segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Recordando o Pe. Ceolin

O Pe. Ceolin no caminho de Emaús

Ao oferecer aos coirmãos algumas sugestões para a missa das próprias exéquias, o Pe. Ceolin pediu que fosse proclamado o trecho do Evangelho que conta a experiência dos discípulos no caminho de Emaús (Lc 24,13-35). Como sabemos, neste trecho o evangelista nos conta alguns aspectos profunda da crise dos discípulos diante do aparente fracasso da missão de Jesus, que acabou abandonado e crucificado, e da descoberta lenta e exigente de uma outra dimensão da sua vida e da sua proposta.

Tendo sido convidado a guiar a homilia na missa das exéquias do mestre e amigo tão querido, perguntava-me, e não apenas retoricamente: o que a experiência dos discípulos de Emaús teria a ver com a trajetória da vida do Pe. Ceolin? E a resposta veio-me claramente: a experiência das crises profundas e doloridas (existenciais, afetivas, espirituais) que ele enfrentou em diversos momentos da sua caminhada. Mas não é só isso: também a experiência agradecida pelas muitas pessoas que se aproximaram dele, caminharam com ele, fizeram as perguntas certas, abriram portas e purificaram o olhar.

Hoje, há dois meses e meio do seu falecimento, dou-me conta de que talvez a experiência comum ao Pe. Ceolin e aos discípulos de Emaús seja também aquela de ser peregrino. Sai em peregrinação e se mantém nela somente quem sente falta de algo ou de alguém, quem toma consciência dos próprios limites, quem sabe que ainda está muito aquém da meta que se propôs. Ganha a estrada somente a pessoa que tem sede, que busca algo ou alguém, mesmo que não saiba dar nome ao objeto e ao termo dessa busca. Sai em peregrinação quem descobriu que nenhuma pátria é sua pátria, que nenhuma casa pode abrigar e realizar totalmente seus sonhos.

Desenvolve a atitude de peregrino também a pessoa que, com os olhos fixos no ideal que traçou, toma distância dos lugares comuns, não se contenta com as coisas mais fáceis, quer evitar a mediocridade. É a isso o Ceolin se refere nas suas notas para uma auto-biografia, falando do período inicial da sua formação: diz que tomou distância dos “colegas lerdos para se disporem ao trabalho extra, quando solicitados”, daqueles “que buscam o mais fácil e prazeroso”, dos “briguentos e critiquentos”, dos que “fazem experiências contra os votos.” Tomar distância é colocar-se a caminho, peregrinar...
Mas verdadeiro peregrino chega a ser somente a pessoa que abre mão das certezas, por decisão voluntária ou por força das crises. E para o Pe. Ceolin as crises começaram já no período do juniorado, com aquilo que ele mesmo denominou “dúvidas e incertezas vocacionais”, e se prolongou e agravou com a crise vocacional dos anos ’70, e sucessivas. E foi neste período que o nosso amigo descobriu peregrinos não tão forasteiros, que se aproximaram e se fizeram companheiros de caminhada e de busca.
Entre estes companheiros de viagem e mestres da maiêutica, o primeiro e mais importantes foi o Pe. Luís Weber. Muitos ainda lembramos com que gratidão e reverência o Ceolin citava o nome dele e ressaltava sua sabedoria na orientação. Mas tem mais gente nessa estrada. Além do Pe. Otávio Ritter, quantas mulheres, religiosas ou não, se fizeram companheiras exigentes e iluminadoras nesta peregrinação em busca de si mesmo e da essência do Evangelho de Jesus Cristo? Não é absolutamente verdade que a presença feminina foi apenas desestabilizadora na vida do nosso amigo e mestre. No final da vida (05.06.2013), ele registrava na sua agenda pessoal: “Ir. Gislena Ziliotto me visita, representando a presença feminina amiga na minha história.”

Mas, como no episódio dos discípulos na tarde da páscoa, os/as compenheiros/as de estrada são importantes para fazer as perguntas certas e forçar a abertura das portas hermeticamente fechadas e dos olhares obscurecidos, mas depois desaparecem, e a responsabilidade deve ser assumida pelo próprio peregrino. E é aqui que se revela um dos aspectos mais interessantes do testemunho de vida do Ceolin: sua constante busca de cultivo e formação (pessoal e grupal; psíquico, intelectual e espiritual).

O que fazer para aprender a conduzir-se a si mesmo? Nos breves apontamentos para a auto-biografia que nos deixou, o Pe. Ceolin sublinha que sempre considerou e viveu a eucaristia como fonte de vida, mormente nas fases críticas que atravessou. Resgatar a experiência de aliança e dinamizar a força do dom de si mesmo foram os princípios que o guiaram. Mas esses princípios se tornaram vida e adquiriram consistência especialmente mediante cursos, encontros e seminários que ele buscou e dos quais usufruiu largamente (segundo suas anotações): retiro de 30 dias; CERNE e outras ofertas da Conferência dos Religiosos; Criatividade (MCC); Personalidade e relações humanas (PRH); Pascoalização, diversos grupos de partilha de vida e de cultivo. Estas iniciativas, e especialmente as pessoas que nelas encontrou, foram mediações da aproximação e da companhia de Jesus nos seus períodos de crise, e o ajudaram e reencantar o olhar e reencontrar o rumo perdido. Inclusive na última crise, esta da doença que o levou à morte.

Nisso, o discípulo não chegou a superar o mestre, mas se aproximou muito ele. Sempre atento aos próprios movimentos interiores e incansável no caminho do seguimento de Jesus Cristo, que  foi também o caminho que o levou a ser artífice de si mesmo, o Pe. Ceolin se tornou um guia maduro, humano, seguro e apreciado, companheiro de tantos/as na travessia das fases críticas, tanto na formação inicialo como na formação permanente. Suas perguntas certeiras, suas sugestões discretas, mas também suas provocações firmes ajudaram muita gente a não optar pela via aparentemente mais fácil, mas também menos coerente com o ser profundo. E isso sempre respeitando a liberdade de cada um, sem nunca tomar o lugar do próprio caminhante ou decidir por ele.


Itacir Brassiani msf

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