Escutemos Jesus com prazer e maturidade.
1102 | Tempo Comum |
Semana IX | Sexta-feira | Marcos 12,35-37
Na cena de hoje, Jesus continua no espaço do templo, centro ideológico, político e
religioso do judaísmo daquele tempo. A cena imediatamente anterior
terminava demonstrando que Jesus havia
vencido todos os seus opositores: expulsou os comerciantes, não caiu nas
ciladas dos fariseus e saduceus, questionou a legitimidade dos chefes, assumiu
seu papel de mestre, enfim: amarrou os “homens
fortes”, deslegitimou sua ideologia e reconquistou sua casa.
Na cena de hoje, Jesus volta a investir contra os escribas ou mestres da lei,
enfrentando sem “panos quentes” a ideologia messiânica triunfalista e
nacionalista que eles veiculavam e alcançara grande aceitação popular. “Como é
que os mestres da lei dizem que o Messias é filho de Davi? Como é que ele pode
ser seu filho?” É o confronto claro e
direto entre o projeto do Reino de Deus e o ensinamento dos mestres da lei,
entre o mundo solidário e inclusivo proposto por Jesus e a esperança da
restauração da dinastia política do rei Davi.
Jesus não está interessado em discutir sua genealogia (se é, e como é descendente de Davi), mas a ideologia dos mestres da lei. Quem propaga o messianismo monárquico
acaba legitimando o templo e suas práticas de extorsão e discriminação, assim
como o Estado teocrático que nele tem sua validação e sua sustentação.
Definitivamente, Jesus toma distância
dessa ideologia e nega seus vínculos com o messianismo identificado com a
monarquia. O Messias não deve nada a ninguém, é anterior e superior a Davi
e sua dinastia.
Talvez isso nos
traga desconforto, pois estamos acostumados a afirmar (nos hinos, na catequese,
nas pregações) que Jesus é filho e descendente de Davi. Que isso não seja
problema! O que precisamos é
distanciar-nos de Davi enquanto autoridade política e voltar às suas origens,
ao filho discriminado pelo pai e pelos irmãos, ao organizador e líder de um
bando de marginalizados, tratado como bandido perigoso pelo rei Saul. Mas é importante evitar todo e qualquer sinal
de adesão a ideologias políticas e religiosas eivadas de autoritarismo,
nacionalismo, totalitarismo e exclusivismo que gravitam em torno do seu
nome. É isso que o texto ensina.
Sugestões para a meditação
Situe-se
no interior da cena, no templo, diante de Jesus e dos escribas que pregavam um
messianismo com caraterísticas monárquicas
Perceba
a novidade corajosa da proposta de Jesus: ele encarna um messianismo despojado,
compassivo, inclusivo e solidário
Será
que a cultura republicana e democrática já conseguiu eliminar da nossa
imaginação a visão de um Jesus coroado como um rei?
Em
que medida templos e algumas alfaias litúrgicas ainda se inspiram na
“majestade” dos reis?
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