quinta-feira, 4 de junho de 2026

Missa do Corpo e Sangue do Senhor

Jesus Cristo, Pão repartido

para a vida do Mundo!

 

Queridos irmãos dom Aloísio, queridos irmãos presbíteros e diáconos! Estimadas religiosas e religiosos, diáconos, ministros! Queridas irmãs e irmãos reunidos nessa bela catedral, orgulho do povo de Santa Cruz do Sul!

Estamos celebrando o memorial da paixão de Jesus, este admirável sacramento de uma vida inteiramente doada. Nesta solenidade, nos reunimos para venerar o sacramento do corpo e sangue de Jesus e experimentar os frutos desse gesto redentor de Jesus.

Memória

No livro do Deuteronômio, Moisés pede que não esqueçamos do caminho percorrido, dos desertos atravessados, dos vales sombrios, da presença discreta e sensível do Senhor como guia que nos orienta nas encruzilhadas, como nuvem que nos protege quando o sol ameaça nos queimar, como luz quando a escuridão nos envolve, como água que sai da rocha, e como alimento que desce do céu e brota da terra.

Mas não esqueçamos também da lição mais importante: ninguém vive somente de pão! A tecnologia, a prosperidade econômica e os estudos e não são suficientes. A Palavra ou Promessa de Deus é que nos mantém de pé e a caminho, que alarga a tenda do nosso coração, que ajusta o nosso olhar para que vejamos em cada pessoa um irmão e visualizemos a beleza do Novo Céu e da Nova Terra que o Senhor nos promete e assegura.

Sublime sacramento da vida de Jesus

Não é possível dissociar a Eucaristia, o sacramento do corpo e sangue de Jesus, da sua vida e missão. A Eucaristia perde sua riqueza e sua força transformadora se a isolamos da ceia original na qual ela foi celebrada. A Eucaristia perde em significado se ignoramos sua relação com todas as demais ceias das quais Jesus participou, sentando ao lado de homens e mulheres malvistos.

Porém, o maior dano que podemos fazer a este “tão sublime sacramento” é esquecer que ele nos remete à relação de compaixão e à aliança solidária que Jesus viveu com os discípulos e com todas as pessoas “esquecidas à sombra da morte”. Na ceia eucarística, Jesus antecipa de forma ritual e simbólica aquilo que ele faria no dia seguinte: entregaria sua vida, seu corpo e seu sangue, para que todos os Homens tenham vida.

Pão para a vida do mundo

Em Jesus Cristo, Deus se aproxima do ser humano de um modo insuperável e estabelece uma aliança, uma comunhão de vida e destino com a humanidade. Ele desce, estabelece sua morada entre nós, faz-se carne e fragilidade. É a isso que Jesus se refere quando insiste sete vezes nas palavras “carne” e “sangue” no pequeno trecho do evangelho de hoje. Em Jesus, Deus se faz carne e fraqueza, sangue derramado pela violência. É a isso que o pão distribuído e o vinho partilhado estão referidos.

“Comer a carne” e “beber o sangue” de Jesus significa aceitar a humanidade de Deus sem se escandalizar; aderir conscientemente ao caminho da fraqueza e da minoridade; tomar distância das ideologias que nos pedem para apostar “todas as fichas” na meritocracia; não cair na armadilha das diversas expressões de supremacia; perceber a loucura do fechamento num individualismo mortal. Está muito claro que Jesus não tem nada a ver com isso.

Comunhão e permanência

Tomar parte na ceia eucarística e receber a “hóstia branca no altar consagrada” reconhecendo nela o memorial da vida, morte e ressurreição de Jesus nos impulsiona a permanecer em Jesus e faz Jesus permanecer em nós. Trata-se de viver em comunhão com Jesus, prosseguindo sua missão e revivendo sua compaixão, para que ele viva em nós, dirija nossos passos, motive nossas decisões e faça frutificar as nossas ações.

O principal fruto da Eucaristia é introduzir-nos no céu já aqui na terra; perdoar nossos pecados e redimir nossas culpas; congregar-nos num povo a caminho, composto de homens e mulheres diferentes, mas absolutamente iguais na dignidade. São Paulo não cansa de lembrar que nossa comunhão com Cristo, a participação no único e mesmo pão, nos torna membros do corpo de Cristo.

Dito de outra forma, a Eucaristia nos faz renascer no amor, como homens e mulheres novos, semelhantes a Jesus Cristo no amor e no serviço, especialmente aos mais vulneráveis. A eucaristia torna-se fermento de novos céus e nova terra, suscitando o amor de todos e de cada um/a por todos/as, um amor gratuito, puro dom que não cobra nada. Ela nos transforma em dom, nos faz livres para amar e servir.

Ação de graças e adoração

Sabemos o significado da palavra “Eucaristia”: ação de graças, ação de louvor pelos bens recebidos sem nenhum merecimento. Afinal, quem ousaria dizer que Deus se entregou por nós porque fizemos por merecer? Jesus deu sua vida por nós não porque somos bons, mas porque ele é bom; não porque tenhamos algum mérito, mas porque ele nos precedeu no amor.

É aqui que a adoração eucarística encontra seu sentido. Ajoelhamo-nos diante do mistério do Filho de Deus que se faz carne e vem habitar entre nós; do mistério de um Deus que aceita a morte para não se afastar da humanidade sofredora; de um simples pedaço de pão que se torna sinal e sacramento de um amor incondicional e sem medida. E permanecemos calados, parados e agradecidos, para que o dinamismo deste sacramento nos envolva e nos abrace, nos atravesse e nos renove.

Jamais esqueçamos, entretanto, que a Eucaristia, este “tão sublime sacramento”, não é algo a ser contemplado e adorado, mas algo a ser comido, para que Cristo viva e ame em nós. É por isso que participamos da eucaristia, que fazemos parte do sacramento, memorial da comunhão e da aliança de Deus com a Humanidade. E assim nos tornamos hóstias vivas, “amor a fundo perdido” para a salvação do mundo.

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