quarta-feira, 8 de maio de 2013

Solenidade da Ascensão de Jesus Cristo


Somos testemunhas da exaltação de um Servo humilhado.
(At 1,1-11; Sl 46/47; Ef 1,17-23; Lc 24,46-53)

São muitas e diversas as tentações que ameaçam limitar ou eliminar a força revolucionária da nossa fé em Jesus Cristo. E uma das principais é considerar a encarnação e a humilhação do Filho de Deus como um fato transitório, uma etapa pouco importante da sua vida, uma espécie de parêntesis superado pela ressurreição e pela ascensão ao céu. A ascensão seria sua fuga definitiva das contradições do mundo, onde teria vindo apenas para nos falar das coisas de Deus. A glorificação e o poder que o caracterizam hoje seriam o prêmio pelos sofrimentos suportados e teriam apagado completamente os sinais de uma vida de filho da humanidade, de homem pobre, trabalhador e sonhador. Se ele voltar a este mundo será apenas para julgar os vivos e os mortos. O céu seria o seu lugar definitivo e a meta da nossa caminhada, e a terra seria uma contingência da qual precisamos nos livrar o mais rapidamente possível. Seria mesmo esta a nossa fé?
 “Assim está escrito...”
Em Jesus se cumprem as Escrituras. Desde cedo, os primeiros cristãos fizeram questão de sublinhar que a humanidade do Filho de Deus, inclusive a rejeição, a tortura e o assassinato dos quais foi vítima, não foram uma espécie acidente de percurso ou um descuido de Deus, mas realização das Escrituras. Para estes cristãos da primeira hora, em Jesus se realizou plenamente o essencial daquilo que as leis, os profetas e os salmos intuíram e anunciaram.
Mas este núcleo central e verdadeiro da fé apostólica não nos autoriza a dar um perigoso salto mortal e concluir que Deus Pai teria desejado o sofrimento e a morte do próprio Filho. O que os nossos pais e mães na fé querem sublinhar é que as Escrituras em seu conjunto apontam para a humanização de Deus, para seu desígnio de mergulhar no mundo, assumindo asw consequências disso, para manifestar e oferecer seu amor de forma definitiva e irrevogável.
“O Cristo sofrerá...”
A glória de Deus brilha no ser humano livre, humilde e servidor. “Assim está escrito: o Cristo sofrerá e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia...” O dinamismo da encarnação de Deus não conhece paradas nem limites. Aquilo que começou no seio anônimo de Maria e se manifestou aos pastores na estrebaria, continuou na carpintaria de Nazaré, se prolongou nas cidades e aldeias da Galiléia e culminou no calvário, fora dos muros que separavam protegiam as ‘pessoas de bem’.
Quando os cristãos resumem as Escrituras com a expressão ‘o Messias sofrerá’, estão afirmando de forma contundente que o Enviado de Deus se caracteriza mais pela vulnerabilidade compartilhada com os seres humanos comuns do que pelo poder e pela glória daqueles que desconhecem as dores e lutas dos homens e mulheres sem nome. É diante deste Deus que se abaixa para, em sua carne tomada de empréstimo à humanidade, elevar os humilhados, que o salmista nos convida a bater palmas.
Este movimento de abaixamento e esvaziamento de Deus é salvífico e libertador porque é guiado e sustentado pelo amor e continua nos cristãos pelo Espírito de amor que nos é concedido. Assumindo solidariamente a humanidade humilhada, Cristo assina o decreto de reconhecimento público e universal da sua dignidade e, ao mesmo tempo, concede-lhe seu Divino Sopro, o respiro que lhe permite reinventar sempre de novo a sociedade em parâmetros de justiça e de comunhão.
“Deus pôs tudo debaixo de seus pés...”
Este movimento de esvaziamento expressa a verdadeira glória e a admirável grandeza de Deus. É um erro pensar a ressurreição de Jesus Cristo como uma passagem de uma fase transitória e limitada para uma etapa defitiva e potente. Ou então como um prêmio que se segue a uma submissão obediente e desonrosa.  É um perigoso desvio teológico imaginar a ascensão de Jesus ao céu  como uma superação da sua condição humana e servidora. Deus se faz carne e habita entre nós de modo radical e definitivo.
Por isso, a ascensão de Jesus ao céu precisa ser compreendida no quadro da sua crucifixão, da demonstração cabal e insuperável de sua identificação solidária com o ser humano oprimido. Na verdade, proclamar a ascensão de Jesus ao céu significa converter nosso modo de ver o mistério do seu esvaziamento. Não se trata da superação da figura de servo e de último, mas do reconhecimento de que nesta figura se revela o verdadeiro rosto de Deus, sua glória incomparável, sua grandeza inacessível. E que esta é também a glória que ele nos deixa como herança.
Ressurreição, ascensão, glorificação e sentar-se à direita de Deus são imagens e conceitos que, de forma complementar, procuram dar conta deste dinamismo e afirmar que Deus se manifesta exatamente no amor que assume a carne humana, serve e dá a vida. É este Filho de Deus humanado e esvaziado que está acima de todos os poderes e forças, de todos os senhores e autoridades. Tudo o resto está sob seus pés. Só o amor merece crédito, submissão e reverência!
“Vós sois testemunhas destas coisas...”
É disso que somos constituídos/as testemunhas. A missão que recebemos ao sermos mergulhados/as nas águas do batismo é esta: reconhecer, proclamar e testemunhar que Deus está presente nos seres humanos que amam e servem, inclusive nos condenados e proscritos pela ordem social. Somos testemunhas de um Deus que assume a posição de Cordeiro/Servo, que mostra sua grandeza fazendo-se pequeno e identificando-se com o simples ser humano, como o fazem naturalmente as mães.
Jesus Cristo torna-se cabeça do corpo composto pelos homens e mulheres que acreditam nele. Ele não é refém da Igreja e, menos ainda, da hieraquia. O corpo não segue seu próprio rumo, mas recebe orientação e comando da cabeça. Assim, a comunidade eclesial é convocada a assumir a forma forma de vida de Cristo, sua cabeça. E isso significa não buscar outra glória que não seja aquela de servir, outra honra diferente daquela de partilhar o destino dos deserdados da terra.
É por isso que a ascensão de Jesus representa, ao mesmo tempo, a maturidade missionária dos discípulos/as. “Recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas.” Antes de ser elevado, Jesus ergue as mãos e abençoa os discípulos/as. E então, em nome de Jesus Cristo, eles partirão anunciarão a todos os povos a conversão e o perdão dos pecados. E levarão em seus corpos os sinais gloriosos de um Deus encarnado, esvaziado e servidor.
“Para que conheçais a riqueza da glória que ele nos dá em herança...”
A mais bela e valiosa herança que Jesus Cristo nos deixa é sua humanidade. Este é o Espírito que ele nos entrega. Paulo tem razão quando pede a Deus que ilumine os ‘olhos do nosso coração’ para que sejamos capazes de conhecer a herança à qual somos chamados, a preciosidade da glória à qual ele nos chama. Mas nos iludimos e traímos Jesus Cristo se buscamos a glória no poder e a herança na expansão do império cristão ou da cultura ocidental.
Como Cristãos e discípulos de um Messias rejeitado e crucificado, não temos direito de sonhar com um tempo de restauração das velhas ordens e dos podres poderes, cuja estabilidade repousa na dominação, na expropriação e no medo. Como os discípulos daquele tempo, frequentemente suspiramos e perguntamos: “Senhor, é agora que vais reestabelecer o reino de Israel?” Mas ele responde que o nosso tempo será sempre tempo de missão, que nossa missão é o testemunho, que a nossa glória é a cruz...
“Por que ficais aqui parados, olhando para o céu?”
Diante dos nosso olhar estrábico fixado no poder e obcecado pelas alturas, os anjos nos questionam: “Por que ficais aqui, parados, olhando para o céu?” Depois de nos levar para fora dos muros e nos abençoar, Jesus se retira e se esconde entre as nuvens para que assumamos plenamente o protagonismo no palco da história. E isso implica em olhar para a terra e, desde a periferia, ‘ganhar o mundo’ e edificar nele o mundo de Deus. Eis nossa condição e nossa glória!
Jesus de Nazaré, Cordeiro ferido e Servo exaltado! Não permita que caiamos na tristeza, na inércia e na resignação. Torna-nos alegremente abertos ao teu Espírito, vibrantes no louvor, generosos no amor. Guia-nos na descoberta e na realização da nossa missão de testemunhar o amor que se faz carne, que nos aproxima dos últimos, que nos faz servidores de todos/as. Faz-nos profetas da alegria, discípulos/as agradecidos/as por descobrir que tua ascensão é teu mergulho definitivo no coração do mundo, honrados/as por continuar tua missão de tirar o pecado do mundo. Assim seja! Amém!
Pe. Itacir Brassiani msf

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