Deus é um oceano de misericórdia e compaixão
1144 | Tempo Comum |
Semana XV | Quinta-feira | Mateus 12,1-8
Nesta cena a
questão central que Jesus discute com os fariseus parece ser a obediência à Lei.
Porém, sobressai outra questão, mais importante: as leis e costumes que controlam a comida e o acesso a ela. A
recorrente menção ao campo de trigo, aos grãos e à fome, ao ato de comer, tanto
dos discípulos como de Davi e seus companheiros, não deixa dúvidas. O sistema econômico limitava o direito à
alimentação, e os fariseus agiam para limitar aos discípulos o acesso ao
alimento. O império da legalidade impedia a segurança alimentar do povo
mais pobre.
O ensinamento e a prática de Jesus são alternativos, e confrontam e
desafiam as leis e sistemas, e não apenas as leis
religiosas. Jesus revoluciona o papel da lei, do templo e a própria imagem de
Deus. Ele é o filho do homem, o Senhor, o enviado pelo Pai, para revelar e
realizar a sua vontade, anunciada nas escrituras, mas esvaziada pelo templo. Deus é misericórdia, e de nós ele espera
misericórdia, e não cultos vazios e duros legalismos que penalizam os que já
enfrentam tantas penas. A questão não se resume em admitir a existência de
Deus, mas em afirmar que ele é compaixão, e demonstrar essa compaixão das
próprias relações.
A misericórdia é a essência e o modo permanente do relacionamento de
Deus com suas criaturas, a forma da justiça divina
na relação com o ser humano, e praticá-la significa reconhecer Deus assim como
ele é e enfrentar as práticas restritivas que limitam ou impedem o acesso dos
seus filhos e filhas aos direitos humanos básicos, como a alimentação. A misericórdia é o dinamismo que brota da
internalização das misérias do próximo, e esse dinamismo torna impossível a
indiferença, a dominação e a opressão. É isso que Jesus faz, com a maior
liberdade, e fazem seus discípulos. A fome tem prioridade sobre as leis e
instituições.
Jesus questiona a interpretação restritiva e fria das escrituras
ensinada e praticada pelos fariseus, que se mostram
sempre tão corretos. Por duas vezes Jesus questiona: “Nunca lestes?” E adverte:
“Se tivesses compreendido o que significa...” Na verdade, a interpretação que eles fazem das escrituras é limitada e interesseira.
Jesus é maior que o templo e a lei, a superação de ambos e a chave-de-leitura
da verdadeira religião. Para ele, a lei,
o templo e o alimento pertencem a Deus, e crer é fazê-los acessíveis a todos.
Tudo isso e tudo o mais está abaixo do querer de Deus.
Sugestões para a meditação
Você
identifica também hoje sinais de uso da fé para se dispensar da atenção à vida
das pessoas?
E o
que dizer da economia liberal, que faz da comida, da água, da saúde e de tudo o
mais uma simples mercadoria, limitando o acesso a ela?
Como
colocar em prática hoje a vontade de um Deus que prioriza a misericórdia e não
a lei, o culto e os sacrifícios?
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