terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Congresso Ecclesia in America


Nossa Senhora de Guadalupe: piedade e ciência

Imagem de S. Diego, nos jardins do Vaticano
A bela e moderna ‘Aula Capitular’ do Aunditório Paulo VI, na cidade do Vaticano, está acolhendo nestes dias o Congresso Ecclesia in America, sobre o qual já falamos em duas crônicas anteriores. Colhendo a oportunidade sugerida pelos 15 anos da exortação papal que se seguiu ao Sínodo dos Bispos que refletiu sobre a situação e a missão da Igreja nas Américas (novembro/dezembro de 1997), a Pontifícia Comissão para a América Latina organizou este evento, do qual estão participando em torno de 250 pessoas.

O segundo dia do Congresso teve três momentos distintos. Num primeiro, os oito grupos temáticos que se reuniram na tarde de ontem apresentaram ao plenário uma síntese de suas reflexões e propostas. Depois, às 11 horas, as portas dos famosos jardins do Vaticano foram abertas para o grupo que, aos pés do monumento a São João Diego e Nossa Senhora de Guadalupe, rezaram o terço guadalupano. Finalmente, agora no Auditório São Pio X (situado fora da cidade do Vaticano, na Via della Conciliazione), o Pe. Eduardo Chávez apresentou uma segunda conferência, desta vez com o tema “Esplendor e beleza na imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Investigações científicas sobre o manto de São Diego”.

Na partilha das reflexões e propostas dos grupos temáticos, alguns aspectos me chamaram a atenção: a) a constante referência à obediência à hirarquia, com destaque para a obediência ao Papa, como se os Bispos e igrejas locais fossem absolutamente destituídos de qualquer autoridade doutrinal e iniciativa pastoral; b) a insistência sobre uma agenda marcadamente moral, com ênfase no matrimônio, na família e na sexualidade, em detrimento de uma agenda social; c) a menção frequente aos pobres, mas como pessoas a serem ajudadas e tuteladas, mas nunca como seujeitos de direitos e capazes de organização e de iniciativas trasnformadoras; d) o esvaziamento das próprias noções ‘pobre’ e ‘solidariedade’, revestidas de um espiritualismo moralizante; e) a incapacidade de pensar a ação da Igreja na dimensão social em parceria com outras organizações da sociedade civil. É claro que estas observações são muito pessoais, e não pretendem oferecer um resumo das reflexões bastante diversificadas.

Hall do Auditorio Paulo VI
Quanto à proveniência dos participantes do Congresso, fica cada vez mais clara a predominância de pessoas que pertencem aos movimentos eclesiais e neles militam, tanto padres e religiosos/as como leigos/as. Eles representam uma clara maioria, e estão permanentemente ao lado dos hierarcas que os sustentam e que são por eles sustentados. Imagino que estes movimentos banquem as despesas dos seus participantes no Congresso, o que outros organismos eclesiais não conseguem ou não querem fazer. Sem muito esforço, identifiquei vários brasileiros/as da comunidade Canção Nova, do Movimento Shalon, dos Arautos do Evangelho, da Comunhão e Libertação, do Focolares...

É o protagonismo dos leigos/as, ou melhor, de um tipo específico de leigo/a: dos movimentos eclesiais, com ênfase espiritualista e que priorizam o trabalho com a classe média. Isso ficou visível na questão dos/as relatores dos grupos temáticos: uma leiga mulher, cinco leigos homens e dois padres pertencentes a movimentos. Esse pessoal estava estrategicamente distribuído nos grupos e foram os primeiros a se oferecer para assumir o trabalho de secretaria. E, é claríssimo, deram sua própria perspectiva a uma reflexão que já vinha muito marcada pela cosmovisão destes grupos. Não podemos negar que a presença ativa e propositiva dos/as leigos/as seja por si mesmo um aspcto positivo. Mas é uma Igreja longo das necessidades e lutas dos pobres, das vítimas e dos marginalizados.

Uma última questão é a da presença ativa (ou da ausência) da Igreja do Brasil no desenvolvimento do Congresso: nenhum/a brasileiro/a entre os/as seis conferencistas principais; nenhum/a brasileiro/a entre as pessoas que introduziram e motivaram as reflexões nos grupos temáticos. Enquanto isso, entre os conferencistas principais estavam dois norteamericanos, e quatro dos oito responsáveis pelo ‘imput’ nos grupos também eram norteamericanos... E, ademais, nada de cântico, oração ou apresentação em português. Passou o tempo da oposição cerrada a tudo o que cheirava a norteamericano ou romano, mas um certo equilíbrio não faria nada mal...

Itacir Brassiani msf

Nenhum comentário: