domingo, 31 de maio de 2026

Proprietários ou cuidadores?

Nada nos pertence, somos arrendatários!

1098 | Tempo Comum | 9ª Semana | Segunda-feira | Marcos 12,1-12

Este texto está situado no contexto da presença tensa e provocativa de Jesus em Jerusalém, para onde peregrinou lúcida e decididamente. Ele havia sido recebido com júbilo na periferia da capital, entrado no templo e expulsado os comerciantes que exploravam os peregrinos. A classe dirigente pedira explicações, mas era apenas um ardil para ganhar tempo, pois haviam decidido acabar com Jesus (cf. Mc 11,18).

Então, Jesus retoma o debate com os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos – os grupos que detinham o controle religioso, ideológico, político e econômico a partir do templo – recorrendo a algumas parábolas. Longe de ser apenas uma simplificação da linguagem e uma comunicação próxima à experiência do povo simples, as parábolas são uma espécie de armadilha para pegar o interlocutor desprevenido, “no contrapé”, como dizemos hoje.

A imagem da vinha é muito comum nos escritos do antigo testamento, especialmente nos profetas. O povo de Israel é comparado a uma vinha plantada com carinho e atenção, cercada e protegida pela Lei. Alguns profetas denunciam a vinha, que não produzi frutos bons (cf. Is 5,1-7); outros denunciam os agricultores que deveriam tomar conta dela (cf. Is 5,8-24). Por isso, anunciam que Deus pode tanto destruir a vinha como tomá-la daqueles a quem confiou o cultivo e o cuidado.

Na parábola, fica evidenciada a crescente violência com que são repelidos os enviados do dono da vinha. Eles não só administram mal a vinha que não lhes pertence, como conspiram para se apossarem dela. Por isso compreende-se a violência reativa do dono da vinha: ele elimina os vinhateiros e entrega sua vinha a outros. Os interlocutores de Jesus não demoram a compreender que Jesus se refere a eles. A alegoria política e o discurso subversivo de Jesus provocam na classe dirigente a terceira decisão de prendê-lo.

Deixando de lado a linguagem das parábolas, Jesus cita o Salmo 118 (117), e o aplica a si mesmo (e não a Davi, como era usual): “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Ele é o filho que os vinhateiros querem matar para assumir o domínio absoluto sobre o povo. Não esqueçamos que esse é um dos textos mais citados no novo testamento, uma espécie de “chave de leitura” tanto para o destino de Jesus quanto para o desfecho da vida dos seus seguidores.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo de Jerusalém, próximo a Jesus e à elite dirigente, e observe a liberdade e a coragem com que Jesus a enfrente e desmascara

Se a parábola é de fato uma alegoria política, quais as luzes que ela oferece para uma apreciação das classes dirigentes do nosso país?

Será que as autoridades da Igreja estão realmente imunes à tentação de se apossar da vinha que não lhes pertence?

sábado, 30 de maio de 2026

Trindade: a veste que cobre a nossa nudez

Um Deus enamorado pela beleza da sua criatura

Na tradição judaica e cristã, o Nome de Deus é impronunciável, o Rosto de Deus jamais será plenamente visível e sua Ação será sempre nova e inapreensível. Entretanto, em Jesus de Nazaré Deus nos revelou algo absolutamente essencial sobre si mesmo: Ele é terna proximidade de pai e mãe; ele é amor, misericórdia e compaixão incondicionais.

A partir daquilo que contemplamos em Jesus, proclamemos nossa fé em um Deus que é Pai e Criador, Filho e Salvador, Espírito Santificador. Deus é perfeita comunhão, e não um sujeito solitário e absoluto. Nele temos nossa origem, nele caminhamos enquanto vivemos, nele temos nosso destino e nosso porto. Ele é unidade trina e trindade una.

Falar de Deus como Trindade Santa não é uma charada a ser decifrada, ou uma simples questão de números, de Deus ser um ou três. Um Deus que é Amor Vivo e vivificante não ‘cabe’ num triângulo com três ângulos e três linhas absolutamente iguais, igualmente frias e abstratas. Moisés entendeu bem, prostrou-se por terra e gritou: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico de bondade e fiel!” (Êxodo 34,7)

Cremos numa divindade que é o “Deus do amor e da paz”, que habita nas pessoas e comunidades que vivem a concórdia e a paz, e não nas alturas inacessíveis (cf. 1 Coríntios 13,11-13).  “Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (João 3,16). “Deus é amor” resume o apóstolo João (1 João 4,8.16).

