sábado, 12 de julho de 2014

Sétimo dia de falecimento de Dom Estanislau

Dom Estanislau Amadeu Kreutz,
um dom que fará muita falta!

As Sagradas Escrituras nos convidam a cultivar a memória das pessoas queridas porque nelas, assim como nos acontecimentos históricos, Deus revela a si mesmo, sua bondade e sua fidelidade. “Vamos fazer o elogio dos homens ilustres, nossos antepassados, através das gerações. O Senhor neles criou imensa fama, pois mostrou sua grandeza desde os tempos antigos... Uns guiaram o povo com suas decisões, compreendendo os costumes de sua gente e tendo palavras sábias para instruí-la... Todos  foram honrados por seus contemporâneos e glorificados enquanto viviam. Alguns deixaram o nome que ainda é lembrado com elogios... Na sua descendência, eles têm uma rica herança, que é a sua posteridade... A descendência deles permanecerá para sempre, e sua fama jamais se apagará. Seus corpos foram sepultados em paz, e o nome deles viverá através das gerações. Os povos proclamarão a sabedoria deles, e a assembléia celebrará o seu louvor” (Eclesiástico 44,1-15).
Elogiar as pessoas ilustres, honrar os líderes que nos dirigiram e os pastores que nos guiaram, reconhecer e proclamar a bondade e a sabedoria daqueles que estiveram à nossa frente e caminharam ao nosso lado não significa ignorar os limites próprios da condição humana. Significa glorificar o próprio Deus, que se dignou revelar neles sua graça e sua bondade. Significa acolher o legado espiritual e humano que nos deixam e fazer com que a memória e o nome deles permaneça viva e continue frutificando em nós. E é isso que queremos fazer recordando e celebrando a vida de Dom Estanislau Amadeu Kreutz.
Dom Estanislau Kreutz, dom e graça de Deus na caminhada do Povo de Deus de Santo Ângelo, foi presença que marcou minha vida em três dimensões: como pastor na animação incansável e coordenação lúcida da diocese; como bispo sempre disponível e solidário com os Missionários da Sagrada Família; como amigo sábio e compreensivo, especialmente depois que deixou a responsabilidade pastoral da diocese de Santo Ângelo.
Como pastor da parcela do Povo de Deus que está na diocese de Santo Ângelo, Dom Estanislau marcou pelo apreço pelo clero e pela vida religiosa, pela serena firmeza e pela presença humana e humilde. Ele amou intensamente os padres e diáconos, e não apenas os da sua diocese, e não perdia nenhuma oportunidade demonstrá-lo: nas ordenações, votos e celebrações jubilares; por ocasião do falecimento dos familiares deles; em momentos exigentes da vida pessoal e pastoral. Dom Estanislau demonstrou sua firmeza serena e profética especialmente mediante a presença e o apoio solidário às lutas dos pobres e oprimidos da diocese, mesmo com o risco de perder a boa fama de que gozava, e na defesa madura e equilibrada das decisões e práticas de abertura e renovação da Igreja diocesana.
Sem abrir mão daquilo que é essencial no ministério episcopal, e que às vezes pede presença e intervenções oficiais, Dom Estanislau também sabia ser presença discreta e fraterna, e o fazia com notável satisfação. Muitas vezes me senti comovido observando sua presença discreta e tremendamente estimulante nos encontros de Comunidades, especialmente das CEB’s. Issso deixa claro que o apreço de Dom Estanislau pelo clero não significava menosprezo pela atuação eclesial e social dos leigos e leigas. Mas recordo também tantas celebrações em que ele renunciava à presidência e se colocava como concelebrante para permitir que um padre vivesse intensamente um momento especial do seu ministério. Jamais esquecerei a primeira eucaristia que presidi no Instituto Missioneiro de Telogia, apenas uma semana depois da ordenação presbiteral: Dom Estanislau pediu que eu presidisse a celebração, e ele permaneceu ao meu lado, servindo ao altar, como se fosse um sacristão...
Um segundo aspecto marcante da personalidade e do ministério de Dom Estanislau que desejo ressaltar é sua presença amiga e solidária nos diversos momentos da vida dos Missionários da Sagrada Família. Experimentei isso de um modo muito vivo e intenso no período em que estive à frente da Coordenação Provincial. Foram incontáveis os eventos e momentos em que ele se fez gentilmente presente: ordenações diaconais e presbiterais; jubileus de coirmãos, da Província e da Congregação; visitas ao Governo Geral, em Roma; exéquias de coirmãos ou seus familiares; ordenação episcopal de Dom Guilherme Werlang; romarias de Nossa Senhora da Salette... Nisto também se sacramentalizou a perspectiva profundamente eclesial na qual ele situava o ministério episcopal.
Quero falar ainda sobre uma terceira dimensão da vida de Dom Estanislau: a atenção e o relacionamento fraterno e amigo que experimentei da parte dele. Já mencionei a delicadeza do gesto de permitir que eu presidisse, ao lado dele, minha primeira missa no IMT, evento que se completou com uma festa patrocinada por ele para todos os alunos e professores. Quando eu era pároco em Santo Ângelo, algumas pessoas apresentaram a Dom Estanislau algumas queixas e acusações sobre o meu trabalho pastoral; ele me chamou para um diálogo fraterno, apresentou as questões e concluiu com um sorriso acolhedor e um grande senso pastoral: “Eu conheço você e confio plenamente no seu bom senso!” Livre da responsablidade primeira pela Diocese, os encontros, visitas e partilhas se multiplicaram, e ele não perdia oportunidade de proporcioná-los. No período que passei em Roma, seguidamente Dom Estanislau me surpreendia chamando-me pelo Skipe, e então conversávamos longamente. Um privilégio que valorizo muito.
Por isso que assinalei, e por muitos outros aspectos igualmente importantes, a partida de Dom Estanislau fará muita falta. Mas creio também que a preciosa semente que ele espalhou enquanto viveu frutificará abundantemente. Como diz a Escritura: seu corpo foi sepultado em paz e o seu nome viverá através das gerações. Proclamemos a sabedoria e a bondade que ele recebeu de Deus, e celebremos juntos o louvor por sua vida.

Pe. Itacir Brassiani msf

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Existe vida além dos 7 x 1!

Não compre a história de que a derrota deixará uma cicatriz indelével!


Adivinhe o que aconteceu no Brasil na quarta-feira? O sol apareceu. As pessoas foram para o trabalho. Elas dirigiram táxis, abriram supermercados, clicaram em seus computadores para tratar de assuntos jurídicos e financeiros. Médicos curaram os doentes. Assistentes sociais enfrentaram os problemas da grande pobreza neste país de cerca de 200 milhões. A vida continuou. 
Adivinha o que não aconteceu? Cidades não queimaram. Rebeliões em massa não aconteceram. Tanto quanto sabemos, torcedores não se jogaram de edifícios porque sua amada Seleção foi destruída pela Alemanha, por 7-1, na semifinal da Copa. 
À luz cruel do dia, ainda é estranho escrever “Alemanha 7, Brasil 1.” Esse tipo de resultado não acontece neste nível de futebol. O último jogo oficial que o Brasil perdeu em casa foi em 1975. Se eu fosse um nativo, estaria abalado, tentando descrever a debacle que aconteceu em Belo Horizonte. 
Não se engane: a derrota para a Alemanha, para usar a frase favorita do técnico dos EUA, Jurgen Klinsmann, foi uma lástima. As pessoas aqui amam o futebol. O governo declara feriados nos dias de partidas da equipe nacional. Ruas vazias, e eu quero dizer vazias – como se você pudesse montar uma barraca no meio de uma delas e não acontecer nada. 
Ainda assim, não compre a história de que esta perda vai deixar alguma cicatriz indelével em um país tentando desesperadamente prosperar em uma série de áreas que não têm nada a ver com futebol. Essa idéia é um pouco humilhante para os brasileiros, que são a coleção de almas mais acolhedoras com que eu me deparei. 
Houve a mulher na loja de óculos aqui em São Paulo que se recusou a aceitar dinheiro pelo estojo de óculos que ela me deu depois que eu perdi o meu. Houve os estudantes universitários em Natal que me ofereceram um tour pela cidade e uma carona de volta para meu hotel no meio da noite, quando não havia transporte à vista após a vitóriq dos EUA sobre Gana.
 Lá estava o rabino que, 30 segundos depois de me conhecer, insistiu para que eu fosse jantar no sábado em sua casa (eu fui, e a sopa de matzo ball estava incrível). Houve as inúmeras almas pacientes comigo na rua, esperando enquanto eu tateava meu dicionário de bolso de português, procurando a palavra certa para completar uma pergunta idiota, quando certamente eles tinham algo melhor para fazer.
Estive aqui por um mês. Isso dificilmente me qualifica como um especialista na cultura brasileira. Minha amostragem é pequena e limitada a hotéis, restaurantes, estádios de futebol e pistas de corrida ao lado de praias do Rio, Natal, Recife e algumas outras cidades-sedes. Eu sei do crime e da pobreza.
Mas eu também sei que este é um país incrível, diverso. Encare quatro horas de voo rumo à Amazônia a partir de São Paulo e as pessoas parecem completamente diferentes daquelas em qualquer shopping do país. Em Salvador, você pode muito bem achar que está na África Ocidental. Em cada cidade, pessoas de todos os tons de pele — preto, marrom e branco — preenchem áreas de ricos e pobres. É um país de beleza física impressionante e vastos recursos naturais. O tráfego da hora do rush faz as avenidas de Los Angeles parecerem estradas do interior, um sinal claro de que o lugar precisa de alguns melhoramentos de infra-estrutura, mas também que há um grande número pessoas trabalhadoras que querem tornar o amanhã melhor do que hoje. Em outras palavras, o Brasil é muito mais do que uma camisa canarinho e uma obsessão com o futebol.
O colapso contra a Alemanha certamente vai despertar algum exame de consciência nacional sobre como o Brasil cultiva e desenvolve a sua próxima geração de estrelas do futebol. O país tem um enorme banco de talentos, mas acidentes não podem mais acontecer no esporte. Vencer nesse nível hoje significa não apenas talento, mas dinheiro, treinamento e uma estratégia coerente. 
“Quando você pensa sobre isso”, disse uma brasileira de 20 e poucos em um bar na noite passada,  “é meio engraçado. Quer dizer, sete gols. É engraçado, né?” 
Eu vou apostar que o Brasil como um todo vai se sair muito bem depois disso. Chateado um pouco, claro, mas em última análise, tudo vai dar certo. De muitas maneiras, já deu.
Matthew Futterman
Diretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
(Wall Street Journal)

15° Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

Não deixemos de lançar as sementes de um mundo novo!

