Eucaristia:
memória, expectativa e compromisso
Desde muito cedo na sua história,
o cristianismo recordou, ritualizou e celebrou a vida, a morte e ressurreição
de Jesus. A identidade, a organização e a missão da Igreja foi se constituindo
em torno de celebrações simples, populares e permeadas de memória agradecida e
de expectativas de algo novo e grandioso que ainda vai acontecer.
Assim “nasce” a
Eucaristia, sacramento do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Ou melhor: ação
simbólica e memorial da aliança definitiva de Deus com a humanidade peregrina,
selada no pão partilhado, no vinho abençoado e no gesto de um Mestre e Senhor
que lava os pés, inclusive de quem o nega e trai. A Eucaristia é uma lição profunda
e atual!
Aquela ceia de despedida,
celebrada no clima cálido e tenso que antecedeu a prisão de Jesus e sua
condenação à pena de morte, está ligada às inúmeras ceias que Jesus
compartilhou, seja para saciar um povo faminto no deserto, seja sentado à mesa onde
acolheu pecadores e proscritos. Não podemos excluir da mesa aqueles que Jesus
acolheu!
É verdade que, nesta ceia,
Jesus diz com amargura que um dos Doze, daqueles que come o pão com ele, irá
traí-lo. E acrescenta: “Melhor seria que tal homem nunca tivesse nascido”
(Marcos 14,17-21). Mas não se trata de alguém que se sente culpado e pecador,
mas de alguém que participa da sua intimidade. E Jesus não o expulsa da mesa!
Na ceia de despedida,
Jesus abençoa o pão e o distribui dizendo: “Isto é meu corpo, que é dado por
vós”. E tomando nas mãos o cálice com vinho, dá graças e o serve aos discípulos
declarando: “Tomai este cálice e partilhai entre vós”. E acrescenta, em forma de
mandamento e de testamento: “Fazei isto em memória de mim” (Lucas 22,14-23).
Este mandamento não se
refere apenas à repetição de um ritual, mas ao prosseguimento do modo de vida
que ele expressa: fazer da vida um dom generoso e incondicional aos irmãos e
irmãs, especialmente aos mais pobres. E sempre na expectativa de que o Reino de
Deus, a vida plena e abundante para todos, se realize na história (cf. Lucas
22,18).
São Paulo entendeu isso muito bem e o expressou na Carta aos Romanos: “Eu vos exorto, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo (hóstias vivas), santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da mente” (12,1-2). Nosso culto não se resume a um rito, mas se realiza no engajamento para que venha o Reino de Deus.
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