sexta-feira, 25 de maio de 2012

Vem, Espírito de Deus! (5)


Com a celebração da ascensão de Jesus, iniciamos uma semana especial de oração e abertura à ação do Espírito Santo de Deus. Com a intenção de contribuir no cultivo desta abertura, ofereço diariamente uma prece extraída do livro Prières à l’Esprit Saint, de Michel Hubant (com tradução livre feita por mim mesmo).

Abrasa-nos de paixão pela unidade das Igrejas

Ó Espírito Santo,
Abrasa-nos da paixão de Jesus Cristo pela unidade,
A fim de que as correntes do seu Amor
Nos aqueçam e derretam o gelo das nossas divisões,
E nos tragam ao menos uma faísca de verdade e um traço de santidade.

Ó Espírito Santo,
Fonte de vida e de ressurreição,
Abre os olhos do nosso coração à beleza do Homem unificado,
Transfigurado e divinizado,
Este ícone de Deus cantado pelos nossos irmãos Ortodoxos.

Ó Espírito Santo,
Eco da Palavra do Pai,
Abre os olhos do nosso coração à gratuidade da tua graça
Que salva o Homem justificado pela fé,
Este filho adotivo cantado pelos nossos irmãos Protestantes.

Ó Espírito Santo,
Sacramento de Salvação,
Abre os olhos do nosso coração aos sinais da tua Presença
Ativa nas tramas do cotidiano,
Esta encarnação cantada por nossos irmãos Católicos.

Ó Espírito Santo,
Ilumina a partir de dentro o belo vitral da única Igreja de Cristo,
A fim de que resplandeça a luminosa harmonia das suas colunas na diversidade.
Que a contemplação do ícone da santa e indivisível Trindade,
O Pai e o Filho unidos no teu divino Amor eternamente,
Seja a força, o dinamismo e a meta da comum paixão dos cristãos pela Unidade.
(p. 99-100).


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vem, Espírito de Deus! (4)


Com a celebração da ascensão de Jesus, iniciamos uma semana especial de oração e abertura à ação do Espírito Santo de Deus. Com a intenção de contribuir no cultivo desta abertura, ofereço diariamente uma prece extraída do livro Prières à l’Esprit Saint, de Michel Hubant (com tradução livre feita por mim mesmo).



Ensina-nos a ler os sinais



Espírito Santo,

Tu que abres os olhos do nosso coração para discernir em todas as coisas sua dimensão interior, ajuda-nos a ‘ver’ a Realidade espiritual escondida nas palavras e nos sinais que Jesus de Nazaré multiplicou pelos caminhos da Palestina.

Espírito Santo,
Tu que és a fonte do discernimento, dá-nos o olhar da fé,
para que aprendamos a ‘ver’ através dos acontecimentos,
pessoais e coletivos, pequenos e grandes,
os sinais que Jesus Cristo realiza hoje por nós.

Espírito Santo,
Tu que és o dinamismo da história, dá a cada um/a de nós
a graça de ‘ver’ através das aspirações, 
dos sofrimentos e engajamentos dos homens e mulheres, 
dos sacramentos da Igreja, do grito dos profetas e profetizas, 
da vida dos santos e santas,
dos frágeis brotos do amor, da justiça e da paz,
os sinais da lenta construção do Reino e a presença dAquele que vem.

Espírito Santo,
Tu que és a inteligência e a vigilância do coração, sacode nossa sonolência e nosso torpor e ensina-nos a ‘ver’ no vazio do cotidiano
 – um doente, uma reunião, uma viagem, o riso de uma criança, um passarinho, uma nuvem, um pôr-de-sol, uma flor, uma palavra, um silêncio, uma oração, uma pessoa que chora, uma carta, uma chamada telefônica, uma refeição em família, uma cruz numa encruzilhada... – 
os sinais do Reino que vem, passos do Cristo Vivo que nos convida cada dia a crescer amando. (p. 83-84).

