sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Festa da Sagrada Família de Nazaré

DEIXE JESUS ENTRAR NA SUA CASA

Precisamos procurar, cuidar e desenvolver um projeto saudável, digno e feliz de família, que se possa refletir na vida concreta de cada lar. Acolhido com fé e convicção na nossa família, Jesus pode ajudar-nos a corrigir e a melhorar o nosso modo de viver e pode nos abrir um caminho novo mais digno dos seguidores do seu Evangelho.

Deixar Jesus entrar em nossa casa significa enraizar a família com mais verdade, mais paixão e mais entusiasmo na sua pessoa, na sua mensagem e no seu projeto para o reino de Deus. Muitas coisas terão de ser feitas nos próximos anos para reavivar as nossas famílias, mas nada mais decisivo do que colocar Jesus no centro da casa, confiando na sua promessa: «Onde dois ou três se reunirem em meu nome, aí estou Eu» (Mt 18,20). Vocês não estão sós. No centro da vida de vocês está Jesus. Ele os une, os encoraja e os sustenta. Com Jesus tudo é possível.

Acolher Jesus em casa é uma tarefa para toda a vida. A primeira coisa é aprender a viver em casa com um coração novo e um espírito renovador. Isto significa começar a viver uma relação nova com Jesus, uma adesão mais viva. Uma família formada por cristãos que mal conhecem Jesus, que só o confessam de vez em quando e de forma abstrata, que nunca leem o evangelho, que se relacionam com um Jesus mudo de quem não escutam nada de especial, nada de interesse para o homem e a mulher de hoje; um Jesus apagado, que não atrai nem seduz, que não toca os corações, é uma família que dificilmente poderá sentir a sua força renovadora.

Se ignorarmos Jesus e desconhecermos a sua mensagem, não poderemos orientar a nossa vida familiar a partir do seu Evangelho. Se não sabemos olhar o mundo, a vida, as pessoas, os filhos, os problemas com os olhos com que Jesus olhava, diremos que contamos com a luz privilegiada da revelação, mas seremos uma família cega que não sabe olhar para a vida como a via Jesus. E se não escutamos o sofrimento das pessoas com a atenção, a sensibilidade e a compaixão com que Jesus escutava aos que encontrava a sofrer ao longo do seu caminho, seremos famílias surdas. E se não nos sintonizarmos com o estilo de vida de Jesus, com a sua paixão por fazer um mundo mais justo, com a sua ternura para com as crianças, com o seu perdão aos desprezados…, não saberemos transmitir o melhor que Jesus transmitia, o mais valioso, o mais atrativo: a sua Boa Nova.

Trata-se de viver nas nossas famílias esta experiência: caminhar nos próximos anos para um novo nível de convivência familiar, mais inspirada e motivada por Jesus, e para uma dinâmica e um estilo de vida mais orientado para abrir caminhos para o reino de Deus, ou seja, a esse mundo novo, mais humano e feliz que quer o Pai para todos, começando pelos últimos.

Depois de vinte séculos de cristianismo, as famílias cristãs necessitam de um «coração novo» para viver e comunicar a Boa Nova de Deus revelada em Jesus no meio da sociedade de hoje. O decisivo é não nos resignarmos a viver hoje em família sem Jesus

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

A fé é despertada pelos pequenos sinais

A fé é despertada pelos pequenos sinais e brilha no testemunho de vida | 575 |27. 12.2024 | João 20,2-8

Segundo o evangelista João, o primeiro indício da ressurreição de Jesus ocorre na visita de Madalena à sepultura. Vendo a pedra afastada, Maria vai avisar os discípulos. O amigo de Jesus, que identificamos com o apóstolo e evangelista João, é o primeiro a chegar. Vê a sepultura vazia e as vestes, mas não entra. Pedro chega depois, entra na sepultura e vê o sudário dobrado, em separado, “à parte”. Hoje, o texto sublinha o papel de João, evangelista e apóstolo de Jesus.

A tumba vazia não é o único fundamento da fé na ressurreição, mas é seu primeiro sinal. Parece que João conhecia a liturgia do templo, por isso resiste a entrar na sepultura. Para ele, os panos “enrolados” e colocados no “lugar” à parte são a Lei de Moisés, e a Palavra que se fez carne em Jesus de Nazaré substitui o Templo. A tumba vazia é um indicativo insuficiente para sustentar a fé na ressurreição de Jesus. Na verdade, a base desta “cláusula pétrea” de nossa fé é a experiência pessoal que discípulo faz do encontro com Jesus ressuscitado.

Mais tarde, Madalena chora diante da sepultura e “se inclina” para olhar. Vê anjos que a interrogam sobre sua dor, e só reconhece Jesus quando ele a chama pelo nome. Depois de tê-lo desejado, buscado, conhecido e amado em vida, Maria precisa se inclinar para dentro de si mesma, na profundidade do seu desejo, para reconhecê-lo e amá-lo sem retê-lo. É ao voltarmo-nos para nossa interioridade que encontraremos o ressuscitado que nos ama, chama e envia.

O texto que descreve a cena termina com reticências, como que nos convocando a entrar nela como protagonistas, e a darmos um final adequado àquela manhã misteriosa. João, discípulo, apóstolo e escritor, cuja festa hoje celebramos, viu e acreditou. E deixou seu testemunho inscrito na vida e registrado no quarto evangelho. Aquilo que ele viu, experimentou e toucou, isso ele testemunhou.

E nós, acreditaremos e viveremos em nome de Jesus e seu Evangelho? Estaremos dispostos a ser sementes que, caindo na terra e morrendo, não ficam só, e se multiplicam incrivelmente? É isso que queremos e decidimos? Daremos essa boa notícia a toda a humanidade? Será que entendemos o mistério do Natal, dinamismo de proximidade, de pobreza e de concretude de um amor divino e sem limites?

 

Meditação:

·    Observe a teimosa inconformidade de Maria Madalena, suas buscas, suas intuições, mas também sua dependência do passado

·    Esta cena deixa o desfecho em aberto, como que nos convidando a assumir o protagonismo e dar-lhe um final adequado

·    Acreditaremos num fato ocorrido apenas no passado, ou daremos crédito à vida e à proposta de Jesus, fazendo-a nossa?

·    O que o testemunho de João sobre a ressurreição de Jesus significa para as famílias envolvidas nas guerras e doenças, ou enlutadas pelas mortes?

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

O testemunho suscitado pelo Espírito é irresistível

A fé e o testemunho suscitados pelo Espírito são irresistíveis | 574 |26. 12.2024 | Mateus 10,17-22

A festa litúrgica do martírio do diácono Santo Estêvão, no contexto do Natal, sublinha um aspecto importante do discipulado cristão: o testemunho da fé poderá ser feito, até mesmo, com a entrega da própria vida, a exemplo de Jesus. Este dado serve para prevenir atitudes ingênuas e românticas diante do presépio, das luzes coloridas, dos coros angelicais e das montanhas de presentes.

Aliás, a contemplação realista do Menino, deitado na manjedoura porque não encontrara lugar, não deveria dar lugar ao pietismo. Ele nasce em extrema pobreza, entre os pastores, vítimas do desprezo e da hostilidade dos habitantes da cidade, longe de sua cidade de origem e de seus familiares próximos. Tudo fala de despojamento e dureza. E sua caminhada vai se concluir com a morte de cruz.

Os discípulos de Jesus têm pela frente igual caminho a ser trilhado. Estêvão foi o primeiro a demonstrar perseverança até o fim. Ao longo dos séculos, até nossos dias, são muitos os cristãos que testemunharam ser capazes de padecer o martírio por fidelidade a Jesus. Sem a disposição de renunciar a si mesmo, o discipulado cristão é inviável. Os medrosos e os acomodados são inaptos para seguir os passos do Menino no qual Deus assume a condição humana humilhada. Os mártires de todos os tempos são modelos consumados de seguidores de Jesus.

