A exclusão do
diferente é sempre uma violência
987 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,14-23
Ontem refletimos sobre a primeira parte do confronto
dos doutores da lei com Jesus em torno da questão da pureza legal. Os doutores
da lei e os fariseus acham que Jesus ensina a relativizar a lei de Deus, e os
seus discípulos se comportam conforme o ensinamento do mestre. Mas não é Jesus
que desrespeita a Palavra de Deus, e sim os próprios escribas, que a deviam
ensiná-la e, na verdade, a esvaziam e manipulam.
Mesmo
que não pareça à primeira vista, a questão da pureza é crucial na mensagem e na
prática de Jesus. No tempo de Jesus, os rituais e preceitos de pureza tinham o
objetivo de manter a unidade fechada do judaísmo às custas da exclusão ou
menosprezo de todos os demais povos, culturas e religiões. A equação era aparentemente
simples: judeu = puro; pagão = impuro. Portanto, por trás da discussão sobre a
pureza e a purificação está a questão da admissão ou não dos excluídos como
membros do povo de Deus.
A
questão é tão central que Jesus insiste, e voltará a isso com frequência:
“Ouçam-me todos, e entendam!” “Então, nem vocês (os discípulos) entendem?” Para
as multidões, Jesus esclarece a questão recorrendo a uma breve metáfora: assim
como nenhum alimento ingerido pode tornar uma pessoa impura, nenhuma relação
com pessoas pagãs pode desqualificar ou tornar impuro quem quer que seja.
Interrogado
pelos discípulos, Jesus explica a metáfora. Declarando puros todos os
alimentos, ele considera insustentável a separação entre judeus e pagãos. O que
nos torna maus ou inaceitáveis aos olhos de Deus não é o encontro, a acolhida ou
o diálogo com as pessoas diferentes, de outras religiões ou grupos, mas as
atitudes, práticas e pretensões de superioridade, de intolerância, de
distanciamento. Não há a menor chance de que algo externo comprometa a
interioridade.
Jesus destrói a ideologia da pureza e solapa em suas
bases a ideologia da separação e da supremacia dos judeus sobre os pagãos. Ele
declara que todos os alimentos são puros, afirma que todas as pessoas possuem a
mesma dignidade, e resgata a dignidade negada aos excluídos, como quando
“purifica” os leprosos. Jesus mostra que o sistema de pureza, que diz proteger
o povo, na verdade oprime os mais vulneráveis. E hoje, o mito da meritocracia e
a ideologia do empreendedorismo continuam classificando e descartando pessoas.
Sugestões para a meditação
Tome
consciência de que Jesus não está a falar de pureza ou impureza de alimentos,
mas da inclusão ou exclusão de pessoas
Quais são
os argumentos usados hoje para defender a superioridade de povos, religiões ou
classes sobre outros?
Por que
ainda tememos tanto a relação, a cooperação e o diálogo com os pobres e
marginalizados, com as demais Igrejas e outras religiões?
Um comentário:
Agradeço pela ótima reflexão do Evangelho da 4ª feira da 5ª semana do Tempo Comum (Mc 7,14-23). O texto paralelo está em Mt 15,10-20.
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