sábado, 24 de maio de 2025

O desafio do ecumenismo

Conviver como irmãos, ou perecer como loucos

O pastor batista e ativista norte-americano negro Martin Luther King, assassinado em abril de 1968, disse: “Temos que aprender a viver juntos como irmãos, ou pereceremos juntos como loucos”. Ele se referia à necessidade de abrir caminhos de convivência entre negros e brancos, mas essa afirmação pode ser aplicada também à convivência, ao respeito e à colaboração entre as diversas denominações cristãs.

Precisamos tomar consciência de que as razões políticas, sociais, religiosas e psicológicas que provocaram a reforma protestante e a reação católica já se perderam no tempo e não fazem mais sentido hoje. Além disso, no dia 31 de outubro de 1999, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, um marco histórico na caminhada ecumênica.

Essa declaração é o ponto de chegada de uma longa caminhada iniciada em 1972, com o impulso dado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, e que contou com cinco encontros de alto nível, antecedidos por minuciosos e preciosos trabalhos de pesquisa levado adiante por conceituados teólogos e reconhecidos pastores de ambas as partes. O resultado é uma declaração que merece ser acolhida com júbilo e levada muito a sério.

Assim se expressam os signatários: “A compreensão da Doutrina da Justificação exposta nesta Declaração Conjunta mostra que entre católicos e luteranos existe um consenso em verdades básicas da doutrina da justificação. As diferenças são apenas de terminologia, de articulação teológica e na ênfase, mas são aceitáveis. Por isso as formas distintas pelas quais luteranos e católicos articulam a fé na justificação estão abertas uma para a outra e não anulam o consenso nas verdades básicas” (§ 40).

Para compreender o alcance da Declaração Conjunta é preciso não esquecer que as divergências em torno da doutrina sobre a justificação foram causa de diversas condenações recíprocas entre católicos e luteranos, desde o século XVI. Por isso, não se trata de um acordo em torno de um simples ponto doutrinal, mas de um conceito fundamental para orientar o conjunto da doutrina e da prática da Igreja para Cristo.

Assim, católicos e luteranos estão de acordo que a Justificação (realidade oferecida por Deus aos homens e também expressa como libertação da liberdade, reconciliação com Deus, paz com Deus, graça, nova criação, etc.) é obra do Deus Triúno; que todas as pessoas são chamadas por Deus para a salvação em Jesus Cristo; que devemos nossa vida nova unicamente à livre e gratuita misericórdia perdoadora e renovadora de Deus; que essa doutrina tem uma relação essencial com as demais verdades da fé (cf. § 14-18).

Para que nossa pregação e nosso testemunho sejam credíveis não é mais suficiente respeitar as demais igrejas. Isso é indispensável, mas é apenas o mínimo. Lideranças das Igrejas e fiéis, precisamos colocar em prática iniciativas de colaboração e abrir espaços de encontro, diálogo e convivência. Se não fizermos isso, talvez não morramos todos como loucos, mas estaremos passando um atestado da imaturidade da nossa fé e dando mais razões àqueles que preferem tomar distância das religiões.

Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul

sexta-feira, 23 de maio de 2025

O servo e o Senhor

Jesus não promete facilidades, mas garante sua companhia | 722 | 24.05.2025 | João 15,18-21

Depois da alegoria da videira e dos ramos, Jesus conclui a seção de catequese advertindo os discípulos sobre as consequências da adesão a ele e ao Reino de Deus: ao lado dos frutos e da alegria por fazer o bem a todos, ódio e perseguição. E não é a primeira vez que Jesus alerta seus discípulos sobre isso. Ele não quer enganar ninguém, e o que ele mesmo enfrenta não deixa dúvidas. Todos devem avaliar muito bem os riscos.

Aquilo que Jesus faz e ensina, mesmo sendo objetivamente bom para as pessoas mais penalizadas, é visto com suspeita e ódio pelo “mundo”, porque se opõe à sua lógica de dominação e exclusão, denunciando-a e enfrentando-a. A perseguição implacável dirigida contra ele não o afeta, e ele vive sereno e destemido, e jamais recua na sua missão de resgatar a vida das garras de um sistema social e religioso opressor e excludente.

