sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Matar para se apropriar

NÃO CALAR A VOZ DOS PROFETAS

Quando, no ano 70 da era cristã, as tropas romanas destruíram Jerusalém e o povo judeu desapareceu como nação, os cristãos fizeram uma leitura terrível desse trágico acontecimento. Israel, esse povo tão amado por Deus, não soube responder aos seus apelos. Os seus dirigentes religiosos foram matando os profetas enviados por Ele; por fim, crucificaram o seu próprio Filho. Agora, Deus abandona-os e permite a sua destruição: Israel será substituído pela Igreja cristã.

Assim liam os primeiros cristãos a parábola dos lavradores homicidas, dirigida por Jesus aos sumos sacerdotes de Israel. Os lavradores encarregados de cuidar da «vinha do Senhor» vão matando, um após outro, os servos que Ele lhes envia para recolher os frutos. Por fim, matam também o filho do proprietário, com a intenção de eliminar o herdeiro e ficar com a vinha. O senhor não pode fazer outra coisa senão puni-los e entregar a sua vinha a outros lavradores mais fiéis.

Esta parábola não foi recolhida pelos evangelistas para alimentar o orgulho da Igreja, novo Israel, face ao povo judeu, derrotado por Roma e disperso pelo mundo. A preocupação era outra: poderá acontecer à Igreja cristã o mesmo que aconteceu ao antigo Israel? Poderá ela frustrar as expectativas de Deus? E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, que caminhos seguirá Deus para realizar os seus planos de salvação?

O perigo é sempre o mesmo. Israel sentia-se seguro: tinha as Escrituras Sagradas; possuía o templo; celebrava-se escrupulosamente o culto; pregava-se a Lei; defendia-se as instituições. Não parecia necessário nada novo. Bastava conservar tudo em ordem. É o mais perigoso que pode acontecer a uma religião: que se sufoque a voz dos profetas e que os sacerdotes, sentindo-se donos da «vinha do Senhor», queiram administrá-la como propriedade sua.

É também o nosso perigo. Pensar que a fidelidade da Igreja está garantida por pertencer à Nova Aliança. Sentir-nos seguros por termos Cristo como propriedade. No entanto, Deus não é propriedade de ninguém. A sua vinha pertence apenas a Ele. E se a Igreja não produzir os frutos que Ele espera, Deus continuará a abrir novos caminhos de salvação.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez

Os mistérios do Reino de Deus

O mistério do Reino é compreensível aos pobres

1223 | Tempo Comum | 27ª Semana | Sábado | Lucas 10,17-24

Ao enviar os 72 discípulos para uma espécie de “estágio missionário”, Jesus insiste sobre o despojamento e a confiança, e também fala claramente que a rejeição e a perseguição estão na agenda dos seus enviados. Mas eles voltam e contam entusiasmados o sucesso daquela pequena aventura missionária e mostram-se deslumbrados com o poder que pensam ter sobre os espíritos maus.

Jesus joga “um balde de água fria” no fogo desse entusiasmo e desloca o foco dos motivos de alegria dos aprendizes de missionários. A derrota dos espíritos maus é relevante, pois significa o bloqueio e a anulação da resistência contra o Reino de Deus. A missão dos discípulos faz parte da derrota do mal e do resgate da justiça. Quando Jesus diz que viu Satanás caindo, assinala claramente o fim do poder que ele tem sobre as pessoas e organizações e estruturas sociais.

Entretanto, para Jesus, a alegria dos seus discípulos missionários não deve estar nos fatos grandiosos e empolgantes que realizam, nas experiências de poder que fazem, mas no serviço eficaz ao Reino de Deus, na experiência de serem servidores e enviados dele, de serem mediadores da ação libertadora de Deus em favor dos oprimidos. Esta alegria claramente não vem do prestígio nem dos privilégios, mas da participação eficaz e generosa na missão de Jesus.