A solenidade da Santíssima Trindade é um convite a mergulhar e deixar-se envolver e dinamizar por este insondável mistério de amor, a participar no coral das criaturas que proclamam o amor belo e bom de quem as fez.  Santa Catarina de Sena (Século XIV), compreendeu isso com sua perspicácia feminina, e o expressou numa belíssima oração.

Ó eterna Trindade, tu és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Provei e vi em tua luz e com a luz da inteligência o teu insondável abismo e a beleza de tua criatura. Vendo-me em ti, vi que sou imagem tua, e compreendi que estás enamorado pela tua criatura.

Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da criatura humana. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Tu és a veste que cobre nossa nudez, e alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce, sem amargura alguma, ó Trindade eterna!

Trindade Santa

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!

1097 | Tempo Comum | Solenidade da S. Trindade | João 3,16-1

A festa da Santíssima Trindade marca o fim do ciclo litúrgico da páscoa e a retomada do ciclo litúrgico comum. É uma espécie de desdobramento da solenidade de pentecostes, pois o Espírito Santo é dinamismo de comunhão de tudo com tudo, ele estabelece o parentesco de todas as criaturas. É também a antecipação da imagem de um Deus caracterizado pela comunhão, pelo dom, pela entrega, pela amizade.

O trecho do evangelho que ilumina a solenidade de hoje está no contexto do diálogo tenso de Jesus com Nicodemos, um fariseu importante, membro do conselho superior do templo. O diálogo é perpassado pelo confronto de duas imagens de Deus e dois caminhos para conhece-lo e adorá-lo. Nicodemos não esconde sua pretensão de saber quem é Deus e de ter competência para ensinar o caminho que leva a ele, a ponto de querer ensinar o próprio Jesus.

Jesus sublinha, de forma provocativa, que para entrar no dinamismo de Deus e do seu Reino é preciso ser regenerado, nascer de novo, ou nascer do alto. Isso significa renascer da cruz, deixar-se conduzir pelo vendaval do Espírito suscitado pela encarnação de Deus na humanidade e pela sua doação radical e solidária na cruz. Sem adentrar nesse mistério com humildade e sede de aprender continuamente, não passaremos de analfabetos na escola da fé cristã.

Nossa profissão de fé na tri-unidade de Deus não é uma simples questão quantitativa ou numérica (1 e 3), um enigma a ser decifrado ou uma charada a ser explicada. É uma questão de fé, um mistério que aponta para o coração ou a essencialidade de Deus e do ser humano: Deus não é solidão, poder, separação, distanciamento ou lei, mas Comunhão, Amor, Proximidade, Amizade, Compaixão, Dom pleno de si. Ele se define por seu amor pelo mundo e por todas as criaturas. Ele habita, de modo diferenciado e único, em cada criatura.

Em Jesus, Deus nos revela que ama a humanidade, especialmente a humanidade mais vulnerável, mas ama também o mundo: as organizações e sistemas que possibilitam as relações e a vida, por mais ambíguas que sejam. Em Jesus, o Pai se dá ao mundo para que ele alcance a plenitude e a abundância da vida. Isso é possível pela adesão àquele que o Pai envia, pela prática do amor e do serviço vividos por Jesus Cristo na sua relação com o Pai e com os irmãos.

 

Sugestões para a meditação

Releia o texto, se possível, retomando também os versos anteriores (v. 1-15), e relacionando-o com o diálogo com Nicodemos

Na ideia que você faz de Deus, e na imagem que você faz dele, o que predomina: o isolamento, a distância, a impassibilidade, o poder, ou o amor e a comunhão?

Quais são as consequências da nossa fé num Deus que se define pela Comunhão, pelo Dom de si, pela Compaixão, pela Proximidade?

Amor uno e trino

DEUS É DE TODOS!