No evangelho segundo João, “mundo” é a palavra usada para designar o sistema de dominação que odeia e maltrata o ser humano, especialmente os mais vulneráveis. Este sistema/mundo é radicalmente injusto e falso, e persegue quem o desmascara e enfrenta. Porque tanto Jesus como seus discípulos romperam com ele e suas imposições, são vigiados e tratados como suspeitos. Não romper com o “mundo” significa ser refém do pecado.

O alerta de Jesus aos que, em todos os tempos, se propõem a segui-lo é claro: “Se perseguiram a mim, perseguirão também a vós”. E os escravos do “príncipe deste mundo” agem assim porque não conhecem Deus, a quem, mentindo, dizem servir. Eles têm uma ideia falsa e escravizadora de Deus, servem a outro senhor.

O realismo de Jesus não é cínico, nem pessimista. Ele sabe que a semente que cai na terra e morre, não fica só. Há um “pequeno rebanho” que conhece sua voz, um broto que nasce de um toco seco, que guarda sua palavra e segue seus passos. Este punhado de gente também reconhecerá seus discípulos, acolherá a palavra e tornará o fértil o deserto do mundo.

 

Sugestões para meditar

§ Recorde no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste alerta de Jesus aos discípulos que ele ama e cuida

§ Procure recordar algumas entre as inúmeras cenas de ódio e violência contra Jesus, e busque a origem e a lógica desta reação

§ Será que há cristãos que pensam crer em Jesus e anunciar seu Evangelho sem romper com o sistema que oprime e domina?

§ Você acha que as pessoas que fazem isso conhecem de fato o Deus em quem dizem acreditar, ou falsificaram a imagem de Deus?

Jubileu dos Agentes Políticos

Nós e o Espírito Santo decidimos não lhes impor nenhum fardo...

 

O Papa São Paulo VI cunhou a expressão “civilização do amor”, que atualiza os conceitos “amizade” (Leão XIII) e “caridade social” (Pio XI). Desde o Papa João Paulo II, falamos em “solidariedade”, e com o já saudoso Papa Francisco, passamos a falar de “amizade social” ou “amor civil”.  Celebrando hoje o Jubileu dos Agentes Políticos, convido a escutar o Evangelho de Jesus Cristo nessa perspectiva.

Partindo da alegoria da videira e dos ramos, Jesus pede, e seu pedido tem força de testamento: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei... Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando... Isto eu que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”. Nada mais que isso! Nada menos que isso!

Acolhendo esse mandamento, como amigos autênticos e herdeiros de Jesus, os apóstolos enviaram Silas e Bársabas para, com Paulo e Barnabé para comunicar aos cristãos de origem pagã a decisão unânime de evitar discriminações e menosprezo, de não impor a eles nenhum fardo. Bastava-lhes o fardo das lutas para sobreviver dignamente no interior de um império violento e expropriador.

Esta decisão unânime é fruto de um processo de escuta atenta das bases e da periferia do cristianismo de então. É uma decisão ponderada, tomada de forma consensual. É uma bela demonstração de espírito sinodal, como diríamos hoje. E inaugura uma importante inovação da prática cristã: a liberdade frente às tradições do judaísmo, consideradas sagradas e imutáveis. A dignidade e as necessidades das pessoas concretas estão acima delas!

A decisão da comunidade apostólica é também uma clara demonstração da amizade com Jesus, da vivência do mandamento do amor fraterno em chave social. A propósito, a Igreja Católica ensina que o amor não inspira apenas a ação individual. Ele é também uma “força capaz de suscitar novas vias para enfrentar os problemas do mundo de hoje e para renovar profundamente desde o interior das estruturas, organizações sociais, ordenamentos jurídicos”. O amor se torna caridade social e política, um dinamismo que “nos leva a amar o bem comum e a buscar efetivamente o bem de todas as pessoas” (Compêndio da Doutrina Social, § 207).

Vale lembrar que a democracia, horizonte e valor inalienável de toda a ação política, não é em si mesma uma meta, mas um ordenamento ou instrumento a serviço dos valores que a orientam e lhe dão densidade. Uma autêntica democracia é o fruto da convicta aceitação dos valores que inspiram os procedimentos democráticosa dignidade da pessoa humana, o respeito dos direitos do homem, a busca do bem comum, que é o bem dos grupos humanos mais frágeis, devem ser o fim e o critério regulador de toda a vida política. Sem a referência a estes valores fundamentais, “as ideias e as convicções (inclusive o conceito de democracia) podem ser facilmente instrumentalizadas para fins de poder. Uma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado” (Idem, § 407).