Depois de mais esta lição na escola de formação dos seus discípulos missionários, Jesus irrompe numa oração de júbilo e gratidão, na qual convida seus enviados a perceberem que eles fazem parte do coração ou do vértice da história da salvação: através deles se realiza aquilo que tantos crentes esperaram. Na inacreditável força da fraqueza está o coração da revelação cristã! Apesar da prepotência dos grandes, e por causa da fraqueza dos pequenos, o Reino de Deus vai abrindo caminho.

Jesus louva o Pai por dois motivos: porque Deus se revela aos pequenos e humildes, e mostra sua força exatamente na fraqueza deles; porque ele se esconde daqueles que se consideram sábios e entendidos, e não conta com eles como seus mediadores prioritários. Como Jesus está longe de tantos que hoje se apresentam como seus enviados, e gostam de contabilizar moedas, poderes e milagres...

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente os versículos deste trecho do evangelho, perceba o entusiasmo infantil dos “estagiários na missão”

Acolha com atenção de um discípulo a lição de Jesus sobre a verdadeira alegria, e procure vê-la estampada na vida e no rosto de São Francisco de Assis

Você já sentiu entusiasmo diante do sucesso pastoral, imaginando que isso era unicamente mérito seu?

Como ajudar os evangelizadores a superar a tentação de valorizar apenas os grandes acontecimentos e os “evangelizadores” que fazem sucesso e tem poder?

Vamos às urnas

A quem confiarei meu voto no próximo domingo?

Não é de hoje que a relação entre religião e política vem ocupando a reflexão dos cientistas sociais. No passado, essa relação se expressava em termos institucionais, mediante a declaração de um estado confessional, assentada na constituição, ou através de relações oficiais entre as autoridades do Estado e os legítimos representantes de uma religião ou Igreja. Em geral, era uma relação tranquila, embora não respeitasse as minorias religiosas.

A novidade recente, particularmente no Brasil, é uma espécie de captura da religião pelos interesses políticos e mercadológicos, e a entrada interesseira de várias Igrejas nas disputas políticas e no campo das atividades comerciais e financeiras. A partir da década de 1980, a pastoral social ensinou que “tudo é político” sem esquecer que “a política não é tudo”. Hoje se diz ou se pressupõe que “tudo é negócio”, inclusive a política e a religião.

Esta captura da religião e da política pelos interesses econômicos, no horizonte de uma ideologia liberal, conservadora e autoritária, acaba gerando desvios e confusões como os que estamos vivendo nas últimas semanas. Ao invés de discutir projetos de educação, de convivência e de desenvolvimento econômico e político, o povo brasileiro vê-se enredado em discussões de temas morais e religiosos de reduzida importância na vida da nação.

O que devemos escolher no próximo domingo não é a padroeira do Brasil, ou se é oportuno ou não consagrar o Brasil a Jesus Cristo. Escolheremos pessoas e partidos que ajudarão ou impedirão o desenvolvimento nacional, a autonomia das organizações civis e populares e a integração soberana do Brasil no concerto das nações. Sem menosprezar nenhum movimento político, nisso os dois agrupamentos majoritários seguem direções opostas.

Diversamente de algumas Igrejas, a Igreja católica não impõe nem indica aos seus fiéis partidos ou candidatos, nem pretende assegurar vantagens institucionais nos parlamentos e governos. Ela oferece critérios para que os fiéis decidam e votem: a busca do bem comum; a defesa dos direitos humanos, da democracia e da soberania nacional; o cuidado da casa comum; a primazia incondicional dos pobres e vulneráveis e a dignidade da vida de todos.

Há quem veja nestes critérios alinhamento com partidos, candidatos e movimentos de esquerda, e isso seria inaceitável para um cristão católico. Mas eu pergunto: é aceitável que um católico escolha, por amizade, conveniência ou descaso, candidatos e partidos que pleiteiam unicamente interesses privados, combatam os direitos humanos, relativizem a democracia e a soberania do país, promovam ou tolerem a destruição do meio ambiente, submetam tudo aos interesses dos ricos e relativizem a dignidade inviolável do ser humano?