Poucas frases terão sido tão citadas como esta que o evangelho de João coloca nos lábios de Jesus. Os autores veem nela um resumo do essencial da fé, tal como era vivida por muitos cristãos no início do século II: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único».

Deus ama o mundo inteiro, não apenas aquelas comunidades cristãs às quais chegou a mensagem de Jesus. Ama toda a humanidade, não apenas a Igreja. Deus não é propriedade dos cristãos. Não deve ser monopolizado por nenhuma religião. Não cabe em nenhuma catedral, mesquita ou sinagoga.

Deus habita em cada ser humano, acompanhando cada pessoa nas suas alegrias e desgraças. Não abandona ninguém, pois tem os seus caminhos para se encontrar com cada um, sem que seja necessário seguir os que nós lhe traçamos. Jesus via-o cada manhã fazendo nascer o seu sol sobre bons e maus.

Deus não sabe, não quer, nem pode fazer outra coisa senão amar, pois no mais íntimo do seu ser é amor. Por isso diz o evangelho que enviou o seu Filho, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por meio dele. Ama o corpo tanto quanto a alma, e o sexo tanto quanto a inteligência. O único desejo de Deus é ver, desde já e para sempre, toda a humanidade desfrutando da sua criação.

Este Deus sofre na carne dos famintos e humilhados da terra; está nos oprimidos defendendo a sua dignidade, e nos que lutam contra a opressão encorajando o seu esforço. Está sempre em nós para buscar e salvar o que nós estragamos e perdemos.

Deus é assim. O nosso maior erro seria esquecê-lo. Mais ainda: encerrarmo-nos nos nossos preconceitos, condenações e mediocridade religiosa, impedindo as pessoas de cultivar esta fé primeira e essencial. Para que servem os discursos dos teólogos, moralistas, pregadores e catequistas se não despertam o louvor ao Criador, se não fazem crescer no mundo a amizade e o amor, se não tornam a vida mais bela e luminosa, recordando que o mundo está envolto por todos os lados pelo amor de Deus?

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Mostre a autorização!

Nada convence quem não decidiu não entender

1096 | Tempo Comum | 8ª Semana | Sábado | Marcos 11,27-33

Vimos que as diversas cenas do evangelho de ontem são uma contundente crítica ao templo como centro simbólico da ordem social judaica. Na sua ação mais direta e provocativa, Jesus expulsa os vendedores, derruba as mesas dos cambistas, e proíbe qualquer movimento e ensina. Assim, denuncia o roubo que o templo encobre e patrocina, e paralisa suas atividades. É como se declarasse a interdição dos negócios.

Para Jesus, o sistema do templo deve ser mudado e substituído, por mais que apareça como sólido e piedoso; o mundo pode ser refeito, por mais que as elites digam que é o melhor dos mundos possíveis. Por isso, entendendo muito bem onde Jesus quer chegar, as autoridades do templo decidem matar Jesus. Mas nem isso o intimida, e ele volta ao templo. A consciência de que é enviado exatamente para isso o mantém firme, com os olhos fixos na vontade do Pai e na defesa da vida.

Jesus é interceptado e questionado pela classe dirigente e controladora do templo. Sumos sacerdote, escribas e anciãos são a máxima autoridade de Deus na terra, e controlam o Sinédrio, uma espécie de STF deles. Como eles se entendem a autoridade máxima, questionam a autoridade de Jesus para criticar aquilo que eles autorizam e fazem. Eles já haviam suspeitado de que Jesus tinha pacto com o diabo.

A pergunta que as autoridades do templo dirigem a Jesus não tem sequer uma pitada de boa vontade, de desejo de saber. Querem apenas armar uma arapuca. E Jesus também não responde, senão apresentando outra pergunta como réplica. Eles se recusaram a responder, mas o evangelista desnuda os motivos do silêncio: por mais que se mostrem poderosos, eles têm medo do povo, e evitam se auto incriminar pela omissão frente à morte de João Batista.

