quinta-feira, 24 de julho de 2014

Alimentando-nos da Palavra de Deus (4)

Como os operários da última hora (Mt 20,1-16):
Deixemo-nos fascinar pela gratuidade de Deus

Imaginemos a cena dos discípulos que, depois de estudar a parábola dos diaristas  contratados para trabalhar na vinha (Mt 20,1-16), agora sozinhos com o mestre, pedem que lhes explique o sentido. Talvez algum deles ousasse lembrar que, noutra versão conhecida por muita gente, quando os primeiros trabalhadores protestaram ao ver aquilo que os últimos haviam recebido, o patrão respondera: “Em apenas uma hora, aqueles últimos contratados produziram mais que vocês durante um dia inteiro...” Este sim seria um final sensato e justo, pois evidenciaria o mérito e a premiação pelo trabalho, enquanto que na insólita versão de Jesus isso sequer merece uma consideração do patrão (imagem velada de Deus Pai), que prefere concluir com uma pergunta: “Por acaso não posso fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúmes porque eu estou sendo generoso?” (Mt 20,15).
Podemos também imaginar a seguinte resposta de Jesus: “E se vocês fizessem parte do grupo de trabalhadores da última hora e recebessem o mesmo que os outros que labutaram o dia inteiro? Será que no dia seguinte vocês não chegariam mais cedo que os outros? E não tanto para acumular méritos, mas por pura gratidão, simplesmente porque a bondade do patrão conquistara e envolvera vocês naquela aspiral de gratuidade...” Um tal comentário de Jesus evidenciaria a mesquinhez de tantos, começando por nós mesmos, que murmuram interiormente: “Se eu fosse um daqueles que ganharam  uma moeda de prata tendo trabalhado o dia inteiro, considerando a generosidade do patrão, no dia seguinte eu também apareceria às cinco da tarde...”
Como a eles, também a nós a Palavra empurra para além dos limites que estabelecemos, e nos supera com a sua novidade. Quando lemos e meditamos o Evangelho, o maravilhoso toca a nossa existência, como um cometa que ilumina com sua órbita de luz um outro planeta escuro. E então aquilo que nos parecia razoável acaba sendo desafiado por propostas mais verdadeiras que, como numa epifania, rompem o nosso horizonte limitado e deixam entrever possibilidades inéditas e apaixonantes.
Sabemos que muitas vezes Jesus se expressa com um lúcido realismo e até com um certo pessimismo, como na passagem seguinte: “Mas Jesus não confiava neles, pois conhecia a todos. Ele não precisava de informações a respeito de ninguém, porque conhecia o homem por dentro” (Jo 2,24-25). Mas, ao mesmo tempo e de uma forma aparentemente inexplicável, Jesus é movido por uma ilimitada confiança na capacidade de reação e de mudança da pessoa humana. É como se ele não houvesse perdido e ingenuidade infantil e quisesse despertar em nós atitudes utópicas. Suas propostas contêm um grande potencial transformador, e quem as escuta e acolhe, renasce em Deus recebe o poder de se tornar discípulo. Nas suas propostas palpita um dinamismo que pouco a pouco transfigura nossas idéias sobre Deus e as faz semelhantes às dele.
Se a Palavra anunciada por Jesus nesta parábola completou seu trabalho, podemos imaginar que aqueles diaristas que haviam trabalhado apenas uma hora e recebido uma recompensa desproporcional começaram a conhecer o coração do patrão. E que tal se agora déssemos a eles a Palavra e escutássemos o que eles querem nos dizer?
Deixem-se seduzir e fascinar por este Deus privado de atributos divinos (imutabilidade, impassibilidade, inacessibilidade, onisciência, onipotência, etc.) e dominado por emoções autenticamente humanas: a inquietação de uma pessoa zelosa, cuidadosa com aquilo que lhe pertence (uma moeda, uma ovelha), incapaz de aceitar a mínima redução das suas posses, uma pessoa que vincula sua alegria ao reencontro daquilo que perdeu...” (cf. Lc 15,1-10).
