quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Incoerência e hipocrisia

As palavras de Jesus não soam como insulto?

1235 | Tempo Comum | 28ª Semana | Quinta | Lucas 11,42-46

A expressão “ai de vós” é própria dos profetas e profetizas de Israel, recorrente nos apelos à conversão em situações de pecado e de injustiça social, já que são essas situações que atraem a ruína da sociedade, especialmente dos mais pobres. São mais lamentações que ameaças, e têm mais força moral e espiritual que poder. Mas não esqueçamos que, segundo Lucas, Jesus pronuncia essa série de advertências aos fariseus estando na casa de um deles!

Jesus começa dirigindo-se aos fariseus. A primeira lamentação, crítica ou denúncia de Jesus voltada aos fariseus põe em evidência a proverbial obsessão deles pelos detalhes insignificantes das leis, ao mesmo tempo em que ignoram olimpicamente aquilo que é transcendente e essencial, ou seja, a prática do amor e da justiça em favor dos setores sociais em situação de vulnerabilidade social e das pessoas desamparadas. Eles se apegam à exterioridade e às coisas secundárias.

A segunda acusação é a constante reivindicação de prioridade, honra e privilégio, uma espécie de gosto pelo exibicionismo. No fundo, segundo Lucas, os fariseus querem ser considerados e reconhecidos como as pessoas e os fiéis mais perfeitos, mais honrados e mais importantes, mas não se preocupam com a incoerência com aquilo que creem e ensinam. Assim, vivem o contrário daquilo que ensinam, e o que fazem é colocar fardos pesados nas costas dos mais pobres.

A terceira crítica dirigida aos fariseus é de falsidade ou hipocrisia, o hábito de demonstrar uma piedade que não vivem, de esconder a podridão interior e os interesses vorazes sob uma roupagem de piedade. É nisso que os fariseus, como grupo religioso e social, se parecem com sepulturas disfarçadas com pinturas e ornamentos, comportamento que leva os fiéis a andar por caminhos errados e a se contaminarem com imundícies sem darem-se conta.

Mais que uma ira santa contra alguns, Jesus expressa aqui seu amor solidário pelas vítimas desses comportamentos contraditórios. Mas, para a elite do judaísmo, essa fala de Jesus ressoa como acusação e insulto, e este chapéu acaba servindo também à cabeça dos mestres da lei. Como eles assumem as dores dos fariseus, Jesus contempla também eles em sua crítica: o pecado deles consiste em impor pesados fardos aos ombros já encurvados, em vez de estender a mão para erguê-los.

 

Sugestões para a meditação

Reconstrua mentalmente a cena na casa do fariseu, participe dela, escute cada acusação que Jesus dirige ao seu grupo

Será que nós, que exercemos alguma liderança, não somos parecidos com os fariseus? Onde nossas hipocrisias se mostram mais claramente?

Em que situações somos como sepulturas que ninguém vê e, por isso, levamos a pessoas a práticas desviantes do Evangelho?

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