A fé dos pequenos provoca grandes mudanças
1163 | Tempo
Comum | Semana XVIII | Quarta | Mateus 15,21-28
O texto proposto para a meditação de hoje pula os
versículos que registram a explicação que Jesus oferece aos discípulos que o
interrogam sobre o sentido da parábola com a qual fala daquilo que realmente
torna a pessoa impura (v. 15-20). Depois da crítica aos mestres da lei e aos
fariseus e da instrução ao povo e aos discípulos, Jesus desembarca, com seus discípulos, em pleno território pagão.
Ali Jesus é procurado por uma mulher desprezada e marginalizada por ser pagã, por ser mulher,
por ser estrangeira e por ser mãe solteira, viúva ou abandonada pelo marido
(pois não há nenhuma referência a irmãos e marido). Essa mulher faz parte de um povo que a tradição judaica
trata como amaldiçoado por Deus, mas ela se aproxima de Jesus e pede sua
ajuda em favor de sua filha psiquicamente perturbada. É a primeira mulher a falar no evangelho de Mateus!
Inicialmente, mesmo sendo invocado como filho de
Davi, o defensor ideal dos indefesos, Jesus não se importa com o grito da
mulher que pede socorro, e a trata no horizonte da ideologia da supremacia dos
judeus sobre os demais povos. Jesus dá a
entender que foi enviado prioritariamente aos judeus, e é isso que ele se sente
obrigado a fazer. Ou essa seria a ideologia que tentava os discípulos
missionários na época em que Mateus escreve seu evangelho?
Os discípulos querem se livrar da mulher, mas ela não desiste, e questiona a ideologia do privilégio de Israel diante de Deus e da
supremacia diante dos demais povos! Então Jesus se dirige diretamente a ela,
mas para reforçar a prioridade do seu povo sobre os pagãos. E a mulher, que surge na cena como uma
pessoa frágil e necessitada, manifesta explicitamente sua fé, se aventura a
discutir teologia, e reinterpreta a afirmação excludente de Jesus. Segura
da sua própria dignidade, atreve-se a desobedecer às repreensões dos discípulos
e até a discutir com Jesus.
Jesus acaba reconhecendo na
luta persistente daquela mulher contra a exclusão étnica e religiosa uma clara
manifestação de fé. Esta fé produz frutos, e a necessidade daquela
mulher é atendida. Graças à persistência de um personagem considerado excluído
e tratado como inferior, o cristianismo se abriu aos diversos povos e suas
culturas. Acolhamos agradecidos o testemunho inquieto das mulheres numa Igreja
de ministros masculinos, e arregacemos
as mangas para “desmasculinizar” a Igreja.
Sugestões para a meditação
Participe
da cena: o desembarque de Jesus, os gritos da mulher, a indiferença de Jesus, a
insistência da mulher e a reação de Jesus
Será
que também nossa Igreja ainda prioriza setores privilegiados e descarta pessoas
e grupos por preconceitos diversos?
Somos
capazes de reconhecer na luta perseverante e até raivosa de algumas pessoas e
grupos sinais de fé aguerrida?
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