E não esqueçamos, caros agentes políticos, que o sujeito da autoridade política é sempre o povo considerado na sua totalidade como detentor da soberania. De modos diferentes, o povo transfere o exercício da sua soberania àqueles que elege livremente como seus representantes, mas conserva a faculdade de a fazer valer no controle da atuação dos governantes (cf. Idem, § 395).

Para os cristãos de qualquer denominação, as expressões concretas do amor de Jesus servem de parâmetro também para o amor vivido em chave social: ele não se guiou pela busca de interesses e vantagens individuais; ele deu prioridade à necessidade dos últimos e marginalizados; o valor da pessoa humana concreta teve prioridade sobre as leis e tradições; ele desconheceu e desrespeitou as fronteiras políticas, étnicas e religiosas; sempre procurou evitar a violência verbal ou física, e chegou a perdoar seus algozes; respeitou a dissidência de Judas e até lavou os seus pés; preferiu dar a vida a abrir mãos de suas convicções; não impôs fardos pesados aos mais pobres; deu a vida para que todos tivessem acesso à vida plena e abundante, sem se apegar a privilégios e carreira. Ele é uma expressão madura de um amor social e político!

Santa Cruz do Sul, 23 de maio de 2025.


quinta-feira, 22 de maio de 2025

A amizade e a lei

Somos amigos de Jesus se fizermos o que ele nos manda | 721 | 23.05.2025 | João 15,12-17

Depois de propor a alegoria da videira e dos ramos, Jesus continua seu diálogo formativo com os discípulos, extraindo as consequências da metáfora da videira: como a circulação da seiva mantém a união vital entre a videira e os ramos, assim também o amor gratuito e generoso assegura a permanência do discípulo em Jesus e de Jesus nele.

Se, para o judeu daquele tempo, os mandamentos eram muitos e pesados (os escribas e doutores da lei haviam colecionado mais de 600 mandamentos que deveriam ser obedecidos!), Jesus não fica nem nos dez, e reduz tudo a um único mandamento: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Este é o mandamento que resume toda a lei, a herança deixada por Jesus em testamento e o distintivo da comunidade cristã.

O verbo amar é mais que mera expressão de um vago sentimento de bem-querer ou uma inofensiva filantropia: é uma relação interativa baseada na confiança e focalizada na afirmação da dignidade e no atendimento das necessidades do outro. Também não tem como movente o cumprimento de uma ordem, mas um desejo profundo e intrínseco de dar-se, de ser generoso, de buscar a felicidade fazendo feliz o outro.

Jesus propõe a si mesmo como medida do amor: ele começa nos escolhendo e nos chamando pelo nome, passa a dedicar-se à nossa formação, prepara-nos para as dificuldades, alerta-nos em relação aos riscos, e acompanha-nos “primeireando” no caminho que conduz à felicidade verdadeira e duradoura. Em síntese: é nosso amigo, e vive conosco a comunhão no amor.

Na ceia e no lava-pés, Jesus deixou claro que não aceita a relação senhor-servo, e estabeleceu a igualdade ética de todas as pessoas, para além das funções e diferenças. Por isso, ele volta a declarar que nos trata como a amigos, e o vértice da relação de amizade é o dom de si mesmo. Mas o faz “de olho” na continuidade da sua missão, com o desejo de que, vivendo uma relação de amizade, seus discípulos deem frutos que permaneçam.

 

Sugestões para meditar

§ Recorde no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste “discurso catequético” de Jesus

§ Medite as diversas passagens da vida de Jesus e procure identificar as expressões mais concretas e fortes do seu amor pelos discípulos

§ Em relação a Jesus, você sente-se mais como servo (que obedece mesmo contra a vontade e a razão, por medo) ou como amigo, que se relaciona com base na confiança e na estima recíproca?

§ Quais são os frutos mais duradouros da prática do amor na sua família, na sua comunidade e no lugar onde você vive?

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Guardar o mandamento

Jesus nos ensina para que a nossa alegria seja plena | 720 | 22.05.2025 | João 15,9-11

Depois da alegoria da videira e dos ramos, Jesus continua desenvolvendo sua catequese aos discípulos, extraindo as consequências da imagem que usou: como o Pai me amou, eu também amei vocês; eu permaneci no amor do Pai levando a sério seus mandamentos; vocês permanecerão no meu amor se guardarem meu mandamento.