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Nossa "guarda de honra"

Nenhum pequeno ou vulnerável é esquecido

1222 | Memória dos Santos Anjos da Guarda | Mateus 18,1-10

No capítulo 18 a 20 do seu evangelho, Mateus nos oferece diversas catequeses dedicadas por Jesus aos seus discípulos, no caminho para Jerusalém. São orientações fundamentais para que a comunidade cristã viva um estilo de vida alternativo e profético, testemunhando assim a força transformadora do Evangelho. E isso é importante, pois não basta anunciar o Reino de Deus; é preciso antecipá-lo.

A tentação do elitismo e do autoritarismo rondam a comunidade dos discípulos de Jesus desde sempre. A pergunta sobre quem é o maior no Reino de Deus o demonstra, e a resposta de Jesus quer cortá-la pela raiz. Para ilustrar a virada radical do Reino, Jesus ilustra seu ensino tomando a figura da criança como símbolo. Na festa de hoje, é importante prestar atenção na relação dos anjos com as crianças. Eles aparecem como cuidadores, protetores e defensores das criaturas mais frágeis.

Aqui, a criança não aponta para a inocência, tão ao gosto da modernidade burguesa, mas para sua condição social de fragilidade, insignificância e marginalidade. Para Jesus, elas são o retrato perfeito da comunidade cristã, que nasce para viver nas margens e ensaiar uma vida alternativa ao judaísmo e ao império romano. E a ideia do anjo da guarda vem, de alguma forma, confirmar o cuidado de Deus por ela. Ele nos envia como anjos para ir à frente e guardar as pessoas vulneráveis.

Esse estilo de vida é contracorrente, precisa ser aprendido e exercitado, pois é exigente. Como as crianças, os discípulos de Jesus são preciosos aos seus olhos, são importantes por serem pequenos, e os cristãos têm o dever de protege-los. O próprio Deus toma conta dos seus pequenos, como nos atesta a figura do Anjo da Guarda. E essa atitude misericordiosa de Deus compromete os discípulos de Jesus, e a própria Igreja que nasce do seu lado aberto, a fazer o mesmo, em nome dele.

O Pai não quer que nenhum deles se perca, e a comunidade deve assumir esse cuidado em nome de Deus. Por sua vez, os discípulos devem confiar totalmente na acolhida que o Pai suscita nas pessoas e povos aos quais forem enviados. Não somos grandes ou importantes pela origem, pela riqueza, pela educação, pela profissão, função ou pelo poder que exercemos, mas porque somos filhos amados do Pai e portadores do tesouro do Reino.

 

Sugestões para a meditação

Que papel você atribui aos anjos no seguimento de Jesus Cristo e na construção do seu Reino, e o que você pede ou espera deles?

O que significa crer que Jesus é o “anjo” de Deus, o espaço e o lugar humano no qual Deus habita e se comunica de modo pleno e permanente com a Humanidade?

Como viver o encontro com Jesus e seu Evangelho como um caminho para superar nossas visões limitadas de Deus?

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Missionários da paz desarmada e desarmante

Anunciem e promovam a paz sem olhar para trás!

1221 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quinta | Lucas 10,1-12

O texto do evangelho hoje, sugerido para a memória de Santa Teresinha do Menino Jesus vem a calhar para o início do mês missionário. Jesus envia um grupo de 72 discípulos para o precederem em todos os lugares para onde ele iria mais tarde, e para antecipar sua missão. Eles não são apenas uma espécie de “batedores”, que anunciam e abrem alas para a chegada do personagem esperado, mas verdadeiros protagonistas da missão, como Jesus e como o grupo dos 12 apóstolos.

Este grupo ampliado de discípulos missionários não substitui, nem simplesmente suplementa, o que os Doze Apóstolos não conseguem fazer. É um envio estável, paralelo e complementar ao grupo dos Doze, com uma missão específica e duradoura. Enquanto os Doze apóstolos são enviados prioritariamente aos judeus, este novo coletivo de discípulos missionários é enviado a todos os povos!

