sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Eles venderam o Brasil


Lava Jato, trair a Pátria não é crime?
Vender o país não é corrupção?
(Discurso do Sem. Roberto Requião no dia 30.10.2018)

O juiz Sérgio Moro sabe; o procurador Deltan Dallagnol tem plena ciência. Fui, neste plenário, o primeiro senador a apoiar e a conclamar o apoio à Operação Lava Jato. Assim como fui o primeiro a fazer reparos aos seus equívocos e excessos.
Mas, sobretudo, desde o início, apontei a falta de compromisso da Operação, de seus principais operadores, com o país.  Dizia que o combate à corrupção descolado da realidade dos fatos da política e da economia do país era inútil e enganoso.
E por que a Lava Jato se apartou, distanciou-se dos fatos da política e da economia do Brasil? Porque a Lava Jato acabou presa, imobilizada por sua própria obsessão; obsessão que toldou, empanou os olhos e a compreensão dos heróis da operação ao ponto de eles não despertarem e nem reagirem à pilhagem criminosa, desavergonhada do país.
Querem um exemplo assombroso, sinistro dessa fuga da realidade? Nunca aconteceu na história do Brasil de um presidente ser denunciado por corrupção durante o exercício do mandato. Não apenas ele.
Todo o entorno foi indigitado e denunciado. Mas nunca um presidente da República desbaratou o patrimônio nacional de forma tão açodada, irresponsável e suspeita, como essa Presidência denunciada por corrupção.
Vejam. Só no último o leilão do petróleo, esse governo de denunciado como corrupto, abriu mão de um trilhão de reais de receitas.
Um trilhão, Moro! Um trilhão, Dallagnoll! Um trilhão, Polícia Federal! Um trilhão, PGR! Um trilhão, Supremo, STJ, Tribunais Federais, Conselhos do Ministério Público e da Justiça. Um trilhão, brava gente da OAB!
Um trilhão de isenções graciosamente cedidas às maiores e mais ricas empresas do planeta Terra. Injustificadamente. Sem qualquer amparo em dados econômicos, em projeções de investimentos, em retorno de investimentos.  Sem o apoio de estudos sérios, confiáveis.
Nada! Absolutamente nada!
Foi um a doação escandalosa. Uma negociata impudica.  Abrimos mão de dinheiro suficiente para cobrir todos os alegados déficits orçamentários, todos os rombos nas tais contas públicas.

Abrimos mão do dinheiro essencial, vital para a previdência, a saúde, a educação, a segurança, a habitação e o saneamento, as estradas, ferrovias, aeroportos, portos e hidrovias, para os próximos anos.
Mas suas excelentíssimas excelências acima citadas não estão nem aí. Por que, entendem, não vem ao caso?
Na década de 80, quando as montadoras de automóveis, depois de saturados os mercados do Ocidente desenvolvido, voltaram os olhos para o Sul do mundo, os governantes da América Latina, da África, da Ásia entraram em guerra para ver quem fazia mais concessões, quem dava mais vantagens para “atrair” as fábricas de automóveis.
Lester Turow, um dos papas da globalização, vendo aquele espetáculo deprimente de presidentes, governadores, prefeitos a oferecer até suas progenitoras para atrair uma montadora de automóvel, censurou- os, chamando-os de ignorantes por desperdiçarem o suado dinheiro dos impostos de seus concidadãos para premiarem empresas biliardárias. 
Turow dizia o seguinte: qualquer primeiroanista de economia, minimamente dotado, que examinasse um mapa do mundo, veria que a alternativa para as montadoras se expandirem e sobreviverem estava no Sul do Planeta Terra. Logo, elas não precisavam de qualquer incentivo para se instalarem na América Latina, Ásia ou África. Forçosamente viriam para cá.
No entanto, governantes estúpidos, bocós, provincianos, além de corruptos e gananciosos deram às montadoras mundos e fundos.
Conto aqui uma experiência pessoal: eu era governador do Paraná e a fábrica de colheitadeiras New Holland, do Grupo Fiat, pretendia instalar- se no Brasil, que vivia à época o boom da produção de grãos.
A Fiat balançava entre se instalar no Paraná ou Minas Gerais. Recebo no palácio um dirigente da fábrica italiana, que vai logo fazendo numerosas exigências para montar a fábrica em meu estado. Queria tudo: isenções de impostos, terreno, infraestrutura, berço especial no porto de Paranaguá, e mais algumas benesses.
Como resposta, pedi ao meu chefe de gabinete uma ligação para o então governador de Minas Gerais, o Hélio Garcia. Feito o contanto, cumprimento o governador: “Parabéns, Hélio, você acaba de ganhar a fábrica da New Holland”. Ele fica intrigado e me pergunta o que havia acontecido.
Explico a ele que o Paraná não aceitava nenhuma das exigências da Fiat para atrair a fábrica, e já que Minas aceitava, a fábrica iria para lá.

O diretor da Fiat ficou pasmo e se retirou. Dias depois, ele aparece e comunica que a New Holland iria se instalar no Paraná.
Por que? Pela obviedade dos fatos: o Paraná à época, era o maior produtor de grãos do Brasil e, logo, o maior consumidor de colheitadeiras do país; a fábrica ficaria a apenas cem quilômetros do porto de Paranaguá; tínhamos mão-de-obra altamente especializada e assim por diante.
Enfim, o grande incentivo que o Paraná oferecia era o mercado.
O que me inspirou trucar a Fiat? O conselho de Lester Turow e o exemplo de meu antecessor no governo, que atraiu a Renault, a Wolks e a Chrysler a peso de ouro e às custas dos salários dos metalúrgicos paranaenses, pois o governador de então chegou até mesmo negociar os vencimentos dos operários, fixando-os a uma fração do que recebiam os
trabalhadores paulista. Mundos e fundos, e um retorno pífio.
Pois bem, voltemos aos dias de hoje, retornemos à história, que agora se reproduz como um pastelão. O pré-sal, pelos custos de sua extração, coisa de sete dólares o barril, é moranguinho com nata, uma mamata só!
A extração do óleo xisto, nos Estados Unidos, o shale oil , chegou a custar até 50 dólares o barril; O petróleo extraído pelos canadenses das areias betuminosas sai por 20 a 30 dólares o barril; as petrolíferas, as mesmas que vieram aqui tomar o nosso pré-sal, fecharam vários projetos de extração de petróleo no Alasca porque os  custos ultrapassavam os 40 dólares o barril.
Quer dizer: como no caso das montadoras, era natural, favas contadas que as petrolíferas enxameassem, como abelhas no mel, o pré-sal. Com esse custo, quem não seria atraído?
Por que então, imbecis, por que então, entreguistas de uma figa, oferecer mais vantagens ainda que a já enorme, incomparável e indisputável vantagem do custo da extração?
Mais um dado, senhoras e senhores da Lava Jato, atrizes e atores daquele malfadado filme: vocês sabem quanto o governo arrecadou com o último leilão?   Arrecadou o correspondente a um centavo de real por litro leiloado.
Um centavo, Moro! Um centavo, Dallagnoll! Um centavo, Carmem Lúcia! Um centavo, Raquel Dodge!  Um centavo, ínclitos delegados da Policia Federal!
Esse governo de meliantes faz isso e vocês fazem cara de paisagem, viram o rosto para o outro lado.

Já sei, uma das razões para essa omissão indecente certamente é, foi e haverá de ser a opinião da mídia. Com toda a mídia comercial, monopolizada por seis famílias, todas a favor desse leilão rapinante, como os senhores e as senhoras iriam falar qualquer coisa, não é? Não pegava bem contrariar a imprensa amiga, não é, lavajatinos?                               
Renovo a pergunta: desbaratar o suado dinheiro que é esfolado dos brasileiros via impostos e dar isenção às empresas mais ricas do planeta é um ou não é corrupção? Entregar o preciosíssimo pré-sal, o nosso passaporte para romper com o subdesenvolvimento, é ou não é suprema, absoluta, imperdoável corrupção? É ou não uma corrupção inominável reduzir o salário mínimo e isentar as petroleiras? Será, juízes, procuradores, policiais federais, defensores públicos, será que as senhoras e os senhores são tão limitados, tão fronteiriços, tão pouco dotados de perspicácia e patriotismo ao ponto de engolirem essa roubalheira toda sem piscar?
Bom, eu não acredito, como alguns chegam a acusar, que os senhores e as senhoras são quintas-colunas, agentes estrangeiros, calabares, joaquins silvérios ou, então, cabos anselmos.
Não, não acredito. Não acredito, mas a passividade das senhoras e dos senhores diante da destruição da soberania nacional, diante da submissão do Brasil às transnacionais, diante da liquidação dos direitos trabalhistas e sociais, diante da reintrodução da escravatura no país?.  essa passividade incomoda e desperta desconfianças, levanta suspeitas.
Pergunto, renovo a pergunta: como pode um país ser comandado por uma quadrilha, clara e explicitamente uma quadrilha, e tudo continuar como se nada estivesse acontecendo?
Responda, Moro. Responda, Dallagnoll. Responda, Carmem Lúcia.
Responda, Raquel Dodge. Respondam, oh, ínclitos e severos ministros do Tribunal de Contas da União que ajudaram a derrubar uma presidente honesta.
Respondam, oh guardiões da moral, da ética, da honestidade, dos bons costumes, da família, da propriedade e da civilização cristã ocidental.
 Respondam porque denunciaram, mandaram prender, processaram e condenaram tantos lobistas, corruptores de parlamentares e de dirigentes de estatais, mas pouco se dão se, por exemplo, lobistas da Shell, da Exxon e de outras petroleiras estrangeiras circulem pelo
Congresso obscenamente, a pressionar, a constranger parlamentares em defesa da entrega do pré-sal, e do desmantelamento indústria nacional do óleo e do gás?
Eu vi, senhoras e senhores. Eu vi com que liberdade e desfaçatez o lobista da Shell, semanas atrás, buscava angarias votos para aprovar a maldita, indecorosa MP franqueando todo o setor industrial nacional do petróleo à predação das multinacionais.
Já sei, já sei, isso não vem, ao caso... Fico cá pensando o que esses rapazes e essas moças, brilhantíssimos campeões de concursos públicos, fico pensando o que eles e elas conhecem de economia, da história e dos impasses históricos do desenvolvimento brasileiro?
Será que eles são tão tapados ao ponto de não saberem que sem energia, sem indústria, sem mercado consumidor, sem sistema financeiro público, para alavancar a economia, sem infraestrutura não há futuro para qualquer país que seja? Esses são os ativos imprescindíveis para o desenvolvimento, para a remissão do atraso, para o bem-estar social e para a paz social. Sem esses ativos, vamos nos escorar no quê? Na produção e exportação de commodities? Ora?
Mas, os nossos bravos e bravas lavajatinos não consideram o desbaratamento dos ativos nacionais uma forma de corrupção.
Senhoras, senhores, estamos falando da venda subfaturada –ou melhor, da doação- do país todo! Todo!
E quem o vende? Um governo atolado, completamente submerso na corrupção. E para que vende? Para comprar parlamentares e assim escapar de ser julgado por corrupção.
Depois de jogar o petróleo pela janela, preparando assim o terreno para a nossa perpetuação no subdesenvolvimento, o governo aproveita a distração de um feriado prolongado e coloca em hasta pública o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Eletrobrás, a Petrobrás e que mais seja de estatal. Ladrões de dinheiro público vendendo o patrimônio público.
Pode isso, Moro? Pode isso, Dallagnoll? Pode isso, Carmem Lúcia? Pode isso, Raquel Dodge? Ou devo perguntar para o Arnaldo?
À véspera do leilão do pré-sal, semana passada, tive a esperança de que algum juiz intrépido ou algum procurador audacioso, iluminados pelos feéricos, espetaculosos exemplos da Lava Jato, impedissem esse supremo ato de corrupção praticado por um governo corrupto.
Mas, como isso não vinha ao caso, nada tinha com os pedalinhos, o tríplex, as palestras, o aluguel do apartamento, nenhum juiz, nenhum procurador, nenhum delegado da polícia federal, e nem aquele rapaz do TCU, tão rigoroso com a presidente Dilma, ninguém enfim, se lixou para o esbulho.
 Ah, sim, não estava também no power point?.
É com desencanto e o mais profundo desânimo que pergunto:  por que Deus está sendo tão duro assim com o Brasil.

*Roberto Requião é senador da República no segundo mandato. Foi governador de estado por 3 mandatos, 12 anos, prefeito de Curitiba, secretário de estado, deputado, industrial, agricultor, oficial do exército brasileiro e advogado de movimento sociais. É graduado em direito e jornalismo com pós graduação em urbanismo e comunicação.


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O Evangelho dominical - 04.11.2018


ACREDITAR NO CÉU
Nesta festa cristã de «Todos os Santos», quero dizer como entendo e trato de viver alguns aspetos da minha fé na vida eterna. Quem conhece e segue Jesus Cristo entender-me-á.
Acreditar no céu é para mim resistir a aceitar que a vida de todos e de cada um de nós é apenas um pequeno parêntesis entre dois imensos vazios. Apoiando-me em Jesus, intuo, pressinto, desejo e creio que Deus está a conduzir para a sua verdadeira plenitude o desejo de vida, de justiça e de paz que se encerra na criação e no coração da humanidade.
Acreditar no céu é para mim rebelar-me com todas as minhas forças a que essa imensa maioria de homens, mulheres e crianças, que só conheceram nesta vida miséria, fome, humilhação e sofrimentos, fique enterrada para sempre no esquecimento. Confiando em Jesus, creio numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste, ninguém terá que chorar. Por fim poderei ver aos que vêm nas barcas chegar à sua verdadeira pátria.
Acreditar no céu é para mim aproximar-me com esperança a tantas pessoas sem saúde, doentes crónicos, inválidos físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão e na angústia, cansadas de viver e de lutar. Seguindo Jesus, creio que um dia conhecerão o que é viver com paz e saúde total. Escutarão as palavras do Pai: Entra para sempre no gozo do teu Senhor.
Não me resigno a que Deus seja para sempre um «Deus oculto», de quem não podemos conhecer jamais o Seu olhar, a Sua ternura e os Seus abraços. Não posso imaginar não me encontrar nunca com Jesus. Não me resigno a que tantos esforços por um mundo mais humano e ditoso se percam no vazio. Quero que um dia os últimos sejam os primeiros e que as prostitutas nos precedam. Quero conhecer aos verdadeiros santos de todas as religiões e de todos os ateísmos, os que viveram amando no anonimato e sem esperar nada.
Um dia poderemos escutar estas incríveis palavras que o Apocalipse coloca na boca de Deus: «Ao que tenha sede, Eu lhe darei de beber grátis da fonte da vida». Grátis! Sem o merecer. Assim saciará Deus a sede de vida que há em nós.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

ANO B – SOLENIDADE DDE TODOS OS SANTOS E SANTAS – 04.11.2018


Amor, solidariedade e serviço aos irmãos: isso é santidade!
Na solenidade litúrgica de todos os santos e santas, não podemos esquecer que a verdadeira santidade é aquela que se manifesta na vida das pessoas que vão além do estreito limite dos seus próprios interesses e se aproximam solidariamente dos ‘últimos’ da escala social; que vão aos rincões mais distantes para levar a bandeira da paz; que são movidas por uma insaciável sede de justiça; que choram as dores dos povos de todas as cores e provam o fel da violência e da perseguição; que transformam a terra pela mansidão... Muito diferente daqueles que rangem os dentes com sede de vingança ou retesam as mãos como se portassem armas a serem disparadas em nome da paz “dos homens de bem”.
A festa de todos os santos faz memória dos santos esquecidos, daqueles que não têm um dia especial, nem um nome conhecido, que gastaram a vida no anonimato e cujos milagres não cabem nas estreitas regras canônicas; de gente como Sepé Tiaraju, Padre Cícero, Frei Tito, e Ir. Dorothy; e mesmo de gente que não rezou pelo nosso catecismo, como Lutero, Luther King, Gandhi, Mandela, Betinho e tantos outros. Nesta festa celebramos a memória daqueles que nos antecederam na fé e cujo testemunho mantém a Igreja no caminho certo, apesar das suas resistências e ambivalências.
Mas a celebração de todos os santos e santas não olha somente para o passado. É oportunidade e provocação para que reflitamos sobre a vocação fundamental de todos os cristãos. É verdade que a santidade é um caminho estreito e uma vocação exigente, mas isso não significa que seja reservada a alguns grupos especiais de cristãos. Há mais de 50 anos o Concílio Vaticano II proclama de forma clara e inequívoca, contra a ideia então predominante nas Igrejas, que a santidade não é privilégio dos sacerdotes e religiosos. Muito antes, a história já havia comprovado o que foi proclamado solenemente.
Na passagem do milênio, o hoje santo João Paulo II nos provocava a não contentarmo-nos com pequenas medidas, voos rasantes e ideais nanicos, e pedia que aspirássemos nada menos e nada mais que à santidade. Esta vocação que é de todos precisa se transformar em desejo pessoal e em decisões e ações concretas. Como diz São João, nós somos chamados filhos de Deus e já o somos desde agora, mas o desafio é crescer na identificação com Jesus Cristo, gravar no corpo e na mente as marcas de Jesus Cristo. “Seremos semelhantes a ele...” E isso deve ser mais que um simples sentimento.
Jesus Cristo é o verdadeiro e perfeito santo de Deus e, ao mesmo tempo, o caminho para a santidade. Não há santidade à margem do seguimento de Jesus Cristo, mesmo que tal seguimento seja implícito. Trata-se então de refazer o caminho prático trilhado por Jesus: “amar como Jesus amou; sonhar como Jesus sonhou; pensar como Jesus pensou; viver como Jesus viveu; sentir como Jesus sentia...” Este é o caminho para que, no meio ou no fim do dia, e no meio ou no fim da vida, sejamos felizes. Este caminho é o caminho percorrido pelo próprio Jesus Cristo, expresso programaticamente nas bem-aventuranças.
A bela mensagem das bem-aventuranças apresenta os sinais que indicam claramente o caminho da santidade. Jesus não fala de oito grupos específicos de pessoas, mas de oito características daqueles que percorrem este caminho. Esta via sagrada começa com a pobreza e termina com a perseguição, que não representa um obstáculo, pois o Reino de Deus é antes de tudo dos pobres e dos perseguidos. A consolação é para os aflitos, a terra é para os mansos, a saciedade é para os famintos, a misericórdia é para os compassivos, a visão de Deus é para os puros e a filiação divina é para os promotores da paz.
Passa longe do Evangelho uma santidade que se resume em práticas de piedade ou moralismo vazio. Está distante da essência humana uma felicidade baseada no sucesso pessoal, indiferente à sorte dos semelhantes. As pessoas que se vestem de branco e trazem palmas nas mãos são aquelas que vieram da grande tribulação, que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro, que encarnaram o Evangelho no mundo e na própria vida. Felicidade não significa ausência de dificuldades, mas realização plena e profunda do ser humano. Mais que perfeição, santidade é perseverança no amor e no serviço.
Deus pai e mãe, fonte de toda santidade, dá-nos a graça de permanecer sempre de pé diante do teu Filho, rodeados pela nuvem de testemunhas anônimas oriundas de todas as nações, tribos, raças, línguas e gêneros. Ajuda-nos a superar a tentação de separar, catalogar e hierarquizar católicos e evangélicos, cristãos e não-cristãos. Fica conosco e caminha à nossa frente, para que estejamos sempre prontos a amar e servir. E que a inexplicável alegria em meio às intermináveis lutas seja nossa arma e nosso triunfo. E então estaremos vivendo em comunhão com aqueles que louvam no céu e na terra. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Apocalipse de São João 7,2-4.9-14 * Salmo 23 (24) * 1ª. Carta de São João 3,1-3 * Evangelho de São Mateus 5,1-12)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Manifesto de um grupo de padres pela Democracia


Nota de um grupo de padres brasileiros quanto ao momento eleitoral

Queridos irmãos e irmãs!

Somos um grupo de padres que teme pelo destino político que está sendo gestado para o Brasil. No corrente ano de 2018, depois de uma campanha marcada por mentiras, “Fake News”, e por manifestações claras de ódio e de indiferença quanto ao diálogo, nós queremos recordar ao povo que nos foi entregue nossa firme convicção pelos valores evangélicos.

A fé cristã exige de nós uma firme postura diante do mal. Os seguidores de Cristo não podem se permitir corromper por interesses, sejam eles ideológicos ou econômicos. Muito mais escandaloso, então, é a possibilidade de que os discípulos e discípulas de Jesus se permitam motivar pelo ódio contra as minorias, já tão esmagadas em nosso país. Os pobres, sem teto, sem trabalho, sem o mínimo de dignidade humana são nossos senhores e sem eles, nenhum de nós poderá chegar à comunhão com Cristo (Mt 25,31-46).

Mas, as minorias são muitas nesse país marcado pela desigualdade: os negros e quilombolas que enfrentam o preconceito e a desigualdade de condições sociais; as comunidades indígenas que lutam para sobreviver; os grupos LGBTs tão perseguidos, desrespeitados e marginalizados; os imigrantes que buscam uma nova vida em nosso país; as mulheres que, ainda hoje, ficam em cargos secundários na sociedade. Todos esses grupos, e todos aqueles que sofrem injustiça são a presença de Cristo crucificado entre nós.

Tendo em vista essas realidades, sabedores que somos da enorme crise ética pela qual passamos e pela desconfiança de grande parte da população em relação às instituições democráticas, pedimos ao nosso povo que não arrisque abrir mão da democracia, que a duras penas resgatamos após um regime militar autoritário e ditatorial. Deixar de lado a democracia para acolher e confiar num discurso de um candidato que possui uma fala extremamente excludente e marcada pela violência, é abandonar o Evangelho e colocar a esperança em falsos deuses.

A democracia brasileira é recente e precisa, constantemente, ser melhorada. Mas, não esqueçamos que a democracia não é o regime político onde a maioria manda e as minorias se calam. Ou, em casos extremos, onde a maioria procura exterminar as minorias. A democracia é o sistema em que todos têm seus direitos e deveres assegurados, pois cada ser humano é reconhecido em sua dignidade.

Como pastores do povo de Deus que não podem deixar morrer a voz profética da Igreja, pedimos ao nosso povo que não se permita manipular por ideologias totalitárias. Os cristãos são movidos pelos valores do Evangelho, são pobres de espírito, pacificadores, mansos de coração, têm fome e sede de justiça, são misericordiosos, são construtores da paz e, se preciso for, são perseguidos por defender esses valores que brotam do coração do Evangelho (Mt 5,1-11). Pedimos ao nosso povo que trabalhe pela paz e assegure a democracia que garante nossa liberdade, abrindo mãos das lógicas de violência e de todo e qualquer tipo de preconceito e de ódio.

(Pe. Itacir Brassiani msf, entre muitos)

O Evangelho dominical - 28.10.2018


COM OLHOS NOVOS

A cura do cego Bartimeu está narrada por Marcos para interpelar as comunidades cristãs a sair da sua cegueira e mediocridade. Só assim seguirão Jesus pelo caminho do Evangelho. O relato é de uma surpreendente atualidade para a Igreja dos nossos dias.
Bartimeu é um mendigo cego sentado junto ao caminho. A sua vida sempre é de noite. Ouviu falar de Jesus, mas não conhece o Seu rosto. Não pode segui-Lo. Está junto ao caminho por onde Jesus passa, mas está fora. Não é esta também a nossa situação? Cristãos cegos sentados junto ao caminho, incapazes de seguir Jesus?
Parece que vivemos na noite. Desconhecemos Jesus. Falta-nos luz para seguir o Seu caminho. Ignoramos para onde se encaminha a Igreja. Não sabemos sequer que futuro queremos para ela. Instalados numa religião que não consegue converter-nos em seguidores de Jesus, vivemos junto ao Evangelho, mas fora dele. Que podemos fazer?
Apesar da sua cegueira, Bartimeu capta que Jesus está a passar próximo Dele. Não hesita um instante. Algo lhe diz que em Jesus está a sua salvação: “Jesus, Filho de David, tem compaixão de mim!” Este grito repetido com fé vai desencadear a sua cura.
Hoje ouve-se na Igreja queixas e lamentos, críticas, protestos e mutuas desqualificações. Não se escuta a oração humilde e confiante do cego. Esquecemo-nos que só Jesus pode salvar esta Igreja. Não percebemos a Sua presença próxima. Só acreditamos em nós.
O cego não vê, mas sabe escutar a voz de Jesus, que lhe chega através dos Seus enviados: Ânimo, levanta-te, que te chama!” Este é o clima que necessitamos criar na Igreja. Animar-nos mutuamente a reagir. Não seguir instalados numa religião convencional. Voltar a Jesus, que nos está chamando. Este é o primeiro objetivo pastoral.
O cego reage de forma admirável: solta o manto que lhe impede levantar-se, dá um salto no meio da obscuridade e aproxima-se de Jesus. Do seu coração apenas brota uma petição: Mestre, que recupere a vista Se os seus olhos se abrem, tudo mudará. O relato conclui dizendo que o cego recuperou a vista e o seguia pelo caminho.
Esta é a cura que necessitamos hoje os cristãos. O salto qualitativo que pode mudar a Igreja. Se muda o nosso modo de olhar Jesus, se lemos o Seu Evangelho com olhos novos, se captamos a originalidade da Sua mensagem e nos apaixonamos com o Seu projeto de um mundo mais humano, a força de Jesus irá arrastar-nos. As nossas comunidades conhecerão a alegria de viver seguindo-O de perto.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

ANO B – TRIGÉSIMO DOMINGO DO TEMPO COMUM – 28.10.2018


Que Jesus cure a cegueira de parte dos eleitores brasileiros!
Estamos chegando ao final do mês que dedicamos à oração e à animação missionária, e vivendo, neste domingo, o desfecho de uma conturbado e dramático processo eleitoral. Cego pelo medo e pelo ódio, conduzido como gado marcado para morrer por uma imprensa que detesta tudo o que representa avanço da cidadania, o povo brasileiro corre o risco de aplaudir o torturador que o fere e de recusar a democracia que assegura seus direitos. Precisamos abrir a boca e gritar com coragem, pedindo que se abram nossos olhos, que o país acorde e se coloque a caminho, que não brinque à beira do precipício.
Somos movidos pelo desejo, pelos sonhos, pelas utopias. O desejo insaciável de plenitude, de bem viver e conviver, faz com que a pessoa humana se coloque a caminho. Apagar este desejo, ou substituí-lo pela rasteira satisfação de uma segurança feita sob medida para os fortes, equivale a começar a morrer. O ser humano só fica sentado à beira da estrada e condena quem é diferente quando ainda não alcançou sua própria maturidade ou quando teve roubada a sua dignidade. Só quem ousa caminhar para além da situação presente é capaz de recusar uma vida sustentada por migalhas de bem-estar e falsa segurança.
O desejo mobilizador, criativo e emancipador é também o lugar do encontro com Deus. Quem busca Deus fora da insaciável sede de plenitude e convivência inclusiva e solidária acaba fabricando ídolos que só fazem amedrontar os viventes e devorar vidas. É Deus quem nos fez sonhadores, misturando o pó da terra ao sopro divino. E é nessa abertura radical que nada pode preencher que ele costuma vir ao nosso encontro, acolhendo-a não como sinal de nossos limites, mas como expressão do infinito que nos habita. É também do adorável fundo desta condição de criaturas desejantes que brota a verdadeira oração.
É na oração que revelamos nossos verdadeiros e mais profundos desejos. Então, que é que andamos pedindo a Deus? E o que pedimos para nosso país? Dirigimo-nos a Deus como se ele fosse um capitão pronto a eliminar, em nosso nome, as pessoas e grupos que não nos agradam ou sentimos como ameaça? Confiamos a ele a frágil economia e a duvidosa moral da nossa família e imploramos que dê segurança às nossas poupanças e propriedades? Talvez cheguemos até a pedir paz, segurança e sucesso à nossa Igreja na concorrência com as demais denominações, que tratamos como concorrentes...
Como são pobres e medíocres estes desejos! Não passam de necessidades, reais ou fantasiosas, geradas no ventre do medo. Por isso, quando se trata de oração, não é suficiente pedir com insistência: é preciso desejar e pedir com ousadia e corretamente grandes coisas! Venha a nós o vosso Reino! Seja feita a vossa vontade! Democracia radical e respeito aos pobres. Bartimeu, que pede esmolas à margem do caminho, começa pedindo compaixão àquele que carrega nas próprias entranhas as esperanças dos pequenos. Antes de manifestar propriamente um desejo, expressa sua própria condição de dor e alienação.
Apesar da contrariedade dos que o circundam e seguem, Jesus para e se dirige ao cego e mendigo que implora: “O que você quer que eu faça por você?” Encorajado pelos discípulos, Bartimeu balbucia um pedido que vem do fundo da condição humana, que espanta todos os medos e exorciza todas limitações: “Mestre, eu quero ver de novo!” Neste pedido, ele resume todas as suas necessidades e desejos: ver claramente as coisas, avaliar com retidão os acontecimentos, vislumbrar o Reino de Deus chegando como graça, tomar decisões políticas responsáveis à luz da razão ética e não dos medos e ódios...
Pouco antes, um jovem rico havia voltado atrás, entristecido, porque era refém dos próprios bens (cf. Mc 10,17-22), e João e Tiago haviam expressado seus sonhos de poder. Mas o cego Bartimeu se livra do único meio de sobrevivência que possui e se aproxima de Jesus. E é essa fé ativa e dinâmica que abre seus olhos. “Pode ir, a sua fé curou você!” E ele não volta para casa ou para a caserna, mas põe-se a seguir Jesus. Mostra-se mais livre que o jovem rico, que voltou atrás desiludido, e que João e Tiago, que desejam os primeiros lugares. Que o povo brasileiro aprenda do cego de Jericó, peça a Jesus a capacidade de ver, de entender e de jogar fora o manto dos grandes medos e pequenas e falsas seguranças.
Jesus de Nazaré, peregrino no santuário das dores e sonhos humanos! Escuta o grito que brota das entranhas da terra e abre os nossos olhos para podermos reconhecer-te passando por nossos caminhos. Converte os cristãos do Brasil, para que não ignorem os desejos e sonhos que movem a humanidade. Desperta o povo brasileiro, para que saiba escolher a democracia e a solidariedade, e não a violência e o fascismo. E que ninguém cale em nós o grito desse desejo, mais forte que todas as razões, mais glorioso que todas as luzes, mais vivo que todas as cores, mais nobre que todas as honras. Assim seja! Amém!
Itacir Brassiani msf
(Profecia de Isaías 53,10-11 * Salmo 32 (33) * Carta aos Hebreus 4,14-16 * Evangelho de Marcos 10,35-45)

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

110 anos da morte do Pe. Berthier (final)


Um testemunho eloquente e cabal
Na celebração da páscoa do Padre Berthier, o Pe. Sprangers, pároco de Grave, resumiu o amor que marcou sua vida com as seguintes palavras: “Ele amou vocês ternamente, ardentemente, generosamente e, por causa deste amor, justificou plenamente o modo como vocês se dirigiam a ele: pai. Vocês, filhos do Padre Berthier, conheceram os cuidados infinitos que seu amor teve para fazer vocês crescer, para instrui-los e, sobretudo, para santifica-los. Somente vocês podem dizer algo sobre a imensa ternura que ele teve por vocês, pela pessoa de cada um e pela Obra das vocações sacerdotais que ele empreendeu para a glória de Deus. (...)
Sendo ardentemente querido por seus filhos, ele foi também amado por outras pessoas com um afeto que muito raro neste mundo. A transparência da sua vida, a nobreza da sua alma, seu caráter desapegado e o completo esquecimento de si atraíram estima, simpatia e veneração de todos aqueles que tiveram a graça de encontrá-lo ou mesmo de conhecê-lo, ainda que apenas indiretamente. De fato, Padre Berthier foi amado com um afeto particular por muitas pessoas, não por interesses, como ocorre frequentemente, mas por convicção, por estima, por uma espécie de atração que ele exercia sobre as pessoas. Em uma palavra, ele foi amado porque era uma pessoa amável: amável aos olhos de todos; amável por sua modéstia, amável por sua bondade, amável por sua simplicidade, esvaziada de qualquer presunção.”
Mais a antes que virtudes, Fé, Esperança e Amor são, conjuntamente, a novidade cristã encarnada no mundo, os primeiros e mais importantes frutos do Espírito. São as três faces da mesma santidade. Alguém poderia dizer que isso não tem nada de extraordinário, que são coisas comuns. Mas será que viver pela fé num ambiente que impõe o medo e nega qualquer transcendência, viver a esperança num mundo que insiste na falta de saídas e propõe a resignação, viver o amor num sistema que propugna a indiferença e o valor absoluto do indivíduo não brilha como sinal de Deus no mundo, como um ideal digno de ser imitado?
Itacir Brassiani msf

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O Evangelho dominical - 21.10.2018


NADA DISSO ENTRE NÓS

Enquanto sobem a Jerusalém, Jesus vai anunciando aos Seus discípulos o destino doloroso que o espera na capital. Os discípulos não o entendem. Andam a disputar entre eles os primeiros lugares. Tiago e João, discípulos desde a primeira hora, aproximam-se Dele para Lhe pedirem diretamente para sentarem-se um dia um à Tua direita e o outro à Tua esquerda.
Vê-se Jesus desalentado: Não sabeis o que pedis. Ninguém no grupo parece entender que segui-Lo de perto no Seu projeto, sempre será um caminho não de poder e grandezas, mas de sacrifício e de cruz.
Entretanto, ao saberem do atrevimento de Santiago e João, os outros dez indignam-se. O grupo está mais agitado que nunca. A ambição está a dividi-los. Jesus reúne-os a todos para deixar claro o Seu pensamento.
Antes de mais nada expõem-lhes o que acontece aos povos do Império romano. Todos conhecem os abusos de Antipas e das famílias herodianas na Galileia. Jesus resume assim: os que são reconhecidos como chefes utilizam o seu poder para tiranizar os povos, e os grandes não fazem senão oprimir os seus súbditos. Jesus não pode ser mais categórico: Vós, nada disso”.
Jesus não quer ver entre os Seus nada parecido: O que queira ser grande entre vós que seja vosso servidor, e o que queira ser primeiro entre vós que seja escravo de todos. Na Sua comunidade não haverá lugar para o poder que oprime, só para o serviço que ajuda. Jesus não quer chefes sentados à Sua direita e esquerda, mas servidores como Ele que dão a sua vida pelos demais.
Jesus deixa as coisas claras. A Sua Igreja não se constrói a partir da imposição dos de cima, mas a partir do serviço dos que se colocam abaixo. Não cabe qualquer tipo de hierarquia em termos de honras ou de domínio. Tampouco métodos e estratégias de poder. É o serviço o que constrói a Igreja de Jesus.
Jesus dá tanta importância ao que está a dizer que se coloca a si mesmo como exemplo, pois não veio ao mundo para exigir que o sirvam, mas “para servir e dar a Sua vida em resgate por todos”. Jesus nos ensina que ninguém triunfe na Igreja, que não seja a servir o projeto do reino de Deus desgastando-nos pelos mais débeis e necessitados.
Os ensinamentos de Jesus não são só para os dirigentes. Desde tarefas e responsabilidades diferentes temos de comprometer-nos todos a viver com mais entrega ao serviço do Seu projeto. Não necessitamos na Igreja de imitadores de Santiago e João, mas de seguidores fiéis de Jesus. Os que querem ser importantes que se ponham a trabalhar e a colaborar.
José Antonio Pagola
Tradução de Antonio Manuel Álvarez Perez

110 anos da morte do Pe. Berthier (3)


Amor terno, generoso e perseverante ao próximo
O Padre Berthier ensinava que o amor é “o sentimento mais perfeito, e é para produzi-lo em nós que Jesus Cristo doou sua vida”. Movido por essa convicção, o Fundador viveu um intenso, generoso e criativo amor ao próximo. Esse amor se tornou palpável especialmente no seu zelo apostólico, no seu relacionamento afável, na sua dedicação às vocações, no seu amor pelos pobres e na sua cuidadosa atenção aos doentes.
Em relação ao zelo pastoral, a meta prioritária de todo ação apostólica do Fundador era conduzir as pessoas à perfeição no amor, conduzir à santidade. Essa é uma das razões pelas quais ele jamais abandonou o serviço aos romeiros no Santuário, especialmente no confessionário, assim como o exigente ministério da direção espiritual. Segundo o bispo Dom Paulot, é isso que também transparece em todas as obras que escreveu. Segundo um colega Saletino, ele jamais se acomodou aos caminhos mais convencionais ou fáceis. Além de dedicar-se incansavelmente a esta finalidade, o Fundador estimulou fortemente seus discípulos a fazerem o mesmo. Para ele, o fundamento do zelo pastoral “é o amor de Nosso Senhor e o amor ao próximo em vista dele”, como escreveu.
O relacionamento afável com todas as pessoas causou profunda impressão em quem conheceu o Padre Berthier. Diz uma testemunha: “Seu amor se manifestava de modo extraordinário na sua afabilidade, na sua vida exemplar, nas suas palavras e ações. Quando eu saía com ela à cidade, percebia que as pessoas ficavam visivelmente impressionadas com sua amabilidade. Ele saudava amavelmente todas as pessoas, inclusive às crianças, para quem tirava o chapéu e dizia: ‘Bom dia, meu filho, bom dia meu pequeno!” Muitos vocacionados, posteriormente discípulos seus, testemunham que a precariedade da casa de Grave assustava, mas a amabilidade do Fundador os atraía e consolava. “A presença do Padre Fundador fazia-me esquecer todas as dificuldades.” Essa mesma afabilidade ele a manifestava no confessionário, e por isso atraía muita gente.
Outra manifestação do seu amor ao próximo é a dedicação do Padre Berthier à orientação vocacional. Durante toda a sua vida, o Fundador deu à pastoral das vocações um lugar prioritário, sobretudo às vocações apostólicas e àquelas para as quais as portas tradicionais estavam fechadas. E isso ainda como missionário Saletino, bem antes de fundar a Congregação dos Missionários da Sagrada Família. Era grande sua fama como diretor espiritual e orientador vocacional mediante a correspondência. Quem ama o próximo, leva a sério a tarefa de ajudá-lo a encontrar e desenvolver sua vocação.
Uma quarta expressão desse amor ao próximo é o amor aos pobres, entre os quais seus próprios vocacionados ocupavam o primeiro lugar. É para estes que o Padre Berthier pensou a Congregação. Ele não media esforços e trabalhava sem descanso para abrir uma vaga a uma vocação pobre. Como escrevera, ele nunca esqueceu que “as pessoas pobres, enfermas, surdas, com inteligência limitada ou aparência repugnante devem ser as mais importantes para o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo”. “Mesmo tendo pouco, ele não fechava a mão aos pobres”, diz uma testemunha. “Ele nunca despediu um pedinte sem nada”, atesta outra. Com esta fama, eram muitos os pobres que recorriam sempre a ele.
A atenção que o Padre Berthier dedicava aos doentes é uma outra expressão do seu amor pelos pobres. Ele os ajudava com visitas, donativos, orientações, inclusive com seus conhecimentos sobre ervas medicinais. Várias testemunhas afirmam que o Fundador conhecia muitos doentes pelo nome, e sempre buscava saber se estavam se recuperando. Quando os doentes eram seus formandos, esse cuidado era redobrado. Em vista dos doentes, o Fundador organizou uma enfermaria e um pequeno abrigo. Se a enfermidade era mais grave, remetia-os a algum médico conhecido seu. E quando os doentes estavam em fase terminal, Padre Berthier não media esforços para que recebessem os sacramentos e para permanecer o mais possível ao lado deles. E isso ele ensinou também aos seus discípulos.
Itacir Brassiani msf