Jesus não aposta nenhuma ficha nesse diálogo estéril e nessa discussão sobre suas credenciais. E é suficientemente perspicaz para não produzir a prova que eles esperam para condená-lo. Não adianta argumentar para quem decidiu não entender. Até porque Jesus não reconhece a eles nenhuma autoridade, mas apenas hipocrisia, rapinagem e exploração dos mais vulneráveis e humildes em nome da religião. Ele sim fala, ensina, critica, denuncia e age em nome do Deus vivo, do Deus que se caracteriza pela compaixão e pela intervenção libertadora.

 

Sugestões para a meditação

Você consegue perceber como Jesus assume uma postura de relativização do templo, das autoridades e de todas as instituições oficiais?

Por que os cristãos perdemos ou menosprezamos a dimensão profética e libertária da nossa fé, que relativiza instituições e autoridades?

Qual poderia ser a reação dos cristãos de hoje diante de uma liderança religiosa que respondesse como Jesus aos questionamentos oficiais?

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Onde está a morada de Deus?

Deus dispensa o templo e mora na fraternidade

1095 | Tempo Comum | 8ª Semana | Sexta-feira | Marcos 11,11-26

Depois do episódio do cego e mendigo que recupera a visão e se torna discípulo, Jesus entra em Jerusalém montado num jumento – uma cena de teatro político de rua! – e é aclamado pelo povo como o messias e herdeiro de Davi. Esta passagem é omitida na liturgia semanal, pois é meditada no Domingo de Ramos. Hoje contemplamos a cena que vem na sequência desse modo inusitado de entrar na capital: o questionamento do sistema ideológico articulado em torno do templo.

Além do gesto claramente provocador da expulsão dos comerciantes do interior do templo, tanto a figueira como a montanha são alegorias que nos remetem ao templo. As diversas cenas deste texto são uma contundente crítica ao templo como centro simbólico da ordem social judaica, claramente injusta em relação aos pobres. Na sua ação mais direta, Jesus expulsa os vendedores, derruba as mesas dos cambistas, proíbe qualquer movimento e ensina. Na prática, Jesus paralisa toda atividade de culto, pois ela está eivada de violência.

O foco da ação de Jesus não é propriamente o comércio realizado no interior do templo, pois naquele tempo, por causa da prática dos sacrifícios, simplesmente não havia templo sem comércio. Jesus mostra sua indignação contra os interesses e lucros dos dirigentes do templo, e pede o fim deste sistema de culto que penaliza e exclui os mais pobres e deixa de ser a casa da acolhida inclusiva desejada por Deus.

No final, Jesus recorre a um exagero de linguagem para sublinhar sua lição: como a “legião” de demônios (exército romano), a “montanha” (outro nome do templo) pode ser eliminada e lançada no mar. O sistema do templo deve e pode ser mudado, por mais que apareça como sólido e monolítico; o mundo deve e pode ser refeito, por mais que as elites digam que é o melhor dos mundos possíveis.

Nesta cena, a oração expressa a força da utopia e da imaginação profética. Não se trata de uma simples ideologia, de uma força mecânica e mensurável, nem de coisa do outro mundo, mas de teimosia utópica. A oração é o suspiro vital no qual os oprimidos clamam e refazem as forças. E o perdão recíproco é exatamente uma alternativa ao templo: Deus dispensa o templo, e prefere habitar na fraternidade.

 

Sugestões para a meditação

Preste bem a atenção nas imagens da figueira e da montanha, e procure perceber como ambas simbolizam o templo (esterilidade e estabilidade)

Você crê realmente que a oração tem a força que Jesus lhe atribui no final deste episódio? Como você compreende isso?

Você concorda que um templo ou um sistema religioso construído e mantido em nome de Deus pode ser uma negação de Deus?

Você acredita que a oração e a utopia têm força para mudar o que parece imutável, tornar possível um outro mundo?

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Eu quero ver!

Seguir Jesus com o coração e os olhos abertos

1094 | Tempo Comum | 8ª Semana | Quinta-feira | Marcos 10,46-52

Jesus está na última etapa do seu caminho de “subida” da Galileia a Jerusalém. Os mendigos, dependentes das intensas e constantes peregrinações populares, aparecem cada vez mais frequentemente. Jericó fica a poucos quilômetros da capital cantada e idealizada, está situada num vale, praticamente na área suburbana de Jerusalém.  Por outro lado, os discípulos continuam cegos e fechados à proposta de Jesus, e os ricos desertam desanimados com as exigências. É uma parábola do discipulado missionário em todos os tempos.

O cego e mendigo Bartimeu, cujo nome significa literalmente “filho da impureza”, “sujo” ou “impuro”. Enquanto os discípulos, que pensam enxergar bem, acompanham Jesus pelo caminho, o cego e mendigo está fixo à terra e depende da boa vontade dos peregrinos. Enquanto os discípulos esperam que Jesus seja um messias poderoso e vitorioso, o mendigo o invoca no horizonte de um messianismo popular, identificado com a causa dos pobres (“filho de Davi”).

Jesus faz ao cego a mesma pergunta que fizera aos filhos de Zebedeu, mas, enquanto Tiago, João e todos os outros discípulos do grupo dos Doze desejam e pedem privilégios, o mendigo e cego deseja e pede unicamente que seus olhos se abram. O homem rico não foi capaz de distribuir seus bens para seguir Jesus, enquanto que Bartimeu abandona o manto, o único bem que possui, e põe-se a caminho. Os ricos e nobres acabam sendo os últimos, enquanto os pobres e “sujos” e pobres são os primeiros a seguir Jesus. É uma inversão impressionante e difícil de ser assimilada.

Bastimeu é um personagem oposto ao jovem rico, e é o absoluto protagonista nesta cena: grita, torna a gritar, não obedece quando querem que ele se cale, faz Jesus parar, desfaz-se do manto, dá um pulo, põe-se de pé, dialoga, pede e caminha. Por isso, ele é uma metáfora de toda pessoa habitada pelo desejo de ver e conhecer, um modelo ideal ou paradigma de discípulo de Jesus. E, de tabela, é também um “teólogo popular”, pois, mesmo cego, reconhece em Jesus o herdeiro de Davi, e invoca a compaixão daquele que representa o líder popular que sabe o que significa ser suspeito, excluído e marginalizado, inclusive pelo pai e pelos irmãos maiores.

 

Sugestões para a meditação

Observe bem o papel de protagonista de Bartimeu, enumere as ações que ele realiza (os verbos que as descrevem)

Você percebe a diferença radical entre aquilo que Tiago e João pedem e aquilo que o mendigo cego pede a Jesus?

Bartimeu é o primeiro personagem a chamar Jesus de “filho de Davi”; as palavras que você usa para se dirigir a Jesus falam de que?

Qual é seu desejo mais profundo, que queima suas entranhas, e pelo qual você seria capaz de deixar tudo o mais?

terça-feira, 26 de maio de 2026

Pelos primeiros lugares

Os primeiros lugares são dos servos mais humildes

1093 | Tempo Comum | 8ª Semana | Quarta-feira | Marcos 10,32-45

Todas as cenas e palavras do capítulo 10 de Marcos são intensas e densas. Depois da cena do homem rico que desiste de seguir Jesus, do ensino sobre o obstáculo da riqueza e da catequese sobre os frutos do despojamento, a reação dos discípulos é confusa e ambivalente: admiração, medo, ambição, competição e indignação. Neste contexto, Jesus retoma seu ensino. No centro da cena de hoje está o modelo de liderança ensinado por Jesus e a luta pelo poder que envolve a maioria dos discípulos.

Enquanto Jesus fala abertamente das consequências da sua fidelidade ao Reino de Deus e ao Deus do Reino – traição, julgamento, tortura, execução, exclusão, morte e ressurreição – os discípulos se envolvem em disputas nada fraternas e até vergonhosas pelos lugares de honra e pela herança da liderança de Jesus. Parece que Tiago e João imaginam que Jesus está prestes a dar uma espécie de “golpe messiânico”, e que a previsível e aparente derrota da cruz será substituída por uma estrondosa vitória. Nesta onda, ambicionam privilégios.

É outra a lógica do Reino de Deus, vivida e ensinada por Jesus. Ele não transfere sua liderança a uma espécie de “dinastia” ou “delegação”. O poder ambicionado e disputado por Tiago e João – e por todos os outros discípulos, que ficam indignados por eles terem saído à frente deles! – é exatamente aquele que impõe a Jesus a traição, o julgamento, a tortura e a execução. A liderança e a honra de Jesus estão no serviço, em ser o último. Jesus representa a liderança exatamente contrária ao poder exercido pelos administradores coloniais impostos por Roma.

A atitude dos dois irmãos denuncia que, na verdade, eles não haviam abandonado “tudo por Jesus”. Eles continuavam acorrentados aos ideais de poder nos moldes colonialistas. Eles não se envergonham de dizer que estão preparados para enfrentar as oposições como Jesus, mas a resposta de Jesus a eles é cheia de ironia. Eles estão cegos pela ambição e surdos à proposta alternativa de Jesus. Não sabem ou não têm noção do que estão ambicionando e pedindo. Depois de tudo, os discípulos continuam se inspirando nos “grandes” e nos “chefes” que oprimem e tiranizam, e não conseguem entender que Jesus encarna uma liderança alternativa e não violenta.

 

Sugestões para a meditação

Observe bem a reação dos discípulos (o que dizem e o que fazem), especialmente dos dois filhos de Zebedeu (Tiago e João)

Será que também nós não “fazemos menos” da traição, condenação, tortura e execução de Jesus, como se fossem disfarces da sua vitória?

Será que estamos tirando as consequências da afirmação de que Jesus não veio para ser servido mas para servir?

Como as pessoas da Igreja exercem a liderança e os ministérios: inspirados no “Filho do Homem” ou nos “chefes” e nos “grandes”?

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (4)

Por um novo início

Somos todos convidados/as a começar de novo, deixando para trás uma etapa de autodestruição, mas ainda não desenvolvemos uma consciência universal que o torne possível. Como nunca antes na história, o destino comum obriga-nos a procurar um novo início. Que o nosso seja um tempo que se recorde pelo despertar duma nova reverência face à vida, pela firme resolução de alcançar a sustentabilidade, pela intensificação da luta em prol da justiça e da paz e pela jubilosa celebração da vida (§ 207).

É louvável a tarefa de organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais (§ 38).

Através de organismos não-governamentais e associações, a sociedade, deve forçar os governos a desenvolver normas, procedimentos e controles mais rigorosos. Se os cidadãos não controlam o poder político também não é possível combater os danos ambientais (§ 179).

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Retorno assegurado

Diante de Deus ninguém tem conta a cobrar

1092 | Tempo Comum | 8ª Semana | Terça-feira | Marcos 10,28-31

Concluído o tempo pascal, retomemos o tempo comum e voltemos ao evangelho segundo Marcos. Os versículos de hoje estão situados após a cena da deserção do homem rico diante das exigências de Jesus para ser seu discípulo. Ele sente-se bom e irrepreensível, um ‘homem de bem’ como se diz hoje, e volta para casa desiludido. Diante das palavras e atitudes daquele homem, Jesus desabafa: que um rico aceite seu caminho é tão raro como um camelo passar pelo buraco de uma agulha!

Os discípulos reagem à comparação de Jesus, pois pensam que se os ricos não estão mais perto de Deus, o que dizer então dos doentes, dos pobres e dos estrangeiros, que eles tratam como ‘sujeitos suspeitos’? Mas, aquilo que para muitos parece impossível, para Deus é absolutamente normal: a riqueza dos ricos não é bênção de Deus, e a prosperidade não é sinal de fidelidade; no reino de Deus e no coração do Deus do Reino, os pobres e doentes estão no centro!

É neste contexto que Pedro toma a Palavra e apresenta a Jesus a ‘causa’ dos discípulos: aquilo que o jovem rico não fez, os discípulos o fizeram, livremente ou por causa das perseguições. Eles deixaram os bens e seguiram Jesus, em busca do único bem: do reino de Deus. Pedro parece “cobrar a conta”, pois ele e seus companheiros ainda não haviam provado a vida eterna, apenas incompreensões.

Jesus responde sublinhando que o retorno prometido está assegurado, mas em dois tempos: agora, durante esta vida; no mundo futuro. Agora, quem relativizou tudo pelo absoluto do Reino de Deus já recebe 100 vezes mais em termos de hospitalidade, ajuda, companheiros e apoiadores mediante a fraternidade e a partilha comunitária. Mas isso sempre em meio às perseguições, próprias do discípulo no mundo.