O seguimento de Jesus implica necessariamente continuar sua missão, ser sinal de contradição, assumir a relação às vezes conflitiva com a sociedade, sem fuga medrosa e sem aceitação passiva das injustiças e dominações. Não raramente, os conflitos se manifestam até nos círculos mais próximos, que é a família e os amigos. A missão como Jesus a viveu não é uma atividade esporádica ou secundária, nem um simples passeio: é profecia e confronto com a dominação, a ambição e o poder estabelecido.

No exercício da missão, especialmente nos momentos de tensão, os discípulos devem confiar em Deus, sem sucumbir e sem se acovardar. O Espírito do Pai, que atuou no diácono Estêvão, cheio de sabedoria e coragem, congrega a família dos discípulos, os inspira e sustenta. No Espírito de Jesus, encontrarão estratégias adequadas para as incompreensões e perseguições e repensar e ampliar a missão.

 

Meditação:

·    Releia o texto lentamente, sublinhando e detendo-se nas imagens que falam de missão e perseguição

·    Complete esta leitura com o texto de Atos dos Apóstolos, capítulos 6,8-10 e 7,54-59 (1ª leitura de hoje)

·    O que o testemunho e a coragem de Estêvão suscitam em você, no horizonte da encarnação do filho de Deus que celebramos ontem?

·    Recorde os mártires cuja memória foi celebrada nos últimos dias: Chico Mendes (23/12/88); João Canuto e filhos (18/12/85); Eloy Ferreira da Silva (15/12/84). O que você sabe sobre eles? O que eles nos inspiram?

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Em Jesus Cristo, recebemos de Deus a graça e a verdade

Através de Jesus Cristo, recebemos de Deus a graça e a verdade | 573 |25. 12.2024 | João 1,1-18

Os conceitos que aparecem no texto natalino do evangelho de João são vários: Palavra, Vida, Graça e Glória. No contexto original, não são palavras abstratas, têm conteúdo claro. Enquanto Palavra, Jesus, o filho de Maria e de José, é a exteriorização da interioridade de Deus, e esse mistério é uma boa notícia que produz felicidade. A Palavra de Deus assume a carne humana como lugar no qual podemos encontrar, tocar e acolher o próprio mistério de Deus.

Jesus, que nasce em Belém e vive como carpinteiro em Nazaré, é portador da Vida plena, do “bem viver” que todos os povos buscam sem descanso. Nele, a vida é revelada e doada como comunhão profunda com o mistério de Deus, comunhão solidária com todas os pobres e vítimas, e comunhão graciosa com todas as criaturas, comunhão e vínculo entre as gerações e povos.

Na pessoa de Jesus de Nazaré, vemos também a Graça de Deus. Nele fica claro que Deus não é um cobrador de dívidas, um policial ou um juiz, mas um irmão e hóspede no qual se mostram de modo inequívoco a gratuidade e a proximidade. A lei e a cobrança vêm das velhas instituições, mas a Graça e a Verdade nós as recebemos por Jesus Cristo. Ele é a gratuidade de Deus em pessoa! 

A palavra Glória significa “peso”, importância, e expressa o valor interior de uma pessoa, valor que se revela nas suas ações. Por isso, manifestar a glória de Deus significa testemunhar sua ação libertadora, prosseguir sua ação humanizadora, reconhecer sua santidade nos acontecimentos históricos.  No evangelho, as metáforas da luz e da glória são usadas para ilustrar o esplendor e a vitória final de Deus. 

A glória de Deus se manifesta de modo insuperável em Jesus crucificado, na sua fidelidade à humanidade. Na humana carne de Jesus vemos a glória de Deus. Ele não recebe essa glória por milagre ou como um presente dos céus, mas a cultiva na cotidianamente nos gestos de compaixão. Os discípulos e discípulas de Jesus são também glorificados na medida em que participam do dinamismo do seu amor, da sua paixão pelo mundo. A glória de Deus é o ser humano vivo e liberto.

 

Meditação:

§ Procure intuir como aquela cena da estrabaria, em meio a ovelhas e pastores, transparece nessas palavras usadas por João

§ Detenha-se no versículo 14 (“A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós”) e o contemple na cena do presépio

§ Releia o texto lentamente, detendo-se nas imagens e conceitos que João utiliza para falar de Jesus, nascido em Belém  

§ Que palavras mais atuais e próximas da nossa experiência poderíamos buscar para apresentar Jesus às pessoas de hoje?