“Não se surpreendam ao descobri-lo semelhante a um pai agitado e comovido, que deixa de lado as responsabilidades da casa e fica do lado de fora, procurando e esperando, como alguém que perdeu o centro da vida e, por isso, se sente transtornado...” (cf. Lc 15,11-32).
“Observem que ele é como um rei sem poder nem autoridade, incapaz de convencer seus próprios emissários, exposto à desilusão e ao fracasso diante da recusa ao convite para o seu banquete, mas surpreendentemente feliz em acolher à sua mesa aqueles que vagam pelas estradas...” (cf. Mt 22,1-14; Lc 14,15-24).
“Surpreendam-se ao saber que ele é também semelhante a um investidor ousado e temerário que corre o risco de dividir seu capital e confiar sua administração a pessoas que não lhe oferecem garantias de uma boa gestão... (cf. Lc 16,1-8; Mt 25,14-30). Ou como um fraco agricultor, demasiadamente paciente e instável nas decisões, que não aceita a sugestão de arrancar o joio do meio do trigo (cf. Mt 13,24-30) e se deixa convencer pelo vinhateiro a não cortar a figueira que não está dando fruto...” (cf. Lc 13,1-9).
“Abram-se às consequências de crer em um Deus que é um observador parcial, que vê aquilo que a maioria não vê: as pessoas feridas e abandonadas nas margens das estradas (cf. Lc 10,30), a porta da casa onde ninguém enxerga Lázaro (cf. Lc 16,20), os lugares onde os mais fracos são maltratados...” (cf. Mt 24,49).
Como os discípulos de Jesus, lentos e resistentes em aceitar um Deus assim insólito, provavelmente os diaristas que fizeram a experiência da novidade absoluta de Deus terão necessidade de muito tempo e de uma paciente catequese para eliminar as velhas idéias sobre Deus que povoavam seu imaginário e aceitar que ele não se identifica com as idéias e doutrinas que elaboraram sobre ele. Mas se nós permitirmos que a Palavra de Deus inicie e prossiga seu trabalho em nós, ela acabará por nos revelar também quem somos nós aos olhos desse Deus maravilhoso. Demos de novo a Palavra àqueles gratos trabalhadores da última hora...
“Não contabilizem méritos e créditos sobre o vosso empenho no trabalho. Deixem que Deus surpeenda vocês com seu amor desmedido e os encha de um amor que ultrapassa todos os méritos...”
Vocês são uma terra rica de sementes destinadas a dar frutos (cf. Mc 4,3-9). Existem em vocês gérmens de vida que o olhar do Pai sabe reconhecer (cf. Mc 13,28-29). Aquilo que ele semeou em vocês possui tal força de crescimento que germina e cresce fora do controle de vocês (cf. Mc 4,26-29). Não se preocupem com o joio misturado ao trigo, pois o Pai se importa apenas com aquilo que em vocês há de bom...”
“É verdade que vocês são pequenos e insignificantes, mas esta pequenez esconde uma força capaz de transformar-se numa grande árvore (cf. Mc 4,30-32). Talvez vocês cheguem à sala do banquete cobertos de trapos e de pó, mas serão comensais convidados e queridos do rei, que vos espera com a mesa preparada...” (cf. Mt 22,1-14).

 “Alegrem-se de possuir dons e talentos para investir (cf. Mt 25,14-30) e façam amigos que acolherão vocês nas moradas eternas, porque vocês têm nas mãos aquilo em que vocês apostaram tudo: pão, água, teto e vestes para partilhar com aqueles que são privados de tudo (cf. Mt 25,31-46). Vocês se perdem, se afastam, dormem, endurecem o coração, mas alguém acredita na capacidade que vocês têm de se deixar encontrar e voltar para casa, de vigiar e de ser misericordiosos, de transformar os débitos em amor. E se ele ama e deseja vocês, procura e espera tanto, é porque para ele vocês são preciosos...”
Itacir Brassiani msf


(Este texto é praticamente uma tradução livre e adaptada da conferência “Convocati dalla Parola”, da Ir. Dolores Aleixandre rscj, publicado pela União dos Superiores Gerais no caderno Non è giusto che noi trascuriamo la Parola di Dio, (textos da 70ª Assembléia Semestrale da USG, p. 41-59. Acrescentei apenas algumas intuições e referências da exortação pós-sinodal Verbum Domini, de Bento XV e Evangelii Gaudim, do Papa Francisco)

Nenhum comentário: