quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Por que jejuar?

O jejum não se coaduna com a opressão

996 | Quaresma | Sexta-feira | Mateus 9,14-15

No texto que meditamos na quarta-feira das cinzas Jesus já questionava a atitude que pode contaminar o jejum, a esmola e até a oração. E indicava a postura correta e capaz de manter o sentido profundo destas expressões de piedade. Hoje, depois de ser questionado pelos fariseus sobre seu desprezo pelo jejum, Jesus é interrogado pelos discípulos de João Batista sobre o mesmo tema: “Por que razão nós e os fariseus praticamos (muitos) jejuns, mas teus discípulos não?”

Este episódio dos evangelhos, mesmo que pareça contradizer a recomendação da Igreja para o tempo da quaresma (jejum, oração e partilha), resgata o sentido original do jejum: romper com os mecanismos de dominação e de opressão, como ensina o profeta Isaías (cf. 58,1-9). É isso que Jesus faz e ensina. Diversamente dos fariseus, ele acolhe e reintegra as pessoas oprimidas e marginalizadas à convivência social, proclamando sua dignidade, e esse é o jejum que agrada a Deus.

No episódio que antecede o questionamento de hoje, Jesus chamara para junto de si e para ser seu discípulo um cobrador de impostos, terrivelmente odiado e desprezado pelos judeus; perdoara pessoas consideradas publicamente pecadoras; curara e reintegrara doentes. Para essa gente, o jejum que acompanha as situações dolorosas e a luta pelo reconhecimento da indignidade haviam chegado ao fim, e, diante de tamanha graça de Deus, não poderiam não festejar.

O ensino e as atitudes de Jesus desconcertam, mas, para ele, o jejum é luto, e a partilha à mesa é a festa da vida. Com Jesus e com o Reino de Deus, o clamor de dor se transforma em louvor e gratidão. Como “noivo” da Nova Aliança de Deus com seu povo, Jesus tem autoridade para relativizar ou mudar alguns preceitos, por mais sagrados que possam parecer. Ninguém jejua numa festa de casamento!

Quando Jesus é “retirado” do meio de nós e volta a ser crucificado nos seus “irmãos mais pequeninos”, o jejum volta a fazer sentido: jejuaremos para que a festa da vida seja para todos; privar-nos-emos de algo para fazer-nos dom, partilhar, cuidar da Casa Comum, lutar contra a opressão e por moradia digna para todos.

 

Sugestões para a meditação

Leia atentamente, palavra por palavra, estes dois breves versículos do evangelho segundo Mateus

Se possível, leia também o episódio que antecede o trecho de hoje, a narração da refeição de Jesus na casa de Mateus (Mt 9,9-13)

O que significa dizer que não podemos fazer jejum enquanto o noivo está conosco, mas somente quando ele nos for tirado?

Por que o jejum encontra hoje tanta resistência entre nós, e qual seria o sentido aceitável e cristão do jejum?

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