segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Natal de um missionário


Sentimentos natalinos em terras moçambicanas

Passar a festa do Natal como estrangeiro é uma experiência que já vivi em 2014. Entretanto, desta vez ela está tendo outros tons. Moçambique em si mesmo está sendo uma experiência que me surpreende a cada dia, sejam as pessoas, seja a natureza. 
A primeira coisa que percebi nestas terras é que a festa do Natal é mais intimista. Não há toda aquela comercialização em volta dos presentes, da decoração. Isso acontece na cidade, Nampula, como também no distrito aonde vivo, Mecubúri.
Aqui em Mecubúri eu vi apenas um enfeite de natal, uma árvore, precariamente enfeitada, na frente do hospital. Espero que a festa do nascimento de Jesus não se perca por entre as luzes e os enfeites, e que ela seja realmente uma memória. E não somente por estas terras, mas também em todos os rincões onde esta mensagem chegar.
O nascimento de Jesus faz memória da nossa humanidade: somos e fazemos parte do húmus da terra! Está na nossa essência, deve estar no íntimo do nosso ser a percepção de que fazemos parte de toda a natureza.
Jesus não é só Deus, Ele também é homem. E esta humanidade de Jesus deve ser exemplo para nós, de como sermos humanos! Olhemos ao nosso redor e percebamos a real importância das relações e das coisas, e, se for preciso jogar fora as coisas que atrapalham e se afastar das relações que impedem de vivermos a nossa humanidade com integridade, que o façamos! Com o nascimento de Jesus, precisamos lembrar a verdadeira forma de sermos humanos!
O nascimento de Jesus faz memória da nossa família: Deus enviou seu Filho para nascer no seio de uma família. Maria e José acolheram ao pequeno Jesus com todo o seu amor. Jesus nasceu frágil, precisando de todos os cuidados possíveis. O ser humano é uma das criaturas que nascem dependendo inteiramente de seus pais. Eis a importância da família. Dentro da família encontramos compreensão para as nossa fragilidades; força para as nossas fraquezas; aceitação e respeito pelas nossas diferenças! É na família que devemos encontrar a verdadeira fortaleza do amor e da fé. A verdadeira felicidade deve se encontrar no seio da família.
Por isso, não podemos deixar que a inveja, o dinheiro, a ganância, as brigas, separem a nossa família. Deus está em cada uma de nossas famílias. Não podemos ser família só nas festas, não podemos ser família só no Natal, não podemos ser família só nas alegrias, devemos e precisamos ser família em e para todos os momentos! Uma família pode ser frágil, mas tornar-se-á forte através de suas relações amorosas! 
Jesus faz parte da nossa família.  O nascimento de Jesus faz memória das nossa relações. Jesus teve inúmeras relações de amizade, de vizinhança, de comunidade, entre outras. Teve relações boas, mas também teve relações que o machucaram. Entretanto nunca maldisse a nenhum daqueles com quem se relacionou. Sempre os chamou para a verdade, para que eles mesmos percebessem aonde estavam errando.
Assim também devemos ser nós, em nossas relações. Temos amigos de perto e de longe, amigos virtuais, amigos do trabalho. Todos eles nos demonstrando a riqueza de se ter um amigo. Muitas vezes nenhum destes amigos, nenhum familiar está perto que nosso vizinho! Precisamos dos nossos vizinhos! Eles podem ser “a ajuda certa, nas horas incertas”. Precisamos nos afastar das relações que nos fazem mal, mas sem ódio ou rancor em nossos corações, pois, quem sabe, um dia precisaremos destas pessoas, ou elas venham a precisar de nós. Ai está o ensinamento de Jesus, o perdão!  É necessário perdoar em nossas relações. Perdoar não requer julgamentos, requer amor! E amor foi o que Jesus mais entregou aos seus!
O nascimento de Jesus faz memória do amor: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13, 34). O grande mandamento de Jesus. Ele nos ensinou que devemos amar a todos. Infelizmente na atual realidade queremos escolher quem amar. E assim, deixamos tantas pessoas de fora, pela cor da sua pele, pela sua denominação religiosa, por sua orientação sexual, pela quantia de dinheiro que possui, por ser estrangeiro, por ser de um determinado partido político.
Relegamos estas pessoas as margens, mas esquecemos, ou queremos esquecer que Jesus sempre andou pelas margens! Aqueles que a sociedade da época de Jesus dizia que não prestavam, era com estes que Ele demonstrava todo o seu Amor! Precisamos recuperar o nosso verdadeiro amor, que não está nas aparências e sim na essência das pessoas. Precisamos reconhecer o amor uns nos outros. Um amor que traz a paz em tempos de divisões.
A divisão não causa a ruina de uma empresa, de uma família, de uma comunidade. O amor une e facilita todas as relações. Entretanto amar não é fácil, pois o amor requer que a gente saia das nossas casas e vá em direção daqueles que excluímos por qualquer motivo. O Amor quer que estejamos unidos e caminhando todos juntos. Um caminhar que não é fácil. Precisamos lembrar que a felicidade não reside no fim do caminho, mas na sua trajetória!
Minha querida família, meus queridos amigos! Não importa o seu credo, 
o que você acredita ser o Amor, precisamos fazer memória de tudo que nos foi ensinado! Desde que vim para as terras moçambicanas, a minha fé tem mudado, a minha percepção do amor, da família, da amizade tem mudado para melhor. Esta mensagem são ensinamentos que a mãe África me ofereceu. Não deixemos que as nossas relações se percam! Não deixemos que o Amor se torne uma moeda de troca e algo sem importância.
É com muitas saudades que lhes deixo os meus votos de Feliz natal e um Feliz Ano Novo. Que possamos deixar o Amor entrar em nossas vidas e transformar tudo!
Fr. Ricardo Klock msf

sábado, 22 de dezembro de 2018

ANO C | TEMPO DO NATAL | CELEBRAÇÃO DA NOITE | 25.12.2018


Jesus, um caminho para o abraço entre a paz e a justiça.
As casas, mercados, ruas e praças estão repletas de luzes. Os espaços religiosos, comerciais e de lazer estão tomados por melodias harmoniosas. Os shoppings estão abarrotados de mercadorias e são invadidos por multidões movidas por um insaciável desejo de consumo. Entretanto, uma sensação de noite escura provoca um temor que insiste em não desaparecer. E um sentimento de vazio insaciável sobrevive às mesas fartas e à abundância de bebidas. Objetivamente, jugos diversos oprimem o povo, cargas insuportáveis são jogadas nas suas costas. E um desejo insistente e profundo desejo de paz e bem queima nossa alma.
Naquele tempo, quando Quirino governava a região, César Augusto decretou em Roma uma medida que mexeu com a vida do povo de Israel, como se já não estivesse difícil demais. Usando as palavras de Isaías, a canga da opressão política, econômica e religiosa vergava o pescoço dos pobres; a prepotência dos fiscais se superava a cada dia na forma e na intensidade; as tropas de soldados, com suas botas ruidosas e suas fardas ensanguentadas, desfilavam para assustar o povo da roça e da cidade. O povo vivia como os pastores, obrigados a trabalhos noturnos e acossados permanentemente pelo medo de tudo e de todos.
Em nosso tempo, sentimo-nos encurralados pelos discursos agressivos e ameaçadores das elites saudosas do escravagismo, apaixonadas pela tortura, casadas com a violência e promotoras de um mercado total, sem limites e sem coração. Estas elites, mancomunadas com setores dos poderes legislativo, executivo e judiciário e com a imprensa mercantilista, conseguiram tornar vencedor um projeto de segregação social, de limitação de direitos, de ódio aos indígenas e imigrantes, de intolerância com o pensamento divergente, de segurança jurídica para os capitalistas às custas da insegurança dos trabalhadores. Também hoje a noite é escura...
A escuridão tenebrosa dessa noite assusta e abate, a mentira repetida ininterruptamente toma feições e cores de verdade, a intolerância e a violência rondam nosso pensamento e nos tentam como saídas viáveis e desejáveis. Mas a memória do nascimento de Jesus em Belém, da sua pregação na Galileia, da sua ação livre, destemida e libertadora no caminho a Jerusalém, da ousada firmeza diante dos podres poderes – da Boa Notícia de Deus! – abre nossos olhos, enxuga nossas lágrimas, põe fogo nas cangas que nos oprimem e nas botas e fardas manchadas de sangue, põe-nos de pé. Damo-nos as mãos e cantamos, desafiando a noite.
A alegria suscitada pela encarnação de Deus não é uma entre as outras alegrias que experimentamos, não se equipara à que sentimos quando adquirimos um bem desejado, recebemos a visita esperada, realizamos a viagem planejada ou conseguimos a vitória nas urnas. É uma alegria intensa, profunda e imensa, quase inexplicável. Ela vem da certeza de que na fragilidade de um Deus que se faz criança a justiça que necessitamos e a paz que aspiramos se entrelaçam e completam; que a luz do Evangelho ilumina e elimina as trevas e abre caminhos, evidenciando a irmandade universal; que este mundo imundo não é eterno...
A celebração do Natal suscita essa alegria porque, em Jesus, a graça de Deus se manifesta e confirma a dignidade e o valor das pessoas excluídas da lista dos meritórios homens de bem (ou homens dos bens?). O Natal suscita esperança porque revela que a força da mudança mora em nós, em nossa capacidade de viver com piedade, equilíbrio e justiça.  Aproximando-se da humanidade, Deus se faz conselheiro admirável. Assumindo nossa fragilidade, ele se mostra forte e nos fortalece. Enfrentando incansavelmente os opressores, ele se mostra príncipe da paz. Armando sua tenda na escuridão, ele se faz nossa luz.
Os pastores são os primeiros a receber a notícia, a ver e a tocar esse mistério inefável, a experimentar a alegria que exorciza o medo. Mas não são os únicos! Essa alegria, suscitada pela esperança cuja realização embrionária nos espera na periferia do mundo, é para todo o povo, para todos os que “jazem nas sombras da morte”. As praças iluminadas e os shoppings sedutores não conseguem produzi-la, nem o cinismo dos vitoriosos conseguirá suprimi-la. Nossas igrejas preocupadas unicamente com o culto, a devoção e a lei estrão em condições de entendê-la e celebrá-la? Ela brota do abraço entre a paz e a justiça!
Deus amável, abraço da misericórdia e da justiça, comunhão incondicional e sem limites, encontro reconciliador entre a divindade e a humanidade! No mistério dessa noite fazes resplandecer a verdadeira luz, e nela entendemos que não queres habitar as alturas inacessíveis e nos queres como tua morada. Que tua encarnação nos faça menos medrosos e mais alegres, menos resignados e mais lutadores, menos indivíduos e mais comunidade, mais proféticos que piedosos, espaço e sementeira de justiça e paz. Amém! Assim seja!
                                                                                                    Itacir Brassiani msf
Profecia de Isaías 9,1-6 | Salmo 95 (96)
Carta de São Paulo a Tito 2,11-14 | Evangelho de São Lucas 2,1-14

ANO C | TEMPO DO NATAL | CELEBRAÇÃO DA MANHÃ | 25.12.2018

E a Palavra de Deus se fez carne e veio morar em nós!

A Palavra de Deus se fez carne e quis morar entre nós. O Poder de Deus se fez fragilidade e nos consolou em nossos insuperáveis limites. A Promessa de Deus se fez acontecimento e deu fundamento à nossa esperança. Deus abandonou para sempre os palácios da inacessibilidade e se aproximou do humano ser. Deus nos revelou que é pai e não lhe agradam os espíritos puros nem o puro espírito, e mergulhou na corporeidade humana. Fazendo-se carne e assumindo a história e suas tensões, Deus se revelou boa notícia a ser acolhida com fé e anunciada com os pés, com as mãos, com o corpo inteiro, falando, silenciando, adorando e agindo.
Tudo isso se condensa naquela cocheira onde os animais buscavam alimento, naquela mesa na qual Jesus se repartiu e entregou sacramentalmente, naquela cruz onde ele radicalizou a doação de si e selou a aliança que Deus firma e confirma com a humanidade. Em Jesus, Menino e Profeta, a lei (do eterno retorno, de levar vantagem em tudo, de quem pode mais chora menos) perdeu sua importância, e nós é dada graça sobre graça, pois a verdade deixou de ser veredicto que nos condena. Nele e no seu frágil corpo de bebê, o que fora palavra profética fez-se palpável e adquiriu glória e esplendor. E o humano é adorado até pelos anjos!
Benditos e belos são os pés dos homens e mulheres que sobem montanhas e descem abismos, percorrem estradas e atravessam mares, levando a todas as criaturas essa boa notícia! Diante desse alegre anúncio, alicerçado na experiência e no testemunho, até os sisudos guardas, habituados a vigiar, denunciar e punir, exultam e cantam; e as cidades, aldeias e acampamentos em ruínas, assim como o povo arruinado por seculares e múltiplas opressões, despertam, abrem os olhos lacrimejantes e ensaiam passos de uma dança que lhes parecia impossível. Belos e benditos são os pés dos discípulos missionários que partem de Belém!
Belos e benditos são os pés e os passos de Maria, que não permaneceu amedrontada ou extasiada diante do anúncio do mensageiro de Deus, que não ficou dando voltas em torno de si mesma e de seus méritos. Seus pés apressados obedeceram à voz do seu coração e a levaram a abraçar afetuosamente Isabel, a quem serviu e dedicou três meses de trabalho. Belos e benditos são os pés de quem, acolhendo o entendimento do velho Zacarias, deixa-se iluminar pelo Sol da Justiça e permite que ele dirija seus passos nos caminhos da paz. Benditos e belos são os pés dos missionários que também hoje partem e se tornam o próximo de muitos!
Em Nazaré e em Belém, na Galileia e em Jerusalém, o Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações. No espaço doméstico e menosprezado da casa de Isabel, contemplando as marcas da ação misericordiosa de Deus no velho corpo de Isabel e no seu próprio e jovem corpo, Maria proclama exultante que Deus mostra o poder do seu braço dispersando os orgulhosos, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. Zacarias, alguns meses depois, confirma que, graças às mãos misericordiosas de Deus, fomos salvos e libertos do domínio dos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam. Belo e bendito braço de Deus!
No Menino Deus, despojadamente aninhado na manjedoura, cercado por pessoas que não fogem dos ambientes miseráveis como o são grutas e estábulos, Deus se faz corpo e carne falante e brilhante, palavra encarnada, silente e eloquente, lança luz sobre e revela a verdade de todo ser humano: somos desde sempre amados e queridos por Deus, e toda a humana ação é ação de Deus, assim como o descaso ou a agressão à pessoa humana é indiferença e agressão ao próprio Deus. Não é esquecendo e desprezando o corpo que nos assemelhamos a Deus, mas assumindo-o como lugar e mediação da manifestação de Deus.
No amável mistério do Natal, somos introduzidos no dinamismo do reinado de Deus, do corpo que se faz notícia boa, que luta e serve, que abraça e aquece, que estremece de medo e de alegria, que se reparte em mil pedaços para se reunificar na divina compaixão. A Palavra vem para quem a ela pertence, e nós queremos acolhê-la, em toda a sua beleza e profundidade. Precisamos determo-nos diante dela, da Palavra revestida de fraldas, para contemplar e compreender a glória de Deus que nela brilha. Nela resplandece a proximidade e a condescendência de Deus. Nela brilha a bondade e a generosidade que nos faz humanos.
Deus despojado, Deus próximo, Deus amável! Dobrando os joelhos diante do mistério da encarnação do teu Filho, adorando o inefável mistério do teu amor sem limites, pedimos: desamarra nossos braços, para que participem da tua ação que liberta os oprimidos; move nossos passos, para que levem a Boa Notícia da encarnação a todas as pessoas; imprime tua Palavra em todas as nossas células, ações e projetos, para que sustentemos as melhores lutas e embalemos o novo mundo na força da tua Palavra. Assim seja! Amém!
                                                                                                    Itacir Brassiani msf
Profecia de Isaías 52,7-10 | Salmo 97 (98)
Carta de São Paulo aos Hebreus 1,1-6 | Evangelho de São João 1,1-18