A imagem da colheita – quando chega seu tempo, não se pode demorar ou postergar o trabalho! – sublinha a urgência dessa missão. O conteúdo do anúncio não poderia ser mais claro: “O Reino de Deus está próximo de vocês!” E este anúncio é para todos os povos, e não apenas para os judeus e as pessoas justas. E é boa notícia, sem pedágio, para quem, por alguma razão, é menosprezado ou marginalizado!

Como a colheita, essa missão, que convoca e envia muitos, é real, concreta e necessária. Trata-se de anunciar a Boa Notícia do Reino de Deus e de libertar ou reabilitar as pessoas. Dizer “paz a esta casa” não é saudação protocolar ou palavra vazia, mas convite eficaz à felicidade e à alegria já no presente, fruto do reinado de Deus em ação. É bem mais que desejar “a paz de Jesus”. Esta paz compartilhada, testemunhada e anunciada pode levar alguns a perder a paz. Trata-se de uma paz desarmada, sem ameaça, e desarmante, como diz o Papa Leão XIV.

Jesus apresenta também uma espécie de cartilha para orientar a ação missionária. A rejeição e a perseguição dão o tom da missão, e estarão sempre na sua agenda; a imagem do cordeio no meio dos lobos deixa isso claro! Os enviados devem partir desarmados e expostos, confiando unicamente em Deus e nos interlocutores. A casa (e não o templo!) é o ponto de apoio da missão, e a pobreza de recursos não é uma dificuldade, mas a garantia da autenticidade do anúncio.

 

Sugestões para a meditação

Releia atentamente o texto, tendo diante dos olhos a missão que você desenvolve na Igreja e na sociedade

Que palavras ou afirmações iluminam e questionam mais fortemente sua missão e a missão da Igreja?

Santa Teresinha desejava viver todas as vocações na Igreja, mas descobriu que vivendo o amor faria tudo... O que isso nos ensina e nos provoca hoje?

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Para seguir Jesus

O seguimento de Jesus deve ser livre e radical

1220 | Tempo Comum | 27ª Semana | Quarta | Lucas 9,57-62

A caminho rumo de Jerusalém, onde se daria um confronto decisivo com as autoridades religiosas, Jesus e seus discípulos não haviam sido bem acolhidos por cidadãos de uma vila da Samaria (cf. 9,51-56). Chateados, os discípulos pensam em retaliação, mas Jesus simplesmente procura outro povoado. Pouco a pouco, os discípulos percebem as exigências e consequências de seguir alguém como Jesus.

Neste contexto, o evangelista apresenta três situações típicas de pessoas que se apresentam como candidatas ao seguimento de Jesus, três diferentes experiências de encontro com ele. Um discípulo deve sempre saber que seguir um mestre significa compartilhar seu estilo de vida, seu sonho e seu destino. E Jesus é figura do profeta incômodo, e vive uma vida de refugiado, itinerante, sem alianças que possam-no proteger. E ele faz questão de deixar isso bem claro.

O primeiro exemplo típico de discípulo que Lucas nos apresenta é o de uma pessoa que parece ter tomado a decisão de seguir Jesus sem avaliar profundamente e sem pensar muito nas consequências. A ele, Jesus lembra que a disponibilidade para seguir seus passos supõe plena consciência e compromisso irrenunciável de partilhar o destino de uma pessoa perseguida, sem nenhuma proteção ou promessa de comodidade ou sucesso. “Sem eira nem beira”, diz-se em português.

O segundo exemplo é o de um discípulo que, tendo sido chamado por Jesus, não percebe a necessidade de ruptura radical com alguns costumes, e quer adiar a resposta para quando tiver cumprido suas obrigações familiares. No terceiro exemplo temos um discípulo que parece ceder à nostalgia, à dúvida e à incerteza. Quem quer ser discípulo de Jesus precisa morar no futuro, não no passado; buscar a novidade, não o que sempre foi; olhar para a frente, não para trás.

Nas condições interpostas por Jesus a estes três tipos de candidatos a discípulo temos o estatuto do discípulo consciente e maduro. Tendo descoberto o tesouro do Reino de Deus, o discípulo deixa tudo para viver novas relações e anunciar essa boa notícia sempre e em todo lugar. O Reino de Deus é o projeto de Jesus, mas não há muito sentido em apostar a vida num projeto. É o encontro e a relação com ele que dão sentido a uma decisão que compromete e muda a vida.