Aquele havia sido um dia cheio, intenso e tenso: Jesus discutira a respeito da primazia da pessoa humana sobre os sistemas legais; curara um doente e marginalalizado em dia proibido; devolvera a liberdade de um endemoniado; fora acusado de agir em nome do diabo; alargara os laços da sua própria  família. Então, saindo de casa, ganhou o espaço público e procurou descanso nas margens do mar da Galiléia. Mas não obteve sucesso: a multidão se reuniu ao seu redor, e ele começou a falar do mistério do Reino de Deus, das forças que se lhe opõem e da sua aparente ineficácia.
A idéia do Reino de Deus, ou Reino dos céus como Mateus prefere denominar para distingui-lo dos reinos comumente conhecidos, ocupa um lugar central na vida de Jesus de Nazaré. Colocar em ação o governo de Deus, libertar as mulheres e homens de todas as formas de dominação, este era o absoluto que iluminava sua pregação e sua ação. Jesus iniciara sua missão pública com o anúncio: “O Reino de Deus está próximo. Acreditem nesta boa notícia e se convertam”. E agora começa seu ensino sobre o Reino de Deus evocando a figura dos diaristas que trabalham no campo.
A missão de construir um mundo justo e fraterno é ainda hoje uma tarefa artesanal, uma tarefa de semeador. A força desta palavra não lhe é dada pelo poder de impor, pela constrição da lei, pela força do dinheiro ou do exército. A força dessa Boa Notícia vem unicamente do testemunho de solidariedade e da perseverança daqueles que a proclamam. E tal testemunho nem sempre encontra bons terrenos para germinar. Então, gente despojada e engajada, de ontem e de hoje, se pergunta: não é ingrato e inócuo esse trabalho de anunciar e construir o Reino de Deus?
É frequente a sensação de que a empreitada é muito grande e de que os trabalhadores são poucos. É dura a percepção de que os inúmeros ensaios e iniciativas que desejam pôr em movimento uma nova lógica ou um novo espírito são gestações abortadas, esforços perdidos, sementes que caem à beira da estrada e logo desaparecem. A falha parece não estar nos semeadores e a qualidade da semente parece boa. O fato é que o estabelecimento do reinado de Deus é uma luta sem tréguas contra outros regimes ou reinados. O Reino de Deus não vem sem luta, sem oposição.
A semeadura continua sendo sempre um risco, mas ouvimos de Jesus Cristo que o mundo não é naturalmente mau, pois o mal entrou no mundo depois de ele haver sido criado. É possível o aperfeiçoamento e a transformação da sociedade na perspectiva do Reino de Deus. E, apesar das sementes que se perdem, continuamos a semeadura e a luta, certos de que colheita haverá. Três  quartos da semente se perde ou não chega e produzir frutos, mas uma quarta parte produz sozinha o que se esperava de toda a semente! O bom semeador sabe contar com isso.
E tem mais: precisamos contar com o ciclo próprio de algumas sementes que, plantadas hoje, só vão germinar no tempo propício. Algumas sementes permanecem anos e anos escondidas no ventre da terra, e quando o ambiente se apresenta favorável, rompem a casca e as plantas emergem com força e vitalidade. Feliz quem compreende este mistério e nunca deixa de apostar na força da semente plantada na terra, na vida da gente! Feliz quem não se rende às oposições e perseguições! Que o Evangelho não passe por nós sem deixar um sinal, sem tocar uma corda da nossa vida...
A semente do Reino de Deus tem futuro. O que não tem futuro é este velho e mórbido hábito de querer salvar-se a si mesmo, de cuidar apenas de si e não se importar com ninguém, de poder mais para chorar menos... Este sistema só produz exclusão e sofrimento, e por isso tem os dias contados. A dor existe sim, e faz gemer nossa carne, mas Paulo ensina que a dor de quem se engaja na semeadura não é uma dor de morte: é uma dor de parto. A dor da morte é a dor do vazio, do nada, do fim. A dor do parto é a dor da plenitude, da vida, do começo.
Deus do Reino, semente de vida, esperança dos sonhadores inconformados: visita nossas casas e Igrejas e repete de novo tua lição essencial de que semear é preciso mas a a colheita não nos cabe; de que sem o risco da semeadura não haverá colheita, nem futuro. Faz com que a semente do teu Reino deixe os catecismos, doutrinas e Igrejas e seja lançada na terra, sem nenhum receio de que se perca, para que corra o risco de frutificar. E ajuda-nos para que, à nossa passgem e com nosso trabalho, tudo e todos ao nosso redor cantem e gritem de alegria. Assim seja! Amém!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Isaías 55,10-11 * Salmo 64 (65) * Carta aos Romanos 8,18-23 * Mateus 13,1-23)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Dom Estanislau: breve biografia

DOM ESTANISLAU AMADEU KREUTZ:

RETALHOS DA BIOGRAFIA DE UM PASTOR

Natural de Santo Cristo, ESTANISLAU AMADEU KREUTZ, filho de Jorge Kreutz e Catharina Gertrudes Puhl Kreutz, nasceu no dia 1º de julho de 1928. Foi lhe dada a graça de viver 86 anos.
A família de Jorge e Catharina Kreutz era formada por 13 filhos. Pela graça de Deus surgiram 7 vocações religiosas franciscanas e duas vocações sacerdotais, padres diocesanos: Estanislau e Ivo José.
Estanislau foi ordenado padre diocesano no dia 28 de novembro de 1954, em Santo Ângelo (RS). Como padre, no ano de 1955, exerceu o ministério de vigário paroquial em Tucunduva. De 1956 a 59 foi pároco de Campina das Missões e de 1960 a 63, assumiu a reitoria do seminário diocesano de Cerro Largo.
Nos anos de 1963 a 1967 dedicou-se aos estudos de pós-graduação em Roma, estudando sociologia religiosa. Fez, também, o curso superior de língua francesa no Instituto Católico de Paris e o doutorado em teologia sistemática na Universidade de Santo Tomás, em Roma.
De 1968 a 69 desempenhou as funções de professor de teologia no Seminário Maior de Viamão, RS, e em Porto Alegre, além de ser Assistente dos Seminaristas da Diocese de Santo Ângelo. Nos anos de 1970 a 71 foi reitor e professor no Seminário Pe. Adolfo Gallas, em Santo Cristo.
Em junho de 1972 foi nomeado bispo auxiliar de Santo Ângelo, pelo Papa Paulo VI. Sua ordenação episcopal ocorreu no dia 17 de setembro, na igreja matriz de Santo Cristo (RS), com o lema Alegres na esperança (Rom 12,12). Nomeado bispo diocesano de Santo Ângelo, em dezembro de 1973, pelo Papa Paulo VI, assumiu o seu encargo, no dia 24 de fevereiro de 1974. Exerceu o ministério episcopal na Diocese durante 31 anos. Seu pedido de renúncia da condição de bispo titular da diocese foi aceito pelo Papa João Paulo II em junho de 2004; tornando-se, então, bispo emérito na Diocese.
Nos 31 anos de exercício do ministério episcopal, Dom Estanislau, além de continuar a dinâmica pastoral criada por Dom Aloísio, acompanhou zelosamente a caminhada do povo de Deus e favoreceu o desenvolvimento de iniciativas pastorais promissoras na Diocese Angelopolitana. Motivou a formação de novas comunidades. Criou 10 novas paróquias, realizou vários roteiros de visitas pastorais às paróquias e comunidades, ordenou 154 padres diocesanos e religiosos. Apoiou o projeto Igrejas-Irmãs, incentivou os ministérios leigos, favoreceu a animação vocacional, acompanhou com solicitude especial a formação presbiteral, participou da criação do Instituto Missioneiro de Teologia, valorizou com especial atenção a formação de lideranças pastorais. Entusiasmou a caminhada do povo de Deus com sua presença de Pastor.
Entre os livros que escreveu merecem destaque: Três Santos Mártires das Missões, com 11 edições; Reduções Jesuítico-Guaranis, com 3 edições.
A devoção aos Santos Mártires das Missões e o seu amor à história missioneira é uma das preciosas heranças que Dom Estanislau nos deixou.

ALGUMAS MARCAS DE SUA PERSONALIDADE

Quando padre, já desde os primeiros anos de ministério, ele se caracterizava como amigo do povo, alguém que se aproximava com facilidade das pessoas e famílias. Foram se consolidando algumas marcas: a alegria, o otimismo, o bom humor, a capacidade de contar histórias e estórias, sua responsabilidade e dedicação nas missões que lhe eram confiadas!
Quando Bispo, conseguiu ser o bom pastor junto ao povo de Deus da Diocese missioneira e missionária de Santo Ângelo, cuja história ele tão bem conhecia, divulgava e amava profundamente. Muita gente deve ter guardado algum relato sobre Dom Estanislau: sua bondade e generosidade, sua gentileza em fazer visitas, sua invejável memória de lembrar o nome das pessoas e dos acontecimentos, seu permanente exercício de ouvir, dialogar, propor, decidir e assumir. Cabe destacar seu discernimento profético em 1988, em situação sócio-política delicada, cedendo espaço da área do santuário de Caaró para acampamento do MST.
Quando Bispo Emérito, a partir de agosto de 2004, continuou sendo essa presença de fiel servidor do Reino. O testemunho de alguém que perseverou nesse jeito de ser muito humano, de equilibrar coração e razão, de vivência alegre de um fiel discípulo missionário. Durante o longo período de sua enfermidade, no altar de sua cama, foi profundamente “paciente na tribulação”. Seu lema episcopal só poderia ser mesmo: alegres na esperança!
Cremos que a preciosa semente que ele espalhou enquanto viveu frutificará abundantemente. Como diz a Escritura: seu corpo será sepultado em paz e o seu nome viverá através das gerações. Proclamemos a sabedoria e a bondade que ele recebeu de Deus, e celebremos juntos o louvor por sua vida.

Histórico da vida de Dom Estanislau proclamado na concelebração exequial,
organizado por Ir. M. Rogéria Cadó FDC,
a partir de diversos testemunhos
07 de julho de 2014

Os indios e a "civilizaçao"

Cabeças de grileiro
 “Justiça, não esbulhando mais os índios das terras que ainda lhes restam e de que são legítimos senhores.” (José Bonifácio, diretriz historicamente derrotada do patriarca da independência à Assembleia Nacional Constituinte do Brasil. Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil. 1º de junho de 1823.)
Imagine a seguinte situação: você sempre viveu com todos os seus parentes em um prédio legitimamente de sua família. Depois de incontáveis gerações, bandos começam a cercá-lo, tentam invadi-lo, matam seus familiares, estabelecem um bloqueio e, por fim, impõem uma condição: Todos devem ficar confinados em um só andar. Os demais são loteados para outros moradores.
Como se está em um Estado-nação, lavra-se escritura de que aquele andar é “legalmente” da União e você pode tão-somente usá-lo. Passam os anos e os invasores decidem que um andar é demais e reduzem novamente o espaço. Aqueles seus parentes resistentes, não amanhecem, são mortos ou transladados para lugares distantes ou largados a esmo. Do processo participam lideranças políticas, antigos invasores, seus parentes e aliados, além de um movimento articulado do colonato. Durante décadas, três governadores são aclamados e liberam o despejo violento à Brigada Militar, bugreiros e assassinos.
O Congresso Nacional acha uma demasia e abre uma CPI. Por você não ter nenhum parente na magna casa, o silêncio continua habitando a sua alma, a sua dor, indignação, e o país em que você vive permanece mudo, apenas alguns resmungos representam sua tragédia. Maculado o país com a chancela da barbárie contra a sua família, envergonhado pela cumplicidade do Estado-nação, depois de viver uma ditadura militar que o dilacera, resolve amenizar alguns problemas.
Convoca uma Constituinte e escreve uma nova Constituição. Nela, reconhece a sua tragédia, mas permite que você só pode retornar para o andar de confinamento. O restante do prédio, construído por incontáveis gerações de sua família já não lhe pertence. Os demais locais, cemitérios, lavouras, etc., você pode reivindicar apenas sob determinadas condições altamente comprobatórias. Mas como a sua família tradicional registra sua existência pelas memórias, pelos documentos materiais de seus artefatos nos territórios, sua probabilidade de sucesso é pequena. Mas você acreditou que como o país chegou ao Estado de Direito a reocupação do andar do prédio era líquido e certo. Ledo engano.
Tomemos o processo acima como chave de entendimento. Como você se sentiria? Agora pegue o seu sentimento e imagine, saia da esfera da suposição e entre no mundo real. E coloque no seu lugar um índio. Troque o prédio por um território. Substitua os apartamentos do andar de confinamento por reservas indígenas. Constate que os apartamentos ou peças perdidas neste andar são reservas usurpadas ou reduzidas. Mais surpreendentemente, parentes que acreditava exterminados emergem das matas, sobreviventes e/ou alguns de seus descendentes retornam de longínquos lugares para onde foram removidos. E imagine que você e seus parentes andam desesperadamente em busca de seu direito, já não mais com a escritura de um prédio, substituída pela de um andar. Porém os outros “condôminos” também estão com escrituras chanceladas por governantes que ilegal e unilateralmente não respeitaram as decisões legítimas do Estado, em seus níveis federal e estadual.
A única saída que você tem para não se indignar, para não vomitar de asco, é imaginar que você não é mais humano, ou você é um subumano; que você não pertence mais a civilização. Quando a alteridade deixa de fazer parte da sua vida é assim que você pensa, age e, o pior, fala, propagandeia. O mundo é você e a sua mente. Os outros não existem, ou estão em cotação condenável, regida pelos seus paradigmas. Você é o modelo para toda a terra. Dogmaticamente, o mundo é a sua perspectiva.
Conforme neurocientistas, a mente é o cérebro funcionando. No Rio Grande do Sul – e em muitas regiões do Brasil -, na questão indígena, o ódio é o combustível que move esta engrenagem. O capitalismo grileiro, produtivista e agroexportador, conquistou a mente da maioria da população. Na região colonial, norte e noroeste do estado, seu imaginário abjeto possui ainda componentes racistas. Empedrado em um conceito produtivista, aos indígenas, como sobreviventes, vítimas de etnicídios, não se atribui nenhum direito à história; agigantam-se contra eles as forças que negam-lhes a possibilidade de futuro; aos mais destroçados, impedem que possam juntar os pedaços e reinventarem-se como povos.
Tau Golin

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Dom Estanislau Kreutz

 FALECEU DOM ESTANISLAU AMADEU KREUTZ,
BISPO EMÉRITO DE SANTO ÂNGELO, AOS 86 ANOS

A Diocese de Santo Ângelo comunica com pesar o falecimento de DOM ESTANISLAU AMADEU KREUTZ, Bispo Emérito, aos 86 anos, ocorrido aos 06 de julho de 2014, às 22h20min, em sua residência.

Natural de Santo Cristo, RS, Dom Estanislau nasceu no dia 1º de julho de 1928. Estudou Filosofia e Teologia em São Leopoldo, RS, orientadas, pelos padres jesuítas.

Fez seu doutorado em teologia sistemática na Universidade de Santo Tomás, em Roma.
Foi ordenado presbítero no dia 28 de novembro de 1954. Em junho de 1972 foi nomeado bispo auxiliar de Santo Ângelo, pelo Papa Paulo VI. Recebeu a ordenação episcopal no dia 17 de setembro do mesmo ano, em Santo Cristo, sua terra natal. Em 1973 foi nomeado bispo diocesano para toda a diocese missioneira, ministério que exerceu até junho de 2004.
Seu lema “alegres na esperança” (Rom 12,12) direcionou sua vida e missão como bispo. Testemunhou a vida do evangelho na simplicidade, diálogo, prontidão e generosidade.
Louvamos a Deus pela sua abençoada existência e fecundo ministério.

