terça-feira, 2 de junho de 2026

Sem patriarcalismo

Conhecemos as Escrituras e a força de Deus?

1100 | Tempo Comum | 9ª Semana | Quarta-feira | Marcos 12,18-27

Depois da armadilha apresentada a Jesus pelos fariseus e herodianos, são os saduceus que “pegam em armas”. Trata-se de um grupo social composto pela aristocracia sacerdotal e leiga, gente que detém o poder econômico, político e religioso, e que divulga uma ideologia conservadora e pragmática. Em geral, são eles que comandam o templo, e, do ponto de vista político, são aliados romanos.

Os saduceus não estão interessados em discutir com Jesus a questão da ressurreição dos mortos, que eles negam. Eles estão interessados na manutenção da posse dos bens (mediante a descendência) e das tradições e costumes da família patriarcal. Na história ridícula que eles imaginam e apresentam a Jesus não transparece um pingo de preocupação com a figura da mulher, ferida pela esterilidade, que eles consideram uma maldição. O problema deles não é teológico, mas econômico.

Chama a atenção a repetida afirmação de Jesus de que eles estão enganados, que eles não sabem ler nem interpretar as escrituras. E isso não se refere apenas ao tema específico da ressurreição dos mortos, mas também à leitura ideológica e interesseira das escrituras praticada por eles para defender o patriarcalismo e o patrimonialismo. Para Jesus, a ressurreição, que eles negam, é uma afirmação de novas e possíveis relações igualitárias. Deus se recusa a perpetuar as relações desiguais do patriarcado!

Jesus abandona a questão e o debate suscitado pelos saduceus para recolocar a libertação e o respeito à dignidade das pessoas no centro da revelação de Deus e da vida de fé. Para Jesus, Deus é um Deus dos vivos, dos humanos, dos iguais, do homem e da mulher que se unem e formam uma só carne, sem predomínio de um sobre o outro. E tanto o homem como a mulher são chamados a colaborar com a obra criadora e libertadora de Deus, cuidando da criação e das gerações humanas, deixando em segundo plano as questões da propriedade e da herança.

No projeto de Deus não há espaço para o patriarcalismo e para o patrimonialismo. Aquilo que sempre foi não será, precisa ser mudado, transformado. Quem se propõe a seguir Jesus não pode permanecer refém de preocupações unicamente morais ou espirituais, mas deve, como ele, engajar-se em todas as legítimas causas proféticas emancipadoras. Não há como conjugar seguimento de Jesus e defesa da supremacia de quem quer que seja.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no interior da cena, diante de Jesus e em meio aos saduceus e seus indisfarçáveis interesses

Você consegue perceber hoje, por detrás dos discursos que defendem a família tradicional e a “pureza” da fé, interesses ideológicos e projetos de violência?

Estaríamos nós sendo tentados a uma identificação cômoda do Evangelho com o patriarcalismo e com o capitalismo?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Deus ou César?

Jesus rejeita a submissão dos dominadores

1099 | Tempo Comum | 9ª Semana | Terça-feira | Marcos 12,13-17

Chegando a Jerusalém, depois de uma longa e exigente viagem, que foi também um percurso formativo dos discípulos, Jesus vai ao suntuoso templo e toma uma atitude claramente provocativa. Para ele, o sistema do templo deve ser mudado, por mais piedoso que pareça, e o mundo podem ser refeitos, por mais que as elites digam que é o melhor dos mundos possíveis e que a fé nada tem a ver com a política e a organização social. Então as autoridades decidem matar Jesus.

Uma das estratégias para fazer isso é revelada no episódio de hoje. A classe dirigente do templo manda um grupo de fariseus e de capachos de Herodes para aprontar a Jesus uma armadilha. Começam elogiando (ou ironizando?) Jesus, dizendo que ele fala sem medir as consequências. E apresentam-lhe duas questões: o pagamento do imposto ao imperador romano é legal ou ilegal? Eles (e Jesus) devem ou não pagar?

Pagar impostos equivale a reconhecer a legitimidade do invasor, prestar-lhe lealdade. Essa era a postura defendida pelos herodianos. Jesus percebe a hipocrisia subjacente às perguntas, rejeita à tentativa de “fabricar provas” contra si mesmo, e responde dizendo que esse não é um problema seu, mas um problema deles, que aceitam passivamente o invasor. Eles perguntam se “devemos” (inclui Jesus) pagar o imposto, e Jesus responde “dai” (vós!).

Jesus não carrega moedas, e pede que eles as apresentem e digam qual é a figura e a inscrição que contém. A figura é do imperador romano, e a inscrição afirma que ele é o “Filho Augusto de Deus”. Um judeu fiel jamais poderia admitir isso! E o próprio soldado romano, no final do Evangelho, dirá, confirmando a inscrição colocada na cruz (Rei dos Judeus), afirmando: “Realmente este homem era o Filho de Deus”. Jesus, e não o imperador, é o “Filho Augusto de Deus”.

Mandando devolver ao imperador o que é dele (as moedas) e a Deus o que a ele pertence (o povo e o culto), Jesus não estabelece uma equivalência entre os dois. Também não afirma a separação entre fé e política, entre Igreja e o mundo. No mundo, os cristãos devem ser sal, luz e fermento! O que Jesus rejeita é a submissão aos invasores. Não há lugar nem para a acomodação, nem para a deserção.

 

Sugestões para a meditação

Perceba como, ao longo de sua vida e neste caso, Jesus não reconhece nenhuma submissão ou lealdade ao imperador e dominador romano

Observe atentamente, e veja como Jesus também não opõe política e fé, nem separa a Igreja do Mundo

Você concorda que os donos do poder, seja ele “Augusto” ou “Capitão”, não têm direitos sobre a vida do povo, não são donos das pessoas?

Como evitar interpretações que manipulam este texto, ensinando que Jesus separa fé e política e reconhece o poder dos dominadores?