Eis como Jesus concretizou o amor: acolheu pecadores e resgatou a dignidade deles; compadeceu-se dos famintos e multiplicou pães e peixes para eles; comoveu-se com o sofrimento dos doentes e deu-lhes condições de plena cidadania; aproximou-se das pessoas excluídas e sentou-se com elas à mesa; tomou a defesa de mulheres condenadas pelos próprios homens que as usavam; perdoou e acolheu os pecadores e estrangeiros...

Jesus diz que nos ama na mesma dinâmica e com a mesma intensidade com que é amado pelo seu e nosso Pai. E é nessa força e nesse espírito que somos chamados e capacitados para amar. O amor de Deus, que se tornou visível em Jesus Cristo, se torna, em nós, dom e mandamento. “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês”. Ele não pede que nosso amor se dirija a ele, mas aos semelhantes.

Mas o amor não se confunde com um simples sentimento, sempre involuntário, e se impõe sobre a vontade. É uma decisão. O amor está no horizonte da vontade e da ação que nos faz próximos e solidários de quem é diferente e precisa de nós. Amar implica em bem-querer, bem-dizer e bem-fazer, tudo ao mesmo tempo. Amamos por palavras e por ações.

Jesus apresenta a si mesmo como medida e referência do amor: “Amem-se uns aos outros assim como eu amei vocês”. Com isso, ele quer nos libertar da tentação de colocar nossos desejos como referência para todas as relações. O amor se concretiza no relacionamento de igual para igual, na abolição das hierarquias, senhorios e servidões, no serviço gratuito e irrestrito. O próprio Jesus não nos trata como servos, mas como iguais.

 

Sugestões para meditar

§ Recorde no coração e deixe ressoar cada expressão ou palavra deste breve discurso de Jesus

§ Medite as diversas passagens da vida de Jesus e procure identificar quando e como Deus manifesta seu amor por Jesus

§ O que fazemos para permanecer no amor de Jesus, e para que ele permaneça em nós?

§ Quando e como experimentamos aquela alegria que não se opõe ao cansaço e à dor, mas realiza aquilo que somos chamados a ser?

terça-feira, 20 de maio de 2025

A videira e os ramos

Glorificamos a Deus seguindo Jesus e produzindo frutos | 719 | 21.05.2025 | João 15,1-8

Jesus se compara a uma verdadeira videira. Esta videira se contrapõe e toma o lugar de uma outra videira potencialmente falsa. E a videira não-verdadeira é Israel, no seu significado de unidade política e religiosa, fechado em si mesmo, explorador dos pobres e a serviço dos privilegiados.

A relação de Jesus com os discípulos é de recíproca dependência: a cepa só pode frutificar através dos ramos, e os ramos só produzem frutos se permanecem ligados à cepa. “Fiquem unidos a mim e eu ficarei unido a vocês... Porque sem mim vocês não podem fazer nada”. Jesus conta com as nossas ações para continuar amando e servindo.

Assim como os ramos nada produzem sem a seiva que lhes vem gratuitamente da cepa, também os discípulos de Jesus pouco conseguem fazer se não permanecerem ligados a ele. É uma união de atitudes fundamentais, uma identificação com seu dinamismo de amor. É na força dessa união que serão promotores da Justiça e da paz.

Para que produza frutos bons e abundantes, o vínculo dos discípulos com Jesus, como a inserção do ramo na cepa, não pode ser um dado estático, mas um processo ativo e vivo que conhece exigências e requer decisões, um dinamismo de permanente limpeza e poda. “Os ramos que dão fruto, o Pai os poda, para que deem mais frutos ainda”, diz Jesus.

Na videira, a prática da poda tem como objetivo eliminar os fatores de debilitação e de morte e, ao mesmo tempo, direcionar as energias para que resultem em bons e abundantes frutos. Para o discípulo, o seguimento de Jesus na ceia, no lava-pés e na cruz que leva à ressurreição é um caminho de inserção numa comunidade e de conversão do ‘eu’ para o ‘nós’.

Permanecer unido Jesus Cristo não significa apenas frequentar o culto ou a missa. É muito mais que isso, e se mostra num modo de viver e se relacionar. Por isso, Jesus insiste que precisamos manter e aprofundar nossa adesão ao seu projeto, ao seu caminho: fazer-se próximo, não perder a vida correndo atrás de ambições vazias, entregá-la a serviço dos outros.

 

Sugestões para meditar

§ Recomponha na memória a bela e sugestiva alegoria, dando asas à imaginação para entender seu alcance

§ Qual é o significado e as implicações de permanecer unido a Jesus como o ramo não pode separar-se da cepa?

§ Qual é o sentido e as implicações da “poda” na videira e na vida dos discípulos e discípulas de Jesus que já produzem bons frutos?

§ E quais são as implicações do fato de que a cepa (Jesus) produz frutos unicamente nos ramos (os cristãos)?

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Ele vai e fica

Jesus nos dá a paz que supera a perturbação e o medo | 718 | 20.05.2025 | João 14,27-31

Estes breves versículos são densos. Eles são a conclusão da primeira parte do diálogo de Jesus com os discípulos, após a ceia. Jesus vê estampado nos olhos deles o medo e a perturbação e, mesmo assim, não os poupa da verdade: ele deve ir, deve partir, ausentar-se brevemente. Mas o faz para voltar mais tarde, e voltar plenamente. Por isso, deixa-lhes a paz, e quer que vivam alegres e confiantes, como discípulos maduros.

“Paz” é a palavra de despedida da comunidade judaica. Utilizando esta saudação, Jesus sublinha que não a faz como todo mundo costuma fazer. É sua saudação pessoal, que não é um adeus, mas um “até breve” ou “até logo”, com reforço no advérbio de tempo. Ele não se despede, porque ele vai para voltar, ele vai e fica, ele vai ficando. Esta sua ida é indispensável, porque nela ele tornará concreto o amor de Deus pela humanidade.

Jesus diz que não poderá falar muito porque sua partida é iminente e o tempo é breve. Na verdade, será preso naquela mesma noite. Por isso, fala da aproximação do “chefe deste mundo”, que personifica as forças e estruturas que oprimem e dominam, inclusive aquelas que agem em nome da religião. Mas Jesus deixa claro que este chefe não tem força de mando ou poder de intimidação sobre ele: quem tem a Palavra é o Pai.

Jesus decide trilhar o caminho da paixão e morte não porque “o chefe deste mundo” tem poder sobre ele, mas porque assim cumprirá a vontade do Pai, que o quer radicalmente compassivo e solidário com as vítimas de todos os tempos, sinal concreto do imenso, generoso e eterno amor do Pai. Isso não deixará dúvidas sobre a autenticidade da sua mensagem e da sua identificação com o querer e o agir do Pai em benefício da humanidade.

Jesus prefere entregar sua vida para ao invés de ceder à lógica do mundo, e, assim, o vence. Por isso, é bom que ele vá ao Pai, passando pela cruz. Sua acolhida nos braços daquele que “é maior” é a confirmação de que ele, humano que é, vem do Pai, fala o que ouviu do Pai e faz aquilo que vê o Pai fazer. E convida os discípulos a levantar e seguir com ele.

 

Sugestões para meditar

§ Coloque-se mentalmente junto aos discípulos, perturbados com o anúncio da sua morte e com a previsão de que seria traído

§ Acolha as palavras de despedida de Jesus, a afirmação de que vai para voltar, que vai ficando, o seu “até breve!”

§ Tome consciência dos medos, fragilidades e carências que perturbam você, sua família e sua comunidade

§ Procure experimentar a alegria que nos vem da certeza de que é bom para nós que Jesus volte ao Pai, que o enviou e sempre o envia

domingo, 18 de maio de 2025

A manifestação de Jesus

O Espírito Santo suscita ações que continuam as de Jesus | 717 | 19.05.2025 | João 14,21- 26

Saltando alguns versículos que prosseguem o trecho meditado no último sábado, os quais apresentam a promessa de Jesus de enviar aos seus discípulos um “outro Advogado”, o “Espírito da Verdade”, o trecho de hoje afirma a presença de Deus nas relações fraternas e solidárias dos seus discípulos e discípulas. Não somos apenas nós que podemos morar na casa de Deus; ele mesmo pode estabelecer em nós sua morada.

Esta é a primeira vez que Jesus fala do amor dos discípulos a ele. Até então ele falara apenas da necessidade de amar os irmãos e irmãs, e de estar disponível às necessidades do povo. Assim, crer em Jesus significa aderir amorosamente a ele, comportar-se como ele, compartilhar seus sonhos, seus pensamentos e suas atitudes. Mas o amor a ele se encarna e se mostra necessariamente no amor aos irmãos e irmãs, um amor que não é mero sentimento. Ajudar os outros é a única forma de concretizar o amor.