 

Sugestões para a meditação

Que tipo de vínculos, apegos e medos limitam sua entrega incondicional à vida nova inaugurada por Jesus e o Reino? O que Jesus diria sobre eles?

Que iniciativas e passos você poderia dar para se tornar um discípulo cada vez mais maduro e generoso de Jesus?

O que poderíamos fazer para que nossas comunidades não se contentam em ser cumpridoras de preceitos e possam romper com práticas que dificultam o Reino?

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Festa dos Arcanjos

Os Anjos simbolizam a proximidade de Deus

1219 | Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel | João 1,47-51

Celebramos hoje a festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Segundo a doutrina católica, os anjos e arcanjos são servidores e comunicadores de Deus. Santo Agostinho nos ensina que o substantivo “anjo” designa mais uma tarefa ou uma missão do que um ser ou uma natureza. Na liturgia eles estão juntos, têm tarefas complementares e não tem o protagonismo que algumas devoções atuais veiculam.

Na língua hebraica, o substantivo mal’ak (que traduzimos por anjo) designa o mensageiro de Javé, uma entidade que fala e age em seu nome. Mas as escrituras não distinguem claramente esse mensageiro do próprio Javé. A bíblia oscila entre a ideia de anjo como personalização da presença e da ação divina e como um ser autônomo. Em todos os casos, mesmo fazendo parte da doutrina da Igreja católica, os anjos e arcanjos não fazem parte da nossa profissão de fé (Credo Apostólico).

A cena e a Palavra do evangelho hoje estão no contexto do encontro de Jesus com os primeiros discípulos. Natanael, membro típico do povo de Israel, experimenta a escolhida e o amor de Jesus, apesar de sua ideologia milenarista. Sua profissão de fé e sua adesão a Jesus estão no horizonte da fé nacionalista do seu povo, e oferece o contexto adequado para a primeira autodeclararão de Jesus.

Apresentando-se como templo, casa ou comunicação de Deus com a humanidade, Jesus nos reporta à imagem da escada que Jacó viu em sonho, uma escada que ligava a terra ao céu (cf. Gn 28,11-17) e que o levou a reconhecer a presença de Javé naquele lugar aparentemente vazio de Deus. Recorrendo a essa passagem, Jesus fala de si como o Anjo do Pai, como o “lugar” ou a mediação da presença divina, como comunicação ou a relação permanente de Deus com a humanidade.

Acenando à imagem dos anjos que descem e sobem sobre o “Filho do Homem”, Jesus dá a entender que nele habita a glória ou o amor cuidadoso e fiel de Deus, e se apresenta como acesso contínuo e permanente a Deus. Jesus não está interessado em provar a existência de anjos, mas em mostrar que ele é essa presença e cuidado que os anjos querem significar. Nele encontramos Deus e Deus vem até nós.

 

Sugestões para a meditação

Que papel você atribui aos anjos no seguimento de Jesus Cristo e na construção do seu Reino, e o que você pede ou espera deles?

O que significa para nós hoje crer que Jesus é o “anjo” de Deus, o humano no qual Deus habita e se comunica de modo pleno e permanente com a Humanidade?

Como viver o encontro com Jesus e seu Evangelho como um caminho para superar nossas visões limitadas de Deus?

Que iniciativas poderíamos tomar para “preparar espaços para Jesus”, mas sem afastá-lo do caminho que o leva à Cruz?

Nós X Eles

Todos os que fazem o bem estão com Deus

1218 | Tempo Comum | Semana XXVI | Segunda | Lucas 9,46-50

Os discípulos enfrentam uma terrível dificuldade de entender e aceitar o caminho de despojamento e compaixão pelo qual Jesus vai realizando sua missão, e que serve de critério e paradigma para a missão futura deles mesmos. Enquanto Jesus sublinha essa “opção não opcional” e se empenha em corrigir as posturas equivocadas dos discípulos, eles gastam preciosas energias discutindo quem deles é o maior.

Isso está estampado no rosto deles, e Jesus não precisa que ninguém o informe o que está acontecendo. Para Jesus, o bom, o melhor entre os humanos é o que se faz igual a todos. Para ele, todas as pessoas têm dignidade e são acolhidas por Deus, inclusive prostitutas e outras pessoas tratadas publicamente como pecadoras. Sendo assim, não há motivo para competições e ciúmes destruidores.

Jesus oferece esta importante lição a seus discípulos recorrendo a duas linguagens: um gesto e uma afirmação fundamental. Primeiro, chama uma criança (sujeito social insignificante e desprezado) para junto de si (lugar cobiçado por aqueles que se consideravam mais importantes). Depois, declara que ele mesmo é igual a esta criança desprezada, e afirma que aquele que faz algo de bom a ela, o faz a Jesus, pois o menor é que deve vir primeiro lugar. Para Jesus, grandes são os pequenos, e aqueles que os acolhem, defendem e se colocam a serviço deles.

Até aqui, Jesus está tratando das relações internas da comunidade, pedindo que seus discípulos e discípulas se relacionem como Jesus se relaciona com cada um deles. Mas, em seguida, Jesus passa à relação entre aqueles que o seguem e fazem parte do grupo definido de discípulos e outras pessoas que o seguem de modo diferente, mas prolongam no mundo a compaixão que ele praticou e pediu.

Como vimos em vários outros textos que já refletimos, os discípulos querem proibir que pessoas que não estão com eles façam o bem em nome de Jesus. Pensam que somente eles podem agir em nome de Jesus. Mas Jesus não pensa assim, e diz um “Não!” claro e contundente à tentação do elitismo e da competição. Quem não está contra os discípulos missionários de Jesus, está a favor do reino de Deus. Todas as pessoas que agem com justiça e equidade pertencem ao Povo de Deus.

 

Sugestões para a meditação

Como você se sente e que desejos movem você na atuação como liderança da comunidade eclesial?

Como você vê, trata e fala dos cristãos que pertencem a outras igrejas e pregam e agem em nome de Jesus e seu Evangelho?

Qual o sentido atual das afirmações “aquele que entre vocês é o menor, este é o maior” e “quem não está contra vocês, está a favor”?

Que iniciativas poderíamos tomar para “preparar espaços para Jesus”, mas sem afastá-lo do caminho que o leva à Cruz?

sábado, 26 de setembro de 2026

Sim ou não?

Que nossa fé seja firme, duradoura e amorosa

1217 | Tempo Comum | Semana XXVI | Domingo | Mateus 21,28-32

Jesus está em Jerusalém, no espaço do templo, e discute enfaticamente com a elite religiosa e social (chefes dos sacerdotes e anciãos). Esta é a primeira de três parábolas que Jesus dirige à elite religiosa que o persegue, nas imediações do templo, destino de todas as romarias populares, em Jerusalém. Ele começa com uma pergunta, convocando os interlocutores a tomarem posição, e é Jesus mesmo quem propõe uma interpretação da parábola.

A ênfase da parábola está claramente colocada na figura do pai e na prática concreta da sua vontade. Os dois filhos mencionados na parábola são personagens que correspondem, por um lado, aos pecadores, que aceitam a pregação de João Batista e de Jesus e se tornam discípulos, e, por outro lado, à elite religiosa, que se fecha tanto a João como a Jesus. Ambos são chamados a trabalhar na vinha. Um se nega, mas depois vai; o outro responde sim, e depois não faz nada.

A interpretação de Jesus não deixa dúvidas. Convocados a emitir um juízo sobre a atitude contrastante dos personagens, os sacerdotes e anciãos se autocondenam. A sentença de Jesus é clara e provocadora: os cobradores de impostos e as prostitutas (dois grupos sociais catalogados pelos judeus piedosos entre os piores pecadores) precedem (no presente!) a elite religiosa no Reino de Deus, porque aceitaram o caminho da justiça e da conversão pregado por João. A elite, em vez disso, não acreditou em João, e, nem mesmo vendo o testemunho deles, mudou de atitude.

Nossa adesão à vontade do Pai deve ser firme e duradoura, e precisa ser demonstrada em ações concretas. Trata-se de um “caminho de justiça”, ou seja, de ação coerente com a pauta de justiça, solidariedade e transformação do Reino de Deus. E jamais podemos esquecer que a lógica de Deus não coincide necessariamente com a nossa. Os pensamentos de Deus costumam não coincidir com os nossos, dizem os profetas.

Como no texto que refletimos no último domingo, a ação de Deus em relação ao ser humano não se orienta pelo mérito, mas pela necessidade. Ele não dá a cada pessoa aquilo que ela merece, mas aquilo que ela necessita. A prática e o anúncio de Jesus questionam de forma radical a ideologia da meritocracia, que atribui o sucesso econômico unicamente ao mérito individual e cobre as vítimas e vulneráveis com os andrajos da incompetência e da culpa.

 

Sugestões para a meditação

Retome a cena e as orientações de Jesus no evangelho de hoje, com a avalanche de pregadores e fiéis que tem fome e sede de prosperidade, e não de justiça

Deixe-se surpreender pelo encontro com Jesus e com seu ensino e sabedoria, abandonando as expectativas de coisas grandes

Como você acolhe o caminho de despojamento solidário em favor da humanidade que Jesus viveu e nos propõe?

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Primeiros e últimos

PARA JESUS, OS ÚLTIMOS SÃO OS PRIMEIROS

Jesus conheceu uma sociedade dividida por barreiras de separação e atravessada por complexas discriminações. Nela encontramos judeus que podem entrar no templo e pagãos excluídos do culto; pessoas puras com quem se pode conviver e pessoas impuras que se devem evitar; próximos que se devem amar e não-próximos que se podem abandonar; homens piedosos observantes da lei e gente maldita que nem conhece nem cumpre o que é prescrito; pessoas sãs abençoadas por Deus e doentes malditos que não têm acesso ao templo; pessoas justas e homens e pessoas pecadoras.

A atuação de Jesus nesta sociedade é tão surpreendente que ainda hoje resistimos a aceitá-la. Não adota a postura dos grupos fariseus, que evitam todo contato com impuros e pecadores. Não segue a atitude elitista de Qumran, onde se redigem listas precisas dos que ficam excluídos da comunidade.

Jesus aproxima-se precisamente dos mais discriminados. Senta-se à mesa com publicanos. Deixa-se beijar os pés por uma pecadora. Toca com a mão os leprosos. Procura salvar «o que está perdido». A população chama-lhe «amigo dos pecadores». Com insistência provocadora, repete que «os últimos serão os primeiros», e que os publicanos e as prostitutas vão à frente dos escribas e sacerdotes no caminho do reino de Deus.

Quem suspeita hoje, de verdade, que os alcoólicos, vagabundos, mendigos e todos os que formam o refugo da sociedade podem ser, diante de Deus, os primeiros? Quem se atreve a pensar que as prostitutas, os toxicodependentes ou os afetados pela sida podem preceder muitos eclesiásticos de vida irrepreensível?

No entanto, mesmo que já quase ninguém lhes diga, vocês, os indesejados e anatematizados, devem saber que o Deus revelado em Jesus Cristo continua realmente a ser amigo de vocês. Vocês podem compreender e acolher o perdão de Deus melhor do que muitos cristãos que não sentem necessidade de se arrepender de nada.

Quando nós evitamos vocês, Deus aproxima-se de vocês. Quando os humilhamos, Ele os defende. Quando os desprezamos, Ele os acolhe. No mais escuro da vossa noite, vocês não estão sós. No mais profundo da humilhação, vocês não estão abandonados. Não há lugar para vocês na nossa sociedade nem no nosso coração. Por isso mesmo, vocês têm um lugar privilegiado no coração de Deus.

José Antônio Pagola

Tradução de Antônio Manuel Álvarez Perez