sexta-feira, 5 de junho de 2026

As viúvas e os escribas

Que nossa piedade e doação não sejam fingidas

1103 | Tempo Comum | Semana IX | Sábado | Marcos 12,38-44

Depois de ter calado os adversários e desmascarado a ideologia nacionalista e triunfalista dos que pregavam a restauração messiânica do império de Davi, Jesus continua por algum tempo no templo de Jerusalém. Ali, ele ensina as multidões e os seus discípulos a respeito da novidade do Reino de Deus, e se mostra implacável com os mestres ou doutores da Lei. Para Jesus, eles estão muito longe da novidade ética e religiosa do Reino de Deus inaugurado por ele.

Na cena de hoje, Jesus começa pedindo ao povo que se cuide e tenha muita cautela diante dos doutores da Lei: eles buscam apenas e sempre distinção, status e privilégios, enquanto que Jesus propõe que ocupemos o lugar do servo e do último. Por causa da aparência de piedade, os doutores da Lei haviam conseguido o direito legal de cuidar da herança das viúvas, e eram muito bem pagos para fazer isso. Entretanto, mesmo sendo pagos, eles acabavam “devorando” os bens delas, fazendo o contrário do que pedia a própria Lei: proteger os órfãos e as viúvas.

Mas não é apenas isso. O próprio templo, que Jesus lembra que deve ser um lugar de oração, acaba sendo uma estrutura que explora e empobrece ainda mais o povo. E Jesus não aceita isso de modo nenhum. Sentado, diante do cofre das esmolas, ele observa como os ricos alardeiam suas ofertas, que são enganosas, e como a viúva é explorada, obrigada a dar mais que eles, a dar “tudo o que possuía para viver”.

Esta cena não é um elogio à “doação forçada” da viúva, mas uma denúncia pelo que ela sofre. Jesus não compara a esmola dos ricos com a “oferta” que a viúva é obrigada a dar, que não passa de uma extorsão inaceitável, mas ilustra aos seus discípulos como é que os doutores da Lei agem para “devorar” as casas das viúvas. A piedade ostentada pelos escribas é um véu que mal esconde oportunismo e exploração.

Esta passagem não quer apresentar um exemplo de generosidade, e não deve ser oferecida como motivação para o dízimo. Nela ressoa o clamor dos pobres, explorados até em nome de Deus. Jesus nunca poupou críticas e denúncias contra o templo e seus controladores. É por isso que, depois de chamar os discípulos e criticar a exploração travestida de piedade, Jesus se afasta templo definitivamente.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se dentro da cena, no templo, com Jesus e os escribas, e observe, com Jesus, a descarada ostentação dos ricos e piedosos, que com suas migalhas disfarçam e legitimam o que acumulam injustamente

Perceba a coragem de Jesus ao desmascarar os doutores da lei, pois eles dão legitimidade teológica à exploração dos pobres: “Tomai cuidado com eles!”

Fique atento aos sentimentos e pensamentos que esta palavra e esta atitude de Jesus desperta em você 

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