§ Procure entender o que significa: “Por meio de Moisés foi dada a lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo”

O sinal é uma criança acomodada numa manjedoura

O sinal de Deus é uma frágil criança acomodada numa manjedoura | 572 |24. 12.2024 | Lucas 2,1-14

O nascimento de Jesus ocorre no mundo dos pobres, à margem dos poderes romanos e judaicos, na periferia daquele mundo que dizia garantir a paz recorrendo à dominação e ao medo. Os decretos oficiais põem José e Maria na estrada: garantem os impostos, mas mantém a Família de Nazaré na pobreza e a torna família migrante e refugiada, como tantos migrantes climáticos e refugiados políticos.

Aquela humilde família percorre um longo e evocativo caminho em direção às raízes das esperanças populares e messiânicas: o lugar onde viveu a família na qual nasceu e cresceu o pastor Davi. Em Belém, os proscritos pastores põem sua atenção nesta família e nela identificam a esperança que os encoraja e alegra. Para os pastores, ignoto abrigo para animais há mais luz que no brilho de Jerusalém.

Os anjos, mensageiros de Deus, não se manifestam no Templo, mas junto àqueles que, estando longe de tudo, vigiam os rebanhos. E anunciam aos pastores uma alegre e boa notícia: o Salvador nasceu na “periferia do mundo”. E indicam o sinal de que isso aconteceu: um bebê deitado numa cocheira onde se alimentam os animais, envolto em pobres panos. O sinal da “grande alegria para todo o povo” não são os anjos, nem a luz que os envolve, mas a fragilidade de uma criança! Neste Menino brilha a certeza de que Deus não esqueceu de ter misericórdia do seu povo.

Com a ajuda do profeta Isaías, descobrimos que a encarnação do Filho de Deus refulge como luz para quem caminha na escuridão, como a alegria da colheita para os camponeses, como a vitória dos povos dominados sobre o medo e a violência, como o nocaute das tropas imperiais, como a reconstrução solidária depois das enchentes. O Natal é a passagem da opressão à liberdade, do medo à confiança, da dependência à emancipação, da escuridão à luz, da indiferença à fraternidade.

É verdade que o Natal é a festa da paz. Paz entre as nações. Paz entre as Igrejas. Paz nas comunidades. Paz entre nas famílias. Paz na relação entre os seres humanos e as demais criaturas. Paz entre o céu e a terra. Paz onde há guerra e paz onde falta confiança. Que nesta noite santa reine a paz na terra natal de Jesus, a paz entre os palestinos manipulados por grupos extremistas e sitiados em sua própria terra e israelenses governados por um tirano insano e violento.

 

Meditação:

§ Deixe-se envolver pela surpresa que envolve Maria e José e pela alegria que contagia os humildes e suspeitos pastores

§ Aproxime-se do presépio, ou da bela narração de Lucas, e deixe-se envolver pela ternura e despojamento de Deus no Menino Jesus

§ Ouça e acolha a mensagem anunciada e cantada harmoniosamente pelos anjos: Glória a Deus e paz à humanidade!

§ Reúna imaginariamente ao redor do presépio as pessoas que lhe são queridas e que estão hoje distantes

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

O sentido do Natal de Jesus

ACOMPANHAR A VIDA

O Natal guarda um segredo que, infelizmente, escapa a muitos dos que nestas datas celebram «alguma coisa» sem saberem exatamente o quê. Não podem suspeitar que o Natal oferece a chave para decifrar o mistério último da nossa existência.

Geração após geração, os seres humanos têm gritado com angústia as suas questões mais profundas. Por que temos de sofrer, se desde o mais íntimo do nosso tudo nos chama à felicidade? Por que tanta frustração? Por que a morte, se nascemos para a vida?

Os homens perguntaram. E perguntavam a Deus, pois, de alguma maneira, quando procuramos o sentido último do nosso ser, estamos a apontar para ele. Mas Deus guardava um silêncio impenetrável.

No Natal, Deus falou. Temos já a sua resposta. Não nos falou para nos dizer palavras bonitas sobre o sofrimento. Deus não oferece palavras. «A Palavra de Deus fez-se carne». Ou seja, mais do que nos dar explicações, Deus quis sofrer na nossa própria carne as nossas dúvidas, sofrimentos e desamparos.

Deus não dá explicações sobre o sofrimento, mas sofre conosco. Não responde ao motivo de tanta dor e humilhação, mas humilha-se. Não responde com palavras ao mistério da nossa existência, mas nasce para viver a nossa aventura humana.

Já não estamos perdidos na nossa imensa solidão. Não estamos imersos em pura escuridão. Ele está conosco. Há uma luz. Já não somos solitários, mas solidários. Deus compartilha a nossa existência, a nossa condição humana.

Isso muda tudo. O próprio Deus entrou nas nossas vidas. É possível viver com esperança. Deus partilha a nossa vida, e com ele podemos caminhar para a salvação. Por isso o Natal é sempre para os crentes uma chamada para renascer. Um convite para reacender a alegria, a esperança, a solidariedade, a fraternidade e a confiança total no Pai.

Recordemos as palavras do poeta Angelus Silesius: «Mesmo que Cristo nasça mil vezes em Belém, enquanto não nascer no teu coração, estarás perdido para o além: terás nascido em vão».

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Que o Messias nos ilumine e guie nossos passos

Que o Messias nos ilumine e guie nossos passos no caminho da paz | 571 |24. 12.2024 | Lucas 1,67-79

Na cena que meditamos ontem terminava com uma pergunta que girava na cabeça dos vizinhos de Zacarias e Isabel, assim como na cabeça de todo o povo: “O que vai ser deste menino?” A cena de hoje, dominada do início ao fim pelo cântico profético de Zacarias é uma resposta a estas interrogações nada superficiais. Não esqueçamos que estamos às vésperas do Natal, pois isso dá a moldura ao sentido do texto.

Este cântico é do gênero louvor de bênção, que é o modo mais comum dos hebreus voltarem-se a Deus. Na tradição nordestina, esse gênero recebe o nome de “benditos”. Bendizer significa reconhecer Deus como Senhor da vida e dos acontecimentos e confiar que ele nos brinda com toda sorte de benefícios materiais e espirituais. Quem lê a história na ótica da fé acaba reconhecendo o senhorio de Deus.

Zacarias recita seu canto movido pelo Espírito Santo, outro modo de dizer que seu cântico é profético. A razão do seu louvor é a visita de Deus ao seu povo, e essa visita, como sempre, é libertadora: livra o povo daqueles que o odeiam, daqueles que agem como seus inimigos. Mas brota também da experiência da misericórdia de Deus, pois ele liberta seu povo também dos pecados que o mantém preso e sem força.

Esta visita libertadora de Deus, assim como os sinais concretos de que sua misericórdia não cessou, revelam que ele não esqueceu da aliança que fez com os antepassados. E a parte do povo nesta aliança é viver em santidade e justiça diante de Deus, enquanto perdurar sua vida. Santidade é o que caracteriza a relação com Deus, e justiça é a base da relação com os semelhantes.

No seu cântico, Zacarias situa o filho que acaba de nascer na missão preparar os caminhos para o encontro com o Messias, anunciando a proximidade do perdão sem medidas. Isso ocorre não por bondade ou méritos nossos, mas graças à misericordiosa compaixão, ou às entranhas de misericórdia de Deus. É dele que nos vem Jesus Cristo, o “Sol que nasce do alto”.

O cântico termina com uma brevíssima descrição da missão de Jesus Cristo. Ele é a visita do próprio Deus, e vem para iluminar as pessoas “que jazem nas trevas e nas sombras da morte” e para “dirigir nossos passos no caminho da paz”. Ele nos liberta de todas as prisões, inclusive da morte, e nos guia no caminho da verdadeira prosperidade, do bem-estar pleno e integral, da realização profunda e da vida plena. Oxalá façamos essa experiência nas celebrações natalinas.

