Que nossa piedade e doação não sejam fingidas
1103 | Tempo Comum |
Semana IX | Sábado | Marcos 12,38-44
Depois de ter calado os adversários e desmascarado
a ideologia nacionalista e triunfalista dos que pregavam a restauração
messiânica do império de Davi, Jesus continua por algum tempo no templo de
Jerusalém. Ali, ele ensina as multidões
e os seus discípulos a respeito da novidade do Reino de Deus, e se mostra
implacável com os mestres ou doutores da Lei. Para Jesus, eles estão muito
longe da novidade ética e religiosa do Reino de Deus inaugurado por ele.
Na cena de hoje, Jesus começa pedindo ao povo que se cuide e tenha muita cautela diante
dos doutores da Lei: eles buscam apenas e sempre distinção, status e
privilégios, enquanto que Jesus propõe que ocupemos o lugar do servo e do
último. Por causa da aparência de
piedade, os doutores da Lei haviam conseguido o direito legal de cuidar da
herança das viúvas, e eram muito bem pagos para fazer isso. Entretanto, mesmo sendo pagos, eles acabavam
“devorando” os bens delas, fazendo o contrário do que pedia a própria Lei:
proteger os órfãos e as viúvas.
Mas não é apenas isso. O próprio templo, que Jesus
lembra que deve ser um lugar de oração, acaba sendo uma estrutura que explora e
empobrece ainda mais o povo. E Jesus não aceita isso de modo nenhum. Sentado,
diante do cofre das esmolas, ele observa
como os ricos alardeiam suas ofertas, que são enganosas, e como a viúva é
explorada, obrigada a dar mais que eles, a dar “tudo o que possuía para
viver”.
Esta cena não é um elogio à “doação forçada” da viúva, mas uma denúncia
pelo que ela sofre. Jesus não compara a esmola dos ricos com a
“oferta” que a viúva é obrigada a dar, que não passa de uma extorsão
inaceitável, mas ilustra aos seus discípulos como é que os doutores da Lei agem
para “devorar” as casas das viúvas. A
piedade ostentada pelos escribas é um véu que mal esconde oportunismo e
exploração.
Esta passagem não
quer apresentar um exemplo de generosidade, e não deve ser oferecida como
motivação para o dízimo. Nela ressoa o
clamor dos pobres, explorados até em nome de Deus. Jesus nunca poupou
críticas e denúncias contra o templo e seus controladores. É por isso que, depois de chamar os discípulos e criticar a
exploração travestida de piedade, Jesus se afasta templo definitivamente.
Sugestões para a meditação
Situe-se dentro da cena, no templo, com Jesus e os
escribas, e observe, com Jesus, a descarada ostentação dos ricos e piedosos,
que com suas migalhas disfarçam e legitimam o que acumulam injustamente
Perceba a coragem de Jesus ao desmascarar os doutores
da lei, pois eles dão legitimidade teológica à exploração dos pobres: “Tomai
cuidado com eles!”
Fique atento aos sentimentos e pensamentos que esta palavra e esta atitude de Jesus desperta em você
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