É assassinado quem morre
de fome num país rico
990 | Tempo Comum | 5ª Semana | Marcos 8,1-10
O episódio de hoje é uma provocativa lição de
economia política, centrada em dois princípios gêmeos: a compaixão e o
companheirismo. A segunda distribuição de alimento ao povo faminto, conhecida
como multiplicação dos pães, além de ser uma lição de solidariedade econômica
popular, é uma lição de reforço na formação dos discípulos e discípulas, ainda
reticentes diante da novidade do Evangelho.
Não
quero chocar ninguém, porém precisamos reconhecer que o núcleo deste
acontecimento não é a multiplicação milagrosa de pães e peixes, e sim a
distribuição solidária e justa de alimentos a quem deles tem necessidade. Isso
fica claro quando Jesus, chamando os discípulos, diz: “Tenho compaixão dessa
multidão, porque faz três dias que está comigo e não tem nada para comer”.
E
não se trata de cidadãos plenos, de gente que pertence ao povo judeu, mas de
estrangeiros, ou pagãos. Para Jesus, aqueles que os judeus consideravam
malditos, impuros, cães, são os pobres, muito queridos de Javé. Por isso, este
segundo relato de distribuição de alimentos aos famintos é guiado pelo tema da
acolhida e do socorro aos que “vieram de longe” e são excluídos do judaísmo.
Ao
que parece, distribuindo fartamente pães e peixes Jesus também enfrenta e
contesta o jejum ritual pregado e praticado pelos fariseus, especialmente
quando estamos diante do jejum ou da fome impostas ao povo. Quando a fome é
concreta, o jejum, por mais piedoso que seja, deve ser superado pela partilha e
pelo atendimento às necessidades humanas, para que haja pão em todas as mesas,
e para que haja festa.
Os
discípulos, apegados aos seus princípios e costumes, mas também contaminados
pela ideologia do mercado que grita “Menos Estado, mais Mercado!), ficam confusos:
não veem no deserto ou na “lei do mercado” nenhuma possibilidade de encontrar
meios e recursos para saciar a fome do povo. O Mercado não conhece a compaixão!
A lição de Jesus é mais do que
clara: a satisfação econômica das massas empobrecidas passa pela economia do
dom, ou da partilha. A vontade do Deus não é o jejum, mas a abundância de pão
para todos mediante a partilha e o companheirismo. Deixar alguém morrer de fome
num país com imensas riquezas equivale a um assassinato.
Sugestões para a meditação
Releia o
texto dando atenção à atitude e às palavras de Jesus diante das necessidades do
povo e à reação dos discípulos
Você
consegue perceber qual é o segredo ou o dinamismo que desabrocha na abundância
de alimento para todos?
Você acha
correto dizer “só Jesus pode dar uma solução” quando ele começa perguntando
“quantos pães vocês têm”?
Como esta
ação de Jesus, e as lutas atuais pelo direito à alimentação, se relacionam com
a Eucaristia?
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