Não renunciar ao próprio pensamento
Há muito tempo que existem múltiplas
evidências de que os algoritmos
concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para
as plataformas – recompensam as emoções
rápidas e, ao contrário, penalizam as
expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a
reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e
indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento
crítico, aumentando a polarização social.
Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial
como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de
todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode
enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e
criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.
Embora a IA possa dar apoio e assistência
na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio
pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos
o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas,
emocionais e comunicativas.
Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o
controle da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria
criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered
by AI”, transformando as pessoas em
meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anônimos,
sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito
da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de
treino para as máquinas.
No entanto, a questão que realmente nos
interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós
podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma
inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde
sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento
sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal.
Contudo, renunciar ao processo criativo e
entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa
enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e
aos outros. Significa esconder o nosso
rosto e silenciar a nossa voz.
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