Este amor só é chamado de mandamento porque é norma de vida, e substitui todos os demais códigos de leis. No evangelho de João, Jesus jamais cita ou enumera os dez mandamentos, pois entende que só existe um mandamento. O amor fraterno e concreto é a chave que abre a porta para que o Pai e o Filho façam em nós sua morada.

Sendo o que “acomuna” o Pai e o Filho, o Espírito Santo de Amor é também o que une os discípulos entre si, a Jesus e ao Pai. Enquanto algo a ser proclamado, esse amor recebe o nome de mensagem; enquanto norma de vida, é chamado de mandamento; enquanto dinamismo de Deus em nós, é apresentado como Espírito Santo.

Jesus adverte seus discípulos e discípulas sobre o fato de que amá-lo significa guardar sua ordem, de amarmo-nos como ele nos amou, implica em comportar-se como ele em relação a tudo e todos. Sendo a essência do Espírito de Deus, o amor transforma a comunidade cristã e os milhões de discípulos anônimos em infinitas vivendas mediante as quais Deus se faz presente no mundo. Não o adoramos em santuários ou templos, mas em espírito e verdade, mediante atitudes e ações muito concretas.

 

Sugestões para meditar

§ Recomponha na memória as palavras que Jesus dirige aos discípulos, depois da ceia e prestes a ser preso e crucificado

§ Situe-se junto com os discípulos, perturbados com o gesto do lava-pés, com o anúncio da sua morte e com a previsão de que seria traído

§ Será que na voz de Judas se expressa a expectativa de manifestações espetaculares, jamais a manifestação discreta aos discípulos e na cruz?

sábado, 17 de maio de 2025

O distintivo do cristianismo

A amizade e o amor sem limites é o distintivo dos cristãos | 716 | 18.05.2025 | João 13,31-35

Com plena consciência do desfecho da própria vida, e pensando no martírio que coroaria o amor que marcou toda sua vida, Jesus declara que Deus o glorificará sem demora. Para ele, a cruz não é um absurdo, mas a radicalização da solidariedade de Deus com a humanidade e a suprema doação do ser humano a Deus, glorificação de Deus e revelação do humano.

Para os cristãos, amar não é condicional, mas um imperativo absoluto. E, a partir da morte e ressurreição de Jesus, a medida do amor é ele. “Eu vos dou um novo mandamento. Amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”. Jesus sublinha que a medida que verifica o amor é nova: a medida do amor é amar sem medidas, dirão os místicos. A partir de Jesus de Nazaré, amar significa lutar para que todos tenham vida, dando da própria vida e arriscando a própria vida.

Prosseguindo o diálogo testamentário com seus discípulos, Jesus diz: “Quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Se alguém me ama, guardará a minha palavra; meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,12-23). Isso quer dizer que a comunidade de amigos se torna a morada de Deus no mundo. E então o amor fraterno se torna o estatuto e a identidade da comunidade cristã.

Mas precisamos dar a esta imagem poética traços históricos e atuais: um mundo sem barreiras para os migrantes, e no qual haja lugar para todos os seres humanos; um sistema econômico que respeite e preserve a criação; uma política que não se limite a assegurar os privilégios de uma pequena elite e cortar os investimentos em políticas sociais; uma cultura amante da humanidade, da criatividade, da liberdade e da beleza.

No entardecer da vida seremos julgados pelo amor. Mas no alvorecer e ao meio-dia da nossa existência, o verbo amar há de ser conjugado em todos os tempos e modos, inclusive no imperativo. O testamento de Jesus e o testemunho corajoso das primeiras comunidades cristãs estão aí, vivos e eloquentes, para que não esqueçamos disso.

 

Sugestões para meditar

§ Recomponha na memória os gestos as palavras de Jesus por ocasião do lava-pés e da ceia de despedida

§ Como entender corretamente hoje a ousada afirmação de que a glória de Deus se manifesta na humildade e no serviço aos outros?

§ O mandamento de Jesus, assim como a medida que ele estabelece para o amor fraterno, continuam sendo um mandamento novo?

§ Nossas famílias e nossas comunidades são reconhecidas como cristãs pela prática do amor fraterno, aberto e solidário?