Celebração de corpo presente, com atos de encomendarão, será às 15h30min, na Catedral Angelopolitana.

Dom Liro Vendelino Meurer
Bispo Angelopolitano

sexta-feira, 4 de julho de 2014

A missao hoje

A missão? É opor-se aos impérios do mundo.
A paixão missionária de Paulo é simplesmente extraordinária. Ele ficou fascinado por Cristo ressuscitado e ardia de desejo para que todos O experimentassem. É por isso que Paulo é tão duro com as suas comunidades: porque elas devem refletir Jesus com um estilo de vida alternativo ao imperial-romano. É por isso que Paulo adverte os Filipenses assim: "Ser inocentes e íntegros, como perfeitos filhos de Deus que vivem no meio de gente pecadora e corrompida, onde vocês brilham como astros no mundo, apegando-se firmemente à Palavra da vida" (2, 15). É a essa paixão missionária de Paulo que o Papa Francisco quer levar novamente a Igreja na sua exortação Evangelii gaudium.
Papa Francisco repete, sem se cansar, o convite à "saída", à "escolha missionária", ao "impulso missionário", a uma "pastoral em chave missionária" e "constituir-se em 'estado permanente de missão' em todas as regiões da terra!" (n. 25).
E repropõe, em termos modernos, a mesma paixão de Paulo pelo anúncio missionário. "Se alguma coisa deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta, e Jesus repete-nos sem cessar: 'Dai-lhes vós mesmos de comer'".
E com ainda mais calor escreve: "A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não quero me destruir. Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo" (n. 273). (...)
Tudo isso levanta perguntas enormes ao mundo missionário, que se moveu, em grande medida, a partir de 1500, à sombra dos grandes impérios ocidentais (espanhol, português, holandês, britânico e norte-americano), para desembocar no atual império das finanças. Paulo, como bom apocalíptico que era, sabia que os antigos impérios (BabilôniaPérsia e Grécia) eram "bestas" (Dn 7), e Roma, a mais horrível de todas (Ap 13).
Paulo entendera que o império era o oposto do que Jesus chama de "reino de Deus" e que Paulo chama de "justificação pela fé". Albert Schweitzer tem razão quando afirma que "a maior tragédia do cristianismo foi não entender que o reino de Deus, pregado por Jesus, é a mesma realidade que Paulo chamava de justificação pela fé".
É claro que o que Paulo anuncia e tenta realizar nas suas comunidades é o sonho de Deus, expressado tão bem porJesus: o sonho de um mundo "outro" em relação ao que temos. Basta ler os primeiros capítulos da Carta aos Romanos para nos darmos conta de que, para Paulo, há algo de profundamente equivocado, se não na natureza humana, ao menos na civilização.
Escreve Crossan: "Roma não era o império do mal da antiguidade. Roma não era a pior realidade ocorrida antes da era industrial. Roma era simplesmente a normalidade da civilização, dentro das opções do primeiro século d.C. O que os romanos eram à época, nós, norte-americanos, somos hoje. Nós somos, no início do terceiro milênio, aquilo que Roma era no início do primeiro século".
Na história humana (ao menos desses últimos 2.000 anos), existem duas falhas tectônicas que colidem: a imperial e a utópica. A falha imperial, que representa a normalidade da civilização, tem um único slogan: "Primeiro a vitória e depois a paz". A falha utópica, ao contrário, tem como lema: "Primeiro a justiça e depois a paz" ou "A paz mediante a justiça".
Hoje estamos em uma virada epocal. Se a humanidade continuar no caminho imperial dos últimos 8.000 anos, o que a espera é a morte por fome, por guerra e por sobreaquecimento do planeta. Será que o homem, hoje, é capaz de escolher a segunda opção, a utopia? (...)
Esse foi o grande desafio missionário que Paulo teve que enfrentar diante do maior império da antiguidade: Roma. E o fez fundando pequenas comunidades alternativas ao império. Hoje, o grande desafio da missão é vivido dentro do maior império da história, o império do dinheiro.
Esse desafio será vencido se a missão aprender o caminho do Jesus "kenótico", das pequenas comunidades alternativas ao Império e do compromisso com a justiça, a paz e a integridade da criação.
Pe. Alex Zanotelli

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/532915-a-missao-e-opor-se-aos-imperios-do-mundo-artigo-de-alex-zanotelli

quinta-feira, 3 de julho de 2014

14° Domingo do Tempo Comum (Ano A - 2014)

É tempo de rever nossas imagens distorcidas de Deus...

Falar de Deus é uma das atividades humanas mais apaixonantes e, ao mesmo tempo, mais perigosas, pois trata-se de dizer uma palavra sobre o mais profundo arquétipo do imaginário coletivo da humanidade. O risco de projetar em Deus nossos medos, tabus e interesses é bem real, e muito grande. É bom lembrar que toda palavra que dizemos sobre Deus permanece sempre uma palavra humana e limitada. A própria Palavra revelada é uma palavra de Deus inserida nas palavras humanas, e vem marcada por seus condicionamentos e possibilidades.
Na tradição dos hebreus, conhecer a Deus é entrar em relação com Ele, assumir Sua vontade como um projeto e um caminho para nossas decisões e ações. E isso significa romper com o estreito limite dos nossos interesses e medos e abrir-se a um horizonte no qual todas as criaturas são aceitas na sua dignidade inegociável. Dito de outra forma: conhecer Deus significa reconhecer-se filho ou filha, como alguém que não tem origem em si mesmo e na própria vontade, mas num Outro e num Além que lhe desperta e dá o ser.
Hoje temos consciência de que a imagem de um Deus violento e vingador não passa de um revestimento religioso dos infantis e imaturos medos e desejos de onipotência. Mesmo que alguns traços de um Deus violento e sanguinário estejam espalhados na própria bíblia, especialmente no Antigo Testamento, não podemos sobrepô-los aos traços mais originais que são exatamente o oposto, e são avalizados pela vida e pelo ensinamento de Jesus Cristo. O cristianismo não dá a mínima chance a uma teologia da punição e da violência.
Não consigo entender como foi possível que chegássemos a aproximar e identificar Jesus Cristo com a figura dos reis! Sua vida não mostra exatamente o contrário? Em Jesus Cristo, Deus mostra que prefere os estábulos aos palácios, as manjedouras aos tronos, a cruz à espada, a compaixão ao poder, os discípulos e discípulas aos exércitos alinhados, os pobres e doentes aos séquitos reais... E o pior é que a sede de realeza se encarna num anacrônico regime monárquico que rejeita o menor indício de democracia ou participação. Isso denota dívidas para com a carne, como diz Paulo!
Nas cenas que precedem o evangelho deste domingo, diante da pergunta dos emissários de um João Batista um pouco confuso sobre os traços do seu messianismo, Jesus responde chamando atenção para aquilo que está fazendo: cegos recuperam a vista, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortes ressuscitam e pobres recebem boas notícias. E arremata: “Feliz aquele que não se escandalizar por minha causa!” Sim, porque havia gente que tropeçava nestas ações de Jesus, por considerá-las insignificantes ou inoportunas...
E Jesus prosseguiu sublinhando a falta de adesão e de resposta das cidades de Israel ao anúncio e às ações que aproximavam o reinado de Deus em favor dos pequenos. Neste contexto, podemos entender melhor a exultação profética de Jesus ao contemplar a fé límpida e a adesão operosa dos discípulos e do povo simples. “Eu te louvo, o Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas a sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.” Eles sim entenderam que a proposta de Jesus não é pesada, nem causa de tropeço...
E Jesus termina lançando um convite: “Venham para mim todos vocês que estão cansados e eu lhes darei descanso!” O cansaço nos vem da desilusão com os grupos e partidos que, abocanhando uma fatia de poder, fazem o contrário daquilo que pregavam. Mas nosso cansaço tem também uma raíz eclesial, e vem de uma Igreja que tem medo da participação popular e receio de se encarnar nas dores e tristezas, alegrias e esperanças dos homens e mulheres de hoje. Dói demais a ferida de uma Igreja que ambiciona privilégios e ainda é submissa aos instintos egoístas...
Deus Pai e Mãe, em Jesus nos revelas que és mais misericórdia que poder e mais compaixão que lei. Dá-nos teu Espírito, para que te descubramos como um peregrino que pede um copo de água e que, por isso, não nos esmaga com o peso da lei e não nos assustas com uma verdade abstrata. Revela-nos a mansidão que suscita um empoderamento que se alimenta da compaixão e da solidariedade. Impõe sobre nós teu leve fardo, aquele que corresponde aos nossos mais profundos e humanos anseios: externar a ternura, exercitar a amizade, experimentar a partilha, treinar a gratuidade. Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf
(Zacarias 9,9-10 * Salmo 144 (145) * Carta aos Romanos 8,9-13 * Mateus 11,25-30)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um ano sem o Pe. Ceolin

Neste dia que lembra um ano da páscoa definitiva do nosso querido e saudoso Pe. Rodolpho Ceolin msf, nada melhor que dar a ela a palavra. Uma pessoa só deixa de viver e falar quando deixa de ser significativa para aqueles/as que amou...

O chamado ao discipulado

O discípulo é um chamado
Fomos e somos chamados! Este chamado é graça, dom de Deus. Ele conta com uma resposta livre da nossa parte. Ele coopera para que nossa resposta seja positiva e afirmativa. Nosso “Sim!” já está contido no bojo do chamado.
“Jesus subiu ao monte e chamou os que ele quis, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar...” (Mc 3.13-14). “Deu-lhes poder para expulsar demônios e para curar qualquer tipo de doença e enfermidade” (Mt 10,1). “Não fostes vós que me escolhestes... Fui eu que vos escolhi... Vós sois meus amigos...” (Jo 15,14-16). “Jesus foi para a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou seus discípulos, e escolheu doze entre eles...” (Lc 6,12-13).
É interessante dar atenção ao que Jesus dis logo em seguida aos seus discípulos: “Felizes de vós, os pobres, porque o Reino de Deus vos pertence!” (Lc 6,20-23). Em outras palavras: “Alegrem-se, pulem de alegria quando forem odiados, expulsos, insultados e amaldiçoados por causa de mim!”
Jesus chama tipos bem diferentes, pessoas com virtudes e defeitos. Ele tem poder de uni-los. É isso que acontece na vida religiosa e na Igreja, de forma que proclamamos na missa: “Bendito seja Deus que nos re-uniu no amor de Cristo!... O amor de Cristo nos uniu!”
Por que ele nos chama? Porque nos ama! Na origem da vocação existe um mistério de amor. Jesus rezou uma noite inteira antes de chamar os discípulos!...
Um encontro pessoal
Jesus acredita naqueles que ele chama. Na vocação há sempre um encontro e a oferta da sua amizade. Mas permanecemos discípulos, e nunca podemos pensar que somos mestres. Ser discípulo não é um rebaixamento, mas um sinal de que somos amados, escolhidos, amigos, confidentes do Mestre.
A lição fundamental do discipulado não vem dos livros que devoramos, não é um aprendizado teórico. Como ser discípulo nós o aprendemos da pessoa de Jesus, no encontro vivo com ele. Quem é ele? Como ele vive, como reza, como trabalha, como se relaciona? Qual é seu projeto? Ser discípulo é formar Jesus Cristo em nós e formá-lo nos outros.
Amigos de Jesus e cooperadores na sua missão
O discípulo é uma pessoa chamada a viver em comunhão com a pessoa e a missão de Jesus. Ele não veio fundar uma empresa, uma sociedade anônima ou limitada, mas congregar pessoas em torno dele, uma comunidade de vivência de amor com ele e com os outros.
Quem chegou a fazer a experiência do amor de Cristo, quem nele fixou seu olhar e seu coração, quem foi por ele tocado, não o abandonará tão facilmente. E, se o fizer, acabará voltando, como Pedro...
Para dar testemunho do Senhor e seu Reino
A experiência do encontro pessoal com Jesus pede para ser partilhada com os demais. É uma experiência tão forte que que se torna inesquecível. Os primeiros discípulos jamais esqueceram a hora e o lugar onde encontraram Jesus (cf. Jo 1,35-52)!
Trilhando os caminhos da fidelidade, permanescendo aprendiz do mestre; sendo sempre mais pobre, humilde e criança; amando, perdoando o servindo com gratuidade; sendo solidário com todos, mormente com aqueles que são mais próximos, o discípulo acaba se tornando uma testemunha.
Depois de encontrar Jesus à beira do poço, a mulher da Samaria corre a anunciar à cidade e aos campos: “Vi um homem que disse tudo o que sou...” E André e o companheiro anônimo, depois de terem ido e visto onde ele morava: “Encontramos o Messias!” Madalena, depois de encontrar Jesus ressuscitado, no jardim: “Gente, Jesus está vivo!” Zaqueu, depois daquele memorável encontro na rua e de receber Jesus em sua casa: “Vou dar metade dos meus bens aos pobres...”
Num amor maior, experienciado profundamente e vivido no dia-a-dia, o religioso ou padre encontra a alegria e a força para ser fiel até o fim; dua vida se torna testemunho eloquente e fala mais alto e mais convincentemente que mil homilias; a vida religiosa deixa de ser um peso; os votos deixam de ser uma renúncia, uma perda ou uma frustração.
Se somos tristes é porque não ainda somos inteiramente de Jesus...
Pe. Rodolpho Ceolin msf


(Anotações manuscritas que fazem parte da primeira meditação de um retiro, sem data).

terça-feira, 1 de julho de 2014

Memórias do Pe. Ceolin

Amanhã completaremos um ano sem a presença física de um grande amigo, que permaneceu sempre corajosamente menino. É tempo de recrdálo e celebrá-lo...
Um homem corajoso que nunca deixou de ser menino.
Em nossas vidas há um ininterrupto ir e vir de pessoas. Algumas passam rapidamente, outras permanecem por períodos, mais ou menos curtos, dependendo de como as relações se estabelecem e serão mais ou menos duradouras de acordo com os interesses que em comum houver.
Pessoas que se revelam mais, com transparência e coerência em seus atos, e atitudes que criam entre si um elo invisível porém insinuante, mas que faz toda a diferença na relação.
Pe. Ceolin foi alguém que entrou em nossas vidas, se estabeleceu e permaneceu. Transparente e coerente, se insinuou fazendo a diferença: nos fez um bem enorme.
Gostávamos muito de conversar com Pe. Ceolin. Tinha muito forte as referências familiares, o que o tornava um dos nossos, pais e mães, vivendo as alegrias e as angústias que vivem as famílias às voltas com a educação de seus filhos e filhas. Então, os “causos de família” rolavam, e ele sempre tinha uma história para contar; suas peraltices de criança, cuja memória provocava um riso comedido em seu semblante sereno.
Rodolfinho era como sua mãe o chamava. Rodolfo me faz pensar num adulto, não combina com uma criança. Agora Rodolfinho sim. E sua mãe, sabiamente, assim o tratava, revelando a criança que era.
Esse homem, já nos seus setenta, oitenta anos, relembrando fatos vividos na infância, trazia à tona toda sua humanidade. E isso não afetava sua autoridade eclesiástica; já fora coordenador provincial de sua congregação e de tantas comunidades sob a responsabilidade dos Missionários da Sagrada Família, mas era um dos nossos.
O ser humano sempre se sobressaía ante o ordenado que ali estava. E isso fazia muito bem, deixando-nos à vontade para externar nossas dúvidas, nossas inseguranças, nossas fraquezas.
No entanto, nunca o vimos vacilar quando a situação exigia dele um posicionamento. O “projeto de Deus” era o seu norte, e seu caminhar era nessa direção, custasse o que fosse. Era corajoso..., mas essa lição, ainda não aprendemos. Ficou a nos dever isso... porém, as muitas lições que tivemos dele o fizeram inesquecível, sua lembrança nos faz companhia ainda hoje.

Marly L. Marchetti