 

Meditação:

·    Reconstrua o cenário no qual Zacarias recita seu cântico, incluindo-se na no acontecimento que transcorre na casa de Zacarias e Isabel

·    Deixe-se envolver pela alegria que contagia Zacarias, Isabel e toda a vizinhança com o cumprimento da promessa de Deus

·    Aproveite o clima espiritual do advento para recordar, nesta antevéspera do Natal, os sinais da ação de Deus na sua vida

domingo, 22 de dezembro de 2024

Uma fábula que ajuda a reviver o Natal

Memórias de uma mula que ousa dar lições aos humanos

Meu nome é Jérick. Sou a mula quase invisível, como muitos humanos, mas sempre presente nos momentos decisivos da vida, como as peregrinações de José, Maria e do filho deles. Como todos sabem, pertenço à espécie dos asinus, sou híbrida (cruza de equino com muar) e estéril, e isso é para mim mais pesado que todas as cargas. Como todas as minhas irmãs, sou filha de uma “mãe emprestada”, e jamais ouvirei alguém chamar-me de mãe.

Mas não venho a estas páginas para falar das minhas próprias feridas e dores. Elas até parecem pequenas diante de tanto sofrimento que vejo ao meu redor, desde o modo como meus irmãos humanos tratam as demais criaturas, passando pela carne envenenada e dilacerada da mãe terra e chegando às vítimas das guerras infames e dos desastres mais provocados que naturais.

Aquele belo dia 10 de dezembro de 1948...

Quero compartilhar com vocês algumas alegrias que a graça da vida me concedeu e que fazem de mim uma peregrina da esperança. Na verdade, sou peregrina por natureza e destino, mas o que transforma minhas dores em renascimento e meus passos em graciosa aventura é a carga que levo: Maria e o Bendito fruto do seu ventre. Meus olhos estão fixos neles! E, como diz João, aquilo que vi, ouvi e toquei com meu corpo, isso eu anuncio a vocês (cf. 1Jo 1,1-4).

Quero contar alguns momentos dessa aventura, mas a partir de uma experiência um pouco esquecida pelos humanos de hoje. No dia 10 de dezembro de 1948, quando tentavam se libertar dos escombros e dos milhões de cadáveres de mais uma das incontáveis guerras que promoveu, homens e mulheres de mente aberta e coração generoso escreveram a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Os direitos sociais, culturais, econômicos e ambientais vieram somente mais tarde, mas isso não diminuiu a eloquência e a luminosidade daquele momento.

Quando eu dei o meu sim à ordem de José e acolhi sobre meu dorso o corpo de Maria, caprichei nos passos pelas trilhas sinuosas que levam de Nazaré a Belém para não provocar riscos e sustos a ela e ao “Bendito fruto” do seu ventre. E nem reclamei quando faltou água e o capim foi insuficiente para manter o ritmo dos meus passos. Pelo silêncio que foi crescendo e ressoando alto percebi que, com o passar do tempo, José e Maria estavam muito preocupados.

O pão e a casa negados

Cheguei a Belém exausta, mas feliz. A cidade cujo próprio nome dizia ser a “casa do pão”, negou casa e pão aos meus caros passageiros. Cadê o humano direito à hospitalidade, à segurança alimentar e à moradia? Eu e minha irmandade animal compartilhamos com eles o que foi possível: a gruta-estrebaria e, quando o menino veio à luz, a mesa-manjedoura e o calor dos nossos corpos. Gente habituada a cuidar de animais se juntou a nós, e formamos uma bela família de criaturas. Uma revoada de anjos cantava: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Vocês já devem ter visto aquela linda foto de família...

Fiquei feliz e curiosa quando percebi a aproximação de pessoas que vestiam trajes e falavam idiomas diferentes daqueles que então conhecia. Mais tarde, soube que eram sábios estrangeiros, buscadores de Deus vindos de longe à procura de Alguém muito especial que deveria nascer naquelas paragens, mais ou menos naquele tempo. Aquela visita preciosa só foi possível porque a arrogância humana não havia traçado fronteiras claras, e a identidade de ser humano era suficiente e dispensava vistos. Afinal, eu sempre ouvi dizer que “todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a lei”.

