segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A tal felicidade

Viver sem vergonha de ser feliz!

Este compromisso nos leva à canção “O que é, o que é”, que Gonzaguinha gravou em 1982, que é uma louvação à beleza da vida, apesar da sua complexidade. A felicidade depende, em boa parte, do modo como olhamos a vida, da sabedoria que nos faz encarar o mistério da vida como eternos aprendizes, deixando-nos surpreender com a beleza do instante.

Essa perspectiva é confirmada pela composição “Manhã bonita”, de Fábio C. Leal e Maria Ângela Leal, gravada por Rolando Boldrin em 2002, que fez sucesso na novela Cabocla (2004): “Assim é a terra, nos dizendo todo dia: ‘tudo é tão simples, num eterno despertar; o raiar do sol é sempre o mesmo; e o segredo está no jeito da gente olhar”.

Na prática, isso não é tão simples, ao menos no horizonte cultural de hoje. O ensaísta anglo-polaco Zygmunt Baumann afirma que, para a maioria das pessoas, a felicidade é um bem individual que supõe exclusividade, sensação de estar um grau acima dos outros: lugares exclusivos, bens exclusivos, relações exclusivas, inalcançáveis para a maioria.

Se a felicidade consiste nisso, a privação desses bens exclusivos é vivida como a mais dolorida infelicidade. Como a maioria desses bens ‘portadores da felicidade’ são limitados, a felicidade é impossível para a maioria da humanidade. É isso que faz o privilégio, a condição de estar um degrau acima, de ser especial, ser visto como felicidade.

O cristianismo não é alheio à busca da felicidade, mas indica outro ‘conteúdo”. Conforme o judaísmo, nada proporciona mais felicidade que meditar a Lei de Deus: “Feliz o homem que encontra seu prazer na Lei de Javé, e a medita dia e noite... Como eu amo a tua lei! É mais doce que o mel!” (Salmos 1 e 119). Mas isso também é para poucos felizardos...

Jesus Cristo tem uma proposta inovadora e ‘mais democrática’: a felicidade, como a salvação, não é para poucos, mas é desejo e oferta de Deus para todos. Os conceitos ‘salvação’ e ‘felicidade’ estão relacionados com a realização plena da pessoa humana, com o ‘bem viver’ na relação com Deus, com os outros e com todas as demais criaturas.

Para ele, são felizes as pessoas que não sentem proprietárias de nada e de ninguém; que compartilham com as dores e as alegrias dos semelhantes; que não recorrem a relações violentas; que não se resignam às injustiças; que se fazem próximos dos vulneráveis; que têm um jeito puro de olhar; que promovem a paz; que permanecem firmes, mesmo nas perseguições (cf. Mateus 5,1-12). Então, vivamos sem vergonha de sermos felizes assim!

Dom Itacir Brassiani msf

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