sábado, 2 de maio de 2026

Caminho sem pedágios e Verdade sem fake

“Ninguém vai ao Pai senão por mim”

1069 | Tempo Pascal | 5ª Semana | Domingo | João 14,1-12

O belo e sério diálogo de Jesus com seus discípulos, descrito hoje pelo evangelista, transcorre na noite da última ceia, após o lava-pés.  O clima é de sincera amizade e de apreensão frente às ameaças; de serena alegria da parte de quem se entrega inteiramente, e de inquietante dúvida de quem não consegue entender o caminho do serviço; de grande perturbação dos discípulos, e de Jesus também! É neste clima que Jesus fala de um lar cálido e com muitos lugares, do caminho para o Pai, da presença do Pai na sua vida e nas suas ações.

Como os discípulos depois da ceia, às vezes nos sentimos envolvidos por nuvens tenebrosas.  Como no atual momento vivido pelo povo brasileiro, o horizonte utópico se escurece, nossas forças de resistência se esvaem, não sabemos o rumo que devemos seguir e nada parece disposto a hospedar nossos sonhos. É neste contexto que Jesus promete: “Existem muitas moradas na casa do meu Pai!”  Podemos estar seguros de que, no coração de Deus há um lugar para aqueles que percorrem o caminho do êxodo, rumo a uma terra onde a justiça beija a paz.

Aqueles que queremos chegar ao Pai e ao mundo por ele sonhado temos um caminho seguro: este caminho é o próprio Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, aquele que coloca os últimos em primeiro lugar, que acolhe enobrecido o perfume que uma mulher malvista derrama nos seus pés, que se reparte no pão, que se ajoelha para lavar os pés dos discípulos, que nos ama como amigos e amigas, que perdoa o ladrão arrependido... Este é o Caminho seguro que leva infalivelmente ao Pai.

Jesus Cristo é a Verdade que nos acalma e enche de alegria. A verdade sobre a pessoa humana e sobre Deus. A verdade mais profunda do ser humano é sua capacidade de ternura e solidariedade. A verdade mais profunda de Deus é sua aliança com seu povo, sua companhia insuperável. Esta é uma verdade que exerce uma incrível atração sobre nós, que nos lança para fora e para frente.

Em tudo o que fez e viveu, inclusive no aparente abandono sofrido na cruz, Jesus estava no Pai e o Pai estava nele. Ele aprendeu e ensinou aos seus discípulos que não há alimento mais saudável e nutritivo que realizar a vontade libertadora de Deus, e é isso que significa estar no Pai. Ele agiu sem medo ou cansaço no resgate da dignidade e da vida das pessoas necessitadas, e isso quer dizer que Deus estava nele.

 

Sugestões para a meditação

O que mais lhe perturba e angustia hoje, nesta fase da sua vida e da história? Sua meta é a meta de Jesus, seu caminho é o caminho de Jesus?

O que significa ter para você ter assegurado um lugar preparado na intimidade com o Pai?

Como este texto nos ajuda em nossas dificuldades de reconhecer a presença de Deus em Jesus e nos irmãos e irmãs?

Caminho-Verdade-Vida

ACREDITAR EM JESUS, O CRISTO

Há momentos na vida de verdadeira sinceridade em que surgem do nosso interior, com lucidez e clareza pouco habituais, as perguntas mais decisivas: afinal, em que é que eu acredito? O que é que espero? Em quem apoio a minha existência?

Ser cristão é, antes de mais nada, acreditar em Cristo. Ter a sorte de nos termos encontrado com Ele. Acima de qualquer crença, fórmula, rito ou ideologização, o que é verdadeiramente decisivo na experiência cristã é o encontro com Jesus, o Cristo.

Ir descobrindo por experiência pessoal, sem que ninguém nos tenha de dizer de fora, toda a força, a luz, a alegria, a vida que podemos ir recebendo de Cristo. Poder dizer a partir da própria experiência que Jesus é «caminho, verdade e vida».

Em primeiro lugar, descobri-lo como Caminho. Ouvir nele o convite a caminhar, avançar sempre, nunca parar, renovar-nos constantemente, aprofundar na vida, construir um mundo justo, fazer uma Igreja mais evangélica. Apoiar-nos em Cristo para percorrer dia após dia o caminho doloroso e, ao mesmo tempo, jubiloso, que vai da desconfiança à fé.

Em segundo lugar, encontrar em Cristo a Verdade. Descobrir a partir dele Deus na raiz e no fim do amor que os seres humanos dão e acolhem. Perceber, finalmente, que a pessoa só é humana no amor. Descobrir que a única verdade é o amor, e descobri-lo aproximando-nos do ser concreto que sofre e é esquecido.

Em terceiro lugar, encontrar em Cristo a Vida. Na verdade, as pessoas acreditam naquele que lhes dá vida. Por isso, ser cristão não é admirar um líder nem elaborar e pronunciar uma confissão sobre Cristo. É encontrar-nos com um Cristo vivo e capaz de nos fazer viver.

Jesus é caminho, verdade e vida. É outro modo de caminhar pela vida. Outra maneira de ver e sentir a existência. Outra dimensão mais profunda. Outra lucidez e outra generosidade. Outro horizonte e outra compreensão. Outra luz. Outra energia. Outro modo de ser. Outra liberdade. Outra esperança. Outro viver e outro morrer.