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Festa de Pentecostes


Envia-nos teu Espírito de indignação profética!
(At 2,1-11; Sl 103/104; 1Cor 12,3-7.12-13; Jo 20,19-23)

Depois de um percurso de descobertas e encontros com o Senhor ressuscitado, chegamos à celebração de Pentecostes. É a culminância da experiência pascal.  Como a comunidade apostólica, pedimos que o Espírito realize em nós a obra do Pai e do Filho. Suplicamos que o Sopro de Deus nos dê respiro e vida, nos ensine a testemunhar e anunciar o Reino de Deus na língua das diversas culturas, derrube os muros que nossos medos e prepotências ergueram, desperte a imaginação e a indignação proféticas, abra as portas das nossas Igrejas e as coloque em ritmo de missão. Pois é o Espírito de Deus que cria os vínculos que unem todas as criaturas, suscita e sustenta os processos de libertação e garante a liberdade e a criatividade, em todas as suas expressões.
“Fomos batizados num só Espírito para formar um só corpo...”
Uma primeira e importante expressão da presença e ação do Espírito Santo no mundo e nas pessoas são os vínculos de amor, amizade e solidariedade. Onde o Espírito age e é acolhido as pessoas isoladas se reúnem, os membros formam um corpo, dão-se as mãos e caminham. É uma comunhão que transcende os indivíduos e se estende às coletividades humanas, às organizações sociais e a todas as criaturas. Trata-se de uma comunhão que afirma a dignidade e respeita a diversidade de cada ser.
A força do Espírito também une pessoas e gerações diferentes numa unidade familiar, étnica e nacional. Esta comunhão se amplia e reúne as diversas pessoas e diferentes culturas numa comunidade eclesial, centrada na memória e na missão de Jesus de Nazaré. É uma comunhão que vai além das fronteiras de família, etnia e nação, um tecido costurado pela dignidade afirmada e por uma missão compartilhada. Aqui a diversidade dos membros não só é tolerada mas também defendida e celebrada.
O dinamismo de comunhão suscitado pelo Espírito também aproxima e articula as diferentes comunidades cristãs e religiões. A diversidade de religiões e Igrejas cristãs não é apenas fruto dos limites e pecados da humanidade, mas também expressão plural do único Mistério de Deus que se autocomunica respeitando a diversidade humana. O mesmo e único Espírito está na nascente dos diferentes movimentos religiosos e os empurra para o diálogo ecumênico e inter-religioso.
“A paz esteja convosco!”
Este dinamismo de comunhão está na base da harmonia e da consolação, frutos do Espírito. Mas a busca do “repouso” e da “consolação” no Espírito tornou-se uma febre, induzida e sustentada por infindáveis e piedosos programas de rádio e de televisão. É claro que a consolação e a paz não são experiências alheias à vida cristã. A primeira palavra que Jesus dirige aos discípulos, que morriam de medo dos judeus e de vergonha por terem abandonado Jesus, é exatamente “a paz esteja com vocês!”
O problema surge quando uma determinada espiritualidade leva os fiéis ao quietismo e à fuga do mundo, a refugiarem-se em celerações no mínimo questionáveis. Muitos acabam buscando – e os agentes religiosos oferecem de bom grado! – uma paz induzida, algo como uma droga que anestesia e oferece uma falsa sensação de paz. E então o pecado do mundo e a estruturas injustas pouco importam. Tudo se resume em experimentar paz no coração e na alma. Isso vem do Espírito Santo?
“Então apareceram línguas como de fogo...”
Nossa profissão de fé diz pouco acerca do Espírito Santo, mas esse pouco é suficientemente claro. O Espírito enviado a todas as criaturas “é Senhor e dá vida” e “falou pelos profetas”. Eis aqui algo frequentemente esquecido pelas pessoas que se entusiasmam por uma certa renovação. Um dos dons do Espírito é a imaginação e indignação proféticas. E isso está a quilômetros de distância do imobilismo omisso pregado em cultos frequentados por multidões sedentas de prosperidade e de cura.
Uma das imagens do dom Espírito que ficou gravada na mente dos apóstolos, descrita na primeira leitura, é de ruído de um vento forte e de línguas de fogo que repousavam sobre a comunidade reunida. Vento forte e línguas de fogo são imagens que procuram dar conta de um dinamismo incontrolável, de uma força que move e leva adiante, de uma palavra forte e mobilizadora. São imagens que lembram o furacão da profecia, a eloquência de homens e mulheres que falam, gritam e agem em nome de Deus.
O punhado de gente que fez a experiência pentecostal naquela manhã em Jerusalém – pentecostes que se renova mais vezes e em diferentes grupos, inclusive de pagãos! – passa a falar intrepidamente e a enfrentar autoridades e sistemas constituídos. É algo que nos faz lembrar isso que ficou conhecido como Movimento dos Indignados, que completou um ano de vida em 15 de maio último, e que provocou a primavera árabe, e continua questionando a democracia formal e o império do dinheiro.
“Como o Pai me enviou, eu também envio vocês.”
Sem deixar de ser uma experiência de oração, adoração, canto, consolação e alegria, o dom do Espírito Santo não se resume nisso. Jesus Cristo é o homem do Espírito, e sua vida está longe de ser a de um monge ou guru do bem-estar individual. Antes, ele é modelo e caminho de uma vida radicalmente descentrada de si mesmo, de uma atuação absolutamente voltada às necessidades e à dignidade dos outros, de uma inserção questionadora e transformadora no palco da história.
O Espírito é o sopro de Deus que faz novas todas as coisas, renovando assim a face da terra. Mas ele costuma começar por renovar radicalmente as pessoas que seguem Jesus Cristo, despindo-as da roupagem da indiferença, purificando-as da impureza da dominação, desautorizando aquela “velha opinião formada sobre tudo”, dispersando o pó que se acumulou sobre as doutrinas e leis, abrindo as janelas fechadas pelo medo, fazendo renascer no ventre da liberdade e da gratuidade.
Assim foi Jesus, assim são chamados/as a ser aqueles/as que nele acreditam e receberam seu divino Sopro. “Como o Pai me enviou, eu também envio vocês!” Mas não nos enganemos com soluções que nos ensinaram velhas e piedosas lições. Ele nos envia a tirar o pecado do mundo e arcar com seu custo, como ele mesmo o fez, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Tirar o pecado do mundo (no singular!) significa, hoje, entre outras coisas, cortar pela raiz o vírus da dominação e da indiferença.
“Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito...”
Há um outro vírus, fonte de doenças e perversidades sociais e até religiosas, que o Espírito de Deus nos leva a eliminar: trata-se do mal de querer garantir o bem-estar e a dignidade de alguns à custa da exclusão ou do rebaixamento de muitos. Este vírus infesta, em graus e modos diferentes, todas as sociedades, ganhou campo inclusive no cristianismo, e se expressa especialmente no clericalismo e na ideologia da supremacia ou exclusividade salvífica do cristianismo.
Escrevendo à comunidade cristã de Corinto, Paulo é claro e insistente: há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diferença de funções mas o Senhor é o mesmo; deferentes ações, mas um só Deus. “Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito. Todos nós bebemos de um único Espírito.” Não há como sustentar a supremacia dos ministérios ordenados sobre os demais fiéis. Não há como rebaixar os ministérios não-ordenados ou excluir deles as mulheres.
Mas, no bojo da ventania que vem do Espírito de Jesus, caem também os muros que separam religiões pretensamente verdadeiras das assim chamadas simples crenças, como também as escadas que elevam as religiões que se autodefinem verdadeiras e rebaixam as ditas falsas. “Cada um ouvia os discípulos falar em sua própria língua...” diz o autor dos Atos dos Apóstolos. E Paulo diz sem rodeios que judeus e pagãos, escravos e livres, homens e mulheres, (cristãos e mussulmanos), bebem do mesmo Espírito!
“Envia teu Espírito, Senhor, e renova a face da terra!”
A ti, Deus pai e mãe, voltamos nossos olhos e nossas mãos, nossa mente e nosso coração, para pedir, com todas as forças do nosso ser: envia sobre nós e sobre a Igreja teu divino Sopro! Sem ele, a missão não passa de conquista; a igreja atua como mera sociedade de classes; o Evangelho se reduz a lei implacável; a moral infantiliza e aprisiona; o ministério degenera em poder e tirania; a liturgia vira arqueologia e fuga do compromisso. Sem teu Espírito tudo vira pó, ferro e concreto... Envia teu Espirito para revitalizar os ossos ressequidos, sacudir as democracias vazias e questionar os sistemas totalitários, mesmo quando se apresentam como religião. Que ele nos ajude renascer como filhos/as da liberdade e da gratuidade, na despojamento e na criatividade, na comunhão e na solidariedade que não conhece condições nem fronteiras. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

