sexta-feira, 26 de junho de 2026

Auxílio e preconceito

O Brasil será uma nação de imprestáveis?

O Papa Leão XIV começa sua carta encíclica assinalando que “cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade” (n. 1). E em todo o texto, afirma e reafirma a grandeza da humanidade.

Somos herdeiros de punhado de tribos escravizadas e consideradas “imprestáveis”, que, congregadas pela mesma fé e lideradas por Moisés, enganaram o faraó e fugiram, depois de roubar algo de quem lhes haviam roubado quase tudo. E Deus as sustentou com uma “bolsa maná” e uma “bolsa codorna” no deserto, por 40 anos (cf. Ex 12,35; 16,1-36).

Mil anos se passaram, e um certo Jesus, carpinteiro em Nazaré, deixou seu ofício para anunciar a chegada dos Novos Céus e da Nova Terra (cf. Is 65,17-25), sonhados por muitas gerações. Reuniu um grupo de gente “imprestável”, desprovida de todo refinamento cultural. E ensinava uma doutrina que, aos olhos das elites, era uma afronta.

Ele ensinava, por exemplo, que, aos olhos de Deus, as pessoas colocadas em último lugar na escala social são as que merecem mais atenção; que saciar a fome dos miseráveis é tarefa daqueles que nele acreditam; que as prostitutas e os publicanos são mais dignos e honrados que as “pessoas de bem”; que as pessoas vulneráveis são a sua imagem, trabalhem ou não; que não é possível, ao mesmo tempo, servir a Deus e ao dinheiro.

Paulo, judeu, fariseu e cidadão romano, foi seduzido por este homem, que os cristãos creem ser o filho e enviado de Deus. Trancafiado no cárcere por prosseguir a plataforma de Jesus, Paulo conheceu um homem que trazia no próprio nome a tarja de “imprestável”: Onésimo, que fora escravo de um cristão chamado Filemon, e havia fugido.

Depois de causar prejuízo ao seu antigo senhor, Onésimo se encontrou com Paulo no cárcere, e se tornou cristão. E Paulo o convenceu a voltar, e mandou com ele um bilhete ao amigo Filemon. É um dos mais comoventes testemunhos das mudanças que a fé provoca na vida pessoal e social. Paulo diz que envia Onésimo como se fosse o seu próprio coração, como se fosse ele mesmo. E pede que Filemon o receba como irmão.

Hoje, “a idolatria do mercado” ainda trata milhões de pessoas como “imprestáveis”. Um candidato a presidente, herdeiro de grande fortuna, fala e repete, sob aplausos de uma elite de empresários, que um Estado que socorre as pessoas vulneráveis, acaba produzindo uma “geração de imprestáveis”.  Será que modernizar a economia significaria apenas aperfeiçoar os mecanismos de expropriação e deixar os pobres à própria sorte?

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