terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pureza & impurezas

A exclusão do diferente é sempre uma violência

987 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 7,14-23

Ontem refletimos sobre a primeira parte do confronto dos doutores da lei com Jesus em torno da questão da pureza legal. Os doutores da lei e os fariseus acham que Jesus ensina a relativizar a lei de Deus, e os seus discípulos se comportam conforme o ensinamento do mestre. Mas não é Jesus que desrespeita a Palavra de Deus, e sim os próprios escribas, que a deviam ensiná-la e, na verdade, a esvaziam e manipulam.

Mesmo que não pareça à primeira vista, a questão da pureza é crucial na mensagem e na prática de Jesus. No tempo de Jesus, os rituais e preceitos de pureza tinham o objetivo de manter a unidade fechada do judaísmo às custas da exclusão ou menosprezo de todos os demais povos, culturas e religiões. A equação era aparentemente simples: judeu = puro; pagão = impuro. Portanto, por trás da discussão sobre a pureza e a purificação está a questão da admissão ou não dos excluídos como membros do povo de Deus.

A questão é tão central que Jesus insiste, e voltará a isso com frequência: “Ouçam-me todos, e entendam!” “Então, nem vocês (os discípulos) entendem?” Para as multidões, Jesus esclarece a questão recorrendo a uma breve metáfora: assim como nenhum alimento ingerido pode tornar uma pessoa impura, nenhuma relação com pessoas pagãs pode desqualificar ou tornar impuro quem quer que seja.

Interrogado pelos discípulos, Jesus explica a metáfora. Declarando puros todos os alimentos, ele considera insustentável a separação entre judeus e pagãos. O que nos torna maus ou inaceitáveis aos olhos de Deus não é o encontro, a acolhida ou o diálogo com as pessoas diferentes, de outras religiões ou grupos, mas as atitudes, práticas e pretensões de superioridade, de intolerância, de distanciamento. Não há a menor chance de que algo externo comprometa a interioridade.

Jesus destrói a ideologia da pureza e solapa em suas bases a ideologia da separação e da supremacia dos judeus sobre os pagãos. Ele declara que todos os alimentos são puros, afirma que todas as pessoas possuem a mesma dignidade, e resgata a dignidade negada aos excluídos, como quando “purifica” os leprosos. Jesus mostra que o sistema de pureza, que diz proteger o povo, na verdade oprime os mais vulneráveis. E hoje, o mito da meritocracia e a ideologia do empreendedorismo continuam classificando e descartando pessoas.

 

Sugestões para a meditação

Tome consciência de que Jesus não está a falar de pureza ou impureza de alimentos, mas da inclusão ou exclusão de pessoas

Quais são os argumentos usados hoje para defender a superioridade de povos, religiões ou classes sobre outros?

Por que ainda tememos tanto a relação, a cooperação e o diálogo com os pobres e marginalizados, com as demais Igrejas e outras religiões?

Um comentário:

Anônimo disse...

Agradeço pela ótima reflexão do Evangelho da 4ª feira da 5ª semana do Tempo Comum (Mc 7,14-23). O texto paralelo está em Mt 15,10-20.