Um falso dilema
Há alguns anos atrás a revista Veja publicou uma entrevista com o filósofo Michel Onfray. Nela, o
pensador francês afirma, entre outras coisas, que a leitura dos textos das
religiões leva qualquer pessoa inteligente à conclusão de que todas as
religiões são ilusões humanas e produzem violência, e que Deus é incompatível com
a liberdade humana.
É oportuno refletir, mesmo que seja brevemente, sobre
uma entre as suas diversas afirmações feitas na entrevista: “Só um homem ateu
pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana”, e porque “o
princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do islã é um
entrave e um inibidor da autonomia do homem”.
Michel Onfray está na linha dos críticos da religião
do século XIX (Nietsche, Marx e Freud). O cristianismo da época bebia da
filosofia deísta, que via confronto entre Deus e o Ser humano: para afirmar a
iniciativa de Deus deve-se negar o valor da liberdade humana, e a afirmação da
liberdade humana só é possível mediante a negação de Deus.
Mas reduzir a religião a essa ideia de Deus e da
liberdade humana significa desconhecer a evolução do pensamento teológico dos
últimos dois séculos. No caminho aberto pela teologia clássica, as boas
teologias de hoje articulam de uma forma exigente e coerente Reino e História,
Graça divina e Liberdade humana, ação de Deus e luta social.
Faz tempo que muitos cristãos e outros crentes
procuram crer com honradez intelectual, mostrar a complementaridade entre razão
e fé, e enfatizar as consequências éticas e sociais da religião. Sem falar nos
inumeráveis testemunhos históricos de homens e mulheres radicalmente livres, e
no engajamento dos cristãos nas lutas emancipatórias.
É verdade que, em nome da fé, foram feitas guerras e
legitimadas dominações de gênero, de classe, de cultura, de nação, etc. Mas
isso faz parte da ambivalência de todos os movimentos históricos e iniciativas
humanas, inclusive da filosofia e da religião. Não é verdade que, por trás de
cada ideologia totalitária, está uma corrente filosófica?
Afirmando a transcendência absoluta de Deus, a
teologia judaico-cristã relativiza todos os conceitos e instituições. Ao mesmo
tempo, afirma a dignidade incorruptível de cada criatura, em razão de sua
relação ontológica com a divindade. O conflito só existe entre um pensamento
fechado e uma noção de Deus como Outro que chama, desperta e envia.
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