Gritos por uma
nação fraterna e soberana
O Papa Leão
XIV iniciou sua primeira encíclica com uma afirmação programática, fruto de uma
lúcida visão da história: “Cada geração recebe em herança a tarefa de fazer da
história um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça
promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época paira também o risco de
construir um mundo desumano e mais injusto” (Magnifica Humanitas, § 1).
Isso significa
que, tanto como cristãos como enquanto cidadãos, precisamos evitar duas
posturas igualmente inconsequentes: viver recordando as conquistas do passado e
venerando heróis nem sempre veneráveis; dispensar-nos da responsabilidade de
projetar e construir um país e um mundo humano e justo, como se isso fosse algo
impossível ou uma tarefa que pode ser delegada a alguns poucos cidadãos.
A celebração
da Semana da Pátria é um programa
legítimo e pedagogicamente oportuno, na medida em que ajuda a cimentar a
unidade do povo brasileiro a partir de um dos seus eventos fundacionais. Mas
torna-se perigosamente vazia e até nociva se nos induz a pensar a independência
e a soberania do país como se fosse um fato já consolidado, e a isolar Dom
Pedro, o filho do rei colonizador, da plêiade de interesses aos quais servia.
O que ressoou
no longínquo 7 de setembro de 1822, já sabemos, não foi apenas o “heroico brado
de um povo retumbante”, e o “sol da liberdade” e da soberania está hoje
encoberto por nuvens tenebrosas que vêm do Norte e contam com a colaboração
escancarada e inconfidente de outros Calabar e outros Silvério dos Reis. A
independência, a democracia e a soberania nacional são conquistas sempre
precárias e inacabadas.
Por isso,
mesmo que não seja possível ver claramente o que está acontecendo no Planalto
Central e nas instituições lá domiciliadas, é mais do que necessário juntar ao
grito do Ipiranga a voz de um povo lucidamente indignado que proclama, como
Sepé, um dos heróis da pátria: “Alto lá! Esta terra tem dono!” Se outrora
sacudimos o domínio de Portugal e, depois, da Inglaterra, não podemos voltar a
ser quintal de ninguém.
Longe de nós a
cômoda e criminosa passividade diante da sanha dos prepotentes, sejam eles
ianques ou tupiniquins. É verdade que as fronteiras nacionais não são alfândega
para o Povo que nasce do lado esquerdo de Jesus Cristo. Mas, como cristãos, não
podemos desviar, como fizeram o sacerdote e o levita da parábola (Lucas
10,25-37), diante de um povo que pode sofrer a rapina de poderes que se julgam
divinos.
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