No futuro, no Reino de Deus plenamente realizado, que começa aqui, mas aqui não chega ao seu termo, está assegurada uma vida densa e intensa em termos de dinamismo e de sentido, uma vida que desborda a história e avança para a eternidade. Com o olhar fixo no “mundo futuro”, o discípulo de Jesus é convidado e ver já “agora” os frutos da sua entrega: os benefícios da vida em comum, que são os irmãos e irmãs, os bem partilhados, um futuro de esperança.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha a cena, relendo os versos 15 a 27, que relatam o encontro de Jesus com as crianças e, depois, com o homem rico

Observe a reação dos discípulos, especialmente do homem que se apresentou como candidato a discípulo

Será que não somos tentados a nos apresentar a Deus ostentando nossos méritos, sem consciência daquilo que nos falta?

Conseguimos perceber que tudo aquilo do que abrimos mão nos havia sido dado, e que tudo o que temos pertence a todos?

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (3)

A busca de novos paradigmas

O Papa Bento XVI convocou o mundo a eliminar as causas estruturais das disfunções da economia mundial e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito do meio ambiente. Lembrou que o mundo não pode ser analisado considerando apenas sobre um dos seus aspectos, porque o livro da natureza é uno e indivisível, incluindo, entre outras coisas, o ambiente, a vida, a sexualidade, a família, as relações sociais. É que a degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana (§ 6).

A ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem. E isto exige sentar-se a pensar e discutir acerca das condições de vida e de sobrevivência duma sociedade, com a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo. Nunca é demais insistir que tudo está interligado (§ 138).

Muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico ou político parecem concentrar-se sobretudo em mascarar os problemas ou ocultar os seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos de mudanças climáticas. Mas tornou-se urgente o desenvolvimento de políticas capazes de fazer com que, nos próximos anos, a emissão de anidrido carbônico e outros gases altamente poluentes se reduza drasticamente, substituindo os combustíveis fósseis e desenvolvendo fontes de energia renovável (§ 26).

Para que surjam novos modelos de progresso, precisamos converter o modelo de desenvolvimento global, refletir sobre o sentido da economia e dos seus objetivos, para corrigir as suas disfunções e deturpações. Não é suficiente conciliar, a meio termo, o cuidado da natureza com o ganho financeiro, ou a preservação do meio ambiente com o progresso. Neste campo, os meios-termos são apenas um pequeno adiamento do colapso. Trata-se de redefinir o progresso. Um desenvolvimento tecnológico e econômico, que não deixa um mundo melhor e uma qualidade de vida integralmente superior, não se pode considerar progresso (§ 194).

A humanidade precisa tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades (§§ 5, 23).

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos. Muitos sabem que não basta o progresso atual e a mera acumulação de objetos ou prazeres para dar sentido e alegria ao coração humano, mas não se sentem capazes de renunciar àquilo que o mercado lhes oferece. Nos países que deveriam realizar as maiores mudanças nos hábitos de consumo, os jovens têm uma nova sensibilidade ecológica e um espírito generoso, e alguns deles lutam admiravelmente pela defesa do meio ambiente, mas cresceram num contexto de altíssimo consumo e bem-estar que torna difícil a maturação doutros hábitos (§ 209).

Uma mudança nos estilos de vida poderia chegar a exercer uma pressão salutar sobre quem detêm o poder político, econômico e social. Quando os hábitos da sociedade afetam os ganhos das empresas, estas veem-se pressionadas a mudar a produção. Isto lembra-nos a responsabilidade social dos consumidores. Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico.  Por isso, hoje, o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós (§ 206).

Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afetar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros. A construção míope do poder freia a inserção duma agenda ambiental com visão ampla na agenda pública dos governos. A grandeza política mostra-se quando, em momentos difíceis, se trabalha com base em grandes princípios e pensando no bem comum a longo prazo (§ 178)

Prestar atenção à beleza e amá-la ajuda-nos a sair do pragmatismo utilitarista. Quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos. Ao mesmo tempo, se se quer conseguir mudanças profundas, é preciso ter presente que os modelos de pensamento influem realmente nos comportamentos. A educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza (§ 215).

domingo, 24 de maio de 2026

Eis aí tua Mãe!

