quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Raposas e ratos

Nenhuma ameaça consegue intimidar Jesus

1249 | Tempo Comum | 30ª Semana | Quinta | Lucas 13,31-35

Jesus acabava de responder a quem perguntava se são muitas as pessoas que se salvam, e alertava que as portas do Reino de Deus estão abertas a todos, mas tem suas exigências. Eis que, inesperadamente, os fariseus comunicam a Jesus que ele está em perigo, que Herodes está querendo matá-lo. Será que viraram defensores e protetores de Jesus? Será que estavam preocupados com os riscos que enfrentava?

A cena está situada literariamente na segunda etapa da caminhada de Jesus a Jerusalém, e ele acabara de acusar o povo Israel de incredulidade e de elogiar ninguém menos que os pagãos. Jesus não é ingênuo. Ele percebe a falsidade dos fariseus, pois são emissários de Herodes e fazem o jogo dele, e pouco estão se “lixando” com o risco que ameaça Jesus. Ele não se deixa intimidar pelo tirano.

Jesus fala de Herodes usando uma metáfora bem conhecida da cultura brasileira. Jesus diz que o rei Herodes se parece a uma raposa, como no Brasil são qualificados os políticos interesseiros. Herodes rosna forte, mas não é um leão: ele não passa de um animal pequeno, mas traiçoeiro, violento e fedorento, cujo domínio não vai além da Galileia e da Peréia. Ele não passa de um reizinho frágil e periférico, por mais que busque o apoio da aristocracia de Israel e bajule o imperador romano.

A imagem da raposa também ajuda a compreender a metáfora da galinha e dos pintinhos. A galinha e seus filhotes são objeto preferido da violência e da voracidade da raposa. Embora Jesus tente defender e proteger o seu povo como uma galinha protege seus pintinhos, usando do seu próprio corpo, a elite de Jerusalém refuta o caminho que Jesus percorre e propõe. Mas ele continua sua missão como “bendito que vem em nome do Senhor”, curando, libertando e anunciando o Reino.

Fiel à herança profética, Jesus não muda o rumo nem o ritmo da sua missão por causa da ameaça de um reizinho decadente. Ele prossegue, intrépido e generoso, sua missão, sem se afastar da vontade do Pai para buscar proteção. Ele se identifica com os profetas, mas não é uma espécie de “kamikaze” que procura a morte como ato redentor do povo e glorificador de si mesmo. É o Pai, e não Herodes ou seus asseclas, quem vai dizer quando e como Jesus deve dar sua missão por terminada. Também hoje, enquanto os cães raivosos e iludidos ladram, a caravana do Reino avança...

 

Sugestões para a meditação

Embarque na sugestiva metáfora da raposa que ameaça a galinha e seus pintinhos, com a qual Jesus fala de Herodes e de si mesmo

Deixe-se impressionar pela firmeza e coragem de Jesus, que continua sua missão até e como o Pai quer

Perceba a hipocrisia e a falsidade dos fariseus de todos os tempos, que defendem apenas “pátria, (sua) família e (sua) propriedade”

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Judas e Simão

Eles são colunas da verdade e setas no caminho

1248 | Festa dos Apóstolos Simão e Judas| Lucas 6,12-19

Voltamos ao capítulo 6 do evangelho segundo Lucas para iluminar a festa de São Judas e São Simão. São Judas Tadeu não é o traidor convertido, como pensam alguns. É um segundo Judas, irmão (ou filho) de Tiago e parente de Jesus. Uma tradição antiga diz que ele era o noivo da festa de Caná, mas não há provas históricas sobre isso. Seu nome significa, literalmente, amigo íntimo, “amigo do peito”, próximo do coração. Este nome já é, por si mesmo, prenhe de significados.

São Judas nos deixou uma breve carta, que faz parte do Novo Testamento. Nela, o apóstolo sublinha os valores da vida comunitária e mostra-se muito preocupado com algumas falsas lideranças que causam danos às comunidades cristãs do seu tempo. São Judas diz que essas lideranças são como nuvens que anunciam chuva que não vêm, como árvores sem raízes, como ondas revoltosas e violentas, como astros errantes, como os seguidores de Caim. São imagens muito fortes!

Na carta, ele também pede aos fiéis que edifiquem a si mesmos sobre o alicerce da fé e perseverem no amor de Deus. E manda que conjuguem a compaixão com a cautela, e fortaleçam os cristãos vacilantes. Por isso, precisamos sublinhar que, mais que um socorro nas causas difíceis, São Judas Tadeu é, com os outros apóstolos, lâmpada da fé e coluna da verdade, como diz São Cirilo de Alexandria.

Mesmo que alguns dos Doze Apóstolos escolhidos e enviados sejam pouco conhecidos, Jesus os escolheu “a dedo”. Antes de os escolher, passa uma noite em oração, para não se enganar na escolha, e para que eles sejam símbolo do novo povo de Deus. Portanto, nenhum deles simplesmente aparece na lista para completar o número. Ser Apóstolo significa ser enviado como porta-voz, delegado, embaixador. E os Doze participam da missão do próprio Jesus Cristo, fazem o que ele fez, têm a sua dignidade, assumem sua meta e trilham seu caminho.

Celebrando a festa de São Simão (que não é Pedro) e São Judas (que não é o Iscariotis) no finalzinho do mês dedicado às missões, a comunidade cristã é convocada a renovar seu ardor missionário, a potencializar seu testemunho, a dar sua resposta ao Senhor que chama através dos clamores e esperanças do nosso povo e nos envia como peregrinos de esperança entre todos os povos. Estamos respondendo a este envio para dar testemunho num círculo cada vez mais amplo?

 

Sugestões para a meditação

Acompanhe passo a passo o retiro orante, a escolha nominal e o envio dos Doze Apóstolos, embaixadores do Reino de Deus

Deixe que ressoe também em você e hoje o chamado e a escolha de Jesus: “Eu te amo, te chamo, te formo e te envio!”

Dirija sua prece pessoal a estes dois apóstolos e santos, apresentando-lhes aquilo que nossas comunidades mais necessitam hoje.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Como a semente e o fermento

Com que compararemos o Reino de Deus?

1247 | Tempo Comum | 30ª Semana | Terça | Lucas 13,18-21

Para Jesus, o amor atento às necessidades e ao bem das pessoas está acima da lei, e manifesta o querer de Deus. O sentido do sábado é manter viva a memória e o sonho da criação e da libertação. É isso que resume, e é disso que depende toda a Escritura. A religião deve partir daqui, e os ritos, cultos e doutrinas devem conduzir a isso. O Evangelho de Jesus estabelece a comunhão de corpo e alma, matéria e espírito, indivíduo e comunidade, religião e sociedade, fé e política.

Depois da cura da mulher encurvada na sinagoga em dia de sábado, Jesus conclui a primeira parte do seu ensino, enquanto se dirige a Jerusalém, com duas minúsculas parábolas sobre o Reino de Deus: a parábola da semente de mostarda e a parábola do fermento na massa. Ambas sublinham a importância do início e a força daquilo que é pequeno. Meditemos sobre elas com a devida atenção.

As ações de compaixão e libertação que Jesus e seus discípulos espalham e misturam a uma imensa massa inerte parecem, aos olhos de muitos, irrelevante e sem futuro. “Vale a pena ser bom e justo?”, perguntam. “Isso não tem futuro!”, repetem outros. “Não passa de uma gota de água frente ao fogo criminoso que devora o Pantanal e o Cerrado”, diríamos nós. O mistério do Reino de Deus seria um sonho inútil, ou, na melhor das hipóteses, apenas uma gota de água no oceano?

Para Jesus, o “pequeno rebanho” de discípulos é uma minoria ativa, capaz de “fazer a diferença”. Eles não se perdem indiferentes e inócuos na massa, mas agem como fermento, como minoria ativa e transformadora, ou “minorias abraâmicas”, como gostava de dizer Dom Helder Camara. Como a pequena semente de mostarda, são relevantes e terão um futuro exitoso, beneficiarão a muitos. O fermento do Reino de Deus, como Jesus, se “esconde” na massa. Mas vai fazendo seu trabalho transformador a partir de dentro, em silêncio.

Como a mostarda, que é semeada na horta doméstica mas abriga nos seus ramos gente que vem de todas as partes da terra (cf. Ez 17,23-24; Dn 4,20-21), o dinamismo do Reino de Deus progride na inclusão de todas as pessoas, grupos e povos. E como a pequena medida de fermento misturada na farinha, o Evangelho corrói as estruturas injustas e as transforma de dentro para fora. Ninguém ousaria duvidar da força transformadora do fermento, nem da força escondida na semente...

 

Sugestões para a meditação

Em que medida também nós, Igreja de hoje, desconfiamos da força do testemunho e do êxito do Reino de Deus?

Recorde e visualize situações e acontecimentos que demonstram o dinamismo do Reino de Deus atuando através de meios frágeis

Como você, sua família e sua comunidade cristã, podem viver e agir como semente de mostarda e fermento na massa hoje?

domingo, 25 de outubro de 2026

A vida em primeiro lugar

Os vulneráveis são o primeiro sacramento

1246 | Tempo Comum | 30ª Semana | Segunda | Lucas 13,10-17

Jesus ensina que, quando as leis ajudam a viver o amor a Deus e ao próximo, são importantes e boas. Mas quando já não servem para gerar e proteger a vida, ou quando se opõem à vida e à dignidade dos pobres, devem ser abandonadas, como ele mesmo o fez. Nesse amor, que tem dois destinatários, mas uma mesma direção – a saída de si para priorizar o outro – se resumem as Escrituras. O socorro das pessoas em suas necessidades vem antes e está acima das leis.

Hoje, Lucas nos apresenta Jesus na sinagoga. Enquanto mestre, Jesus de Nazaré ensina como “boca de Deus” e vai ao lugar especialmente destinado ao ensino da Palavra de Deus. E, mais uma vez, enfrenta a esclerose do formalismo religioso e a violenta e cínica tirania religiosa representada e exercida pelas lideranças que controlam o ensino da lei, especialmente mediante a Sinagoga. Jesus mostra sua inconformidade com isso, e não se cala nem se acomoda.

Na sinagoga, Jesus vê uma mulher duplamente excluída: por ser doente e por ser maneada por um espírito maligno. Ninguém dos mestres ali presentes dá a mínima atenção a ela, com exceção de Jesus. Jesus toma a iniciativa: sem que ela peça qualquer coisa, ele a chama, cura e liberta, estendendo a mão num solene e inequívoco gesto que denota a ação e a proteção de Deus. Para Jesus, é inaceitável prorrogar o sofrimento daquela mulher por causa de uma interdição legal.

Jesus curou a mulher num dia de sábado, e a lei que mandava guardá-lo fechava os olhos de todos a tudo o mais que não fosse o estrito cumprimento daquilo que era proibido ou mandado. Por isso, a iniciativa de Jesus suscita a louvor intenso e agradecido da mulher e, ao mesmo tempo, a fúria do chefe da sinagoga, que se volta contra ela, evitando atacar Jesus diretamente. Para ele, os encurvados podem esperar, a lei não! E se instaura a controvérsia e o debate. Como Jesus se atreve?

Jesus desmascara a hipocrisia de quem usa a religião para se dispensar do compromisso com o próximo ou para oprimi-lo. Para Jesus, a atenção às necessidades e ao bem das pessoas concretas está acima da lei, e manifesta o querer claro e inequívoco de Deus. O sentido e a finalidade de todas as leis e instituições é manter viva a memória e o sonho da criação e da libertação. É daqui que brota a alegria e o louvor. Fora disso, só resta a vergonha.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena, os gestos, perguntas e palavras de Jesus, as reações da mulher encurvada, dos chefes da sinagoga e do povo

Por quê nos custa tanto colocar a dignidade e a necessidade das pessoas à frente das leis e ritos?

Como educar e formar nossos fiéis e comunidades da liberdade solidária do Evangelho de Jesus?

sábado, 24 de outubro de 2026

O amor é único

O amor ao próximo demonstra o amor a Deus

1245 | Tempo Comum | 30ª Semana | Domingo | Mateus 22,34-40

Os capítulos 21 e 22 de Mateus apresentam o confronto permanente entre, por um lado, Jesus e o reino de Deus e, por outro, a elite dirigente do judaísmo e a lógica excludente do templo. No trecho anterior (v. 15-33), Jesus discute com os saduceus sobre a ressurreição e a legitimidade do imposto exigido pelo império romano. Com suas respostas e argumentos, Jesus calou a boca dos saduceus.

Mas o silêncio dos saduceus não é vergonha nem inércia. Eles se aliam aos fariseus e mestres da lei para colocar Jesus novamente à prova. Desta vez, provocam Jesus a distinguir entre os mandamentos aqueles que seriam grandes e relevantes e aqueles que poderiam ser tratados como secundários. Jesus responde sublinhando a unidade dos mandamentos, e não a hierarquização. As leis da aliança e a perspectiva profética se entrelaçam na prática do amor e na fome de justiça.

Jesus responde acenando àquilo que o livro do Deuteronômio apresenta no capítulo 6: o horizonte dos mandamentos é o amor profundo e integral a Deus, inseparável do amor social e cotidiano ao próximo, materializado na pessoa vulnerável. Não se trata de atos ocasionais de amor, e, muito menos, de simples sentimentos, mas de uma visão social e estrutural, que conjuga o amor ao próximo ao amor a Deus, do qual decorre. São os dois trilhos por onde corre o trem da salvação.

Como havia anunciado no capítulo 5 de Mateus, a Lei e os Profetas, ou seja, todas as escrituras, dependem disso! Em outras palavras: o maior, o primeiro, e o mais importante dos mandamentos é a fidelidade e a perseverança integral e diária na prática da compaixão ativa, humanizadora e libertadora. E isso não é um entre outros mandamentos, mas o coração pulsante da inteira experiência e vontade de Deus na história. Deus é o amor, e onde há amor ao próximo, Deus está presente, salvando e libertando.

Em outras palavras, isso constitui o núcleo ou fio de ouro da pregação de Jesus. Sem esse amor, a fé se torna moralismo e legalismo vazio. É nesse amor, na afirmação prática da dignidade do outro e no serviço solidário e perseverante às suas necessidades, que se revela e sustenta a verdade e a solidez da fé. Nada vem antes nem está acima disso! Os sacramentos são celebrações que nos inserem nesse oceano de graça. A catequese e a pregação recolocam isso sempre de novo no centro.

 

Sugestões para a meditação

Você leva a sério a centralidade do amor integral e fiel a Deus e ao próximo no qual está presente como a síntese da lei e da profecia?

Você percebe em você e na sua comunidade a tentação de acentuar a obediência a Deus e a moral em detrimento do amor ativo e compassivo ao próximo?

Como a Igreja poderia ensinar e explicitar melhor esse fio vermelho em seu ensino e em sua prática pastoral?

As duas faces do mesmo amor

O AMOR É TUDO

Os judeus chegaram a contar até seiscentos e treze mandamentos que deviam ser observados para cumprir integralmente a Lei. Por isso, não era estranho nos círculos rabínicos colocar perguntas como a que fazem a Jesus, numa tentativa de encontrar o essencial: qual é o maior mandamento?

Jesus responde de forma clara e precisa: «O primeiro é: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu ser”. O segundo é este: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não há mandamento maior do que estes». Como entender hoje estas palavras fundamentais de Jesus?

Há algo que se revela com toda a clareza: o amor é tudo. O que nos é pedido na vida é amar. Aí está a chave. Podemos depois tirar todas as consequências e implicações, mas o essencial é viver diante de Deus e dos outros numa atitude de amor. Se pudéssemos agir sempre assim, tudo estaria salvo. Nada é mais importante do que isto, nem mesmo a prática de uma determinada religião.

Mas por que razão o amor é a força que dá sentido, verdade e plenitude à vida? Esta centralidade do amor está enraizada, segundo a fé cristã, numa realidade: Deus, origem de toda a vida, é Ele mesmo amor. Essa é a definição ousada e insuperável da fé cristã: «Deus é amor» (1 João 4,8). Dito ainda de que forma imperfeita, Deus consiste em amar; Deus não sabe, não quer e não pode fazer outra coisa senão amar. Podemos duvidar de tudo, menos do seu amor.

Precisamente por isso, amar a Deus é encontrar o nosso próprio bem. O que dá verdadeira glória a Deus não é o nosso sofrimento, mas a nossa vida e plenitude. Quem ama a Deus e se sabe amado por Ele com amor infinito aprende a olhar-se, a estimar-se e a cuidar-se com verdadeiro amor. Que força e dinamismo gera em nós esta forma de nos entendermos. Quantos medos e angústias desaparecem dentro de nós. Quão diferente é a vida quando a pessoa aprende a dizer: «Senhor, que se faça a tua vontade, porque assim se vai forjando também o meu bem».

Por outro lado, é então que se compreende na sua verdadeira profundidade o segundo mandamento: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Quem ama a Deus sabe que não pode viver numa atitude de indiferença, despreocupação ou esquecimento dos outros. A única postura humana diante de qualquer pessoa que encontramos na vida é amá-la.

Isso não significa viver da mesma forma a intimidade com a esposa, a relação com o cliente ou o encontro fortuito com alguém na rua. O que nos é pedido é agir, em cada caso, procurando positivamente o bem que desejamos para nós mesmos. Num tempo em que tudo parece ser posto em causa, é bom recordar que há algo incontestável: o homem é humano quando sabe viver amando a Deus e ao próximo.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Ler os sinais sem caçar castigos

Saibamos ler os sinais do tempo que vivemos

1244 | Tempo Comum | 29ª Semana | Sábado | Lucas 13,1-9

No evangelho que meditamos nos últimos dias Jesus nos disse que deseja que o fogo do Espírito se espalhe em toda a terra, mesmo que isso provoque algumas rupturas. Ele dá a entender que o tempo urge, e a última possibilidade para refazer as relações de fraternidade é aqui e agora. A reconciliação com os adversários ainda a caminho do tribunal é sinal de sabedoria, e não de fraqueza.

No texto de hoje, o ensino de Jesus é motivado por duas violentas tragédias, bem conhecidas dos seus contemporâneos. A primeira, ocorrida a pouco e comunicada a Jesus naquele momento por algumas pessoas, é a violenta repressão desencadeada por Pilatos sobre um grupo de galileus, no interior do próprio templo sagrado. A segunda, que o próprio Jesus acrescenta, reforçando a primeira e chamando a atenção dos seus ouvintes, havia acontecido há mais tempo: a queda acidental de uma torre de guarda sobre algumas pessoas.

Jesus parte destes dois acontecimentos para corrigir uma visão parcial e errônea dos seus discípulos e demais contemporâneos, e para chamar todos à conversão ao Reino de Deus. Muita gente via acontecimentos semelhantes como a punição de Deus reservada aos pecadores. Por isso, a pergunta incisiva de Jesus: “Vós pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros? Pensais que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém?”

Jesus quer desfazer a ideia corrente de que as vítimas são as culpadas, e lê estes acontecimentos numa perspectiva profética: eles são sinais, e precisamos perceber neles um chamado à mudança de vida e de mentalidade. “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”, repete Jesus, como um refrão. Trata-se de “fazer as pazes”, ou de viver de modo fraterno e solidário com as pessoas que consideramos culpáveis e condenáveis, enfim, com aqueles que ignoramos ou que tratamos, sem razões plausíveis, como nossos inimigos.

Mas isso deve ser feito sem nenhuma demora, com senso de urgência. Deus tem paciência com quem não produz frutos, mas ele tem seu calendário! À figueira estéril, que persistia sem frutos, ele dá só mais um ano! Ele cuida e trata com atenção e delicadeza, mas não é bobo. Aprendamos a contar nossos dias, não percamos a hora da graça, não deixemos para amanhã os passos que podemos dar hoje.

 

Sugestões para a meditação

Você percebe, em você, na sua família e na sua comunidade, a velha ideia de que as tragédias são castigos de Deus?

Quais são as consequências pessoais e eclesiais da afirmação de que ninguém é mais pecador que ninguém?

Será que, num certo sentido, alguns grupos religiosos atuais não estão presos à mesma mentalidade que Jesus reprova neste texto?

Bispo militante político?

Um pastor sem rebanho e um rebanho sem pastor?

Na última segunda-feira (19.10.2026), o jornalista Romeu Newman publicou no jornal Gazeta do Sul uma crônica com o título “o estrago está feito”. Começa elogiando os Bispos que pastorearam a Diocese de Santa Cruz do Sul, sublinhando sua reconhecida ponderação, recato, dedicação e distância das questões polêmicas. Depois, lamenta a ausência do bispo atual na vida das paróquias, por estar afogado nas redes digitais e na militância política.

Como cristão e como cidadão, o referido jornalista diz que o Povo de Deus da diocese deseja e necessita de um pastor identificado com o seu rebanho, capaz de reunir, motivar e inspirar os fiéis no caminho do bem; um líder que promova a harmonia, que traga luz e guie no discernimento, sem envolvimento em questões políticas. Em outras palavras, não precisam de um militante político, um doutrinador político e ideológico. Mas o estrago já estaria feito...

Sobre a minha ausência ou presença na vida das comunidades, quem pode falar é o povo das 51 paróquias da diocese e das dezenas de organismos pastorais e movimentos religiosos. Sobre minha suposta absorção pelas redes sociais, podem falar aqueles que participam do meu dia-a-dia. Sobre as supostas manifestações partidárias, convido quem tiver dúvidas a participar das minhas celebrações e pregações e verificar minhas publicações no Facebook.

Entretanto, naquilo que se refere à dimensão social e política da fé e do ministério, convido quem compartilha destas críticas a fazer uma rápida visita os evangelhos e às orientações pastorais da Igreja. Leão XIV diz com clareza: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (Magnifica Humanitas, § 216).

O Brasil vive uma destas situações. No próximo domingo não escolheremos este ou aquele presidente, nem votaremos pela esquerda ou pela direita. Estaremos escolhendo entre dois projetos: um Estado democrático, minimamente social e previsível; um Estado excludente, com tendências autoritárias e eivado de sentimentos fascistas, sem nenhuma sensibilidade social, ambientalmente insustentável e levado adiante por agentes pouco confiáveis.

Por vocação, o Bispo é Pastor, e deve congregar e cuidar, particularmente das ovelhas mais vulneráveis. Mas é também Profeta, e tem o dever de se manifestar quando o que está em jogo é o bem comum e o bem dos pobres, a dignidade de membros do seu rebanho ou de uma nação inteira. Depois de termos enveredado pelo caminho do autoritarismo e consolidado um Estado que defende os fortes e pune os fracos, de pouco servirá clamar a Deus e lamentar.

Dom Itacir Brassiani msf 

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Lucidez e coragem

Estamos atentos aos sinais do fascismo?

1243 | Tempo Comum | 29ª Semana | Sexta | Lucas 12,54-59

No episódio do evangelho de ontem, Jesus nos dizia que veio atiçar o Fogo do Espírito para que incendeie, revele e purifique nossas intenções e projetos. Falando desse Dom Dinâmico, Jesus fala do dom de si mesmo, feito de uma vez por todas no alto do Calvário, dom que inunda o mundo qual enxurrada, que espalha o fogo que acende mil outros focos, como gostava de dizer Santo Alberto Hurtado. Jesus dizia também que é urgente que isso aconteça, e que nossa lealdade com a justiça do Reino de Deus está acima dos laços familiares.

No trecho que lemos e meditamos hoje, Jesus continua enfatizando a transcendência de cada momento que vivemos e a urgência de entendê-lo bem, de não adiar nem fazer de menos da nossa missão de reconciliar, de recriar a fraternidade entre pessoas e povos, como nos ensinou o Papa Francisco. Para ilustrar a importância do tempo que se chama hoje, Jesus lança mão de duas pequenas parábolas e de uma experiência acessível às pessoas do seu tempo. Precisamos adquirir um faro afinado para discernir o que é justo e bom, o que é urgente, o que é necessário; e para discernir entre aquilo que, à luz do Evangelho, é essencial e aquilo que é secundário.

Jesus está dirigindo-se à multidão, em meio à qual estão seus discípulos. As parábolas se referem às nuvens e ao vento, que, para as pessoas experientes, prenunciam chuva ou calor. A sabedoria dos bons observadores do tempo interpela e estimula os discípulos de Jesus na capacidade e na urgência de compreender os pequenos sinais do Reino presentes na história, e de acolhê-los como chamado à responsabilidade. Não podemos apenas recordar e repetir o passado! Precisamos perceber os sinais do fascismo que rondam nossas casas e as urnas...

Quem segue Jesus precisa aprender a identificar o querer de Deus inscrito nos acontecimentos e colocá-lo em prática. Se a repetição de costumes do passado não é suficiente, é irresponsabilidade deixar tudo para amanhã, imaginando que Deus fará aquilo que compete a nós. O tempo urge, e o aqui e agora representa a última possibilidade para refazer as relações de fraternidade, e não podemos arriscar o futuro das novas gerações. A experiência da reconciliação dos adversários ainda a caminho do tribunal não é sintoma de medo ou de fraqueza, mas sinal de sabedoria e esperteza aprendidas no caminho com Jesus.

 

Sugestões para a meditação

Retome e reconstrua o fato, a parábola e a conclusão de Jesus, prestando atenção à força das palavras e comparações

Acolha este ensino que Jesus dirige ao povo em geral, e deixe-se iluminar pelas metáforas da nuvem e do vento

O que você, sua família e sua comunidade podem fazer para não perder “o trem da história” a viver já aqui, e em todas as relações, a novidade do Reino de Deus.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Por uma paz sustentável

O Evangelho revela e ilumina as divisões

1242 | Tempo Comum | 29ª Semana | Quinta | Lucas 12,49-53

No trecho do evangelho de ontem, fomos advertidos por Jesus para que não aconteça que, mesmo conhecendo a vontade de Deus, vivamos “na sombra e água fresca”, não preparemos nada e nos comportemos como chefes violentos e sem compromisso, prontos a beber, dominar com violência e discriminar. O foco do trecho de hoje é outro, mas a tensão para a construção do Reino de Deus e o tom de urgência continuam. Esperamos o Reino de Deus articulando a paz com a justiça.

A imagem à qual Jesus recorre, assim como sua primeira afirmação, assustam, especialmente a quem quer reduzir a proposta de Jesus a um inocente “paz e amor”. Ele diz claramente que não vem trazer paz, e sim divisão; que não vem apagar os incêndios da ira, mas espalhar o fogo. E mais ainda: ele espera que seus discípulos e discípulas façam o mesmo! Como entender corretamente estas palavras de Jesus? Elas fazem sentido? Os anjos não cantaram “paz na terra” quando ele nasceu? Ele não é o príncipe da paz, sonhado pelo profeta Isaías?

Na perspectiva de Jesus, a paz é fruto do abraço com a justiça, resultado de uma escolha difícil e exigente que precisamos refazer todos os dias. Não há paz fora do âmbito da justiça do reino de Deus. E essa justiça se mostra na compaixão solidária com as vítimas, com todas as categorias de pessoas excluídas e marginalizadas. A paz não pode ser fruto da contemporização com o mal e com a injustiça.

Jesus diz que veio lançar fogo na terra, porque o fogo do Espírito, experimentado por ele no batismo e manifestado na fidelidade até à cruz, revela, distingue e purifica nossas intenções e projetos pessoais e sociais. Este Espírito é o dom de si mesmo, feito de uma vez por todas no alto do Calvário, dom que inunda o mundo como uma enxurrada, que espalha um fogo que acende mil outros focos de incêndio, como as manifestações das juventudes nos últimos dias.

As várias manifestações da divisão das quais fala Jesus no evangelho de hoje não são frutos de um desejo doentio ou violento, de uma mentalidade sectária e litigiosa, mas consequências de um posicionamento lúcido e firme contra a ordem e os hábitos dominantes. Nossa lealdade com a novidade e a justiça do Reino de Deus está acima dos laços familiares e pode até provocar cisão e distanciamento. E isso pode se mostrar até quando escolhemos uma opção política evangélica e mais à esquerda.

 

Sugestões para a meditação

Acolha as palavras incisivas de Jesus, sem deixar-se assustar por elas, mas também sem esvaziá-las de sua natural urgência

Como você vem tentando proporcionar o encontro entre a justiça e a paz, entre o amor e a fidelidade ao Evangelho?

Recorde situações em que, por fidelidade a Jesus e seu Evangelho, você provocou tensões nos círculos mais próximos