O amor fraterno é a
meta e o método da missão.
(At 14,21-27; Sl 144/145; Ap 21,1-5; Jo
13,31-35)
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No crepúsculo da vida seremos
julgados pelo amor que tivermos vivido concretamente. Mas no alvorecer e no
meio-dia da nossa existência, o verbo amar há de ser conjugado em todos os
tempos e modos, inclusive no imperativo, mas especialmente no presente e no
gerúndio. O testamento que Jesus nos deixa na Ceia e o testemunho corajoso das
primeiras comunidades cristãs, nascidas da experiência da presença de Jesus ressuscitado e do amor espiritual, humano e político dos apóstolos, estão aí
para que não esqueçamos disso. O amor aos irmãos e irmãs da comunidade e o amor
da comunidade a todos os seres humanos e à criação inteira é a utopia que nos orienta e, ao mesmo
tempo, o caminho que nos conduz a
ela. Mas antes de ser substantivo e adjetivo, o amor é verbo, é ação e relação.
“Então vi um novo céu e uma nova terra.”
A meta que dá sentido à nossa vida e
missão no mundo é o Reino de Deus. Os
cristãos não podemos passar pelo mundo caminhando na ponta dos pés, como se
tivéssemos medo de tocar nele ou de nos
contaminar. Também não podemos voltar o olhar a uma ilusória interioridade,
como se não tivéssemos outra tarefa que a de salvar a própria alma. Não foi
isso que Jesus Cristo fez, e não foi nisso que seus melhores discípulos e discípulas
fizeram ao longo dos vinte séculos de história do cristianismo.
E nem mesmo as dificuldades – muitas
e reais! – que enfrentamos um pouco em todas as latitudes podem nos levar a
desistir da grande Utopia que nos faz caminhar. O terremoto da perseguição que
se abatia sobre os cristãos no final no primeiro século não impediu que João
visualizasse um novo céu e uma nova terra:
uma cidade-sociedade santa, bela como noiva
enfeitada para o casamento; a tenda
da morada definitiva de Deus no coração da humanidade, que vem para enxugar
nossas lágrimas.
Os cristãos precisamos pôr nossa
inteligência em funcionamento para dar a esta imagem poética contornos e traços
históricos e atuais: um mundo sem barreiras para os migrantes e no qual haja
lugar para todos os seres humanos; um sistema econômico que respeite e preserve
a criação; uma cultura amante da humanidade, da criatividade, da liberdade e da
beleza; uma Igreja viva e regida pela igualdade, pela liberdade e pela
comunhão; uma sociedade pautada pela justiça e pela igualdade...
“Exortaram-nos a permanecerem firmes na fé.”
A memória dos mártires de ontem e de
hoje nos avisa que a tentativa de transformar o sonho em realidade pode trazer
dificuldades. Depois de terem curado um paralítico e renegado qualquer mérito,
Paulo e Barnabé são denunciados e perseguidos. Paulo éarrastado para fora da
cidade de Listra e apedrejado, ficando quase morto. Mas isso não pode, de modo
nenhum, desencorajar quem é chamado/a a ser discípulo/a e missionário/a de
Jesus Cristo.
Infelizmente a peseguição não é
coisa de um passado remoto. Do Iraque a El Salvador, da India ao Brasil,
passando pela Nigéria, desempenhar a missão encarnando o amor e exigindo
justiça no mundo concreto incomoda e se torna perigoso. Mas Paulo nos ensina
que, mesmo perseguidos e ameaçados, precisamos continuar a luta, encorajando os
discípulos e discípulas a permanecerem firmes na fé, partilhando com as
comunidades os frutos da missão, organizando as comunidades e dotando-as de
boas lideranças.
“Agora foi glorificado o Filho do Homem e Deus foi glorificado
nele.”
Continua sendo verdade que o
objetivo último da missão é glorificar a Deus. Mas precisamos entender bem em
que consiste esta glória de Deus. No
diálogo que tem com os discípulos ainda na mesa da Ceia, depois do Lava-pés e
antes da traição e da paixão, Jesus diz que Deus
é glorificado no amor incondicional à pessoa humana concreta. Deus é
glorificado quando o Filho do Homem – todos os filhos e filhas da humanidade! –
lavam os pés uns dos outros e dão a própria vida para que todos tenham vida.
Neste mesmo clima de lembrança do
essencial deixado como testamento, demonstrando plena consciência do desfecho
da própria vida e pensando no martírio que coroaria o amor intenso que marcou
toda sua vida, Jesus declara que Deus o
glorificará sem demora. Para ele, a cruz não é absurdo e ignomínia, mas a
radicalização da solidariedade de Deus com a humanidade e a suprema doação de
um ser humano a Deus. Por isso, é glorificação de Deus e revelação do ser
humano. É nesta mesma linha que, um século mais tarde Santo Irineu afirmava que
a glória de Deus é a vida do ser humano.
“Esta é a
morada de Deus com os homens...”
Para o cristão, amar não é uma opção
condicionada, mas um imperativo absoluto.
E, a partir da morte e ressurreição de Jesus, a medida do amor não somos mais
nós mesmos. “Eu vos dou um novo mandamento. Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós
deveis amor-vos uns aos outros.” Mesmo sabendo que não estamos preparados para
um tal amor, Jesus faz questão de sublinhar que este seu mandamento é novo, e
que a medida que verifica o amor também é nova.
Em relação ao amor, Jesus é norma e caminho. No testamento que nos deixa, ele não pede nada para si,
nem mesmo para o Pai. Pede amor ao próximo. Deus é fonte de amor pessoal e
humano, é dom total de si que impulsiona em nós a capacidade de doação. Deus é
amor e lealdade, e o que ele espera de nós é um amor que corresponda a este
amor (cf. Jo 1,14-16). Amar é ser como ele se mostrou em Jesus Cristo:
desenvolver e ativar plenamente a atitude de solidariedade e de serviço.
Prosseguindo o diálogo amistoso e
mistagógico com seus discípulos, Jesus dirá: “Quem crê em mim fará as obras que
eu faço, e fará ainda maiores do que estas... Se alguém me ama, guardará a
minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,12.23). A comunidade dos
discípulos e discípulas que amam verdadeiramente se torna aquela morada de Deus
no mundo visualizada por João no seu Apocalipse. Este é o ponto de partida e o
ponto de chegada da missão.
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos.”
O amor que se doa sem medidas é o
dinamismo e a natureza comuns ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. E é também
o que realiza a nossa união com Deus. Sem
amor fraterno e amor que impulsiona à missão não há verdadeira fé na
ressurreição nem vida cristã autêntica. “Nisto conhecerão todos que sois
meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” Este é o critério absoluto de
reconhecimento dos cristãos. O amor ao
próximo e ao distante é o estatuto e a identidade da comunidade cristã.
Quem não ama, não conhece a vida e
não pode oferecê-la nem promovê-la. Da experiência do amor recebido de Deus em Jesus Cristo, nasce a
força e a exigência de amar com a mesma intensidade. E Jesus envia seu Espírito
para que o amor não seja apenas um imperativo absoluto, mas uma força que brota do mais profundo do
nosso ser, dinamiza nosso corpo e nossa inteligência e se torna realidade em múltiplas ações
concretas, em todas as esferas da vida.
O amor abre as pessoas e Igrejas aos
outros e suas necessidades: a lei que as rege deixa de ser a vantagem e o
interesse próprio e passa a ser a dignidade e a necessidade do outro; o que
vale não é conservar e prolongar a própria vida a qualquer custo, mas torná-la
semente capaz de multiplicar e dar sabor à vida dos outros. Por isso, o que
identifica o/a discípulo/a de Jesus é fundamentalmente o amor, e não a fidelidade
ao Papa, a ortodoxia doutrinal ou o cumprimento minucioso dos ritos prescritos.
“Eis que eu faço novas todas as coisas!”
Precisamos vencer a velha e piedosa
tentação de repetir e conservar os velhos hábitos e estruturas. O Cordeiro
sentado no trono diz claramente: “Eis que eu faço novas todas as coisas!” E
João vê um novo céu e uma nova terra. A vida cristã não é
repetição e conservação, mas criação, liberdade e invenção. Nossa missão não se
limita a anunciar que Jesus é o Filho de Deus, que ele foi morto e ressuscitou.
A evangelização não é discurso, mas ação que liberta e promove vida abundante.
Jesus de Nazaré, Cordeiro de Deus e missionário do Pai, expressão viva e
inequívoca do verbo amar. Lavando os pés dos discípulos, inclusive de Pedro e
de Judas, tu nos perguntas se entendemos o que estás fazendo. Na verdade, ainda
não entendemos tudo. Por isso nos aproximamos de novo da mesa da Palavra e do
Pão. Queremos contemplar teu gesto e aprender tua lição. E queremos vivê-la nos
caminhos do mundo e nos cenáculos da vida, fazendo-nos tudo para todos, vivendo
e testemunhando tua Boa Notícia que anima os pobres, levanta os caídos e abre
os olhos aos cegos. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf