Jesus Cristo, Pão
repartido
para a vida do
Mundo!
Queridos irmãos dom Aloísio, queridos irmãos presbíteros e
diáconos! Estimadas religiosas e religiosos, diáconos, ministros! Queridas
irmãs e irmãos reunidos nessa bela catedral, orgulho do povo de Santa Cruz do
Sul!
Estamos celebrando o memorial da paixão de Jesus, este
admirável sacramento de uma vida inteiramente doada. Nesta solenidade, nos
reunimos para venerar o sacramento do corpo e sangue de Jesus e experimentar os
frutos desse gesto redentor de Jesus.
Memória
No livro do Deuteronômio, Moisés pede que não esqueçamos do caminho
percorrido, dos desertos atravessados, dos vales sombrios, da presença
discreta e sensível do Senhor como guia que nos orienta nas encruzilhadas, como
nuvem que nos protege quando o sol ameaça nos queimar, como luz quando a
escuridão nos envolve, como água que sai da rocha, e como alimento que desce do
céu e brota da terra.
Mas não esqueçamos também da lição mais importante: ninguém vive somente de pão! A tecnologia,
a prosperidade econômica e os estudos e não são suficientes. A Palavra ou
Promessa de Deus é que nos mantém de pé e a caminho, que alarga a tenda do
nosso coração, que ajusta o nosso olhar para que vejamos em cada pessoa um
irmão e visualizemos a beleza do Novo Céu e da Nova Terra que o Senhor nos
promete e assegura.
Sublime sacramento da vida de Jesus
Não é possível dissociar a Eucaristia, o sacramento do
corpo e sangue de Jesus, da sua vida e missão. A Eucaristia perde sua riqueza e sua força transformadora se a
isolamos da ceia original na qual ela foi celebrada. A Eucaristia perde em
significado se ignoramos sua relação com todas as demais ceias das quais Jesus
participou, sentando ao lado de homens e mulheres malvistos.
Porém, o maior dano que podemos fazer a este “tão sublime sacramento” é
esquecer que ele nos remete à relação de compaixão e à aliança solidária que
Jesus viveu com os discípulos e com todas as pessoas “esquecidas à sombra da
morte”. Na ceia eucarística, Jesus
antecipa de forma ritual e simbólica aquilo que ele faria no dia seguinte:
entregaria sua vida, seu corpo e seu sangue, para que todos os Homens tenham
vida.
Pão para a vida do mundo
Em Jesus Cristo, Deus se aproxima do ser humano de um modo insuperável e estabelece
uma aliança, uma comunhão de vida e destino com a humanidade. Ele desce,
estabelece sua morada entre nós, faz-se carne e fragilidade. É a isso que Jesus
se refere quando insiste sete vezes nas palavras “carne” e “sangue” no pequeno
trecho do evangelho de hoje. Em Jesus, Deus
se faz carne e fraqueza, sangue derramado pela violência. É a isso que o
pão distribuído e o vinho partilhado estão referidos.
“Comer a carne” e “beber o sangue” de Jesus significa
aceitar a humanidade de Deus sem se escandalizar; aderir conscientemente ao caminho da fraqueza e da
minoridade; tomar distância das ideologias que nos pedem para apostar “todas as
fichas” na meritocracia; não cair na armadilha das diversas expressões de
supremacia; perceber a loucura do fechamento num individualismo mortal. Está muito claro que Jesus não tem nada a
ver com isso.
Comunhão e permanência
Tomar parte na ceia eucarística e receber a “hóstia branca no altar consagrada” reconhecendo
nela o memorial da vida, morte e ressurreição de Jesus nos impulsiona a permanecer em Jesus e faz Jesus permanecer em nós.
Trata-se de viver em comunhão com Jesus, prosseguindo sua missão e revivendo
sua compaixão, para que ele viva em nós, dirija nossos passos, motive nossas
decisões e faça frutificar as nossas ações.
O principal fruto da Eucaristia é introduzir-nos no céu já
aqui na terra; perdoar nossos pecados e redimir
nossas culpas; congregar-nos num povo a caminho, composto de homens e mulheres
diferentes, mas absolutamente iguais na dignidade. São Paulo não cansa de
lembrar que nossa comunhão com Cristo, a
participação no único e mesmo pão, nos torna membros do corpo de Cristo.
Dito de outra forma, a Eucaristia nos faz renascer no amor, como
homens e mulheres novos, semelhantes a Jesus Cristo no amor e no serviço,
especialmente aos mais vulneráveis. A eucaristia torna-se fermento de novos
céus e nova terra, suscitando o amor de todos e de cada um/a por todos/as, um
amor gratuito, puro dom que não cobra nada. Ela nos transforma em dom, nos faz livres para amar e servir.
Ação de graças e adoração
Sabemos o significado da palavra
“Eucaristia”: ação de graças, ação de
louvor pelos bens recebidos sem nenhum merecimento. Afinal, quem ousaria
dizer que Deus se entregou por nós porque fizemos por merecer? Jesus deu sua vida por nós não porque somos
bons, mas porque ele é bom; não porque tenhamos algum mérito, mas porque
ele nos precedeu no amor.
É aqui que a adoração eucarística
encontra seu sentido. Ajoelhamo-nos
diante do mistério do Filho de Deus que se faz carne e vem habitar entre nós;
do mistério de um Deus que aceita a morte para não se afastar da humanidade
sofredora; de um simples pedaço de pão
que se torna sinal e sacramento de um amor incondicional e sem medida. E
permanecemos calados, parados e agradecidos, para que o dinamismo deste
sacramento nos envolva e nos abrace, nos atravesse e nos renove.
Jamais esqueçamos, entretanto, que a
Eucaristia, este “tão sublime sacramento”, não é algo a ser contemplado e
adorado, mas algo a ser comido, para que
Cristo viva e ame em nós. É por isso que participamos da eucaristia, que
fazemos parte do sacramento, memorial da comunhão e da aliança de Deus com a
Humanidade. E assim nos tornamos hóstias vivas, “amor a fundo perdido” para a
salvação do mundo.
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