quarta-feira, 18 de setembro de 2019

ANO C | TEMPO COMUM | VIGÉSIMO-QUINTO DOMINGO | 22.09.2019


A Palavra de Deus adverte os exploradores e opressores.
A parábola que Jesus nos apresenta no evangelho de hoje é muito complexa. Para entende-la, precisamos ter presente na memória as parábolas que lemos e meditamos no domingo passado São inesquecíveis as figuras do pastor que sai pressuroso ao encontro da ovelha que se perdeu e da mulher que varre atentamente a casa em busca da moeda extraviada. E como esquecer a figura daquele pai que esbanja atenção, dinheiro e compaixão na festa de acolhida do filho que chegara a disputar comida com os porcos?
A parábola de hoje coloca em evidência um protagonista muito diferente: um administrador acusado de esbanjar os bens que não lhe pertencem e que, por isso, está ameaçado de demissão. Ciente de que não está preparado para assumir outro trabalho e recusando-se a pedir esmolas, o administrador esbanjador age com esperteza e rapidez: altera, em favor dos devedores, o montante de algumas contas, prejudicando mais ainda seu patrão! Faz isso movido pela esperança de que, no futuro, os devedores por ele beneficiados retribuam solidariamente e abundantemente seu gesto de bondade.
O que surpreende e desconcerta é que a esperteza desonesta do administrador seja explicitamente elogiada pelo patrão (e pelo próprio Jesus). Há quem explique o elogio a esta estratégia aparentemente imoral levantando a hipótese de que o desconto de 50 e 20% dado pelo administrador corresponderia aos juros iníquos cobrados pelo credor ou à comissão à qual o administrador teria direito. Mas será que Jesus não está propondo outra mensagem, semelhante àquela do pai que gasta sem critérios para acolher e restabelecer a dignidade do filho que havia descido involuntariamente ao degrau mais baixo do inferno social?
A questão fundamental que Jesus apresenta com esta parábola poderia ser formulada da seguinte maneira: Como usar de forma evangelicamente correta os bens, as honras e o prestígio que temos como cristãos e como Igreja? A palavra corajosa de Amós traz à luz do dia as práticas de acúmulo que os ricos de todos os tempos tentam esconder nas sombras da noite ou nas franjas da hipocrisia mais deslavada. Mas Jesus também deixa claro que somos apenas administradores de bens que não nos pertencem e que, frente ao bem maior do Reino de Deus, o dinheiro é coisa de pouco valor e radicalmente injusta.
O administrador aparentemente desonesto é elogiado porque evita ser amigo do dinheiro (como o eram os fariseus) e se mostra amigo das pessoas, não das que contabilizam créditos, mas daquelas que são devedoras insolventes. Com ele, nós aprendemos que o dinheiro e demais bens que passam pelas nossas mãos, bolsas e contas não nos pertencem e precisa ser usados corretamente: para construir solidariedade, para beneficiar a pessoa humana (todas as pessoas, insiste Paulo), começando pelas mais necessitadas. É isso é exatamente o oposto do que fazem os comerciantes e políticos denunciados pelo profeta Amós!
Aquilo que, à primeira vista, parece esbanjamento e desonestidade é, na verdade, sabedoria evangélica! Precisamos assumir nossas responsabilidades no mundo da economia – produção, administração, distribuição e consumo de bens – com critérios evangélicos. E o critério fundamental é este: ou os bens estão a serviço de uma convivência social sadia e solidária, ou não servem pra nada! E desviar para os bens econômicos o amor e o afeto que devemos às pessoas é uma loucura que compromete nossa felicidade pessoal e destrói os laços sociais. Só o uso solidário pode lavar o dinheiro sujo!
O próprio Jesus veio ao mundo como herdeiro e administrador das coisas do Pai, e não fez outra coisa que diminuir e cancelar os débitos das pessoas e grupos que os sistemas criminalizam. Ele esbanjou os bens do Pai, inclusive a própria vida, para fazer amigos entre os excluídos! Ele não teve receio de comprometer a honra, o nome e a própria ortodoxia para fazer amigos. Mas, infelizmente, muitas Igrejas ainda dão a impressão de existem unicamente para aumentar seus débitos ou cobrar comissão para renegociá-las... Em vez de fazer amigos e emancipar os oprimidos, engordam suas próprias contas bancárias.
Senhor, tua Palavra é caminho de sabedoria. Queremos guardá-la e pô-la em prática em todas as circunstâncias da nossa vida. Ensina-nos a contar adequadamente o tempo e avaliar corretamente o valor das coisas. Dá-nos a coragem de desmascarar os males que nos são propostos em belas e sedutoras embalagens. Confirma-nos no serviço a ti, único e supremo bem, e àqueles que são excluídos da mesa e recebem apenas as migalhas que sobram. Ajuda-nos a gastar tudo o que temos e somos para fazer amigos e irmãos, retirando os pobres do lixo e fazendo-os sentar entre os nobres do teu povo. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf

Profecia de Amós 8,4-7 | Salmo 112 (113)
Carta de Paulo A Timóteo 2,1-8 | Evangelho de São Lucas 16,1-13

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