Vem, Espírito de Deus! (3)

Com a celebração da ascensão de Jesus, iniciamos uma semana especial de oração e abertura à ação do Espírito Santo de Deus. Com a intenção de contribuir no cultivo desta abertura, ofereço diariamente uma prece extraída do livro Prières à l’Esprit Saint, de Michel Hubant (com tradução livre feita por mim mesmo).



Peregrinos do infinito


Atraídos pelos apelos do Espírito, atravessemos a soleira do invisível,
recusemos as fronteiras do impossível... Sejamos peregrinos do Infinito.

Guiados pelo murmúrio do Espírito, atravessemos o limiar do silêncio,
desçamos à cripta do coração, onde Deus se faz Brisa leve e discreta Sedução.

Iluminados pela luz do Espírito, atravessemos a soleira das aparências e descubramos o rosto escondido dos seres e das coisas e o delicado calor de uma Presença.

Seduzidos pela ternura do Espírito, atravessemos o limiar do tempo,
pressintamos o amor que tece nossa eternidade e a suave trama de cada Instante.

Habitados pela doçura do Espírito, atravessemos a soleira da eficiência,
acolhamos com alegria os tesouros da sua gratuidade e os frutos da sua secreta Atividade.

Maravilhados pela largueza do Espírito, atravessemos o limiar da nossas intolerâncias,
reconheçamos a rica diversidade de dons e capacidades e sejamos Peregrinos do Inifinito. (p. 30-31)


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Kalimantan:impressões, emoções e reflexões (3)