Mãe da Igreja discípula missionária, rogai por nós!

1091 | Tempo Comum | Memória de Maria, Mãe da Igreja | João 19,25-34

Com a solenidade de Pentecostes havíamos concluído nosso caminho com o Evangelho de João. Mas hoje, em vista da memória litúrgica de “Maria, mãe da Igreja”, continuamos com ele. Esta memória nos sugere duas coisas: que Maria estava presente no cenáculo, quando da vinda do Espírito Santo, e também é dinamizada por ele; que precisamos fazer uma interpretação mariana dessa cena localizada no relato da paixão e morte de Jesus.

Segundo João, no momento da paixão no Calvário, a mãe de Jesus, Maria Madalena e o discípulo amado estão de pé, diante da cruz de Jesus. Jesus os vê, e faz uma dupla declaração, que é também um duplo pedido: “Mulher, este é teu filho!” “Filho, esta é tua mãe!” No alto do calvário, diante da expressão máxima do amor de Deus por nós, Jesus nos entrega Maria como mãe dos discípulos missionários, como mãe da Igreja. E nos convida a levá-la conosco, como a discípula primeira e fiel. Nasce aqui uma Nova Família, semente de uma Nova Humanidade.

É interessante notar que o texto original não fala da “mãe de Jesus”. O evangelista a apresenta apenas como “mulher” e “mãe”. Ela representa o antigo Povo de Deus, do qual procedem Jesus e a primeira comunidade de discípulos. Ela é convidada a fazer a passagem, reconhecendo e aceitando o Novo Povo de Deus nascido da nova aliança. E o discípulo amado, que representa o discipulado perseverante, tijolo vivo na construção do templo de Deus, é convidado a reconhecer e proteger suas raízes.

Na sequência, Jesus diz que tem sede. É um novo pedido de acolhida. Os representantes do judaísmo não têm água, nem vinho (amor, acolhida), e só sabem oferecer-lhe vinagre (ódio). Aceitando, sem revidar, mais este gesto de fechamento e violência, Jesus pode dizer que consumou em sua vida a demonstração do amor do Pai pelo mundo e, em si mesmo, arrematou ou deu o toque final à criação do Homem e da Mulher novos, iniciada no Gênesis.

Do corte que o soldado faz no corpo de Jesus com sua espada escorre sangue (o amor generoso e fecundo) e água (o Espírito que gera a Igreja). Isso não nos vem de Maria, mas do Filho que ela entrega a nós como Mãe. Neste sentido, ela é mãe da comunidade dos discípulos, mãe dos crentes. É isso que também nos é revelado na sua presença no cenáculo, no dia de pentecostes.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no Calvário, aos pés da cruz, com Jesus, sua mãe, Maria Madalena e o discípulo amigo e fiel

Permita que ressoem em você as densas e ternas palavras de Jesus: “Este é teu filho! Esta é tua mãe! Tenho sede! Tudo está consumado!”

Acolha Maria como a mãe querida que Jesus partilha conosco e pede que levemos para nossa casa

O Papa Francisco e as mudanças climáticas (2)

A raiz do problema

No paradigma homogêneo e unidimensional, as pessoas pensam que têm à sua frente uma realidade informe totalmente disponível para a manipulação. O que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana. O ser humano e as coisas deixam de ser parceiros e se tornam inimigos. Daqui passa-se à ideia de um crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos das finanças e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a espremê-lo além do limite (§ 106).

Atualmente, alguns setores econômicos têm mais poder do que os próprios Estados. Mas não se pode justificar uma economia sem política, porque seria incapaz de promover outra lógica para governar os vários aspectos da crise atual. A lógica que não deixa espaço para uma sincera preocupação pelo meio ambiente é a mesma em que não encontra espaço a preocupação por integrar os mais frágeis, porque, no modelo do êxito e individualista em vigor, parece que não faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam também singrar na vida (§ 196).