheceria nem conseguiria viver fora desse horizonte...
Jesus é a Palavra de Deus feita carne solidária, e suas palavras são portadoras de vida. Pedro entendeu bem: “Tu tens palavras de vida eterna.”  Ela sabia muito bem que, diante de Jesus, todos se descobrem pessoas dignas e capazes, conduzidas a uma liberdade sempre mais plena e exigente, portadoras de uma vida cada vez mais plenificada, peregrinas de um caminho que liberta porque jamais termina. Mas continua não sendo possível ser cristão e, ao mesmo tenpo, permanecer dentro das premissas da cultura individualista. Não podemos cair na tentação, sempre presente e forte, de adocicar e amenizar a mensagem de Jesus Cristo, subemetendo-a ao nosso desejo de prosperidade e grandeza...
Crer em Jesus significa experimentar uma liberdade radical, capaz de promover a liberdade de quem convive conosco. Só quem foi libertado de tudo está em condições de servir. “Sejam submissos uns aos outros no amor de Cristo”, pede Paulo aos esposos e a todos os cristãos. Sub-missio, missão subalterna, significa estar à disposição do outro. É isso que nos leva a assumir o fardo do outro, a ser sub-stituto, a suportá-lo nas penas e sofrimentos, nos sonhos e buscas. Paulo aplica isso à relação entre marido e mulher, mas a reciprocidade no amor e no serviço se aplica a todas as relações. Eis a novidade cristã!
Jesus amado, profeta temido por tua intrepidez, pão que alimenta nossa fome mais profunda, Palavra que nos mantém no belo e difícil caminho da vida! Ensina-nos a encontrar a simplicidade profunda do teu Evangelho e a vivê-lo com inocente e desarmada alegria. Ajuda-nos a viver a submissão e o serviço recíprocos e fazer disso uma pequena mas persistente diferença. Ilumina e fortalece nossos catequistas: que eles experimentem gozosamente a glória de descer ao encontro dos mais pobres, para ser tua Boa Notícia para eles, e conduzam ao teu encontro as pessoas a eles confiadas. Assim seja! Amém!

Itacir Brassiani msf
(Livro de Josué 24,1-2.15-18 * Salmo 33 (34) * Carta aos Efésios 5,21-32 * Evangelho de São João 6,60-69)

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