Beco Musafir

Começamos a descoberta de Kalimantan e do trabalho dos Missionários da Sagrada Família nesta região da Indonésia pela cidade de Banjarbaru. Foi nesta zona da Indonésia que, em 1926, chegaram os primeiros MSF, e esta foi propriamente nossa primeira missão entre não-cristãos da Congregação. Banjarbaru é uma cidade com 200.000 habitantes, situada nas proximidades  de Banjarmasin, capital da província. Em Banjarbaru está a sede da Província Kalimantan da Congregação.
Casa Provincial dos MSF, em Banjarbaru
Num mesmo amplo terreno se elevam várias edificações ligadas à nossa presença na região: a sede provincial; o seminário do postulantado; a casa dos idosos; a casa paroquial; a igreja paroquial; uma casa de retiros; uma casa de formação das Irmãs de São José de Chartres. O complexo faz juz ao nome da travessa que dá acesso: Gg. (beco) Musafir, conceito árabe equivalente à expressão latina missionário. Tudo está localizado discretamente longe da rua, no interior do terreno. É uma medida que dá proteção contra eventuais atos extremistas contra os cristãos. Do outro lado da rua, que é também uma importante estrada regional, está uma grande universidade estatal.
Na Paróquia Mãe Maria (Bunda Maria, na língua indonesiana) trabalham dois coirmãos. A paróquia tem mais ou menos 1.700 fiéis, é apreciada pelo bispo local, e desenvolve seu trabalho sob constante pressão de alguns grupos mussulmanos radicais, o que limita muito as iniciativas. Mas mais de 90% dos católicos frequenta a missa domincal!
Igreja matriz S. José, em Banjarbaru
A paróquia faz parte da diocese de Banjarmasin, cidade-pólo da região, situada há 37 quilômetros de Banjarbaru. Apesar da considerável população do local, a diocese de Banjarmasin conta com um reduzidíssimo número de membros: são apenas 16.000 os cristãos católicos (para uma população de mais de 3 milhões de habitantes!), distribuídos em 8 paróquias. Isso significa pouco mais de 0,05% da população (ou cinco a cada 10.000!). O número não avança senão muito lentamente, e unicamente devido aos migrantes católicos que chegam a esta região. A pressão social é muito grande, e aqui um mussulmano que prese a própria vida não ousa aderir à Igreja católica.
Interior da catedral de Banjarmasin
O pároco é o Pe. Franciscus Sumantoro Pranjono, natural da ilha da Java, que no passado migrou para Kalimantan, região de Sampit, para trabalhar como professor . Tem 61 anos e descobriu a vocação em contato com o Pe. Willibaldo Pfeuffer, MSF alemão que atuava nas proximidades. O vigário é o Pe. Augustinus Gunawan, um jovem ordenado a menos de um ano, também natural de Java. Na infância, migrou para a região com a família e formou-se em economia. Sua família era a única família católica da cidade, e sua vocação nasceu do encontro com um missionário italiano OMI.
Postulantado Johaninum, Banjarbaru
Na mesma área geográfica onde está a igreja paroquial encontra-se uma ampla casa de formação, destinada ao postulantado (que aqui se faz depois da escola média). Atualmente são sete postulantes, cinco dos quais são provenientes da Ilha de Flores, majoritariamente católica e rica de vocações, mas onde os Missionários da Sagrada Família não têm presença física. O grupo está sob a direção do Pe. Agustinus Doni Tupen.
Tivemos um breve e interessante diálogo com os postulantes. Uma das perguntas do grupo foi por que os membros da Congregação não usam um hábito religioso. Cada vez mais as novas gerações colocam esta pergunta aos filhos do Concílio, e isso faz pensar. O encontro terminou com uma confraternização e uma versão indonesiana do nosso hino “27 de setembro” (com direito à interpretação em português, na voz dos indonesianos, da primeira estrofe da canção.
Pe. Agustinus, além da formação filosófica e teológica de base, tem especialização em comunicação social (em Jogyakarta) e em formação (nas Filipinas), o que é de grande utilidade para o cumprimento das múltiplas responsabilidades que desenvolve: formador (ministério que cumpre há 12 anos), responsável pela animação vocacional da Província, membro do conselho de redação da revista diocesana, editor da revista da Província (MuSaFir) e assistente no governo provincial.
Nos últimos dois anos, Pe. Agustinus conta com a companhia fraterna do Ir. Bonifatius Probo Sunardja. Este Irmão religioso pertencia a uma congregação de Irmãos nascida na Indonésia e já extinta. Depois de cumprir várias funções no interior da Província e na pastoral (como professor de ensino religioso e dirigente de coro), hoje se dedica aos trabalhos de jardinagem no complexo Musafir. Um detalhe: uma das habilidades gostosas deste irmão é tocar sanfona. Executa graça tanto músicas religiosas como canções folclóricas.
Dom Demarteau (com P. Maharsono e P. Santiago)
Como disse, fomos hospedados na casa dos idosos, significativamente batizada de Casa Simeão. Como o nome do patrono sugere, é uma casa que acolhe os missionários idosos e doentes. Hoje a casa é ocupada por apenas um mas venerável coirmão: Dom Wilhelm Demarteuau msf, missionário holandês nascido aos 24 de janeiro de 1917 e bispo emérito de Banjarmasin. Mesmo que ainda goze de impressionante lucidez e boa saúde física, não escuta absolutamente nada. Mas sua simplicidade e resignação são marcantes, assim como a dedicação com que se engajou no pastoreio nos anos passados. Quase que diariamente cristãos vêm à casa simplesmente para ver o bom velhinho e receber a bênção que ele jamais cansa de invocar.
Não visitamos o provincialado senão muito brevemente e para acessar a internet. Como já havíamos conversadop amplamente com o superior provincial, o Pe. Stanislaus Kotska Maharsono em Roma, em janeiro passado, e levando em conta a escassez do tempo, não tivemos um encontro específico com ele. Na tarde do dia 4 de março, domingo, partimos para a região da diocese de Palangkaraia, onde vivem e trabalham alguns coirmãos, inclusive Pe. Timóteo I Ketut Adi Hardana, originário da ilha de Bali, que faria as vezes de tradutor e motorista. 

Vem, Espirito de Deus! (2)

Com a celebração da ascensão de Jesus, iniciamos uma semana especial de oração e abertura à ação do Espírito Santo de Deus. Com a intenção de contribuir no cultivo desta abertura, ofereço diariamente uma prece extraída do livro Prières à l’Esprit Saint, de Michel Hubant (com tradução livre feita por mim mesmo).


Vento de insubmissão


Quem pode me dizer de onde vem este intocável Sopro de vida
que suscita a palavra dos humilhados
e que nem reis, exércitos e ditadores podem calar?

Quem pode me dizer de onde vem este Sopro de contestação,
este Vento de insubmissão que às vezes sacode a consciência das nações,
escapa à análise dos politólogos,
desconhece as previsões dos futurólogos,
contradiz os especialistas em sondagens e ironiza as suas sutis percentagens,
este Vento de liberdade não se deixa jamais planificar?

Quem pode me dizer de onde vem este Vento tão discreto e suave
que ninguém vê se levantar e que, repentino como um tsunami,
revela as entranhas da nossa humanidade,
recusando o destino cego e a escura fatalidade?

Quem pode me dizer de onde vem este Vento que sopra
nas grotas da esperança de um mundo sem esperanças,
este Vento de revolta dos desprezados e dos oprimidos,
exército de homens e mulheres sem hierarquias e sem poderes,
que grita que a pessoa humana é mais que mão-de-obra
que pode vendida e comprada nos mercados? (p. 21-22)

domingo, 20 de maio de 2012

Vem, Espírito de Deus! (1)


Com a celebração da ascensão de Jesus, iniciamos uma semana especial de oração e abertura à ação do Espírito Santo de Deus. Com a intenção de contribuir no cultivo desta abertura, ofereço diariamente uma prece extraída do livro Prières à l’Esprit Saint, de Michel Hubant (com tradução livre feita por mim mesmo).



Quem és e de onde vens?


As forças podem cruelmente e definitivamente
aprisionar corpos e amardaçar a palavra,
ressequir os corações e enfeitiçar os espíritos,
mas nenhum poder jamais conseguirá abafar ou sufocar
o Sopro do Espírito que inspira nossa Liberdade.

Tu que fazes do ser humano um eterno nômade
em busca de um Além às vezes entrevisto,
de uma outra margem ou de um paraíso perdido,
de um porto ou de um amor imortal...

De onde vens e quem és tu?
Tu, sem quem o ser humano não seria mais que uma coisa frágil e irrelevante,
sua história seria uma mera sucessão de instantes incoerentes,
e a nossa terra seria um minúsculo pião girando sem rumo na galáxia...

De onde vens tu e quem és?
Um epifenômeno de uma efêmera consciência humana,
uma faísca fugitiva e fugaz da alma do universso,
uma energia cósmica,
uma força criadora imanente, sem rosto e sem nome,
ou uma Pessoa viva, eterna fonte e eterno dom de um Deus transcendente?

Mas talvez prefiras dizer quem és
e revelar-nos tua misteriosa indentidade
na fecundidade da vida,
nas palavras e gestos de Jesus Cristo,
na silenciosa beleza da criação ou no coração do ser humano,
secreto júbilo que se descobre amado por um Deus Pai
e capaz de entrar em comunhão com seus irmãos... (p. 23-24)