Não se esqueça
de nós!
O evangelista João nos
informa que, na noite da ceia e do lava-pés, Jesus se demora num diálogo tenso
e amistoso com os discípulos. Eles estavam perturbados com o gesto radical de
Jesus e com o anúncio da sua partida para o Pai, que coincide com a “elevação”
na cruz. Eles não conseguem imaginar a vida sem a presença orientadora de
Jesus.
É neste contexto que
Pedro pergunta a Jesus para onde ele vai (cf. João 13,36-38). É como se Pedro
suplicasse: “Não nos deixe sozinhos!” Jesus responde indiretamente, dizendo que
Pedro não poderia acompanhá-lo naquele momento, mas o faria mais tarde. Pedro
reage dizendo que está disposto a dar a vida por Jesus (mas não para
viver como Jesus).
Transcorridos os dias em
que aquilo que Jesus anunciou na ceia se realizou nas ruas de Jerusalém e no
calvário, fora dos muros da cidade, e depois do tempo necessário para a
superação do escândalo e o reconhecimento dos sinais de que o Crucificado
vivia, Jesus é “elevado aos céus”, e uma nuvem o oculta “aos olhos dos
discípulos” (cf. Atos 1,9).
Não obstante a intensa e incisiva catequese de
Jesus sobre a validade e o caráter divino do seu caminho de amor e compaixão,
os discípulos ainda alimentam expectativas de uma ação poderosa e restauradora
por parte dele. Jesus insiste que o tempo é de testemunho e de missão, mas eles
ficam parados, olhando para o céu, esperando um evento miraculoso (cf. Atos 1,6-11).
Ainda hoje, há cristãos que esperam e suplicam
ansiosamente que Jesus volte e conclua a obra que a cruz interrompeu. Eles
esquecem que a cruz – o amor incondicional de Jesus e o amor incondicional dos
discípulos – é a ação definitiva de Deus para mudar o mundo. E não aprenderam
que a ascensão de Jesus é a sua divina inserção no coração do mundo pelo nosso
testemunho.
Na cena da ascensão, os anjos continuam a
questionar a nossa inércia e a tentação de delegar a Jesus a tarefa que é nossa
(cf. Atos 1,11). Ele não nos deixou órfãos e indefesos, com uma missão
impossível e cercados de perigos e ameaças. Ele nos envia o Defensor, aquele
que nos envolve de Sabedoria, Inteligência e Fortaleza, e isso basta. Ele não
esquece de nós! Ele está no meio de nós!
Somos nós, discípulas e discípulos de Jesus e
ungidos pelo seu Espírito, que somos convocados a não esquecer as vítimas
da violência e as pessoas que estão à margem; a ser pais e irmãos de quem
sente-se órfão de Esperança; a estar próximos de quem se desespera com a
impunidade dos grandes algozes do povo. E a sermos Igrejas que rezam e caminham
juntas, conscientes de terem um só coração e um só espírito, e de serem chamadas
a uma única esperança.
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