O Brasil
será uma nação de imprestáveis?
O
Papa Leão XIV começa sua carta encíclica assinalando que “cada geração recebe
em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história
como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça
promovida e a fraternidade” (n. 1). E em todo o texto, afirma e reafirma a
grandeza da humanidade.
Somos
herdeiros de punhado de tribos escravizadas e consideradas “imprestáveis”, que,
congregadas pela mesma fé e lideradas por Moisés, enganaram o faraó e fugiram, depois
de roubar algo de quem lhes haviam roubado quase tudo. E Deus as sustentou com uma
“bolsa maná” e uma “bolsa codorna” no deserto, por 40 anos (cf. Ex 12,35; 16,1-36).
Mil
anos se passaram, e um certo Jesus, carpinteiro em Nazaré, deixou seu ofício
para anunciar a chegada dos Novos Céus e da Nova Terra (cf. Is 65,17-25), sonhados
por muitas gerações. Reuniu um grupo de gente “imprestável”, desprovida de todo
refinamento cultural. E ensinava uma doutrina que, aos olhos das elites, era
uma afronta.
Ele
ensinava, por exemplo, que, aos olhos de Deus, as pessoas colocadas em último
lugar na escala social são as que merecem mais atenção; que saciar a fome dos
miseráveis é tarefa daqueles que nele acreditam; que as prostitutas e os publicanos
são mais dignos e honrados que as “pessoas de bem”; que as pessoas vulneráveis
são a sua imagem, trabalhem ou não; que não é possível, ao mesmo tempo, servir
a Deus e ao dinheiro.
Paulo,
judeu, fariseu e cidadão romano, foi seduzido por este homem, que os cristãos
creem ser o filho e enviado de Deus. Trancafiado no cárcere por prosseguir a
plataforma de Jesus, Paulo conheceu um homem que trazia no próprio nome a tarja
de “imprestável”: Onésimo, que fora escravo de um cristão chamado Filemon, e
havia fugido.
Depois
de causar prejuízo ao seu antigo senhor, Onésimo se encontrou com Paulo no
cárcere, e se tornou cristão. E Paulo o convenceu a voltar, e mandou com ele um
bilhete ao amigo Filemon. É um dos mais comoventes testemunhos das mudanças que
a fé provoca na vida pessoal e social. Paulo diz que envia Onésimo como se fosse
o seu próprio coração, como se fosse ele mesmo. E pede que Filemon o receba
como irmão.
Hoje,
“a idolatria do mercado” ainda trata milhões de pessoas como “imprestáveis”. Um
candidato a presidente, herdeiro de grande fortuna, fala e repete, sob aplausos
de uma elite de empresários, que um Estado que socorre as pessoas vulneráveis, acaba
produzindo uma “geração de imprestáveis”.
Será que modernizar a economia significaria apenas aperfeiçoar os
mecanismos de expropriação e deixar os pobres à própria sorte?
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