“Moro onde não mora ninguém...”
Em 1975, Agepê lançou um álbum com
este título. Na faixa em destaque, o compositor e intérprete canta, com lirismo
e nostalgia, o lugar onde mora e se sente bem. O bem-estar que uma moradia
simples e humilde proporciona também é cantado por Chico Buarque, num poema de
Vinicius de Morais que ele musicou em 1970: “Gente Humilde”.
Assim canta Agepê: “Moro onde não
mora ninguém, onde não passa ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro que
eu me sinto bem! Não tem bloco na rua, não tem carnaval, mas não saio de lá. Uma
casinha branca no alto da serra; um coqueiro ao lado, um cachorro magro
amarrado. É lá que eu vivo sem guerra, é lá que eu me sinto bem”.
Não é preciso transcrever outras
canções como “Tristeza do Jeca”, “Cidadão”, “Casinha Branca” e “Saudosa Maloca”
para demonstrar como a questão da moradia digna está vivamente presente no
cancioneiro brasileiro, como drama ou como utopia. Por isso, não deve estranhar
que a Igreja católica hoje traga a questão da moradia para dentro dos templos.
Não podemos fechar os olhos para a
grave questão da moradia no Brasil: 26 milhões de famílias vivem em moradias
inadequadas; 6 milhões de famílias necessitam de uma moradia hoje; 330 mil
pessoas vivem em situação de rua; 9 milhões de pessoas moram em áreas de risco;
16 milhões de pessoas vivem em favelas (que são “não-cidades”). Eles sim são
obrigados a morar onde ninguém deveria morar...
Voltando a atenção a Santa Cruz do Sul,
segundo o último censo, apenas 61% das famílias vivem em moradias próprias e quitadas;
recentemente, mais de 800 famílias disputaram 250 casas de um programa habitacional;
mais de 30 mil pessoas têm uma renda de até meio salário mínimo. Com essa
renda, como poderão adquirir uma casa ou pagar aluguel?
Estamos habituados a tratar a moradia
como uma mercadoria entre outras. Quem pode, compra. Mas a Declaração Universal
dos Direitos Humanos insere a moradia entre os direitos humanos (cf. art. 25).
E a Constituição Federal a insere entre os direitos sociais dos cidadãos
brasileiros (cf. art. 6º). E cabe ao Estado assegurar o acesso a esse direito!
Os discípulos e discípulas de Jesus
não podemos passar ao largo do drama da moradia, que fere grande parte dos nossos
irmãos e irmãs. Jesus nos adverte sobre isso numa parábola (cf. Lucas 10,25-37):
o serviço ao culto, a busca do bem-estar individual e a obsessão pela segurança
não são álibis para ignorar a dor que fere os irmãos e irmãs.
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