 José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Conhecemos Jesus?

“Há tempo estás comigo, e não me conheces?”

1068 | Tempo Pascal | 4ª Semana | Sábado | João 14,7-14

Este é o Evangelho que ilumina a nossa vida neste sábado. A passagem faz parte da comovida catequese que Jesus desenvolve após a ceia e do lava-pés, para orientar e confortar os discípulos, que estavam muito assustados. Um deles, Filipe, pede que Jesus lhes mostre o Pai. “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”!

Jesus já havia deixado claro que é nele que temos acesso ao Pai, pois ele é o caminho, a verdade e a vida. Por isso, responde quase que lamentando a dificuldade de Filipe e dos demais: “Se me conheceis, conhecereis também o meu Pai. Há tanto tempo estou convosco e não me conheces? Quem me vê, vê o Pai. Crede, ao menos, por causa destas obras...”

O problema de Filipe é também o nosso. Custa-nos aceitar que o Deus que revestimos de poder e colocamos no mais alto dos céus nos seja dado a conhecer nas ações concretas e na vida de Jesus de Nazaré. Não queremos ver mais, mas ver outras coisas, mais abstratas e manipuláveis; menos interpeladoras, como o é lavar os pés dos irmãos, alimentar os famintos, dar a vida sem reservas.

O problema continua e se torna mais sério à medida em que queremos dar a impressão de que conhecemos Jesus, e fazemos o possível para impor a ideia que temos dele a quem crê diversamente. A tentação da qual não nos livramos facilmente é esta: fazer Jesus “vestir o figurino que preparamos para ele”, obrigá-lo a fazer aquilo que decidimos ou que aprendemos que ele deve fazer em nossas faculdades de teologia e gabinetes doutrinais.

Imagino Jesus dirigindo-se a nós, dizendo afirmativamente: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheces...” Crer nele é fazer aquilo que ele faz, prosseguir sua ação libertadora, entrar no caminho da compaixão, armar a tenda dos nossos sonhos e projetos no chão da humanidade ferida e sedenta de vida. O resto é culto às vaidades que passam, serviço aos poderes que oprimem, fuga da responsabilidade.

 

Sugestões para a meditação

Recomponha na memória os gestos as palavras desse diálogo de Jesus com os seus discípulos no ambiente da última ceia

Será que também nós partilhamos da cegueira de Filipe, e não reconhecemos Deus naquilo que Jesus faz e pede?

Quais são as ações de Jesus que expressam de modo mais eloquente e libertador a ação do Pai?

Como podemos nós, em nosso tempo, recriar esta ação de Jesus, inclusive com maior alcance e eficácia?

Salve 1º de maio!

Quando o estado desregulamenta a exploração aumenta

O dia 1º de maio é uma data dedicada aos trabalhadores e celebrada, de alguma forma, em todos os países. A data está relacionada às lutas dos trabalhadores por melhores condições de trabalho desde a revolução industrial. No final do Século XIX, a realidade dos trabalhadores era duríssima, e jornadas de trabalho de 12 horas eram comuns.

Para conquistar a redução dessa jornada extenuante, os trabalhadores de Chicago organizaram uma greve que, no dia 1º de maio de 1886, mobilizou mais de 340 mil trabalhadores por todo o país. A greve continuou, com dezenas de manifestantes mortos por policiais e centenas de trabalhadores espancados e presos.

Alguns anos depois, o Papa Leão XIII manifestou-se em relação à exploração e à violência do capitalismo através da carta Rerum Novarum (15.05.1891). Este documento é considerado uma das fontes ocidental do direito do trabalho, um impulso essencial para a regulamentação estatal dos contratos de trabalho e o início da reflexão social da Igreja.

Desde então, a condição dos trabalhadores melhorou consideravelmente, especialmente no hemisfério Norte. Entretanto, hoje há uma tendência alarmante de retrocesso a situações semelhantes àquela de 150 anos atrás. A revolução digital e sua aplicação ao mundo do trabalho está jogando milhões de pessoas no trabalho precário.

As empresas-plataformas vêm tomando medidas para transferir os riscos da atividade econômica aos trabalhadores, apelando ao empreendedorismo e pressionando o Estado a legalizar a pejotização (transformação em pessoas jurídicas) dos trabalhadores. O horizonte que se desenha é tenebroso, com uma escala de trabalho de 7 x 0.

Veja-se o caso dos entregadores de aplicativos: a jornada média é de 10 horas por dia; a renda líquida é de R$ 6,50 por hora trabalhada; 3 em cada 10 entregadores enfrentam insegurança alimentar; 60% deles trabalham na informalidade; 39% das vítimas fatais de acidentes de trânsito em 2023 eram motociclistas, e 80% delas eram entregadores...

Anunciada como modernização das relações de trabalho, a pejotização é uma fraude jurídica que leva os trabalhadores (“empreendedores”) a um retrocesso de 150 anos na história: sem limite de jornada de trabalho, sem férias, sem licença maternidade, sem fundo de garantia, sem aposentadoria, sem licença em caso de doença. Onde o Estado não regulamenta, vigora a lei do mais forte, e “quem pode mais chora menos”.