Exilados e refugiados em terras estranhas

A curiosidade se transformou em preocupação quando aqueles “irmãos sem fronteiras”, desobedecendo às ordens dos senhores, se recusaram a delatar o que haviam visto e ouvido. O poderoso sentado em trono usurpado, por medo de perder seus podres poderes, decretou a morte das crianças nascidas naquela época. Eu, atenta que sou, percebi tudo e me aproximei de José, no meio da noite, oferecendo meu lombo e meus passos para salvar a vida do Príncipe da Paz.

Antes que houvesse uma declaração universal, eu sabia que “a infância tem direito a cuidados e assistência especiais” e que “todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, têm direito à mesma proteção social”. Por isso, fiz minha parte, e me orgulho disso. Antes de partir, ainda deixei escrito nas paredes da gruta: “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” e “todo ser humano tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado”.

Na fronteira com o Egito, diante de guardas sisudos e pouco afeitos a palavras, zurrei com clareza e altivez: Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar-se de asilo em outros países. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país”.

Ele foi chamado Nazareno!

Assim, testemunhei os anos que meus “usuários” ou “tutores” passaram no exílio e, mesmo com passos já inseguros pela idade, levei-os de volta à terra que os expulsara. Carregava, orgulhosa, uma bandeira onde escrevi: “Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade”. Evitando os lugares e grupos que tinham a vida dos pequenos em pouca conta, chegamos a Nazaré, já conhecida e amada por Maria e por José. Os profetas haviam anunciado: “Ele será chamado Nazareno” (Mt 2,23).

Ainda tive a graça de ver, mesmo com os olhos cansados, como aquele Menino crescia em sabedoria, liberdade e graça no ambiente humilde e nobre de uma família camponesa (cf. Lc 2,52). Nela ele aprendeu que “todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”, e que “esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular”. E que a dignidade da pessoa não depende de raça ou nação (cf. Lc 4,23-30).

Você já sabe que, quando se tornou moço, Aquele menino que eu ajudara a transportar e cuidar, ensinou nas sinagogas de Nazaré e da região que “todo ser humano tem direito à instrução”, e esta deve proporcionar o “pleno desenvolvimento da personalidade humana e o fortalecimento do respeito pelos direitos do ser humano e pelas liberdades fundamentais” e promover “a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos”.

Posso dizer que Aquele que criou você e a mim, assim como todos os seres humanos, animais, vegetais e minerais, matérias e energias, me concedeu a graça de tocar ver com estes olhos que a terra vai comer e ouvir com essas grandes orelhas, metáfora da burrice que não é minha exclusividade, a manifestação graça, da bondade e da jovialidade de Deus para a salvação de todas as criaturas. Por isso, dentro das minhas possibilidades, procurei viver com moderação, justiça e piedade (cf. Tt 2,11-13).

Confidência de uma tristeza que tem força de apelo

Termino essa breve memória das maravilhas que o Criador me concedeu testemunhar com uma pontinha de tristeza, ou, se quiserem, com um sincero e contundente apelo. Nos tempos sombrios em que vivemos, há muita “gente de bem”, inclusive seguidores daquele Nazareno Ungido, afirmando que “os direitos humanos valem apenas para os humanos direitos”.  Depois de tudo o que a humanidade provocou e sofreu, ainda teimam em negar que “o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

Da perigosa altura das suas razões irracionais – eles dizem que nós é que somos irracionais e burros! – eles ignoram queo desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade, e que o advento de um mundo em que mulheres e homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do ser humano comum”. Gente! Tudo está interligado, e os golpes com que ferimos a terra e tudo o que nela se enraíza, move ou habita provocam feridas e trazem a morte dos humanos. Deus os livre do negacionismo biocida e suicida!

Peço desculpas por ter me alongado demais e me atrevido a ensinar a vocês, os humanos, eu que não passo de uma mula de carga e jamais superarei minha burrice. Assino estas mal traçadas linhas com a marca da minha pata esquerda, aquele que está mais próxima do coração, o centro unificador e dinamizador de tudo o que é bom e belo: Jérick de Jesus.

+ Dom Itacir Brassiani msf

Bispo Diocesano de Santa Cruz do Sul