O Evangelho dominical - 25.12.2018


ANTE O MISTÉRIO DO MENINO

Os homens acabam por se habituar a quase tudo. Frequentemente, o hábito e a rotina vão esvaziando de vida a nossa existência. Peguy dizia que “há algo pior do que ter uma alma perversa, é ter uma alma habituada a quase tudo”. É por isso que não podemos nos surpreender que a celebração do Natal, envolta em superficialidade e consumismo louco, dificilmente diga algo novo ou alegre para tantos homens e mulheres de “alma acostumada”.
Estamos acostumados a ouvir que “Deus nasceu num estábulo de Belém”. Já não nos surpreende nem comove um Deus que se oferece como uma criança. Saint-Exupéry diz no prólogo de seu delicioso O Pequeno príncipe:Todas as pessoas crescidas foram crianças antes. Mas poucos se recordam disso”. Esquecemos o que é ser criança. E esquecemos que o primeiro olhar de Deus ao se aproximar do mundo foi o olhar de uma criança.
Mas essa é precisamente a grande novidade do Natal. Deus é e continua sendo Mistério. Mas agora sabemos que não é um ser tenebroso, inquietante e temível, mas alguém que nos é próximo, indefeso, afetuoso, a partir da ternura e da transparência de uma criança.
E esta é a mensagem do Natal. Precisamos sair ao encontro desse Deus, devemos mudar o coração, tornar-nos crianças, nascer de novo, recuperar a transparência do coração, abrir-nos com confiança à graça e ao perdão.
Apesar da nossa terrível superficialidade, do nosso ceticismo e desencanto, e acima de tudo, o nosso inconfessável egoísmo e mesquinhez de adultos, sempre há nos nossos corações um recanto íntimo onde ainda não deixamos de ser crianças.
Atrevamo-nos por um momento a olhar-nos com simplicidade e sem reservas. Façamos um pouco de silêncio ao nosso redor. Desliguemos a televisão. Esqueçamos a nossa pressa, os nervosismos, as compras e os compromissos.
Escutemos dentro de nós esse coração de criança que ainda não se fechou à possibilidade de uma vida mais sincera, bondosa e confiante em Deus. É possível que comecemos a ver a nossa vida de outra forma. “Não se vê bem senão com o coração. O essencial é invisível aos olhos” (Saint-Exupéry).
E, acima de tudo, é possível que escutemos um chamado para renascer para uma nova fé. Uma fé que não seja estagnada, mas rejuvenesça; que não nos encerre em nós mesmos, mas nos abra; que não separe mas una; que não tem medo, mas que confia; que não entristeça, mas que ilumine; que não tema mas que ame.
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

O Evangelho dominical - 23.12.2018


MULHERES CRENTES

Depois de receber o chamado de Deus, anunciando que ela será a mãe do Messias, Maria põe-se a caminho sozinha. Começa para ela uma nova vida, a serviço do Seu Filho Jesus. Maria marcha rápido, com decisão. Ela sente a necessidade de partilhar a sua alegria com a sua prima Isabel e de pôr-se a seu serviço o quanto antes nos últimos meses de gravidez.
O encontro entre as duas mães é uma cena incomum. Os homens estão totalmente ausentes. Apenas duas mulheres simples, sem qualquer título ou relevância na religião judaica. Maria, que carrega Jesus com ela para todos os lugares, e Isabel, que, cheia de espírito profético ousa abençoar a sua prima em nome de Deus.
Maria entra na casa de Zacarias, mas não se dirige a ele. Vai diretamente saudar Isabel. Nada sabemos do conteúdo da sua saudação. Apenas aquela saudação enche a casa com uma alegria transbordante. É a alegria que Maria vive desde que ouviu a saudação do Anjo: “Alegra-te cheia de graça!”
Isabel não pode conter a sua surpresa e sua alegria. Quando ouve a saudação de Maria, sente os movimentos da criança que carrega em seu ventre e interpreta-os maternalmente como saltos de alegria. Imediatamente abençoa Maria com a voz em grito dizendo: “Bem-aventurada és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!”
Em nenhum momento chama Maria pelo seu nome. Contempla-a totalmente identificada com a sua missão: é a mãe do seu Senhor. Vê Maria como uma mulher crente, na qual se irão cumprindo os desígnios de Deus: “Abençoada porque acreditaste!”
O que mais a surpreende é a atuação de Maria. Não veio para mostrar sua dignidade de mãe do Messias. Não está ali para ser servida, mas para servir. Isabel não sai do seu assombro. Quem sou eu para que me visite a mãe do meu Senhor?”
Há muitas mulheres que não vivem bem dentro da Igreja. Em algumas cresce o desafeto e o mal-estar. Sofrem quando percebem que, apesar de serem as primeiras colaboradoras em muitos campos, dificilmente são levadas em conta quando se trata de pensar, decidir e promover a vida da Igreja. Essa situação está fazendo mal a todos.
O peso de uma história multissecular, controlada e dominada pelos homens, impede-nos de tomar consciência do empobrecimento que significa para a Igreja prescindir de uma presença mais efetiva das mulheres. Nós não queremos perceber, mas Deus pode despertar mulheres crentes, cheias de espírito profético, que nos podem dar alegria e dar à Igreja uma face mais humana. Serão uma bênção. Elas nos ensinarão a seguir Jesus com mais paixão e fidelidade
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

ANO C | TEMPO DE ADVENTO | 4° DOMINGO | 23.12.2018


Somos felizes porque Deus sempre cumpre aquilo que promete.
No quarto domingo da caminhada do Advento nossa atenção é atraída pelo encontro entre duas mulheres grávidas. A cena se desloca das margens do rio no qual João Batista ensinava e batizava a um ambiente doméstico, e o apelo forte e claro do profeta dá vez e voz à voz alegria feminina. Caminhando para o Natal de Jesus, somos convidados a celebrar a grandeza dos pequenos, a dignidade do corpo e a alegria de crer. Quando mulheres idosas se tornam mães, quando desertos viram jardins, quando mortos ressuscitam e virgens engravidam, nada mais é impossível e a esperança vira semente, certeza e festa.
Em geral, fugimos da pequenez e do anonimato, pois eles parecem negar ou roubar nossa dignidade. Às vezes, sentimo-nos constrangidos quando nos perguntam de onde somos, pois nossa vila de origem não consta no mapa das cidades importantes. Quem de nós sabia da existência de Xapuri (AC) antes do martírio de Chico Mendes, no dia 22 de dezembro de 1988? E quem sabia algo sobre Anapú (PA), até que Dorothy Stang teve seu sangue derramado pelos latifundiários em fevereiro de 2004? E quem saberia algo sobre Nazaré se não fosse a prontidão de Maria para se colocar a serviço do projeto de Deus?
Deus gosta de andar pela contramão e celebrar as pessoas humildes e os lugares pequenos. Eis o que Ele anuncia pela boca do profeta Miquéias: “Mas você, Belém de Éfrata, tão pequena entre as principais cidades de Judá. É de você que sairá para mim aquele que há de ser o chefe de Israel.” A carta aos Hebreus acena para este mesmo mistério quando diz que, ao vir ao mundo, o Filho de Deus disse: “Tu não quiseste sacrifício e oferta. Em vez disso, tu me deste um corpo. Holocaustos e sacrifícios não são do teu agrado. Por isso, eu disse: Eis-me aqui, ó Deus, para fazer tua vontade.”
Sacrifícios e ofertas não são o ponto fraco de Deus. Ele prefere dar-nos um corpo para que nele e com ele realizemos sua vontade. Grandes ideias, projetos fabulosos, ideais inflados, sentimentos profundos e construções majestosas representam pouco diante da beleza e das possibilidades que nos são dadas com o corpo. O que Deus deseja mesmo é que sua Palavra se faça carne em nossas mil relações cotidianas. O presente mais precioso que podemos dar a Deus no Natal do seu Filho é fazer ecoar a voz de uma multidão de homens e mulheres anônimos: “Eis-me aqui para fazer tua vontade!”
Eis o que representam Isabel e Maria: dois corpos que se dispõem a acolher o Mistério, duas liberdades prontas a fazer a vontade de Deus, duas mulheres insignificantes que vivem em lugares desconhecidos mas fazem a diferença. No abraço afetuoso, no grito melodioso e na dança ritmada daqueles corpos abraçados por Deus, até as pequenas criaturas que as duas mulheres carregam no ventre se emocionam e participam. Há algo mais belo que mostrar ao mundo, mediante nosso próprio corpo, a certeza de que algo novo começou, e que a esperança se tornou realidade?
O encontro entre Maria e Isabel é uma espécie de ampliação do anúncio do anjo a Maria e do confirmação do sinal por ele oferecido. O que é mesmo que vem confirmado? Que Deus olha para a humilhação dos seus filhos e filhas e os escolhe como seus protagonistas; que a humanidade e a liberdade germinam em lugares e pessoas consideradas insignificantes; que para Deus nada é impossível; que a felicidade brota da despojada ousadia de acreditar. Isabel reconhece em Maria a felicidade das pessoas que ousam acreditar e vislumbra no seu corpo feminino a arca de uma aliança que está para ser assinada entre Deus e a humanidade.
A cena está cheia de alegria feminina. Em momentos grandes como este as palavras parecem incapazes de dizer algo importante. Quando tocamos com a mão os pequenos sinais de algo grandioso que começa a acontecer, nossos lábios se abrem em profecia: ‘Felizes as pessoas que ousam acreditar! Bem-aventurados aqueles que ensaiam em seus corpos as novas relações que reivindicam! Bendito seja quem reconhece a pessoa humana como Arca de Deus! Bendito seja Deus que derruba os poderosos e eleva os humildes!’
Deus, alicerce da nossa paz e fonte da nossa alegria: já vemos os sinais da proximidade do teu filho amado. Que ele não nos surpreenda preocupados apenas com comidas, presentes e férias. Possamos nós vencer as distâncias que nos separam e endireitar as curvas que nos afastam de quem necessita de nós. E que resplandeça em nossos corpos a alegria de quem vive com sede e fome de justiça e de beleza, presentes preciosos que nos dás no Santo Menino que quer estender sua esteira no meio de nós. Assim seja! Amém
                                                                                                    Itacir Brassiani msf

Profecia de Miquéias 5,1-4 | Salmo 79 (80)
Carta de Paulo aos Hebreus 10,5-10 | Evangelho de São Lucas 1,39-45

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

ANO C | TEMPO DE ADVENTO | 3° DOMINGO | 16.12.2018


Viver a alegria do Evangelho na conversão das nossas relações.
O apelo à igualdade, a abaixar e elevar, ressoou como toque de sino no segundo domingo do advento. Hoje, quando se nos abre a terceira semana dessa bela e exigente caminhada espiritual, somos chamados à alegria profunda e duradoura e a mudanças práticas e concretas em nossas relações. Na preparação para o Natal é preciso afastar a inquietação com presentes e festas e focar nossas energias na alegria agradecida pelo presente maior, o Filho de Deus, e na conversão das nossas relações com as pessoas e coisas.
Somos parte de uma comunidade de pessoas que preparam fervorosas a celebração do nascimento de Jesus e esperam ansiosas a manifestação do Reino de Deus, que desejam provar as alegrias de crescer em humanidade, ou alcançar a salvação, e celebrá-la com júbilo inocente e intenso. O profeta Sofonias vem em nossa ajuda, pedindo-nos que cantemos de alegria, que nos alegremos e exultemos de todo o coração, que não tenhamos medo nem caiamos no desânimo... E nos assegura que Deus já está ou continua no meio de nós, que também ele, movido unicamente pelo amor e porque nos quer bem, exultará de alegria por nós.
Mas essa exultante e jubilosa alegria tem sua razão de ser naquilo que Deus faz por nós, em nós e através de nós. O que nos motiva é a experiência de sermos amados e capacitados para contribuir de modo efetivo com a libertação que está em curso na história, vontade e obra incansável de Deus. “Alegrai-vos sempre no Senhor! Alegrai-vos! Que a vossa bondade seja conhecida por todos! O Senhor está próximo”, insiste o apóstolo Paulo. Somos convocados a alegrar-nos em Deus e a perceber que Deus se alegra conosco! Também Isaías nos convida a publicar em toda a terra as maravilhas que Deus está fazendo, e a exultar com isso.
Mas temos que nos perguntar se esta insistência na alegria e no júbilo não é exagerada, e se não é insuficiente como preparação para o Natal. De fato, a situação e as coisas ruins – que não faltam em nosso país neste momento e se prevê que serão mais abundantes e letais no futuro – só começam a mudar realmente quando as pessoas singulares começam a se confrontar com a própria verdade e com o Evangelho e, dispostas a transformar suas relações, perguntam: o que posso e devo fazer? Essa é a pergunta que o testemunho de João Batista suscitou no seu povo e que a vida de Jesus deve suscitar em nós.
Mesmo tendo tomado a decisão de viver no deserto e de modo austero, não é isso que João Batista seus interlocutores. Mesmo pertencendo ao judaísmo, ele sabe que, para acolher a vinda de Deus e o seu Reino, não basta peregrinar ao tempo ou cumprir as leis. Na sua interação com pessoas e grupos que detém algum poder ou gozam de um status acima do remediado, João Batista sublinha que o caminho para Deus supõe a mudança das estruturas de relacionamento e de poder e a organização de uma sociedade menos injusta e violenta, mais solidária e fraterna. A comunidade cristã jamais esqueceu três exemplos deixados por João...
Às pessoas e grupos que gozam de certa comodidade, que não sente falta do básico em termos de comida, vestuário e habitação, João pede que não pensem apenas no próprio bem-estar e que se engajem na correção das desigualdades sociais. Aos cobradores de impostos, que extorquem, com o amparo da lei, o povo cansado e abatido, pede que não abusem dos pobres e não enriqueçam às custas deles. Aos soldados, que usam de violência para proteger os poderosos e oprimir os dominados, pede que não acusem ou condenem ninguém recorrendo à mentira, nem usem de sua autoridade para roubar os indefesos.
Como os cobradores de impostos, os soldados e o povo em geral, também nós precisamos nos confrontar: e eu, o que devo fazer para viver bem o Natal e acolher o Evangelho do Reino? A resposta não pode ser um sentimento difuso ou um pensamento abstrato. Não valem também constatações cínicas e ofensivas do tipo “como é difícil ser patrão no Brasil”, ou “os pobres não precisam de ajuda, mas de oportunidade”. Nada muda se não conseguirmos olhar para além dos interesses de classe ou do mito da meritocracia. Nosso critério de vida não são as leis do mercado ou a falsa piedade, mas a prática e o Evangelho de Jesus!
Deus pai e mãe, fonte de alegria e movente de toda mudança, vem em nosso auxílio para que saibamos descobrir alegremente o que devemos fazer para preparar os caminhos do Senhor, combater o mal que fere teus filhos e construir o teu Reino. Não permitas que caiamos na tentação de resumir tudo na montagem de presépios, na distribuição de presentes, na promoção de ceias faustosas ou nos difusos e fugazes sentimentos religiosos. Possamos todos aprender as lições de Maria e de José, que começaram aprofundando os próprios vínculos, abrindo espaços para os outros e inventando novos caminhos. Assim seja! Amém!
                                                                                                    Itacir Brassiani msf

Profecia de Sofonias 3,14-18 | Cântico de Isaías 12,2-3 | Carta de Paulo aos Filipenses 4,4-7 | Evangelho de São Lucas 3,10-18

O Evangelho dominical - 16.12.2018


QUE PODEMOS FAZER?

A pregação do Batista abalou a consciência de muitos. Aquele profeta do deserto estava a dizer-lhes em voz alta o que sentiam nos seus corações: era necessário mudar, retornar a Deus, preparar-se para receber o Messias. Alguns aproximaram-se dele com esta pergunta: o que podemos fazer?
O Batista tem ideias muito claras. Ele não propõe apenas adicionar algo às suas vidas, novas práticas religiosas. Ele não pede que fiquem no deserto fazendo penitência. Ele não fala de novos preceitos. O Messias deve ser acolhido, olhando para os necessitados.
João Batista não se perde em teorias sublimes ou em motivações profundas. De forma direta, no mais puro estilo profético, resume tudo numa fórmula genial: Aquele que tem duas túnicas, que as distribua com quem não tem; e quem tem comida que faça o mesmo”. E nós, o que podemos fazer para acolher Cristo no meio desta sociedade em crise?
Antes de tudo, esforçar-nos muito mais em conhecer o que está acontecendo: a falta de informação é a primeira causa de nossa passividade. Por outro lado, não tolerar a mentira ou o encobrimento da verdade. Temos que saber, com toda a sua dureza, o sofrimento que está sendo injustamente gerado entre nós.
Não é suficiente viver com alguns momentos de generosidade. Podemos dar passos em direção a uma vida mais sóbria. Atrever-nos a fazer pouco a pouco a experiência de simplicidade, cortando o nosso atual nível de bem-estar, de compartilhar com os necessitados tantas coisas que temos e não precisamos para viver.
Podemos estar especialmente atentos àqueles que caíram em situações graves de exclusão social: expulsos, privados de cuidados de saúde adequados, sem renda ou qualquer recurso social. Devemos sair instintivamente em defesa daqueles que estão afundando na impotência e na falta de motivação para enfrentar o seu futuro.
A partir das comunidades cristãs, podemos desenvolver diversas iniciativas para estar perto dos casos mais sangrentos de desamparo social: conhecimento concreto de situações, mobilização de pessoas para não deixar ninguém sozinho, contribuição de recursos materiais, gestão de possíveis ajudas...
Para muitos, são tempos difíceis. A todos é oferecida a oportunidade de humanizar o nosso consumismo louco, de nos tornarmos mais sensíveis ao sofrimento das vítimas, de crescer na solidariedade prática, de contribuir para denunciar a falta de compaixão na gestão da crise... Será a nossa maneira de receber mais verdade de Cristo em nossas vidas.
José Antônio Pagola
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O Evangelho dominical - 09.12.2018


ABRIR CAMINHOS NOVOS

Os primeiros cristãos viram na atuação de João Batista o profeta que preparou decisivamente o caminho para Jesus. Por isso, ao longo dos séculos, o Batista converteu-se numa interpelação que continua a nos incitar a preparar caminhos que nos permitam acolher Jesus entre nós. Lucas resumiu a pregação de João Batista neste grito tomado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor!”
Como ouvir esse grito na igreja de hoje? Como abrir caminhos para que os homens e mulheres do nosso tempo possam encontrar Jesus Cristo? Como O receber nas nossas comunidades?
A primeira coisa é tomar consciência de que precisamos de um contato muito mais vivo com a Sua pessoa. Não é possível alimentarmo-nos apenas de doutrina religiosa. Não é possível seguir Jesus convertido numa sublime abstração. Precisamos sintonizar vitalmente com Ele, deixar-nos atrair pelo Seu estilo de vida, contagiar-nos pela Sua paixão por Deus e pelo ser humano.
No meio do deserto espiritual da sociedade moderna, precisamos entender e configurar a comunidade cristã como um lugar onde se acolhe o Evangelho de Jesus. Viver a experiência de reunir crentes, menos crentes, pouco crentes e até não-crentes, em torno da história do evangelho de Jesus. Dar a Jesus a oportunidade de penetrar com a sua força humanizadora nos nossos problemas, crises, medos e esperanças.
Não o devemos esquecer. Nos Evangelhos, não aprendemos doutrina acadêmica sobre Jesus, inevitavelmente destinada a envelhecer ao longo dos séculos. Aprendemos um estilo de viver realizável em todos os tempos e em todas as culturas: o estilo de viver de Jesus. A doutrina não toca o coração, não se converte nem apaixona. Jesus sim.
A experiência direta e imediata com o relato Evangélico nos faz nascer para uma nova fé, não através de doutrinação ou do aprendizado teórico, mas através do contato vital com Jesus. O Evangelho nos ensina a viver a fé, não por obrigação, mas por atração. Faz-nos viver a vida cristã, não como um dever, mas como um contágio. No contato com o evangelho recuperamos a nossa verdadeira identidade de seguidores de Jesus.
Percorrendo os Evangelhos, experimentamos que a presença invisível e silenciosa do Ressuscitado adquire traços humanos e recupera uma voz concreta. De repente, tudo muda: podemos viver acompanhados por alguém que faz sentido, verdade e esperança na nossa existência. O segredo de toda evangelização consiste em nos colocar em contato direto e imediato com Jesus. Sem Ele, não é possível gerar uma fé nova.
José Antônio Pagola.
Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

ANO C | TEMPO DE ADVENTO | 2° DOMINGO – 09.12.2018


Os caminhos do Senhor são igualdade e fraternidade!
No primeiro domingo de preparação para o Natal de Jesus fomos chamados à esperança ativa e crítica, que nasce da identificação dos frágeis sinais da presença de Deus e do seu reinado. Neste segundo domingo, somos chamados à conversão, à mudar nosso modo de ver e avaliar as coisas, pessoas e acontecimentos, a considerar tudo com o olhar de Deus. Pedimos ao Deus misericordioso que nos guie, a fim de que nenhum compromisso nos impeça de caminhar ao encontro do seu Filho e participar plenamente da sua vida.
Chamando-nos à conversão, Jesus não pede uma vida austera e sem alegria, muito ao contrário. A mudança no modo de pensar, de sentir e de agir são indispensáveis para que se nos abram as portas da verdadeira alegria, para a participação plena no pensamento, no projeto e na ação libertadora de Jesus Cristo. Não é possível ver os sinais do reinado de Deus e alegrar-se com ele sem uma mudança radical nos interesses, olhares e projetos que costumam seduzir e consumir os “homens de bem”. Sem uma conversão radical é impossível avaliar com sabedoria os bens passageiros e colocar nossa esperança nos bens duradouros.
Os caminhos do Senhor nos conduzem à verdadeira alegria, à realização plena da vocação humana. Num tempo de exílio e dor, o profeta Baruc e pede que seu povo troque as vestes de luto por roupas de festa, por adornos com brilho e beleza incomparáveis. A alegria que o profeta anuncia a um povo desanimado e oprimido se fundamenta na fidelidade libertadora de Deus: movido pela justiça que se alimenta da misericórdia, Deus não esquece um só dos seus filhos e filhas, reúne todos numa só família, transforma os escravos em príncipes, abre seu coração e faz brilhar seu rosto “a todos os que estão debaixo do céu”.
Por isso, o Deus de Israel e Pai de Jesus se compraz em abaixar os “altos montes e as colinas eternas”, em soterrar os vales e aplainar a terra, para que seus amados vivam e caminhem com segurança, guiados por sua mão e protegidos pela sombra de arvores odoríferas. É obvio que o profeta não fala em terraplanagem! Ele afirma, como o faz também o profeta Isaías, retomado pelo evangelista, que a vontade de Deus é a igualdade de todos os seres humanos. Tibério, Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, Anás e Caifás simbolizam os que fazem de tudo para permanecer no alto das colinas e torcer os caminhos dos pobres.
A vontade e a promessa de Deus é que todas as pessoas experimentem a salvação. Nessa totalidade estão incluídos, sim, os povos indígenas, desprezados e ameaçados pelo presidente eleito país e pelos que o sustentam. Da categoria de seres humanos também fazem parte os “comunistas” e outros grupos que alimentam sonhos de igualdade, rotulados e tratados como infra-humanos e indignos pelos sectários de plantão. É vontade de Deus que os direitos humanos sejam assegurados e todos recebam o nome “paz da justiça” e “glória da piedade”. É este o batismo de conversão que nos torna amigos de Deus!
Infelizmente, não estamos livres – nem como indivíduos e nem como Igreja – da tentação de bajular os poderosos, fechando os olhos ao mal que fazem ou prometem fazer aos pobres e marginalizados, aos preferidos de Deus. A acolhida e o apoio – ingênuo ou interesseiro? – que vários setores religiosos emprestam ao grupo que dirigirá a nação brasileira nos próximos anos esquece que os “grandes” citados por Lucas no evangelho de hoje passaram à história como exemplares de pessoas que oprimiram e feriram os amados de Deus, enquanto que João Batista, Jesus e uma multidão de mártires brilham como sinais de humanidade.
Não fechemos nossos olhos e nossos ouvidos à voz do profeta que grita no deserto. Abramos nossos ouvidos e nossos olhos à voz de Jesus de Nazaré e seu Evangelho de solidariedade e igualdade. O caminho que nos leva ao encontro com Deus e à plena realização da humanidade à qual somos chamados é a igualdade e a fraternidade. A oração e a liturgia estão a serviço disso! Sem compromisso com a causa de Jesus, a oração pode ser fuga, e a piedade pode decair em alienação. Mais do que nunca, Evangelho e defesa dos direitos de todos os humanos vão de mãos dadas, práxis da justiça e festa litúrgica caminham abraçadas.
Deus pai e mãe, envia-nos teu Espírito, a fim de ressoe em nosso coração tua voz majestosa e emancipadora. Que o amor que derramaste nos nossos corações a partir da Manjedoura e da Cruz do teu amado filho cresça sempre mais em perspicácia e delicadeza. Que sejamos renomeados como “paz da justiça” e nossa piedade brilhe pela lucidez. Ajuda-nos a acolher com boa disposição o caminho da fraternidade e da igualdade que os profetas Baruc e João Batista, como também o apóstolo Paulo, nos propõem como preparação ao Natal e como expressão de uma vida evangélica pura e justa, sem ambiguidades. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
Profecia de Baruc 5,1-9 | Salmo 125 (126) | Carta de São Paulo aos Filipenses 4,6-11 | Evangelho de São Lucas 3,1-6