domingo, 31 de maio de 2026

Proprietários ou cuidadores?

Nada nos pertence, somos arrendatários!

1098 | Tempo Comum | 9ª Semana | Segunda-feira | Marcos 12,1-12

Este texto está situado no contexto da presença tensa e provocativa de Jesus em Jerusalém, para onde peregrinou lúcida e decididamente. Ele havia sido recebido com júbilo na periferia da capital, entrado no templo e expulsado os comerciantes que exploravam os peregrinos. A classe dirigente pedira explicações, mas era apenas um ardil para ganhar tempo, pois haviam decidido acabar com Jesus (cf. Mc 11,18).

Então, Jesus retoma o debate com os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os anciãos – os grupos que detinham o controle religioso, ideológico, político e econômico a partir do templo – recorrendo a algumas parábolas. Longe de ser apenas uma simplificação da linguagem e uma comunicação próxima à experiência do povo simples, as parábolas são uma espécie de armadilha para pegar o interlocutor desprevenido, “no contrapé”, como dizemos hoje.

A imagem da vinha é muito comum nos escritos do antigo testamento, especialmente nos profetas. O povo de Israel é comparado a uma vinha plantada com carinho e atenção, cercada e protegida pela Lei. Alguns profetas denunciam a vinha, que não produzi frutos bons (cf. Is 5,1-7); outros denunciam os agricultores que deveriam tomar conta dela (cf. Is 5,8-24). Por isso, anunciam que Deus pode tanto destruir a vinha como tomá-la daqueles a quem confiou o cultivo e o cuidado.

Na parábola, fica evidenciada a crescente violência com que são repelidos os enviados do dono da vinha. Eles não só administram mal a vinha que não lhes pertence, como conspiram para se apossarem dela. Por isso compreende-se a violência reativa do dono da vinha: ele elimina os vinhateiros e entrega sua vinha a outros. Os interlocutores de Jesus não demoram a compreender que Jesus se refere a eles. A alegoria política e o discurso subversivo de Jesus provocam na classe dirigente a terceira decisão de prendê-lo.

Deixando de lado a linguagem das parábolas, Jesus cita o Salmo 118 (117), e o aplica a si mesmo (e não a Davi, como era usual): “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. Ele é o filho que os vinhateiros querem matar para assumir o domínio absoluto sobre o povo. Não esqueçamos que esse é um dos textos mais citados no novo testamento, uma espécie de “chave de leitura” tanto para o destino de Jesus quanto para o desfecho da vida dos seus seguidores.

 

Sugestões para a meditação

Situe-se no templo de Jerusalém, próximo a Jesus e à elite dirigente, e observe a liberdade e a coragem com que Jesus a enfrente e desmascara

Se a parábola é de fato uma alegoria política, quais as luzes que ela oferece para uma apreciação das classes dirigentes do nosso país?

Será que as autoridades da Igreja estão realmente imunes à tentação de se apossar da vinha que não lhes pertence?

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