terça-feira, 1 de setembro de 2026

Dar as mãos para elevar

Deus se inclina para levantar a humanidade

1191 | Tempo Comum | Semana XXII | Quarta | Lucas 4,38-44

Na cena que meditamos ontem, vimos que Jesus cala a voz dos defensores de uma lei que discrimina e condena. Ao mesmo tempo, Jesus devolve a palavra e a autonomia às pessoas socialmente e psicologicamente anuladas. Hoje, Lucas nos mostra a continuação desse ministério da compaixão, um ministério que não reconhece os limites de lugar ou de destinatários. Jesus tem diante dos olhos a humanidade e o mundo todo, e desconhece nacionalismos e discriminações.

A cura da sogra de Pedro, que está acometida de forte febre, demonstra que Jesus não está preocupado com gestos espetaculares, mas com ações que possibilitam o resgate da vida das pessoas oprimidas e marginalizadas. Deus não se compraz nos espetáculos, mas na libertação e emancipação das vítimas! Jesus entra numa casa de pescadores e vai ao encontro de uma mulher. A missão de Jesus é superar o mal e suas raízes. Ele se recusa a ser um simples curador.

Na casa da sogra de Pedro ocorre a manifestação silenciosa de uma Palavra que cura. Inclinando-se sobre a sogra de Pedro, Jesus se inclina sobre a humanidade oprimida e ameaça as forças que a colocam de joelhos. Através desse gesto restaurador, as pessoas não reconhecidas em sua dignidade passam a contar, e se tornam servidoras da vida. É isso que acontece com a sogra de Pedro, e conosco: quem experimenta a bondade de Deus em Jesus torna-se discípulo missionário.

Jesus não é um burocrata ou doutor da lei fixado na sinagoga, mas um profeta e um mestre itinerante. Ele é movido pela convicção de que o Reino de Deus não é monopólio de meia dúzia de pessoas. Curando e anunciando o Evangelho de Deus dia e noite e onde quer que seja necessário e oportuno, no final do episódio Jesus se retira e vai ao encontro de outras pessoas noutros lugares. É para isso que se sente enviado. Essa é a vontade do Pai a respeito dele.

Essa atitude de Jesus nos convoca a ser uma comunidade eclesial sempre “em saída”, rumo às periferias, ao encontro das pessoas e suas necessidades. Não podemos ficar na simples e fácil proclamação de que Jesus é o filho de Deus, pois isso até os demônios fazem, e Jesus os cala. Precisamos estar com Jesus, aprender dele e participar da sua missão, carregando também suspeitas que se voltam contra ele.

 

Sugestões para a meditação

Retome o episódio, acompanhando a presença de Jesus na casa de Pedro, sua ação incansável em favor do povo e sua saída para outros lugares para lá colocar sinais do Reino de Deus

Permita que Jesus se incline sobre você, cure suas enfermidades e faça de você um servidor da vida dos outros

Onde e a quem Jesus está pedindo que você sirva hoje? Que males que se hospedam em você ele ameaça e elimina com sua Palavra?

Ganhar ou perder?

Negar os interesses mesquinhos ou o Evangelho?

No próximo domingo, as comunidades católicas celebram o ministério das catequistas, a quem somos gratos. E o evangelho do dia (Mateus 16,21-27) lembra que, antes de serem “professoras de doutrina”, elas são aprendizes na escola de Jesus, pessoas seduzidas pela Boa Notícia do Reino de Deus, dispostas a seguir seus passos e a viver suas opções, sem cair na tentação de colocar-se à frente de Jesus, como ocorreu com Pedro.

A resposta de Pedro à pergunta de Jesus havia sido correta, mas incompleta: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Por isso, assim que Pedro termina sua profissão de fé, Jesus o elogia, muda o tom e começa a falar do seu futuro próximo: ele subirá a Jerusalém, apesar dos riscos; lá sofrerá muito nas mãos das autoridades religiosas; será morto, e ressuscitará. Trata-se claramente da imagem e do caminho de um Deus despojado.

Com estas palavras, Jesus corrige os resquícios de um messianismo triunfalista, do qual os próprios discípulos estavam imbuídos. Ele é o Servo que sofre solidariamente e o Profeta perseguido. Mas Pedro, com uma ousadia sem precedentes, leva Jesus para um lado e o repreende. “Que isso nunca te aconteça!” Pedro não consegue admitir nem imaginar um Messias sem poder e crucificado, pobre e rejeitado, humano e servidor.

Reagindo e falando assim, Pedro faz-se porta-voz dos discípulos de todos os tempos, e demonstra pessoalmente a dificuldade de pensar as coisas ao modo de Deus e a tentação de pensar as coisas ao modo dos homens. Coisas de Deus são a compaixão, a solidariedade e o serviço; coisas dos homens são a indiferença, o sucesso e o poder. Este é o discernimento que desafiada permanentemente os discípulos e discípulas de Jesus.

A cruz não é simplesmente uma intercorrência inesperada ou uma imposição à qual Jesus não pode escapar, mas a um caminho que todos devemos percorrer se quisermos ser cristãos. “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”. E tomar a cruz significa assumir a condição das pessoas colocadas à margem, assim como daquelas que resistem e enfrentam os poderes que marginalizam e oprimem.

A expressão “renuncie a si mesmo” não agrada muito aos homens e mulheres de hoje. Mas é claro que não se trata de negar o que há de mais original e precioso em cada indivíduo, mas de libertar-se da ideologia de sucesso. Eis a escolha a ser feita: negar os interesses mesquinhos, os sonhos infantis de sucesso e onipotência, ou negar o Messias, a compaixão, a solidariedade. Eis a lição mais preciosa que se espera das catequistas.